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GOTAS DE REFLEXÃO - EVANGELHO DOMINICAL

Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) do Padre Ignácio - dos Padres Escolápios (extraído do site Presbíteros.com)
. Evangelho de 01/11/2009 - Solenidade de Todos os Santos
. Evangelho de 25/10/2009 - 30º Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 27/09/2009 - 26º Domingo do Tempo Comum


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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01.11.2009
Solenidade de Todos os Santos - Ano B - Verde

__ “Jesus, dai-nos a graça de estar entre os Bem-Aventurados!” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Na vida eterna, contemplaremos com os olhos da inteligência a glória de Deus, de todos os anjos e de todos os santos, assim como a recompensa e a glória de cada um em particular, das maneiras que quisermos. No último dia, no julgamento de Deus, quando pelo poder de Nosso Senhor ressuscitarmos com os nossos corpos gloriosos, esses corpos estarão resplandecentes como a neve, serão mais brilhantes do que o sol, transparentes como cristal. Cristo, nosso Senhor e mestre, cantará com a Sua voz triunfante e doce um cântico eterno, elogio e honra a Seu Pai celeste. Todos nós entoaremos esse cântico, com espírito alegre e voz clara, eternamente, para todo o sempre. A glória da nossa alma e a sua felicidade refletir-se-ão nos nossos sentidos e atravessar-nos-ão os membros; contemplar-nos-emos mutuamente com nossos olhos glorificados; escutaremos, diremos, cantaremos esse elogio de Nosso Senhor com vozes que nunca desfalecerão.

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

SALMO RESPONSORIAL Sl 23: - "É assim a geração dos que procuram o Senhor!"

SEGUNDA LEITURA (1Jo 3,1-3): - "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus!"

EVANGELHO (Mt 5,1-12a): - "Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus!"



- "Com todos os santos"
    (Comentário ao Evangelho do dia feito por Beato Jan van Ruusbroec (1293-1381), cónego regular Os Sete Graus do Amor)
    
(cf. com a trad. de Louf, Bellefontaine 1990, p. 217 - Colaboração Especial de Jorge Roberto Valim)

Na vida eterna, contemplaremos com os olhos da inteligência a glória de Deus, de todos os anjos e de todos os santos, assim como a recompensa e a glória de cada um em particular, das maneiras que quisermos. No último dia, no julgamento de Deus, quando pelo poder de Nosso Senhor ressuscitarmos com os nossos corpos gloriosos, esses corpos estarão resplandecentes como a neve, serão mais brilhantes do que o sol, transparentes como cristal.

Cristo, nosso chantre e mestre de coro, cantará com a Sua voz triunfante e doce um cântico eterno, elogio e honra a Seu Pai celeste. Todos nós entoaremos esse cântico, com espírito alegre e voz clara, eternamente, para todo o sempre. A glória da nossa alma e a sua felicidade reflectir-se-ão nos nossos sentidos e atravessar-nos-ão os membros; contemplar-nos-emos mutuamente com nossos olhos glorificados; escutaremos, diremos, cantaremos esse elogio de Nosso Senhor com vozes que nunca desfalecerão.

Cristo servir-nos-á; mostrar-nos-á a Sua face luminosa e o Seu corpo com as marcas da fidelidade e do amor. Veremos também em todos os corpos gloriosos as marcas desse amor com que serviram a Deus desde o princípio do mundo. Os corações vivos embrasar-se-ão de um amor ardente por Deus e por todos os santos.

Cristo, na Sua natureza humana, dirigirá o coro da direita, porque essa natureza foi o que Deus fez de mais nobre e sublime. A esse coro pertencem todos aqueles em que Ele vive, e que n'Ele vivem. O outro coro é o dos anjos; ainda que pela sua natureza estes sejam seres mais elevados, nós, os homens, recebemos mais de Jesus Cristo, com Quem somos um. Ele será, no meio do coro dos anjos e dos homens, o supremo pontífice, diante do trono da soberana majestade de Deus. E, diante de Seu Pai celeste, Deus todo-poderoso, oferecerá e renovará todas as oferendas que Lhe forem apresentadas pelos anjos e pelos homens; e estas renovar-se-ão ininterruptamente, e para sempre se manterão na glória de Deus.


- "Santidade é felicidade"
    (Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa - Extraído do site Presbíteros)

Recordo ter lido na obra de algum santo a seguinte frase que ainda hoje guardo na lembrança: “se você quiser ser feliz, seja santo; se quiser ser mais feliz, seja mais santo; se quiser ser muito feliz, seja muito santo!” O segredo da felicidade é, sem dúvida, a santidade, o desejo sincero e a luta diária por agradar a Deus. De fato, em grego “bem-aventurado” se traduz por “makários” que também pode significar “feliz”. O santo é necessariamente feliz, nesta terra com tribulações; no céu, sem elas. Felicidade e santidade vão sempre de mãos dadas. É inevitável! Como não estar feliz junto de Deus?

A Igreja, ao celebrar hoje a solenidade de todos os santos, celebra também a santidade daqueles que não foram canonizados, ou seja, daqueles cuja santidade não foi reconhecida publicamente pela mesma Igreja, celebra todos os santos.

Só Deus é santo! Os santos participam da santidade de Deus. A santidade é, portanto, uma obra de Deus em nós. Ele começa essa obra em nós no momento do nosso batismo, a partir daí vem todo um processo no qual a graça de Deus e a nossa colaboração – que consiste principalmente em deixar que Deus faça a sua obra – são imprescindíveis.

Os santos foram e são pessoas de carne e osso, como você e como eu. Não nos referimos neste momento aos santos anjos, mas aos santos homens e às santas mulheres,  pessoas que tinham dentro de si todas as desordens que a concupiscência provocara e que, com a graça de Deus e esforço pessoal, foram, pouco a pouco, vencendo até chegar à glória do céu onde são eternamente felizes.

Para deixar que Deus trabalhe na nossa vida é imprescindível que rezemos, pois não existe santidade sem oração. Conta-se de João Paulo II, que tinha o costume de passar algumas noites em oração a Deus, que num determinado momento uma pessoa que estava um tanto preocupada pelo bem-estar do Papa disse-lhe: “Santo Padre, Vossa Santidade, precisa cuidar-se mais”. Ao que o Papa respondeu: “Você tem razão, eu preciso cuidar mais da minha santidade”.

E ninguém pense que a santidade é egoísta. Não é só cuidar de si mesmo. A santidade é caridade efusiva, que se derrama sobre todas as pessoas que estão ao nosso lado. A pessoa que luta para ser santo (a) não se esquece do irmão necessitado, do vizinho que precisa de uma ajuda, do colega que está tirando notas baixas e que ele poderia dar-lhe um “empurrãozinho” (mas sem dar cola, hein!), da vovozinha que está tão só, do… A santidade tem que ser sempre uma santidade na vida diária, cotidiana, em todo e qualquer lugar.

O santo, que é uma pessoa que encontrou o verdadeiro sentido de sua existência e luta para alcançar a meta. Além de rezar, de fazer penitência, de se confessar, de ir à Missa, ao mesmo tempo é alegre, serviçal, caridoso, cheio de atenção e carinho para com as pessoas. E tudo isso é para ele ocasião de encontro com Deus.

“Onde estiverem as vossas aspirações, o vosso trabalho, os vossos amores, é aí que está o lugar do vosso encontro cotidiano com Cristo. É no meio das coisas mais materiais da terra que devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens. Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não; onde se juntam de verdade é nos vossos corações, quando viveis santamente a vida de cada dia” (São Josemaria Escrivá, Homilia Amar o mundo apaixonadamente, 1967).

Falando em vida diária, lembro-me daquilo que li no jornal “O Popular” (Goiânia) em 2006 na sessão “Carta dos leitores”: “No sábado, fui de ônibus para o Jardim Guanabara 3. Entrei no veículo na Avenida Tocantins às 11:30. Quem estava dirigindo era uma moça competente e educada, muito gentil com os passageiros e de uma tranqüilidade impressionante. Gostaria de parabenizar o Rápido Araguaia por admitir profissionais que realmente amam a profissão”. Pois bem, essa moça se, fazendo tudo isso tão belamente, ademais o fazia por amor a Deus estava se santificando… Era feliz!


Comentário Exegético - Solenidade de Todoso os Santos - (Ano B)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Segunda Leitura (1 Jo 3, 1-3)

INTRODUÇÃO: Na breve leitura desta carta de S João, encontramos a exposição da filiação do cristão, como adotado por Deus. Não é uma adoção legal e externa, mas implica numa vida comum com a divindade que agora começa como em sombra e escuridão, mas que será plena no além, onde a santidade de Deus permeará toda a natureza humana, tornando-a santa e impoluta. A esperança que já está atuando hoje em nossa vida, trabalha neste sentido, como preparação das plenitudes eternas, em que a visão direta de Deus será a guia de nossa vida futura. E toda essa realidade, transcende a nossa natureza, é um puro dom de Deus que quer ser o nosso Pai.

O AMOR DE DEUS: Vede qual [potapën=qualem] amor deu-nos o Pai, de modo que sejamos nomeados [klëthömen=nominemur] (e somos) filhos de Deus. Por isso o mundo [kosmos=mundus] não nos conhece, porque não O conheceu (1). Videte qualem caritatem dedit nobis Pater ut filii Dei nominemur et sumus propter hoc mundus non novit nos quia non novit eum.

QUAL: Potapos é um adjetivo que sai 7 vezes no NT. Sua tradução é que tipo de, como vemos em Lc 7, 39: Se este fora profeta bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou. Significa, pois que classe de amor [agapë] foi o que demonstrou o Pai.
AMOR: Como parte negativa é não querer mal à pessoa amada. Como atitude positiva é respeito, dedicação, serviço e entrega. Os homens entregam o tempo e suas dádivas. Deus Se entrega a si mesmo em forma humana, dando a sua vida, a maior dádiva possível na natureza passível do Filho.
PAI: refere-se a Deus, não tanto como Gerador do Verbo, mas como aquele que quis adotar os homens como filhos. Muitas vezes ao recitarmos o Pai Nosso, não pensamos nesta passagem em que a adoção tem as características próprias do direito Romano, a dignidade, as honras, a herança; e, além disso, uma transformação interna que um dos textos gregos explica com o kai esmen [et sumus = e somos]. Na adoção legal, o filho recebe os diretos do Pai,sem que exista uma transformação interna. Já a adoção divina pressupõe um novo nascimento, um DNI interno e não somente um título jurídico externo. Existe uma transformação interna em que o Espírito de Deus começa a substituir o espírito humano e as três virtudes sobrenaturais têm a prioridade sobre a razão, a vontade e as expectativas humanas. Jesus dirá que temos que nascer de novo (Jo 3,3) e esse renascer é na água (batismo) e no Espírito (Jo 3, 5). A diferença entre a justificação de Lutero e a católica está precisamente neste e somos. Sendo unicamente titular e externa em Lutero e outros reformadores, a católica não se concebe sem a graça interior que transforma o homem, e que não é somente imputado, mas interiormente transformado.
O MUNDO: O grego Kosmos classicamente significa ordem ou coisa ordenada do verbo Kosmeö ordenar, adornar, dispor.Dai, podemos dizer que a palavra traduz o universo, sua beleza, a terra em particular, os homens que vivem nela. E os inimigos do evangelho. Vejamos alguns exemplos: A) Universo como em Mt 13,15: publicarei coisas ocultas desde a criação do mundo. B) A terra, especialmente a habitada: Mt 13, 38:o campo é o mundo a boa semente são os filhos do reino. C) De modo especial, os homens . Jo 1, 29: Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. D) O conjunto dos inimigos de Jesus: Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim odeia (Jo 7, 7),) O conjunto dos homens dirigidos por Satanás de modo especial em Jo 12, 31: chegou o momento de ser julgado este mundo e agora o seu príncipe será expulso.Neste trecho, evidentemente, o mundo se inclui no apartado letra D, o conjunto dos homens que não aceitaram a doutrina do evangelho.
NÃO NOS CONHECE: A razão de que o mundo não conhece os discípulos é porque não conheceu o seu Mestre. Conhecer é saber a verdade de quem veio para dar testemunho da verdade de modo que todo aquele que é da verdade escuta minha voz (Jo 18, 37). Também seus discípulos são consagrados na verdade (Jo 17, 19)  e precisamente a vida eterna consiste em que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e a quem tu enviaste (Jo 17, 19).

SUA MANIFESTAÇÃO: Agora somos filhos muito queridos [agapëtoi=carissimi] de Deus e ainda não se manifestou que seremos, pois sabemos que quando se manifestar seremos semelhantes a ele porque O veremos como é (2). Carissimi nunc filii Dei sumus et nondum apparuit quid erimus scimus quoniam cum apparuerit similes ei erimus quoniam videbimus eum sicuti est.
CARÍSSSIMOS: O adjetivo agapëtos, usado junto com Filho significa primogênito por ser o filho especialmente amado. Tal o encontramos em Mt 3, 17: uma voz do céu: Este é o meu Filho, o amado. De modo especial, vemos isso em Mc 12, 6 quando o dono enviou finalmente seu filho amado, a quem os vinhateiros homicidas chamam de herdeiro [klëronomos] (12, 7). Em termos comuns o agapëtos pode significar amado, como eram Barnabé e Paulo em At 15, 25 enviados a difundir os resultados do concílio de Jerusalém. E de modo geral os cristãos são chamados de amados de Deus na epístola aos romanos por Paulo 1,7, que a Vulgata traduz por dilecti. A palavra sai 9 vezes nas cartas de João, cinco vezes como vocativo nesta mesma carta dirigida a seus leitores e em todas elas a Vulgata traduz por carissimi. Na epístola terceira, usa o singular 4 vezes, referendo-se ao seu íntimo [agapetos] Gaio. O apelativo indica um amor especial por parte de Deus neste estado terrestre.
NÃO SE MANIFESTOU: O apóstolo joga com as realidades espirituais, invisíveis e fora da experiência material dos sentidos para afirmar que essa realidade interna da filiação divina permanece oculta. Somente quando chegue a hora, precisamente da morte corporal, essa realidade será patente porque veremos Deus como ele é: como o Pai que nos amou e nos admite à sua herança, ao banquete, figurado nas parábolas do reino (Tg 2, 5). Esses que são os herdeiros, como diz Paulo: se filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo, glorificados com Ele, se padecermos com Ele. Em Gl 1, 11 confirma que em Cristo também temos sido feitos herdeiros, herança que consiste na vida eterna [vida unicamente de Deus, o Eterno, como traduzem Jahveh os eruditos rabínicos].
SEMELHANTES A ELE: A palavra grega [homoios] é usada nas parábolas como termo de comparação. Em João Jesus dirá que se ele diz que não conhece a Deus seria mentiroso, semelhante aos seus inimigos, os judeus (Jo 8, 55). 

A PURIFICAÇÃO: Porque todo aquele que tem esta esperança nele purifica [aggnizei=sancificat] a si mesmo como Ele é puro [agnos=sanctus]. Et omnis qui habet spem hanc in eo sanctificat se sicut et ille sanctus est.
PURIFICA: O verbo agizö significa purificarem sentido ritual, como em Jo 11, 55: Subiram para Jerusalém antes da Páscoa para se purificarem. Paulo em defesa de sua ida ao templo dirá que aí o encontraram já purificado, sem ajuntamento nem tumulto. Para tratar com Deus era necessária a purificação, de modo que não se admitia nem vítima nem sacerdote, sem antes estarem purificados. A pena de morte estava decretada para o Sumo-sacerdote que entrava no Santo dos Santos [kodesh haKodesh=agion tön agiön; também chamado dabir (1Rs 6, 16)] sem se purificar.Por isso tinha atada uma corda ao pé, de modo que, se morria, podia ser retirado por meio da corda através da cortina ou véu de separação do Santo, a nave anterior. Claro que a purificação externa era um símbolo do que devia ser a purificação interna, ou seja, a libertação do pecado. Vós sereis santos porque eu sou santo (Lv 11, 45) disse o Senhor. As roupas alvas, recém- estreadas, e linho, para não ter contaminação com animais como a lã, eram o símbolo externo de sua purificação, como homem santo destinado a purificar o povo.
PURO: O grego Agnos tem o significado de puro, casto, limpo, sem mancha, sagrado e santo. O sentido de puro é o de livre de pecado, e nisso concorda em termos bíblicos e não clássicos com ‘ieros ‘osios ‘agios e semnos, embora cada um deles tenha sua particular acepção. O mais relativamente unido à divindade é ‘ieros [sagrado], de cujo inicial vigoroso, passou-se a sacrosanto. ‘Osios é o nosso santo, ou seja, moralmente impoluto. ‘Agios implica um significado de separação de destino para a divindade, e consequentemente, puro no sentido de livre de imperfeições materiais e humanas. É o mais usado no NT para designar as coisas e pessoas pertencentes ou consagradas a Deus. Agnos está relacionado com ‘agios e significa puro no sentido de sem mácula como deve ser toda oferenda feita a Deus. Às vezes também tem o significado de livre de lascívia carnal. Semnos é o adjetivo que designa a reverência e o temor devido a Deus, traduzido por venerável, augusto.

CONCLUSÃO: Como verdadeiros filhos de Deus que é Santo, Imaculado, a ele devemos nos apresentar também com essa característica, sendo que a purificação do pecado é feita por Ele que como suma santidade purifica a todo aquele que a Ele se aproxima. Assim como a luz ilumina quem a ela se submete a Santidade divina purifica todo aquele que a ela se subjuga.

Evangelho

(Mt 5, 1-12) - (Leitura paralelA Lc 8, 20-23)

AS BEM-AVENTURANÇAS

INTRODUÇÃO: Dois evangelistas narram o que se tem chamado as bemaventuranças. Mateus como parte do sermão da montanha, pois foi desta cátedra que Jesus falou (5,1) e Lucas que coloca o pequeno discurso paralelo numa planície (6, 17). Isso indica que a circunstância é redacional, independente das palavras e ideias a expressar. Também há uma grande diferença entre as oito ou nove bemaventuranças de Mateus e as quatro de Lucas. Ambos porém usam a mesma palavra makarioi para designar os contemplados como prediletos do reino. Que significado tinha nos lábios de Jesus essa palavra e de que ideias hebraicas era tradução, de modo que os ouvintes a pudessem entender? O grego makários significa tanto ditoso ou feliz como bendito do verbo makarizo que significa declarar afortunado.  No primeiro caso, indicaria uma situação determinista da vida mesma, sem ligação com ulteriores fins ou propósitos. No segundo caso, a palavra tem um conteúdo teológico de modo que implica uma providência divina que, pelo contraste com o sentir comum dos dirigentes religiosos, apontava uma nova era completamente revolucionária em perspectivas religiosas. Esse é nosso caso.

O MONTE: Tendo, pois, visto as multidões, subiu ao monte [oros=montem] e tendo-se ele assentado, se aproximaram a ele seus discípulos (1). Então, tendo aberto sua boca, os ensinava dizendo (2). Videns autem turbas ascendit in montem et cum sedisset accesserunt ad eum discipuli eius. Et aperiens os suum docebat eos dicens. Os  comentaristas unem o sermão da montanha com a entrega da Lei por Javé-Deus no monte Sinai no A T. Oros em grego, é usado por Mateus como um ambiente paralelo ao lugar em que Moisés recebeu a lei no Sinai, sendo que o cumprimento do primeiro mandamento receberia uma gratificação especial para os que fielmente o guardavam (Ex 20, 6). Jesus também, do monte, ensina a nova lei a seus discípulos. Porém, antes deve escolher o novo Israel, e daí as chamadas bemaventuranças. Os que por elas são alcançados serão o novo Israel e, portanto, podem ser designados como verdadeiramente felizes. Jesus começa, pois, por essa distinção em que derruba o velho conceito de etnia e descendência como parte para formar a elite de Jahvé, e contrariamente, suscita um novo modelo de povo de Deus, cuja base é precisamente o infortúnio material. A eles Jesus abre um novo mundo de esperanças e felicidade. A lei, para os judeus, não era unicamente o nomos [preceito], mas também abrangia declarações, propostas e fatos de Deus em relação com seu povo escolhido. Neste sentido total e amplo, Jesus determina primeiro o âmbito de seus verdadeiros escolhidos. Logo propõe seus nomoi [preceitos], precedidos de uma retificação aperfeiçoada da antiga lei: ouvistes que foi proclamado, eu, porém, vos digo (Mt 5, 21). Como mestre da nova Lei, Jesus adota uma postura frequente entre os rabinos ou mestres em Israel. Ele fica sentado, tendo seus discípulos e ouvintes ao seu redor, geralmente de pé, pendentes de suas palavras. Os rabinos explicavam a lei segundo as tradições [ouvistes que foi dito] mas Jesus explica a nova Lei como quem tem autoridade para propô-la e anunciá-la como novidade feliz a um público geralmente esquecido e desprezado. Constituía a esperança messiânica, já atuando como realidade nova e definitiva. Finalmente, uma palavra sobre o monte: Realmente segundo Lucas, Jesus subiu ao monte para orar durante a noite (Lc 6, 12). Na manhã, escolheu seus doze discípulos e logo ao descer do monte, se deteve num lugar plano onde a multidão o esperava para ser curada de suas doenças.  Lucas, pois, circunscreve as bemaventuranças a uma planície, embora tivesse como fundo o monte do qual acabava de descer. Também Lucas diz que elevando os olhos aos discípulos dizia (Lc 2, 20).

AFORTUNADOS: Ditosos [makarioi=beati]os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus (3). Beati pauperes spiritu quoniam ipsorum est regnum caelorum. A palavra, usada tanto por Mateus como por Lucas, no início de cada versículo é MAKARIOI, em grego, plural de Makarios. Logicamente Mateus e Lucas usam a palavra como tradução de um original aramaico usado por Jesus. Qual é essa palavra e que significado se encerra na raiz da mesma?1°) No AT: . Existem no hebraico bíblico dois verbos com o sentido de abençoar. Um deles é Barak que é só empregado por Deus no Piel [intensivo ativo] indicando uma ação contínua, como em Gn 1, 22: E Deus os abençoou [yebarek] dizendo: sede fecundos. Usando a mesma raiz, Deus abençoou também o dia sétimo. A setenta traduz por eulogesen louvar ou falar bem, a Vulgata por benedixit, que no inglês é traduzido por blessed. De barak temos baruk [bendito] e a palavra beraká [ bênção], cujo plural é berakoth. Todas as berakoth começam com Baruk Ata Adonai que pode ser traduzido por louvado seja meu Senhor[=Deus]. Os setenta traduzem baruk [bendito] por eulogetos ou eulogemenos (Dt 28, 3 +). O outro é Ashar cujo significado primitivo é avançar; também no piel significa pronunciar feliz e pela primeira vez o encontramos em Gn 30, 13 em boca de Lia: Feliz, eu [beasheri], porque chamar-me-ão ditosa [asheruni] todas as mulheres. Nos setenta, os termos em colchetes são  traduzidos por makaria e makarizousin, a mesma raiz empregada nas bemaventuranças. Não entramos em maiores detalhes. Só com o dito podemos dizer que barak [eulogeo] é a palavra reservada para a ação divina, quando declara bendita uma pessoa; e asher [makarios] é a ação do povo que vê uma circunstância que torna feliz uma vida. Logicamente essa circunstância provém de Deus como causa principal. (Os números correspondem aos de Sprong). Os evangelistas têm muito cuidado nas palavras com que escolhem as ipsissima verba Christi e, portanto, acreditamos que se ambos os evangelistas escolheram makarios como tradução das palavras de Jesus, este não quis dizer que eram abençoados por Deus, mas declarados felizes pelos homens. Jesus quer mudar o modo de pensar dos discípulos para que estes pudessem ver nos pobres, nos aflitos, nos humildes, nos famintos, uma classe de predileção divina que os tornava desejáveis e invejáveis. Jesus, praticamente, na sua primeira lição pública define a conduta humana diante da pobreza tanto material como espiritual do mundo que o rodeia. 2°) No grego clássico, a palavra makarios inicialmente significava livre dos cuidados e preocupações de todos os dias. O significado é afortunado. Assim, a ilha de Chipre é chamada de ‘e makaria [a afortunada] por ser uma ilha verde e próspera. Homero chama os deuses de ‘oi makrarioi [os felizardos]  em comparação com os humanos que devem trabalhar para poder viver. Na linguagem poética, descreve a condição dos deuses e daqueles que compartilham da existência feliz deles. Aos poucos, perdeu seu significado original para se tornar num equivalente de nosso Feliz. Quando acompanhada de tu ou vós, se transforma em bemaventurado, ou bemaventurados, indicando um elogio por parte dos conhecedores do caso. Como tais, são parabenizados os pais por causa dos seus filhos, os ricos por causa de suas riquezas, os sãos pela sua saúde, os sábios por causa de seu conhecimento, os piedosos por causa de seu bem-estar interior, os mortos por terem escapado à vaidade das coisas. Indica, pois, como motivo, uma circunstância especial que acompanha uma certa classe de homens e que por esse requisito podem ser considerados afortunados. 3°) No grego bíblico makarios traduz o hebraico esher [felicidade], ashar [declarar bemaventurado], ou asheré [bem-estar]. Vemos o asheré traduzido por makarios no salmo 2,12: Bemaventurados todos os que nele se refugiam; ou o salmo 32,1 e 2: Bemaventurado aquele…e bemaventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniquidade. Em ambos os casos makarios é usado como tradução de asheré. O homem é bendito, e especialmente esta bênção provém de Deus. No NT  é claro que substituímos o asheré hebraico por Makarios. Makarios aparece 13 vezes em Mateus e 15 em Lucas e apenas duas em João: Bemaventurados pois, se praticares estas coisas(13, 17) e Bemaventurados os que não viram e creram (20, 29). No caso de Mateus os bemaventurados não são os discípulos; mas, estando a frase em terceira pessoa é qualquer um que se encontra em semelhantes circunstâncias. A estimativa predominante do Reino de Deus leva consigo uma inversão de todas as avaliações costumeiras. E todos os que compartilham dessa experiência da chegada do Reino, nas circunstâncias reveladas na frase inicial, serão benditos por esse dom recebido de Deus de modo gratuito. 4°) Mas vejamos as traduções: Dichosos ou Felices em espanhol, Beati em latim e italiano, Fortunate em inglês, embora a KJ traduzirá Blessed, Felizes em português e Hereux em francês. É uma palavra que indica completa satisfação ou felicidade. Todas elas cumprem as palavras de Dt 33, 29 em que o hebraico asherê é traduzido por makários e por ditoso: Ditoso [makários] tu Israel. Quem como tu povo vencedor? Deus é o escudo que te protege, a espada em marcha que te conduz ao triunfo. Ou o salmo 144, 15: Ditoso [makarios] o povo que tem tudo isso; ditoso [makários] o povo, cujo Deus é o Senhor. Em Baruc 4,4 temos: Felizes [makarioi] somos Israel, pois podemos descobrir o que agrada o Senhor. 5°)  Como Conclusão podemos afirmar que a palavra grega makários tem o significado de homem cuja vida é invejada por ser um privilegiado por Deus nos seus planos beneficentes. Em definitivo, podemos facilmente traduzi-la por BENDITO ou ABENÇOADO. Deus está no meio, por ser a causa de todos os verdadeiros bens. O Makarioi de Jesus entra, pois, nos planos divinos, como causa principal ao ser Deus o observador que escolhe seus eleitos, como declara Maria em seu canto: Exultou meu espírito em Deus meu Salvador porque ele fixou seus olhos na insignificância de sua escrava (Lc 1, 47-48). Até agora no mundo católico, quase de forma geral, as bemaventuranças eram vistas como prêmio oferecido às virtudes dos que mereciam semelhante elogio. Hoje não são consideradas como recompensa de virtudes, mas como escolha divina, que em sua misericórdia quer favorecer os mais desamparados. Não é a virtude interior alcançada, que obtém um prêmio, mas são as circunstâncias que favorecem a ação divina em sua misericórdia. Deste ponto de vista, podemos enxergar todo o contexto como sendo uma política divina que dá uma reviravolta na totalidade do pensar e atuar humanos. Jesus, em nome de Deus, como seu profeta, declara quais deveriam ser chamados de ditosos ou afortunados. Assim começa a nova economia que inicia uma nova visão do mundo dos sofridos e desafortunados. Esta situação, no lugar de ser uma situação de infortúnio, ou um estado aparente de desdita, é, pelo contrário, uma condição de sorte, porque as riquezas divinas estão à disposição dos que se supõem ter herdado o azar como condição de suas vidas. Como diria Paulo, na fraqueza é que se manifesta (mais) o poder [de Deus] (2 Cor 12, 9). Por isso, todas as bemaventuranças terminam com um porque em que Deus entra como causa ativa, subentendido na passiva do verbo correspondente, passiva que era praticamente usada só para atuações divinas. Talvez a melhor tradução seria: Sois abençoados por Deus vós os…

O ESQUEMA: temos em cada bemaventurança uma prótasis [primeira parte de um poema teatral] e uma apódosis [explicação]. A prótasis ou primeira parte de cada oração é uma circunstância da vida, independente da vontade da pessoa respectiva. A apódosis é a explicação do porquê e como a sorte lhes favorece. Como caso curioso podemos ver que as quatro primeiras começam com a letra pi em grego: Ptochoi [mendigos], penthountes [chorantes], praeis [mansos] e peinountes[famintos]. Quando se sabe que a kabala era característica da interpretação das Escrituras, há uma pequena razão para pensar que Mateus, legista e intérprete da lei, tivesse alguma razão, por nós hoje desconhecida, de seguir seus ocultos princípios.

PTÔCHOI : No AT ptochos aparece perto de 100 vezes e são a tradução de 7 palavras hebraicas:
1°)  wne anav é sinônimo de humilde especialmente quando em forma adjetivada acompanhado de Jahvé. Com seu número de Sprong  aparece 24 vezes, especialmente nos salmos e em Isaías, a começar por Moisés que é declarado o mais humilde, ou mais manso dos homens como traduz a Vulgata. O anav desse número é geralmente traduzido por prays [manso](12), penes [pobre] (11) e tapeinós [baixo] (1). Na vulgata temos mites (6) mansuetus (6) e pauper (12). Existem duas frases em que anav acompanha terra anave heretz. E que em ambos são traduzidos por prays ou mansos.
2°) ‘ani [37 vezes] <06041> que tem o significado de pobre, humilde, modesto, oprimido. A primeira vez que aparece é em Êx 22, 24: Se emprestares prata ao meu povo, ao pobre [ani e ptochós] que está contigo. Quando não se menciona o opressor a palavra significa realmente pobre material, os que não têm terra. A Setenta traduz, indistintamente, ani por pobre ou humilde.
3°)  `anah. A única vez que anah sai é em Daniel 4, 27: redime tua iniquidade para com os pobres  em grego penetön [=dos pobres].
4°) dal [22 vezes] baixo, fraco, pobre, magro. Fisicamente dal significa fraco e passa a ser empregado para as classes sociais mais baixas como camponeses, pobres, necessitados, sem importância.
5°) [11 vezes] significa pedinte de esmolas, mendigo; ou seja, os muito pobres e sem lar.
6°)   Rush [11 vezes] necessitado, pobre, é uma palavra que se emprega como contraste de rico.
7°)  Misken. Nos tempos mais modernos usa-se misken, um termo que os mendigos orientais empregam para definir a si mesmos.

Que deduzimos então? Se o mendigo é precisamente o ebyon e equivale ao endeês [menesteroso em grego] o ptochós de nossa bemaventurança pode ser pobre no sentido de desvalido, sem recursos, cujo único goel [defensor] era Jahvé, em oposição aos ricos que dependiam de suas riquezas como base fundamental de suas vidas. Os textos mais modernos descartam o pobre material e traduzem o Ptochós como humilde, ou humilde de espírito (AV), ou os que têm o coração de pobre (francesa). A melhor exegese será, sem dúvida, a feita por Maria: Depôs poderosos de seus tronos e aos humildes exaltou. Cumulou de bens os famintos e despediu ricos de mãos vazias. Parece que Jesus aprendeu bem de sua mãe esta política divina que tão bem se realizou na sua família. Os rabinos louvavam a simplicidade e a humildade, mas nunca a pobreza porque, segundo eles,  nenhum dos males poderia se equiparar ao mal da pobreza; daí que Mateus, legista e conhecedor das tradições judaicas, teve que acrescentar uma explicação ao simples fato de pobreza. Pois para esses mestres da Lei a riqueza era o prêmio justo da virtude e a pobreza era considerada como legítimo castigo. Porém, a pobreza entra nos planos de Deus e a sua aceitação coloca os pobres como escolhidos às portas do Reino do qual Jesus era o arauto ao proclamar as condições que o limitavam, segundo Is 61,1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [ptochoi em grego e humildes nas versões mais modernas como a italiana]. Na História do Israel antigo, após a economia inicial de troca, uma vez consolidada a monarquia, o dinheiro tomou conta da economia e muitos dos agricultores passaram a depender dos homens das cidades. Este empobrecimento não só se tornou um problema social, mas religioso como fruto da quebra da Lei, tornando-se uma injustiça, atacada pelos profetas do século VIII aC. que ameaçavam com o juízo divino os ricos que eram culpados. E é nesta situação histórica, que podemos entender o significado de pobre e necessitado. O pobre que sofre injustiça porque outros se tornaram gananciosos, volta-se indefeso e humilde a Deus em oração, pensando que a ajuda divina em suas necessidades é a base da glória a Deus. Pobres, são os que se voltam a Deus em suas necessidades, pois é um Deus-protetor dos pobres (Sl 72, 2): Com justiça ele [o rei] julgue o seu povo, salve os filhos dos indigentes [anawim e ptochoi] e esmague seus opressores. No salmo 132, 15 diz: De pão fartarei seus pobres [anawim e ptochoi]. A desgraça do exílio levou temporariamente ao emprego das palavras pobre e necessitado como termos coletivos para o povo. No judaísmo tardio, tanto a pobreza material como o aspecto da sua espiritualização têm características novas: Todos os grupos religiosos tinham suas formas especiais de obras de caridade. Nas sinagogas havia uma organização para ajuda dos pobres, existindo esmolas públicas semanais. Cada sexta feira, aqueles que viviam na localidade, recebiam dinheiro suficiente da cesta dos pobres [quppah] para 14 refeições ; os estrangeiros recebiam comida diariamente da comida dos pobres[tamhuy]; esta comida tinha sido coletada antes, de casa em casa, pelos oficiais dos pobres. Na diáspora, as sinagogas frequentemente estabeleciam uma comissão de sete para esse serviço, como fizeram os apóstolos em Atos 6, 1-6. A distribuição das esmolas era considerada particularmente meritória, se feita na cidade santa. A semelhança entre hoje e antigamente é tão grande –escreve J. Jeremias- que há algumas dezenas de anos encontravam-se leprosos, pedindo esmolas nos seus lugares habituais, no caminho de Getsêmani, fora dos muros da cidade. Em Jerusalém a mendicância concentrava-se em torno do Templo, como vemos em At 3, 1-8. Como temos visto, os setenta traduzem anawim por ptochoi. Portanto, esta palavra perdeu o significado de mendigo para denotar o homem indefeso, que só tem como avaliador Jahweh e que nele depositou sua inteira confiança. A palavra pobre não significava a mesma coisa para um grego que para um judeu. Para o grego era um mendigo; para o judeu era aquele que não possuía terras (Êx 22, 24). Naturalmente, neste último caso, os pobres eram também gentes desprovidas de influência social, frequentemente exploradas e humilhadas. Em grego, temos a palavra Ptochós [mendigo] com necessidade de pedir esmola para subsistir e a palavra Penës, o pobre que não é rico, mas tem necessidade de trabalhar para poder viver. Como temos visto, ao explicar as diversas palavras usadas no hebraico, pobres podem ocupar o lugar da palavra anawin, que tem um significado contrário ao de rico, com conotações religiosas de confiança em Deus.

TO PNEUMATI : que pode ser traduzido em espírito ou de espírito. Evidentemente, o espírito é o espírito humano. Portanto temos: Ou pobres de espírito, que significaria acanhados; ou pobres por espírito, por eleição, pessoas estas que aceitavam a pobreza como natural ou como voluntária.  O texto grego presta-se, pois, a duas interpretações: 1) pobres quanto ao espírito 2) pobres pelo espírito. A primeira pode ter um sentido pejorativo como homem de qualidades diminuídas. Ou um positivo como aqueles desapegados do dinheiro, embora o possuam em abundância, sentido este excluído pelo próprio Jesus em 6, 19-24 e pela condição imposta ao jovem rico. Na tradição judaica, os termos anawim/aniyim designavam os pobres sociológicos, que punham sua esperança em Deus  por não achar apoio, nem justiça na sociedade. Jesus recolhe este sentido e convida a escolher a condição de pobres [opção contra o dinheiro e a posição social] entregando-se nas mãos de Deus. O termo “espírito”, na concepção semita, conota sempre força e atividade vital. Neste texto, denota o espírito do homem. Na antropologia do AT o homem possui “espírito” e “coração”. Ambos os termos designam sua interioridade; o primeiro, enquanto dinâmica, sua atividade em ato; o segundo, enquanto estática, os estados interiores ou disposições habituais que orientam e matizam sua atividade. A interioridade do homem passa à atividade enquanto inteligência, decisão e sentimento. Dado o que Jesus propõe, é uma opção pela pobreza, e o ato que a realiza é a decisão da vontade. O sentido da bemaventurança é portanto “os pobres por decisão”, opondo-se aos “pobres por necessidade”. Transpondo o nome decisão pela forma verbal, tem-se “os que decidem escolher ser pobres”. A vulgata usa pauperes spiritu do grego ptochoi to pneuma. A tradução da bíblia protestante na sua VA [versão autorizada] é: Bemaventurados, os humildes em espírito. As bíblias católicas conservam a palavra pobres e traduzem pobres de espírito ou em espírito e algumas pobres de coração. Duas traduções fazem uma exegese particular: A versão AL [América latina] os que têm o espírito de pobres e a francesa: ceux qui ont um coeur de pauvre [que têm um coração de pobre]. A bíblia de King James traduz poor in spirit e comenta que ptochós é uma pessoa que não pode se ajudar, ao contrário de pénes, que,  sendo pobre, pode se virar, como dizem. E comenta: o primeiro passo para ser abençoado é a admissão da própria inutilidade espiritual. Enquanto Mateus dá uma explicação sobre o significado de Ptochoi [pobres], Lucas nada diz sobre a natureza da pobreza, aludida por Jesus na primeira bemaventurança. Segundo Lucas, é a pobreza material a que abre as portas do Reino. Segundo Mateus, essa pobreza tem um matiz necessário: é a pobreza fomentada no espírito, no desejo, no interior ou pensamento, ou tomada como objetivo na vida, que implica não considerar as riquezas materiais como finalidade da vida. Na realidade ambos os termos podem ser vistos com uma convergência: a pobreza material é um pré-requisito para a pobreza espiritual, muito mais difícil de se conseguir quando a riqueza é o berço em que fomos aninhados. Uma interpretação moderna é de que os homens só podem ser abençoados por Deus quando diante dele se comportarem como mendigos às portas de sua misericórdia. Vejamos duas interpretações: 1°) Do ponto de vista católico e fundamentada em Mateus: a) a primeira Bem-aventurança seria a bênção divina para os que escolhem ser pobres, porque no lugar da riqueza, estes terão a Deus por seu único Rei, que por sua parte escolhe os válidos e preferidos entre os pobres e oprimidos. No texto de Mateus podemos interpretar pobres no espírito como aqueles que não têm ambições de riqueza, que não se deixam levar pela avareza. b) Finalmente, pobres no espírito podem significar aqueles que carecem de qualidades humanas. Qual delas é a mais correta na interpretação das palavras de Jesus? Segundo a maioria dos autores,  Ptochoi traduz o hebraico Anawim que Jesus  explicará em Mateus 6, 19-21; 24 em que Jesus rejeita o desejo das riquezas e as antepõe ao serviço devido a Deus, já que não podemos servir a dois senhores. Quando da recusa do jovem a abandonar suas riquezas, Jesus comentará que é difícil para um rico entrar no Reino, pois na realidade ele está dominado pelo senhor contrário ao verdadeiro Senhor: Deus (Mt 19, 16+). E é nesta última situação que as palavras de Lucas adquirem o verdadeiro valor como Bemaventurança. Um último comentário: Pelo que Mateus nos dá a conhecer sobre o sermão da montanha parece que as bemaventuranças foram redigidas sobre a frase tão repetida neste capítulo V: Ouvistes que foi dito aos antigos; eu, porém vos digo. Isto é: nas sinagogas vos foi ensinado; porém, a verdade é outra diferente que eu vos declaro agora. Por isso a melhor tradução, sob o ponto de vista exegético, seria: Ouvistes que vos foi ensinado que os ricos eram benditos de Deus; eu, porém, vos digo que são os mais pobres os escolhidos e os que verdadeiramente são os benditos de Deus, que na terra vão constituir seu Reino. De fato, Paulo dirá aos de Corinto: Não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa… Deus escolheu o que no mundo é vil e desprezado… a fim de que aquele que se gloria, glorie no Senhor. (1 Cor 1, 26-31). A bênção era tão inusitada para a época em que a pobreza era considerava pior que a lepra como castigo divino, que Mateus ou o seu copiador, se sentiu obrigado a introduzir um pequeno parêntese explicativo para restringir a pobreza a limites aceitáveis pelos seus leitores e assim fala dos pobres de coração que hoje chamaríamos pobres sem ambição, e que os evangélicos traduzem por humildes de espírito. Porém, devemos manter o original de Lucas que fala dos simplesmente pobres, indigentes, porque a bênção divina é tanto mais completa quanto mais miserável aparecer a condição humana. Assim se cumpre o dito de Jesus que afirma ter vindo salvar o aparentemente perdido. Como consequência, não devemos desprezar esses mendigos que tratamos de vagabundos, porque eles merecem um lugar de destaque no reino, e nosso amor para com eles só será um espelho do amor de Deus exemplificado nesta bênção. Em termos gerais, podemos considerar que se Lucas é o taquígrafo das palavras de Cristo, Mateus é seu intérprete e catequista. Daí as diferenças. Segundo as palavras de Jesus, citando, em Lucas, Isaías 61, 1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [anawim e ptochoi, o latim mansueti,  que traduz o italiano umili e a VA quebrantados] os pobres poderiam ser os aflitos por suas necessidades materiais. De fato, as classes inferiores, escravos e necessitados se beneficiaram do evangelho em forma tal, que Jesus teve que afirmar que dificilmente um rico entraria dentro do esquema do mesmo. Serão, pois os pobres materiais os sujeitos da bemaventurança embora devam ser excluídos da mesma os que se rebelam contra sua pobreza e não a aceitando, rejeitam os planos de Deus que prefere os deserdados aos ricos e opulentos. 2°) A evangélica de Robert H Mounce; em resumo será: Jesus exclama que não são os ricos e poderosos, mas os pobres e humildes de quem se pode dizer, na verdade, que são bemaventurados. A apreciação de Jesus das coisas que constituem a vida, como deve ser vivida, ressalta em forte contraste com a sabedoria convencional… Na linguagem hebraica, pobre não era apenas a pessoa em desvantagem econômica, mas todos quantos, em sua necessidade, apelam a Deus em busca de ajuda ( Sl 69, 32 e Is 81, 11). Estes são os anawim, “os humildes pobres que confiam na ajuda de Deus”. Pobre de espírito significa depender totalmente de Deus para ajuda, segundo o Salmo 34, 6: Clamou este pobre e o Senhor o ouviu; salvou-o de todas as suas angústias.

REINO DOS CÉUS: A promessa mais explícita, como esperança de cada bemaventurança, é a entrada no Reino, que Mateus chama dos céus, especialmente explicitada na primeira e na última, oitava e final, da lista por ele apresentada. Mateus é praticamente o único evangelista que chama reino dos céus [15 vezes] enquanto os outros dois denominam Reino do (sic) Deus. Em que consiste esse Reino que parece a base da pregação de Jesus? Nas suas parábolas Jesus o descreve como um banquete nupcial (Mt 22,1+), como um precioso tesouro (Mt 13, 44). Mas, em que consiste? No AT só encontramos uma vez e em grego a frase Reino de Deus [basiléia theou] no livro da Sabedoria que não é admitido como canônico pelos evangélicos: Ela [a sabedoria] guiou por sendas retas o justo [Jacó], que fugia da ira de seu irmão [Esaú], lhe mostrou o reino de Deus e deu-lhe o conhecimento  das coisas santas [significando o governo do mundo por meio de seus anjos e em particular a bondade de Deus para com o patriarca] (Sb 10, 10).  Por Daniel, especialmente no capítulo 7, sabemos que os quatro reinos procedentes do mar [do abismo, símbolo do mal] foram substituídos pelo reino que procedia das nuvens do céu [de Deus]. Era o Reino dos céus segundo Mateus ou Reino de Deus do qual Jesus se diz representante, assumindo a figura de Filho do Homem (Dn 7, 13). Das palavras de Jesus dificilmente saberemos a resposta positiva; sabemos quais são as pessoas que entram facilmente [pobres, crianças] (Mt 5,3 e 19, 14) e quais as que têm dificuldade [ricos, autoridades religiosas] (Mt 19, 23 e 21, 31) . Sabemos que o Reino exige uma honestidade própria [mais estrita que a dos escribas e fariseus]( Mt 5, 20). Que para um escriba era necessária uma espécie de renovação como novo nascimento, que é da água e do espírito ( Jo 3,5). Um reino que implica uma nova relação com Deus, não em forma aparente e externa, mas interior (Lc 17, 21). Um reino que consiste essencialmente em que a vontade divina seja a norma indispensável da vida (Mt 6, 10). Um reino que se mostrará patente após a morte de Cristo porque muitos dos ouvintes de Jesus estarão presentes ao seu início visível (Lc 9, 27) para o qual haverá sinais prévios (Lc 21, 31). Reino que terá Pedro como supremo supervisor (Mt 16, 19). Os apóstolos, seguindo esta linha de Jesus, nos dizem que o Reino consiste em honestidade, paz e alegria no E. Santo (Rm 14, 17), não em palavras, mas em poder (1 Cor 4, 20). Não em comilanças e bebedeiras, mas em honestidade, paz e gozo no Espírito Santo; que nem luxuriosos, nem idólatras, nem adúlteros, nem depravados, nem efeminados, nem sodomitas nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem injuriosos herdarão o mesmo (1 Cor 6, 9-10); coisa que repetirá Paulo em Gl 5, 21. Trabalham pelo reino os apóstolos e com eles os que os ajudam (Cl 4, 11). Deste reino que podemos chamar na sua face terrena, chegamos ao definitivo ao eschaton do qual temos a palavra de Jesus que beberá do fruto da vide quando chegar o Reino de Deus (Lc 22, 18). Este é o reino que Jesus admite como próprio e do qual como gozo definitivo promete participar aos que nele confiam (Lc 23, 42-43). Podemos, pois, responder à pergunta qual é esse reino que a eles é prometido? Sem dúvida, que eles serão a maior e melhor parte desse novo povo de Deus que constitui o Reino por Cristo fundado e do qual ele era Senhor. Não é sem uma ideia proposta e preconcebida, que Mateus escolhe no monte onde pronuncia a novidade do reino, os doze que deveriam ser os novos pais das novas tribos do novo Israel, não como genitores materiais, mas como pais espirituais, dos quais todos nós recebemos a nova vida no Espírito.

TÊM A DEUS POR REI: Esta é a tradução preferida pelos modernos intérpretes. Assim, o grego Basileia não significa aqui reino, mas ‘reinado’. “Seu é o reinado de Deus” quer dizer que esse reinado se exerce sobre eles, que somente sobre eles age Deus como rei. A pobreza a que Jesus convida é a renúncia a acumular e reter bens, a considerar algo como exclusivamente próprio; esses pobres estarão sempre dispostos a compartilhar o que têm. A opção final que Jesus propõe, realiza o prescrito pelo primeiro mandamento de Moisés: Não terás outros deuses diante de mim (Dt 5, 7). A idolatria concretizava-se na posse da riqueza (6, 24); por isso o enunciado desta bemaventurança é porque estes  e não outros, têm a Deus por Rei. A opção proposta pela primeira bemaventurança leva à sua perfeição a metanoia ou emenda, pois quem escolhe ser pobre, renunciando a monopolizar riquezas, e com isso, à posição social e ao domínio, exclui de sua vida a possibilidade de injustiça. É a visão da teologia da libertação.

CONCLUSÃO: As palavras de Jesus são um convite a refletir de forma nova sobre fatos que consideramos desafortunados, mas que o evangelho torna afortunados. Entre eles a pobreza, considerada como um castigo divino, mas que agora devemos ver como uma circunstância providencial, uma verdadeira bênção do céu, porque facilitará a entrada no reino dos que a sofrem.

OS QUE CHORAM: Ditosos os que pranteam [penthountes]. Eles serão consolados (4). Beati qui lugent quoniam ipsi consolabuntur. O latim e a maioria das traduções modernas modificam a ordem desta bemaventurança colocando-a em terceiro lugar. Mas que significa o verbo grego penthountes [=lugent]? Ele significa propriamente lamentar os mortos, ou seja, prantear, derramar lágrimas por alguém, estar de luto. Precisamente a palavra luto deriva do latim lugere de onde luctus.O grego pentheö [lugere latino] sai 4 vezes nos evangelhos: Duas em Mateus e uma em Marcos e Lucas. É traduzido por lugere, enquanto o pranto ou choro como o de um menino é klaiö. Pedro chorou [eklausen, ploravit]  amargamente após suas negações (Mt 26, 75). As carpideiras, ou pranteadeiras, choravam [klaiontas, flentes] na casa de Jairo por causa da morte da filha (Mc 5, 38). Lucas neste lugar paralelo usa klaiö em vez de pentheö de Mateus (Lc 5, 21). Sobre pentheö temos  Mt 9, 15 que diz que os amigos do noivo não podem estar de luto no dia da boda do mesmo. Marcos diz que a Madalena anunciou a Ressurreição aos que estavam lamentando [penthosin, lugentibis] e chorando [klaiousin, flentibus]. Os mesmos dois verbos sucessivos usa Lucas em 6, 25.  Também o grego admite como tradução os que se lamentam ou estão afligidos, como aceitam traduções modernas. Poderíamos traduzir por os que sofrem. A razão que motiva esta bemaventurança é a de que encontrarão consolação a sua dor. Logicamente o pranto não é devido a uma dor física, mas a uma perda de uma pessoa amada ou de bens estimados necessários para a vida: um infortúnio, uma desgraça. Alguns traduzem: os que sabem o que significa a tristeza. É o próprio Deus que será seu consolo, segundo Is 61, 2: A consolar todos os que choram. Lucas, como a vulgata de Mateus, traz esta bemaventurança em terceiro lugar e a palavra usada é Klaiontes [o latim flentes, derramando lágrimas] que como sempre traduz muito literalmente o grego. O texto não diz as razões que motivaram as lágrimas. Mas no texto de Isaías, citado por Jesus quando do início de sua missão, encontramos: que foi enviado a consolar [parakalesai] os que estão tristes [penthountas]. Usa, pois, Mateus os dois verbos que a Setenta, a bíblia-guia dos primitivos cristãos, emprega. Poderíamos afirmar que o consolador é o próprio Jesus na sua função de Messias Salvador, ou Cristo. Ele toma as funções divinas atribuídas a Deus na passiva do verbo correspondente. Recorda a passagem: Vinde a mim todos vós que estais cansados… e eu vos aliviarei(Mt 11, 28).

OS MANSOS: Ditosos os mansos [praeis] porque eles herdarão a terra (5). Beati mites quoniam ipsi possidebunt terram.
PRAEYS: é palavra própria dos mansos, benignos, não violentos, o mites ou mansuetus latino, que aceitam sua fragilidade e sua situação social sem revolta, mas com a confiança em Deus que será o último fautor da História. É uma imagem tomada do Salmo 37, 11: Pois os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância da paz. É notável como as palavras prays e klëronomeo são também as usadas pelo salmista. O sentido claro é que definitivamente o Reino é um reino de paz e que os não violentos são os herdeiros desse reino que substitui o antigo Israel, a verdadeira terra bíblica. Por isso Jesus afirma que os contrários do Reino são os violentos que estão a destruí-lo (Mt 11, 12). No tempo de Jesus os Zelotas pensavam que fosse a terra [nome dado à Palestina pelos israelitas] matéria de conquista e guerra. Jesus, porém, toma a palavra do profeta no salmo 37, 8-9 para indicar que não é a violência que conquista a terra. Deixa a violência, abandona o furor, não te inflames: só farias o mal; porque os maus vão ser extirpados e os que aguardam o Senhor possuirão a terra. De Si mesmo dirá que devemos aprender porque é manso [praos] e humilde [tapeinos] de coração (Mt 11, 29). De novo temos a presença de Jesus nesta bemaventurança, agora como modelo humano e não como Deus que cumpre uma promessa. Esta bemaventurança é uma antecipação do número 7: os fazedores da paz. Só que neste último caso a situação é ativa e na nossa 3a bemaventurança o sujeito é passivo: pacífico. Terra [gë] era o termo com o qual declaravam os judeus a porção geográfica que Jahweh tinha dado a eles por herança (Dt 1, 36 e Nm 26, 53) que Dt 9, 29 identifica com o povo de Israel. De modo que podemos afirmar que unicamente os pacíficos ocuparão o espaço dos que pertencem ao Reino.

FOME E SEDE DE JUSTIÇA: Ditosos os famintos e sedentos de justiça, porque serão saciados (6).Beati qui esuriunt et sitiunt iustitiam quoniam ipsi saturabuntur. Esta bemaventurança está refletida, mas de modo material, na segunda de Lucas: Os famintos [peinontes] agora, pois serão saciados. Esta oposição à materialidade de Lucas nos descobre uma interpretação espiritualista de Mateus das palavras de Jesus. Ao mesmo tempo, Mateus conecta com o AT segundo sua proposição de que Jesus veio não para revogar a Lei, mas para completá-la (Mt 5, 17). São duas as passagens de Isaías que falam sobre sede e fome: 55, 1 e 65, 13. Especialmente nesta última Jahweh se refere aos seus servos que terão comida e bebida em abundância. Mas que significa a justiça que é a fonte ou motivo de sede e fome? Em grego dikaiosyne significa:
1) Justiça divina que premia o bem e castiga o mal.
2) Justiça humana equivalente a santidade moral.
3) Fidelidade divina que cumpre sempre suas promessas que vem ser sinônimo de salvação.
4) Justiça distributiva humana que respeita o direito e defende em nome de Deus os mais necessitados.

Qual delas é a justiça de nosso versículo? Provavelmente, a terceira. A justiça bíblica é sinônimo de santidade ou correção de vida em conformidade com a vontade divina. Não é a justiça comutativa, mas a essencial da qual nos fala Paulo e que em certo modo se identifica com salvação e santidade. O lugar paralelo é Mt 6, 33 no qual a justiça está unida ao Reino. Justos eram aqueles cujo sangue foi derramado desde Abel até o último profeta (Mt 23, 33). Uma salvação que inclui também o primeiro significado. Era o desejo manifestado por Simeão: Meus olhos viram a tua salvação (Lc 2, 30) porque essa salvação foi comparada a um banquete no qual todos podiam entrar, ricos e pobres, sãos e aleijados, bons e maus. A entrada é livre, pois a justiça divina se transformou em misericórdia. Unicamente os convivas deveriam ter uma veste limpa: não buscar a própria exaltação como os fariseus, mas revestidos de Cristo (Rm 13, 14) de sentimentos de compaixão, benevolência, humildade doçura, paciência (Cl 3, 12).

OS MISERICORDIOSOS: Ditosos os misericordiosos [eleëmones=misericordes] porque serão tratados com misericórdia (7). Beati misericordes quia ipsi misericordiam consequentur. Eleëmones é o termo grego significando que tem compaixão. Eles alcançarão essa mesma compaixão que têm com os homens, mas da parte de Deus. Eleemones só sai esta vez nos evangelhos. A palavra que é usada da mesma raiz é eleeö, [ miserere, ter compaixão]. É o verbo usado pelos pedintes de Jesus uma cura, como os  cegos, a mulher cananéia, o pai do filho epiléptico, etc. É o verbo usado por Jesus na parábola do servo devedor, a palavra que usa o rico para pedir de Abraão uma gota d’água. É a compaixão para com aquele que está necessitado ou pede perdão de uma dívida impagável. O próprio Lucas traduz a perfeição cristã por misericórdia: sede misericordiosos como vosso Pai (Lc 6, 36). A palavra usada por Lucas  oiktirmön [misericors, que tem pena de] é mais próxima de compaixão que de misericórdia. Precisamente a  eleëmosunë =eleemosyna latina [esmola portuguesa] provém dessa raiz grega que é eleëmosunë. Daí o grande motivo para dar esmolas entre os cristãos.

LIMPOS DE CORAÇÃO: Ditosos os limpos no coração porque eles verão a Deus(8). Beati mundo corde quoniam ipsi Deum videbunt. Katharoi [mundi,limpos]. Na verdade, o latim com mundo corde diria: ditosos (aqueles) com coração limpo. O coração limpo, por outros traduzido por os puros de coração nada tem a ver com a castidade, mas visa os de intenções limpas, os não malvados, nem torcidos em seu íntimo entre pensamento, palavra e ação por ter o pensamento diverso de sua palavra mentirosa. Ou seja, os não hipócritas, os que só pensam em fazer o bem, sem outras intenções espúrias ou indignas por segundos interesses.  Limpos de coração é tomado do Salmo 24, 4: Quem é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente.  O salmo 15, 2 fala de quem vive com integridade e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade, o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo nem lança injúria contra seu vizinho. Esta é a limpeza do coração, mente, ou intenção, diríamos hoje. O prêmio desta vez é que verão [opsontai] a Deus. Quando? Evidentemente na figura de Jesus. Como exemplo: os fariseus viram o demônio expulsando seu colega, quando a gente simples via o dedo de Deus (Mt 12, 22-24).  Por outro lado, eles, os limpos de coração, são os que buscam a verdade e a encontrão e por isso verão a Deus em suas vidas porque Deus é a única verdade. Hebreus afirma que sem a santificação é impossível ver a Deus (Hb 12, 14). Não se trata unicamente do além, mas do tempo presente em que a premissa básica para encontrar o verdadeiro Deus é a pureza de intenção. Precisamente Jesus dirá que é no coração onde se prepara e cozinha a maldade (Mt 16, 19). A presença de Deus era o Templo, onde Deus estava assentado sobre os querubins da arca (1 Sm 4, 4). Agora o verdadeiro templo é o crente (1 Cor 3, 16), e só se Deus é adorado em verdade (Jo 4, 24) é que estará ali como estava sobre os querubins no antigo Templo (1 Sm 4, 4). E nesse templo interior Ele se manifestará.

OS QUE TRABALHAM  PELA PAZ: Ditosos os que trabalham pela paz [eirënopoioi] porque eles serão chamados filhos de Deus(9). Beati pacifici quoniam filii Dei vocabuntur. Os eirenopoioi grego, [pacifici latino], tem como tradução direta os que fabricam a paz, que infelizmente o latim traduz impropriamente por pacifici e que a maioria das bíblias adotou como pacífico; mas pacífico corresponde a 3a bemaventurança com o nome de praeis. Uma coisa é ser pacífico ou afável, e outra é trabalhar pela paz. Um comentarista diz que um trabalhador pela paz é um homem que experimentou a paz de Deus e pretende levar a mesma aos que com ele convivem. De fato, esta é a única vez que é empregada no NT. Serão chamados filhos, está no lugar de serão verdadeiros filhos de Deus. Precisamente, segundo Isaías, o filho que nos foi dado, terá como nome Emanuel [Deus conosco] será chamado Príncipe da paz (9,5). Esse Jesus que como rei da paz entra em Jerusalém montado num jumento e não num cavalo, montaria de guerra, para anunciar a paz às nações (Zc 9, 9-10). Os pacificadores são os verdadeiros continuadores do labor feito por Jesus, levam a paz entre os homens e a paz para com Deus. Trabalham como Jesus trabalhou, com o mesmo objetivo e o mesmo motivo: reconciliação e amor.

OS PERSEGUIDOS(10): Ditosos os perseguidos [Dediögmenoi] por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (10).  Beati qui persecutionem patiuntur propter iustitiam quoniam ipsorum est regnum caelorum. Dediögmenoi [pesecutionem patiuntur, perseguidos] é o particípio passado passivo do verbo diökö buscar ou acossar alguém de modo a ter que fugir por causa do acossamento.  Esta deveria ser a oitava e última bemaventurança, mas nos encontramos com um makarismo a mais, o nono. A justiça é como temos explicado no parágrafo de sede e fome de justiça, a correção de vida que se ajusta aos planos divinos, e que no AT consistia no cumprimento exato dos preceitos da Lei, como era o caso de José, esposo de Maria, que devia por lei denunciar Maria publicamente, mas pensava em repudiá-la ao modo antigo, ou seja, secretamente (Mt 1, 19). Jesus claramente abona a teoria de que a moral entra dentro dos planos divinos.

A JUSTIÇA DO REINO: Ditosos sois quando vos tenham reprovado e perseguido e dito palavra má contra vós mentindo por minha causa (11). Beati estis cum maledixerint vobis et persecuti vos fuerint et dixerint omne malum adversum vos mentientes propter mee.proach. Parece que este é o nono macarismo, porém os autores afirmam que ele é a explicação do oitavo, indicando qual é a justiça e a perseguição dos justos. De fato, neste último macarismo Jesus passa da terceira pessoa, em termos gerais, para a segunda pessoa dirigindo-se aos seus ouvintes: vós. A justiça é a que está representada na pessoa de Jesus [ por causa de mim]. A perseguição ou os perseguidos, do verbo dioko, são os buscados ou acossados pelos inimigos de Jesus, porque  atrás deles está o Mestre, como Ele disse a Saulo, perseguidor dos seus discípulos (At 9, 4): Saulo, Saulo, por que me persegues? O grego usa neste versículo o mesmo verbo dioko. Dentro da explicação, vemos que a perseguição implica a injúria, o acossamento e a mentira. Todos eles, os perseguidos,  pertencerão ao Reino e são os verdadeiros membros do mesmo, o constituem. A última bemaventurança promete a mesma recompensa do que a primeira: o Reino.

A RECOMPENSA: Ficai alegres e exultai porque vossa recompensa (é) grande nos céus. Assim também perseguiram os profetas, os anteriores vossos (12). Gaudete et exultate quoniam merces vestra copiosa est in caelis sic enim persecuti sunt prophetas qui fuerunt ante vos. A recompensa ou melhor o salário misthós  é uma remuneração que só Deus pode dar e que ninguém poderá diminuir ou anular, como é o tesouro que as riquezas bem repartidas adquirem para os que delas se desprendem. Assim podeis comparar-vos com os profetas que me precederam. A ação profética é precisamente o testemunho de suas vidas, aparentemente desperdiçadas inutilmente, maltratadas e vilipendiadas pelos que tinham a obrigação de ouvir e respeitar seus testemunhos. É uma profecia do que aconteceria após a morte e ressurreição de Jesus, do qual eles se tornariam testemunhas e profetas. Em todas as bemaventuranças, vemos alguma correlação com o AT. Jesus interpreta, pois, o AT de modo a encontrar o verdadeiro sentido do mesmo. Assim são válidas as suas palavras em Mt 5, 17: Não penseis que vim revogar a lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.

PISTAS: 1) Jesus [ou a Igreja primitiva] coloca as bemaventuranças no início da sua atuação pública, imediatamente após a escolha dos doze. Pelos detalhes de Mateus, elas ocupam o lugar dos mandamentos recebidos por Moisés no Sinai, ou seja, Jesus prega uma Boa Nova em oposição a Moisés que proclama uma lei de servidão.

2) É um evangelho positivo no qual Deus quer mostrar a sua face de bondade e salvação. E são precisamente esses homens passivos da ação divina que o mundo pensaria serem os de pior sorte, os que são beneficiados [makarioi, ditosos] pela riqueza e misericórdia de Deus.

3) Não se trata de uma moral nova a ser cumprida –à parte o capítulo V- mas de umas circunstâncias nas quais Deus quer se mostrar magnânimo e divinamente generoso. Por isso, as Bemaventuranças estão sendo proclamadas a todos os que de alguma maneira encontram em Jesus o seu Mestre e Salvador.

4) As bemaventuranças resumem o espírito evangélico, ou apresentam um modo novo de olhar para a realidade crua, dos discípulos de Jesus? Antes parece um juízo feito pela sabedoria divina dos momentos e das pessoas que nós consideramos desafortunados. Nessas situações tão indesejáveis, a esperança provém do olhar para a verdadeira essência das coisas: ver a realidade como Deus a vê.

5) As primeiras constituem a bênção de circunstâncias que podemos chamar de infortúnio. Estar nas mesmas não é um azar, mas uma sorte do ponto de vista da providência divina. As segundas implicam uma recompensa para determinadas virtudes que são essencialmente cristãs. Todas constituem a Boa Nova para necessitados ou almas de boa vontade. A Boa Vontade divina agora inclui a boa vontade humana.



25.10.2009
30º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Verde

__ “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Neste mês da Missões, rezemos nesta Eucaristia para que o Senhor faça descer sobre nós a força do Espírito Santo, a fim de que sejamos missionários da Palavra e do Amor de Deus, segundo a vontade do Pai.

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

SALMO RESPONSORIAL Sl 125: - "Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria! "

SEGUNDA LEITURA (Hebreus 5,1-6): - "Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec."

EVANGELHO (Marcos 10,46-52): - "Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!"



- "SENTADO Á BEIRA DO CAMINHO"
    (por Diácono José da Cruz)

Há uma canção de Roberto e Erasmo Carlos, que eu vivia cantarolando nos meus tempos de jovem, quando tomado por alguma tristeza ou decepção, o poeta compositor da letra, fala de alguém, que por conta de uma decepção amorosa, desistiu de viver e ficou sentado á beira do caminho, onde até a poeira é triste. A dinâmica da vida nos impele a caminhar, quem não se deixa contagiar por esse dinamismo, acaba ficando fora do processo, a letra da canção mostra bem esse sentimento de que não existimos, quando a pessoa a quem amamos permanece indiferente “Preciso lembrar que eu existo....”. Quem é esse cego Bartimeu, mendigando amor á beira de um caminho, senão o próprio homem, que não conhecendo a Deus revelado em Jesus, lhe permanece indiferente? A pós modernidade oferece ao homem Muitas “luzes” na ciência, na tecnologia, no avanço das pesquisas, acontece que o ser humano, apropriando-se desses bens, que são dons de Deus, julga ver tudo, compreender tudo, e sentindo-se Senhor absoluto da situação, pensa e faz o que quer, usa sua liberdade da pior maneira possível e fazendo coro ao racionalismo dos intelectuais, decreta a morte de Deus. Entretanto, um belo dia este homem prepotente e arrogante, irá descobrir-se como este cego de Jericó. Tem tudo mas não tem a graça de Deus, que Jesus trouxe com a Salvação. Nesse sentido não se conhece, porque não conhece a Jesus, é cego, porque não viu em sua vida a luz da verdade, está a margem da verdadeira vida, é um milionário mendigando um pouco de amor áquele que é amor.

Em um coração e uma alma, ferida pela descrença, agonizante de vida e esperança, é que sai esse grito de Bartimeu, ao saber que Jesus de Nazaré passava por ali, bem ao lado de onde ele expunha aos que passavam, a sua miséria vergonhosa. “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!”. Foi assim que Jesus, o Verbo Encarnado de Deus, encontrou o homem, morto pelo pecado, andarilho e mendigo á beira da estrada da Vida, sem forças para caminhar, em sua cegueira tenebrosa. No canto da Verônica, no caminho do calvário, inverte-se esse quadro e Jesus ocupa o lugar que é do homem “Oh Vós todos que passais, vinde ver se há uma dor igual a minha...”

Na verdade é a humanidade toda que estava á beira do caminho, sucumbida em sua miséria, quem passa é Jesus, que não fica indiferente as nossas chagas e feridas, como o Sacerdote e o Levita, na parábola do Bom Samaritano, que ouviu por certo os gemidos daquele homem caído á beira do caminho, Jesus também ouviu nossos lamentos e queixumes, o grito desesperado de quem perdeu quase toda a esperança, “Senhor, Tende compaixão”.

Sempre haverá vozes contrárias, tentando abafar esse grito de quem já não encontra mais razão para viver, há aqueles que como esse grupo numeroso que segue a Jesus, querem dele se apossar, fecham o anúncio e a graça em suas “Igrejinhas particulares”, idealizam um Jesus exclusivo que só atende a eles, os santos, justos e perfeitos, é o grito dos casais em segunda união, talvez, é o grito de tantas jovens mães solteiras, de drogados e prostituídos, de pessoas rotuladas como irrecuperáveis, banidos de nossas relações, explorados pelo sistema pecaminoso, e oprimidos muitas vezes pelo próprio poder religioso, de tantas igrejas que se intitulam de “Cristãs”.

O grito de desespero não passa despercebido por Jesus, quando o seu povo gemia sob o chicote dos Faraós do Egito, Deus ouviu, viu e desceu para libertá-los. A Igreja de Cristo não pode tapar os ouvidos diante de tantos que gritam, as vezes dentro da própria comunidade, a Igreja de Cristo não pode abafar o clamor dos pequenos que perderam a esperança e a ela recorrer, deve ser aquela que chama o cego, o acolhe em seu meio, coloca as pastorais a disposição para lhe curar as feridas, e mais ainda, o encoraja a fazer esse encontro pessoal com aquele que é a Vida, a Verdade, o caminho . Coragem! Levanta-te, Ele te chama! Jesus chama esse homem cego, morto, como um dia chamou a Lázaro, inerte no fundo de uma sepultura. O chamado de Jesus é para a Vida, para desencostarmos do barranco do comodismo, e de olhos bem abertos, na visão da Fé, abraçar o discipulado com coragem e desprendimento.

Impressionante a reação do cego, ao saber que Jesus o chamava, sentiu-se importante, deu um salto e foi ter com ele, jogando a capa de lado. Era a única coisa que possuía, mas despojou-se dela ao conhecer Jesus, ao descobrir-se amado e querido por Deus, ao sentir que todo esse amor está presente em Jesus, redobra a força e a coragem, descobre a nova razão de viver, por isso consegue “pular” do seu canto, Jesus é o seu protetor, o seu amor o envolverá totalmente, não precisa mais de nenhuma outra capa.

O seu desejo de VER, manifestado com simplicidade diante de Jesus, foi atendido, “Vai, a tua fé te salvou” – lhe dirá o Senhor. Ir para onde? Para o caminho do discipulado. Salvos pela fé, todos os que fizeram e fazem, essa experiência de ter uma nova visão, no encontro pessoal com Jesus, tornam-se seus discípulos, ontem e hoje, e todos juntos, enquanto Igreja, deixam-se conduzir pelo dinamismo desta vida nova, percorrendo as estradas do mundo, para encorajar os que estão á margem, e chamá-los para se encontrarem também eles com Jesus, a Luz Verdadeira, diante da qual as trevas não resistem.... (XXX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 46-52)

José da Cruz é diácono permanente
da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim
e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Comentário Exegético - XXX Domingo do Tempo Comum (Ano B)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Segunda Leitura (Hb 5, 1-6)

INTRODUÇÃO: Temos na epístola de hoje dois traços característicos do sacerdócio de Cristo: O primeiro é sua abertura e compaixão com os errantes e desgarrados que Ele mesmo afirma ao dizer que veio como médico para os enfermos (Mc 2, 17) e para as multidões cansadas e desanimadas, como ovelhas sem pastor (Mt 9, 36). Como verdadeiro homem, ele sabia das dificuldades e problemas dos ignorantes e extraviados. A sua experiência era a vida em comum com os demais homens, de modo a afirmar: A quem compararei esta geração? (Mt 9, 36). E ele a considera malvada e adúltera (Mt 12, 39).   Por outra parte, sempre teve compaixão do povo  (Mt 14, 14) de modo que a cura das doenças foi o sinal dado ao Batista (Mt 11, 4). O segundo traço é que foi chamado pelo Pai, como servo para o sacrifício. Ele sempre pensa nessa hora crucial em que o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores (Mt 26, 45), porque veio dar a vida pela liberação de todos (Mt 20, 45). Seu sacrifício foi um ato de obediência até a morte e morte de cruz (Fp 2, 8). Será a conclusão de outro teólogo dos primeiros tempos: Deus nos amou e enviou seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados(1Jo4,10).
SUMO-SACERDOTE:Pois todo Sumo-Sacerdote,tomado dentre os homens, está constituido [kathistatai=constituitur] em favor de [uper=pro] (os) homens diante [pros=ad] de Deus,para oferecer tanto dádivas [döra=dona] como sacrifícios [thusias=sacrificia] por pecados (1). Omnis namque pontifex ex hominibus adsumptus pro hos minibus consdaituitur in his quae sunt ad Deum ut offerat dona et sacrificia pro peccatis.
CONSTITUIDO: Do verbo Kathistëmi com 22 entradas no NT, com os significados de ordenar, apontar, constituir, colocar. Um exemplo é Mt 24, 25 em que um escravo é constituído como fiel e prudente chefe para cuidar de seus colegas. Também vemos em Mt 25, 21, quando como prêmio o Senhor o constitui chefe sobre várias cidades ou em Lc 12, 14. Na carta que estamos comentando, aparece em 2, 7: de glória e honra o coroaste e o constituíste, sobre todas as obras de tuas mãos.
OFERECER: O verbo Prosferö é usado 48 vezes no NT. Seu significado é conduzir, levar a como em  Mt 4,24: trouxeram-lhe então todos os doentes. Ou oferecer dádivas como em Mt 2, 11: Os magos, abrindo seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas. Propriamente, unido ao sacrifício, é Mt 5, 23: Ao trazeres ao altar a tua oferenda.
As OFERENDAS, Döra. Em Mt 5, 23 Jesus fala da oferta trazida ao altar. Pão, vinho e azeite eram propriamente as oferendas comuns. A Lei exigia certas oferendas como a dos leprosos curados (Mt 8, 4), a dos primogênitos e outras que em hebraico estavam sob o nome de Korban [=presente, ou oferta], que aparece no AT (Lv 1, 3 por exemplo). E dentro das ofertas em metálico que se introduziam no Gazofiláceo [do grego gaza= tesouro e filax= guarda] como esmolas, rendas ou riquezas no templo de Jerusalém (Lc 21, 1), que Jesus observou até louvar uma pobre viúva por depositar 2 leptons [=ligeiro ou leve, de onde as partículas subatômicas].
SACRIFÍCIOS: Em grego Thusia em que a oferenda era uma vítima que devia ser morta, como indica o verbo Thuö que indica oferecer sacrifícios, primariamente do fumo de incenso [thumos], obtido através de ser queimado, como eram as vítimas dos sacrifícios cruentos. Os incruentos eram pão, azeite, vinho e incenso. Os pães da preposição e o incenso tinham seus altares próprios. Os sacrifícios cruentos, tinham estas ações em comum:1-Apresentação da vítima.2- Imposição de mãos sobre a mesma. 3-Degolamento da vítima. 4-Aspersão do altar com o sangue [unicamente pelos sacerdotes] (verdadeira função sacerdotal, na qual consistia a essência do sacrifício). 5- Queima da vítima.  O número 4 era  a raiz e princípio do sacrifício, segundo a tradição judaica; pois a vida da carne está no sangue e eu mesmo vo-lo tenho dado sobre o altar para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida (Lv 17. 11). Tudo isto serve para entender passagens de João e Paulo que são comentários teológicos de Cristo, como Sacerdote e vítima, assim como os correspondentes nesta carta aos Hebreus. As categorias do sacrifício cruento eram três: 1-Holocausto, queima total exceto a pele e o músculo da cadeira. Era o sacrifício contínuo que devia ser feito duas vezes no dia: de manhã e ao anoitecer. 2- Expiatórios, dividos em razão pecado e da culpa. O primeiro orientado à absolvição do pecado (expiação) e o segundo à restituição do dano cometido (Satisfação) [ambos incluídos na cruz]. 3- Oferendas de paz [Shelamim], divididas em sacrifício de louvor, cumprimento de um voto e oferendas voluntárias. O sacrifício da cruz foi de expiação e logo se transformou em pacífico na Eucaristia, como sacrifício de Louvor.

COMPAIXÃO: Sendo capaz de compadecer-se [metriopathein=condolere] com os ignorantes [agnoosin=qui ignorant] e os que erram [planömenois=qui errant] já que também ele está rodeado [perikeitai=circundatus] de fragilidade (2). Qui condolere possit his qui ignorant et errant quoniam et ipse circumdatus est infirmitate.
COMPADECER-SE: Metriopathein é um apax de Hebreus traduzido por condolere em Latim, ou compadecer-se. Embora seja esta tradução imprópria, pois a compaixão não é externa como quem olha as doenças de um enfermo ou as necessidades de um mendigo, senão como quem as sofre juntamente com eles. Seria pois, compartir ou melhor ter compreensão ou estar em simpatia com.
IGNORANTES: Do verbo Agnoeö que significa ser ignorante, desconhecer e daí, errar por ignorância.
DESGARRADOS: Planömenoi os que comentem pecado por fragilidade, não por soberba. Parece que o autor tem em consideração o texto evangélico do pecado contra o Espírito Santo, que tem como raiz a soberba de não querer admitir outra causa fora da própria razão, que o iludiu a admitir como maldade, fatos que só procediam da bondade divina. De fato o texto está apontando a um Sumo-Sacerdote humano, tanto em suas debilidades, quanto em sua compreensão das fragilidades alheias. Ele vive no meio de todas elas e por isso sabe compreendê-las, senão justificá-las.

OBRIGAÇÃO: E por isso, teve [ofeilei=debet] como pelo povo, assim também por si mesmo oferecer [prosferein=offefe sobreerre] por (os) pecados(3). Et propter eam debet quemadmodum et pro populo ita etiam pro semet ipso offerre pro peccatis. Continha a descrição do Sumo-Sacerdote hebraico do AT que era obrigado [Ofeilei] a oferecer sacrifícios [Prosferein] pelos pecados do povo como também pelos próprios. O verbo Ofeilö indica um dever moral muito mais do que uma necessidade física ou biológica. Já temos explicado no versículo anterior, o tipo de sacrifício que devia ser feito pelo pecado e a satisfação devida à culpa correspondente. O parágrafo atual indica a necessidade do sacrifício, pois o pecado é universal e a culpa é tão geral como o pecado do qual procede.

VOCAÇÃO: E não para si mesmo alguém toma a honra, mas o chamado por(o) Deus como Aarão(4). And no one takes the honor to himself, but he being called by God, even as Aaron also. Com a comparação do chamado de Aarão, segundo Êx 28, 1 e seguintes, de modo especial a lâmina de ouro gravada com o título Consagrado ao Senhor, como o primeiro Sumo-Sacerdote da estirpe sacerdotal, cuja roupagem e atributos são descritos em Êx cap 28-29, o autor diz que este monopólio é uma vocação do alto.

O CASO DE CRISTO: Assim também o Cristo não glorificou [edoxasen=glorify] a si mesmo ao se tornar  Sumo- Sacerdote, mas aquele que lhe falou Filho meu és tu; Eu hoje te gerei (5). Assim como também em outro (lugar) diz: Tu, sacerdote para a eternidade, segundo a ordem de Melquisedeque(6). Sic et Christus non semet ipsum clarificavit ut pontifex fieret sed qui locutus est ad eum Filius meus es tu ego hodie genui te. Reus
GLORIFICOU: O verbo Doxazö é traduzido por honrar, magnificar, glorificar, exaltar, elogiar. É o verbo usado para dar graças ou glorificar a Deus após um fato milagroso (Mt 15, 31 ; Lc 2, 20) e Jesus com respeito a sua ressurreição como restituído uma glória aparentemente escurecida na cruz (Jo 7, 39). Jesus mesmo diz de si que ele não se glorificava [não se exaltava] a si mesmo; mas era o Pai que tal o fazia (Jo 8, 54). Aqui a glória é o ofício e ministério de Sumo- Sacerdote, que era o máximo benefício e incumbência entre os judeus. Uma honra, mas também uma responsabilidade que não pode ter origem na própria iniciativa. A razão é que foi escolhido por Deus, como falou pelo profeta: Filho meu és tu; eu hoje te gerei (Sl 2, 7). Este texto foi anteriormente citado em 1, 5 para indicar a superioridade de Cristo sobre os anjos. Também o cita Paulo em seu discurso de Antioquia de Pisídia para provar a ressureição de Jesus Cristo (At 13, 33). Desta vez é para provar o chamado de Cristo para o Sumo-Sacerdócio. Existem duas questões,  nestas citações: Primeira, que significado histórico-literal tem cada uma das citações e segundo: quando foram pronunciadas, ou melhor quando na vida de Cristo essas qualidades tiveram confirmação. Vejamos por partes: A) Tu és meu Filho; eu hoje te gerei: O salmista fala do Messias como sendo um rei que no dia de sua coroação é declarado por Jahveh como seu Filho, a quem glorifica como rei de todas as nações. Mas como afirma o salmo 110, 4: O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, à maneira de Melquisedec, cuja citação Hebreus traz em seguida, esse rei messias é também sacerdote e não da ordem de Aarão mas de Melquisedec, sem fim ou eterno, ou seja sem necessidade de ter descendência por ser eterna a sua própria vida. E Melquisedec tinha ambos os ministérios em sua pessoa de rei e sacerdote. A  comparação com Melquisedec é tomada pela epístola aos hebreus em 9 ocasiões diferentes na mesma carta. Dirá o autor que aparece sem pai nem mãe e sem antepassados, nem se conhece o nascimento nem a morte; a semelhança do Filho de Deus permanece sacerdote para sempre (7, 3). B) Pelo que diz respeito a tu és meu Filho temos os dois textos do batismo (Mt 3, 17) e da transfiguração (Mt 17, 5). E sobre o sacerdócio de Jesus temos as suas palavras na última ceia: eis meu sangue, derramado em prol da multidão, para o perdão dos pecados (Mt 26, 28 e Lc 22, 20 e 1 Cor 11, 25).

Evangelho (Mc 10, 46b-52)

CURA DO CEGO BARTIMEU

SIMBOLISMO DA CEGUEIRA: Do cego biológico podemos passar em todas as línguas ao cego espiritual que não vê ou não quer ver fatos, causas e razões, por outro lado tão óbvias, que resultam claras opções e argumentos [fundamentos] da verdade. Por isso o cego material é um símbolo do cego espiritual. Com referências aos cegos materiais, temos nos evangelhos 12 delas. Dois casos de cura em Marcos: o cego de Betsaida (8,22-23) e o cego de Jericó que é nosso caso (10, 46-52). As outras referências estão repartidas nos outros evangelhos. Sobre os cegos de alma, temos nos evangelhos 6 lugares de referência. Nenhuma delas em Marcos, 3 em Mateus, 2 em Lucas e uma em João; esta última, como reflexão sobre a cura do cego da piscina de Betesda. Os cegos do evangelho são os fariseus (Mt 15,14 e 23,16-26 e Lucas 6,39 e Jo 9,39-41). O texto mais discutido é o de Lucas 4,18. Os exegetas comentam que Lucas cita Is 61,1. Mas neste texto de Isaías que começa com O espírito do Senhor está  sobre mim não aparece a cláusula “dar vista  aos cegos” (tyflois anablepsein) a não ser na tradução dos Setenta. Jerônimo, na sua tradução direta do texto hebraico do seu tempo, não traz essa cláusula, terminando com praedicarem captivis indulgentiam et clausis aperitionem (pregar aos cativos o perdão e aos encarcerados a liberdade). Pelo texto paralelo de Is 42, 1-7 vemos que o Senhor chamou o “servo (referindo-se ao povo de Israel) para o serviço da justiça, como luz das nações, a fim de abrir os olhos dos cegos, a fim de soltar do cárcere os presos e da prisão os que habitam nas trevas”. Evidentemente este texto fala em termos metafóricos. Em Is 29, 18 lemos: “Naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e os olhos dos cegos, livres da escuridão e das trevas, tornarão a ver” (as palavras). São cegueira e surdez metafóricas. O texto latino de Jerônimo e o texto grego dos Setenta avaliam esta  interpretação contrária a da bíblia de Jerusalém que traduz: “Os surdos ouvirão o que se lê e os olhos dos cegos, livres da escuridão e das trevas, tornarão a ver”. Esta  tradução poderia ser entendida em termos materiais de cura de doenças biológicas, o que não corresponderia à realidade. Um outro texto do cântico do servo é Isaías 42,16. Nele temos uma alusão metafórica: “Guiarei os cegos por um caminho que não conhecem”. Metafórica e altamente idealizada é a passagem de Is 35, 5-6 em que se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Um último texto também metafórico é o de Jeremias 31, 8, indicando a facilidade da volta por caminhos sempre perigosos: “Eis que os trarei da terra do Norte e os congregarei….e entre eles também os cegos e aleijados, as mulheres grávidas e as de parto, em grande congregação, voltarão para aqui”. De todos estes textos deduzimos que os cegos são dois tipos alegoricamente diferentes dos biológicos: o primeiro formado por aqueles que não podem ver a luz porque estão dentro de masmorras que não tem luz; e o segundo grupo é formado por cegos que estão no caminho errado. Em Jeremias, realmente são os cegos materiais, porém qualificados como deficientes que não serão impedidos de voltar para Jerusalém após o exílio.

CONCLUSÃO: em todos os textos estudados há uma base comum: a volta do exílio, o júbilo e alegria pela nova fase de Israel, que era como uma vitoriosa e nova realidade que apontava aos tempos messiânicos. Se os cegos dos textos eram metafóricos e o fato da volta totalmente real, já nos tempos messiânicos os cegos eram reais e a nova realidade metafórica e virtual: o reinado de Deus por meio de Jesus, o Cristo. Por isso os velhos textos têm uma válida interpretação como profecia messiânica, plenamente realizada em Jesus de Nazaré, como o Cristo, Messias ungido de Jahvé. A oração do cego Bartimeu, Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim, é conhecida como a oração do coração ou oração do nome de Jesus. Do Oriente passou ao Ocidente para ser repetida em forma de ladainha ao rítimo das batidas do coração. Nasce da confiança em Jesus e produz uma grande paz interior. Por isso, no fim trataremos da cegueira espiritual tão abundante no mundo moderno.

JERICÓ: E chegaram a Jericó. E estando ele saindo de Jericó junto com seus discípulos e numerosa multidão, um filho de Timeu, Bartimeu, o cego, estava sentado, ao lado do caminho, mendigando (46). Et veniunt Hierichum et proficiscente eo de Hiericho et discipulis eius et plurima multitudine filius Timei Bartimeus caecus sedebat iuxta viam mendicans.

JERICÓ: Era uma cidade do vale do rio Jordão na sua ribeira ocidental, a 8 Km da costa setentrional do Mar Morto e aproximadamente 27 km de Jerusalém. Jericó está situada na parte inferior da subida que conduz à montanhosa meseta de Judá. Era conhecida como a cidade das palmeiras (Dt 34,3). A primeira menção nas Escrituras se encontra em relação ao acampamento dos israelitas em Sitim (Nm 22,1). No começo do reinado de Herodes, os romanos saquearam Jericó. Depois, Herodes a embelezou construindo um palácio de inverno e sobre a colina da cidade levantou uma cidade que chamou de Cipro. A cidade está a 240m sob o nível do mar Mediterrâneo, num clima tropical, onde crescem as palmeiras, o bálsamo, o ligustro e os sicômoros. A antiga Jericó estava perto de abundantes águas [na atualidade ‘Ain es-Sultã], a fonte que Eliseu sarou (2Rs 2, 12-22). A Jericó moderna [Er-Riha] está a 1,5Km ao Sudeste da fonte. A parábola do bom samaritano está situada no caminho de Jerusalém a Jericó (Lc 10, 30). Zaqueu era o chefe dos publicanos da cidade Lc 19, 1-2). E agora temos a cura do cego Bartimeu.

BARTIMEU: Era um cego, bem conhecido pela primeira comunidade cristã, transformado em seguidor de Jesus após a sua cura. Daí que seu nome fosse conhecido e apresentado como testemunha de um fato extraordinário para confusão dos que duvidavam de Jesus como eram as multidões que o acompanhavam. O nome significa filho de Timeu, um composto de aramaico e grego, pois bar significa filho, e Timeu,  do verbo grego timaö, significa distinguido, honrado, respeitado. A condição dos cegos na época era de mendigos, junto com os coxos ou aleijados. Além da extrema miséria em que viviam, eram considerados malditos de Deus por serem vistos como objeto da vingança divina pelo pecado de seus pais (cegos de nascimento) ou próprio (cegos quando adultos) (Jo 9,2 e 34). Os cegos eram numerosos em Israel, devido a duas doenças incuráveis na época: o tracoma, causado pela Clamydia trachomatis um bacilo transmitido em muitos casos por uma mosca abundante no norte da África, e o glaucoma, ou pressão alta no glóbulo ocular. Para o cego, não existia outra forma de vida senão pedir esmolas à beira dos caminhos ou à entrada do templo como no caso do cego de Jo 8,59 e 9, 1.

A PETIÇÃO: E tendo ouvido que Jesus, o Nazareu [Nazöraios<3480>=Nazarenus] é, começou a gritar e dizer: O filho de Davi, Jesus, tem compaixão de mim(47). Qui cum audisset quia Iesus Nazarenus est coepit clamare et dicere Fili David Iesu miserere mei. Antes da petição, Bartimeu grita o motivo de sua fé: Filho de Davi! Era o aposto de Jesus (47). Sabia Bartimeu que o nome de Jesus a quem logo chamará rabboni (meu mestre), significava Deus cura? Esperava que o Messias, cujo título estava incluído em Filho de Davi, tivesse poderes de cura? Seus gritos e sua insistência nos indicam que sim. Provavelmente Bartimeu sabia da cura dos dois cegos em Betsaida, no norte de Galileia (Mt 9,27). Por isso ele pede a maior esmola em termos materiais e espirituais: ver. Esse ver que nos momentos de sua agonia final Goethe também almejava. Quando sua visão terminava e sua vida se extinguia, ele exclamou, segundo dizem: Luz, mais luz. Mas voltemos ao nosso cego. A fé que Jesus pedia era a fé em sua pessoa como enviado de Deus (Jo 6, 57), em sua missão como Messias, e um destes títulos, era Filho de Davi. Nos evangelhos temos este título como parte do messiado de Jesus. Já Mateus inicia o seu evangelho chamando a Jesus filho de Davi, filho de Abraão (1,1). Hoje, nos deixam indiferentes as duas genealogias. Mas devido às calúnias dos fariseus que o delatavam como filho de um legionário romano, indiretamente são uma apologia, além de ser uma verdade teológica indiscutível.
NAZARENO: Aqui o sobrenome é Nazöraios<3480>, que o latim traduz por Nazarenus, indicando lugar de origem: de Nazaré. E que, como é nome, portanto deveria ser traduzido por o Nazareno. Sai 15 vezes no NT. O outro termo Nazarënos <3479> é adjetivo e só sai em Marcos e Lucas, 4 vezes no total. A tradução seria Nazareno. Desta circunstância servem-se os críticos modernos para duvidar não só de que nascesse Jesus em Belém, mas de toda a história de sua infância tanto em Mateus como em Lucas. A resposta é Mt 2, 23: foi habitar numa cidade chamada Nazaré para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele será chamado Nazareno <3480>[=Nazareus]. Me lembra o fato a mim acontecido. Nascido numa pequena aldeia da Rioja [região da Espanha], morava em Bilbao, capital do norte. Durante o início da guerra civil, tive que morar na aldeia nativa; mas todos me chamavam o bilbaino, embora por nascimento eu era mureño, da aldeia onde então morava.
FILHO DE DAVI: Sem dúvida, que era um título messiânico, como vemos claramente em Mt 12, 23 e 20, 31. A pergunta de Jesus aos fariseus: como é que os escribas afirmam que o Messias é filho de Davi (Mc 12, 35; Mt 22, 42 e Lc 20, 41), dá lugar à semelhante título. Através da profecia de Natã (2 Sm 7, 12-16), Israel espera um grande rei, descendente de Davi, poderoso e triunfador, que fará realidade as promessas de Deus de liberdade e salvação do seu povo. Jesus não quis utilizar este título, se conformando com o do Filho do Homem, que respondia à visão de Daniel (7, 13). A primeira vez que filho de Davi é usado é por dois cegos de Cafarnaúm (Mt 9,27 ) Devido aos milagres, o povo  comentava: Não será este o filho de Davi (= messias)? (Mt 12,23). Será depois a vez da mulher sirio-fenícia que também clamará: “Tem compaixão de mim, Senhor, filho de Davi!” (Mt 15, 22). Como rei, não teria o Messias poderes curativos especiais; mas também se atribuíam ao Messias características proféticas (Is 42, 1-7), especialmente o de dar vista aos cegos, que já temos explicado anteriormente. Dai o grito de Bartimeu, completamente bíblico (Is 42, 1-7). O próprio Jesus ao dar a reposta a João sobre se era ele o que tinha que vir, responde: “Os cegos veem, os coxos andam” (Mt 11,5). Estas últimas considerações nos levam a concordar com os cegos, de modo especial quando para a sua cura eles se dirigem a Jesus com um título messiânico, o mais comum: o de filho de Davi. Por isso, no momento em que Jesus entra em Jerusalém sobre um jumento, a multidão gritava: Hosana  ao filho de Davi! (Mt 21, 10).

POR FIM: E o repreendiam muitos para que calasse; mas ele muito mais gritava: Filho de Davi, tem compaixão de mim!(48).E parado de pé, Jesus disse: chamai-o; e chamaram o cego,dizendo-lhe: ânimo, levanta, te chama!(49). Et comminabantur illi multi ut taceret at ille multo magis clamabat Fili David miserere mei. Et stans Iesus praecepit illum vocari et vocant caecum dicentes ei animaequior esto surge vocat te. Os gritos do cego deviam ser tais que molestavam a multidão. Como não podia ver, é possível que começasse a gritar quando Jesus ainda se encontrava distante dele. E quando o Mestre parou, [o stas grego que é traduzido corretamente pelo stans latino, significando estando parado de pé], Jesus, próximo a ele e rodeado pela multidão, manda que se apresente. Os que lhe comunicam o pedido lhe dão ânimo, pois conheciam perfeitamente o poder do Mestre. O relato é vívido e detalhista como de quem recorda momentos pontuais de sua vida.

BARTIMEU SE LEVANTA: Ele,pois, jogando a capa, levantando-se veio até Jesus (50). Qui proiecto vestimento suo exiliens venit ad eum. A CAPA: Era o vestido externo que servia de cobertor durante a noite e como blusa de frio em tempos de baixas temperaturas. O detalhe é único em Marcos ao qual segue Lucas, mas sem as particularidades próprias de uma testemunha ocular. Esse detalhe indica a confiança e prontidão que Bartimeu tinha em ser curado por Jesus.

MESTRE: Rabboni , que veja (51). et respondens illi Iesus dixit quid vis tibi faciam caecus autem dixit ei rabboni ut videam. Para Mateus eram dois os cegos e sua cura foi feita com menos detalhes; também Lucas ignora pormenores que em Marcos parecem importantes. Um deles é o título Rabboni [Mestre meu] de origem aramaica, que é familiar, ao mesmo tempo que respeitoso, e que unicamente vemos em Jo 20, 16 ser usado por Maria, a Madalena. Outros dizem que Rabboni é usado em termos mais formais e solenes que rabbi, e muitas vezes é usado dirigindo-se a Deus. Significa o mesmo que a expressão Kyrios em Mt 20, 23 e Lucas em 18, 41. É um reflexo da expressão de Tomás: Meu Senhor e meu Deus.
QUE VEJA: Lucas usa o mesmo verbo para a cura: anablepö, propriamente recobrar a vista. Foi cego por causa de uma doença adulta? Na Koiné raramente se usam os verbos em sua forma simples e se preferem os prefixos que não atingem o significado primitivo. Mateus usa que se abram nossos olhos (20, 33). Podemos, pois, ficar com o significado que veja, [tradução  da Vulgata] embora a tradução preferida pelos evangélicos seja que torne a ver (RA). Mais uma vez a Vulgata resulta uma tradução literal exata quando tem sido tão denegrida em tempos modernos!

A FÉ: Jesus, pois, lhe disse: Vá, tua fé te salvou. E imediatamente viu e acompanhava a Jesus no caminho (52). Iesus autem ait illi vade fides tua te salvum fecit et confestim vidit et sequebatur eum in via.

A FÉ: Desta vez Jesus não exige a fé como em outros milagres, porque a fé exigida não era sobre a possibilidade da cura, mas a fé na pessoa de Jesus, acreditando no poder deste último por ser o representante do Deus vivo, por ser o Messias. Aqui a fé precede o milagre não o acompanha. Antes de pedir a cura, Bartimeu acredita em Jesus como Messias e pede para si o que os profetas do Messias prometiam:a cura dos cegos. Por isso, Jesus pede unicamente que queres de mim (51), o que é confirmado pelos outros dois evangelistas. É essa fé que Pedro não perderá porque Jesus orou para ele (Lc 22, 32), a mesma fé no nome de Jesus, que revigorou os pés do tolhido (At 3, 16).

O SEGUIA: Precisamente, o milagre confirma a fé do cego como sucede muitas vezes com os crentes e por isso ele segue Jesus, a quem chamou mestre e Senhor. Para seguir realmente a Jesus é preciso abrir os olhos e curar a cegueira espiritual que possuímos e dissipar as trevas que nos rodeiam. Chesterton dirá: “Um crente é um homem que admite um milagre se si vê obrigado pela evidência. Porém um não crente é alguém que nem aceita discutir porque lhe obriga a isso a doutrina que professa e à qual não pode contradizer”.

PISTAS: A fé do cego nos obriga a uma reflexão profunda neste mundo em que é mais fácil não querer ver que abrir os olhos.

1) Um prelado da Igreja afirma que temos esquecido em favor da Segunda Tábua os mandatos da Primeira: o amor a Deus e a santificação das festas. Somente 20% dos católicos assistem à missa aos domingos. O agnosticismo moderno tem substituído a Providência divina pelo acaso de forças imprevisíveis, os valores e princípios éticos pelas oportunidades e proveitos individuais. A humanidade não tem um caminho de direção a seguir, mas está perdida em abrir passos às cotoveladas para ter maior espaço para os mais fortes.

2) Temos substituído a fé em Deus pela crença na ciência. O homem se considera dono da vida especialmente nos dois momentos mais frágeis da mesma: na hora de nascer e no decurso do seu declínio. Um terço da humanidade (infantes e idosos) está sendo descartada ou por indefesa ou por ser inútil. O valor de quem aparentemente não vale nada só pode ser cotizado como dignidade humana quando visto pela verdadeira família ou pela fé em Deus e Cristo.

3) A família é outro dos grandes valores que o mundo moderno além de não reconhecê-lo, o dificulta ainda mais. Desde que o prazer do sexo pode ser separado do princípio da fecundação, a família perdeu sua consideração como base da vida. O cardeal de Viena afirma que a postura de João Paulo II em favor da família tradicional é profética. Como toda profecia é palavra que denuncia um mal e prediz uma ruína e uma catástrofe que só a Providência Divina pode remediar e salvar.

4) O sentido do amor verdadeiro está se perdendo  com tantos programas para reforçar o prazer e evitar a responsabilidade. A responsabilidade se transforma assim em liberdade e esta em libertinagem.



27.09.2009
26º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Verde

__ “JUNTOS, FAZENDO TUDO PELO REINO” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Hoje, em todo o Brasil, comemoramos o dia da Bíblia. Ela é o livro sagrado por excelência, porque contém a Palavra de Deus. É nela que estão as mais belas orações, inspiradas por Deus. É dela que tiramos as lições para nossa vida e para transmiti-las aos nossos filhos. Ela é a fonte de nossa fé. É nela que encontramos os fundamentos de nossa Igreja. Recebemos os sacramentos porque a Bíblia nos fala deles. As leituras de hoje nos ensinam que muitos são os carismas que Deus distribuiu entre os homens e que devem ser postos a serviço, para tornar Deus conhecido de todos. Nesta próxima sexta-feira toma posse, como quarto bispo de nossa Diocese, D. Celso Antonio Marchiori. Rezemos nesta Eucaristia para que o Senhor faça descer sobre ele a força do Espírito Santo, a fim de que seja o pastor, segundo a vontade do Pai.

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

SALMO RESPONSORIAL Sl 19(18): - "A lei do Senhor Deus é perfeita, alegria ao coração."

SEGUNDA LEITURA (Tiago 5,1-6): - "São Tiago usa expressões violentas contra os ricos que se enriqueceram ilícita e injustamente."

EVANGELHO (Mc 9,38-43.45.47-48): - "A boa notícia de hoje é esta: quem não é contra nós é por nós. Mas o recado mais forte é: ai de quem escandaliza alguém levando-o ao pecado."



- "NÃO O PROIBAIS!"
    (por Diácono José da Cruz)

Sempre tive um espírito ecumênico, desde a minha infância nos anos 60, quando os ânimos eram muito acirrados entre nós católicos e os cristãos de outras Igrejas. Meu saudoso Pai, de quem herdei o legado da fé e das virtudes do evangelho, era de linha tradicional e na casa de esquina em que morávamos na Vila Albertina, quando os irmãos evangélicos nas tardes de domingo vinham fazer suas reuniões com pregações e hinos, ele nos levava para os fundos do quintal para que não corrêssemos o risco de nos desviar da fé católica.

Certa ocasião, fui em um culto festivo da Igreja Presbiteriana e descobri que lá também falavam de Jesus e do seu santo evangelho, e a partir daí, na minha cabeça comecei a questionar: por que nós os chamávamos de “irmãos separados”? De 1995 a 2003, coordenei a Dimensão Ecumênica Diocesana a pedido do Bispo D. José e incentivado pelo Padre João Alfredo. Participei do grupo do falecido D. Amauri – que coordenou esta dimensão no Regional Sul 1 da CNBB. Com ele muito aprendi e em nossos encontros anuais em Itaici, que reunia trezentas pessoas de treze Denominações religiosas diferentes, vivíamos um verdadeiro céu de comunhão e alegria, amadurecendo assim o meu ideal ecumênico.

Os cristãos mais tradicionalistas, tanto católicos como evangélicos, muitas vezes não vêem com bons olhos o ecumenismo. Os mais fanáticos e radicais inventam mil e um argumentos para não se “misturarem” com quem não aceita e não professa as verdades da sua igreja, preferindo ver na pessoa do outro um inimigo da fé. Quanta falta de caridade e quanta ignorância!

Fechados em suas velharias religiosas não conseguem perceber que a graça e a Salvação que Jesus nos trouxe, está acima de qualquer doutrina ou instituição humana. Anunciam um Jesus, que com sua morte e ressurreição fez do Judeu e do pagão um só homem, entretanto vivem divididos por causa da intolerância e da crença em um céu particular e exclusivo, que receberão das mãos do próprio Deus como “prêmio” pela sua virtude e fidelidade. Esbarrei e convivi com pessoas assim na minha igreja e nas demais que andei visitando, aliás, há duas coisas que fazem esses cristãos torcerem o nariz: falar sobre ecumenismo e política! Esse fanatismo religioso já vem do grupo dos discípulos, que no evangelho desse domingo demonstram indignação ao verem um homem que pregava e realizava curas em nome de Jesus e o proíbem severamente de continuar e depois, orgulhosos pelo “feito”, vão informar a Jesus que lhes censura “Quem não está contra nós, está a nosso favor!”.

Do mesmo modo, na primeira leitura, Josué demonstra-se indignado ao tomar conhecimento de que dois homens, Eldad e Medad, cujos nomes constavam na lista, mas que não foram para a reunião da tenda, estavam no acampamento profetizando porque tinham recebido o espírito que Deus havia derramado sobre os anciãos. Fez a denúncia a Moisés, que em resposta manifesta o seu desejo de que todo o povo de Israel profetizasse, movidos pelo Espírito de Deus, que nunca foi e jamais será monopólio de ninguém.

Qualquer gesto de aceitação da Boa Nova, ainda que seja apenas um copo de água fria, não ficará sem recompensa – afirma Jesus, mas dos seus seguidores ele exige uma atitude radical a favor do bem, da vida e da comunhão entre as pessoas. As sementes do Reino de Deus foram espalhadas por Cristo em todas as nações da terra e, portanto, em todas as culturas e línguas temos a prática do bem. Vivemos em um mundo onde as pessoas se fecham e constroem barreiras ou abismos em seu redor, para que ninguém se aproxime.

É nesse sentido que podemos escandalizar e levar ao pecado um desses pequenos, se ao em vez de pontes cavamos abismos e levantamos muros da indiferença, da rejeição e do desprezo, até mesmo em nossas comunidades. Mãos, pés e olhos são essenciais na comunicação com os irmãos, os pés podem aproximar-se ou tomar distância, as mãos podem se estender em um gesto de abertura e acolhimento ou fazer um gesto agressivo, os olhos podem olhar para o outro com um espírito de comunhão ou então de desprezo e frieza. No pecado da divisão entre os cristãos, todos têm parcela de culpa.

A tentação de olhar para a história e buscar um culpado é sempre muito forte, mas o passado não nos importa, e sim o que podemos fazer hoje para eliminar muros e levantar pequenas pontes que unem, pois de cavadores de abismos e construtores de muros, o mundo já anda infectado. Buscamos o mesmo Deus, que se manifestou em Jesus e queremos o mesmo céu, que começa a ser construído aqui, não com divisões, mas na comunhão! ( 26ª. Domingo do TC Marcos 9, 38-43.45.47-48)

José da Cruz é diácono permanente
da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim
e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Comentário Exegético - XXVI Domingo do Tempo Comum (Ano B)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Segunda Leitura - (Tiago 5, 1-6)

INTRODUÇÃO: Temos aqui uma das mais duras e violentas passagens da Bíblia contra os ricos deste mundo. A riqueza era considerada como uma bênção divina. Os bens da criação eram parte da economia do Criador e sua participação estava unida à fidelidade do povo às leis e mandatos corretamente observados (Êx 20, 6). Jesus, pelo contrário, afirma que os pobres são os abençoados e os ricos dificilmente entram no Reino. Se no AT os ricos malvados são condenados como vemos em Jr 5, 27. ou como diz o Sl 62,11: Se chegais a ser ricos não ponhais vosso coração nas riquezas. Porém, Jesus com a parábola do rico epulário, declara que as sortes serão diferentes na outra vida, no NT os ricos recebem um trato em comparação com os pobres bem inferior. Basta abrir Lucas em 6, 24 para ler: Ai de vós, ricos,porque já tendes vossa consolação. Mas Tiago, declarando que os bens temporais se tornam meio de egoísmo pessoal  e instrumento de tortura para os necessitados, é o profeta dos novos tempos que, sem condenar as riquezas, denota os maus ricos que só procuram os bens terrenos. E com seus privilégios criam e condenam os pobres na  sociedade.

CHORAI RICOS: Eis [age=age] agora! Os ricos chorai [klauete=plorate] lamentando [ololuzontes=ululantes] por causa das calamidades [talaipöriais=miseriis] as que vos sobreveem [eperchomenais=advenient] (1). Age nunc divites plorate ululantes in miseriis quae advenient vobis. Age grego é uma exclamação, traduzida ao latim com as mesmas sílabas fonéticas: age. É uma palavra derivada do verbo agö, que significa guiar, conduzir, como em Lc 4, 1: Jesus foi guiado pelo mesmo Espírito ao deserto. Tanto em latim como em grego, em impessoal, significa um toque de atenção, como Vamos! Ora! Eis! Eta! Vede! Em espanhol temos o Ea! Derivado do latim eia, interjeição que significa dar presa. As traduções vernáculas não são tão convincentes: Atendei!, Come![vinde] Orsù![vamos] Então, So[assim]. É, pois um chamado de atenção, não tanto para os ricos, mas para os fiéis para que vejam como terminam as riquezas.
CHORAI: O imperativo Klauete do verbo klaiö significa chorar, lamentar-se, como vemos em Mt 2, 18: Voz em Ramá, pranto, choro e grande lamento, era Raquel chorando por seus filhos.
LAMENTANDO:
Na realidade, o verbo Ololuzö significa gritar, berrar, ulular, lamentar. É a única vez que aparece no NT.
CALAMIDADES: Traduzida de Talaipöria com o significado de miséria, calamidade, sofrimento, privações. Só sai uma outra vez no NT, falando dos homens como pecadores, em Rm 3, 16: Nos seus caminhos há destruição e miséria.
SOBREVEEM: é a tradução do verbo eperchomai vir, encontrar, progredir, chegar, envolver. Um exemplo é Lc 1,35: o Altíssimo te envolerá com a sua sombra. Poderíamos, pois, traduzir também sobre as calamidades que vos envolverão.

RIQUEZAS PODRES: As vossas riquezas [ploutos=divitiae] foram corrompidas [sesëpen=putrefactae sunt] e vossos vestidos [imatia=vestimenta] tornaram-se comidas de traça [sëtobröta= tineis comesta] (2). Divitiae vestrae putrefactae sunt et vestimenta vestra a tineis comesta sunt
RIQUEZAS:
O grego Ploutos, embora singular, é traduzido por plural em latim e na maioria das línguas modernas, como conjunto de bens que chamamos riquezas. Poderíamos traduzir, como o inglês wealth, por fortuna, prosperidade. Porém, é melhor traduzir por riquezas.
CORROMPIDAS: Do verbo Sëpö estar corrompido, podre, arruinado; é um ápax [sai uma só vez] de Tiago.
VESTIDOS: tradução do Imatia [plural grego]. Imation, no plural, era empregado no sentido de vestidos ou roupas. Que saístes a ver? Um homem vestido de roupas finas? (Mt 11, 8) As roupas essenciais tanto dos homens como das mulheres eram duas: o chiton e o imation, traduzidas por túnica e capa respectivamente. O Chiton era uma espécie de blusa comprida sem mangas, que ia até os joelhos e, especialmente nas mulheres, até os pés, recolhida na cintura por meio de um cinto. Era o único vestido do Batista, só que nele o material era feito de pelos de camelo (Mc 1, 6). Algo parecido vestiam os judeus e quando faltava o chiton se consideravam nús. A tradução de chiton é túnica, e de imation, capa. Ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa (Mt 5, 40).De Pedro lemos: como ouvisse que era o Senhor cingiu-se a veste [túnica] porque estava nú (Jo, 21, 17). Este vestido era o que levava Jesus sem costuras e foi rifado entre os soldados no momento da crucifixão (Jo 19, 23). O Imation era uma larga capa formada de uma só peça de tela que se envolvia ao corpo como faziam na Espanha nos tempos anteriores a Esquilache. Era o vestido com que a multidão revestiu o jumento e cobriu o chão no dia dos ramos (Mt 21, 7 e 8). Servia de cobertor para dormir quando das peregrinações a Jerusalém. A Clâmide romana era um pouco mais curta e era o vestido superior dos soldados romanos.
COMIDAS DE TRAÇA : não existia o ácido bórico ou outros compostos para evitar a traça. Tenhamos em conta que as riquezas eram metais preciosos, ouro e prata, geralmente guardadas em  buracos na terra (Mt 13, 44), em armazéns de produtos agrícolas como azeite, vinho e trigo (Lc 12, 16 ss), e em roupas dentro de arcas ou baús; pois os armários só foram inventados no tempo de Luis XIV. Especialmente os ricos eram os bem vestidos, como vemos em Mt 11, 8 e bem alimentados, como o rico da parábola (Lc 16, 19). As roupas, guardadas nos baús da época, facilmente eram comidas das traças. Por isso Jesus fala do tesouro no céu onde nem ladrão nem traça podem destruir (Mt 6, 19).

TESTEMUNHO NEGATIVO: O vosso ouro [chrusos=aurum]e a prata [argiros=argentum] têm sido enferrujadas [katiötai=eruginavit] e a sua ferrugem [ios=erugo] por testemunho para vós será; e comerá [fagetai=manducabit] vossas carnes como fogo [pur=ignis]. Acumulastes tesouros [ethësaurisate=thesaurizastis] em(os) últimos [eschatais=novissimis]dias(3). Aurum et argentum vestrum eruginavit et erugo eorum in testimonium vobis erit et manducabit carnes vestras sicut ignis thesaurizastis in novissimis diebus. Com este versículo, Tiago completa um relato-descrição das riquezas dos ricos do seu tempo. Hoje a bolsa e os bancos substituem os tesouros escondidos de antigamente.
OURO: Podiam ser moedas com um tanto por cento superior a 18 quilates [ouro puro é 24 quilates], ou diversas jóias. Moedas de ouro e prata só podiam ser cunhadas em Roma e nas províncias só eram admitidas moedas de cobre. Antigamente não havia moedas e só existiam  lingotes cujo peso entre os judeus era o talento (32 Kg aproximadamente). Segundo Plínio, o velho, a primeira moeda romana foi cunhada em 217 aC. Geralmente o valor nominal era inferior ao seu valor real e por isso estavam fora de circulação. No fim da República, os generais vitoriosos traziam grandes quantidades de ouro e prata. Márcio Pôncio Caton (195 aC) voltou da Hispânia com 11mil Kilos de prata e 600 de ouro. Sila cunhou moedas com valor de 400 sextércios, Pompeu de mil e Júlio César de 100. Se de ouro, seu nome era aureus. Seu valor flutuou entre 25 denários (Augusto) com peso de 7,4g e 20 denários (Caracalla) com peso de 4,54g. Na época de Constantino, a nova moeda era o solidus com peso de 4,54g. A moeda de prata fundamental era o denário, que era o pagamento de um dia equivalente a 4,5 g de prata e dele derivava o sestertio ou ¼ de denário. O bronze: a moeda fundamental era o as(do latim aes=bronze, que era inicialmente fundido e só cunhado em tempos da república como as libral (peso de uma libra 273 g). O Estado cunhou moedas de as com um banho de prata e que deviam ser aceitas por seu valor nominal. De fato, um as valia 1/10 do denário. Com a exceção do ouro, todos os demais metais estão sujeitos à ferrugem.
ACUMULASTES: o grego Thesaurizö significa armazenar tesouros ou acumular os mesmos. Já temos visto no parágrafo anterior como isso era feito na época.
ÚLTIMOS DIAS: Eschatös último, final, prostrero, extremo, especialmente o último quando referido ao tempo. Podem ser os últimos dias da vida particular de um indivíduo, ou se referir aos novíssimos, tempos finais da vida na terra. O testemunho era sempre em contra do réu e a justiça hebraica não admitia advogados defensores ou testemunhas de defesa que era deixado ao próprio réu como vemos na paixão de Jesus em que ambos os juízes, Caifás e Pilatos, perguntam a Jesus para escutar a sua defesa (Jo 18, 19 e 23), Neste sentido, uma vez a alma, saída aos 3 dias do corpo, podia ver seus vestidos corrompidos e com eles julgar a inutilidade de suas riquezas. Acreditamos que os últimos dias eram os da vida do indivíduo em particular e não os últimos dias da História, pelo que temos escrito anteriormente.

O CLAMOR DOS POBRES: Eis o salário [misthos=merces] dos trabalhadores, dos ceifadores [amësantön=qui mesuerunt] das  vossas regiões: o que foi defraudado [apesterëmenos=fraudatus] por vós, grita [krazei=clamat] e o clamor [boë=clamor] dos ceifadores nos ouvidos do Senhor dos Sabaoth [sabaôth=sabaoth] tem chegado (4). Ecce merces operariorum qui messuerunt regiones vestras qui fraudatus est a vobis clamat et clamor ipsorum in aures Domini Sabaoth introiit.
SALÁRIO: A palavra Misthos remuneração, retribuição, salário, soldo, paga. A palavra é usada por Mt 5, 46: Porque se amais aos que vos amam, que recompensa tereis? Como salário em Mateus 20:8: Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao seu administrador: Chama os  trabalhadores e paga-lhes o salário . Primariamente, pois, o significado é de salário ou paga. Só que em se tratando de Deus essa paga deve ser traduzida por recompensa ou galardão, como vemos em Rm 4,4: Ao que trabalha o salário não é considerado como favor, e sim  como dívida. Logicamente, aqui deve ser traduzido por salário.
CEIFADORES: Amesantön particípio de aoristo do verbo amaö que significa segar, ceifar. Ao colocar como uma aposição, os ceifadores junto aos trabalhadores, Tiago reduz seu argumento aos ricos, donos de terras que usam assalariados como ceifadores de suas colheitas. Podemos , pois, substituir regiões por campos, como Chöras por terras de cultivo, como devemos traduzir Lc 12, 16: o campo de um homem rico produziu com abundância.
DEFRAUDADO: Apesterëmenos, do verbo apostereö significa fraudar, roubar,  despojar, sofrer dano, ser privado. Em Mc 10, 19, Jesus pede ao jovem que guarde os mandamentos  entre eles não defraudarás ninguém. Em 1Cor 6, 8 é traduzida por fazer dano. É claro que no caso de não pagar o salário é fraudar.
GRITA : Do verbo Krazö gritar, bradar, choro, pranto. Os demônios gritaram: Que temos nós contigo! (Mt 8, 28). As multidões clamavam: Hosanna ao Filho de Davi! (Mt 21, 9).
CLAMOR: grito, clamor, súplica, que é dos ceifadores. É um apax do NT somente usado nesta passagem.
DENTRO DOS OUVIDOS: É uma metáfora antropomórfica, de modo que não podemos daí deduzir nada sobre a natureza divina. É o mesmo que dizer que Deus escutará o gemido dos ceifadores. A esse Deus chama Tiago o Deus dos Sabaoth.
SABAOTH:
É o feminino plural de Sabah que significa hoste, tropa, exército, mesnada. A tradução literal seria Deus dos exércitos. Quais são esses exércitos? Há duas hipóteses: Os exércitos celestiais (estrelas, anjos) ou os exércitos de Israel. A primeira é a mais adotada pelos intérpretes. Lemos, pois em Gn 2, 1: Assim foram terminados os céus e a terra e todo o seu exército [na realidade exércitos]. Como nota curiosa a TEB traduz e todos os seus elementos. Finalmente lemos em Is 5, 9 : Aos meus ouvidos disse o Senhor dos exércitos vendo como muitos adquiriam casa após casa e campo a campo acumularam riquezas. É o lugar paralelo que parece citar Tiago em sua carta, para refutar semelhante conduta.

VIDA PRAZEROSA: Tendes vivido no prazer [trufaö=epulati] sobre a terra e tendes vivido em luxuria [espatalësate=in luxuriis]: tendes alimentado [ethrepsate=enutristis]vossos corações como em dia de matança [sfagës=occisionis]. Epulati estis super terram et in luxuriis enutristis corda vestra in die occisionis.
VIVIDO NO PRAZER: O verbo Trufaö derivado do nome trufë, com o significado de delicadeza, luxo, delicias. Logo temos essa vida de prazer, própria de um rico.
EM LUXÚRIA: O verbo Spatalaö sai mais uma segunda vez em 1Tm 5, 6: a quem se entrega aos prazeres mesmo viva está morta (fala das viúvas levianas).
ALIMENTADO: O verbo Trefö sai 8 vezes no NT com as traduções de sustentar, comer, criar, abastecer e engordar. A TEB diz fartar-se, que dá uma idéia muito boa do contexto.
CORAÇÕES: Entre os diversos sentidos da palabra Kardia está o de ser o vigor e centro da vida física ou biológica do homem. Tal o coração com o qual devemos amar a Deus (Mc 12, 30), pois os outros dois membros são a alma e o entendimento. E temos também que o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra (Mt 12, 40).
MATANÇA: Sfafë matança, ato de abater, massacre, matadouro. Das 3 vezes que encontramos esta palavra, (At 8, 32; Rm 8, 36 e esta), nas duas anteriores se trata de ovelhas ao matadouro. Alude ao dia da cólera do Senhor (Jr 12, 3): Arranca-os como as ovelhas para o matadouro e destina-os para o dia da matança.

OS CRIMES DOS RICOS: Tendes condenado [katedikasate=addixistis] tendes matado [efoneusate=occidistis] o justo [dikaion=iustum]: não vos oferece resistência [antitassetai=resistit] (6). Addixistis occidistis iustum non resistit vobis. Finalmente, em seu afã de riquezas, chegam ao extremo de condenar e até matar o homem probo, íntegro e honesto [o justo] que não pode oferecer resistência.Temos o caso de Nabot e Acab (1 Rs cap 21) que foi materialmente  acusado e morto, apesar de ser homem honesto, pelo desejo do rei de ficar com sua vinha. Pode se referir também a Jesus condenado e morto injustamente. No tempo de Tiago os juízes eram venais: os presentes decidiam as sentenças. Uma outra interpretação é a de que, privando do pão aos pobres é o mesmo que matá-los de fome. O justo, neste caso, teria um significado geral e não particular, e  abrangeria todos os pobres que privados de seus emolumentos pela rapacidade dos ricos, se encontravam em situação tão precária que praticamente estavam condenados à morte.

Evangelho (Mc 9, 38-43. 45. 47-48)
Ensinamentos paralelos: Lc 9, 49-50, Mt 12, 30.10, 42. / Mt 18, 6 e Lc 17,1. Mt 5, 29 e 18, 8.

UM DISSIDENTE: O episódio é narrado também por Lc 9, 49-50. No lugar de didáskale (Mestre, no sentido de professor),  Lucas usa o epístate (Mestre, no sentido de quem tem o mando). Ambos os casos sucedem à lição de humildade dada por Jesus, mostrando como melhor discípulo aquele que se assemelha a uma criancinha. Agora se trata de não limitar o discipulado unicamente aos que moram diariamente com Jesus, mas a todos os que acreditam nele e operam seguindo seu modelo. Jesus é Mestre para todos os que aceitam sua doutrina e sua liderança. Se esta lição de Jesus tivesse sido levada à prática é possível que muitas guerras e mortes por motivos de dissidências religiosas não tivessem acontecido na História dos séculos posteriores de cristianismo. Fazer o bem é sempre uma bênção divina que não podemos reprimir nem ocultar.

O TEXTO: Há uma pequena diferença entre o texto grego e a tradução latina, chamada Vulgata. Esta acrescenta dois versículos, o 44 e 46 imediatamente após o escândalo da mão e do pé, que o texto grego só acrescenta como final após o versículo 37, formando o 38 que resume os 44 e 46 latinos: ubi vermis… non extinguitur, traduzidos por: onde o verme deles não morre e o fogo não se extingue, que nos leva a Isaías 66,24 com o versículo final do profeta: “Ao sair [da cidade santa], poderão ver os cadáveres daqueles que se revoltaram contra mim: seu verme não morrerá, seu fogo não se apagará [eles serão uma repugnância para toda carne]. O colchete final não está no texto de Marcos. No evangelho de hoje temos três partes diferentes: 1º) O uso do nome de Jesus para fazer o bem. 2º) Ajuda dada aos discípulos e 3º) O escândalo.

USO DO NOME DE JESUS

A PERGUNTA DE JOÃO: Respondeu-lhe então João dizendo: Mestre [didaskale=magister], vimos alguém em teu nome expulsando [ekballonta=eicientem] demônios [daimonia=daemonia], o qual não nos segue [akolouthei=sequitur] e o proibimos (38). Respondit illi Iohannes dicens magister vidimus quendam in nomine tuo eicientem daemonia qui non sequitur nos et prohibuimus eum.
DIDASKALOS é a tradução direta de Rabi ou Raboni ou seja mestre ou professor, especialmente se tratando da Lei, tanto escrita como falada. Sai 58 vezes com o significado de Mestre, ou Doutor. Ao redor dele reuniam-se e até moravam seus discípulos, como vemos que acontece nos evangelhos com Jesus.
EKBALLÖ de ballö [lançar] e ek [fora] palavra própria para designar a expulsão dos demônios.
DAIMONIA Existem em grego duas palavras equivalentes: Daimön deus ou deusa secundários, e daimonion ser intermediário entre Deus e o homem, que geralmente é perverso.
AKOLOITHEÖ seguir especialmente como discípulo. A resposta, ou melhor, a réplica de João é válida do momento em que Jesus fala dos que o recebem no versículo anterior (37). Parece que João pergunta: como devemos tratar os que não te seguem, mas usam teu nome para fazer prodígios. Nós impedimos essa utilização de teu nome. Estamos certos? Lucas em lugar paralelo, no lugar de didaskale [mestre] usa a palavra  epistata, [dono, chefe]. Epistates [de efistemi, estar sobre, encima] era o condutor, diretor, chefe, tendo um sentido maior do que o simples didaskalos, este sem mais autoridade que o seu saber.

RESPOSTA DE JESUS: Então disse a ele Jesus: Não o proibais. Porque não existe ninguém que fará um poder [dunamin=virtutem] sobre meu nome, e em seguida será capaz de ter falado mal de mim (39). Iesus autem ait nolite prohibere eum nemo est enim qui faciat virtutem in nomine meo et possit cito male loqui de me.
DUNAMIS força, poder, habilidade, finalmente milagre. Temos traduzido o grego respeitando os tempos e modos dos verbos, com um resultado pouco sintáxico, embora fará um poder sobre meu nome podemos dizê-lo com linguagem mais correta: faça um fato de poder usando meu nome, que seja de imediato capaz de falar mal de mim. O poiësei  dunamin pode ser traduzido como faça uso do poder, tem uma similitude no caso em que Jesus não podia realizar nenhum milagre, senão algumas curas de enfermos em Mc 6, 5.
SOBRE MEU NOME: No versículo anterior lemos em teu nome e neste versículo Jesus fala sobre meu nome. Qual a diferença,  se existe, a não ser que seja um simples recurso redacional? No primeiro caso, parece que o sujeito usa o nome de Jesus invocando o poder deste. Somente encontramos outros casos de to onomati [dativo sem preposição] em Mateus 7, 22 e 12, 21 e também referido a uma expulsão de demônios ou emitir profecias atuando como enviados de Jesus, ou seja, substituindo-o. O frequente é encontrar en to onomati, com a preposição en, como mais literariamente o usa Lucas no mesmo contexto ao dizer os 72 que até os demônios se submetiam no nome seu [de Jesus] (Lc 10, 17). Lembra o que Jesus ouviu dos fariseus quando estes afirmavam que expulsava os demônios em nome de Belzebu, príncipe dos demônios [en Beelzeboul archonti tön daimoniön] (Lc 11, 15). No segundo caso [epi to onomati], Jesus indica que este modo de proceder é uma substituição, de modo que Ele, Jesus, está sempre presente no lugar de quem o invoca com fé para usar o poder e autoridade dEle. Por exemplo: O párvulo de quem Jesus diz é recebido como se fosse Ele mesmo, em meu nome [epi to onomati mou] (Mt 18, 5 e Mc 9, 37). O caso também de quem diz ser o Cristo e vem em seu nome (Mt 24, 5; Mc 13, 6 e Lc 21, 8). Por tudo o que temos dito, creio que ambas as expressões refletem um mesmo pensamento: O exorcista, talvez ao ver como os discípulos se serviam do nome de Jesus e constatar que era válido o exorcismo, também o usava, implorando o poder desse nome. Jesus responde usando um argumento lógico que vinha dizer: Quem usa meu nome para fazer o bem, é quem acredita em meu poder e em minha verdade. É, pois, um discípulo meu embora oculto aparentemente. Lucas, 9, 50, no lugar paralelo, dirá unicamente não o proibais.

A CONCLUSÃO: Aquele, pois, que não está contra vós está por vós (40). Qui enim non est adversum vos pro vobis est. É provável que nesta ocasião Jesus esteja citando um provérbio, como conclusão do razoamento do versículo anterior; mas também está dando uma norma geral para tratar das pessoas que aparentemente não são discípulos manifestos e declarados de Jesus. Narrando o mesmo fato, Lucas (9, 50) usa exatamente as mesmas palavras de Marcos. Porém Mateus usará o mesmo provérbio provavelmente mais conforme com o original: Esse que não está contra vós, está convosco, e esse que não recolhe convosco, dispersa (Mt 12, 30)  Em Nm 11, 26-29 quando Josué pediu a Moisés para calar as vozes de Eldad e Medad, porque profetizavam sem estarem no círculo de profetas que o líder tinha colocado ao redor da Tenda, ou Tabernáculo, Moisés respondeu: Oxalá todo o povo fosse profeta. Jesus concorda pois, com o AT em não rejeitar o bem, venha de quem vier.

AJUDA AOS DISCÍPULOS

CONSEQUÊNCIA POSITIVA: Quem, pois, der de beber a vós um copo [potërion=calicem] de água em meu nome porque sois de Cristo, certamente vos digo não perderá seu prêmio [misthon=mercedem]. Quisquis enim potum dederit vobis calicem aquae in nomine meo quia Christi estis amen dico vobis non perdet mercedem suam. No lugar paralelo de Mateus fala de dar de beber um destes pequeninos um único copo frio [ou de água fresca], por ser este um dos meus discípulos (Mt 10, 42). Marcos emprega também o Mikrön no versículo seguinte, relacionando-o com a fé na pessoa de Jesus. Mikros e filhos eram também os cognomes com os quais um Mestre denominava seus discípulos. Qual o verdadeiro significado deste adjetivo/substantivado no trecho de hoje? Acreditamos que na maioria dos casos significava discípulo, especialmente neste caso em que Mateus explica por ser este um dos meus discípulos.
POTËRION: O copo d’água era a mínima assistência possível, sem valor comercial algum, e até isso merecia uma recompensa, uma gratificação. A frase copo de água fria é usada como o mínimo favor emprestado a alguém, assim como o camelo era o maior animal conhecido para expressar o maior volume que pode passar pelo mínimo buraco (Mt 19, 24), confirmado com a comparação com o mosquito em Mt 23,24. Esta última afirmação de Jesus indica que existem obras meritórias, e que o conceito de que só a fé é válida sem as obras não combina com os ensinamentos de Jesus. Deste versículo também se deduz que os cristãos têm uma valoração especial e devem ser tratados como trataríamos a pessoa de Cristo, pois assim deve ser traduzido em meu nome, como sendo eu em pessoa (ver versículo anterior, acerca de em meu nome e sobre meu nome). Esta proposição nos dá uma segurança de que a caridade é uma obra própria [opus proprium] que afeta diretamente Cristo e seu evangelho. Não devemos fazer distinção entre os grandes e os pequenos. Jesus toma como termo de comparação para apreciar o bem e o mal, os pequenos dentro do reino. São eles os que, ao serem favorecidos, merecem o prêmio para os benfeitores por parte de Deus, e serão eles os que ditam a maldade através do escândalo, como veremos no seguinte parágrafo. O estilo é de contraposição entre as partes, exagerando os termos com comparações concretas, para melhor retenção na memória dos ouvintes. Para Mateus, a ação caritativa se estende aos mais insignificantes dos discípulos; isto é, quem ajuda os discípulos, nem que seja com o mínimo, como é um copo d’água, que Mateus explicará ser fria (10,42), deve ser admitido como pessoa a quem Deus recompensará.
MISTHÓS o significado primário é salário,honorário,preço, devido a um trabalho, como em Mt 20, 8, quando o dono manda o seu administrador dar o salário aos trabalhadores a começar pelos últimos. Rm 4, 4 confirma esta acepção de salário assim como Tg 5, 4. É também o castigo merecido pelos que obraram mal como em 2Pd 2,15 que fala do prêmio da injustiça. As traduções vernáculas geralmente preferem a palavra remuneração ou galardão. O latim usa merces que também é salário como na frase nulla mercede [gratuitamente]. Isso corrobora tudo o que anteriormente afirmamos sobre o mérito.

O ESCÂNDALO

ESCÂNDALO EXTERNO: Mais: Se alguém escandalizasse [skandalise=scandalizaverit] um só dos pequenos [mikrön=pusillis] dos crentes em mim, bom é a ele melhor se uma pedra de moinho [lithos=mola; mulikos=asinaria] fica pendurada ao redor de seu pescoço e é lançado ao mar (42). Et quisquis scandalizaverit unum ex his pusillis credentibus in me bonum est ei magis si circumdaretur mola asinaria collo eius et in mare mitteretur. Temos feito uma tradução, a mais literal possível, para que se perceba toda a força do grego, que sem dúvida não é muito correto na sua sintaxe. Os versículos 38-41 constituem um pequeno parêntese para retomar o exemplo do menino neste versículo, não como paradigma de insignificância, mas como massa fácil de ser enganada ou escandalizada.
O ESCÂNDALO: Skandalon etimologicamente significa tropeço, armadilha, ocasião de caída. A palavra original significa a colocação de uma pedra como obstáculo para impedir a passagem. Daí  a extrapolação, feita por Jesus, de impedimento para entrar no Reino. E de novo são os pequenos [Mikrói], no sentido de mínimos, dentro do marco social da hierarquia. Esses pequenos não são necessariamente as crianças, mas os ínfimos entre os discípulos, aqueles que são dirigidos pelos mais ilustrados, que não têm liberdade de escolha, por sua incapacidade de entender e compreender, e, por isso, necessitam de um pastor-guia que os conduza (ver parágrafo anterior). O his latino falta no grego e o latim usa pusillis que pode se referir a meninos, pois é diminutivo de pusus, rapaz. Portanto pusillus significa pequeno, menino. Mikrôn [pequeno, de tamanho, estatura..] é o oposto a megas [grande, alto, forte], mais do que entre criança e adulto. Segundo Legasse mikron jamais é usado como aposto de paidion, e indica insignificância. Que tipo de escândalo? Quando Jesus fala de escândalo não é o escândalo moral de uma conduta eticamente reprovável, como hoje o entendemos, mas o impedimento de encontrar ensinamentos da parte dos doutos e letrados, que eram contrários ao Reino e apresentavam Jesus como falso profeta e contrário à lei divina. Este era o caso dos escribas na época apostólica como possuidores da chave do saber (Lc 11,52). O castigo era afogar o escandalizador culpado no profundo do abismo, ou do mar (Mt 18,6), por meio de uma pedra de moinho, a chamada pedra asnal [mola asinaria da vulgata]. Das duas pedras para moer o grão, a inferior era fixa e, como suporte do moinho, recebia o nome de pedra asnal; outros dizem que o nome era dado à pedra superior pois era a  movida pelo jumento ou asno. Nos moinhos de mão, frequentes nas famílias hebréias, também a pedra que era girada por meio de uma manivela recebia o nome de pedra asnal. Qualquer uma delas, pendurada do pescoço, servia para afundar o castigado por causar escândalo. Logicamente seria uma pedra de pequeno tamanho, a do moinho de mão, pois atado de pés e mãos, como era o caso dos condenados (Mt 22, 13), bastava ela para ir ao fundo. O sujeito ia para o fundo do mar, o abismo [ou pélagos em grego], onde se encontrava o reino do mal, e seu cadáver não poderia flutuar para ser sepultado. Não era um castigo legal para os judeus, já que só eram permitidas quatro classes de morte: lapidação, queima, estrangulamento e decapitação. Era um castigo romano, que supunha também um castigo “post mortem”, pois o cadáver, sem sepultura, no fundo do mar por causa da pedra, causava horror para os judeus,  devotos da lei. Era, pois, uma nova maneira de castigar com morte temporal, e até eterna, um fato novo, como era trabalhar contra a expansão do Reino, mediante a difamação do seu fundador, porque o Reino dos Céus sofre violência (ver Mt 11,12). Máxime, este castigo adquire conotações singulares se se tem em conta que os animais afogados eram verdadeira impureza segundo a lei ( At 21,25: ver Êx 15,4 dos egípcios perseguidores e Mc 5,13 dos porcos, em que Jesus permite irem ao fundo do mar).

ESCÂNDALO INTERNO: Também: Se te escandaliza a tua mão, corta- a; bom é para ti ter entrado manco [kullos=debilem] na vida que tendo as duas mãos ter que ir embora para a Gehena ao fogo inextinguível (43). Onde o verme deles não se acaba e o fogo não se extingue (44). E se teu pé te escandaliza, amputa-o; bom é para ti ter entrado na vida coxo, que tendo dois pés, ter que ir embora para a Gehena, para o fogo inextinguível (45). E se teu olho te escandaliza, saca-o; bom é para ti ter entrado com um olho só no Reino do Deus que, tendo dois olhos, ter sido lançado na Gehena do fogo(47) . Et si scandalizaverit te manus tua abscide illam bonum est tibi debilem introire in vitam quam duas manus habentem ire in gehennam in ignem inextinguibilem. Ubi vermis eorum non moritur et ignis non extinguitur. Et si pes tuus te scandalizat amputa illum bonum est tibi claudum introire in vitam aeternam quam duos pedes habentem mitti in gehennam ignis inextinguibilis. Quod si oculus tuus scandalizat te eiece eum bonum est tibi luscum introire in  regnum Dei quam duos oculos habentem mitti in gehennam ignis. O versículo 46 é uma repetição do 44 e embora trazido por alguns códices gregos e a Vulgata, é rejeitado como conclusão do versículo 43 e acrescentado como conclusão final após este último versículo que intitulamos como 45. A lectio do domingo retira o 44 e deixa como final da mesma o 48, que para o grego seria o 47, como o temos anotado.
A MÃO, O PÉ, O OLHO: Não são unicamente outras pessoas as que são causa de escândalo, mas também podem ser a mão, o pé ou o olho os que servem de escândalo. No caso do olho e da mão, temos dois lugares paralelos em Mateus 5, 29 e 30, sendo em ambos os  casos, membros direitos, não canhotos, ou seja, os mais estimados pelos judeus da época. A conclusão é que é preferível perder um membro, o mais querido, do que conservá-lo e perder toda a vida. Era típico dos judeus situar as apetências nos membros do corpo: Mão por roubo e violência, por aliar-se com malfeitores e correr a realizar o mal, e olho por sovinice e avareza. Com isso entramos no escândalo moral e também daí deduzimos o argumento lógico e bíblico para operações biológicas, em que a mutilação se torna necessária diante da vida toda. Porém, como é costume entre os semitas, a casualidade moral substitui os princípios. Devemos, pois, nos remontar dos casos aos princípios. Qual é o princípio que Jesus quer ressaltar? Em primeiro lugar fala de entrar na vida, que significa entrar no Reino de Deus como vemos no versículo 47 que substitui entrar na vida dos versículos 43 e 45. Esse é o princípio diante do qual devemos julgar nossas apetências e ambições. Se diante desse Reino onde encontramos a verdadeira vida, temos aspirações contrárias e encontramos travas incompatíveis, devemos superá-las, pois do contrário, o nosso fim será o oposto do que buscamos. Perderemos a vida por querer poupar um membro.
A GEHENA [pronunciada gueenna]: A palavra não aparece na LXX e nem na literatura grega. É a forma grega do aramaico ge hinnam, que por sua vez remonta ao hebraico ge hinnon, expressão esta que originalmente denotava um vale ao sul de Jerusalém [hoje é Wadi er-Rabadi] e que significa o vale de Hinnon (Js 15, 8) ou do(s) filho(s) de Hinnon [ge ben hinon] (Js 18, 16). Hinnon significa lamentação. Neste vale eram oferecidos sacrifícios de crianças (2 Rs 16, 3). O piedoso rei Josías mandou profaná-lo (2 Rs 23, 10) e se fala do Tofet, um verdadeiro lixão, onde os detritos e os animais mortos eram jogados e queimados. Os vermes dos cadáveres eram vistos junto ao fogo que queimava o lixo da cidade. Tofet provavelmente significa queimadeiro. Segundo outros, deriva da palavra tof que significa tambor e tofet é o plural da palavra tof porque no momento em que eram queimadas as crianças entre as mãos do ídolo Molok, os sacerdotes mandavam rufar os tambores para impedir que os pais ouvissem os gritos de dor de seus filhos. Numa fotografia de 1900 vemos uma garganta profunda no meio do vale onde provavelmente aconteciam os fatos antes narrados. Eusébio escreve que Haceldama [hagel dema, campo de sangue] onde Judas se enforcou, estava perto do Tofet no vale de Hinnon.  A apocalíptica judaica supunha que este vale se tornaria, depois do juízo final, o inferno de fogo como lemos no livro de Enoque. Assim Gehenna é o mesmo que o inferno escatológico de modo geral, mesmo que já não esteja localizado em Jerusalém. Terminou sendo o lugar de castigo que correspondia ao Hades grego. De fato os rabinos o consideravam como o Hades, um lugar de castigo temporário, como o purgatório católico, antes do juízo final. Não foi, pois, invenção de Jesus. No NT gehenna era uma fornalha de fogo (Mt 23, 42; 50), lugar do castigo escatológico depois do juízo final, castigo este de eterna duração (Mt 25, 41;46; 23, 15 e 33). Um verdadeiro símbolo do inferno, cujo fogo é inextinguível. O mesmo castigo terão Satanás, os demônios, a besta do Abismo, o falso profeta, a morte e o Hades, e os que não foram inscritos no livro da vida (Mt 25, 41; 8, 29; Ap 19, 20; 20, 10, 14-25). A palavra sai sete vezes em Mateus e em três das quais recebe o adjetivo de fogo (Gehena de fogo), sendo que uma delas é de fogo inextinguível. Em Marcos será a Gehenna de fogo (1 vez), de um fogo inextinguível (2 vezes). Lucas só fala uma vez (12,5) dizendo que a quem se deve temer é àquele que pode, depois de matar, lançar na Gehenna. Coincide com o nosso inferno a Gehena? Podemos afirmar que sim. Em Mateus 18,8 afirmará o evangelista que se tua mão ou teu pé te escandalizam, corta-os. Melhor é entrar na vida sem eles, do que com  eles, seres atirado no fogo eterno. Por isso não há dúvida de que é símbolo de uma realidade eterna.

PISTAS:
1) Todo aquele que pratica o bem deve ser aplaudido e ajudado. A salvação está precisamente no triunfo do bem perante o mal que nos rodeia,  inutiliza esforços e impede a luz nascente da esperança num mundo melhor.

2) Os discípulos de Cristo que estão empenhados na propagação do evangelho são olhados por Deus de modo especial. Qualquer ajuda, por pequena que seja, será recompensada.

3)O misthós, que poderemos afirmar representa o salário e que é geralmente traduzido por prêmio ou recompensa, entra nos planos divinos para pagar o bem feito, e deve entrar nos projetos humanos como motivo, se não o último, pelo menos coadjuvante do amor desinteressado dos empenhados em escolher o bem e praticar a caridade.

4) O maior pecado, mesmo nos dias de hoje, consiste em difamar ou desvirtuar a mensagem evangélica. Sua pureza, seu radicalismo, devem ser respeitados e anunciados sem interpolações errôneas ou restritivas. O Senhorio de Cristo é essencial para todos os que sinceramente buscam a verdade e pretendem que ela se transforme em caminho na sua vida (Jo 14,6).

5) Do escândalo essencial, tendo como base a fé no Cristo, podemos passar ao escândalo moral em que a Igreja é vilipendiada e silenciada, porque seus membros não respondem à conduta exigida pelo evangelho e assim sua voz se torna oca, como paródia da verdade e veículo da mentira.

6)A Gehena, o inferno é motivo de preocupação para os que optam pelo mal transmitido aos outros sem arrependimento, simbolizado pelo corte mutilante.




CAMPANHA DA VELA VIRTUAL DO SANTUÁRIO DE APARECIDA

CLIQUE AQUI, acenda uma vela virtual, faça seu pedido e agradecimento a Nossa Senhora Aparecida pela sagrada intercessão em nossas vidas!


QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje!    Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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