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GOTAS DE REFLEXÃO - EVANGELHO DOMINICAL

Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com
. Evangelho de 14/03/2010 - IV Domingo da Quaresma
. Evangelho de 07/03/2010 - III Domingo da Quaresma


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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14.03.2010
IV Domingo da Quaresma - ANO C - Roxo

__ “UM PAI ESPERA A VOLTA DO FILHO” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! À luz da fé, o pecado do homem surge sobretudo como uma recusa de amor, um afastamento da corrente do amor que Deus é a fonte. Mas Deus se manifesta infinitamente maior do que a recusa que lhe opomos; vai ao encontro do homem mesmo sem seu pecado; perdoando, vence o ódio e dá início à história da misericórdia. Entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (Js 5,9a.10-12): - "Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito"

SALMO RESPONSORIAL (Sl 33): - "Provai e vede quão suave é o Senhor!"

SEGUNDA LEITURA (2Cor 5,17-21): - "Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo."

EVANGELHO (Lc 15,1-3.11-32): - "Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho" ATENÇÃO: Esta leitura é muito extensa e caso não consiga ler na tela, por favor, pegue a Bíblia para a leitura, ou então acesse a Bíblia online pelo link abaixo.



- “Uma Parábola que dá o que pensar...
    Reflexão do Evangelho por Diácono José da Cruz

Não sei se o Filho Pródigo existiu, não estou negando o evangelho que Lucas escreveu, mas o que fica muito evidente é que a intenção do autor não é contar a história do Filho que foi embora e depois se arrependeu, mesmo porque, tal arrependimento só bateu no coração, na hora em que a fome bateu no estômago, talvez se ele  tivesse aplicado bem a herança que o pai lhe concedeu, teria conseguido custear suas gandaias e não iria passar privação, e daí, gosto de fazer uma pergunta muito boa: nessa situação, será que o Filho ingrato se arrependeria?

Longe de mim denegrir a figura belíssima do Filho que, caindo em si , volta à casa do Pai, mesmo porque, essa é a história de cada um de nós, quando  damos nossas “escapadas” rápidas da casa do Pai, ou as vezes até mesmo, quando fazemos as malas e caímos no mundo, optando em viver a nossa vida e a nossa liberdade, longe desse Deus intrometido.

Mas o que de fato Lucas queria, era contar a  história de um Pai, extremamente bondoso, que acolhe o Filho encardido em suas misérias, com abraços e beijos. Por acaso não é repugnante a idéia de abraçar e beijar um andarilho, que acaba de chegar à nossa casa, sujo da poeira do caminho, barba imunda, roupa em farrapos e sem banho há meses, quem sabe... Talvez não nos recusássemos a isso, mas antes, com o pretexto de fazer com ele uma caridade, o conduziríamos ao banheiro, para um bom banho, fazer a barba, colocar uma roupinha melhor, quem sabe até um perfuminho... Daí o abraço e o beijo não seria tão difícil , não é?

Mas o texto só fala que, mal o rapaz apontou na curva do caminho, o Pai que o esperava, correu ao seu encontro, não o deixou nem proferir o discurso ensaiado, abraçou-o e cobriu-o de beijos... Só depois é que lhe recupera a dignidade, dando-lhe a capa, a sandália e o anel.  Esse Deus que nos aceita e nos ama, do jeito que a gente é, torna-se escândalo diante do mesquinho raciocínio humano da religião do merecimento, que nasceu no judaísmo, e hoje ainda está presente no ambiente religioso.

Em nossa comunidade conversei com o “Zélão”, que tem dois filhos jovens, e perguntei o que ele faria, em lugar do Pai, na parábola do Filho Pródigo, no momento em que o garoto, que pelo jeito tinha o nariz empinado, pediu a grana para “cair no mundão”...   “Bão, se ele dissesse o que iria fazer com o dinheiro que lhe cabia, digamos que fosse para fazer uma Faculdade, não teria como negar, acho que o Pai dessa parábola, deveria questionar o Filho a esse respeito, porque dar dinheiro para um filho descabeçado, eu acho que não é uma coisa muito boa, porque pense bem, e se acontece alguma desgraça com aquele filho, no tempo em que ele estava lá na “gandaia”, o Pai seria responsável, por ter cedido ao capricho do filho”

A opinião do meu irmão de comunidade  reflete uma realidade que marca muitas vezes a nossa relação com Deus, se o rapaz fosse um bom Filho, que iria partir para gastar o dinheiro da herança, investindo em estudos que lhe garantisse uma bela carreira, então ele seria merecedor, como há muitos filhos “certinhos” que são custeados pelo pai nos estudos.  Pois a parábola é revolucionária nesse sentido, ao quebrar com a lógica da retribuição... que havia no Judaísmo.

A Vera, catequista que demonstra ter maturidade na fé, chamou-nos a atenção para algo muito interessante: “O Pai respeitou a liberdade do Filho, dando-lhe a parte que lhe cabia na herança, e permitiu que ele partisse...” De fato essa é uma observação importante, a parte que nos toca na herança, é o dom da vida e da liberdade, que Deus Pai, extremamente misericordioso, nos concede, e que se resume na seguinte afirmação “A vida é sua, faça dela o que quiser...”. Assim foi com o filho pródigo, assim é com cada ser humano, independente do credo religioso, se é ateu ou é cristão, se é crente fervoroso ou não é de nada. Deus não nega a Herança da Vida para ninguém...

Está tudo muito bem, está tudo muito bom, mas o leitor poderá perguntar, “Mas e daí, e quando usamos mal a nossa liberdade, como o moço sem juízo, e torramos a herança da vida em futilidades, e administramos mal, o que o Pai Bondoso, nos deu?”   Boa pergunta, é aqui que a parábola atinge o seu ápice: Contrariando a religião do merecimento, onde “aqui se faz, aqui se paga”, e o sujeito terá de enfrentar a ira Divina, pagando por seus atos pecaminosos, o desfecho deixa os ouvintes de Jesus, de queixo caído: o Pai, não só perdoou o pecado do Filho, mas o esperava, acolheu-o com carinho e alegria, dispensou o discurso ensaiado, e o tratou com extrema misericórdia, fazendo até uma grande festa, com churrasco, bebida, música e um bailão que deve ter “rolado” até as tantas.

Daí entra em cena o Filho mais velho e o seu “azedume”, “Eu mereço muito mais do que esse “Vida Torta”, cumpro com todas as minhas obrigações há muito tempo, nunca “pisei na bola”, sou um exemplo de vida na comunidade, mas parece que as “maravilhas de Deus” só acontece com gente desqualificada, uma pessoa que nunca pisou na igreja, que não tem moral, que é conhecido como pecador...

Será que Deus não tem censo de justiça? Será que ele não percebe que essas pessoas não merecem? E será que ele não vê que sou um cristão justo, que faço tudo certinho...”

Bom, paramos a reflexão por aqui, nós que temos o perfil de “pessoa religiosa”, independente da Igreja onde professamos e celebramos a nossa fé, talvez não caímos na desventura do Filho Pródigo, mas será que na nossa Igreja, não temos a “carinha” e o “jeitinho” do Filho mais velho, extremamente rigoroso e moralista no julgamento do nosso próximo? E nesse caso, o mais triste de toda essa história: quem tem essa conduta, nunca sentirá a alegria de sentir-se amado e querido por Deus. É uma religião muito triste, que nada tem a ver com o Cristianismo!

José da Cruz é diácono permanente da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim - e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Pe. Françoá Rodrigues – IV Domingo da Quaresma (Ano C)

Alegria da misericórdia

Ao ler mais uma vez a parábola do filho pródigo, eu pensava que é verdadeiramente justa a ira de Deus para com os pecadores e que é mais fácil entender a justiça que a misericórdia. Que o leitor não se escandalize com este padre! Vou tentar me explicar. Você assistiu ao filme “Seqüestro do metrô 123”? É um filme de ação dirigido por Tony Scott: quatro homens seqüestram um metrô e um deles à cabeça vai negociando com as autoridades uma quantidade de dinheiro bastante considerável para não continuar matando os reféns. O seqüestrador principal, que parece um autêntico psicopata e sem dúvida um desequilibrado mental, ao negociar por telefone encontra num dos controladores do metrô uma pessoa simpática com quem conversar. Neste diálogo há um momento em que o seqüestrador de alguma maneira acaba professando-se católico. Nesse interessante diálogo, o controlador, ao outro lado da linha, lhe diz que um católico não pode matar, muito menos a pessoas inocentes como aquelas que estavam no metrô, seus reféns. O seqüestrador lhe diz uma frase rotunda, mas verdadeira: “o que o católico sabe é que ninguém é inocente”.

Excetuando Jesus e Nossa Senhora, ninguém é inocente! Por outro lado, é lógico: ao culpado se aplica uma pena! Isso não é muito difícil de entender. Outro exemplo: já pensou se um dia, num determinado momento, os órgãos da justiça e os policiais, num arrebato de misericórdia, resolvessem soltar todos os presos, muito deles ladrões e assassinos? Tenho certeza que a outra parte da sociedade se levantaria indignada entre protestos e diria que a justiça ficou louca. Produzir-se-ia um medo geral e nem quereríamos sair às ruas. Ficaríamos com a sensação de que a qualquer momento alguém poderia roubar-nos ou matar-nos. Não é muito mais fácil compreender que os presos fiquem na cadeia pagando o que devem? Efetivamente, a justiça é mais compreensível que a misericórdia!

O capítulo quinze do Evangelho segundo São Lucas contêm três parábolas chamadas “da misericórdia”: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido. Tudo perdido! Mas, se invertemos o quadro temos o bom pastor que busca a ovelha, a boa mulher que busca a sua moeda e o bom pai que espera e ama o seu filho pródigo. Tanto o pastor quanto a mulher têm umas atitudes que não são nada comuns, o mesmo diga-se do pai do filho pródigo. Nem naqueles tempos nem hoje em dia se atuaria dessa maneira! Pense comigo: se você fosse um pastor e tivesse cem ovelhas, delas perdesse somente uma, será que deixaria as noventa nove sozinhas, com perigo de perderem-se, para procurar somente aquela desgarrada? Será que é lógico deixar noventa e nove ovelhas sozinhas e procurar somente uma? Eu pelo menos deixaria a pobre ovelha pra lá, não correria o risco de perder noventa e nove ovelhinhas por causa de uma ovelha boba. E se você tivesse dez moedas e perdesse uma, faria como aquela mulher da parábola: acenderia a luz, varreria a casa colocando-a quase de cabeça para baixo para encontrar a única moedinha perdida? Como se não bastasse: convidaria os amigos para dar uma notícia tão efêmera como essa do encontro de uma mísera moeda? Eu pelo menos não atuaria assim!

Por último, no texto do Evangelho de hoje aparece um filho que pede a parte da herança, gasta com prostitutas e depois se apresenta ao seu pai como culpado. O pai, ao encontrá-lo, o festeja, o presenteia e faz uma festa para ele… Esse pai está louco! No fundo, dá vontade de ver esse filho malandro levar uma boa surra do pai. Não sei se você estará de acordo comigo, querido leitor, mas não é difícil entender que um bom pai corrija com fortaleza um erro cometido por um filho seu. Realmente, é mais compreensível que uma só ovelha se perda que correr o risco de perder as noventa e nove; é mais lógico deixar uma moeda pra lá que revirar a casa por uma só moedinha e depois – e isso é o cúmulo – convidar os amigos, fazer uma festa e gastar mais do que vale a moeda encontrada; é mais fácil entender que o pai desse uma bronca naquele filho sem-vergonha. Enfim, é mais fácil compreender a justiça que a misericórdia!

No entanto, a lógica do Evangelho é outra! Sem contrapor a justiça à misericórdia, a parábola nos apresenta um pai que não é o comum dos pais desta terra, mas o pai só pode ser Deus. Alguma vez escutei e disse aquela frase de que “Deus perdoa tudo, o homem perdoa muitas vezes e a natureza não perdoa nunca”. Hoje eu gostaria de defender a primeira parte: Deus perdoa tudo! Isso sim é motivo de grande alegria! Ele é o nosso Pai, cheio de amor para conosco. Nós, culpados e pecadores, cheios de boas intenções e, também, cheios intenções torcidas e más ações, somos os queridos de Deus. Já está justificada a nossa alegria para todo o dia de hoje: Deus é Pai! Eu sou seu filho! Deus é muito bom e os sacerdotes no Sacramento da Penitência têm o Coração de Deus e, por isso, compreendem sempre. Não tenha medo!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – IV Domingo da Quaresma - Ano C

feito por Pe Ignácio, dos padres escolápios (extraído do site http://www.presbíteros.com.br)

EPÍSTOLA
(2 Cor 5, 17-21)

NOVA CRIATURA: Demodo que se alguém em Cristo (é) nova criatura, as antigas coisas passaram: eis que nasceram todas novas (17). Si qua ergo in Christo nova creatura vetera transierunt ecce facta sunt nova.É um texto que deve ser lido após os versículos anteriores: Cristo morreu por todos a fim de que os vivos não vivam para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles (15). Como lógica consequência, somos uma nova criatura. E conhecemos Cristo, não de modo humano, mas através do Espírito que temos recebido do Senhor, como penhor (5). Paulo fala, pois de uma nova ordem de criação em que Cristo é tudo em todos (Cl 3, 11), já que todo cristão é em Cristo nova criatura (17). CRIATURA: Apalavra grega KTISIS [2937>=creatura] significa primeiramente o ato de fundar ou edificar; no caso, criação (Mc 10, 6). Daí o ato de criar. Substitui Ktismas<2938> que é o produto desse ato de fundar ou iniciar, ou seja, criatura (Mc 19,15). A mesma coisa acontece nas epístolas paulinas: Como criação, temos Rm 1, 20: desde a criação do mundo. Como criatura, Rm 1, 25: adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador. No versículo atual, falta o verbo ser, próprio de um semitismo, e como o sujeito é tis [<5100>=qua] ou alguém, um indivíduo, teremos que o significado de Ktisis deve ser criatura, como, vemos em Rm 8, 39: nem a altura nem a profundidade nem outra criatura[=tis ktisis etera]. É o homem novo criado segundo Deus, na justiça e na santidade que vêm da verdade (Ef 4, 24). PASSARAM: O sentido do verbo Parerchomai [<3928>=transire] significa passar ao longo (Mt 20, 30) e, em sentido figurado, esquecer, suprimir, ignorar, não tomar conhecimento, omitir, deixar de existir. É neste sentido, que para Paulo as velhas coisas, ou seja, o AT deixa de existir diante da presença de Cristo. Também o Senhor diz: Todo doutor no reino dos céus é semelhante a um pai de famílias que tira de seu tesouro coisas novas e velhas(Mt 13, 52). Para Paulo, as coisas velhas são as que vêm como tradição de Moisés, especialmente a Torah com seu mandato de circuncisão. NOVAS TODAS: Parece que é a mesma linguagem que emprega o Apocalipse em 21, 5: Eis que faço novas todas as coisas. Com o rolar da História, tudo envelhece, como sucede com a biologia humana, e só podemos iniciar para renovar. No versículo posterior explicará Paulo como Deus renovou a velha religião mosaica.

Pois todas da parte de Deus (vêm), que nos reconciliou consigo por meio de Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação(18). Omnia autem ex Deo qui reconciliavit nos sibi per Christum et dedit nobis ministerium reconciliationis. PARTE DE DEUS: Deus é o principal autor dessa renovação que essencialmente, como temos visto em Ef 4, 24, provêm da fidelidade [aletheia= veritas] divina que nos reforma por meio da justiça [dikaiosynë=justiça] e santidade [osietës=sanctitas]. Esse trabalho é feito através da RECONCILIAÇÃO [katallagës<2643>=reconciliatio]. O significado de Katallagës é câmbio (de moedas); o exchange dos ingleses. Também é um reajustamento de contas. No sentido cristão, Deus deixou de lado sua ira contra os pecadores e efetuou um perdão de todas as dívidas [pecados], efetuado de uma vez por Cristo em sua cruz (Rm 5, 10). A palavra sai 4 vezes no NT e unicamente em Paulo. Além das duas vezes nesta perícope, temos Rm 5, 11: Por meio dele [Cristo] temos recebido a reconciliação e Rm 11, 15: O afastamento deles [dos judeus] foi a reconciliação do mundo. Do estado de inimizade [exthra], pois anulando em seu próprio corpo a Lei, seus mandatos e decretos, Ele formou uma nova humanidade, estabelecendo a paz (Ef 2, 15). Quer dizer, que por meio do sacrifício do seu corpo, Cristo estabeleceu uma nova religião [ligação] com Deus em que não eram necessárias a Torah [Lei escrita] nem a Mishná [lei falada]. Reconciliar é também pagar a dívida que é uma satisfação; e no caso, como é de pecados, podemos chamar de expiação. Como no AT a expiação pelo pecado se fazia através de um sacrifício [kipper] mediante a morte de uma vítima, tendo o sangue derramado, como símbolo de sua vida em oferenda. O pecado contamina o homem e interrompe sua amizade com Deus. Como a restauração [reconciliação] depende de Deus, o ofendido, este demanda um castigo pela ofensa. Devia ser a morte do ofensor, pois tal é justo castigo do pecado como rebelião contra o Senhor {não comerás..mas o dia em que dela comerdes, tua morte estará marcada (Gn 2, 17)}. Assim foi o castigo dos anjos rebeldes, cuja vontade de retificar [arrependimento] é impossível por natureza, ao escolher o mal como forma de vida. No homem, imperfeito no conhecimento e débil na vontade, existe a possibilidade  de retratação e arrependimento. Por isso, Deus que é amor, oferece ao pecador um meio de reparação que é o sacrifício, no qual o homem demonstra sua culpa e oferece uma expiação: uma morte no lugar de sua própria morte. As oferendas do AT eram imperfeitas e não perdoavam o pecado em si mesmas. Porém, o Filho do Homem ofereceu-se a ser vítima perfeita, como cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1, 36). O pagamento é considerado por Paulo como a paga devida para libertar um escravo. No caso, esta paga é o Lytron [<3083>=redemptio]ou Apolytrösis [<629>=redemptio], cuja tradução é redenção ou libertação. Nota: como vemos, a libertação bíblica nada tem a ver com a Teologia da Libertação. MINISTÉRIO DA RECONCILAÇÃO: o homem não reconcilia, mas forma parte da reconciliação como ministro, ou servidor da mesma, de duas maneiras: 1) Como pregador do evangelho, que Paulo chama evangelho da paz. Paz com Deus e paz entre os dois povos inimigos: judeus e gentios, ou gregos, como Paulo gosta de dizer (Ef 2, 14); porque ambos formam uma nova família, a de Deus (Ef 5, 18). 2) Como delegado para o perdão, por meio especialmente do sacramento da penitência ou reconciliação, em que os poderes foram recebidos como enviado através da efusão do Espírito que é enviado por Jesus (Jo 20, 21-22) em pleno poder após sua ressurreição (Mt 28, 18). Deus escolheu o homem especial, unido a sua divindade, Cristo Jesus, para obter por seu sacrifício a apolytrosis do pecado do mundo; e este escolheu, entre seus apóstolos e os sucessores, os homens para a reconciliação e, fora disso, não existe reconciliação [katallagë] verdadeira porque não é questão só de arrependimento, mas de aceitação do mesmo por Deus, através do Filho e dos filhos que a este último representam. Com esta reflexão, podemos ver a parcialidade dos que afirmam que basta a contrição individual para que o pecado seja perdoado. Precisa-se de um ministro da reconciliação como meio ordinário. E, portanto, Deus não perdoa se a igreja não intervêm e a Igreja não perdoa se a ela não é pedido o perdão.

O RECONCILIADOR: Como Deus era em Cristo o reconciliador do mundo consigo, não imputando-lhes as suas transgressões e pondo em nós a palavra da reconciliação (19). Quoniam quidem Deus erat in Christo mundum reconcilians sibi non reputans illis delicta ipsorum et posuit in nobis verbum reconciliationis. Paulo continua a explicação do que é a verdadeira reconciliação, que provêm como causa efetiva do próprio Deus e não do homem; por isso fala de que a reconciliação estava em Cristo, o verdadeiro reconciliador do mundo com Deus. Este título de RECONCILIADOR [Katallassön<2644>=reconcilians] é próprio de Cristo, ou Jesus ressuscitado. Pois se Cristo tem o significado de Messias  [ungido], essa unção é definitiva e total em sua atuação entre os homens após o envio do Espírito como afirma João (Jo 7, 39). Em Cristo, Deus condensa o esquema, o autor, os sujeitos, o método e os meios da reconciliação. Como afirmavam os anjos aos pastores, com Jesus nasceu um Salvador, o Cristo Senhor (Lc 2, 11); e, portanto, a paz, produto da reconciliação, entrava de cheio nos planos divinos, que aceitavam os homens como queridos por sua benevolência (Lc 2, 14). Deus amou tanto o  mundo que entregou seu Filho  Único para que todo homem que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16). É Cristo quem, em sua epístola, declara como vítima de expiação por nossos pecados e não somente pelos nossos [de Israel], mas também pelos do mundo inteiro (1Jo 2, 2). CONSIGO: Esta palavra responde ao grego Eautö [=sibi] que claramente indica quem foi o ofendido [Deus] e quais os  ofensores [os homens]; sendo o pecado, ou desobediência aos mandatos divinos, o motivo e causa da ofensa, pois todos pecaram (Rm 3, 23). Nota: Como comentário extra, fora do texto atual, a única maneira do homem obter algum mérito para que seus pecados sejam perdoados é perdoar: perdoa nossas ofensas assim como nós perdoamos nossos ofensores (Mt 6, 12). Palavras que serão comentadas expressamente pelo Senhor : se perdoardes, vosso Pai celeste também vos perdoará mas se não perdoardes também vosso Pai não vos perdoará (Mt 6,  14). Aqui temos a condição exigida ao homem para que a reconciliação seja cumprida em sua perfeição. A PALAVRA DA RECONCILIAÇÃO: Essapalavra não é unicamente o anúncio do evangelho, mas a palavra de perdão tal e como oferece a Igreja, em nome de Cristo, no sacramento da reconciliação. Com a sua morte, o pecado do mundo [em termos gerais e absolutos] é perdoado. Com o sacramento, o pecado individual entra dentro dessa reconciliação geral. De modo que todo pecado pode ser perdoado a não ser o cometido contra o Espírito Santo, que é a Pessoa atualmente dirigindo a providência ou economia divina. O Espírito deve ser quem anima nosso ser transformando-o de natural [psikicos] em espiritual (1 Cor 15, 44) para que seja possível a ressurreição. Se a Ele, ao Espírito, não queremos receber, como pode habitar em nós para nos tornar como diz Paulo, justos e santos na verdade?(Ef 4, 24).

EMBAIXADORES: Por meio de Cristo, pois, somos embaixadores: como chamados de Deus, por nosso meio, os rogamos em lugar de Cristo: reconciliai-vos com Deus (20). Pro Christo ergo legationem fungimur tamquam Deo exhortante per nos obsecramus pro Christo reconciliamini Deo. EM LUGAR DE:  Yper [<5228>=pro] tem o significado de 1)preposição de lugar como acima sobre através. Não é nosso caso, pois não ocorre desta forma no NT. 2) como por, a causa de. Orai pelos que vos caluniam (Lc 6, 28) 3) em lugar de, em vez de como em 1Cor 15, 29: batizados en lugar [yper] dos mortos. Ou Cristo morreu em lugar de todos [si unus pro omnibus mortuus est, ergo omnes mortui sunt] (2 Cor 5, 15). Qual delas é a melhor tradução? Creio que escolher a 3ª é uma escolha que não está fora do pensamento fundamental de Paulo nesta períciope. Máxime que Paulo usa o dia [por meio de] no mesmo parágrafo por nosso meio. Logo a tradução seria em lugar de Cristo ou fazendo as vezes de Cristo somos embaixadores porque estes estão em lugar do Senhor ou rei que os manda. Paulo fala de EMBAIXADORES [presbeuö<4243>=legationem fungere] em plural o que indica que existem vários homens que têm esse ministério, e não é próprio unicamente de Paulo. O embaixador está no lugar do rei com plenos poderes para estabelecer a paz ou a guerra, a reconciliação neste caso. Mais ainda repete de novo Yper Xristou como sendo a voz de Cristo que Paulo seu embaixador usa como procuração  e mandato: Reconciliai-vos com Deus.

A TROCA: Pois àquele, que não conheceu pecado, por nossa causa, fê-lo pecado para nos tornarmos justiça de Deus nele (21). Eum qui non noverat peccatum pro nobis peccatum fecit ut nos efficeremur iustitia Dei in ipso. Para poder castigar o próprio Filho, inocente e sem culpa alguma,  Deus o FEZ PECADO: [Amartian epoiësen]. A frase é célebre e propriamente significa que Deus viu nele o pecado de todos os homens, ou o considerou como se todo ele fosse um proscrito, totalmente cheio de pecado, de modo que em Cristo só viu pecado e assim como nEle viu, no batismo, o Filho amado em quem encontro meu agrado (Mt 3, 17), pois cumpria toda justiça ou desejo do Pai, agora só vê nEle a iniquidade e se afasta de tal modo que Cristo sente esse abandono e deve exclamar Meu Deus por que me tens abandonado?(Mt 27, 40). Deus castigou o justo para perdoar o pecador. Assim a justiça encontrou em Cristo o pecado e nos homens a figura do seu Filho como justificados pelo sacrifício da cruz. Isso é o que Paulo pretende dizer com a frase nos tornamos JUSTIÇA nEle [em Cristo]: Para nos tornarmos Justiça de Deus nEle, ou seja, sem pecado por meio de Cristo, ou melhor, porque Cristo está no nosso lugar ante Deus.

EVANGELHO

(Lc 15, 1-3; 11-32)

INTRODUÇÃO: Os três primeiros versículos constituem uma introdução para apontar os interlocutores de Jesus nas três parábolas que ele pronunciou: a ovelha tresmalhada, a moeda  perdida, e o filho pródigo. Das três, hoje encontramos na leitura evangélica a última delas. Em todas encontramos como base  a estima e o amor pelo extraviado do dono dos objetos, ou do pai para com o filho. Tudo natural e normal, dentro dos costumes humanos mais puros e simples de todos os tempos. Jesus não identifica o pecador com o malvado, mas com o desgarrado e perdido que é preciso buscar e acolher e em cujo encontro todos devem se orgulhar e regozijar. Pelo que respeita à parábola de hoje, há um substrato que resultava claro na época e que hoje dificilmente podemos avaliar: os dois filhos representam respectivamente as duas facções em que dividiam os antigos a humanidade: os justos perante a Lei, como eram os bons fariseus, e os pecadores entre os quais necessariamente se incluíam os gentios e parte do ham haaretz [povo da terra] que não mostrava muito interesse nos detalhes da Lei. Autores há que afirmam ser esta parábola o evangelho do evangelho. Explica a atitude verdadeira de Cristo que não é outra que a do próprio Deus, como Pai, não unicamente dos bons, mas também, sem distinção, dos que nós chamamos maus. A infinita bondade do Pai Deus [pai antes do que Deus] explica a existência do mal porque encontra no perdão maior alegria do que pode obter da conduta dos poucos ou muitos bons que não exigiriam sua misericórdia. Esta e não outra é a conclusão real da parábola, embora tenhamos uma outra que reflete a mesquinharia do homem: a inveja e o desgosto provocado no homem justo, ao se ver, no ato do perdão do pecador, como preterido e humilhado.

A AUDIÊNCIA: Estavam, pois, se  aproximando a Ele todos os publicanos e os pecadores para ouvi-lo (1). Erant autem adpropinquantes ei publicani et peccatores ut audirent illum. Sabemos quem são os PUBLICANOS, dos quais temos falado no III Domingo do advento C. Também em outro comentário temos explicado o significado em Lucas especialmente da palavra PECADOR [amartolos, peccator], que preferimos  traduzir como classe, por gentios no seu plural. Autores evangélicos traduzem por descridos. Nisso vemos duas coisas importantes: 1ª, Que amartolos, sendo um nome não pode ser traduzido por pecador, um adjetivo, como é no caso de Pedro ao se declarar ¨Homem Pecador¨,(=aner amartolos eimi em Lc 5, 8). 2ª, Que os evangelistas identificam o nome amartolos, ou em plural amartoloi, com os gentios como vemos em Lc 27, 4, quando Jesus declara que será entregue nas mãos dos pecadores o que é confirmado por Mt 26, 45 e Mc 14, 41. Vamos acrescentar mais um dado final: Paulo falando de si mesmo dirá aos gálatas: Nós somos por natureza judeus e não pecadores, dos gentios (Gl 2,15). De fato, os doutores não criticam Jesus por estar com publicanos, que eram os máximos pecadores entre os judeus; mas por tratar e especialmente comer com os gentios ou pagãos, fato que a Mishná proibia. O amartolos não era, pois o Hattá do AT que sai 18 vezes e significava um pecador contumaz que é sujeito ao castigo por causa de suas práticas (Nm 32, 14); mas era o Harel, o incircunciso. No NT a palavra incircunciso sai pela primeira vez em At 11, em sentido próprio. Pedro tinha entrado na casa de Cornélio, o centurião, e foi censurado, pois entraste na casa de homens que tem prepúcio e comeste com eles¨. Em sentido figurado, o encontramos em At 7, 51, quando Estêvão recrimina os membros do Grande Sinédrio de Jerusalém e os chama de incircuncisos de coração e ouvidos. Paulo fala da circuncisão (peritomé) como condição que alguns punham para entrar no cristianismo, e da incircuncisão (akrobystia). Como amostra temos Ef 2,11: ¨Acordai-vos que vós éreis antes, as nações na carne, os chamados prepúcio por aqueles que se intitulavam circuncisão na carne, por mãos humanas¨. Estas palavras (peritomé e akrobystia) não saem nos evangelhos. Só a palavra éthnos (=raça, povo) e em plural ta éthne significando as nações fora do judaísmo. Daí que nos vejamos inclinados a traduzir amartolos por pagão ou idólatra. Assim entenderemos melhor a acerba crítica dos fariseus e doutores contra Jesus por comer com pagãos. OS GENTIOS: A razão de se separar dos gentios ou idólatras, era dupla: evitar qualquer culto idolátrico e desviar-se de impurezas no trato com os mesmos. 1°) Do primeiro caso, temos a proibição de vinho, vinagre de vinho, vasos de barro, especialmente os chamados de Adriano, e peles com buraco no coração. Também eram proibidos,  segundo a Mishná, no tratado de Aborá Sadá (idolatria), os alimentos salgados em sal, e os queijos, especialmente da Bitínia. As razões eram as libações sagradas, às quais os vinhos eram submetidos. Para se ter uma ideia, também os judeus tinham suas libações em que o vinho era oferecido, agitando-o em cruz sobre o altar, primeiro na horizontal e logo na vertical. O vinagre, que antes era vinho, tinha logicamente sido oferecido aos deuses ou penates dentro das próprias casas. Os vasos de barro porque estes podiam ser contaminados pelos líquidos, e estava determinado que fossem quebrados, o que logicamente não faziam os gentios. Já se fossem de pedra, isso não acontecia, e por isso as vasilhas para a purificação eram de pedra (Jo 2,6). Os vasos de Adriano, derivados deste imperador por talvez terem seu nome e sua imagem. Peles com buraco no coração porque eram produtos de um sacrifício em que o coração era retirado antes de morrer o animal. E os queijos, porque acostumavam usar leite coalhado de animais mortos. Também nas casas dos gentios se encontravam deuses penates no mínimo, o que proibia a entrada para um judeu como no caso das asherás, árvores em cuja base estava o ídolo correspondente, impedindo de se assentar na sua sombra. 2°) No segundo caso, temos as impurezas. As casas dos gentios eram impuras. Quanto tempo deve ter habitado o gentio para ser necessária a prescrição? Quarenta dias (indica uma relação com o fluxo menstrual). As mais importantes entre as impurezas eram as procedentes de mortos e de sangue ou ejaculações como blenorragia ou simples masturbação. Logo são os alimentos. Dentre as primeiras temos a regra das mulheres, que se eram gentias não observavam os períodos de menstruação. O pus dos doentes e os esputos também entravam entre os materiais que acarretavam impurezas, de modo que, como exemplo, citamos a proibição de transitar por uma rua em que houvesse mulheres imbecis (que não entendiam a impureza de sua saliva no tempo de menstruação), samaritanas, ou pagãs. Todos os esputos na cidade serão impuros (toharoth). Se considerava uma casa impura quando entrava nela um publicano, um gentil ou uma mulher (esta por causa da menstruação). Os alimentos: Sabemos como determinados alimentos eram também impuros como era a carne de porco. RESULTADO: Os fariseus tinham razão ao criticar Jesus, pois, segundo a Mishná, era praticamente uma imoralidade semelhante trato com os gentios.

FARISEUS E GRAMÁTICOS: E resmungavam os fariseus e os escribas[grammateis] dizendo que este recebe pecadores e come com eles (2). FARISEU é o nome dado a um grupo de judeus devotos da Torá, surgidos no século 2 a.C. A palavra Fariseu provém do grego pharisaioi, que é umatransliteração do aramaico perishaya que por sua vez corresponde ao hebraico perushim, provavelmente ligado ao hebraico parush que basicamente quer dizer separar, afastar, explicar, esclarecer. Assim, o nome perushim é normalmente interpretado como aqueles que se separaram do resto da população comum para se consagrar ao estudo da Torá e das suas tradições. Todavia, sua separação não envolvia um ascetismo, já que julgavam ser importante o ensino à população das escrituras e das tradições dos pais. A origem mais provável dos perushim é que tenham surgido do grupo religioso judaico chamado hassidim (os piedosos), que apoiaram a revolta dos macabeus (168-142 a.C.) contra Antíoco IV Epifânio, rei do Império Selêucida, que incentivou a eliminação de toda cultura não-grega através da assimilação forçada e da proibição de qualquer fé particular. Uma parte da aristocracia da época e dos círculos dos sacerdotes apoiaram as intenções de Antíoco, mas o povo em geral, sob a liderança de Yehudah Makkabi (Judas Macabeu ) e sua família revoltou-se. Os judeus conseguiram vencer os exércitos helênicos e estabelecer um reino judaico independente na região entre 142 a.C.- 63 a.C., quando então foram dominados pelos romanos. Durante este período de 142-63 a.C., a família dos macabeus estabeleceu-se no poder e iniciou uma nova dinastia real e sacerdotal, dominando tanto o poder secular como o religioso. Isto provocou uma série de crises e divisões dentro da sociedade israelita da época, visto que pela sua origem os Macabeus (também conhecidos pelo nome de família como Asmoneus) não eram da linhagem de Davi, não podendo assim ocupar o trono de Israel, e também não eram da linhagem sacerdotal de Tzadok [ou Sadoch]. Grupos reacionários apareceram dentro da sociedade judaica, tentando restabelecer o seu prestígio e poder, ou pelo menos o que eles consideravam como certo,  segundo a Lei e tradições judaicas. Assim, foi nesta época que provavelmente apareceram: 1) Os tzadokim(saduceus), clamando ser os legítimos descendentes de Tzadok e portanto os legítimos detentores do sumo-sacerdócio e da liderança religiosa em Israel. 2) Os Perushim (fariseus), oriundos dos hassidim que, geralmente, desiludidos com a política, voltaram-se para a vida religiosa e o estudo da Torá, esperando pela vinda do Messias e do reino de Deus. 3) Os Essênios, oriundos provavelmente também dos “Hassidim” e de um grupo de sacerdotes descontentes com a situação, que se afastaram da sociedade judaica em geral e foram viver uma vida de total consagração ao Criador, na região do deserto, a fim de prepararem o caminho para a vinda do Rei Messias. Os fariseus, opositores dos saduceus, criaram uma Lei Oral, em conjunto com a Lei escrita, e foram os criadores da instituição da sinagoga. Com a destruição de Jerusalém em 70 d.C. e a queda do poder dos saduceus, cresceu sua influência dentro da comunidade judaica e se tornaram os precursores do judaísmo rabínico. Os Perushim se agrupavam em “havurot” [de havurah, derivado de habar ou havar, que significa amigo], associações religiosas que tinham os seus líderes e suas assembleias, e que tomavam juntos as suas refeições. Segundo Flávio Josefo, historiador judeu do 1º século d.C., o número de perushim na época, era de pouco mais de seis mil pessoas (Antiguidades Judaicas 17, 2, 4; § 42). Eles estavam intimamente ligados à liderança das sinagogas, ao seu culto e escolas. Eles também participavam como um grupo importante, ainda que minoritário, do Sinédrio, a suprema corte religiosa e política do Judaísmo da época. Muitos dentre os “perushim” tinham a profissão de sofer (escriba), ou seja, a pessoa responsável pela transmissão escrita dos manuscritos e da interpretação dos mesmos. Duas escolas de interpretação religiosa se desenvolveram no seio dos perushim e se tornaram famosas: a escola de Hillel e a escola de Shammai. A escola de Hillel era considerada mais “liberal” na sua interpretação da Lei, enquanto a de Shamai era mais “estrita”. O cristianismo perpetuou através da história uma visão estereotipada dos “perushim” junto aos escribas e saduceus, como os adversários de Jesus, que ataca duramente seu orgulho, sua avareza, sua hipocrisia e, sobretudo, o perigo de crer que a salvação vem da lei. No entanto, os “perushim” eram uma seita de grande influência em Israel devido ao ensino religioso e político. Aceitavam a Torá escrita e as tradições da Torá oral, na unicidade do Criador, na ressurreição dos mortos, em anjos e demônios, no julgamento futuro e na vinda do rei Messias. Eram os principais mestres nas sinagogas, o que os favoreceu como elemento de influência dentro do judaísmo após a destruição do Templo. São precursores por suas filosofias e ideias do judaísmo rabínico. Mas, em tempos de Jesus,  quem eram verdadeiramente os fariseus? Existem três tipos diferentes de fontes históricas para explicar sua origem. 1º) A literatura rabínica. Os rabinos dos séculos II ao VI são considerados como sucessores dos fariseus. 2º) A segunda fonte são os livros de Flávio Josefo  (37-100 dC) e 3º) A terceira são os livros do NT. As conclusões destes últimos escritos parecem estar em contradição com as das primeiras fontes. A conclusão final é de que sabemos menos dos fariseus do que se pensava 40 anos antes. Por isso devemos estudar alguns que a si mesmo se intitularam fariseus e não estudar o grupo como uma coletividade uniforme e monolítica. Os escritos cristãos adoecem de universalizar a todos os fariseus como sendo o grupo dos escribas e tendo como nota característica a rejeição de Jesus. Nem todos eram assim.  Existe uma crescente opinião de não considerar os sábios tanaíticos [os que redataram a Mishná, Toseftá e Midrases haláquicos] como necessariamente fariseus ou discípulos dos mesmos. Expliquemos: Mishná é a escrita da Lei oral, Toseftá são os comentários  suplementares da Mishná e Midrás é o estudo da Torá baseado na interpretação do texto escrito versículo por versículo e até letra por letra. A Halaká trata sobre a lei e preceitos e a Haggadá sobre narrações. Os materiais, logo redigidos por escrito, provém do século I aC até a sua escrita no século III dC. O primeiro indivíduo histórico que podemos considerar propriamente fariseu é um tal Eleazar, figura chave da ruptura entre João Hircano (134-104 aC) e os fariseus. Durante um banquete oferecido por Hircano para os amigos fariseus só Eleazar pediu que Hircano renunciasse a exercer o Sumo Sacerdócio, por não ser descendente de Sadok. Irritado, Hircano mandou açoitá-lo, mas considerando essa pena leve demais, rompeu com os fariseus, dos quais tinha sido discípulo e se aproximou dos saduceus, seus adversários. Nos evangelhos, os dois fariseus que aparecem com nome próprio, são partidários de Jesus: Simão (Lc 7, 40-44) em cuja casa come Jesus. (São também fariseus outros dois hóspedes cujos nomes não são citados, talvez indicando as refeições chamadas havurot). O outro nome é o de Nicodemos que, à noite, visita Jesus ( Jo 3, 1-15) e era membro do Sinédrio (Jo 7, 50-52), onde defende a inocência de Jesus antes de ser condenado e que participa do enterro como discípulo (Jo 19, 39). As outras citações, até 90, em que se nomeiam os fariseus, estes últimos são citados em plural. Nos Atos, Lucas menciona dois fariseus: Paulo e seu suposto mestre Gamaliel, este citado em duas ocasiões: 5, 34 e 22, 3. Ele e seu filho, Simeão ben Gamaliel, certamente são considerados como fariseus por seus conterrâneos. Gamaliel foi favorável a deixar em liberdade os discípulos de Jesus, pois se verdadeiramente procede de Deus [sua doutrina] correremos o risco de lutar contra Deus. Paulo, o segundo nome dos Atos considerado como fariseu e filho de fariseus (At 23, 6), relata em primeira mão sua filiação em Fp 3, 5-6. Ao dizer quanto a Lei fariseu, indica que a interpretação da mesma tinha outros intérpretes, que sabemos eram os saduceus. O próprio Paulo explica como era a interpretação da Lei pelos saduceus, ao escrever: meu excesso de zelo pelas tradições paternas (Gl 1, 14). Parece que esta era a característica da assim chamada seita: a akribeia [precisão] cuidado com a qual a lei era interpretada. No seu discurso perante os judeus amotinados contra ele no templo (At cap 22), Paulo parece indicar que o verdadeiro fariseu não está contra a fé em Cristo. No concílio de Jerusalém encontramos um grupo de cristãos que tinha sido da seita dos fariseus e que haviam abraçado a fé (At 15, 5). Porém dos evangelhos temos uma noção não muito favorável  dos fariseus, especialmente quando unidos à classe dos escribas. ESCRIBA: Escriba ou escrivão era a pessoa na Antiguidade que dominava a escrita e a usava para, a mando do regente, redigir as normas do povo daquela região ou de uma determinada religião. Nos livros sagrados para os cristãos e judeus, o termo escriba refere-se aos chamados doutores e mestres (cf. Mateus 22,35; Lucas 5,17), ou seja, homens especializados no estudo e na explicação da lei ou Torá. Embora o termo apareça pela primeira vez no livro de Esdras, sabe-se que tinham grande influência e eram muito considerados pelo povo, tendo existido escribas partidários de diferentes correntes, tais como os fariseus (a maioria), saduceus e essênios.  História A classe começa a atuar ainda nos tempos do Antigo Testamento, em que a figura do profeta perde o seu valor. Já no Novo testamento, é possível verificar que a maioria dos escribas se opõe aos ensinamentos de Jesus (cf. Marcos 14,1; Lucas 22,1), que os critica duramente por causa do seu proceder legalista e hipócrita (cf. Mateus 23,1-36; Lucas 11,45-52; 10,46-47), comparando-a à dos fariseus, pois a corrente farisaica era representava pela maioria dos escribas. Após o desaparecimento do templo de Jerusalém no ano 70, seguido do desaparecimento da figura do sacerdócio judaico, sua influência passaria a ser ainda maior. Figuras de destaque Alguns escribas ficariam famosos, tais como Hillel e Sammai (pouco antes de Jesus Cristo), tendo sido ambos, líderes de tendências opostas na interpretação da lei, liberal o primeiro e rigoroso o segundo. Gamaliel, discípulo de Hillel, foi mestre de Paulo (cf. Atos 22,3), tendo existido também outros escribas simpatizantes dos cristãos. (cf. Atos 5,34). Na condena de Jesus os que influíram não eram os fariseus como seita, mas os escribas junto com os chefes sacerdotais e os anciões que constituíam o Sinédrio de Jerusalém (Mt 20, 18 Mc 8, 31 e Lc 9, 22 com palavras do próprio Jesus). Nos oito impropérios contra os escribas e fariseus de Mateus 23, 13-29, sempre o escriba está antes do fariseu e o motivo é precisamente sua hipocrisia , falsidade, dobrez, ou fingimento. PECADORES: Como temos explicado em outras ocasiões, provavelmente em Lucas, é a palavra que substitui pagãos ou idólatras. Segundo a Mishná, todo contato com eles era causa de impureza, que constituía o motivo de que Javé se afastasse do homem que a contraia, como de um pesteado ou malvado indigno de convivência. Em lugares paralelos, Mateus une aos pecadores os publicanos, coisa que também faz Lucas em 5, 30, em ocasião do banquete oferecido, a raiz da conversão de Levi, e a pergunta foi dirigida aos discípulos de Jesus.

A PARÁBOLA: 1ª PARTE: A DEFESA

OS DOIS FILHOS: Disse pois a eles esta parábola, contando(3):Certo homem tinha dois filhos(11). Então disse o mais novo deles ao pai: Pai, dá-me a parte do patrimônio que me corresponde. E dividiu entre eles a fortuna (12). Et ait ad illos parabolam istam dicens Homo quidam habuit duos filhos. Et dixit adulescentior ex illis patri pater da mihi portionem substantiae quae me contingit et divisit illis substantiam. O texto evangélico passa por alto as duas parábolas da ovelha tresmalhada e da dracma perdida e se centra na parábola comumente chamada do filho pródigo. Consideramos as circunstâncias que acompanham a saída do filho menor como forma literária e não fundo alegórico, embora tenha uma base verdadeira na vida real. CERTO HOMEM indica um latifundiário judeu abastado e os dois filhos preparam o ouvinte para a segunda parte da parábola, com a distinção entre as duas condutas, mas com a unicidade do amor do pai, que, como o pastor ou a dona da casa, procura o que estava perdido como objeto primário de sua afanosa angústia. DIVIDIU A FORTUNA: Segundo costumes ancestrais, o pai podia dispor de seus bens de duas maneiras: Ou por testamento que seria válido na hora de sua morte, ou por meio de doação em vida (donatio inter vivos). Embora esta prática fosse desaconselhada em Ecl 33, 19-23, parece ser a mais usual na época. A herança do primogênito devia ser o duplo da soma correspondente a seus irmãos (Dt 21, 17), ou seja, dois terços da herança total. Outros falam que o filho menor nesse caso deveria receber  dois nonos do total. O filho recebia unicamente o título de propriedade, enquanto o pai retinha o usufruto dos bens até a sua morte. Se o filho vendia sua parte, o comprador só poderia tomar parte dos bens após a morte do pai, quando o filho vendedor perdia todo direito. A divisão, pois da fortuna ou bens não significa a transferência da propriedade, mas da uma parte da mesma ao filho. Por isso, no final da parábola, o pai atua como verdadeiro proprietário dando ordens aos empregados, mandando matar o melhor terneiro etc.

A FUGA: Assim, após não muitos dias, tendo reunido todas as coisas, o filho mais novo se exilou a uma região distante, e ali dissipou seus bens vivendo desregradamente (13). Et non post multos dies congregatis omnibus adulescentior filius peregre profectus est in regionem longinquam et ibi dissipavit substantiam suam vivendo luxuriose. O  genitivo absolutode REUNIR TODOS OS BENS, significa converter os mesmos em dinheiro vivo ou cash. Temos traduzido por EXILAR-SE um verbo que pode ter o significado de emigrar especialmente quando temos que a região almejada é distante. Provavelmente um território da diáspora. Considerava-se que na diáspora havia 4 milhões de judeus e que na Palestina eram um pouco mais de 500 mil. Havia um judeu por cada seis habitantes nesse mundo que se conhece como oikoumene. A emigração era devida não tanto às oportunidades comerciais que oferecia a diáspora, pois os judeus podiam trabalhar no comércio, na banca e como artesãos e  entre os romanos só os escravos o faziam. Segundo os costumes judaicos, o mais jovem teria entre 18 e 20 anos, pois não estava casado e aquela era a idade normal do casamento. E lá ESBANJOU SUA FORTUNA [substância segundo texto grego que o latino traduz literalmente]. A maneira de fazê-lo foi uma vida dissoluta, que geralmente é associada ao vinho, jogo e mulheres, como um crápula e da qual o irmão dirá foi dissipada com meretrizes.

A FOME: Depois, pois, dele ter esbanjado tudo, surgiu uma forte fome naquela região e ele começou a passar necessidade (14). Et postquam omnia consummasset facta est fames valida in regione illa et ipse coepit egere. A FOME era uma epidemia frequente na antiguidade. Foi a causa pela qual Jacó enviasse seus filhos ao Egito em busca de provisões (Gn cap 42). Sabemos como Herodes, o Magno, vendeu até sua vasilha de prata para obter trigo num período de fome. Como Paulo trouxe esmolas para Jerusalém para aliviar a fome dos irmãos, provavelmente nos tempos do imperador Cláudio (41-54) que foi testemunhada por Josefo em suas antiguidades.

CUIDADOR DE PORCOS: E tendo saído, se associou a um dos cidadãos daquela região e o enviou a seus campos apascentar porcos(15). Et abiit et adhesit uni civium regionis illius et misit illum in villam suam ut pasceret porcos. O caso é dos mais humilhantes: um jovem judeu, de boa família, se transformando em PORQUEIRO, cuidando de animais que eram considerados entre os mais impuros e degradantes pela Lei (Lv 11, 7). Sabemos da atitude dos sete irmãos aos quais obrigavam a tocar carne de porco ou comer da mesma como outros traduzem (1 Mc 7,1). A atitude rabínica sobre o cuidador de porcos, está magnificamente expressa nesta imprecação: Maldito o criador de porcos e maldito quem instrui a seu filho na sabedoria grega. Além disso, não poderia santificar o sábado e estava disposto a renegar de sua religião por causa da impureza constante.

A REALIDADE: E desejava encher o seu ventre das glandes [bolotas] que comiam os porcos e ninguém dava a ele ( 16). Et cupiebat implere ventrem suum de siliquis quas porci manducabant et nemo illi dabat. O único alimento que tinha eram as glandes ou bolotas do carvalho, que os judeus chamavam alimento de bestas. Mas ninguém dava a ele. É um tanto irreal, ou kafkiano como dizem, pensar que ele não pudesse comer de um fruto que naturalmente cai dos carvalhos e é de livre escolha no chão inculto da floresta.É uma maneira exagerada de descrever a fome intensa do jovem da narração parabólica. Ou talvez por considerar essa alimentação de um fruto que não lhe pertencia como um roubo.

O ARREPENDIMENTO: Voltando, pois, em si disse: Quantos jornaleiros do meu pai abundam de pães, porém eu pereço de fome (17). In se autem reversus dixit quanti mercennarii patris mei abundant panibus ego autem hic fame pereo. VOLTAR EM SI significa em termos bíblicos arrepender-se ou fazer penitência. São duas as causas principais que o incitam ao arrependimento: a diferença entre a comida atual, e o pão abundante. E a outra é a comparação entre ele, um filho e os jornaleiros do campo que percebiam um mínimo de jornal, e não obstante estavam em condições muito melhores. Como ele depois dirá ao pai, quer ser tratado como um desses jornaleiros e não como filho.

O PROPÓSITO: Tendo-me levantado, irei a meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti (18). E de modo algum sou digno de ser chamado teu filho, faz-me como um de teus jornaleiros (19). Surgam et ibo ad patrem meum et dicam illi pater peccavi in caelum et coram te. Et iam non sum dignus vocari filius tuus fac me sicut unum de mercennariis tuis. TENDO-ME LEVANTADO, em aoristo, é uma maneira de falar dos semitas, quesempre estavam sentados nas tendas e era assim que falavam e decidiam seus compromissos. A menção do céu está no lugar de Deus e as duas preposições contra e diante são mera variação literária. De fato o jovem admite seu pecado que sempre tem uma origem na desobediência feita a Deus, e sabe que causou uma grande aflição a seu pai. A frase é uma fórmula estereotipada do AT como em Êxodo 10, 16 quando o faraó admite seu erro: Pequei contra Javé e contra vós. Ele tinha perdido todo direito a ser considerado como filho ao receber a herança na vida do pai e não podia pedir ajuda do mesmo. Por isso pede que seja tratado como um dos jornaleiros que trabalhavam no campo do pai. Assim devemos traduzir o faz-me [ou trata-me] como a um de teus jornaleiros.

O ENCONTRO: E tendo-se levantado, veio para seu pai; estando ele ainda longe o viu seu pai e se enterneceu (nas entranhas); e tendo corrido caiu sobre seu colo e o beijou repetidamente (20). Et surgens venit ad patrem suum cum autem adhuc longe esset vidit illum pater ipsius et misericordia motus est et adcurrens cecidit supra collum eius et osculatus est illum A descrição do pai, como se adiantando ao filho antes deste pedir seu perdão, e do sentimento expressado pelo verbo que significa um sentimento profundo que comoveu intimamente seu interior, o verbo correr ao encontro do filho, o abraço antes deste pronunciar uma só palavra e o beijo repetido que seria cumular de beijos, indicam como o pai esperava o filho e estava disposto a esquecer e perdoar. São detalhes que vão além do aspecto puramente literário para descrever o fundo do amor paterno em toda sua intensidade.

A CONFISSÃO: Lhe disse o filho: Pai, pequei contra o céu e diante de ti e em modo algum sou digno de ser chamado teu filho(21 Dixitque ei filius pater peccavi in caelum et coram te iam non sum dignus vocari filius tuus. As palavras do filho são calcadas do seu propósito que vimos no parágrafo dos versículos 18 e 19.

REAÇÃO DO PAI: Disse o pai a seus escravos: Trazei a veste [stolë <4749> stole], a principal; vesti-o; e dai um anel na mão dele, e calçado nos seus pés(22). E, tendo trazido o terneiro engordado, matai e, comendo, regozijemos (23). Dixit autem pater ad servos suos cito proferte stolam primam et induite illum et date anulum in manum eius et calciamenta in pedes. Et adducite vitulum saginatum et occidite et manducemus et epulemur. A palavra que o latim traduz propriamente por servi, que na época apontava aos escravos, mas que, nas línguas vernáculas, perdeu seu primitivo significado ao confundi-lo com os servos da terra medieva, com o qual se dulcifica o verdadeiro significado. José recebe do faraó como seu grande visir um vestido novo, um anel e um colar de ouro no pescoço (Gn 41, 42). A veste chamada estola era um distintivo das classes sociais altas, um vestido longo até os calcanhares, impróprio da túnica dos trabalhadores, curta até as coxas. Era a túnica talar ou estola, o vestido talar próprio dos oficiais e das mulheres, que chegava até os calcanhares, pois talares eram chamadas as asas de que estavam dotadas as sandálias de Mercúrio para melhor correr. Mercúrio era o deus grego do comércio e mensageiro dos outros deuses.  A veste que o pai pede para o filho era a estola primeira ou principal, que alguns traduzem como de festa. Hoje diríamos a melhor de todas. No oriente significa uma distinção especial. Pois não existiam condecorações. O anel não era um adorno, mas um sinal de distinção e de que pertencia a um determinado clã, e era próprio das pessoas distinguidas que com ele assinavam documentos e selavam as cartas ou missivas. E o calçado, sandálias em geral, era próprio dos senhores, pois os escravos, em cuja categoria queria ser contado o filho, andavam descalços. A morte do terneiro, com artigo determinado, indica um dia especial de festa, pois era o animal cevado, ou alimentado especialmente para o engorde, que era reservado para os grandes dias de festa,  como o casamento de um filho, ou o nascimento do primogênito. Ele era a base de um banquete especial, numa sociedade em que a carne não era alimento comum. O pai quer que todos reconheçam no jovem arrependido o filho, anterior a seus desvarios. Restitui-lhe o estado anterior,  como se nada tivesse acontecido. Mais que perdão o pai oferece uma total reabilitação, superando toda expectativa possível. A razão desta conduta a explicará imediatamente no versículo seguinte.

RAZÃO DA ALEGRIA DO PAI: Porque este, o meu filho, estava morto e reviveu; e perdido era e foi encontrado. E começaram a regozijar-se (24). Quia hic filius meus mortuus erat et revixit perierat et inventus est et coeperunt epulari. Era a mesma alegria do pastor, da mulher dona-de-casa, por recobrar o que se pensava perdido; mas agora era maior, porque é a alegria do pai que pensava nunca mais volver a ver o filho, pois estava como morto para ele. Era ter um filho vivo, após pensar tê-lo perdido para sempre. E assim, sem mais demora, começaram a gozar da alegria comum. Ao banquete acompanhava a música com coros de palmas e baile dos varões presentes. Este seria o fim da parábola; mas ela tem uma segunda parte também dirigida aos espectadores, fariseus e escribas, não tanto para demonstrar por que Jesus aceitava pecadores, mas para recriminar a conduta deles como totalmente infundada e maldosa por causa da inveja.

2ª parte: A CENSURA

O FILHO MAIOR: Estava, pois, o seu filho, o  maior, no campo e, como voltasse, se aproximou da casa, escutou a música e as danças (25). Então tendo chamado um dos servos dele perguntou que seriam aquelas coisas (26). Erat autem filius eius senior in agro et cum veniret et adpropinquaret domui audivit symphoniam et chorum. Et vocavit unum de servis et interrogavit quae haec essent. A jornada de trabalho terminava com a luz do sol, e era quando começava o jantar, a comida principal, e a hora do início dos banquetes. Estes estavam acompanhados de um coro de músicos que dançavam ao som de palmas e pandeiros com uma certa algaravia própria da exaltação sentimental dos orientais. Esta música e gritos ouviu o filho maior no meio do silêncio da entrada da noite, próprio dos tempos antigos. Estranhando, perguntou a causa de tudo isso.

A PERGUNTA: Ele então lhe disse: porque teu irmão veio, e matou teu pai o novilho cevado porque o recebeu saudável (27). Isque dixit illi frater tuus venit et occidit pater tuus vitulum saginatum quia salvum illum recepit O empregado, que o texto grego chama de pais [<3816>], cujo significado primeiro é menino, infante, filho, e que pode ter frequentemente o significado de criado, servo, especialmente quando o serviço é dentro da casa, responde fielmente à pergunta do seu amo.

INDIGNAÇÃO DO FILHO: Enfureceu-se, portanto e não queria entrar. Por isso o pai dele saiu rogando-lhe (28). Ele, pois, tendo respondido, disse a seu pai: Eis que todos estes anos te sirvo e nunca preteri mandato teu e a mim jamais deste um cabrito para que com meus amigos me regozijasse (29). Quando, pois, este teu filho, o que há devorado teu patrimônio com meretrizes, veio, mataste para ele o novilho cevado (30). Indignatus est autem et nolebat introire pater ergo illius egressus coepit rogare illum. At ille respondens dixit patri suo ecce tot annis servio tibi et numquam mandatum tuum praeterii et numquam dedisti mihi hedum ut cum amicis meis epularer. Sed postquam filius tuus hic qui devoravit substantiam suam cum meretricibus venit occidisti illi vitulum saginatum. A indignação do filho o afasta do banquete, da alegria de ver de novo seu irmão e o obriga a se indispor com a conduta do pai. Ele se nega rotundamente a admitir o irmão, seja qual fosse a atitude deste último e as condições em que se encontrava atualmente. Possivelmente a herança estava no meio dos dois irmãos. O pai teve que sair da casa e lhe dizia com boas palavras, ou seja, lhe rogava. O filho dá razões de peso para demonstrar que sua indignação tinha um motivo realmente forte: Tenho te servido fielmente. E qual tem sido a resposta? Nem um cabritinho me deste para comemorar numa festinha alegre, um dia com meus amigos. E contrasta a conduta do pai com respeito a ele, com a conduta atual com a qual o pai recebe o outro filho, a quem não quer chamar de irmão [este teu filho], como se ele, o irmão correto, não tivesse sido nunca tratado como filho pelo pai. E dá uma razão negativa para ser considerado verdadeiro filho: há devorado teu patrimônio com meretrizes. A conduta do irmão era duplamente vergonhosa: dilapidar o patrimônio do pai e fazê-lo de modo vexatório: com meretrizes, sem cabeça, sem proveito nenhum, como um pervertido. O contraste entre as condutas dos irmãos é evidente. O contraste na conduta do pai para com os dois filhos é palpável. Que espera o pai dele, o filho correto, a não ser a indignação e a repulsa mais justa e mais lógica como resposta?

AS RAZÕES DO PAI: Ele então lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo e todas as minhas coisas são tuas (31). Regozijar-se, pois e dançar convém, porque este, o teu irmão, estava morto e reviveu, e perdido estava e foi encontrado (32). At ipse dixit illi fili tu semper mecum es et omnia mea tua sunt. Epulari autem et gaudere oportebat quia frater tuus hic mortuus erat et revixit perierat et inventus est. O pai começa por usar um nome que indica ternura,  teknon [<5043>] em oposição a  huios [<5207>]. Este último não está unido a um afeto particular, mas indica unicamente o fruto de uma geração paternal. Já teknon é o filho querido, como descendente, como aquele que em si leva a imagem do pai, é o filho a quem se dedica amor e ternura. O pai afirma que não unicamente o bezerro cevado, mas tudo é dele, seu filho preferido. Mas nesse momento e circunstâncias existia uma poderosa razão para uma alegria extraordinária: Teu irmão estava praticamente morto, desaparecido e agora o encontramos de novo vivo e saudável. Não é isto um fato extraordinário e único para comemorarmos do modo mais alegre e festivo possível? CONCLUSÃO: Era preciso (dei em grego), necessário. Dos três verbos em que o grego indica uma certa obrigação (dei, chre e ofei) o dei é o mais incisivo, pois indica uma obrigação moral inevitável como quando Jesus afirma que o Filho do homem devia padecer para assim entrar na sua glória (Lc 24, 26). Era, pois, uma obrigação moral iniludível, não só admitir o filho extraviado, mas alegrar-se e recebê-lo com festa grande, porque era como quem recebesse um filho que estava praticamente morto e se salva do último transe.

REFLEXÕES: Jesus conta uma série de parábolas para indicar que sua conduta não está determinada por leis saídas de uma tradição humana (Mt 15, 6), mas pelo mais elementar procedimento que segue à lei natural das coisas. Será a ovelha ou a moeda perdidas, e agora a conduta do pai que tem dois filhos. Nos três casos Jesus entra como figura simbólica que encontra o que estava aparentemente e irremediavelmente perdido e em cuja busca se empenha até conseguir de novo o extraviado. A alegria do encontro supera as dificuldades da busca e é razão suficiente para a exultação do momento (15, 32). OS DOIS FILHOS: O motivo é porque a liberdade, o desejo de viver sem preocupações e com o máximo de desfrute é próprio dos mais novos e as despesas com os vícios de ostentação e luxúria facilmente dilapidam fortunas. Essas coisas não são objeto direto da parábola. A fome e o pastoreio dos porcos servem para destacar o infortúnio do filho rebelde. Jesus salientará a perda do filho como morto, diante do irmão e a nova vida quando encontrado de volta. A restituição do pai, que o trata como filho que nasce de novo, é o importante na parábola. Mas quem são os dois filhos e a que status correspondem eles? Pensamos não existir modelo preciso para afirmar representações específicas nas personagens da parábola. O importante era o retrato que se faz do amor do pai. Mas caso cheguemos a outras conclusões sobre a conduta dos filhos, acreditamos que o início do capítulo pode dar uma pista para a interpretação alegórica de sua identidade e suas respectivas condutas. Por isso é razoável pensar que o maior, obediente desde o nascimento e leal ao pai, é figura dos fariseus e doutores da lei. Em verdade eles eram fiéis à mesma, até nos pequenos detalhes (Mt 23, 23), introduzidos pela tradição. Homens santos que tinham dois grandes defeitos: a sua hipocrisia (Lc 12, 1) e a sua ostentação ou vaidade (Mt 6, 1). O filho menor representa o idólatra, o gentio. Era rejeitado e até odiado pelo judeu ortodoxo, porque, como temos visto antes, existia entre as duas raças ou classes um muro de separação, que Jesus destruiu na cruz, acabando com esse ódio secular (Ef 2, 14-16). Receber o filho que chamamos pródigo, como verdadeiro, era incompreensível para quem se tinha mantido a vida inteira fiel e observante. O PAI: Será Deus, ou será Jesus? Cremos que a parábola não pode se transformar numa alegoria em que cada personagem é uma figura simbólica de uma realidade. Por isso, mantenhamos a parábola no seu justo termo e pensemos que o pai é um pai comum que realmente ama seus filhos e sente a perda de um deles de modo a não poder resistir à alegria de encontrá-lo de novo. O pai está na mesma linha que o pastor que encontrou a ovelha desgarrada, que a mulher que achou a moeda perdida. Logicamente podemos pensar numa figura alegórica, o próprio Deus segundo aquilo que se diz: ¨Se vós que sois maus sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhas pedem¨(Mt 7,11).

PISTAS: 1)Jesus defende sua implicação com os ¨pecadores¨(gentios em particular) como parte do perdão que é acolhimento aos mesmos, oferecendo o exemplo do pai que recebe o filho perdoando-o totalmente, como se nada acontecesse ou melhor o encontro fosse com um filho bom. É um perdão sem limites, nem recriminações a uma conduta anterior por mais péssima que tivesse sido, pois é um filho que volta e merece ser amado e acolhido.

2) Jesus mostra o verdadeiro rosto de Deus, o Deus em quem devemos acreditar porque é o Pai  que Jesus amava e que nos revelou como nosso Pai. Na parábola se revela como o amor que deseja salvar o que estava perdido. Ele deixa que o filho se perca. Mas sempre espera a sua volta, para recebê-lo sem recriminar sua conduta anterior.

3) Aparentemente o pai se despreocupa do filho que o abandonou. Porém não é assim. Ele sabe esperar, pois conhece que não pode forçar uma vontade alheia, mas reforçar um arrependimento, uma conversão que brotará do íntimo de uma consciência que finalmente reconhece seu erro e detesta sua conduta anterior. É então que o acolhimento é puro amor: esse dia é festa e júbilo.

4) Perante a opinião comum que pensa que uma vida só é digna se na balança os atos positivos de bem superarem os atos de delinquência e pecados, devemos supor que uma vida é positivamente julgada por Deus quando um ato bom pode nela ser contemplado. O mal não prescreve quando o bem, um ato mesmo solitário de bondade pode desequilibrar a balança do julgamento.

5) Podemos agir de duas maneiras diferentes: Criticando o perdão, resmungando sobre a aparente superioridade do mal que nos rodeia, como faziam os fariseus, ou esperando como o pai para que alguém retorne arrependido, dispostos a acolher como Jesus fez, amando os pecadores embora entregasse sua vida em sacrifício pelo pecado.




07.03.2010
III Domingo da Quaresma - ANO C - Roxo

__ “Deus não nos salva sem nós” __

Comentário: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! A urgência da conversão por causa da proximidade do juízo de Deus, que os sinais dos tempos continuamente nos evocam, é a nossa resposta à experiência de Deus que vem para fazer-nos sair do Egito, que vem ajudar-nos a encontrar nossa identidade de homens. Jesus nos libertou e um povo libertado é um povo em conversão, uma conversão contínua. Entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (Êx 3,1-8a.13-15): - "Eu Sou aquele que sou!"

SALMO RESPONSORIAL (Sl 102): - "O Senhor é bondoso e compassivo!"

SEGUNDA LEITURA (1Cor 10,1-6.10-12): - "Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair."

EVANGELHO (Lc 13,1-9): - "Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo!"



- “O JULGAMENTO É CERTO!
    Reflexão do Evangelho por Diácono José da Cruz

Nesta vida tudo é discutível e negociável à exceção da morte, que irá nos acontecer mais cedo ou mais tarde, sendo que a morte nos trará o juízo de Deus. É uma verdade que não gostamos nem de pensar e que na quaresma somos convidados pela palavra de Deus a pensarmos naquele primeiro momento, em que estaremos diante de Deus, após a morte.

Sabemos que haverá um julgamento e isso significa que Deus espera algo de cada um de nós e poderíamos até afirmar que temos uma meta a ser alcançada, uma missão a ser cumprida e nesse caso, a primeira coisa a ser feita é estarmos disponíveis para Deus, mesmo que não nos julguemos capazes para tanto, como aconteceu com Moisés, conforme a primeira leitura desse domingo.

Mas essa disponibilidade deve sempre vir acompanhada de uma total confiança em Deus, alimentando em nós a esperança e a certeza de que ele caminha conosco, mesmo que às vezes a estrada seja íngreme como um deserto, e a esse respeito, o apóstolo Paulo lembra-nos, que quando falta esta confiança inabalável no Senhor que nos conduz, poderemos estar caminhando para a morte e não para a vida.

A nossa Fé deverá ser inabalável, mesmo que algo dê errado, pois como simples mortais, estamos sujeitos as imprevisibilidades desta vida que são aqueles acontecimentos que não esperamos, e que podem nos atingir ou a alguém do nosso relacionamento, como aqueles galileus, que se envolveram em um conflito com os soldados de Pilatos no templo de Jerusalém e foram brutalmente assassinados, ou como aquele grupo de trabalhadores que morreram tragicamente na queda de uma torre que estava sendo construída.

Não é Deus que provoca esses acontecimentos, para punir e castigar os pecadores, como podem pensar algumas correntes religiosas, o massacre dos galileus foi um ato de violência contra a vida, a mando de Pilatos, e a queda da torre, pelo menos naquele tempo, não foi nenhum atentado terrorista, mas um acidente de trabalho, aliás, que também merece uma reflexão, pois os acidentes de trabalho acontecem por causa de alguma falha humana ou alguma condição insegura. Porém, Deus consente estes fatos porque respeita a liberdade humana, mas a partir da tragédia, nos ensina alguma verdade que serve para a nossa edificação.

Sobre tudo o que ocorre no mundo de hoje, guerras, conflitos, chacinas, execuções, crimes hediondos até contra crianças, falamos e ouvimos muitos discursos inflamados, desde o simples cidadão até as altas celebridades que nos grandes meios de comunicação promovem debates acirrados, ao lado de uma imprensa sensacionalista onde indignados jornalistas gritam palavras de ordem, dando-se a impressão de que, por conta disso, grandes mudanças irão ocorrer. Mas ao final, tudo continua como antes até que aconteça a próxima tragédia, para sacudir a opinião pública.

Jesus não entra nessa onda, não declarou guerra contra Pilatos, que era o que muitas lideranças queriam, e nem arquitetou alguma severa punição para aplicar aos responsáveis pela queda da torre. De investigação e denúncias, o povo já está saturado, porque no final da história, os culpados sempre ficam impunes.

Jesus aproveita o fato para nos alertar sobre a urgência da nossa conversão, que se inicia quando mudamos a nossa mentalidade em relação a Deus, ele não é aquele que abençoa dando saúde e bens materiais a quem lhe obedece, e que faz cair a desgraça na cabeça de quem não o aceita, pois se fosse assim, não ocorreriam tragédias na vida de um cristão.

Ele quer que concentremos nossa atenção no presente, percebendo a cada minuto á sua vontade a nosso respeito, fazendo o reino acontecer a partir de pequenos gestos de amor e de solidariedade em nosso quotidiano, porque se deixarmos esta vida passar em branco, sem nos darmos conta de que temos uma missão a cumprir, frutificando segundo a palavra e a graça de Deus, iremos nos surpreender ao final, porque seremos semelhantes a uma árvore seca e improdutiva justo na hora da colheita.

Nesta vida Deus nos fertiliza todos os dias com a sua graça e a sua santa palavra dando-nos todas as condições para produzirmos bons frutos. Só depende de nós! E não precisa dizer o que vai acontecer com a árvore seca, que não dá nenhum fruto...

José da Cruz é diácono permanente da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim - e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Pe. Françoá Rodrigues – III Domingo da Quaresma (Ano C)

Pecado e salvação

Ao ler o Evangelho de hoje, pensei imediatamente na recente tragédia do Haiti, talvez já esquecida por alguns magnatas da sociedade que bem poderiam continuar ajudando a esse pobre país, não só dando-lhes coisas, mas capacitando-lhes para que eles mesmos construam essa nova etapa de sua história. Pensais vós que os haitianos foram maiores pecadores que todos vós por causa dessa tragédia? Eu vos digo que não. Jesus Cristo não quis associar os desastres, as tragédias, as crises econômicas e a morte dos inocentes ao pecado, porém, ao não associá-lo não nega que todos somos pecadores, nem exclui que o pecado sempre leva às tragédias, e a maior delas é estar longe de Deus!

Falar do pecado hoje em dia não está de moda. Em muitos ambientes perdeu-se quase totalmente o sentido do pecado. Os valores outrora desejados já não o são: a honra, a fidelidade, a lealdade à palavra dada, a castidade, o pudor, a sobriedade. Frequentemente o cristão parece ser alguém digno de compaixão: na sociedade atual, desenvolvida, cheia de meios técnicos, com respostas para quase todos os interrogantes, com a ampla possibilidade de desfrutar da vida e dos prazeres, existem ainda alguns que vivem o desprendimento dos bens materiais, a temperança, a honestidade, comprometem a liberdade “para sempre” no casamento ou no sacerdócio! Parece que a crise se aproxima: diante da sorte e aparente felicidade dos que não amam a Deus, realmente vale a pena seguir lutando pela santidade?

Por outro lado, não são esses valores humano-cristãos que explicam o que é o cristianismo no seu sentido mais profundo. A Igreja não foi fundada para oferecer uma ética, uma solução política ou aos problemas sociais. Ela recebeu a salvação de Jesus Cristo e tem como missão fazer com que todas as pessoas participem em Cristo dos bens da casa do Pai: que todos se salvem e cheguem aos céus! O cristianismo retira a auto-suficiência, filha do pecado original, que todo ser humano leva dentro de si. Quando uma pessoa se encontra com Deus e com a beleza de sua graça percebe que é uma criatura e que está afeada pelo pecado. As primeiras atitudes do ser humano diante da divindade são: adoração ao reconhecer-se criatura, silêncio diante da realidade inexpressável contemplada, humilhação de saber-se um pecador feio. Em seguida, o bom Deus infunde confiança e amor em nós ao dizer-nos aquele suave e firme não temais! Chegou a salvação! Eu sou a tua salvação!

O pecado é feio, muito feio! Trata-se de uma realidade sem entidade ao ser a carência da graça, da beleza e da ordem de Deus. O Cura d’Ars dizia que o pecado é “o verdugo de Deus e o assassino da alma” porque é uma ofensa a Deus que mata a vida da alma: um verdadeiro desastre! Santa Teresa de Jesus, que recebeu a graça de ver como é o estado de uma alma em pecado mortal, ficou tão horrorizada que passaria toda a vida em trabalhos e dificuldades para afastar todo e qualquer pecado mortal. E o que é um pecado mortal? É um pensamento, palavra, omissão ou ação que por sua gravidade e ao ser realizados com plena advertência e pleno consentimento ofende gravemente a Deus e retira a vida da graça deixando o pecador espiritualmente morto. Todo pecador é um morto vivo, está em estado de putrefação. Daí o fedor, a feiúra e o estado lastimável da alma em pecado mortal. Parece-lhe um exagero essa maneira de pensar? Na verdade, eu lamento não poder descrever com um realismo ainda maior a desgraça (falta de graça) do pecado mortal!

E os pecados veniais? São aquelas feridas que não nos matam, mas diminuem a nossa saúde de tal maneira que facilitamos a entrada de um vírus mortal a qualquer momento. Hoje em dia está de moda a saúde preventiva: antes que chegue a doença, é preciso cuidar-se fazendo check-up, esportes, indo ao médico periodicamente etc. Seria bom aplicar essa técnica à nossa saúde espiritual. Sempre foi um lugar comum na teologia ascética e mística falar do aborrecimento que devemos ter por qualquer pecado venial deliberado, isto é, não querer realizar nenhum pecado, por venial que seja a sabendas. É impossível não cometer faltas e pecados nesta vida, como disse o Concilio de Trento (sessão VI, cânon 23, ano 1547), a não ser por um especial privilégio da graça de Deus. Sendo assim, é importante que pelo menos não os cometamos deliberadamente. De fato, há pessoas que dizem: “já que isso não é pecado mortal, eu vou fazer”. Quanta falta de amor de Deus há nessa afirmação!? Deus nos salva e nos chama a ser santos, ele nos ama apaixonadamente. Também deseja ser correspondido por nós. Peçamos ao Senhor que aumente o nosso amor, pois quem ama não quer ofender a pessoa amada.


Comentário Exegético – III Domingo da Quaresma - Ano C

feito por Pe Ignácio, dos padres escolápios (extraído do site http://www.presbíteros.com.br)

EPÍSTOLA 1Cor 10,1-6.10-12

INTRODUÇÃO: A história do povo de Israel no deserto é um modelo de como Deus se comporta diante da infidelidade constante do seu povo. Das realidades dos antigos, devemos deduzir que esse mesmo Deus, fiel, mas imutável, atuará do mesmo modo com os novos eleitos, caso sua conduta siga pelos mesmos caminhos que traçaram os antigos escolhidos do Senhor. A conduta humana não é indiferente para um Deus que é retidão e bondade. E seremos nós os que teremos o castigo proporcional a nossa culpa. Portanto, devemos ter cuidado com nossas condutas para não cairmos nos mesmos castigos que marcaram a conduta rebelde dos antigos israelitas.

OS ANCESTRAIS: Não quero, pois, irmãos que ignoreis que nossos pais, todos estavam sob a nuvem e todos através do mar passaram (1). Nolo enim vos ignorare fratres quoniam patres nostri omnes sub nube fuerunt et omnes mare transierunt. Paulo continua neste trecho de sua carta a falar que o evangelho tem como praxis uma vida não fácil. O evangelho é uma conquista a ser trabalhada dia a dia como era a disciplina dos atletas (9, 24 ss). E nesta perícope, Paulo propõe um exemplo do AT que é uma verdadeira advertência para os fiéis de Corinto. Também eles pertenciam a um povo eleito. E alude como tipo do batismo, dois fatos que são semelhantes: a nuvem [nefelë<3507>=nubis] que os envolvia e a passagem sob o mar [thalassa<2281>=mare] que é como o batismo, ao qual foram submetidos para sair como  povo de Deus, enquanto os egípcios foram nele sepultados. O Batismo cristão era feito por imersão, ou seja, com a água envolvendo o corpo do batizado. A nuvem, segundo Êx 13, 21 guiava os israelitas durante o dia e os iluminava durante a noite. A nuvem representa o Espírito Santo do qual somos revestidos no batismo. E o mar, que, segundo Êx 14, 22, formava um muro à direita  e à esquerda enquanto o povo atravessava o mesmo em seco, representa a água em que, por imersão, como era o caso do primitivo batismo, entrava e saia o neófito ao ser rodeado pelas águas.

O ANTIGO BATISMO: E todos foram batizados [submergidos] para Moisés na nuvem e no mar (2). Et omnes in Mose baptizati sunt in nube et in mari. Tomando o significado primário de baptizö [<907>=baptizo] é estar imerso ou submergido. Tanto no caso da nuvem como na passagem do mar os israelitas ficaram envoltos [imersos] por ambos os elementos e Paulo considera estes fatos como um batismo em nome de Moisés que era seu chefe ou senhor, no caso. Moisés sendo o salvador fazia tipicamente o papel de Cristo como  libertador e chefe de um povo e assim se pode dizer em sentido lato que esse povo foi batizado em seu nome ou pessoa.

ANTIGA COMUNHÃO: E todos, o mesmo alimento espiritual comeram (3). Et omnes eandem escam spiritalem manducaverunt. ALIMENTO: Em grego Bröma[<1033]=esca] é um bocado sólido, a diferença da bebida. Evidentemente se refere ao maná de Êxodo 16, 4-35. Paulo o chama  de ESPIRITUAL [pneumatikon(neutro)<4152>=spiritalis] porque, segundo a maneira de pensar dos contemporâneos, esse alimento vinha do céu como pão (Jo 6, 31) e porque assim o declarou Jesus. Continuando com a alegoria, temos que o maná e a água representavam a carne e o sangue como bebidas espirituais que são e constituem corpo e sangue de  Cristo na Eucaristia. Jesus explicará esta comida e bebida como sendo reais, mas não materialmente interpretadas,pois é o Espírito que vivifica, e as palavras que vos disse são espírito e vida (Jo 6, 63).

A BEBIDA: Pois todos da mesma bebida espiritual beberam, de uma rocha espiritual que (os) acompanhava já que a rocha era o Ungido (4). Et omnes eundem potum spiritalem biberunt bibebant autem de spiritali consequenti eos petra petra autem erat Christus. BEBIDA: Em grego Poma[<4188>=potum] que é também uma bebida espiritual, porque foi uma intervenção divina que tirou água de uma rocha, caso o mais inexplicável do ponto de vista humano e que para Paulo essa rocha era o Ungido, ou o Cristo . Paulo se inspira numa tradição rabínica, segundo a qual, a água que brotou do rochedo no deserto de Kadesh, como água de Meriba, era um rio que os acompanhou (aos israelitas) pelo deserto. Outros dizem que foi a rocha que os acompanhou, da qual se diz que era em forma de uma colmeia ou redonda como uma peneira, que acompanhava o tabernáculo e quando este acampava, ela aparecia e permanecia no átrio do mesmo, para que a água brotasse dela. Talvez se refira à Shekinah [a presença de Jahveh], que foi chamada rocha santa  e Filon disse desta rocha que era a sabedoria de Deus. Poderia ser a pedra onde estavam escritas as leis da Torah? Não parece provável. A rocha, como presença divina dentro do povo, representa o Ungido [Cristo] que, como é frequente em Paulo, assume todas as características de Jahveh, como o novo Deus do novo povo de Israel. (Rm 9,33 e Ef 4, 8).

DESAGRADO DIVINO: Mas não na maior parte deles agradou-se o Deus, pois ficaram prostrados no deserto (5). Sed non in pluribus eorum beneplacitum est Deo nam prostrati sunt in deserto. Evidentemente, Paulo fala da conduta idolátrica do povo, quando Moisés esteve ausente durante 40 dias, falando com Deus; e os israelitas fabricaram um bezerro de ouro e adoraram o mesmo (Êx 32). Este é o fato que determinou, junto com a volta dos espias e a revolta do povo (Nm 13 e 14) a ira de Deus, de modo a jurar que não entraria na terra prometida. E por isso ficaram prostrados Kataströnnymi [<2693>=prostrare], na realidade, abatidos, mortos no deserto. No salmo 94 o próprio Jahveh justifica sua ação de rejeição do povo com estas palavras: Não endureçais o vosso coração como em Meriba , como o dia de Massa no deserto, onde vossos pais me desafiaram e me puseram à prova,quando me tinham visto em ação. A razão é o endurecimento mental diante dos prodígios. Talvez, evitando a teimosia e obstinação dos incrédulos diante do milagre, Jesus antes de realizá-lo, exigia a fé dos beneficiados.

MODELO: Porém estas coisas se tornaram modelos para que não fossemos nós cobiçosos das coisas más, como eles cobiçaram (6). Haec autem in figura facta sunt nostri ut non simus concupiscentes malorum sicut et illi concupierunt. Paulo agora reflete sobre os fatos antigos que constituiam a fundação do povo eleito e os traz a tona na nova situação, que é similar, pois o novo povo da nova Aliança está sendo agora formado. Por isso fala de modelo [typos<5179>=figura] que já temos explicado no versículo 17 de Efésios. MODELO: o Typos éimpressão, imagem, exemplo, padrão, ou molde. Daí temos os tipos de imprensa, por exemplo. E também os ensinamentos próprios de uma religião, modelos a serem copiados e contemplados, que é nosso caso. O exemplo dos israelitas que, de escolhidos, se tornaram rejeitados, por não cumprirem a vontade de Jahveh, devia ser considerado pelos novos escolhidos de Deus que eram os cristãos, com Cristo tomando o lugar de Moisés como líder, sendo a glória do céu a terra prometida da nova Lei. COBIÇOSOS: O Epithymëtës [<1938>=concupiscens] cobiçoso, de epithymeö, cuja tradução é desejar ansiosamente, cobiçar, ambicionar. Segundo o relato de Números, capítulos 13 e 14, os israelitas ficaram nostálgicos dos alhos e cebolas do Egito (Nm 11, 5). A ambição do povo era comer e beber. Nem o maná (Êx 16, 35) nem as codornas (Êx 16, 13), nem a água brotada da rocha em Meriba foram suficientes para um povo que preferia os alhos e as cebolas, as carnes e os peixes  (Nm 11, 4-6) do Egito. Para não falar de coisas piores como a idolatria do bezerro (Êx 31, 1-6), e a fornicação com as mulheres de Moab (Nm 25, 1-9). Os cristãos devem evitar semelhantes condutas reprováveis.

A MURMURAÇÃO: Nem murmureis como também alguns deles murmuraram e pereceram pelo destruidor (10). Neque murmuraveritis sicut quidam eorum murmuraverunt et perierunt ab exterminatore. MURMURAR: Goggyzö [<1111>=murmurare] se diz do arrulho de uma pomba e o murmulho daqueles que conjuram contra alguém ou se queixam das circunstâncias desfavoráveis em que Deus os colocou. Neste caso foi o resmungar de Moisés, rebelando-se contra ele, como  diz o livro dos Nm 16, 1-31 e 17, 6-15). E Refere-se, sem dúvida, à rebelião contra Moisés e Araão de Nm 17 5-7. Pereceram pelo DESTRUIDOR: Olothreutës [<2644>=exterminator], destruidor ou exterminador. Quem era esse exterminador? Provavelmente, é uma expressão que, tomada do anjo descrito em Êx 13, 23, indica um número de mortes súbitas e em poucos dias ou horas, que hoje atribuimos a uma epidemia. Este anjo é explicitamente descrito em Êx 12, 23 na morte dos primogênitos dos egípcios; mas não na narração de Nm 17, 6-15 após a morte de Coré e seus ásseclas.  Também, como anjo do Senhor, temos a morte dos 185 mil assírios que cercavam Jerusalém. Provavelmente o número, como sempre exagerado de mortos,  é devido à contaminação das águas.

ADVERTÊNCIA: Pois todas estas coisas (como) modelos aconteceram para eles. Já que foi escrito para advertência nossa, para os quais os fins dos tempos chegaram (11). Paulo fala tomando como exemplo o fim da maioria de Israel por falta de docilidade aos mandatos do Senhor: Se a eles aconteceu, também pode  acontecer conosco. Essa é a conclusão de seu razonamento. Mas ele tem uma prova melhor que o simples raciocínio humano: é a escritura,pois os fatos estavam ESCRITOS [Egrafë] no livro dos Números e deles é que Paulo tira a conclusão que lhe parece advertência para os que viviriam nos FINS DOS TEMPOS [ta telë tön aiövön=fines saeculorum]. Para Paulo, como para todo judeu que se convertesse ao cristianismo, o fim de Jerusalém e do templo era o fim dos tempos, como Mateus claramente deixa a entender na passagem do discurso apocalíptico sobre a ruína de Jerusalém. Além dos discípulos pedirem qual será o sinal de tua vinda, só Mateus fala do fim do mundo (Mt 24, 3). Esta expressão não é achada em Marcos 13,4, nem em Lucas 21, 6. Os cristãos do seu tempo estavam vivendo o fim dos tempos ou da era antiga para entrar na nova, era independente do templo e de Jerusalém. Nestes novos tempos, cobra realidade tudo quanto tinha acontecido aos antigos judeus que estavam no meio de uma proteção direta de Deus no deserto.

CUIDADO: De modo que quem pensa estar firme veja que não caia (12). Itaque qui se existimat stare videat ne cadat. É a conclusão de Paulo ao considerar o exemplo dos israelitas: eles tinham tudo, visões, milagres, liderança, mercês e dádivas; mas sua natureza egoísta, seu duro coração (Mt 19, 8) prevaleceu e caíramB mortos no deserto. Os de Corinto devem temer também serem rejeitados se eles confiam em si mesmos e desprezam a graça de Deus, que não permitirá que a tentação seja maior que as forças conjuntas do homem e da graça de Deus, como dirá Paulo na sequência, em versículos que não correspondem a esta epístola.

EVANGELHO (Lc 13, 1-9)

O CASTIGO – O BEM ESPERADO POR TODOS

AMBIENTE: Apresentaram-se, pois, alguns, naquele preciso momento, anunciando-lhe o caso sobre alguns galileus dos quais o sangue Pilatos misturou com os dos seus sacrifícios (1). Aderant autem quidam ipso in tempore nuntiantes illi de Galilaeis quorum sanguinem Pilatus miscuit cum sacrificiis eorum. Jesus está na Galileia  e a notícia chega até ele provavelmente por lábios hostis de fariseus, como sempre, para tentá-lo. Pilatos tinha degolado alguns galileus no templo. Anunciam que seu sangue se misturara com o sangue dos seus sacrifícios. Tomada a frase ao pé da letra significa que os soldados da polícia de Pilatos teriam entrado até o pátio dos sacerdotes onde entravam os que sacrificavam animais para compartilhar com os dignatários levíticos o sacrifício pacífico. Parece improvável que os policiais estivessem vestidos como simples judeus. Por outra parte, a frase misturar sangue com sangue é própria do idioma hebraico, de modo que não necessariamente significava ser morto no exato momento da degolação das vítimas do sacrifício. Podemos interpretá-la como sendo mortos dentro do recinto do templo e até dentro de Jerusalém, quando estavam ali por motivo dos rituais de sacrifício a serem feitos no templo. A razão desta reflexão é que o fato não é contado por nenhum outro evangelista ou historiador da época. Não sabemos tampouco o número dos mortos e se não era grande não mereceria uma linha nos relatos contemporâneos. Sabemos que os galileus admiravam e até seguiam Judas, o Gaulonita,  ou Judas, o Galileu, do qual fazem menção os Atos 5, 37. Ocupou Séforis ( Seppori segundo os rabinos = o pássaro), a capital da alta Galileia. Era uma das cinco capitais de província que tinha seu sinédrio particular. No ano 3 dC foi conquistada por Judas e seus seguidores, mas reconquistada por Aretas, rei de Petra e aliado de Roma, que a destruiu completamente e vendeu seus habitantes como escravos. Por que notificar o sucesso a Jesus? Seguramente que seria o comentário do dia, como hoje dizemos. Mas a razão principal era saber a opinião política do momento de Jesus: condenaria Pilatos e assim enfrentaria os romanos, aliando-se aos zelotas galileus, como esperavam seus conterrâneos? Ou, pelo contrário, veria na morte dos exaltados um castigo pelos pecados, devidos à sua conduta violenta e revolucionária? Algo disso parece que podemos deduzir das palavras que precedem à perícope de hoje: apresentaram-se alguns, naquele preciso momento (tradução literal), anunciando-lhe o caso sobre alguns galileus.

A RESPOSTA: E repondendo Jesus lhes disse: pensais que aqueles Galileus se tornaram pecadores dentre todos os Galileus porque essas coisas padeceram? (2). Não, vos digo; mas se não vos arrependeis, perecereis do mesmo modo (3). Et respondens dixit illis putatis quod hii Galilaei prae omnibus Galilaeis peccatores fuerunt quia talia passi sunt Non dico vobis sed nisi paenitentiam habueritis omnes similiter peribitis. Jesus faz uma reflexão que podemos chamar filosófico-religiosa e universal dessas calamidades: os galileus assim tratados pela severa justiça romana não eram os mais culpados ou pecadores entre os galileus para sofrer semelhante castigo. Esperavam seus interlocutores uma resposta política de condenação do poder romano por sua crueldade, o que Jesus não fez. Pelo contrário, ele acrescentou um novo caso de morte como era o da torre e sobre o qual não tinham pedido sua opinião. Tudo para oferecer uma reflexão sobre o bem e o mal e sobre o castigo pela conduta errada dos assim atingidos pelo funesto acontecimento. A morte, mesmo violenta, não tem como causa última a conduta humana pecaminosa. Esta é a primeira conclusão da resposta de Jesus. Ou seja, os maus nem sempre são punidos imediatamente. A espera é uma das características da bondade divina que podemos chamar de misericórdia. O texto grego usa uma forma incorreta de comparativo tomado diretamente da idiossincrasia semita: Pensais que esses mortos eram pecadores perto de (literalmente) todos os galileus?

A TORRE DE SILOÉ: Ou aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloé e matou. Pensais que foram devedores (pecadores) mais do que todos os habitantes em Jerusalém? (4). Não, vos digo; mas se não vos arrependeis, todos da mesma maneira perecereis (5). Sicut illi decem et octo supra quos cecidit turris in Siloam et occidit eos putatis quia et ipsi debitores fuerunt praeter omnes homines habitantes in Hierusalem. Non dico vobis sed si non paenitentiam egeritis omnes similiter peribitis. A arqueologia descobriu restos de uma torre na parte norte oriental perto do lugar onde estava a piscina de Siloé (Jo, 9,7) e a chamada primeira muralha. Não temos nenhuma outra fonte de informação sobre este calamitoso sucesso. Se no caso anterior foi uma decisão humana a causa da morte, neste último caso foi um sucesso natural, não imputável diretamente a mandatos e determinações humanas. O número de vítimas neste caso parece maior e eram praticamente habitantes todos eles de Jerusalém. Do mesmo modo, usa essa forma de comparativo com os soterrados pela torre: Pensais que esses se tornaram DEVEDORES (sic no ofeileitai [<3781>= debitores] grego) em relação a todos os habitantes de Jerusalém? A palavra devedores indica também um texto original semítico, pois devedor nessa língua era sinônimo de pecador, tal como o vemos no Pai Nosso de Mateus em seu original: perdoa nossas dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores (Mt 6,12). Os judeus tinham como coisa certa que os justos (= corretos) eram abençoados por Deus neste mundo e os pecadores castigados com diversas doenças e enfermidades, entre elas a morte, segundo vemos em Jo 9,2 a respeito do cego de nascença. Esta é a base sobre a qual Jesus edifica sua doutrina. 1º ) Os que sofrem calamidades não são mais culpados do que aqueles que aparentemente estão livres das mesmas. Portanto a doença e a morte não são necessariamente produtos do pecado individual ou coletivo. 2º) A necessidade do arrependimento: os dois casos de infortúnio são exemplos do que acontecerá necessariamente a todos os que não se arrependem. UMA EXPLICAÇÃO: A que pessoas se refere Jesus ao dizer que todos perecerão da mesma maneira? Eram os contemporâneos de Jesus ou somos também nós, os incluídos? Logicamente Jesus fala a seus conterrâneos que são galileus e seus contemporâneos que são os judeus, especialmente os de Jerusalém. Cremos que nessas palavras de Jesus está implícita uma profecia sobre o que aconteceria na Palestina e em Jerusalém na guerra contra os romanos. Somente em Jerusalém mais de 300 mil judeus pereceram no sítio da cidade. E praticamente os que não morreram foram vendidos como escravos. Por isso o arrependimento está na linha do que o Batista pedia com sua proclama: Arrependei-vos porque o reino dos céus está próximo ( Mt 3, 2). Ou como Lucas narra,  proclamando um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados (Lc 3,3). Por isso Jesus adiciona uma parábola em que explica o que iria acontecer em futuras e próximas datas.

A PARÁBOLA:Então lhes diziaesta parábola: Alguém tinha uma figueira plantada na sua vinha e veio procurando fruto nela, e não encontrou (6). Pelo que disse ao podador: eis que três anos venho procurando fruto nesta figueira e não encontro. Corta-a para que, improdutiva, não ocupe a terra (7). Ele, porém, tendo respondido, diz-lhe: Senhor, deixa-a também este ano até que cave ao redor dela e ponha estrume (8). E certamente se der fruto (espera); porém, se não, no  futuro a cortarás (9). Dicebat autem hanc similitudinem arborem fici habebat quidam plantatam in vinea sua et venit quaerens fructum in illa et non invenit. Dixit autem ad cultorem vineae ecce anni tres sunt ex quo venio quaerens fructum in ficulnea hac et non invenio succide ergo illam ut quid etiam terram occupat; et si quidem fecerit fructum sin autem in futurum succides eam. Era costume plantar figueiras nos vinhedos, sem que isso fosse contrário à lei deuteronômica (22,9): Não semearás a tua vinha com duas espécies de semente, para que não degenere o fruto da semente que semeaste e a messe da vinha. Os rabinos afirmavam que as figueiras não eram sementes e que a lei não se referia a semelhantes árvores, de modo que era comum encontrar tanto figueiras como oliveiras dentro dos campos de videiras. Por outra parte, uma figueira precisava de três anos para dar os primeiros frutos. Daí a espera pedida pelo viticultor para ver se no quarto ano ela ofereceria o fruto esperado. Caso isso não acontecesse podia ser cortada como pedia o dono. Evidentemente a figueira era o povo de Israel. O podador (ampelourgos grego), ou vinhateiro, pede mais um ano. Ele sabia como é difícil seguir ao pé da letra os ciclos vitais e pede mais um ano para ver se a figueira era definitivamente estéril ou não. Caso a esterilidade fosse confirmada, concordava com o dono em que não podia ocupar um lugar inútil, pelo improdutivo do mesmo, quando com outra semente daria o fruto esperado.

EXPLICAÇÃO: A pequena comparação é uma parábola ou uma alegoria? Cremos que alguns dos elementos são verdadeiramente alegóricos e que não devemos contentar-nos com a simples moral da história. A parábola está unida à destruição de todos: da mesma forma perecereis (5). É uma profecia ou uma realidade que serve para todos os homens e todas as épocas? Cremos que a primeira opção é a verdadeira. Independentemente de quem seja o podador ou cuidador da vinha, esta é a última oportunidade que Israel tem para aceitar o Messias de paz a ele enviado e que os representantes do povo rejeitarão. Consequentemente, aferrados a um messias guerreiro e rejeitando a paz do verdadeiro, eles cavarão a sua ruína perante o poder romano, que os arrancará da terra num desterro que durará dois mil anos. Perecerão do mesmo modo que os galileus; e as torres da muralha de Jerusalém cairão sobre seus habitantes, como aconteceu na realidade. A penitência exigida é a transformação do modo de pensar, e, portanto de agir, respeito ao problema principal que era o Messias esperado. Os cristãos que acreditaram nas palavras de Jesus, fugiram em tempo e evitaram a fome e a morte que acompanhou a maioria dos judeus.

PISTAS: 1) Podemos desses casos particulares extrapolar o nosso pensamento sobre o problema do mal no mundo. As guerras, a violência, os nacionalismos extremos, a miséria, o trânsito, as drogas são causa de morte de muitos que, logicamente, não são culpáveis como são mulheres e crianças de modo especial. Haverá culpados evidentemente. Mas mesmo os últimos merecem uma sorte tão definitiva como é a perda da vida sem retorno? Que dizer da pena de morte? Há alguém que possa se arrogar o direito de matar, mesmo a quem é culpado do mesmo crime? São questões que o mundo moderno responde negativamente.

2) E que dizer dos abortamentos voluntários? É ou não é uma vida humana? Porque a interrupção do embaraço, como eufemisticamente falam os que sentem vergonha em nomear claramente o aborto voluntário, é sobre algo ou alguém completamente inocente. Se é alguém é uma vida humana e os que defendem a injustiça da pena de morte deveriam defender a injustiça do abortamento. E se é algo unicamente, uma coisa, quando é que essa coisa se transforma em ser humano? Se a resposta é não sabemos, como diante de semelhante ignorância nos atrevemos a dizer que ainda não é? E, portanto, tampouco se pode aplicar a dúvida de que talvez não seja, porque pode ser. Há algum caçador que se atreva, sem saber com certeza se o que se move atrás da mota é um animal ou um colega, a atirar porque não distingue com clareza o objeto na sua frente? E caso o morto seja um colega, poderá servir-se dessa incerteza como causa suficiente para justificar o homicídio culposo perante um juiz ou um jurado?   Precisamente hoje que até os agnósticos e ateus estão a favor da defesa da vida, infelizmente são 50 milhões de vidas incipientes (nisso pelo menos todos concordam) descartadas no mundo inteiro, o que, em determinados países de envelhecimento coletivo, se tornaria um desperdício  e seria uma loucura social livrar-se de quem poderia renovar a juventude e a vida.

3) Deus está ausente de atos diretos como castigo a pecadores porque também os justos entrariam dentro do programa. Ele prefere que a chuva e o sol beneficiem a todos por igual. Falar em castigo, é não entender o maior atributo divino referente às relações com os homens: a misericórdia, que quer que todos se arrependam e sejam salvos; porque o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido (Lc 19, 11). Paulo dá uma razão para o aparente castigo: Entreguemos tal homem a Satanás para a perda de sua carne a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor (1 Cor 5, 5).




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ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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