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GOTAS DE REFLEXÃO - EVANGELHO DOMINICAL

Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com
. Evangelho de 31/01/2010 - IV Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 24/01/2010 - III Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 17/01/2010 - II Domingo do Tempo Comum - As Bodas de Caná


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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31.01.2010
IV Domingo do Tempo Comum - ANO C - Verde

__ “Somos uma comunidade de Profetas!” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Jeremias é chamado por Deus a ser profeta das nações; Jesus se apresenta como profeta que cumpre sua missão do modo como Deus o quis; a Igreja é uma comunidade de profetas. O profeta é a consciência crítica do povo, uma consciência crítica não tanto em nome da razão, quanto em nome da palavra de Deus. Por isso, o profeta é um "ser-contra" que desmascara as astuciosas cumplicidades com o mal onde quer que se encontrem. Jubilosamente, entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (Jr 1,4-5.17-19): - "Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações."

SALMO RESPONSORIAL (Sl 70): - "Minha boca anunciará todos os dias/ vossas graças incontáveis, ó Senhor!"

SEGUNDA LEITURA (1Cor 12,31—13,13): - Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse caridade, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine."

EVANGELHO (Lc 4,21-30): - "Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria!"



- "Ser Profeta"
    Reflexão do Evangelho por Diácono José da Cruz

Um dia alguém me disse em brincadeira, que ser profeta é “Ser do Contra”. O profetismo no contexto bíblico nunca poderá ser confundido com extremismo radical, nem com alguma ideologia de ordem social ou política, pois a pessoa do profeta não está comprometida com nenhuma instituição humana, nem mesmo a religiosa, pois os laços de uma Fé encarnada na história, o prendem ao Deus vivo que vai se revelando na Verdade.

O Sacramento do santo Batismo nos reveste da missão profética ao fazer-nos membros de uma Igreja comprometida com o anúncio daquilo que é verdadeiro: o evangelho de Cristo na sua essência, sem adaptações ou fundamentalismo. O profeta não fala em nome próprio porque não é o dono da palavra, mas apenas servo.

A iniciativa é sempre de Deus, pois como Jeremias, somos conhecidos, consagrados e escolhidos ainda no ventre materno e temos na graça de Deus toda a força e a coragem para cumprir sem medo a missão. O profeta é do contra sim, quando as idéias e as atitudes não conferem com a vontade de Deus porque ferem a vida, liberdade e a dignidade do homem. Trata-se de um anúncio e uma denúncia, não feita com radicalismo, amargor, mas com firmeza.

Jesus é por excelência o Profeta do Pai, não só fala em nome de Deus, mas ele é o próprio Deus. A sabedoria do seu ensinamento causa admiração e encanta as multidões por onde passa, inclusive à sua comunidade em Nazaré, onde ele se revela como ungido de Deus, revestido de uma missão. Mas os seus conterrâneos, em vez de se encherem de alegria ao perceberem em Jesus a presença de Deus, ao contrário, começam a levantar suspeita e desconfiança sobre a sua pessoa, pois fechados em seus estreitos horizontes, achavam impossível Deus Altíssimo agir em Jesus de Nazaré, filho de Maria e José, carpinteiro de profissão, pessoa simples ali da terra.

Hoje em dia também é difícil uma pessoa simples de origem humilde mostrar o seu valor, pois em uma sociedade tão competitiva, ás vezes somente os letrados e diplomados conseguem ter suas idéias aceitas. Em nossas comunidades cristãs muitas vezes e infelizmente cometemos esse mesmo pecado quando valorizamos mais o ministro do que a própria Palavra. O ministério ordenado, bem como todos os outros ministérios da nossa igreja, antes de tudo estão a serviço do povo de Deus, mas às vezes a próopria comunidade se prende excessivamente ao formalismo e à instituição dando crédito apenas à palavra de alguém revestido de autoridade. Quantas vezes presenciei pessoas que voltaram para suas casas da porta da igreja, ao tomarem conhecimento de que a celebração seria presidida por um ministro leigo...

Foi mais ou menos isso que aconteceu com Jesus na sinagoga de Nazaré, ele falava com grande sabedoria, porém era um leigo, não pertencia a elite dos escribas ou a classe sacerdotal, ou ao seleto grupo dos Doutores da Lei. Apegados ás tradições e ao formalismo religioso, os conterrâneos de Jesus não conseguem vislumbrar nele algo de novo e o rejeitam simplesmente porque ele não se enquadra nos padrões religiosos pré determinados e nem realiza sinais prodigiosos.

A Salvação trazida pela graça de Deus, só produz o seu efeito quando encontra receptividade e abertura no coração do homem independente da sua raça, ideologia, condição social ou até mesmo credo religioso. Pois ao tomarem conhecimento desta verdade através de Jesus, que citou o exemplo da viúva de Sarepta, e de Naamã, o sírio, beneficiados pela ação profética de Elias e Eliseu, respectivamente, os conterrâneos de Jesus, tomados pela fúria, o expulsaram da comunidade e tentaram matá-lo. Somente uma fé madura e um coração totalmente aberto à graça de Deus, poderá nos levar à compreensão de que a Salvação que Jesus oferece é para todos os homens.

Pensar diferente disso é menosprezar a caridade, a maior de todas as virtudes, é querer caminhar sozinho, adentrando no atalho da mediocridade e da hipocrisia.

José da Cruz é diácono permanente da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim - e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

Profeta

Acabamos de escutar que “nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra”. E por quê? Eu acho que não se pode responder a essa pergunta se antes não se sabe o que é um profeta. Como você imagina o imagina? Às vezes se pensa que o profeta é um ser absorto em contemplação, um tanto distraído, num estado de exaltação mística que o faz praticamente alienado da terra; outras vezes, como um sujeito estranho, com umas roupas estragadas, barbas sem fazer, uma pessoa que vive denunciando e gritando contra tudo aquilo que é oposto à causa de Deus; a terceira imagem que me vem à mente é a de um homem que parece que tem uma bola de cristal para adivinhar o futuro, profeta acaba sendo alguém que sabe o futuro. Pura imaginação! Eu nunca vi nenhuma dessas três imagens na vida real.

Há algum tempo, você e eu refletimos o evangelho juntos e talvez você tenha observado que um dos nossos objetivos, talvez o principal, é encontrar nas páginas do evangelho o próprio Jesus Cristo que vem ao nosso encontro no nosso cotidiano. Trata-se de buscar força, exemplo e luz para a vida do cristão normal. No evangelho, Cristo nos encontra e nós o encontramos. Jesus participa do nosso dia-a-dia, no qual não acontece praticamente nada espetacular. Dentro desse realismo evangélico, profeta é qualquer cristão: esse homem ou essa mulher, pai ou mãe de família, jovem ou ancião, criança ou adolescente, que se veste normal, com amigos normais, em pleno uso de suas faculdades mentais e que, com a sua vida e com a sua palavra, anunciam Jesus Cristo no mundo de hoje no próprio ambiente. Profeta é você, profeta sou eu.

O profeta é uma pessoa que foi introduzida no Mistério de Cristo através do Batismo, que “viu” – com os olhos da fé – o Pai e o Filho e o Espírito Santo, e entendeu o plano de Deus para a humanidade e para cada ser humano. Depois dessa proximidade com Deus, o cristão-profeta se dedica a anunciá-lo convencido de que seguir o desígnio de Deus é o que realmente realiza o ser humano em quanto tal. Essa visão sobrenatural do profeta pode produzir, e de fato produz, verdadeiros choques na cultura atual cuja visão materialista, hedonista e naturalista se vê denunciada. No entanto, a denúncia é uma conseqüência do anúncio. Eu acho que não deveríamos descrever como tarefa principal do profeta a denúncia, mas o anúncio. Nós somos anunciadores e edificadores. O cristão não é um desmancha-prazer, um destruidor de coisas boas, um amargado com vontade amargar a vida dos outros. Se um filho de Deus chega a destruir algo é simplesmente como conseqüência do anúncio de edificação. Como os fundamentos nem sempre estão prontos para receber o evangelho, eles caem, mas imediatamente se construirá e se fará um edifício muito mais forte e belo que o anteriormente edificado.

Neste sentido, entende-se a frase do Senhor quando diz que o profeta não é aceito na sua própria terra e, no entanto, Jesus não diz que isso tenha que ser sempre assim. O cristão, onde quer que esteja deve procurar conquistar todos para Cristo com o seu humanismo e o anúncio do Evangelho. E se o profeta e sua mensagem não forem aceitos? Pelo menos fez a sua parte. Aplicar-se-á a frase do Senhor de que não é aceito, mas não se dedicará a sentir-se vítima dos demais e a reclamar, simplesmente sacudirá a poeira dos seus pés contra aqueles que não querem receber o seu anúncio e se dedicará a outros. Além do mais, com paz, com serenidade e com um sorriso nos lábios, deixará o caminho aberto caso queiram voltar a buscar a verdade de Deus junto a ele, profeta de Cristo.

Uma última consideração: um profeta de Deus diz sempre a verdade. Procurará dizê-la sempre com graça humana e sobrenatural, mas a dirá! Uma coisa é a simpatia para dizer as coisas, outra é enganar. Desses últimos profetas estamos fartos: eles deveriam falar em nome de Deus e não falam, leigos que tem vergonha de dizer que são católicos, sacerdotes que não tem coragem de falar que utilizar anticoncepcional é pecado, jornalistas que disfarçam a verdade com meias mentiras. Não! Assim não se é profeta! Não podemos ser como cães que não ladram.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa - 31/01/10


Comentário Exegético – IV Domingo do Tempo Comum - Ano C

feito por Pe Ignácio, dos padres escolápios (extraído do site http://www.presbíteros.com.br)

Segunda Leitura

EPÍSTOLA 1 Cor 12, 31;13,13

Ambicionai [zëloute<2206>=aemulamini], pois, os carismas os mais excelentes [Kreittona <2909> =maiora], e contudo, por via de hipérbole [kath uperbolën<5236>=excellentiorem]vos mostro um caminho (31). Aemulamini autem charismata maiora et adhuc excellentiorem viam vobis demonstro.
AMBICIONAI: o verbo Zëloö é estar zeloso no sentido de ter uma dedicação extrema por uma determinada pessoa ou ideologia. A tradução mais exata seria ter zelo ou diligência extrema por uma ideia ou coisa. Assim, os fariseus e Paulo em especial, tinham zelo por Deus. É o desejo em perseguir um objeto, ou o desvelo por um objetivo que se transforma em ambição. É neste sentido, que temos traduzido o verbo. Aspirai ou  procurai são outras traduções válidas.
MAIS EXCELENTES: O grego Kreittön é o comparativo de Kratus [forte, poderoso, firme]. No caso, significa mais favorável ou lucrativo e mais excelente. Melhor, como em 1Cor 7, 9: é melhor se casar que se queimar. De fato, a bíblia NASB traduz Kreittön por better [=melhor] com uma única exceção: Hb 7, 7 em que greater é a preferida como contraste com lesser: o inferior é abençoado pelo superior.
VIA DE HIPÉRBOLE: Upérbole precedido por Kata transforma em advérbio o nome que significa lançado além, e metaforicamente preeminência, excelência. E como advérbio, além de toda medida, excelentemente, preeminentemente. As traduções variam: a mais conforme é um caminho sobremodo excelente. A nossa tradução como via de hipérbole pode se entender por via de excelência, que dá no mesmo.

Se falo nas línguas dos homens e dos anjos [aggelön<32>=angelorum], mas não tenho amor [agapën<26>=caritatem], me tornei um bronze [chalkos<5475>=aes] ribombando [ëchön <2278> =sonans] ou um címbalo [kumbalon<2950>=cymbalum] repicando [alalazon<214>=214>=tinniens](13, 1). Si linguis hominum loquar et angelorum caritatem autem non habeam factus sum velut aes sonans aut cymbalum tinniens.
LÍNGUAS DOS ANJOS: Paulo pensa que os anjos também têm suas próprias línguas, pois quando falam com os humanos usam a língua destes. Vejamos a tradição do tempo. Os fariseus – e Paulo era um deles- acreditavam que as línguas criadas na confusão da Babilônia, eram tantas como as nações: 70. A língua hebraica era a língua primitiva da criação humana, aquela de Adão e Eva. Esta era a língua usada pelos anjos. O anjo Gabriel conhecia todas as línguas [especialmente o aramaico- com Zacarias e Maria-, e o medo, segundo o livro de Tobias]. Os outros anjos só falavam o hebraico e por isso, só apresentavam ao trono de Deus as preces feitas em hebraico. Algo desta crença temos na idade média quando o hebraico, o grego e o latim eram as línguas eclesiásticas e as eslavas foram rejeitadas como impróprias até que o Papa Adriano II aceitou as traduções de Cirilo e Metódio. De fato, anjos não falam nenhuma língua, porque não tem boca nem língua. Caso Paulo pensasse numa língua material como um som de frequência física audível, ele teria a intenção de aludir a uma expressão extremamente sublime que o homem não tem capacidade de exprimir. Ou seja, poderíamos traduzir embora falasse a língua mais sublime e pura que possa existir, pois, pela ação do Espírito, poderiam falar os homens semelhante idioma. Que os anjos se comunicam entre si é um fato que deve ser admitido, pois são criaturas racionais. Como? Na cultura incipiente nos tempos de Paulo, era uma língua especial que ninguém explicava. Paulo não afirma que tal língua existisse, mas que essa comunicação poderia ser feita pela língua de um homem com tal que estivesse movido pelo Espírito. Não é a língua mesma, mas a variedade e superioridade das diferentes existentes ou possíveis no mundo, que constituem o termo comparativo.
AMOR: Usando Agapë [tradução da Setenta do hebraico ‘ahabah <0160>]. Em grego temos  4 palavras que são traduzidas por amor:Eros, ou amor sexual. Storgë como amor familiar entre pais e filhos, ou membros de uma família. Filia, de um amor fraternal ou entre amigos. Finalmente, Agapë, um amor de entrega sem demandas, que ama embora seja rejeitado, um amor de sacrifício, de negação da gente pelo bem do outro. Geralmente assim é definido o amor de Deus, embora tenhamos o amor do pecado [os homens amaram {agapësan} mais as trevas (Jo 3, 19)] e o amor do mundo [Não ameis {më agapate} o mundo (1 Jo 2, 15)] que podem absorver as energias e vitalidade de uma pessoa. Agapë é traduzido ao latim por caritas e dilectio, Exemplos: quem nos separará do amor [agapë/caritas] de Cristo? (Rm 8, 35) e o amor [agapë/dilectio] não pratica o mal contra o próximo (Rm 13, 3). Neste período,  Paulo usa agapë, que é traduzido ao latim por Charitas. E pode ser tanto o amor infuso como é o amor dos grandes místicos e seria carisma, ou amor como virtude; e então, seria o amor do qual Paulo fala nesta perícope e que acompanha a fé e a esperança (vers 13). Pelos atributos a este amor concedidos, podemos pensar no amor como virtude teologal e não como carisma infuso. BRONZE: Que em grego é chalkis e em latim aes palavras que tomam o metal pelo instrumento. Também chalkis significa dinheiro assim como prata em espanhol. A fala do bronze é ëchon, do verbo ëcheö [bramar, retumbar, ressonar]. Um outro instrumento é o CÍMBALO, semelhante aos pratos e que era usado como instrumento de percussão, principalmente em cerimônias religiosas. O seu som era como o som de uma campainha, um retintim tímido, pois eram considerados como pequenos sinos achatados e com grandes asas. Logicamente nada dizem em particular semelhantes instrumentos quando usados.

E se tiver profecia e conhecer os mistérios [mustëria<3466>=mysteria] todos e todo saber e se tiver toda a fé [pistin<4102>=fidem] de modo a mover [methistanei<3179>=transferam] montanhas, mas não tiver amor, nada sou (2). Et si habuero prophetiam et noverim mysteria omnia et omnem scientiam et habuero omnem fidem ita ut montes transferam caritatem autem non habuero nihil sum. MUSTËRIA: O termo indica coisas ocultas, secretas, especialmente se são os segredos dos iniciados religiosos, ou para um cristão, os planos divinos ocultos aos pecadores e conhecidos pelos santos. Paulo dá o objeto desses mistérios como sendo um conhecimento de tudo quanto é possível conhecer. FÉ: Claramente temos aqui a fé como carisma infuso que Paulo descreve como capaz de mover montanhas, sem dúvida, como uma citação implícita das palavras de Jesus Mt 17, 20. SE NÃO TIVER AMOR: Comestas palavras, Paulo não fundamenta unicamente a vida na terra como seguimento de Jesus, modelo do amor que se entregou portodos nós, mas também diz da essência da vida eterna, que é o amor como único motivo e objeto da mesma. Como filhos, participamos da vida trinitária de Deus, que em palavras de João, é AMOR. Jesus o revelou em seu testamento : Nisto conhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros como eu vos tenho amado (Jo 15, 12).

E se eu distribuir [psömisö<5595>=distribuero] todos os meus bens [uparchonta<5224>=facultates] e se der meu corpo para ser queimado [kauthësömai<2545>ardeam], mas não tiver amor, nada me aproveita (3). Et si distribuero in cibos pauperum omnes facultates meas et si tradidero corpus meum ut ardeam caritatem autem non habuero nihil mihi prodest. OS BENS: O Uparchonta grego indica possessões, bens, riquezas. Responde talvez ao convite de Jesus: Vende, se queres ser perfeito, os bens e dá aos pobres (Mt 19, 21). Não parece que tenhamos uma melhor disposição ao desprendermos dos bens externos que esta de entregar aos pobres os bens. SER QUEIMADO: É uma outra maneira, esta, íntima, de sacrifício. Se a anterior era o sacrifício do dinheiro, este é o sacrifício do próprio corpo. Embora ambos sejam considerados como boas obras, elas nada valem se não existir o amor. Não seria mártir Estêvão se ao morrer não tivesse pronunciado as palavras de perdão para seus algozes (At 7, 60). Mas quais são as qualidades do verdadeiro amor? Paulo as descreve na continuação.

O amor é paciente [makrothumei<3114>=patiens], é benigno [chrësteuetai<5541>=benigna]; o  amor não é invejoso [zëloi<2206>=aemulatur]; o amor não é vaidoso [perpereutai<4068>=agit perperam],não é orgulhoso [fusioutai<5448>=inflatur](4). Caritas patiens est benigna est caritas non aemulatur non agit perperam non inflatur. Os atributosque constituem os complementos do verbo ser indicam como deve ser o verdadeiro amor: MAKROTHUMEI, do verbo correspondente, significasuportar pacientemente, especialmente injúrias e ofensas, ser indulgentes com os outros. Em Mt 18, 26 o escravo diz a seu senhor: tem paciência comigo e tudo te devolverei. Em todos os casos, a paciência é parte da tradução bíblica como vemos pelo latim da Vulgata patiens. CHRËSTEUETAI: é benigna; e só sai neste versículo. Não tem INVEJA. Na realidade,o verbo usado Zëloö tem como significado primário ser zeloso, estar cheio de um espírito de dedicação e entrega. Um exemplo em 1Cor 14, 1: Segui o amor, mas procurai com zelo os dons espirituais. Mas também significa ter inveja, como em At 7,9 : Os patriarcas tornaram-se invejosos de José. VAIDOSO: O verbo Perpereumai significa jactar-se, e é hápax neste versículo. ORGULHOSO: Fusioö é andar inchado, ensoberbecido, arrogante, como em 1 Cor 4, 6: de modo que ninguém se torne arrogante a favor de um, em detrimento de outro. Em todas estas características encontramos como base, a humildade, o espírito de serviço e de entrega, próprio do verdadeiro amor. Esse amor que constitui a base da Lei: Amarás (Mt 22, 37-39). De modo que o amor constitui a razão do obrar e o objetivo da aspiração de toda criatura que quer ser filho de um Deus que se define como AMOR.

Não age inconvenientemente [aschëmonei<807>=ambitiosa], não busca as coisas próprias, não se irrita [paroxunetai<3947>=irritatur],não cogita a maldade [kakon<2556>=malum] (5). Non est ambitiosa non quaerit quae sua sunt non inritatur non cogitat malum.Continua Paulo enumerando as caracterísitcas negativas que impedem o verdadeiro amor, mais fáceis de descrever que as positivas. AGIR INCONVENIENTEMENTE: Aschemoneö é agir indecorosamente como em 1Cor 7,36 : se alguém julga que trata sem decoro a sua filha(1Cor 7, 36). Uma tradução inglesa fala de quem não se comporta de maneira rude ou de modo grosseiro. O latim traduz ambitiosus, que pode ser traduzido por jactancioso, intrigante, ostensivo. IRRITAR-SE: Paroxunö significaprovocar, irritar-se, zangar-se. Na única outra vez que aparece é em At 17, 16 quando o espírito de Paulo ficou revoltado ao ver a cidade de Atenas cheia de ídolos. NÃO COGITA A MALDADE: Logizomai tem o significado de considerar, avaliar, cogitar muito mais do que o simples pensar. É uma ação voluntariamente consentida e refletida. Kakon é o mal, que pode ser também desgraça, injúria.Pilatos pergunta: Que mal fez ele [Jesus]? Cogitar o mal é, pois, querer ou praticar uma coisa que seja em prejuízo do próximo. Contrariamente ao rico, que só recebeu bens na sua vida, Lázaro só recebeu males (Lc 16, 25). Traduziríamos, pois, não deseja o mal do próximo. Dizem de uma tribo da Indonésia que tem como costume guardar como memória as ruindades dos inimigos, suspensas do telhado de suas cabanas. A maioria de nós faz isso. Porém ao contemplarmos o verdadeiro amor poderíamos afirmar que não existe uma boa ação que tenha como motivo um pensamento ruim.

Não se alegra pela iniquidade, mas se congratula com a fidelidade (6). Non gaudet super iniquitatem congaudet autem veritati. Agora, Paulo inicia uma série de qualidades positivas do amor/agapë. Em primeiro lugar, toma como consideração a felicidade que é uma consequência do amor: A felicidade não está na Adikia<93> que é traduzida por injustiça, mas que na realidade tem um significado muito mais amplo: é o de todo ato oposto à Lei, ou ato pecaminoso. A Melhor tradução é a dada pela Vulgata: iniquitas. Neste caso, encontramos  a felicidade e a alegria é na Alëtheia<225> que é traduzida geralmente por verdade mas que, como oposta a iniquidade que, na realidade, é uma desobediência ou infidelidade às leis divinas, podemos traduzir por fidelidade às mesmas.  Lemos em Jo 3, 21: quem pratica a fidelidade [aletheia] que geralmente é traduzido por verdade e que como tal tradução não faz muito sentido. E o sentido de Rm 15, 8, quando fala da fidelidade [áletheia]de Deus para confirmar as promessas feitas aos nossos pais. Ou a frase em verdade que muito melhor seria traduzida por fielmente ou com fidelidade, como aquela em que o fariseu diz de Jesus que ensina o caminho de Deus epi aletheias [de modo fiel]. Ou Jo 4, 23 a hora em que adorarão em espírito e fidelidade [muito melhor que em verdade], pois é neles que o Pai encontra seus adoradores. Modernamente Jo 1, 17 , charis kai aletheia é traduzido por graça e fidelidade [gratia et veritas latino]. Paulo usa a alëtheia tou Theou como fidelidade de Deus que engrandece minha infidelidade [Pseusma=mendacium]. Quando se trata de Deus a pistis não pode ser traduzida por fé, mas toma seu significado original de fidelidade como em Hb 11, 11 em que se fala da pistis [fidelidade] de quem recebeu a boa nova.

Tudo aguenta, tudo confia, tudo espera, tudo suporta (7). Omtoniverbo tem em sena suffert omnia credit omnia sperat omnia sustinet. AGUENTA: do verbo Stegö com o significadodetolerar, aguentar, sofrer. CONFIA: O verbo Pisteuö tem um sentido, só bíblico, de acreditar, crer, como traduz a Vulgata. Mas aqui parece que confiar é o mais apropriado. ESPERA: como Elpizö éesperar. SUPORTA: o verbo Upomeneö tem o significado de suportar, sofrer, resistir. Estas qualidades do amor indicam que a humildade e o serviço são inerentes ao mesmo. Spurgeon chama estas quatro virtudes companheiras afáveis do amor.

O amor, de maneira alguma, decai, portanto as profecias desaparecerão como as línguas cessarão como o conhecimento será anulado (8). Caritas numquam excidit sive prophetiae evacuabuntur sive linguae cessabunt sive scientia destruetur. DECAI: do verbo Ekpiptö cujo significado é cair, tombar, desmoronar, desabar, ruir. Contrariamente às profecias, que do verbo Katargeö deixam de agir ou cessam em suas funções, assim como as línguas que param, suspendem ou são interrompidas, segundo o verbo Pausö, o amor permanece. E Paulo repete o mesmo verbo katargeö para o conhecimento que não terá como agir em todo tempo. Tudo indica a precariedade e temporalidade desses carismas tão desejados pelos de Corinto.

Parcialmente, pois, conhecemos e parcialmente profetizamos (9). Quando, pois, vier o completo, então o parcial será abolido (10). Ex parte enim cognoscimus et ex parte prophetamus. Cum autem venerit quod perfectum est evacuabitur quod ex parte est. Paulo dá a razão dod porquê essa decadência: a imperfeição dessas qualidades que devem ser substituídas por outras mais perfeitas ou completas. Tendo estas últimas, o imperfeito é inútil e até inconveniente.

Quando eu era infante como infante falava, como infante pensava, como infante raciocinava, mas quando me tornei adulto aboli as coisas do infante (11). Pois vemos agora por meio do espelho e em enigma. Então, porém, face com face; agora conheço parcialmente; então, porém, compreenderei como sou compreendido (12). Cum essem parvulus loquebar ut parvulus sapiebam ut parvulus cogitabam ut parvulus quando factus sum vir evacuavi quae erant parvuli Videmus nunc per speculum in enigmate tunc autem facie ad faciem nunc cognosco ex parte tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum. Com este exemplo, Paulo ilumina seu raciocínio. Uma coisa é a fala, o pensamento e o conhecimento de um infante [nëpios<3516>]. Esta palavra originalmente indicava aquele que não falava ou seja um bebê, que traduzimos por infante, pois para bebê temos o broto ou brefos <1025> grego. ADULTO: É o Anër<435> que indica um homem adulto ao distingui-lo por idade de um menino. Também significa varão para diferenciá-lo da mulher, ou marido para separá-lo da esposa. Paulo continua com o exemplo da imperfeição dada pelos espelhos antigos da época, que consistiam de uma lâmina de prata mais ou menos polida. Precisamente, Corinto era famosa por seus espelhos de metal polido. Era também uma visão por enigmas [ainigma<135>], com significado de um dito ou fato de difícil interpretação. Segundo Paulo, esta vida terrena é só um passo para a definitiva, em que tudo será compartilhado com Deus, pois o veremos face a face, pessoalmente, como Moisés, que falava com o Senhor face a face como um homem fala com seu amigo (Êx 33,11). Em Nm 12, 8 o Senhor diz que fala com Moisés boca a boca, claramente e não por enigmas, pois vê a forma do Senhor. Claro que esta forma foi vista de costas (Êx 33, 23). Nesta vista e conhecimento consiste, segundo Tomás de Aquino, a visão que é a base da glória celeste. A frase como sou compreendido [epiginöskö<1921>] tem o sentido de conhecimento completo, total, e por isso, usamos compreender. Paulo usa a comparação de como sou conhecido, uma passiva que indica ser conhecido por Deus. Dizem do Aquinate que teve uma revelação de Deus, de tal forma, que nunca mais escreveu porque não podia com palavras humanas descrever o que interiormente experimentou. É inútil descrever a um surdo de nascimento como são os sons que os não privados da audição experimentam. Só sabemos que a felicidade dos bemaventurados será mui superior à que experimentaram os grandes místicos, que tiveram um contato íntimo com Deus e seus mistérios.

Agora, pois, permanece(m) fé, esperança, amor, destas  três: porém o amor a melhor delas(13). Nunc autem manet fides spes caritas tria haec maior autem his est caritas. Esta é a conclusão sobre a excelência dos dons espirituais que não podemos confundir com os que modernamente chamamos de carismas, já que estes são infusos e operam modo divino [gratiae gratis datae], e o que Paulo nomeia na continuação são virtudes infusas que operam modo humano [gratiae gratum facientes], mas são as que realmente permanecem, ao contrário dos carismas estritos que são temporais. A fé, a esperança e o amor são as três virtudes teologais, por meio das quais nos ligamos a Deus em conhecimento, em desejo e como amado. Mas o principal de todas é o amor, que constitui a base e essência da vida cristã. São virtudes permanentes sem as quais nenhum cristão pode viver como tal em graça de Deus.

Evangelho

IV DO TEMPO COMUM (Lc 4, 21-30) - LUGARES PARALELOS Mt 13, 53-58 e Mc 6, 1-6)

INTRODUÇÃO: O texto evangélico nos apresenta a cena da sinagoga de Nazaré. Os conterrâneos de Jesus, que O conheceram desde menino, são incapazes de superar o escândalo da Encarnação de Deus na raça humana. Segundo os modernos comentaristas, houve duas visitas de Jesus a Nazaré: uma no início de seu ministério, coroada de êxito: e admiravam-se das palavras cheias de graça que saiam de sua boca (Lc  4, 22). Na segunda, foi incompreendido e rejeitado, escandalizando-se dele (Mt 13, 57). Na primeira, se apresenta como o profeta anunciado por Is 61, 1+ que vem libertar cativos, como vimos no domingo anterior. Na segunda, Mateus e Marcos apresentam, nas pessoas de seus conterrâneos, o fracasso de sua missão entre os judeus a quem chama de geração má e adúltera (Mt 24, 34). Vejamos cada um dos versículos por separado. Como sempre, oferecemos uma tradução direta do grego, comparando-a com a Vulgata latina e dando uma interpretação, a mais ajustada possível, aos costumes da época, fundada quase sempre nos velhos textos do AT.

AS HAFTAROTH: Começou, então, dizer diante deles: porque hoje tem-se cumprido a escrita esta em vossos ouvidos (21). Coepit autem dicere ad illos quia hodie impleta est haec scriptura in auribus vestris. A palavra Haftaroth é o plural de Haftará palavra que significa conclusão. Era um trecho dos Neviim (profetas) que era lido em voz alta na sinagoga, após a leitura da Torá (Lei) ou melhor da Parashá (trecho da Lei lido no dia) com o qual finalizava praticamente o serviço matutino (Shaharit) do Sábado. Houve épocas na história, em que a leitura da Lei foi proibida. Portanto os judeus liam trechos dos profetas que não estavam proibidos pelas autoridades pagãs que os dominavam, especialmente na época de Antíoco Epífanes, e cada semana liam um trecho, supostamente semelhante ao da Torá proibida, pois o trecho da Haftará trata geralmente do assunto similar ao texto da Torá ao qual corresponde. A referência mais antiga com respeito à leitura da Haftará está em At 13, 15 em que Paulo se levanta para comentar a leitura da Lei e dos Profetas. A leitura era, melhor dizendo, uma recitação ou canto de tom monótono [cantinela espanhola, ou cantillation inglesa] como costumam fazer os judeus hoje em dia. Tinham sinais de entonação sobre as letras para dar maior ênfase a determinadas palavras do parágrafo. Estes sinais eram os teamim, que como sinais musicais, eram conhecidos com o nome de nigun [melodia]. Os judeus não consideram essa leitura melodiosa como canto verdadeiro e por isso falam de recitar ou ler. Nesta ocasião, como explicamos em anterior artigo, a Haftará lida era o texto de Isaías 61, 1-2, com algumas diferenças entre os textos grego e massorético (os que fixaram o texto hebraico hoje definitivo, da palavra. Massorá=tradição). O importante é que Jesus não comenta os pobres como nas bemaventuranças (Lc 6,20), mas insiste no tempo de salvação, aqui e agora. Após, pois, a leitura do trecho, Jesus entregou o rolo ao assistente (Hyperetes, ou seja servidor) e sentou-se. Sabemos pela tradição que nesta época os livros da Torá eram rolos de pergaminho, enrolados em duas varas curtas (Eitz Hayim) que terminavam em sendas romãs (Rimonim), uma coroa (keter), um escudo de prata (Tass) com os símbolos das 12 tribos, semelhante ao pendurado no peito do sumo sacerdote, embora este Tass ou Tzit não esteja em uso pelos sefardies (judeus de origem hispana). O pergaminho tinha um forro de seda ou veludo, que estava bordado nas bordas. Após a leitura, o servidor enrolava o rolo da direita até não ficar espaço entre os dois rolos, e amarrava o conjunto com uma faixa (Mapá). Entregue o rolo, Jesus sentou-se. A palavra sagrada era escutada de pé. A palavra e os comentários dos sábios eram escutados sentados. Daí que Jesus, uma vez terminada a leitura, se assentasse. A cadeira, chamada cathedra (cátedra) tem um significado ritual e dogmático muito sugestivo (Mt 23,2). Como exemplo, a Igreja celebra a festa da cátedra de S. Pedro como símbolo de sua infalibilidade em matéria de fé e costumes. Na basílica do Vaticano temos essa cátedra representada como trono iluminado através da luz filtrada do Espírito Santo, figurado em forma de pomba por Bernini, no que é chamada a glória do dito arquiteto. As atuais leituras da Haftará lembram as épocas em que a liberdade religiosa foi restringida. Também recordam aos judeus os outros livros santos da Tanaká [bíblia total formada pelas iniciais de Torá {lei}, Neviim {profetas} e Ketuvim{hagiógrafos}], fora da Lei, que são importantes para a religião e cultura hebreias.

A ADMIRAÇÃO: E todos testemunhavam dEle e admiravam-se sobre as palavras de elegância emergentes de sua boca e diziam: Não é este o filho de José ?(22). Et omnes testimonium illi dabant et mirabantur in verbis gratiae quae procedebant de ore ipsius et dicebant nonne hic filius est Ioseph. São três as afirmações deste versículo: O testemunho favorável dos ouvintes, a admiração que suas palavras sábias suscitavam neles e a incredulidade sobre sua origem conhecida, que não prognosticava semelhantes maravilhas. O testemunho está unido a admiração. Ouviam coisas novas e bem elaboradas e aparentemente lógicas, que outros mestres da Lei nem tinham conhecimento e nem sabiam expressar. Falava com autoridade como  afirma Mateus 7, 29. Temos traduzido por elegância a palavra graça [charis, gratia] que significa favor, atrativo, encanto e quando se fala de uma homilia ou um discurso, podemos pensar em beleza, elegância, excelência de estilo. Era só o estilo, a maneira elegante de dizer as coisas, ou era a base de suas afirmações que cativavam seus conterrâneos? Possivelmente as duas coisas. Por essa forma de falar, suscitou-se uma certa incredulidade entre os ouvintes. De onde Lhe vem esta sabedoria, se perguntavam os compatriotas (Mt 13, 54), que Marcos confirma em 6, 2. Era a sabedoria ou conhecimento superior que todos admiravam. Uma interpretação nova das Escrituras nunca escutada dos lábios dos mestres conhecidos da Lei. Quem era Ele, um filho de um artesão sem estudos, sem importância ou relevância entre os concidadãos? Como um homem, de quem se conhecia um pai ignorante quanto à ciência da Lei, e que era um filho que nada tinha feito para merecer qualquer mestrado na mesma, se atrevia a proclamar semelhante autoridade? Porque Jesus interpreta a Escritura de modo a se declarar Ele mesmo profeta. Por isso diz que os dois exemplos, o de Elias e o de Eliseu provam que Ele tampouco realizaria milagres em sua terra, porque ninguém é profeta na sua pátria (24). A asseveração está confirmada por Mateus (13, 57) e Marcos (6,4) onde, em outros termos, lemos que um profeta é desestimado, não tem crédito (atimós) em sua pátria, no ambiente de sua casa e de sua família.

A RESPOSTA DE JESUS: Então lhes disse: Certamente me direis esta parábola: médico cura a ti mesmo, quantas (coisas) ouvimos feitas em Cafarnaum, faz também aqui em tua pátria (23). Et ait illis utique dicetis mihi hanc similitudinem medice cura te ipsum quanta audivimus facta in Capharnaum fac et hic in patria tua, MÉDICO: Jesus cita um provérbio. Mashal é o título dado ao mesmo, que Lucas traduz por parábola: Médico cura-te a ti mesmo. Os judeus tinham com o mesmo significado, as máximas de “médico cura tua coxeadura” ou “vai curar a ti mesmo”. O parágrafo seguinte nos aclara que Lucas não escreve uma história cronologicamente ordenada. Interessam-lhe os fatos e as verdades teológicas. Sem ter narrado cura ou milagre algum, os habitantes de Nazaré esperam que Ele faça entre eles o que já tinha feito em Cafarnaum (23). É ilógico porque tem como base o que não foi notificado de antemão. Segundo Lucas, só temos um ensino nas sinagogas sem milagres ou poderes [dynameis]. E imediatamente narra a sua presença em Nazaré, onde parece que Lhe exigem algum sinal ou portento. Mateus dirá que Jesus não conseguiu fazer muitos poderes [dynameis] por causa da incredulidade deles. Os poderes que conseguiu fazer eram algumas curas de doentes, impondo sobre eles as mãos (Mc 6, 5).

AMÉM: Disse, pois: Amém vos digo que nenhum profeta é aceito na sua pátria (24). Pois em verdade vos digo: Muitas viúvas havia nos dias de Elias em Israel, quando fechou-se o céu durante três anos e seis meses de modo que houve uma grande fome sobre toda a terra(25) Ait autem amen dico vobis quia nemo propheta aceptus est in patria sua. In veritata dico vobis multae viduae erant in diebus Heliae  quando clausum est caelum annis tribus et mensibus sex cum facta est fames magna in omni terra. AMÉM: Lucas emprega poucas vezes o Amém (7) em seu evangelho e sempre com afirmações que indicam uma autoridade como a que a tradição atribuia a Moisés após sua visão no Sinai [amém lego umim, amen dico vobis, em verdade vos digo]. O Amém aparece 31 vezes em Mateus, 15 em Marcos e 25 em João. (ver o meu comentário de 13 de agosto do 06). No AT aparece 13 vezes e as 3 letras hebraicas que o compõem significam: El Melek Neeman [= Deus. Rei Fiel]. Mas sempre se usava como resposta a uma maldição, como uma afirmação do que foi dito ser verdadeiro, ou como epílogo a uma bênção que se deseja se transforme em realidade. Uma única vez o Amém se identifica com o próprio Deus o Deus Amém em Is 65, 16. E Jesus toma esta atitude ao iniciar determinadas afirmações. O próprio Lucas nos dá a tradução desta palavra no versículo 25: sobre a verdade eu vos digo. Nela afirma seu atributo como profeta falando em nome de Deus ou como o Deus Encarnado que Ele era. Os rabis, como juramento de suas afirmações, declaravam Beemet [com fidelidade], que poderíamos traduzir logicamente como fidelidade à lei e costumes. Como vemos, Jesus não se atém aos antigos, mas à verdade, da qual Ele é representante supremo: Sou a Verdade (Jo 14, 6). Precisamente por essa última razão, o amém não foi usado como afirmação diante do verbo dizer ou afirmar por nenhum dos apóstolos ou profetas da primitiva Igreja. Esta afirmação de Jesus é corroborada pelos dois exemplos de duas grandes figuras do javismo em tempos difíceis como eram os de Acab e Jezrael no reino do norte, Israel. Jesus, ao apresentar os dois exemplos, indiretamente se apresenta como um profeta que iguala em portentos a Elias, o maior dos profetas do AT e ao seu sucessor Eliseu que recolheu o manto e com ele o espírito de Elias e assim obteve o poder de realizar milagres (2 Rs 2, 9-13). Em I Rs 17,14 Elias afirma: Assim diz Senhor Deus de Israel. A essa afirmação corresponde o amém de Jesus. É, pois, uma afirmação muito grave que foi, sem dúvida, a causa de querer matá-lo. Não somente se iguala com os dois grandes profetas, mas usa termos que nenhum mortal poderia usar: Amém no lugar de beemet. Jesus é fiel unicamente a si mesmo como a Escritura afirma de Javé. Por isso, a ira dos compatriotas e seu desejo de apedrejá-Lo. FECHOU-SE O CÉU: Na realidade os três anos e meio é uma expressão tirada do castigo de Antíoco Epífanes que perseguiu os judeus segundo esse período, mas que em 1 Rs 18, 1 só dura três anos. O período de castigo era pois, um período aproximado, sem precisão matemática. O significado passivo de se fechar o céu indica uma atuação direta de Javé, e com isso a fome chegou a toda a terra. A palavra terra não tem o sentido atual universal do planeta, mas o restrito de eretz Israel ou terra de Israel. A fome é, segundo a Escritura, um castigo divino de 3 anos pelo pecado de Davi (2 Sm 24, 13). Também Tiago (5,17) recolhe essa tradição que parece própria dos livros apocalípticos como Dn 7,25 (um tempo, dois tempos e metade de um tempo). Não existe outra fonte para saber a duração do castigo por causa da impiedade de Acab, rei de Israel.

ELIAS: Porém a nenhuma delas foi enviado Elias senão a Sarepta de Sidônia, a uma mulher viúva (26). Et ad nullam illarum missus est Helias nisi in Sareptha Sidoniae ad mulierem viduam. O verbo em passiva, foi enviado, indica que Elias atuou por mandato divino. Logo o exemplo tem uma razão transcendente que o torna um magnífico paradigma para nele fundar o argumento, como Jesus disse. A viúva não pertencia ao povo de Israel, e era esse o motivo em que Jesus se apoia para rebater o raciocínio de seus compatriotas. Ele não estava para favorecer seus concidadãos, mas para cumprir a vontade de Deus.

ELISEU: E muitos leprosos havia sob Eliseu, o profeta, em Israel; e nenhum deles foi limpo, senão Neeman (sic) o sírio (27). Et multi leprosi erant in Israhel sub Heliseo propheta et nemo eorum mundatus est nisi Neman Syrus. O sob [epi, grego ou sub latino] indica não jurisdição, mas tempono qual viviam tanto Eliseu como os numerosos leprosos da época. O acento não está tanto no número, mas na procedência dos enfermos e na unicidade da cura. A lepra, na Escritura, provavelmente era uma nominação comum para diversas doenças de pele como psoríase, tinha, lúpus, carcinomas, ceratoses, eczemas, pênfigos, etc e a lepra propriamente dita, devida ao micobacterium leprae, ou doença de Hansen. As doenças de pele eram comuns na época de Eliseu. E entre tantos, só um sírio, Naamã, um estranho, foi o escolhido para ser curado. À parte a nacionalidade do curado, está a singeleza de seu caso. Não todos são curados, nem a maioria, mas em casos pontuais e extraordinários e isso serve para os dias de hoje.

A REAÇÃO: Então encheram-se todos de ira na sinagoga ouvindo essas coisas (28). Et repleti sunt omnes in synagoga ira haec audientes. Havia dois motivos: 1) O orgulho inusitado de Jesus que se intitulava mais do que profeta, comparando-se aos maiores vultos proféticos de Israel e 2) A negativa de realizar qualquer prodígio em sua cidade, que segundo os costumes da época devia ser privilegiada com respeito às outras comunidades. Além do orgulho pessoal havia um desprezo para com seus conterrâneos que resultava intolerável. Jesus afirma que conseguiu melhores resultados em qualquer outro lugar, do que conseguiria na sua aldeia. Indiretamente, Jesus os compara com os perseguidores dos antigos profetas como Acab e Jezabel, além de afirmar que a nenhuma viúva entre eles (os de sua aldeia) foi enviado e que nenhum deles seria curado. Marcos conclui esta visita de modo diferente: é Jesus quem fica admirado pela falta de confiança do seu povo nEle e por isso não pode curar a ninguém à exceção de uns poucos doentes, que para Mateus eram de pouca importância como indica a palavra arrostós. Por isso, muitos afirmam que houve duas visitas, uma delas com resultados insignificantes. A outra, com revolta e expulsão violenta. Ver logo o que consideramos a verdadeira razão para matá-lo.

INTENTO DE DESPENHÁ-LO:E tendo se levantado, o arrojaram fora da cidade e conduziram até o alto do monte sobre o qual a sua cidade estava edificada para despenhá-lo (29). Et surrexerunt et eiecerunt illum extra civitatem et duxerunt illum usque ad supercilium montis supra quem civitas illorum erat aedificata ut praecipitarent eum.Como a um malfeitor que a lei mandava ser executado fora da cidade, expulsam Jesus e intentam despenhá-lo do cume do morro que dominava a vila. Embora não fosse uma morte tradicional temos o caso dos dez mil edomitas que foram assim mortos pelos judeus em tempo de Amasias, rei de Judá (2 Cr 25, 13). A pergunta é: por que os ouvintes da sinagoga de Nazaré intentam matar Jesus? Só a raiva não é motivo suficiente. A resposta é, sem dúvida, o trecho de Dt 18, 20-22: O profeta que tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que não lhe mandei … esse profeta deve morrer. E se perguntares: “Como posso distinguir a palavra que não vem do Senhor?” Nisto terás um sinal: se não acontecer o que aquele profeta disse em nome do Senhor, o Senhor não disse tal coisa, mas foi o profeta que o inventou por presunção de seu espírito, e por isso não o temerás. Ao usar o Amém, Jesus se colocava como voz de Javé e ao dizer que se cumpriam as palavras de Isaías, Ele assumia uma profecia do antigo profeta como própria. Ao se negar a fazer um milagre, Ele ficava como falsa testemunha diante dos seus ouvintes, e a lei do Deuteronômio recaia sobre ele. Devia se cumprir o que a Lei ordenava. Seria um linchamento injusto também do ponto de vista da lei, pois não se podia julgar nem condenar em dia de Sábado. Êx 35,3, ao ordenar que não devia ser aceso fogo nesse dia, impedia que o fogo fosse aplicado como pena de morte e daí deduziam que outro castigo da mesma natureza era também proibido pela lei. O problema é que a atual Nazaré não tem semelhante montanha cortada em precipício, e que este só se pode encontrar a 3km de distância, que ultrapassa em muito o caminho do Sábado. Uma solução é que existissem dois tempos diferentes entre o tumulto da sinagoga e a solução de despenhar Jesus, que teria sucedido em tempo diferente, mas que a cronologia de Lucas, totalmente imperfeita como notamos no início, reuniu numa única jornada. Finalmente, os compatriotas decidiram que Jesus não estava bem da cabeça, ou enlouqueceu ( Mc 3, 21), fato que os inimigos atribuíam ao demônio (Jo 8, 48). Tanto Mateus como Marcos calam sobre o mal resultado desta visita de Jesus a Nazaré e unicamente afirmam que não pode realizar ali grandes milagres fora  algumas curas sem importância. Isso realça a vida oculta de Jesus escondida no trabalho de um artesão.

FINAL: Porém, Ele, tendo passado por meio deles, prosseguia (seu caminho) (30). Ipse autem transiens per medium illorum ibat. Assim, como por milagre, Jesus se despede definitivamente de sua cidade e optará como própria a casa de Pedro em Cafarnaum.

PISTAS: 1) Lucas enfoca, de modo global, a missão de Jesus como um fracasso a partir da perspectiva de seus conterrâneos mais imediatos. E assim repetir-se-ia em termos mais abrangentes ao contemplá-la do ponto de vista da nação judaica. O episódio de Nazaré é, pois, paradigmático. Sua pátria não é a pequena Nazaré, mas toda a Palestina. Esse seu fracasso dá-se também nos que esperam um Jesus pregador/milagreiro, para satisfazer deficiências corporais ou carências materiais. E há tantas Igrejas que nisso colocam o fundamental do evangelho! Não podemos esquecer, porém, que a proclamação fundamental do evangelho é a pessoa de Cristo.

2) O mundo moderno, dirigido fundamentalmente por slogans publicitários, admite Jesus como figura secundária, relegado por vultos de primeira categoria  como futebolistas, atores e cantores, que ocupam o ranking superior de sua escolha. Ou a História nada conta de autêntico e verdadeiro, ou ela está mal contada e a culpa é nossa, ministros e testemunhas de Sua palavra. Não sabemos como vender nossa melhor mercadoria, porque muitas vezes usamos o mashal para explicar fenômenos históricos com o qual a vida de Jesus se transforma num conjunto de parábolas sem base real.

3) As palavras de Isaías comentadas por Jesus iniciaram a famosa opção preferencial pelos pobres, que o Papa mudou em amor preferencial pelos mesmos. Comentava um sacerdote: não é só mudança de palavras mais suaves, mas mudança total de visão: na primeira opção o trabalho evangélico se torna humano e individual, e a Teologia se transforma em Antropologia, com o que isso acarreta de incerteza, reducionismo ideológico. Quando é o amor com o qual optamos pelos pobres, nos referimos principalmente ao amor de Deus, como fundamento e jamais equivocaremos o caminho porque é assim que podemos traduzir (o wai hebraico pode ter também o significado de porque) o anúncio angélico: glória a Deus no mais alto dos céus porque oferece paz aos homens que ele ama.

4) O versículo 22 indica claramente que o filho do Panthera – apelido da família segundo escritos judaicos e antigos documentos cristãos – jamais deixou sua terra para exibir uma ciência e sabedoria de origem tibetana, como afirma o que hoje podemos chamar de lenda de pura ficção.

5) O uso do amém no lugar do beemet indica a autoridade de Jesus a respeito da sabedoria dos mestres da lei que eram unicamente comentaristas de uma tradição humana. Jesus se revela como profeta e fala em nome de Deus, usando o Amém no lugar de Assim diz o Senhor, dos antigos profetas.




24.01.2010
III Domingo do Tempo Comum - ANO C - Verde

__ “Deus se revela e se comunica ao homem!” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! O cristianismo é revelação. Deus se revela e se comunica ao homem histórico. Essa revelação-comunhão se torna presente na história através do sinal da Palavra (palavra e gesto) cujo cerne é Jesus de Nazaré, a Palavra de Deus viva encarnada. Não é tanto o esforço que o homem faz para atingir e conhecer a Deus, quanto o ato de Deus que se dá e se une ao homem. Jubilosamente, entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (Ne 8,2-4a.5-6.8-10): - "Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus! Não fiqueis tristes nem choreis."

SALMO RESPONSORIAL (Sl 188): - "Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!"

SEGUNDA LEITURA (1Cor 12,12-14.27): - "Vós, todos juntos, sois o corpo de Cristo e, individualmente, sois membros desse corpo."

EVANGELHO (Lc 1,1-4; 4,14-21): - "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir!"



- "A Palavra Encarnada"
    Reflexão do Evangelho por Diácono José da Cruz

Ao visitar Nazaré, cidade onde havia se criado, Jesus foi participar de uma celebração na sua comunidade, onde sempre fazia uma leitura e depois ajudava o povo a refletir, como fazem hoje nossos ministros leigos, que celebram a Palavra.

Podemos até imaginar a alegria do chefe da sinagoga quando viu Jesus chegar, ele era muito querido na comunidade, não só por ser uma pessoa simples, mas porque falava muito bem e demonstrava uma sabedoria superior aos sacerdotes, escribas e fariseus, sua catequese era bem prática e logo cativava. Por isso, ao vê-lo entrar na comunidade, o chefe da sinagoga foi logo pedindo para que ele fizesse uma leitura, porque parece que, como acontece me nossas comunidades, naquele dia o leitor escalado não apareceu.

Jesus escolheu o livro do profeta Isaias que era o seu preferido, porque já o havia lido várias vezes e tinha a nítida impressão de que o texto falava dele.

Conforme Lucas que escreveu este evangelho de maneira ordenada e após muito estudo, por este tempo Jesus estava iniciando o seu ministério, já havia sido batizado e enfrentara com muita coragem o diabo, que no deserto tentou desviá-lo da sua missão.

A verdade é que Jesus tinha uma grande vontade de sair pelo mundo, ajudando as pessoas e falando de uma coisa que sentia em seu coração, foi com certeza por isso que naquele dia voltou à comunidade, e quando já no ambão, começou a ler o profeta Isaias, na passagem onde diz “O Espírito do senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para levar a Boa notícia aos pobres, anunciar a libertação aos cativos e aos cegos e anunciar um ano de graças do Senhor”, seu coração começou a bater mais forte, percebeu que Deus não apenas falava para ele, mas falava dele, da sua vida, da sua história e da sua missão. Ele já havia sentido muito forte a presença desse Espírito de Deus no dia do seu batismo, e no confronto com o diabo no deserto, sentiu toda a força que o espírito lhe dava.

Nessa celebração as coisas ficaram muitas claras para ele: a libertação com que tanto sonhava junto com seu povo, ia muito além de uma libertação política, a palavra tinha a força de libertar o homem também e principalmente do mal que havia no coração, e que impedia de amar a Deus e aos irmãos. A opressão e a escravidão do seu povo era conseqüência de todo esse mal que havia dentro de cada homem, não só dos opressores. Precisava dizer isso aos pobres, aos cegos e oprimidos, que um tempo novo estava começando, com essa verdade que o Pai revelara através do profeta.

Todos olhavam fixamente para ele à espera da homilia, o mesmo espírito que o havia ungido acabara de transformá-lo na palavra Viva de Deus e por isso, sentando-se como faziam os grandes Mestres, disse: “Hoje se cumpriu essa passagem que acabastes de ouvir”

Também nós cristãos freqüentamos a celebração da palavra em nossas comunidades onde as leituras, mais do que falar para nós falam de nós, pois a história de Jesus é a nossa história, também nós recebemos a graça de Deus em nosso batismo, também nós recebemos a unção do Espírito Santo, não para termos ataques de histeria e entrarmos em transe, mas para termos a mesma coragem de Jesus para cumprir a nossa missão, anunciar a boa notícia aos pobres, oferecer a palavra libertadora a quem está cego e cativo, e falar de um tempo novo onde Deus manifesta todo o seu amor ao homem que o busca.

Para que haja essa interação entre nós e a palavra, é necessário que nossas celebrações sejam bem participadas e preparadas, de maneira bem organizada pensando em todos os detalhes e aí podemos apreender com o escriba Esdras que na primeira leitura nos oferece um ótimo roteiro para celebração da palavra de Deus, onde a assembléia, tocada pela palavra, corresponde com gestos que manifestam o que está no coração, diferente da liturgia do “oba-oba”, muito usada para se atrair multidões, e que ás vezes, com tantos gestos e movimentos, acaba ficando vazia justamente por não ser uma manifestação espontânea do que se tem no coração tocado pela palavra de Deus. (3º. Domingo do TC )

José da Cruz é diácono permanente da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim - e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

Os Evangelhos são históricos

Esta afirmação está de acordo com o que acabamos de escutar: “muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos (…) Também a mim me pareceu bem, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti” (Lc 1,1-3). Contudo, os últimos dois séculos presenciaram uma reação, especialmente dentro protestantismo, contra a historicidade dos Evangelhos.

A Igreja Católica, no Concilio Vaticano II, reafirmou que os Evangelhos são históricos (cf. Constituição Dogmática Dei Verbum, nº 19). E, no entanto, não se deve entender a historicidade dos Evangelhos como uma espécie de crônicas sobre Jesus. Em primeiro lugar, Jesus não deixou nenhum só livro escrito, ele não quis escrever, quis viver e anunciar a vontade do Pai. Em segundo lugar, os apóstolos também não tinham como preocupação primordial escrever livros que contassem a vida de Jesus, eles deviam pregar o nome de Jesus para que todos fossem discípulos. Em terceiro lugar, segundo muitos estudiosos da Bíblia, os Evangelhos foram escritos entre os anos 60 e 90.

O Evangelho escrito segundo cada um dos quatro evangelistas transmite a pregação dos apóstolos sobre Jesus. “Os autores sagrados, porém, escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por palavra ou por escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das igrejas, conservando, finalmente, o caráter de pregação, mas sempre de maneira a comunicar-nos coisas autênticas e verdadeiras acerca de Jesus” (DV 19).

Tudo isso não nos deve escandalizar! Os evangelistas eram pessoas normais que foram movidos a colocar por escrito as ações e os ensinamentos de Jesus Cristo numas circunstâncias concretas, a umas determinadas pessoas, com as limitações e vantagens de uma determinada língua, com a preocupação de que o seu relato resultasse inteligível. A inspiração da Sagrada Escritura não é uma espécie de ditado sagrado no qual o Espírito Santo inspirava as palavras exatas ao autor que as colocava por escrito tais quais, como se o hagiógrafo estivesse num êxtase constante ao escrever. O mesmo São Lucas diz no começo seu relato que ele fez uma investigação diligente dos acontecimentos. A essa investigação diligente, acrescente-se que na época em que os evangelhos foram escritos, a Igreja já tinha uma compreensão muito mais desenvolvida do Mistério de Cristo. Lembremo-nos das palavras do próprio Jesus Cristo: “muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,12-13). A compreensão do que Jesus nos deixou cresce na vida e no ensinamento da Igreja, máxime se pensamos no tempo apostólico, no qual a revelação pública ainda estava acontecendo.

Em conclusão, os Evangelhos transmitem a pregação apostólica, a qual leva consigo não só os fatos da vida de Cristo, mas a interpretação que os apóstolos fizeram desses fatos à luz do Espírito Santo. Os evangelhos, portanto, são históricos com uma historicidade peculiar. Para compreender essa historicidade peculiar será necessário ter presente não só os acontecimentos da vida de Jesus Cristo, sua obra e suas palavras, mas também a compreensão que os apóstolos, guiados pelo Espírito Santo, tiveram do Mistério de Cristo e colocaram por escrito ou permitiram que outros a escrevessem (Lucas e Marcos não são apóstolos, por exemplo). Assim como se diz que o autor da Sagrada Escritura é Deus como causa principal e que os autores da Sagrada Escritura são os escritores sagrados (hagiógrafos) como causas segundas ou instrumentais, da mesma maneira se pode dizer do único Evangelho ou segundo Mateus ou segundo Marcos ou segundo Lucas ou segundo João.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa - 24/01/2010


Comentário Exegético – III Domingo do Tempo Comum - Ano C

feito por Pe Ignácio, dos padres escolápios (extraído do site http://www.presbíteros.com.br)

Segunda Leitura

MEMBROS DE UM CORPO: Ora, assim, como o corpo é um e têm muitos membros, porém os membros de um corpo, sendo muitos, são um só corpo, assim também o Cristo (12). sicut enim corpus unum est et membra habet multa omnia autem membra corporis cum sint multa unum corpus sunt ita et Christus. Paulo usa duas alegorias, comparando a Igreja e seus membros com o Cristo total: o templo (1 Cor 3, 16) e esta alegoria se refere ao corpo. Na primeira, visa cada cristão em particular, como templo em que habita o Espírito Santo. Nesta outra alegoria é contemplada a comunidade dos cristãos como um só corpo com Cristo, formando o complemento ou plenitude, como geralmente se traduz a palavra plëroma. A ideia paulina é que, assim como a alma unifica todos os membros de um corpo, assim também o Espírito, recebido no batismo e do qual estamos como possuídos, vivifica e une todos os membros da comunidade num corpo, que é o corpo místico, mas real, do Cristo. A ideia principal é o aspecto do batismo que é a identificação do cristão com Cristo, pois é uma imersão continua no Espírito de Jesus (Rm 6, 3-5). O batismo não é uma cerimônia de iniciação para formar parte de uma comunidade eclesial, mas a imersão dentro do Espírito que nos une num só corpo como o espírito vital une os membros para formar um único corpo material. Por isso, dirá Paulo: não vivo eu, mas é Cristo que vive em mim (Gl 2, 20). O próprio Jesus usa a alegoria do sarmento e da videira para afirmar que estamos vivendo da seiva do tronco, que é ele mesmo (Jo 15, 5). Mas aqui, para Paulo, o importante é a unidade em que se unificam os membros e a mútua ajuda, sem diferenças de preeminência entre eles. Isso é mais importante quando tratamos dos carismas que parecem dividir e graduar os diversos carismáticos entre si.

IGREJA COMO CORPO: Pois, também num só Espírito, todos nós em um só corpo fomos batizados [ebaptisthëmen <907>=baptizati], já judeus, já grego, já escravos, já nascidos livres, e todos temos bebido num só Espírito (13). etenim in uno Spiritu omnes nos in unum corpus baptizati sumus sive Iudaei sive gentiles sive servi sive liberi et omnes unum Spiritum potati sumus. BATIZADOS: Paulo inicia aqui sua argumentação, baseada no batismo, que não é uma pura imersão em água, mas no Espírito. Os Cristãos, pelo batismo, estão imersos no Espírito Divino, assim como os picles estão imersos no vinagre, como diz o médico Lisander ao explicar a palavra baptizo. Somos como peixes imersos na água, mas agora peixes imersos no Espírito. Talvez por isso, Jesus tomou como discípulos pescadores aos quais chamou para serem pescadores de homens. BEBIDO: Se não bastasse o batismo que gera uma nova vida, esta é nutrida pela bebida comum que é o Espírito, como nutriente e não unicamente como meio em que nos encontramos, como peixes na água. De modo que o meio e o alimento é comum, o que sucede com os membros de um corpo único. As diferenças entre os judeus e gregos que constituíam o muro de divisão (Ef 2, 14) religiosa e entre escravos e livres que formavam a divisão sociológica, não têm causa lógica de existir. A unidade em Espírito, que implica a unidade como corpo, prevalece sobre estas divisões que são externas e circunstanciais. Há quem veja na frase temos bebido num só Espírito o sacramento da confirmação ou imposição das mãos que era recebido de imediato após o batismo, na época apostólica e que, mais tarde, foi separado como diferente do batismo. Ver At 19, 3-6 em que Paulo impôs as mãos aos neobatizados e começaram a falar em línguas de modo a receberem o Espírito Santo (idem 19, 2).

OS MUITOS MEMBROS: Pois também o corpo não é um só membro, mas muitos (14). Nam et corpus non est unum membrum sed multa. Paulo retoma a alegoria do corpo e chama a atenção dos leitores para a diversidade dos membros num único corpo. O corpo é a Igreja, ou comunidade dos discípulos de Cristo. Os membros são os fieis que a constituem, diversos em suas individualidades e diferentes em seus carismas, mas que formam um conjunto que é o pléroma [plenitude, integridade] de Cristo, ou o Cristo total (Cl 2, 9).A ideia paulina de pléroma, unida à da soberania de Cristo, cabeça e princípio da Igreja,  aparece em Ef 1,22-23: O Pai pôs todas as coisas debaixo de seus pés, para ser a cabeça sobre todas as coisas; o deu à Igreja a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas. Na morte de Cristo na cruz, morre o mundo velho e nasce um mundo novo que tem como primícia Cristo e que nEle encontra a plenitude da salvação, pois nEle Deus quis tudo centrar, e recapitular nEle todas as coisas, tanto as do céu como as da terra (Ef 1 10). Até tal ponto está o cristão unido a Cristo que não só é uma união de espírito, mas de carne, porque também a vida de Jesus deve se manifestar em nossa carne mortal (2 Cor 4, 16). E assim Paulo pode afirmar: por minha parte, completo em minha carne o que falta às tribulações de Cristo por seu corpo (Cl 1, 24).

UNIDADE ENTRE OS MEMBROS: Se disser o pé: já que não sou mão, não sou do corpo. Não sou para isto, não é do corpo? (15). E se disser o ouvido: já que não sou olho, não sou do corpo, nem por isso não é do corpo (16). Si dixerit pes quoniam non sum manus non sum de corpore non ideo non est de corpore. Et si dixerit auris quia non sum oculus non sum de corpore non ideo non est de corpore. Com uma série de exemplos, Paulo argumenta sobre a unidade dos membros e o corpo total e sobre a mútua responsabilidade; elementos menos dignos, ao parecer como pés, comparados com mãos, não devem ser subestimados. Do mesmo modo, compara a orelha com o olho. Vemos que, em todas as comparações, os membros são físicos, materiais, não faculdades como podiam ser ouvido e vista, coisa que não acontece no versículo seguinte, porque os membros são úteis em função de suas operações, atividades e serviços.

DIFERENÇA ENTRE OS MEMBROS: Se todo o corpo olho (é), onde o ouvido? Se todo ouvido, onde o olfato? Si totum corpus oculus ubi auditus si totum auditus ubi odoratus. Efetivamente, um corpo vivo tem membros, porque cada um deles exerce sua função determinada, que não pode ser substituída por outro membro mais ou menos equivalente. Estamos chegando à meta visada pelo apóstolo. Por que tantas divisões entre as faculdades dos cristãos se formamos um só corpo com Cristo? A totalidade só se dá em Cristo. Nós temos em parte a ciência, o conhecimento, e, unicamente quando chegue o que é perfeito, é que essas faculdades desaparecerão (1 Cor 13, 9-19). Uma outra consideração: temos colocado o verbo é em parêntese porque parece que Paulo, semita de língua materna, não o considera necessário.

A VONTADE DIVINA: Agora, pois, (o) Deus colocou os membros em cada um deles no corpo como quis (18). Nunc autem posuit Deus membra unumquodque eorum in corpore sicut voluit.Seguramente que Paulo fala do corpo da Igreja como corpo místico de Cristo. Os membros são os fieis e cada um deles tem um carisma, um ministério, ou uma atividade própria (1Cor 12, 4-6). Esta distribuição não depende de méritos ou aptidões, mas é a vontade de Deus que olha as necessidades e distribui os seus dons preferindo os homens mais simples e humildes, como escolheu os apóstolos na sua companhia, durante o kerigma na terra.

UM MEMBRO NÃO FAZ UM CORPO: Se, portanto, forem todos um membro só, onde o corpo? (10) Agora, pois, certamente, muitos membros, porém um só corpo (20). Quod si essent omnia unum membrum ubi corpus. Nunc autem multa quidem membra unum autem corpus. O discurso paulino retoma a retórica grega e, através do significado etimológico de corpo, reclama que um membro não pode ser separado como se fosse um corpo; e, por outra parte, como existe um só corpo é necessário que todos os membros pertençam a um só corpo. Cada membro tem alguma coisa a realizar, mas nenhum tem tudo a fazer e ser.

TODOS SÃO NECESSÁRIOS: Por isso, não pode o olho dizer à mão: não tenho necessidade de ti; ou, de novo, a cabeça aos pés: não tenho necessidade de vós (21). Non potest dicere oculus manui opera tua non indigeo aut iterum caput pedibus non estis mihi necessarii.m Esta é a consequência do versículo anterior: a diversidade é questão da funcionalidade. Mas a união depende de estarem unidos os membros num só corpo e numa só finalidade.

OS MAIS NECESSITADOS: Pelo contrário, muito mais são necessários os membros do corpo que parecem mais débeis (22). E os que estimamos serem mais indignos do corpo, a esses de honra mais abundante rodeamos e os indecentes de nós têm mais abundante decência (23). Sed multo magis quae videntur ormembra corporis infirmiora esse necessariora sunt. Et quae putamus ignobiliora membra esse corporis his honorem abundantiorem circumdamus et quae inhonesta sunt nostra abundantiorem honestatem habe<nt. Aqui Paulo faz uma pequena diversão do discurso para revelar que a escolha divina, em certo sentido, segue a nossa própria escolha em prestigiar nossos membros. Primeiro só os membros mais débeis ou enfermos. Logicamente são os que primeiro cuidamos. Logo fala dos menos honrosos como podem ser vísceras e partes inferiores do corpo. Eles são os que recebem os vestidos que mais os protegem e  ocultam a sua nudez. Este parêntese serve para que nos próximos versículos, possa o apóstolo argumentar a favor da escolha e serviço dos membros do corpo de Cristo, feita pela vontade divina, nunca arbitrária, mas sempre dirigida ao bem da comunidade.

OS MENOS NOBRES: Pois os nossos (membros) decentes não têm necessidade; porém o Deus acoplou [sunekerasen <4786>=temperavit] o corpo ao carente [usterounti<5302>=cui deerat], dando maior [perissoteran <4053>=abundantiorem] honra (24). Honesta autem nostra nullius egent sed Deus temperavit corpus ei cui deerat abundantiorem tribuendo honorem, A única palavra difícil é ACOPLOU, que é a traduçãodo verbo Sugkerannumi de significado misturar, unir e que, pelo contexto, temos usado acoplar que une os dois significados anteriores. De modo que o significado total da frase é o de que Deus, autor do homem diretamente, como diz o Gênese (2, 7), o formou de maneira tal, que deu às partes mais necessitadas a maior proteção e às mais desonradas a maior honra, jogando com carente [usterounti] e abundância [perisssoteran].

A AJUDA MÚTUA: Para não existir ruptura no corpo, mas, no mesmo, entre si fossem solícitos os membros (23).Ut non sit scisma in corpore sed id ipsum pro invicem sollicita sint membra. Continua Paulo, neste versículo, com a alegoria do corpo/membros e diz o porquê dessa distinção e escolha, ao parecer não conforme os planos sociais da época: é a conservação da unidade que poderia ser rota pela diversidade dos membros. Necessários estes pelas diversas funções, têm como finalidade principal a ajuda mútua, como partes de um todo principal ao que servem e ajudam.

UNIÃO FUNCIONAL: E se um membro padecer, todos os membros compadecem; se for honrado um membro, todos os membros se alegram (26). Et si quid patitur unum membrum conpatiuntur omnia membra sive gloriatur unum membrum congaudent omnia membra. Finalmente, Paulo encontra essa unidade funcional na dor e na alegria que é comum a todos os membros como partes de uma unidade em que todos são um e único corpo. E termina aqui essa sua consideração da relação entre membros e corpo para iniciar, no versículo seguinte, suas deduções sobre o corpo de Cristo e seus membros, que são os fieis da Igreja.

FIEIS COMO CORPO DE CRISTO: Vós sois o corpo de Cristo e membros em particular [ek merous<3313>=membro](27). Vos autem estis corpus Christi et membra de membro. A primeira conclusão da alegoria é que o comparado na alegoria é o corpo de Cristo. Mas não é o Cristo histórico, senão o Cristo vivo nos seus novos membros, que são os fieis da igreja, a qual descreverá como uma forma viva unida, e diversa pela sua atuação dentro da comunidade. A palavra que traz uma pequena dificuldade é EM PARTICULAR, tradução do grego Meros. Esta palavra tem o significado de parte, porção e indivíduo, em respeito a uma comunidade. A frase ek merous tem o significado de individualmente, ou em particular. Traduziríamos, pois, membros, como parte do mesmo.

CARISMAS DIVERSOS: E, certamente, os que colocou (o) Deus na Igreja, em lugar preeminente [pröton<4412>=primum] apóstolos, em segundo profetas, em terceiro mestres [didaskalaous <2814> =doctores], depois poderes [dunameis<1411>=virtutes] , logo carismas de cura,  ajudas [antilëpseis<484>=opitulationes] governos [kubernëseis< 2914>=gubernationes], famílias de línguas (28). Et quosdam quidem posuit Deus in ecclesia primum apostolos secundo prophetas tertio doctores deinde virtutes exin gratias curationum opitulationes gubernationes genera linguarum. Já temos explicado em 12, 3-6 os diversos carismas. Agora, nesta nova lista, entram alguns ministérios [do ponto de vista sobrenatural dons espirituais] que devemos explicar. PREEMINENTEMENTE: o Prötos é primeiro em tempo ou lugar, primeiro como categoria, chefe, principal, como adjetivo; e como advérbio [pröton, o nosso caso], primeiramente ou em lugar preeminente. Ou seja, de todos os membros, o apóstolo era o principal, pois sem eles não haveria testemunho. E a Igreja era fundada sobre o testemunho dos apóstolos. Por isso dirá Pedro, ao escolher o substituto de Judas, que devia ser um homem constituído testemunha de sua ressurreição (de Cristo), que acompanhou Jesus, a começar pelo batismo de João até o dia em que foi arrebatado ao céu (At 1, 21-22). Isso dizia seguindo o mandato de Jesus, que promete o Espírito Santo para que sejam suas testemunhas em Jerusalém, em Samaria e até os confins de toda a terra (At 1, 8). E Paulo, não se inclui entre as falsas testemunhas, ao se identificar com as testemunhas da ressurreição do Senhor (1 Cor 15, 15). Quem eram os apóstolos? Em primeiro lugar, os escolhidos por Jesus, ou seja, os doze (Mt 10, 2). Logo, os escolhidos pelo Espírito Santo: Matias (At 1, 26), Paulo e Barnabé (At 13, 2 e 2 Tm 1, 11). E talvez tenhamos que incluir alguns mais, como Silas, ou o grupo dos setenta e dois (Lc 10, 11). Entende-se que é em nome de Jesus que atua o apóstolo com plenos poderes para ligar e desligar (Mt 18, 18) e para ensinar (Mt 16,20 e Jo 14, 26). Este ministério tem sua atuação em todos os tempos através da sucessão apostólica, como foi o caso de Timóteo que recebeu o dom [charisma] mediante profecia e imposição das mãos do presbitério (1 Tm 4, 14). Nisso se distingue a Igreja Católica dos evangélicos. Estes, sem muita lógica, se temos em conta o texto anteriormente citado, pretendem que os carismas provêm diretamente do Espírito, que os dá como quer  e os admitem nos tempos modernos; mas rejeitam os que, como em Timóteo, são concedidos pela imposição das mãos dos presbíteros. A razão é que com os apóstolos terminam não só a revelação, mas também os ministérios. PROFETAS: Um profeta não é um revelador do futuro, mas uma pessoa que fala em nome de Deus. Tais eram Estêvão (At 7 ) e Filipe (At 8, 4-8) com suas quatro filhas (At 21, 9) e, de modo especial, os da Igreja de Antioquia (At 13, 1). Também temos casos de profecia estrita por predizer o futuro, como é o caso de Ágabo (At 11, 27-28). Paulo coloca a profecia numa categoria superior a todos os demais carismas gratuitos, que ele chama de espirituais  (1Cor 14, 1). Como conhecer o verdadeiro profeta? a) Critério negativo: Paulo declara-o em 1 Cor 12. 3: ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma Anátema [=maldito] Jesus. b) Critério positivo: se disseres no teu coração, como conhecerei a palavra que o Senhor não falou? Sabe  que quando esse profeta falar em nome do Senhor e a palavra dele não se cumprir, nem suceder como profetizou, esta é palavra que o Senhor não disse ( Dt 18m 21-22). No mundo atual, temos as profecias de Fátima. Cumpriram-se; e a Igreja admitiu a intervenção divina e bondosa de Maria. Pelo contrário, os adventistas proclamaram o fim do mundo inúmeras vezes e inutilmente. Por que acreditar neles? MESTRES: Temos visto que os apóstolos foram os grandes mestres, como discípulos diretos de Cristo, o Mestre da verdade que só tinha palavras de vida eterna (Jo 6, 68). A Igreja declarou doutores esses mestres das verdades eternas como Atanásio e Ambrósio no século IV. Diante de fenômenos místicos, serão Juan de la Cruz e as mulheres Catarina de Siena com Teresa de Ávila, mestres dos caminhos da oração de contemplação e quietude e, finalmente, os caminhos da infância encontrarão em Teresa de Lisieux a doutora contemporânea. Um total de 33 doutores que a Igreja propõe à nossa consideração como guias seguros do caminho da santidade. A riqueza desses doutores é tal que, segundo um autor, mesmo que não existissem as Escrituras no NT, as místicas doutoras teriam suficientes palavras para as substituir. DUNAMEIS: o grego significa força, poder e logicamente o poder de realizar milagres. É por isso, que dentre as palavras bia<970>, energeia<1753>, kratos<1904>, exousia<1849>, ischus<2479> os evangelistas traduzem o milagre por dunamis, como em Mt 7,22, que o latim traduz por virtus [=força], e que no hebraico era mofet <04159> significando coisa maravilhosa, prodígio. Dos apóstolos vemos como continuam confirmando a fé com milagres, que em Paulo são descritos como fatos não comuns, ou extraordinários (AT 19, 11).Usa-se também a palavra teras<5059> porém só em três ocasiões nos evangelhos (Mt 24, 24;Mc13, 22 e Jo 4, 48), e é para desacreditar falsos profetas que produziriam falsos prodígios ou como diz João se não vedes  sinais e prodígios não crereis (4, 48). Para o quarto evangelista, eram sinais [semeia] como em 3, 2 quando Nicodemos afirma que são sinais que não podem ser ignorados. Na Igreja moderna, todo santo tem realizado 2 milagres post mortem e muitos tiveram fama de taumaturgos [thauma=admirável e ergon=obra], entre eles Fr. Escova, ou S. Martin de Porres. CARISMAS DE CURA: Vemos como colocavam os doentes a fim de que à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra caísse em algum deles (At 5, 15). É uma incoerência de certos teólogos modernos que, admitindo estes textos da Escritura, logo duvidam dos taumaturgos da idade Média ou Moderna, porque eles não são testemunhas dos milagres na época atual. Como dizia S. Bento Cottolengo, Deus se acomoda aos nossos modos de pensar: obra de modo comum com aqueles que dele esperam coisas comuns e racionais e de forma extraordinária com os que dele esperam sua colaboração extraordinária. AJUDA: o Antilëpsis é ajuda mútua, sendo apax neste versículo e é traduzido como ministério dos diáconos que tomam conta de doentes e pobres. Em 2Mc 15, 17 encontramos que o Macabeu esperava que Deus viria em seu auxílio. E o latim traduz como socorro ou auxílio. Como vemos, esse dom é dos que poderíamos chamar modo humano, que tem em tempos modernos em Teresa de Calcutá uma expressão bem qualificada. GOVERNO: o Kubernësis é o dom de saber governar, que também só sai unicamente neste versículo no NT. É também em grande parte um dom, modo humano, em que a eleição comunitária parece ser o totum essencial, mas que a intervenção divina se oculta em seus desígnios através da vontade humana, como aconteceu com os antigos presbíteros e hoje com os bispos da Igreja. Finalmente o dom de Línguas do qual temos dado suficiente notícia no domingo anterior.

CARISMAS INDIVIDUAIS: Por acaso são todos apóstolos ou todos  profetas , ou todos  mestres, ou todos poderes? (29). Ou todos têm carismas de cura ou todos falam línguas ou todos interpretam? (30). Numquid omnes apostoli numquid omnes prophetae numquid omnes doctores. Numquid omnes virtutes numquid omnes gratiam habent curationum numquid omnes linguis loquuntur numquid omnes interpretantur.Nestes versículos, Paulo toma a alegoria do corpo para indicar que os carismas são como os membros do corpo: individuais e entre si não cambiáveis. A cada fiel é dado um carisma especial, fora de alguns como o próprio Paulo que de si mesmo dirá que tem o dom de línguas em maior degrau que todos os de Corinto (14,  18) e que se declara apóstolo, que evangeliza em demonstração do Espírito e do poder de Deus (1 Cor 2, 4).

Evangelho
INTRODUÇÃO E VISITA A NAZARÉ (Lc 1,1-4 e 4, 14-21)

No ano C o evangelho a ser lido e meditado nos domingos comuns é o terceiro evangelho, atribuído a Lucas. Ao ler detalhadamente o terceiro evangelho, vemos que é fruto de um autor único e bem personalizado. Suas ideias sobre o Reino, o protagonismo das mulheres, a hegemonia da misericórdia como atributo especial de Jesus, o homem escolhido como enviado pelo Pai para salvar o que estava perdido como eram os gentios, a universalidade da mensagem evangélica, são notas características do mesmo. É o evangelho da humanização do divino, assim como o de João é o da divinização do humano. Por isso Lucas inicia seu evangelho com os fatos de uma infância não diferente da de cada ser humano, antes de narrar a missão de evangelizar os mais necessitados entre os humanos e João sobe como teólogo até a divindade onde encontra o Verbo, que se torna homem.

LUCAS: parece que o nome era uma abreviatura de Lucanus assim como Silas é de Silanus. Nos dicionários não se encontra a tradução da palavra Loukas, que em grego, como Loukos, significaria Silva. Outros o derivam de Loukios, Lúcio, que significa nascido na aurora. Toda a tradição está conforme em acreditar que o autor, tanto do 3o evangelho como dos Atos, é Lucas, companheiro de Paulo e médico pessoal dele (Cl 4, 14). Como tal, devia ser um ex-escravo, um liberto, pois, no mundo romano, este serviço da medicina era impróprio para os homens livres. Dentre a classe dos Libertos [cidadãos (com plenos direitos, também chamados ingênuos), latinos junianos (com os diretos de jus connubium e jus commercium)  e deditícios, (considerados como inimigos vencidos, que não podiam obter nunca a cidadania romana)] é provável que Lucas fosse dos últimos, dos deditícios [de rendidos em latim], dos que não tinham cidadania romana, e que como a palavra latina indica eram os que o amo remetia sem nenhum compromisso. Como sabemos, os libertos se destacaram em áreas do comércio, trabalhos manuais e banca. Fora os escravos, estavam no último degrau humano. Paulo o chama seu cooperador em Fm 24. E é o único que o acompanha quando estava prisioneiro em Roma (2Tm 4,11). Parece ser o autor dos Atos que acompanha Paulo na sua 2a viagem (At 16, 26).

PREFÁCIO: Posto quemuitos intentaram ordenar uma narração sobre os fatos plenamente realizados entre nós (1) como nos entregaram aqueles desde o início, testemunhas oculares e tornados servidores da palavra (2), pareceu também a mim, tendo acompanhado acuradamente desde o princípio, te escrever ordenadamente, ótimo Teófilo(3), para que conheças, sobre as palavras que ouvistes, a certidão. Quoniam quidem multi conati sunt ordinare narrationem quae in nobis conpletae sunt rerum sicut tradiderunt nobis qui ab initio ipsi viderunt et ministri fuerunt sermonis visum est et mihi adsecuto a principio omnibus diligenter ex ordine tibi scribere optime Theophile ut cognoscas eorum verborum de quibus eruditus es veritatem. É o único dos evangelistas que traz um prólogo completamente literário e pessoal. Manifesta a intenção de escrever segundo o estilo dos historiadores greco-romanos da época. É antes de escritor, um investigador pelo qual seu relato tem a qualificação de verdadeiro, porque além de escrutar muitos testemunhos escritos que tem o caráter de fundamentar-se em testemunhas oculares dos fatos, de pessoas que se transformaram em apóstolos, pregadores da palavra, como era conhecido o evangelho no seu tempo. Por isso, Lucas [o tradicionalmente autor deste evangelho], após minuciosa investigação, pretende ordenar esses fatos com o fim de que Teófilo, o seu direto interlocutor possa conhecer com certeza a verdade do que tinha escutado pela palavra. Do ponto de vista literário é uma peça única. Temos outros dois textos parecidos em estilo e que não dependem de cópias anteriores mais ou menos recopiladas. São Lc 3, 1-3 em que situa cronologicamente o início da pregação do Batista e com o qual começa o evangelho da vida pública de Jesus e o pequeno prólogo de Atos 1, 1-2 como continuação do evangelho. O paralelo melhor ajustado ao prólogo de Lucas é o de Flávio Josefo dos seus dois livros Contra Apionem em que tem como objetivo instruir para que se conheça a verdade sobre nossa raça, citando para isso numerosos escritores fenícios, caldeus e egípcios. Lucas pertence à terceira geração cristã, pois ele não foi discípulo de Jesus, nem contemporâneo, e nem podemos chamá-lo de converso nos dias de Pentecostes. Ele reivindica três qualidades que o tornam confiável: integridade [muitos por todos], exatidão [acuradamente] e exaustividade [desde os inícios]. Além disso, escreve com método [ordenadamente]. Seu objetivo é a Asfaleia <803>que podemos traduzir por solvência, garantia, e, em termos de verdade, certeza absoluta sem dúvida nenhuma. Os fatos narrados são tão fora do comum que suscitariam dúvidas com respeito a sua realidade. Lucas sai ao encontro dessas dúvidas e declara que tudo foi visto e, como tal, contado por testemunhas várias e não únicas,  de modo que a concordância entre elas no ministério público da palavra, é causa da certidão do que se escreve. Entre as muitas testemunhas os modernos citam Marcos, a fonte Q e uma fonte particular que chamam de L. Logicamente também depende de testemunhos orais como podemos supor eram os 2 primeiros capítulos, que alguns afirmam ser fruto, pelo menos em parte,  da memória da própria mãe de Jesus (Lc 2, 19 e 51). Literariamente, o prólogo está dividido em uma prótasis [primeira parte que abre o período] composta de três elementos: os fatos, os muitos que os testemunharam e a narração como palavra de Deus e uma apódosis [segunda parte que encerra o período] que também tem três elementos: a minuciosa investigação, a ordenada relação e finalmente a dedicação como indiscutível realidade ao seu destinatário Teófilo. TEÓFILO: O nome significa amigo de Deus, era um nome que muitos judeus na diáspora também poderiam usar. Não implica necessariamente que Teófilo seja o patronus de Lucas embora no mundo greco-romano tais patronos existissem, como Mecenas [daí o nome geral de mecenas] com Horácio, ou Ático com Cícero. A tradição fala de um personagem importante em Antioquia, que converteu sua casa em basílica e finalmente se transformou em bispo da cidade. Mas é muito posterior e parece lenda. Pode ser também que Teófilo seja um nome geral para todo aquele que busca a Deus, ou seja, é um amante de Deus ou adorador [sebomenos <4576> ] de Deus. Lucas repete o nome em Atos 1, 1. O adjetivo  [ kratistos <2903>, optimus latino] era aplicado unicamente aos senadores, os optimates dos tempos da república e do início do império.  No caso, eram os governadores das diversas províncias, como vemos em At 23, 26 e 26, 25 em que os optimates eram os procuradores Félix e Festo. Quem era Teófilo? Um magistrado principal de uma das cidades da Grécia ou Anatólia? Não sabemos. Alguns dizem que sob esse nome está todo cristão que é na realidade Teófilo (= que ama Deus). O importante é que o autor deste evangelho quer escrever a história de Jesus com critérios de autenticidade e verdade tanto quanto sua investigação e as fontes fidedignas o permitam.

GALILEIA: Então regressou Jesus na força do Espírito para a Galieia e uma reputação brotou em toda a região acerca dele (14). Et regressus est Iesus in virtute Spiritus in Galilaeam et fama exiit per universam regionem de illo. Jesus foi batizado num lugar no rio Jordão fora da Galileia. Por isso seu regresso. NA FORÇA DO ESPÍRITO: Era o Espírito divino que desceu sobre ele no momento em que foi batizado (Lc 3, 21) e do qual estava pleno (Lc 4, 1) que o impelia de modo a se tornar o motor de sua vida e o instigador de suas atuações. Por isso Lucas afirma que a força [dunamis <1411>, virtus latina], que é propriamente poder, força, daí influência, impulso. Essa força lhe dava o poder de realizar milagres e de interpretar corretamente as Escrituras e os sinais dos tempos como modernamente se diz, fato que a maioria dos seus conterrâneos não sabiam distinguir (Mt 16, 3) e que confundia seus compatrícios (Mt 13, 54). Esse mesmo Espírito que levou Jesus ao deserto, o impele à Galileia, o norte da Palestina. Esse espírito de profecia do qual estava munido Miqueias cheio de juízo e força para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado (Mq 3,8). Era a Galileia onde segundo Isaías (9,1-2) “nos últimos tempos tornará glorioso o caminho do mar (via maris) além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo que andava em trevas viu uma grande luz”. Por isso, sua fama, a de Jesus, espalhou-se por toda a região. A via maris clássica, comercial ou de conquista, tinha dois braços: um perto da costa por Tiro , Aco e Meguido onde se unia o outro ramal vindo do lago Hule, Hasor e Cafarnaum, seguindo o rio Jordão. Esta via maris abrangia toda a atual Galileia nos seus dois ramais. A via regia prosseguia por Damasco, Ramot e Galaad pelo interior da atual Síria e Jordânia. Jesus ensinava nas sinagogas- logicamente aos sábados- e era louvado por todos os ouvintes. São termos gerais que admitem diversas interpretações. Como ensinava e qual era a base da sua doutrina será objeto dos seguintes parágrafos de Lucas, como por exemplo, da sinagoga de Nazaré. A FAMA: Uma reputação favorável espalhou-se por toda a região. Logicamente esta reputação ou fama tinha uma causa, que Marcos aponta no primeiro milagre por ele narrado: Um novo ensinamento com autoridade! Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens e eles obedecem. Imediatamente a sua fama se espalhou em todo lugar e em toda a redondeza da Galileia (Mc 1, 27-28). De modo que a fama não era só devida aos milagres, mas também ao ofício de Rabi ou Mestre. Seu ensinamento era novo, com autoridade e não como os doutores que se limitavam a citar os grandes mestres tradicionais, resumidos mais tarde na Mishná. Como uma consequência lógica, Lucas chamará Jesus de Mestre de modo preferente, como tradução de Rabbi ou Rabbouni.

A SINAGOGA: Assim ele ensinava nas sinagogas deles, sendo louvado por todos(15). Et ipse docebat in synagogis eorum et magnificabatur ab omnibus. A) O NOME: Palavra sinagoga era de origem grega que já no AT era usada para designar a comunidade judaica,  especialmente se reunida com finalidade religiosa. Em hebraico é  Knesset (assembleia). É, pois o mesmo que Eklesia. B) O EDIFÍCIO: Desse nome coletivo passou a indicar o edifício de reunião da assembleia. As sinagogas eram como sucursais do templo de Jerusalém com a finalidade de serem centro de reunião (Beit Knesset), casa de oração (Beit Tefilá) ou casa de estudo (Beit Midrash). Era um edifício quadrado ou retangular, com teto mantido por colunas. Havia um cemitério (guenizá= depósito) para os rolos e objetos sagrados sem uso. Um escrito que continha o nome de Deus não podia ser queimado nem destruído. Um armário de nome Aron Hakodesh (arca, a sagrada) em que se guardavam os rolos da lei e colocada sempre em direção ao templo de Jerusalém. Nos lados estavam os bancos para os assistentes e no meio deles o bima (estrado) ou plataforma elevada onde estava o púlpito (Al Mamor) para o dirigente das orações, leituras e cantos (Mt 23, 2). Este púlpito era semelhante aos das igrejas católicas com uma balaustrada ao redor do mesmo e um toldo de madeira sobre ele (Ver Ne 8, 4-5). As mulheres estavam separadas por grades ou ocupavam galerias superiores. As lâmpadas, além de razões práticas, eram símbolos da presença de Jahvé; e por isso, uma lâmpada perpétua (Ner Tamid) sempre ardia diante da Aron haKodesh à semelhança da lâmpada do sacrário, e dois castiçais acompanhavam o leitor da Torá no bima. C) FUNÇÃO: A inscrição de Teódoto explica a sua função: o da leitura da Lei e o ensino dos mandamentos. Também se reuniam ali, no segundo e quinto dia da semana, para ouvir a leitura das Escrituras. Para que houvesse uma sinagoga independente eram necessários 10 adultos ou Minyan, maiores de 13 anos. Escolhia-se um chefe de sinagoga (arkisinagogos), que dirigia o grupo e mantinha a ordem nos cultos (Lc 13, 14), ou convidava um visitante a pregar (Lc 4, 14). O culto iniciava-se, ao que parece, com o canto de um salmo pelo Hazan, cantor ou oficiante. Um dos membros da sinagoga, provavelmente o assistente, é quem dirigia a oração, consistente na leitura do Kedushá ou triplo Kadosh (santo ou consagrado) que nos sábados recebia o nome de Kedushá Rabá (grande kedushá) que incluía Dt 6, 4-9 (o Shemá) 11, 16-21 (conselho de como devem estar presentes na vida as palavras da Shemá) e Nm 15, 37-41 (complementos do anterior). Depois eram recitadas as 18 bênções (Shemoné Esré) pelo Ba’al Tefilá (chefe das orações). Logo seguia a oração do Kadish (consagração) que era recitado antes dos Shemoné e ao terminar o estudo de uma Parashá. O Kadish começa com: “Seja o seu grande nome exaltado e santificado”. E no fim, após a última bênção: “Ele com sua misericórdia conceda a paz sobre nós e sobre todo o seu povo de Israel”. Os familiares dos mortos durante o ano podiam acrescentar ao Kadish comum o Kadish dos órfãos; por isso erroneamente o Kadish é apelidado de reza dos mortos. O povo permanecia de pé e respondia Amém quando terminava cada uma das estrofes. Imediatamente lia-se o Parashá ( parágrafo correspondente da Torá) pelo Baal Coré. A leitura da Lei era feita por diversos assistentes, oito no total, chamados Olim, que seguia uma ordem constante: sacerdote, levita e outros, cada um lendo um trecho correspondente a 15 versículos atuais aproximadamente. O último leitor era o Maftir (finalizador). Para se ter uma boa ideia veremos o exemplo do Gênesis: os 7 primeiros leitores leem desde o I,1 até V, 5. Aqui entra o Maftir para ler até V, 9. Esta seção recebe o nome de Parashá (para os sefarditas, de origem espanhola) e Sidra (para os azkenazis de origem russa). Antes da leitura da Lei e depois do correspondente Parashá recitava-se uma ação de graças como Bendito o Eterno que é bendito para sempre…por nos teres dado a Torá. Alguns autores afirmam que o Kadish era recitado também após a leitura da correspondente Parashá. Na leitura da Torá o leitor, acompanhado por dois assistentes, pronunciava em voz baixa o texto hebraico e o ajudante recitava em voz alta o expressado em aramaico (Mt 10, 27); daí a necessidade dos targuns ou traduções simultâneas. Após a leitura da Torá, era escolhido um texto da Haftará correspondente, ou seja, de um dos Neviim (profetas). Para a sua interpretação era chamado ou um jovem estudioso, ou um novo convidado. Foi o caso de Jesus em Nazaré. O serviço terminava com a bênção do presidente da assembleia e a bênção sacerdotal de Nm 6, 24-26.

NAZARÉ: E veio a Nazaré onde tinha sido criado e entrou segundo ele tinha costume no dia de sábado na sinagoga e se levantou para ler(16). Et venit Nazareth ubi erat nutritus et intravit secundum consuetudinem suam die sabbati in synagogam et surrexit legere. NAZARÉ: Restos de silos, cisternas e moinhos,  permitem afirmar que era uma aldeia habitada na Idade do Ferro (900-550 aC). Fora do Novo testamento não existem registros nem referências a aldeia onde Jesus cresceu. Nem o Talmud que cita 63 localidades, nem S Paulo.  As evidências arqueológicas indicam que no século I era uma pequena aldeia agrícola, situada na ladeira de uma montanha, com duas ou três dúzias de famílias. As casas estavam agrupadas no extremo sul da colina e usualmente tinham uma parte de alvenaria que era usada para as habitações, encostada a uma ou várias grutas naturais. Escavadas na rocha que utilizavam como depósitos. O nome de Nazaré possivelmente deriva de natser, (transcrito Nazer). Diferentes derivados deste vocábulo usam-se no livro de Isaías como alusão messiânica e são traduzidas por brôto, vergôntea, galho, flor, ou rebento. Também como verbo no sentido de vigiar, guardar, observar, defender, rodear, preservar [do perigo] ou esconder [refugiar]. Este último significado poderia deduzir-se de Is 65, 4 que corresponde àqueles que vivem entre tumbas, pois perto de Nazaré e sob o atual casco urbano estava um cemitério muito antigo, fato que se relaciona com a atitude da Sagrada Família que foi ali para se esconder de Arquelau, e assim se cumpriu o que tinha dito pelos profetas que seria chamado Nazareno (Mt 2, 22-23). A aldeia é identificada desde o século IV e se construiu uma igreja, tipo sinagoga, para comemorar a Anunciação e acolher os peregrinos que deixaram seus grafitos nas paredes. A monja Egéria visitou Nazaré em 383 e viu uma grande e esplêndida gruta na qual viveu Maria e na qual encontrou um altar.  Em 570 os bizantinos construíram uma basílica onde, segundo testemunhos contemporâneos, haviam muitas curas. PARA  LER: A leitura final era um trecho dos neviim [profetas] e Jesus, como invitado, foi convidado para interpretar o texto lido, como veremos na continuação.

A LEITURA: Então foi-lhe dado um livro do profeta Isaías e tendo desenrolado o livro encontrou o lugar onde estava escrito(17): Espírito do Senhor sobre mim pelo qual me ungiu para evangelizar mendigos; me enviou (para) curar os desalentados no coração,[....] anunciar (aos) cativos remissão, e (aos) cegos restauração da visão, enviar oprimidos em liberdade (18). Spiritus Domini super me propter quod unxit me evangelizare pauperibus misit me praedicare captivis remissionem et caecis visum dimittere confractos in remissionem. O  trecho responde a Isaías 60, 1. O texto dos setenta coincide exatamente com o texto de Lucas com uma exceção: No texto de Lucas, falta a frase do original de Isaías a curar [propriamente vendar] os quebrantados de coração entre curar os desalentados de coração e anunciar aos cativos remissão, que temos deixado entre [...]. Também falta no texto de Isaías 61, 1 a frase final do 18 de Lucas: enviar oprimidos em liberdade. Esta última frase está tomada no finalde Is 58, 6. Vamos primeiro falar das diversas traduções de Isaías: A) Grega: a palavra ptôchós<4434> significa originalmente mendigos, porém é a tradução de`anav <06035>, que significa pobre ou indefeso, aflito ou sem recursos.  A outra palavra que também merece atenção é cegos, tuflois <5185>  que não tem outro significado a não ser pessoa que não vê. O texto massorético não fala de cegos, mas de cativos [shabah,<07617> no plural shabaim ]. Por que a tradução de cegos? Por uma simples razão: o encerrado no xadrez estava como cego sem ver a luz  e por isso declara restaurar a visão ( temos preferido a restaurar a vista, como se esta tivesse sido perdida). A esses cativos o profeta promete a libertação [darur <01865>]. E como confirmação, na segunda parte do verso, vemos como o profeta fala de por em liberdade os [‘asar < 0631>] os algemados  B) A Vulgata: Os ptochoi são mansueti [mansos] mantém os cativos [captivi], nada de cegos, e finalmente fala de clausi para os que temos chamado de algemados. C) Textos vernáculos: RA: quebrantados, cativos e algemados. O texto inglês moderno usa poor, captives  e prisoners, palavras usadas também pela bíblia de Jerusalém. Como vemos os cegos é uma adaptação do evangelista para acoplar o verbo restituir a visão, fato que era uma realidade nas masmorras antigas em que a falta de luz era total. Antes de comentar o texto, vamos também ver o final da citação, que está suprimida.

FINAL: Pregar um ano do Senhor aceitável (19). Praedicare annum Domini acceptum. Falta uma parte da citação do profeta, que a Vulgata reproduz fielmente: é o dia da retribuição, ou pagamento  [diem retributionis] que no texto massorético deve ser lido como dia da vingança. Além dessa carência temos no texto grego de Isaías a frase: para consolar todos os que choram. Como vemos, a citação está bastante manipulada, se é permitida a palavra, para a intenção final de apontar Jesus como o Enviado e Ungido do Senhor. Indiretamente os humilhados, os amedrontados, os faltos de esperança, e os que se consideravam calcados e confrangidos pelos poderes fáticos superiores, são os sujeitos de uma esperança que constitui o ano de graça ou sabático do Senhor. Era o Shemitá ou também podia ser o Yovel. À parte do Shabat, o sétimo dia de descanso semanal, Deus ordenou outro tipo de Shabat: A cada sete anos a terra de Israel [eretz Israel] terá um descanso, um shabat para Javé (Lv 25, 4). Nesse ano, a terra ficava em repouso. Era o SHEMITÁ, que significa “deixar livre” ou “retirar-se”.  Durante o shemitá os agricultores de Israel não trabalham a terra. As razões, explicam os sábios, são três: 1) O sustento que provém da terra não nasce da terra, nem da fortuna acumulada do homem, mas da mão de Deus Criador. Por isso Javé ordenou ao povo a mitzvá do Shemitá. 2) Deus também desejava que o ano de Shemitá, de inatividade do trabalho, permitisse que os agricultores pudessem se dedicar mais ao estudo da Torá. 3) A terra é considerada como um ser vivo que merece descanso, pois caso este não seja dado, Javé diz, que serás exilado, e ela então será recompensada de todos os anos de descanso dos quais a privaste. As três promessas do Senhor pela observância da mitzvá do Shemitá: 1) Javé prometeu que a colheita do ano anterior do Shemitá duraria três anos (Lv 25, 21). 2) que durante o ano do Shemitá ficarão satisfeitos, apesar de comerem pequenas quantidades de alimento. Por isso sua produção agrícola durará (Lv 25, 6). 3) Finalmente, se guardarem tanto os anos de Shemitá como os de Yovel (Jubileu), estarão seguros em Israel. Porém se não observarem nem Shemitá, nem Yovel, seus inimigos os forçarão ao exílio (Lv 26, 6-8). YOVEL: Yovel vem do verbo hebraico trazer de volta(a palavra Jubileu deriva-se desta palavra hebraica; o v e o b não se distinguem em geral nas pronúncias hebraicas). O toque do shofar [trombeta de chifre de carneiro] precede o Yovel. Eis um comentário de um rabi moderno: Hashem [O Nome, no lugar de Javé] nos tem recomendado contar desde Pashá [Páscoa] sete vezes sete dias ou quarenta e nove dias, até chegar ao dia cinqüenta  que é Shavout [nosso Pentecostes]. Sete vezes sete [sefirat há omer] ou 49 dias são os que se contam entre Páscoa e Shavuot [Pentecostes], ou entre a liberação e a promulgação da Lei, do novo Pacto. Aí começa o dia cinquenta. O número oito nas Escrituras é o número de novos começos. O número oito nas Escrituras mostra o final de uma era milenária, a nova Yerushalayim (Yerushalayim shel ma’ala o Santo Jerusalém) e a vinda do novo céu e a nova terra, tal como o sistema de sacrifício apontou na antiga Yisrael ao Mashiach (Messias). Bom, o Yovel é também um novo começo. Cada Israelita vendido à escravidão era liberado no ano Yovel. Toda propriedade comprada e vendida anteriormente a Yovel era regressada a seu dono original e todas as dívidas eram canceladas. Em outras palavras, tudo regressa ao seu dono original, a forma em que deviam de ser. Todas as coisas foram feitas novas durante o ano Yovel e o ciclo começa novamente. O ano Yovel, portanto, nos indica o ponto do tempo do futuro. Assim, continua o nosso Rabi, estas ideias concretizam o discurso de Jesus como um começo, um perdão e uma novidade em que Hashem estava anunciando por seu Ungido a nova era de salvação em todos os sentidos. Por isso é importante, devido às conotações bíblicas, saber que o toque do shofar anunciador do Yovel também será um dia que escutaremos como magnífico toque do shofar, que anunciará a vinda de Mashiach, anunciando nossa liberdade (Mt 24, 31 e1Ts 4, 16).  Este som será o início da verdadeira liberdade para o povo judeu. Mashiach [o messias] virá e construirá o Terceiro Templo Sagrado. Hashem libertará o mundo da morte e da má inclinação. A ressurreição dos mortos será realidade, e viveremos para sempre. Rezemos diariamente a oração da Amidá [principal oração de súplica hebraica] para que isto aconteça logo. Eis a oração de súplica de um rabi católico para isso acontecer: Avinu Malkeinu (Nosso Pai e Rei) perdoa-me. Necessito de ti. Eu confesso que tenho pecado e que não tenho sido santo, porque Tu és santo. Obrigado por permitir que Teu Servo, Yeshua HaMashiach  tome meus  pecados  sobre Si e pague o preço da morte por mim. Pela morte do Mashiach e pela redenção, posso certamente conhecer-te de maneira real e pessoal. Agora coloco minha fé no Mashiach Yeshua  como meu único Senhor e Salvador e o convido ao meu coração e à minha vida. Modifica-me e converte-me em teu especial tesouro. Amém. Atualmente não se celebra o Yovel.

EXPECTAÇÃO: Depois, tendo enrolado o livro, entregado ao servente, sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele(20). Et cum plicuisset librum reddidit ministro et sedit et omnium in synagoga oculi erant intendentes in eum. O ato de sentar-se era próprio dos rabinos da época. A leitura da Escritura se fazia de pé. Mas a exegese ou comentário eram feitos com o mestre sentado em sua cátedra. A expectativa estava em todos os presentes. Qual seria o comentário que Jesus, que já tinha falado em diversas sinagogas da Galileia, faria dessa profecia de Isaías, que todos contemplavam como sendo messiânica?

CUMPRIMENTO: Começou, pois, a dizer diante deles: Hoje está cumprida esta escritura em vossos ouvidos (21). Coepit autem dicere ad illos quia hodie impleta est haec scriptura in auribus vestris.Como temos observado num comentário anterior, existia uma tradição bastante espalhada entre o povo e que nesse tempo um Ungido devia iniciar um tempo de salvação como se fosse um Yovel extraordinário. Evidentemente Lucas usa o texto grego dos setenta, Is 60, 1-2: A tradução seria: “Espírito do Senhor sobre mim, pelo qual me ungiu para evangelizar os pobres [ptoxoi, meek em inglês], enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pregar libertação aos cativos, a libertação aos que estão presos, a convocar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança, a consolar todos os que choram.” Porém o texto hebraico, ao qual segue a Vulgata e os modernos, não traz a palavra pobres, mas Anawim. O pobre era Dal e o Anaw significava o manso, o humilde, como Moisés é descrito (Nm 12, 3). A distinção entre as duas palavras está em Pr 22,22: Não roubes o pobre [dal] porque é pobre; nem oprimas em juízo o aflito [ani]. Traduzir anawin por pobres é uma inexatidão. E foi precisamente neste trecho de Lucas em que se apoiaram certos estudiosos para sobreestimar sua reflexão teológica. No texto hebraico não são nomeados os cegos, que por outra parte saem em texto paralelo do mesmo profeta: Eu te pus como luz das nações, a fim de abrir os olhos dos cegos, a fim de soltar do cárcere os presos, e da prisão os que habitam nas trevas (42, 6-7). Como vemos, são termos metafóricos de uma situação de exílio que se compara a uma prisão escura em que os reclusos estão algemados com ferros nos pés e mãos, em masmorras sem luz. Como sinal dos novos tempos, os cegos serão usados por Lucas (Lc 7, 22 e 14, 13.21). Por outra parte, Lucas termina sua citação com o ano do Senhor: ano sabático de perdão em todos os níveis. Nada diz sobre o dia da vingança, que relembra o dia do Senhor de Joel (2,31), de modo que os novos tempos serão de bênção para uns e de terrível castigo para outros.

PISTAS: 1) As palavras da introdução dão uma segurança da verdade evangélica enquanto cuidadosamente investigada e transmitida por testemunhas oculares. Ainda viviam e podiam referendar a veracidade de Lucas com seu aval.

2)Uma ideia preconcebida pode ser causa de uma péssima interpretação da Escritura. Lucas quer indicar duas coisas com esta narração: Uma era nova de perdão (ano jubilar) e Jesus como seu arauto, porque estava possuído do Espírito como foi no seu tempo Isaías.

3) Logicamente esse é o Espírito predominante no Evangelho que por isso é chamado de Boa Nova e evangelho da misericórdia. Deus oferece seu amor e seu perdão e é aí onde encontramos a paz e a salvação.

4) Argumentar do trecho de Isaías, comentado por Jesus na sinagoga de Nazaré, que os pobres economicamente são o objeto direto da evangelização não tem base na Escritura. Pobres [aflitos] no sentido de Isaías eram os judeus exilados que estavam, como cativos, de ânimo abatido [desalentados de coração] aos quais promete a libertação [anunciar aos cativos remissão, enviar oprimidos em liberdade]. Temos colocado entre colchetes os termos da tradução grega correspondentes. Também temos explicado a frase aos cegos restauração da visão. A conclusão lógica é que os conterrâneos de Jesus estavam também numa situação de cativeiro: só que era um cativeiro espiritual, cuja causa era o pecado e cujo opressor era o maligno, e não para libertar os maiores cativos da época que eram os escravos.




17.01.2010
II Domingo do Tempo Comum - ANO C - Verde

__ “Fazei tudo que Ele vos disser!” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Jesus é homem como nós; tem amigos e aceita o convite para um casamento, com sua mãe e seus primeiros discípulos. Esta semelhança torna-o "acessível", "conhecível" a nós. Mas Cristo é também "mistério", se ele não se revela, se não se manifesta sua identidade. Revelação que fará pouco a pouco, com sábia pedagogia. Cristo começa a revelar sua identidade não de modo verbal, explícito, como uma fórmula dogmática, mas faz isso através de uma linguagem de gestos. O sinal de Caná revela a glória de Jesus e desvela seu ser divino, através o pedido e da bondade de sua mãe ao interceder pelos noivos e a fé de Maria leva Jesus a "manifestar-se". Os discípulos crêem em Jesus; chegam de certo modo, até a fé de Maria. Não é esta também a missão da Igreja hoje, a missão de cada cristão, comunicar a fé? Jubilosamente, entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (Is 62,1-5): - "As nações verão a tua justiça, todos os reis verão a tua glória!"

SALMO RESPONSORIAL (Sl 95): - "Cantai ao Senhor Deus um canto novo, manifestai os seus prodígios entre os povos!"

SEGUNDA LEITURA (1Cor 12,4-11): - "Há diversidade de dons, mas um só é o Espírito."

EVANGELHO (Jo 2,1-11): - "Fazei o que ele vos disser!"



- "O Vinho Novo....!"
    Reflexão do Evangelho por Diácono José da Cruz

Não sei dizer a razão pela qual faltou o vinho nas Bodas de Cana, talvez a família não tivesse muitos recursos e fez uma festa bem modesta, só para os mais íntimos. Também pode ser que o Encarregado da cozinha, tenha errado no cálculo, ou então, porque havia um número excessivo de “penetras”. Só sei que os  convidados das bodas de Canaã ficaram admirados com a qualidade e o sabor inigualável daquele vinho que serviram na última hora, quando muitos já estavam até embriagados. Os discípulos e os que serviam estavam de boca aberta, pois só eles sabiam que todo aquele vinho delicioso fora tirado de seis talhas de barro, cheias de água. Um prodígio promissor para Jesus iniciar seu ministério!

Em Israel muita gente andava descontente com a religião,  porque transformaram o Deus da Aliança, tão rico em bondade e misericórdia, em um legislador implacável, alguém frio que passava os dias observando atentamente quem ousava desrespeitar a lei de Moisés. As pessoas iam ao templo ou nas sinagogas com o coração pesado, por medo do que pudesse acontecer, se deixassem de observar alguma das mais de seiscentas leis e prescrições da religião. Existiam para os faltosos a possibilidade de se livrarem da culpa, cumprindo os rituais de purificação feitos com água, mas que também era complicado pois naquele tempo não se tinha a facilidade da água encanada como hoje.

Às vezes a prática da religião se torna um peso quase insuportável, as vezes ao receber um sacramento, ou ao término de alguma celebração, há quem dê um suspiro de alívio “Arre ! já cumpri minha obrigação e estou livre!” para curtir o domingão. Certa ocasião depois da celebração de crisma, um adolescente em frente a igreja dava pulos e esmurrava o ar festejando quando alguém perguntou; “ feliz com a crisma recebida?” . ---Muito feliz --- desabafou o jovem – pois agora não preciso mais vir à igreja e estou livre!

Para ir a uma festa, um dia antes já estamos na expectativa, já para ir à igreja, chegamos na última hora e ás vezes, se a celebração se alongar um pouco, saímos antes da bênção final pois só temos paciência para agüentar a missa por uma hora. Precisamos rever o que está errado, nossas liturgias não podem resumir-se ao “oba-oba” mas temos que lhe dar vivacidade para que as pessoas saiam convencidas da graça de Deus e cheias de coragem para dar testemunho.

Não vale a pena praticar esse tipo de religião meramente cultual ! Nas bodas de canã Jesus, ao transformar a água da purificação em vinho da melhor qualidade, acabou com essa “chatice religiosa” mas muitos ainda hoje insistem em beber desse vinho azedo de uma religião angustiante, que bota freios no ser humano e coloca em seus olhos uma “viseira” para somente enxergar na direção que aponta os dirigentes “iluminados” sendo terminantemente proibido olhar em outra direção.

A verdadeira religião supõe liberdade e uma alegria incontida pelo fato de se tomar conhecimento de que Deus, apaixonado pelo homem, manifestou o seu amor no seu filho Jesus, que ao chegar a sua hora, a hora de mostrar a que veio, em um gesto de loucura aos olhos de muitos, derramou até a última gota do seu sangue na cruz do calvário, para que nós pudéssemos ser felizes e ter uma vida nova como homens livres.

É este o pensamento que deve nortear a nossa relação com Deus no âmbito da Igreja, uma alegria de saber que ele nos ama tanto, que ele só quer o nosso bem em seu sentido mais pleno, um amor que nos ama sem exigir nada, sem cara feia, sem mau humor, sem palavras amargas e sem nenhuma censura – Deus é amor infinito, bondade eterna e misericórdia para sempre! É essa, portanto, a novidade que Jesus traz ao mundo nas bodas de canã, ele é na verdade o noivo apaixonado pela noiva que é a Igreja, assembléia de todos os que crêem. Uma noiva não muito bela e nem sempre fiel, que às vezes se deixa seduzir por outros “amantes”.

Entendida e aceita essa verdade, a Palavra de Deus celebrada e proclamada em nossas comunidades, é uma carta de amor que ouvimos com o coração aos pinotes, e a eucaristia se transforma em um jantar a luz de velas com Cristo Jesus, o amado de nossa vida , ao sabor do vinho novo da graça santificante que nos salva e liberta. Irradiar este amor a todos com o testemunho de vida, é a única forma de transformar a sociedade e não adianta se buscar outras alternativas, pois somente assim a glória de Cristo será manifestada semeando a fé no coração dos descrentes! (2º. Domingo do Tempo Comum João 2, 1-11)

José da Cruz é diácono permanente da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim - e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Mons. José Maria Pereira

O Evangelho do Segundo Domingo do Tempo Comum (Jo, 2, 1 – 11) narra o primeiro milagre que Jesus realizou em Caná da Galiléia, numa festa de casamento (bodas).

Durante a festa a Virgem Maria percebeu que o vinho começou a faltar. A Mãe de Jesus disse-lhe: Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Ela pede sem pedir, expondo uma necessidade; desse modo nos ensina a pedir.

Jesus respondeu-lhe: “Mulher… ainda não chegou a minha hora” (Jo 2,4). Mas, a Mãe que conhece bem o coração do seu Filho, comporta-se como se tivesse sido atendida e pede aos servos: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

Importante observar que no Evangelho de João, Maria, a Mãe de Jesus, aparece no início do ministério de Jesus (Jo 2, em Caná) e no fim, no Calvário (Jo 19,25). Com isso quer indicar que toda a obra de Jesus está acompanhada pela presença de Maria Santíssima. Na Cruz, Jesus já agonizante, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: “Mulher, eis aí o teu filho” (Jo 19, 26 – 27).

O termo Mulher é um título respeitoso que era equivalente a “Senhora”, um modo de falar em tom solene. Foi usado por Jesus em Caná e no Calvário voltou a empregá-lo, com grande afeto e veneração.

“Fazei o que Ele vos disser.” Maria é uma Mãe atentíssima a todas as nossas necessidades, de uma solicitude que mãe alguma sobre a Terra teve ou terá. O milagre aconteceu porque ela intercedeu.

Em Caná, ninguém, pede a Maria que interceda junto do seu Filho pelos noivos. Mas o coração da Mãe de Jesus, que não pode deixar de se compadecer dos infelizes, impele-a a assumir, por iniciativa própria, o ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre.  Se Ela agiu assim sem que ninguém lhe pedisse, que teria feito se lhe tivesse pedido que interviesse? Eis pois o motivo pelo qual devemos, várias vezes ao longo do dia, dizer-lhe “rogai por nós.” Certamente conseguiremos muitas graças se recorrermos a Ela. Se conseguiu do seu Filho o vinho, que era dispensável, não haverá de remediar tantas necessidades urgentes como as que temos? Demonstrando a sua confiança em Nossa Senhora, dizia São Josemaria Escrivá: “Quero, Senhor , abandonar o cuidado de todas as minhas coisas nas tuas mãos generosas. A nossa Mãe – a tua Mãe -, a estas horas, como em Caná já fez soar aos teus ouvidos: – Não têm …” (Forja, 807). Em Caná dá-se uma mediação: Maria pôe-se de permeio entre o seu Filho e os homens na realidade das suas privações, das suas indigências  e dos seus sofrimentos. Põe-se “de permeio”, isto é, faz de medianeira, não como uma estranha, mas na posição de mãe, consciente de que como tal pode – ou antes, tem o direito de – tornar presentes ao Filho as necessidades dos homens.

Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai-o ao mestre-sala. E o vinho foi melhor… As nossas vidas, tal como a água, eram também insípidas e sem sentido até que Jesus chegou a elas. Ele transforma  o nosso trabalho, as nossas alegrias, as nossas penas; a própria morte se torna diferente junto de Cristo. Assim podemos fazer nossas as palavras do Papa Bento XVI, no início de seu pontificado: Não temam! Abram, abram de par em par as portas a Cristo!… Quem deixa Cristo entrar não perde nada, nada – absolutamente nada – do que faz a vida livre, bela e grande. Não! Só com esta amizade abrem-se as portas da vida. Só com esta amizade abrem-se realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com esta amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta… Não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e dá tudo. Quem se dá a Ele, recebe cem por um. Sim, abram, abram de par em par  as portas a Cristo e encontrarão a verdadeira vida” (Cf. Doc. Aparecida nº 15).

Jesus não nos nega nada; concede-nos de modo particular tudo o que lhe pedimos através de sua Mãe.

“Enchei as talhas de água”, diz-nos o Senhor. Não permitamos que a rotina, a impaciência e a preguiça nos façam deixar pela metade a realização de nossos deveres diários.

“Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Podemos considerar estas palavras  de Maria como um convite permanente para cada um de nós: Nisso consiste toda a santidade cristã: pois a perfeita santidade é obedecer a Cristo em todas as  coisas.

O Concílio Vaticano II afirmou: “Maria se tornou para nós mãe na ordem da graça” (LG 61). “Esta maternidade de Maria perdura ininterruptamente, a partir do consentimento que ela fielmente prestou na Anunciação, que sob a Cruz resolutamente manteve, até a perpétua consumação de todos os eleitos. Por sua maternal caridade cuida dos irmãos de seu Filho, que ainda peregrinam rodeados de perigos e dificuldades, até que sejam conduzidos à feliz pátria” (LG 62). Maria precedeu-nos no exemplo da fé, entrega, disponibilidade e serviço a Deus e aos irmãos. Que as palavras de Maria em Caná possam soar sempre em nossos ouvidos: “Fazei o que Ele vos disser.” (Jo 2,5).


Homilia do Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

Eutrapelia

Eutrapelia! Que palavra é essa? Hoje em dia quase ninguém conhece a virtude da eutrapelia e por isso eu gostaria de apresentá-la. Apesar desse nome estranho que ela tem, não deveria ser uma virtude desconhecida para nós. Sem a eutrapelia, a pessoa correria o perigo ou de ficar sério demais ou de divertir-se exageradamente. Foram Aristóteles e Santo Tomás de Aquino (cf. Suma de Teologia, II-II, q. 149) que nos legaram essa palavrinha rara: a eutrapelia é aquela disposição interior (virtude) que põe o justo meio entre a relaxação e a seriedade excessivas em relação aos jogos e as diversões em geral.

É evidente que o ser humano não pode viver trabalhando sem parar, nem se divertindo sem cessar. O descanso sabático no Antigo Testamento e o dominical, no Novo Testamento, condiz totalmente com a natureza humana. Necessitamos descansar! Divertir-se é muito bom. Quem não gosta? A diversão revigora as nossas forças e quando é feita em companhia dos outros nos torna mais generosos e sociáveis. O cristianismo sempre valorizou o ócio santo, o descanso na presença de Deus, e proíbe aquelas atividades desnecessárias que nos distanciariam do gozo do domingo, do dia do Senhor. Efetivamente, um dos mandamentos da Igreja é “guardar domingos e festas”, que inclui participar da Missa todos os domingos e dias de preceito e descansar de acordo com as possibilidades de cada um.

Jesus, Maria e seus discípulos também participavam das festas de casamento; Jesus descansava na casa de Lázaro, Marta e Maria; em várias ocasiones, diante do esgotamento do trabalho apostólico, Jesus convidava os discípulos a descansar um pouco. E – não se escandalize! – quando faltou o vinho na festa de Caná, Jesus dedicou o seu primeiro milagre, pela intercessão de Nossa Senhora, a transformar aproximadamente 600 litros de água em 600 litros do melhor vinho (e era vinho com álcool, está claro!).

A Igreja Católica, seguindo os passos do seu Divino Mestre, sempre defendeu a bondade da criação. Lutou contra os gnósticos, os maniqueos e os cátaros de todos os tempos, que afirmavam que a matéria e as realidades provenientes da mesma foram criadas por um principio mau. A Igreja sempre afirmou a bondade do matrimônio, a licitude das festas sadias e nunca proibiu o uso de bebidas alcoólicas baseada em princípios doutrinais. A Igreja Católica é uma Igreja alegre, bem-humorada e que transmite o gozo de ser filho e filha de Deus em Cristo. A Igreja proíbe o pecado porque sabe que ele destrói o ser humano. Não proíbe o uso da matéria e das coisas materiais postas pelo Criador ao serviço da criatura. Depois que o Senhor Deus já havia criado quase tudo quis coroar a sua obra ao fazer o ser humano à sua imagem e semelhança para que este pudesse trabalhar, para que dominasse a criação, para que fosse fecundo em filhos, para que fosse feliz (cf. Gn 1,26-28). Tudo isso poderia escandalizar a algum católico cátaro ou algum evangélico albigense, e, no entanto, o Espírito Santo quis deixar testificado na Sagrada Escritura que toda a realidade material é boa e que somente quando a usamos fora do plano de Deus é que são ocasiões de pecado.

Para divertir-se segundo a vontade de Deus, o cristão necessita da virtude da eutrapelia, como dizíamos. Essa virtude está relacionada com as virtudes da modéstia e da temperança e ajuda a refrear os ímpetos da concupiscência – essa desordem que permanece em nós e que nos leva a ofender a Deus – e a buscar o fim para o qual fomos criados, que é Deus, enquanto nos divertimos. O homem que é um animal racional precisa governar-se pela reta razão. Divertir-se excessivamente mostra que a nossa sensibilidade não está subordinada à razão, daí a importância de “saber divertir-se”. O cristão olhará sempre para o exemplo de Cristo e dos seus seguidores, os santos, e se deixará conduzir pelo Espírito Santo a cada momento. São Paulo também se preocupou com as diversões dos cristãos de Éfeso e escreveu-lhes: “nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disto, ações de graças. Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento – verdadeiros idólatras! – terá herança no Reino de Cristo e de Deus” (Ef 4,4-5).

Para terminar, baste outra passagem muito conhecida onde o Espírito Santo nos diz através de Paulo: “alegrai-vos sempre no Senhor. Repito. Alegrai-vos!” (Fl 4,4).

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa - 17/10/2010


Comentário Exegético – II Domingo do Tempo Comum - Ano C
feito por Pe Ignácio, dos padres escolápios

Segunda Leitura - 1 Cor 12, 4-11

DIVERSIDADE DE DONS: Existem, pois, divergências [diairesis<1243>=disiones] de carismas [charismatön <5486> = gratiarum] , mas um mesmo Espírito [pneuma<4151>=Spiritus] (4). Dvisiones vero gratiarum sunt idem autem Spiritus.
DIVERGÊNCIAS: O Diairesis gregosignifica essencialmente divisão e daí distinção, diferença, distinção por diferente distribuição em várias pessoas. Sai unicamente nesta passagem, em três dos versículos com o significado de diversos ou vários, significando falta de igualdade ou desigualdade.
CARISMAS:
A palavra grega Charisma tem o significado de favor, presente, e, de modo especial bíblico, na economia divina da graça, é o perdão dos pecados e a salvação [geralmente chamado de charis (=gratia) pelo apóstolo]; um outro significado bíblico é o extraordinário poder de realizar obras supra-humanas sob o influxo do Espírito Santo, atuante modo divino, por meio do ministério de homens escolhidos livremente [é o que comummente chamamos de charisma =donum]. O Carisma entra dentro das chamadas gratiae gratis datae e não gratiae santificantes. Estas últimas são divinas na origem, mas humanas do ponto de vista de seus visíveis efeitos [modo humano]. As que denominamos verdadeiros carismas são de origem divina e de resultados divinos [modo divino], que Paulo chama manifestações do Espírito (1Cor 12, 7). Os autores cristãos posteriores falam também de dörëma <1434> que unicamente sai em Rm 5, 16 e Tg 1, 17 com o significado de presente [gift em inglês]. Com este mesmo significado de gift traduz a bíblia NASB a palavra charisma, que sai 17 vezes no NT das quais 16 em Paulo e uma em 1Pd 4, 10. Nem sempre carisma tem o significado de dom extraordinário, mas de um dom de Deus como em Rm 5,15: Todavia não é assim a ofensa como o dom [charisma=donum] pois pela ofensa de um só muitos morreram; muitos mais a graça [charis=gratia] de Deus e o dom [dorea=donum] da graça [charis=graça]. Entre colchetes temos as palavras em grego e latim para facilitar a exegese da passagem.Falando dos carismas [gratis datae] ou dons extraordinários, temos em Paulo, 2 listas diferentes: Rm 12, 6-8 [incompleta] e esta de 1 Cor 12, 4ss, em que trata de como devem ser usados esses dons, especialmente do chamado dom de línguas no capítulo 14. Estes dons, extraordinários em sua manifestação, foram prometidos por Jesus a sua Igreja (Mc 16, 17-18) e no livro dos Atos vemos cumprida essa promessa (At 2, 4;6.8;8,7 etc…). Dá a impressão de que os coríntios estavam orgulhosos desses dons e de modo especial da impropriamente chamada glossolalia, que, na realidade, devia ser xenoglossia, primeiramente observada no dia de Pentecostes, pelos diversos habitantes de Jerusalém (At 2,4). Acredita-se que xenoglosssia era o dom de falar uma língua desconhecida, mas real, que todo aquele que a falasse entendia. Assim, aconteceu com os partos, medos … que se admiravam como simples galileus falavam a língua em que os tais tinham nascido (At 2, 7-8). Já a glossolalia é um fenômeno, muitas vezes completamente humano, em que se emitem sons, sem que formem uma língua, devido em grande parte à emotividade da pessoa que as emite, chegando até o canto mais ou menos rítmico. Outro fenômeno, que em vida de certos santos foi possível comprovar, é que falando por exemplo em latim, eram compreendidos por seus ouvintes que nada ou pouco podiam entender da língua do Lácio, como dizem foi o caso de S. Bernardino, em Áustria. Nesta perícope, temos o genë glössön [=genera linguarum], traduzido por famílias  ou variedade de línguas, ou falar línguas, nas diversas bíblias vernáculas.
UM MESMO ESPÍRITO: PNEUMA
[=Spiritus] Pode ser um poder derivado de Deus como em Maria achou-se grávida por obra do Espírito Santo [ek pneumatos agiou=de spiritu sancto] (Mt 1, 18). Muitas vezes, tem o artigo que corresponde, não a uma ação, mas a uma pessoa, como a terceira pessoa da Sma. Trindade como é o Espírito, o divino, que Mateus chama de Espírito de Deus [to pneuma tou Theou=Spiritum Dei]. Claramente o podemos ver quando a blasfêmia contra o homem Jesus, é antagônicamente comparada com a lançada contra o Espírito Santo [ kata tou pneumatos tou agiou=contra Spiritum Sanctum]. Uma outra interpretação é o espírito humano, que comumente chamamos de alma, como em Mt 26, 41: o espírito esta pronto, mas a carne é fraca (Mt 26, 41). Pode ser um ser espiritual, desprovido de corpo, como um anjo ou diabo, como é o caso do espírito imundo [to akatharton pneuma = inmundus spiritus] que sai do homem para voltar com outros piores do que ele (Mt 12, 43). Para, finalmente, não falar do ar ou do alento do homem. Porém, neste versículo, devemos entender como sendo o poder de Deus que atua livremente para dar aos batizados, em seu nome, faculdades, tanto extraordinárias como comuns, para o bem e edificação da Igreja.

MINISTÉRIOS: Também há divergências de ministéirios [diakoniön<1248>=ministrationum], mas um mesmo Senhor [Kurios<2962>=Dominus] (5). Et divisiones ministrationum sunt idem autem Dominus. Em termos profanos, DIAKONIA era um serviço de um homem livre, não escravo, ao comando de um superior. Especialmente era o serviço da mesa como Marta em Lc 10, 40: que pode ser traduzido por serviço, ou ministério. Quando se trata de termos bíblicos, é o serviço devido a Deus, proclamando e promovendo a revelação, como era o ministério de profetas e apóstolos, evangelistas e presbíteros.
SENHOR: Kurios [escrito muitas vezes como Kyrios, devido à pronuncia ] é aquele a quem uma pessoa pertence, que tem o poder de decidir, de mandar; é o dono de uma coisa ou pessoa como era um escravo. No estado, é o soberano, o imperador. É o título dado a Deus; e finalmente, Kurios é a tradução da Setenta no VT, de Adonai, Eliah, Elohim, Jahve, ou Jah, todas estas vozes que eram usadas para Deus em hebraico. No NT, aparece 722 vezes e, delas, 25 nesta epístola aos de Corinto. Certamente, como no AT, Kurios é o título de Deus, mas de modo especial é o título de Cristo ressuscitado, que, nesta carta, Paulo chama de nosso Senhor [Kurios] Jesus Cristo (7 vezes); ou Senhor [Kurios] Jesus (2 vezes); ou simplesmente Senhor [Kurios] (13 vezes), inconfundível com o Pai; pois é quem deve vir a julgar, ou é o crucificado, e especialmente de quem Paulo e outros são ministros; e outras 3 vezes em que não é definido o Senhor. Pelo versículo 3,5 [Apolo e Paulo, servos (diakonoi)...conforme o Senhor concedeu a cada um] devemos pensar que esse Senhor/Kurios/Dominus deste versículo é Cristo.

ATIVIDADES: E também divergências de trabalhos [energëmatön<1755>=operationum] mas um só é o Deus, quem obra todas as coisas em todos (6). Et divisiones operationum sunt idem vero Deus qui operatur omnia in omnibus.
TRABALHOS: Energëma em grego é o efeito de uma operação, o resultado de um trabalho, que é traduzido por realização. Poderíamos traduzir por práticas ou realizações e que o latim resume como operações. Atividades é a tradução do inglês. Se o carisma é atribuído ao Espírito, o ministério ao Cristo, estes efeitos finais da atuação são produtos do Pai, de Deus [Theos] que é o modo de nomear a primeira pessoa da Trindade, que é a causa efetiva de tudo.

MANIFESTAÇÕES: A cada um, portanto, é dada a manifestação [fanerösis<5321>=manifestatio] do Espírito para o (comum) proveito (7). Unicuique autem datur manifestatio Spiritus ad utilitatem.
MANIFESTAÇÃO:Fanerösis
sai só duas vezes (1 Cor 12, 7 e 2Cor 4, 2); e podemos traduzir por uma visível atuação divina [do Espírito] clara, como era a palavra de Paulo em sua evangelização. Para isso era preciso um ato miraculoso ou extraordinário. Mas esse ato era para o bem comum. Cristo curou a muitos, mas não quis responder ao milagre que lhe pediam os seus inimigos: se és Filho de Deus, desce da cruz (Mt 27, 40). Assim são também os santos: para si a dor e a morte, para os outros o amor e a vida.

O PODER DA PALAVRA: A alguém, pois, através do Espírito é dada palavra de sabedoria [sofias <4678> =sapientiae], a outro, porém, palavra de conhecimento [gnöseös<1108>=scientiae] segundo o mesmo Espírito (8). Alii quidem per Spiritum datur sermo sapientiae alii autem sermo scientiae secundum eundem Spiritum.
O ESPÍRITO é o poder divino que se manifestava especialmente na palavra do profeta e no milagre do taumaturgo. Logicamente neste versículo, temos o poder da palavra que não aparece como revelação do futuro, mas como sabedoria e ciência. Que significa SOFIA [sapientia] em sentido bíblico? Em sentido clássico é um conhecimento amplo de diversas matérias e eventos. Especialmente esse conhecimento que dá a experiência dos acontecimentos, expressado em fórmulas breves, como máximas e provérbios. Em termos bíblicos, é o poder de interpretar sonhos e visões, como eram os sábios [chartumim, magoi, magi, wise men], que acompanhavam os tronos reais. Em hebraico é chokhmah ou chakam<02451> como vemos em Is 29, 14: a sabedoria de seus sábios [chakam] perecerá. Dentro destes sábios entram os astrólogos ou magos [hartom<02748>=magos/magus], dos quais é exemplo Mt 2,1 que narra o relato dos magos do oriente, provavelmente nabateus, das caravanas do deserto arábico. No NT temos Mt 11, 9: A sabedoria é justificada por suas obras. Ou por suas consequências. Paulo fala frequentemente da palavra de Sabedoria, que para ele é o evangelho de Jesus Cristo, completamente desconhecido dos sábios do mundo; pois, apesar dos gregos buscarem a sabedoria [a razão do mistério da vida e da existência do mundo] eles não a encontraram em Cristo que é a chave para entender a sabedoria infinita de Deus (1 Cor 1, 24 e 1, 30). Sabedoria, em termos bíblicos, era a ciência do bem e do mal (Gn 2,9) própria de Deus e que, em termos humanos, significa saber o que devemos fazer na prática para nossa felicidade. Alguns exegetas dizem que a ciência do bem e do mal representa a totalidade dos conhecimentos possíveis.
PALAVRA DE SABEDORIA:
É a disposição de falar sabiamente, como falava Jesus na sinagoga, de modo que os presentes diziam de onde lhe vem tudo isto? Como tem tal sabedoria? (Mc 6, 2) É a promessa que Jesus deu aos seus discípulos: quando os levarem às sinagogas ante os magistrados e autoridades não vos preocupeis com o que, ou sobre como haveis de falar, ou que haveis de dizer. O Espírito Santo vos ensinará, naquele momento, o que deveis dizer (Lc 12, 11-12). De fato, Estêvão confundiu seus adversários, como narram Atos 7; e Paulo fala de modo tão convincente, que o rei Agripa confessou: Pouco me falta para que, pelo teu arrazoado, para fazeres de mim um cristão (At 26, 28).
ENTENDIMENTO:
ou Gnösis, é o conhecimento em geral; No tempo de Paulo, ainda não existia a heresia que, no final do primeiro século e inícios do segundo, constituiu o gnosticismo, em cujos princípios está o de que a salvação depende do conhecimento [da gnösis] e  não é obra da graça e misericórdia divinas. Distingue-se da sofia em que a gnosis é o saber teórico e sofia é o saber prático, especialmente quando se trata dos últimos princípios ou razões básicas. Diríamos que sofia é a aplicação prática da gnösis. Das 28 vezes que encontramos a palavra gnosis no NT, na carta atual sai 9 vezes. Na primeira parte, a gnosis trata sobre os ídolos e o problema dos idolotitos [carnes anteriormente consagradas a um ídolo]. Na segunda parte, Paulo diz que ele tem o dom do conhecimento, indicando a explicação de pontos de moral difíceis, como dirá em 1 Cor 7, 12: aos outros digo eu, não o Senhor; e porque em virtude da missão que Deus me encomendou,vos digo a cada um de vós (Rm 12, 3).
PALAVRA DE CONHECIMENTO:
Era, pois, um dom como de mestre e guia dos espíritos em ordem ao bem dos ministrados, que estes aceitavam como palavra correta a seguir. Na realidade não sabemos certamente em que consistia esse dom de conhecimento e só através dos escritos podemos entrever uma solução, sem termos total certeza da mesma. Segundo alguns, Jesus usou desse dom quando pediu a Pedro que pescasse o peixe onde encontrar o didracma para pagar o tributo (Mt 17, 24-27). E Paulo o praticou, pedindo que lançassem o carregamento para salvar as vidas, na tempestade (At 27, 10). Umas vezes ouvimos como uma palavra de um simples cristão encerra uma verdade que os próprios entendidos não souberam descobrir. Um sacerdote contava como numa reunião alguém disse: Como um padre pode se declarar irmão de Jesus, se não aceita Maria como sua mãe? Do cardeaL Tomasino diziam os calvinistas : cavete Tomasinum, pois sua lógica era irrefutável.

FÉ E CURA: A outro, porém, fé [pistis<4102>=fides] no mesmo Espírito, a outro, pois, carismas de curas [iamatön<2386>=sanitatum] no mesmo Espírito (9). Alteri fides in eodem Spiritu alii gratia sanitatum in uno Spiritu.
FÉ: Pistis,
em grego, tem como significado primário fidelidade, exatamente como fides em latim não bíblico, em que encontramos fidem fallere [faltar à palavra]. É a tradução de emeth<571> ou emunah <530>pela Setenta, preferindo aletheia para emeth e pistis para emunah.Famosa é a passagem de Habacuc 2, 4: O que não é honesto sucumbirá; mas o justo viverá por sua fidelidade [emunah/pistis],  que no grego não é a fé ou fidelidade do justo mas de Deus (minha fidelidade=ek pisteös mou). Deste versículo fez Lutero seu princípio fundamental, traduzindo pessimamente: o justo vive só (?, por ele acrescentado) pela fé, do texto grego de Rm 1, 17,  que deve ser traduzido: A justiça  pois de Deus nEle se revela de fidelidade em fidelidade,como está escrito:pois um justo viverá por meio da fidelidade [de Deus]. Em Habacuc a Setenta traduz ek pisteös mou zësetai [da fidelidade de mim viverá] e Paulo ek pisteös zësetai da fidelidade viverá]. No NT, a fé é pistis e era precisamente a confiança na pessoa de Jesus como tendo o poder de curar, que o Mestre exigia dos doentes, para curá-los (Mt 8, 10 e 9, 2 como exemplos). Jesus repreende seus discípulos como homens de pouca fé, pois se tivessem uma fé como um grão de mostarda poderiam remover montanhas (Mt 17, 20). Será Paulo quem opõe a Torah [Lei antiga] a fé em Cristo, em suas epístolas e propõe, como resposta à misericórdia divina, a fé do batizado, e a chama de obediência da fé (Rm 1, 5) com a qual, além da fé, Paulo implica implicitamente obras, como Tiago em sua epístola diz que ao oferecer a seu filho Isaac sobre o altar cooperava com as obras, a fé e que esta se tornou perfeita pelas obras, cumprindo assim as escrituras que diziam: Abraão creu em Deus e isso lhe foi contado como justiça e foi chamado amigo de Deus. Vede, pois que o homem é justificado pelas obras e não só pela fé (Tg 2, 21-24). Como vemos, não existe contradição entre os dois apóstolos se traduzimos e interpretamos corretamente os textos de ambos. Mas qual é a fé deste versículo paulino? Evidentemente, não é á fé passiva de um doente que espera a cura, mas uma fé ativa que se traduz em obras. Exemplos temos na vida dos santos: realizaram obras consideradas como impossíveis, do ponto de vista humano, unicamente considerada a proteção divina. É a fé que Jesus encontrou deficiente em Pedro quando este começou a afundar pela fúria das ondas (Mt 14, 30-31). Um exemplo dessa fé é a Piccola Casa Della Divina Provvidenza  de Cottolengo. Vivendo apenas de esmolas, nessa casa vive-se pela fé, cumprindo a promessa de Jeremias: Eis que lhes trarei saúde e cura e os sararei e lhes revelarei abundância de paz e segurança (33, 6). Veremos isto no exemplo.

OUTROS DONS: Porém a um outro obras de milagres [dunameön<1411>=virtutum], a outro, pois, profecias [profëteia <4394.=prophetatio], a mais outro discernimento [diakriseis<1253>=discretio] de espíritos, a um outro famílias [genë<1085>=genera] de línguas [glössön<1100>=linguarum], a um outro interpretação [ermëneia<2058>=interpretatio] de línguas (10). Alii operatio virtutum alii prophetatio alii discretio spirituum alii genera linguarum alii interpretatio sermonum.
OBRAS DE MILAGRES:
Em grego dunamis (força ou poder), que o latim traduz literalmente por virtus [=força]. Obras do poder de Deuscomo autor principal, que têm como mediadores os seus santos. Atualmente não existe beato ou santo na igreja sem que seja antes firmada sua vida heróica pelo milagre, que o distingue como amigo de Deus.
PROFECIAS: é a voz de Deus numa circunstância especial, manifestando sua mensagem, que, nem sempre, é desvendar o futuro. Para isso, usa a voz de um de seus servidores. Exemplo: At 21, 10-11, quando Ágabo profetizou a prisão de Paulo em Jerusalém.
DISCERNIMENTO DE ESPÍRITOS:
Dentro das comunidades, havia diferentes palavras que eram pronunciadas como voz de Deus, mas podiam vir de outro espírito, aquele que Jesus dizia ser o pai da mentira (Jo 8, 44). Em At 16, 18 vemos uma jovem que tinha o espírito de adivinhação e que Paulo expulsou. Dentro da comunidade de Corinto, Paulo dá uma norma para distinguir o falso espírito: ninguém que fala pelo espírito de Deus afirma: Anátema Jesus. Por outro lado, ninguém pode dizer Senhor Jesus senão pelo Espírito Santo (1 Cor 12, 3). Paulo dirá que Satã pode se revestir como anjo de Luz (2 Cor 11, 14) e seus ministros em ministros de justiça. Hoje, será a voz da Igreja que nos guiará através dos bispos e do Papa; mas como saber qual a vontade de Deus em casos particulares e concretos? A voz dos superiores e dos diretores espirituais, que sejam mais sábios do que santos como dizia Tereza de Jesus. Santo Ignácio de  Loyola tinha como norma: os desejos divinos produzem dor no início, mas logo se transformam em paz. Os do inimigo são agradáveis no início e logo, produzem angústia e depressão. S João da Cruz afirmava: escolhe sempre o menos conforme com tua vontade. Estes eram grandes santos que indubitavelmente tinham o dom de discernimento de espíritos.
FAMÍLIAS DE LÍNGUAS:
Os de língua inglesa falam do dom de línguas como usado unicamente como prece em louvor de Deus e Paulo o descreve com alguns detalhes em 1 Cor 14,14-15. Nesse momento, o falante se deixa guiar pelos impulsos divinos, de modo que é o Espírito infuso que com sons ininteligíveis  (14, 2) fala por nós. Tanto é assim, que o falante em línguas nem a seu próprio entendimento edifica, porque não compreende o que diz, segundo Paulo. O apóstolo ordena que, se não existe um intérprete, não se fale em línguas, porque não edifica a comunidade. Não é um dom que indique o estado de graça de uma pessoa. A jumenta de Balaão falou e era um animal sem entendimento. No mundo atual, existem muitas simulações e imposturas e é difícil se subtrair a seus aliciadores, porque quem não fala em línguas é considerado como pobre de espírito e desprovido do mais elementar dom divino que a todos é concedido. É um assunto delicado e sem uma solução clara, pois a maioria dos que se dizem em línguas é um blá, blá, blá que não pertence a língua nenhuma e é só um balbucio sem sentido.
INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS: Só sai 2 vezes (1Cor 12, 10 e 14,26). É possível que nos primeiros tempos, a glossolalia fosse também, como no caso de Pentecostes, xenoglassia, ou seja, falar uma verdadeira língua estranha (caso de Cornélio de Atos 10). Somente quando estiver um intérprete é que o tal podia falar, segundo Paulo.

DONS GRATUITOS: Porém, todas estas coisas opera o único e o mesmo Espírito distribuindo os seus (dons) a cada um como lhe apraz (11). Haec autem omnia operatur unus atque idem Spiritus dividens singulis prout vult. Paulo termina este trecho, afirmando que tudo procede de uma única causa: o espírito, alento, sopro vital, faculdade, ou impulso que tem como causa o próprio Deus e a quem Paulo chama de Espírito. Estes dons são dados grátis e por isso, recebem o nome de gartiae gratis datae [gracias dadas de gracia]. Deus reparte e é Ele quem escolhe livremente.

Evangelho

AS BODAS DE CANÁ - (Jo 2, 1-11)

A cena evangélica é situada em Caná da Galileia no meio de uma boda. Mas os protagonistas não são os noivos senão Jesus e Maria, especialmente esta parece ser a dona do espetáculo. Daí que à parte o poder de Jesus interpretado em termos cristológicos como Salvador do momento, vejamos em aspectos mariológicos a súplica toda poderosa da intervenção de sua mãe, Maria. Ela adianta a hora de Jesus manifestando-se sensível às necessidades dos seus conhecidos e devotos. Maria é a onipotência suplicante enquanto Jesus é a onipotência por essência.

A BODA: Assim, no terceiro dia aconteceu uma boda [gamos<5154>nuptiae] em Caná da Galileia e estava a mãe de Jesus ali (1). Et die tertio nuptiae factae sunt in Cana Galilaeae et erat mater Iesu ibi

NO TERCEIRO DIA:Segundo a numeração, um tanto fictícia  de João, o evangelista, aconteceram três dias (?) memoráveis na vida de Jesus: O primeiro dia, Jesus encontra o Batista (Jo 1, 29). O segundo, Jesus encontra seus primeiros discípulos (Jo 1, 35). O terceiro dia, Jesus encontra Filipe a ponto de ir para a Galileia (Jo 1, 43). E agora o evangelista fala do terceiro dia que propriamente seria o quarto. Ele não enumera os dias como primeiro, segundo, terceiro, mas diz no dia seguinte, [tê epaurion<1887>] altera die. Sem dúvida que esse outro dia não era matematicamente o dia imediato, mas um outro dia ou um dia posterior, podendo haver um intervalo maior entre os dias que as 24 horas. Por que, pois, o evangelista está tão interessado em falar agora de no terceiro dia, que não admite outra interpretação a não ser a matemática? Pois porque o evangelista quis mostrar como a redenção era uma cópia da criação. Eis o comentário dos exegetas: in tertia die porque este era o terceiro dia em que Deus estabelecia uma união com os homens. Pois, no primeiro dia do homem, na manhã original da criação de Adão e Eva, Deus os abençoou e estabeleceu que eles deveriam crescer e multiplicar-se (Gn 2 ,28), a fim de que muitos participassem da vida e felicidade divinas. E esta foi, em certo sentido, a primeira aliança de Deus com o homem. Num segundo dia, Deus firmou aliança com Abraão (Gn 12, 2-3), prometendo-lhe uma grande descendência, assim como a sua bênção e proteção. Foi dessa aliança que nasceu o povo eleito, com o qual Deus firmou seu pacto no Sinai. Agora, in die tertia, Cristo instituía o sacramento do matrimônio, imagem de suas núpcias eternas com a santa Igreja. S. Tomás, comentando essa expressão – in die tertia – diz que o primeiro dia foi o da lei natural; o segundo foi o da lei de Moisés; e o terceiro foi o dia da graça. Caná significa zelo. E o nome Galileia tem raiz em Galut, que significa exílio. Porque a Sabedoria divina, exilando-se do céu encarnou-se em Cristo, para, ardendo em zelo, vir a esta nossa terra de exílio, a fim de salvar os homens. Uma outra interpretação é que o casamento se deu no terceiro dia da semana [tuesday em inglês e martes em espanhol], como vemos era costume entre os judeus. Não era um dia terceiro após os dois anteriores, mas o dia terceiro da semana.

OS NOIVOS: eram judeus, membros da Antiga Aliança. E suas núpcias se davam de acordo com a Lei de Moisés e os costumes da sinagoga. Eles representavam então as núpcias de Deus com a Sinagoga, que São Paulo comparou com as núpcias de Abraão com sua escrava Agar. E a de Jacó com Lia. Agar era a escrava e não a esposa legítima e primeira, e Lia tinha os olhos doentes e por isso não via bem. Assim a sinagoga foi a escrava e não a verdadeira esposa, e, quando chegou o Esposo, ela não o reconheceu, porque não viu nEle a realização das profecias. Ela foi cega ao meio dia, hora em que levantaram Cristo na cruz, no Calvário. Pois como o próprio Moisés profetizara, caso Israel fosse infiel: O Senhor te fira de loucura e de cegueira e de frenesi, de sorte que andes às apalpadelas ao meio dia como um cego costuma andar às apalpadelas  nas trevas, e não acertes os teus caminhos (Dt 28, 29). E Isaías confirmou isto ao profetizar: Tira para fora o povo cego, apesar de ter olhos, o povo surdo, apesar de ter ouvidos (Is 47, 8).

A BODA: a Mishná (tradição escrita que contém a norma autorizada e autoritária nas judiarias tanto de Israel como da diáspora ) no seu tratado de Ketubá(documento matrimonial), afirma que uma virgem deve se casar na quarta feira e uma viúva na quinta. Os judeus tinham em grande estima o matrimônio, sobretudo relacionado com a descendência. Rabi Eliezer dizia: Todo aquele que não pratica a procriação é semelhante àquele que derrama sangue. No comentário a Gn 1,18 Maimônides declara que a Torah condena o celibato. O varão pode contrair matrimônio após a cerimônia do bar Mitzvá [13 anos] e a mulher após a primeira menstruação entre os doze e doze anos e meio. Mas o homem é obrigado a contrair matrimônio desde a idade de dezoito até vinte anos; com exceção de quem tem que abandonar o estudo da Torah para procurar manutenção. Pois o homem deve primeiro preparar o lar, plantar uma vinha (estabelecer trabalho digno de sua manutenção) para depois contrair matrimônio. As meninas eram desposadas aos doze ou doze anos e meio, pois até essa idade o pai tinha domínio sobre suas filhas. Os homens casavam aos dezoito até os vinte e cinco anos. Pelo desposório a jovem passava do domínio do pai ao domínio do esposo. Uma mulher é adquirida por dinheiro, documento (ketubá) e coito. Geralmente entre o desposório e a boda transcorria um ano. Após o enfraquecimento da fé por causa dos casamentos mistos com mulheres idólatras (Ex 34, 15-16), Esdras mandou expulsar as mulheres estrangeiras (10,1-17). Portanto, os casamentos entre os judeus eram endogâmicos, e até dentro da mesma tribo, especialmente entre os sacerdotes e os descendentes de Davi. Para demostrá-lo, solicitava-se ao Chatán [noivo] e a Kalá [noiva] a apresentação do ketubá [documento do contrato  de seus pais]. Segundo a Mishná uma virgem devia casar na terça-quarta feira e uma viúva na Quarta/quinta. O costume foi iniciado, segundo tradição, por Ezra, descendente de Judá conforme Crônicas 4,17. A razão é que se a esposa não fosse virgem o assunto devia ser levado ao tribunal que se reunia nas segundas e quintas feiras. Depois se inventou uma razão simbólica afirmando que o terceiro dia da semana era o dia da criação no qual por duas vezes Deus usou o estava bem, tanto ao ver a separação do seco e do úmido, como ao ver o brote das árvores e sementes. Era, pois, um dia de sorte por ser abençoado duas vezes por Deus. Uma boda não devia celebrar-se em Shabat [sábado] ou durante as festas, incluídos os dias entre Páscoa e Sucoth [pentecostes] devido ao mandato de que os judeus não devem misturar uma alegria com outra. Os judeus sempre gostaram de festas e as bodas eram geralmente celebradas no fim do outono, após a colheita, meses de outubro-novembro. O casamento demorava até uma semana ou mais (Gn 29, 27; Jz 14,10.12.17;Tb 9, 12.10,1). Durante elas os parentes e amigos iam felicitar os esposos; nos banquetes podiam participar até os transeuntes. O vinho era considerado elemento indispensável às comidas e servia para criar um ambiente festivo. O vinho era para a festa como o sal é para a comida. As mulheres intervinham nas tarefas da casa; por isso Maria pode saber de que o vinho era escasso. As testemunhas, tanto da parte da noiva como do noivo, eram em grande número. Amigos do esposo, chama o evangelho a estes últimos. (Mt 9, 15). Dentre eles escolhia o noivo um paraninfo ou padrinho ( Jz 14, 20) que João chama de amigo do esposo (Jo 3,29).

A CERIMÔNIA: Antes do casamento havia o cortejo nupcial. A noiva saía de sua casa acompanhada das pessoas que formavam o seu grupo; O noivo vinha de outro lugar por ele escolhido. O destino era a casa do pai do noivo. Os dois grupos eram constituídos de amigos de cada um, que iam tocando instrumentos musicais, cantando e espalhando flores pelo caminho. Quase sempre eles cantavam as tradicionais músicas de casamento, das quais, às vezes, constavam versos de amor dos Cantares (Ct 3,6). É a esse cortejo que Jesus se refere na parábola das dez virgens (Mt 25, 1-13). A noiva era vestida com os melhores trajes e com as mais belas joias. Seu rosto estava coberto por um véu, que retirava quando os dois esposos estivessem a sós. Os convivas também luziam roupas festivas ou vestes nupciais (Mt 22, 11). A cerimônia propriamente dita era chamada de Hupah [=toldo] era o pálio nupcial que representava o próximo lar, e sob o qual se assentavam os dois novos esposos durante as bênçãos rituais. Não parece ter havido juiz ou rabi religioso no casamento (nessuin, era o nome para o casamento religioso) sendo que a cerimônia tinha como modelo a prática observada por Isaac e Rebeca (Gn cap 25). Por isso os casamentos não eram realizados na sinagoga, mas na casa do pai do noivo. Talvez recitavam-se as sete bênçãos que comparam o casamento com a dedicação entre Jahvé e seu povo de Israel, da qual o matrimônio era figura (Jr cap 3). Os votos e os compromissos tinham sido feitos anteriormente (Gn 24,67).

A CONSUMAÇÃO: Enquanto os amigos cantavam e se divertiam, os esposos entravam numa tenda ou quarto, previamente preparado para ser a câmara nupcial. No meio de instrumentos e cânticos o matrimônio era consumado e algum tempo depois o casal saia da câmara trazendo as provas de que a noiva virgem havia se unido ao esposo. Feito isso os recém-casados uniam-se ao resto dos convidados e as comemorações continuavam durante sete dias ou mais. Era num dos dias dessa festa que Jesus chegou a Caná como convidado.

A MÃE DE JESUS: Assistir a um banquete era considerado como um ato de beneficência e deferência por parte do convidado. Entre os convivas estava Maria, não citada pelo nome, mas como a Mãe de Jesus. Segundo alguns comentaristas Alfeu ou Cleofás cunhado de Maria por estar casado com a sua irmã (Jo 19, 25), tinha sua morada em Caná e era portanto uma boda familiar. Isso explicaria a intervenção e o protagonismo de Maria. Pois das três Canás que conhecemos, a da Galileia parece estar a 4 km de Nazaré.
NOTA: Atualmente celebra-se o matrimônio nessuim ou seja como rito religioso na sinagoga. Embaixo da Hupá [pálio nupcial] que seguram quatro jovens solteiros, colocam-se os noivos. O rabi abençoa um copo de vinho e dá de beber aos noivos. Estes utilizam o mesmo copo como símbolo da partilha a que se comprometem. Depois o noivo coloca um anel de ouro na mão da noiva, garantia de que irão conviver seguindo a Lei de Moisés. Segue-se a leitura da Ketubá, contrato matrimonial, que especifica as obrigações dos noivos e o dote da noiva. As sete bênçãos são, então, recitadas e, no fim, o noivo parte um copo com o pé, recordando a dolorosa destruição do Templo de Jerusalém. Seguem-se cânticos e música em redor dos noivos até que a alegria e a felicidade transpareçam no rosto de ambos. A festa continua com uma boda oferecida aos convidados.

JESUS CONVIDADO: Ora, foi chamado também Jesus e os seus discípulos ao casamento [gamon](2). vocatus est autem ibi et Iesus et discipuli eius ad nuptias. Jesus entrou como convidado e com ele seus novos cinco discípulos:  André, João, Simão, Filipe e Natanael, este último de Caná. O convite indica que existia algum parentesco entre Jesus e os noivos. Provavelmente, os esposos eram parentes de Maria e de Jesus. Na festa entrou Jesus com os novos discípulos em número de cinco. Entre os invitados não se cita S José, coisa que não é possível atribuir a um esquecimento do evangelista. Isto supõe que o santo Patriarca tinha já morrido. Para demonstrar a bondade de todos os estados da vida: Jesus se dignou nascer nas entranhas de Maria; recém-nascido, recebeu os louvores de Simeão e Ana e, invitado na sua idade madura, honrou com sua presença as bodas e com seu poder as abençoou. Esta presença de Jesus nas bodas de Caná, é um sinal de que Jesus abençoa o amor entre homem e mulher, carimbado no matrimônio como vínculo social. Deus, com efeito, instituiu o matrimônio no princípio da criação (Gn 1, 27-28), e o confirmou e elevou à dignidade de Sacramento (Mt 19, 6). S. Tomás diz que existe uma outra razão: para demonstrar que a matéria [o corpo e suas finalidades] é boa, ao contrário do que ensinam os hereges [gnósticos, maniqueus e cátaros]. Uma outra conclusão é a de que a atuação de Jesus nestas bodas é totalmente contrária ao teetotalismo [total absentismo de bebidas alcoólicas da letra T (t de total) em inglês]. Uma minoria de modernos leitores [os da Wicca, neopaganismo de Gerald Gardner (Wicca significa bruxo [Witch] em antigo saxon)] querem ver nestas bodas as do casamento de Jesus com Maria Madalena, porque o casamento era originalmente este, mas o evangelista o coloca em Caná e diz que Jesus era um invitado, para iludir, como igreja oficial, as negativas consequências.

O VINHO: E tendo faltado vinho, diz a mãe de Jesus a ele: Não tem vinho [oinou<3631>=vinum] (3). Et deficiente vino dicit mater Iesu ad eum vinum non habent.
O VINHO: era como o sal para a comida. Faltando o mesmo, o banquete de bodas não tinha razão de ser. Era o fim. Maria, como mulher, estava atenta às necessidades do banquete. Ela se deu conta do fato. Se como a tradição supõe, as bodas eram entre um filho(a) de Clopas, irmão de José, o esposo de Maria, o interesse desta última era evidente. Se Clopas e Cléofas são a mesma pessoa, este era o pai de Tiago o Menor (Jo 19, 25), pois Alfeu e Clopas dizem ser a mesma pessoa, já que João fala da mãe de Tiago como sendo mulher de Clopas. Alfeu é nome grego,  derivado do Chelef hebraico, em que ch se pronuncia como j espanhol ou como k. Alfeu significa mudança. Clopas é nome grego de Chelef como indica o dicionário Key Word. Já Cléopas  é abreviado de Cleopatros [pai ilustre]. Porém Clopas e Cléopas parecem ter a mesma raiz e se pronunciados por judeus em que as vogais não eram fixas, talvez tenhamos a solução. É a anotada por César Vidal no seu Dicionário de Jesus, e que implicitamente aponta a Enciclopédia Bíblica de Orlando Boyer. Geralmente o vinho era acumulado como presente dos convivas. Jesus e seus discípulos não o trouxeram e pode ser uma das razões de sua falta. Daí que Maria fizesse a petição. A falta poderia ser remediada com o aportamento de Jesus e dos discípulos, cujo presente estava em falta. Esperava Maria um milagre? Segundo a tradição, o Messias não era particularmente uma pessoa milagreira, embora para o povo existisse semelhante carisma (Jo 7,31). Não era visto assim o profeta que esperavam os judeus no tempo do Messias. Profeta semelhante a Moisés (Dt 18, 15). Seria semelhante a Elias ou o próprio Elias (Mt 16, 14). Maria sabia que seu filho era o Messias (Lc 1,32). A falta de vinho era total ou estava reduzido ao mínimo que com a ausência dos acompanhantes de Jesus poderia se prolongar um tempinho a mais? Porque a pergunta de Maria refletia uma circunstância semelhante à que Jesus fez em Marcos em 8,2 : não tem o que comer.

A MÃE DE JESUS: No quarto evangelho, a mãe de Jesus [é o título que dá o evangelista a Nossa Senhora] aparece somente duas vezes: uma, neste episódio, a outra, no Calvário (19, 25). Com isso, está insinuado a participação de Maria na Redenção. Entre os dois acontecimentos, Caná e Calvário, existem várias analogias. Situam-se uma no início e outra no final da vida pública, como para indicar que toda a obra de Jesus está acompanhada pela presença de Maria. Seu título de Mãe adquire ressonâncias especialíssimas: Maria atua como verdadeira mãe de Jesus nesses dois momentos nos quais o Senhor manifesta a sua divindade. Ao mesmo tempo, ambos os episódios, assinalam a solicitude de Maria como verdadeira mãe: no primeiro dos esposos, no segundo de Jesus. No primeiro intercede ao filho. No segundo oferece ao Pai a morte do Filho. E se torna mãe dos discípulos amados do Filho ao recebê-la estes como própria.

A RESPOSTA: Diz a ela Jesus: que há entre mim e ti, mulher? Ainda não está presente minha hora(4). Et dicit ei Iesus quid mihi et tibi est mulier nondum venit hora mea. QUE HÁ ENTRE MIM E TI(sic)? A frase, exatamente igual em dois lugares do grego dos setenta, tem dois sentidos: a) No caso de uma ofensa, o ofendido dirá: Que coisa eu fiz para me tratar dessa forma? Um exemplo os demônios tiëmin kai soi [que há entre nós e a ti] (Mc 1, 24). b) Resposta a um solicitante, quando o interrogado não quer se imiscuir no caso: Por que eu devo me incumbir de coisa que não me interessa? No caso de Eliseu ao rei de Israel, idólatra em 2 Rs 3, 13 o profeta rejeita a presença do rei de Israel, dizendo: “Que tenho eu a ver contigo, pois tu tens os profetas de teu pai e tua mãe. Se não fosse pela presença do rei de Judá, eu nem sequer olharia para ti”. Evidentemente é a segunda interpretação a própria deste trecho. Davi a Abisai que queria matar Semei que o amaldiçoava: Que tenho convosco filhos de Sárvia (2 Sm 16, 10). Em ambos os casos a frase indica uma oposição ou independência. Evidentemente esta última corresponde ao caso atual. Jesus afirma sua independência aqui, quando se trata de usar seus poderes especiais como Filho de Deus e não como filho de Maria. Esta não pode decidir quando e como ele deve agir. Os evangélicos usam esta passagem para traduzir: Mulher, que tenho eu que ver contigo? Que embora seja uma tradução lícita da frase, dá a impressão falsa de uma rejeição total da intervenção e da pessoa de Maria, que não está em conformidade com o contexto e a reação imediata de Maria e a subsequente conduta de Jesus. Parece que Jesus recusa o milagre, porque este não depende dele só, mas da vontade do Pai, como em Jo 12, 27 em que Jesus pede seja glorificada a pessoa do Pai. A intenção de Jesus era mostrar seus dotes de enviado em Jerusalém, como com SINAIS próprios de um profeta enviado por Deus (Jo 2, 23).

MULHER: A palavra MULHER (guinê) responde a Senhora em português. A palavra mulher significa uma pessoa do gênero feminino; a esposa de um homem; e, como vocativo, é usada 8 vezes nos evangelhos, desde Mateus 15, 28 em que Jesus se dirige a uma sírio-fenícia, Pedro se dirige à empregada que o delata em Lc 22, 27 e em João sai 5 vezes uma a Nossa Senhora que comentamos, outra à samaritana (4, 21) e duas a Madalena em 20, 13 e 20, 15. No Calvário, de novo, Jesus se dirige a sua mãe com o mesmo apelativo (19, 26). Nestes casos podemos dizer que no português usaríamos Senhora. É a palavra que Jesus usa ao se dirigir a sua mãe na cruz (Jo 19, 26). Não há nada de desprezo. É uma simples saudação amigável. Somente temos um vocativo diferente em Mateus 9, 22 quando Jesus se dirige à hemorroíssa chamando-a filha (thigater), o que não era possível ao se dirigir à sua mãe.

NÃO CHEGOU MINHA HORA: A Hora de Jesus é o tempo de sua manifestação como Messias ( Jo 7, 6), tanto como o de sua paixão (Jo 8, 20) ou de sua glorificação pelo Pai (Jo 12,23). Especialmente em Jo 7,6 são seus parentes os que pedem uma manifestação do poder de Jesus. E é agora que sua mãe pede também essa manifestação. Um ato de poder especial, um milagre. O que é confirmado pela escusa de Jesus. Sendo, porém a sua resposta uma negativa, Maria sabe que essa negativa não pode ser absoluta; e por isso deixa nas mãos do Filho a solução do problema. Ela pede para atuar e não admite recusa alguma: Fazei o que ele vos disser. Temos um outro caso da insistência de outra mulher ante a negativa de Jesus. É a sirio-fenícia de Mt 15, 27. Elas sabem que a rejeição inicial pode ser vencida pela insistência feminina, tal e qual vemos na parábola do juiz imoral (Lc 18, 1-5). Um comentário católico afirma que a Virgem Santíssima é tão poderosa em sua intercessão que Deus atenderá todas as petições por mediação de Maria. Por isso, a piedade cristã, com precisão teológica, tem chamado Nossa senhora ONIPOTÊNCIA SUPLICANTE (Grignon de Monfort). À parte estes comentários, podemos muito bem afirmar que a intervenção de Maria foi, neste caso, fundamental para a realização de uma atuação imediata e até sobrenatural de seu Filho. A mãe ordena e o Filho obedece. Essa é a conclusão exata do episódio de Caná.

REAÇÃO DE MARIA: Diz a mãe dEle aos servidores: o que vos disser fazei (5). Dicit mater eius ministris quodcumque dixerit vobis facite.Amãe de Jesus, como boa mãe, conhece perfeitamente o valor da resposta de seu Filho que para nós resulta ambígua, e não duvida de sua obediência [era-lhes submisso de Lc 2, 51] que ela conservava bem na sua memória (Lc idem). Por isso, não duvida em responder com um mandato explícito aos servidores e implícito a seu Filho. Descartada a ideia de que Jesus interviria com um fato extraordinário, Maria conhece o seu Filho e pensa que ele teria uma solução de um jeito ou de outro, ela não sabe como, e por isso pede aos serventes que obedeçam o que lhes ordenar seu Filho, fosse qual fosse a ordem dada. Como diz S. Tomás podemos considerar as palavras de Nossa Senhora como um convite permanente para cada um de nós. É o sentido espiritual ou plenior. O mandato de Maria serve para todos nós como via perfeita da santidade cristã: obedecer Cristo em tudo que Ele mandar.

AS TALHAS: Estavam, porém, ali seis talhas [udriai<5201>=hydriae] de pedra [lythinai <3035> =lapidae] em ordem depositadas [keimenai<2749>= positae] segundo a purificação dos judeus contendo cada, duas ou três metretas [metrëtas<3355>=metretas] (6). Erant autem ibi lapideae hydriae sex positae secundum purificationem Iudaeorum capientes singulae metretas binas vel ternas. Eram seis talhas de pedra para a purificação. As de barro cozido ou cerâmica, deviam ser quebradas caso entrasse nelas alguma impureza (Lv 11, 33). As de pedra, especialmente nomeadas por Moisés na transformação de água em sangue (o que seria impureza, Êx 7,19), não se tornavam impuras e eram as mais apropriadas para a purificação das mãos, segundo a Mishná. A metreta correspondia aproximadamente a 36 litros. Seu nome grego, que também significa “medidor“, deriva-se do verbo metreö, metreo, “medir”, “contar”, calcular”.  Na Septuaginta é a tradução do bato (bath) hebraico. Naquelas bodas, haviam seis talhas de pedra (lithinai udriai) de duas ou três metretas. A primeira menção desta medida é em Daniel 14, 3 quando os babilônios ofereciam 6 metretas diárias ao seu ídolo Bel, que as consumia, junto com um grande número de outras viandas. Tendo o quarto evangelista um alto sentido simbólico, talvez por isso destaca o número seis, das metretas. No AT eram dedicadas ao ídolo Bel, mas serviam de bebida para seus sacerdotes e mulheres. No NT as metretas servem para alegrar umas bodas em que o Filho do verdadeiro Deus está presente e demonstra sua verdadeira personalidade. A capacidade total seria aproximadamente de 500 a 700 litros. João destaca com esse número extraordinário a abundância do dom, pois um dos sinais messiânicos era a abundância de dons, segundo a profecia: o mesmo Javé dará a felicidade e a terra dará seus frutos (Sl 54, 13). As eiras estarão cheias de trigo, as tinas trasbordarão de mosto e de azeite puro (Jl 2, 24). Essa abundância de bens materiais era um símbolo dos bens sobrenaturais que Cristo alcançaria com sua redenção; por isso, João destaca as palavra de Jesus: Vim para que tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10, 10). O número e a capacidade das mesmas indica também que a família não era totalmente pobre, mas, pelo contrário, de classe abastada por não dizer rica.

DEPOSITADAS: É a melhor tradução do grego Keimenai [positae latino]; é a mesma palavra usada para narrar a posição dos panos após a ressurreição. Quando se referia às coisas materiais significava arrumadas, arranjadas em certa ordem. 

PURIFICAÇÃO: Os judeus eram muito estritos com seus ritos de purificação. Lavavam as mãos antes de cada comida e entre cada prato. Primeiro levantavam as mãos e jogavam água de modo que esta corresse até os punhos; Logo, abaixando as mãos de novo jogavam água desde os punhos até a ponta dos dedos. Se alguém não seguia este procedimento se considerava que comia com mãos impuras ( Mt 15, 2 e 20). A purificação dominava a Lei. A sua necessidade contínua procede da consciência de impureza, de indignidade, criada pela mesma Lei. Nestas purificações externas estava baseada toda a ética do AT.

A ORDEM: Diz-lhes Jesus: Enchei as talhas de água. E as encheram até o topo (7).Então lhes diz: Sacai agora e levai ao arquitriclino [architriklinö<755>=architriclino]. E levaram (8). dicit eis Iesus implete hydrias aqua et impleverunt eas usque ad summum.  Et dicit eis Iesus haurite nunc et ferte architriclino et tulerunt. Para não haver dúvidas, sobre o resultado e o líquido que estava nas ânforas, Jesus manda que sejam enchidas até o bocal das mesmas. Todos podiam ver que era água o líquido que as transbordava.

O MESTRE-SALA: O texto grego emprega uma palavra (arkhitriklinos, =presidente da mesa do banquete), que significa o escravo encarregado de organizar um banquete. Daí a tradução de mestre-sala ou mordomo. Este não era um mero diretor da ordem e distribuição dos pratos ou viandas a serem servidos, mas também uma espécie de ministro sacro, pois os judeus tinham prescritas seis ou sete bênçãos sobre os alimentos e especialmente uma da copa de vinho a ser servida em primeiro lugar antes que o resto dos comensais o provassem. Feita a bênção, o mestre-sala comprovou que o vinho novo era de superior qualidade. Isso indica que a cor do mesmo era possivelmente branca, porque os serventes pensavam ser água o que serviam ao chefe de cerimônias, e que no instante de despejar o líquido na copa do mestre-sala, é quando apareceu a transformação efetuada. Logicamente seriam os serventes os que notificariam a todos o que realmente tinha acontecido. Cada ânfora tinha uma capacidade um pouco menor de 100 litros. O vinho tinha cor branca ou era tinto? Não sabemos. Mas quem deu a última palavra foi o mestre-sala: Era o melhor vinho que ele tinha experimentado na festa.

A TRANSFORMAÇÃO: Como degustasse o arquitriclino a água feita vinho, e como não tinha conhecido de onde é – porém os serventes tinham conhecimento, os que tinham sacado a água – o arquiticlino chama o esposo(9), e diz-lhe: Todo homem primeiro põe o bom vinho e quando estão embriagados então servem o pior; tu tens reservado o bom vinho até agora(10). Ut autem gustavit architriclinus aquam vinum factam et non sciebat unde esset ministri autem sciebant qui haurierant aquam vocat sponsum architriclinus, Et dicit ei omnis homo primum bonum vinum ponit et cum inebriati fuerint tunc id quod deterius est tu servasti bonum vinum usque adhuc. O parêntese sobre os serventes indica que não houve mágica nem truco algum, pois os serventes sabiam bem qual era a procedência do vinho. Jesus não fez nada e tudo foi feito sob suas ordens pelos serventes que eram as melhores testemunhas. Até que o arquitriclino degustasse, ninguém sabia o que era o que estava sendo servido. A surpresa do mordomo foi também a surpresa dos serventes. E foi tal o gosto do vinho que o mordomo viu-se obrigado a repreender o noivo, que também nada sabia da questão. Como no caso do cego de nascença, João não deixa resquício a qualquer dúvida possível e apresenta o milagre com todos os requisitos para deixar claro que não houve artimanha ou ardil nessa matéria. Este, como o milagre da multiplicação,  é uma garantia de que as palavras da Eucaristia são de verdade uma transformação real e não simbólica.

COMENTÁRIO: Este, o princípio dos sinais [sëmeiön<4592>=signorum], Jesus fez em Caná da Galileia e manifestou sua glória e creram nele os seus discípulos(11). Hoc fecit initium signorum Iesus in Cana Galilaeae et manifestavit gloriam suam et crediderunt in eum discipuli eius.

SINAL: Para João, o milagre mais do que um fato sobrenatural é um sinal de que o poder de Jesus é um poder divino e, portanto que obrando dessa forma está mostrando sua glória, isto é, seu divino poder. Daí que logicamente os discípulos vissem Jesus como alguém unido intimamente à divindade. Um enviado de Deus. E isso significa fé na sua obra e na sua palavra. Jesus manifestou sua glória [doxa=majestade própria da divindade], mostrando seu poder maravilhoso que demonstrava sua missão como tendo origem divina. Por isso os discípulos, cinco deles, creram nele como representante da autoridade de Deus na terra.

PISTAS: 1) Jesus garante com sua presença não só o matrimônio (detestado pelos encratistas). Esta heresia acentua o pessimismo quanto à queda do homem, despreza a matéria, tem o matrimônio como fornicação e prega a abstinência da carne e do vinho. Seu rigorismo na observância desta abstinência levou-a a substituir o vinho pela água na celebração da eucaristia. Esse costume levou seus seguidores a receberem o apelido de aquáticos. Mas também a alegre festa que o culmina (contra os ebionitas antigos e muitos evangélicos modernos). Os ebionitas de ebion pobre, eram os primeiros hereges que afirmavam que Jesus não derrogou o AT e, portanto todas as normas dadas por Moisés e a tradição eram obrigatórias.  As festas, especialmente as familiares e comemorativas, são como a delícia e o sabor da comida e da bebida, coisas que Deus quer e aprova, mesmo sabendo que pode existir uma certa falta de temperança por parte dos comensais.

2) O vinho, tão difamado por certas seitas modernas que se dizem cristãs, aqui serve como critério último de uma transformação, pois é a causa final, a mais importante dentro do plano de realização de um projeto. O vinho que significava alegria e convivência, se transformará em matéria escolhida, na qual a vida de Cristo dar-se-nos-á como bebida para alimento e união com o Senhor.

3) A intercessão de Maria: ela sabe que seu Filho pode transformar uma situação de vergonha e desespero em estado de alegria e paz. Ela é a intercessora por excelência. Sua súplica é de um poder inigualável, pois mais do que um apelo, é um mandato à misericórdia de Jesus, o Filho. Esta solicitação está sempre presente diante das dificuldades humanas. Constitui um confronto, aparentemente estranho à vontade de seu Filho, porque reflete a vontade maternal de uma mãe com dois filhos entre si opostos. Ela escolhe o mais débil para, como diz um comentarista, ser a mulher humilde que sentiu no seu ombro a mão de Deus, Senhor do impossível.




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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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