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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com
. Evangelho de 04/07/2010 - XIV Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 27/06/2010 - XIII Domingo do Tempo Comum


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04.07.2010
SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO - ANO C

__ “OS DISCÍPULOS MENSAGEIROS DA SALVAÇÃO” __

Ambientação: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! A celebração de hoje é antiquíssima; foi inscrita no Santoral Romano muito antes da festa do Natal. No século IV já se celebravam três missas, uma em São Pedro no Vaticano, outra em São Paulo, fora dos muros, a terceira nas catacumbas de São Sebastião, onde provavelmente estiveram escondidos por algum tempo os corpos dos dois apóstolos. Entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (Atos 12,1-11): - "Agora vejo que o Senhor mandou verdadeiramente o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus."

SALMO RESPONSORIAL (Sl 33/34): - "De todos os temores me livrou o Senhor Deus."

SEGUNDA LEITURA (2 Timóteo 4,6-8.17-18): - "O Senhor me salvará de todo mal e me preservará para o seu Reino celestial. A ele a glória por toda a eternidade! Amém."

EVANGELHO (Mateus 16,13-19): - "E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela."



Homilia do Diácono José da Cruz - SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO - (Ano C)

AS COLUNAS DA IGREJA

Festa de São Pedro e São Paulo, que celebramos nesse domingo, nos faz pensar na origem de nossas comunidades. Como tudo começou? Quando foi a primeira celebração, quem fez? Como é que a comunidade cresceu e se desenvolveu para chegar aos dias de hoje? Uma coisa é muito certa, o fundador ou fundadores, deve ter feito uma experiência muito profunda com Jesus Cristo, pois sem isso, a comunidade não teria um alicerce, alguém em quem apoiar-se para poder crescer e cumprir a sua missão.

Comecemos a falar primeiro de Paulo, cuja teologia, isso é, o modo como ele começou a pensar as coisas de Deus, depois do encontro com Jesus no caminho para Damasco, foi tão marcante na vida das comunidades, que esse apóstolo é mencionado como o segundo fundador da nossa Igreja. De fato, seria difícil pensarmos em uma igreja universal, presente no mundo inteiro, em outras culturas e nações, sem nos lembrar de Paulo, aquele que pregou aos gentios que eram pessoas de outra cultura. Paulo não ficou só na mística, se assim o fizesse, teria fundado uma outra religião e arrastaria milhares de adeptos, porém, sistematizou alguns pontos doutrinários importantes, organizou as comunidades que havia iniciado, e o mais bonito, mesmo pensando um pouco diferente do Chefe dos Apóstolos, manteve-se firme em comunhão com ele e os irmãos da Igreja de Jerusalém, com quem aliás, sempre foi solidário , ao organizar coletas que levava para a Igreja mãe.

São Paulo é o modelo fiel do cristão autêntico, que faz a experiência com Jesus, se encanta com o seu ensinamento, desfaz o seu projeto de vida por causa dele e torna-se um fiel seguidor do evangelho, dando por ele a própria vida como aconteceu em seu martírio.São Paulo sempre acreditou nas comunidades, mesmo quando havia indícios de desunião, problemas internos, contendas e divisões, acreditava nas pessoas e mantinha com elas uma boa relação, mesmo que se tratasse de Pedro, que tinha uma linha mais tradicionalista, causa de algumas divergências bastante sérias entre ambos mas Paulo nunca deixou de amá-lo por causa disso. Ele mesmo manifestava essa sua flexibilidade, quando afirmava que se fazia um com todos e não tinha dificuldade de conviver com as pessoas. Outra coisa importante na pessoa de Paulo, é que ele promoveu uma ação evangelizadora em ambiente hostil á Cristo e ao seu evangelho, era corajoso e nunca teve medo de anunciar a Verdade. Isso nos leva a pensar que muitas vezes somos negligentes, quando ficamos esperando que as pessoas venham procurar nossa pastoral ou movimento, parece que a gente não se sente seguro para falar do evangelho no meio do mundo, lá onde as pessoas precisam escutar esse anúncio, porque achamos que não vão gostar e que algumas vão ser contra. Se São Paulo pensasse assim, milhares de pessoas, ontem e hoje, não teriam conhecido a Jesus.

São Pedro é chamado o príncipe dos apóstolos, isso é, aquele que iniciou o apostolado, e vemos no evangelho de hoje, porque o próprio Cristo o constituiu chefe da sua igreja. Ele conseguiu enxergar em Jesus algo muito mais do que se falava, o povo via nele um Messias Profeta, comparável a João Batista ou a Elias, outro grande profeta na História de Israel, mas esse pensamento era fruto de uma ideologia, e a era messiânica que todos aguardavam com ansiedade, representava uma nova política, uma inversão do quadro, o Messias era um libertador Político, enviado por Deus sim, porém, com uma missão terrena.

O apóstolo Pedro, que fala em nome do grupo, consegue fazer essa transição, do Messias Histórico e Ideológico, para o Messias Espiritual, ele não era enviado por Deus mas sim o próprio Deus. O que Jesus falava e fazia, todos viam, e a partir disso embalavam o sonho e a esperança de dias melhores para o povo de Israel, mas sempre em uma perspectiva terrena.

A confissão de Pedro manifesta pela primeira vez no meio do grupo, a Fé em uma Salvação que supera toda e qualquer realização humana, onde o homem atinge a plenitude do seu ser, divinizando aquilo que é humano. Cesaréia de Filipe é terra de pagãos, cercado por rochas sobre as quais há edificações habitadas pela elite do império romano. A igreja de Cristo está no meio do mundo, porém edificada sobre a fé professada por toda comunidade, que tem como base a fé professada por Pedro, naquele dia.

Como Pedro e Paulo, que sejamos nessa igreja um apoio seguro para os que ainda não crêem, porque não conhecem a Cristo e acima de tudo, nunca nos esqueçamos que Jesus Cristo edificou o reino sobre pessoas como Pedro e Paulo, instrumentos aparentemente fracos, mas que pela ação da graça operante e santificante do Batismo que receberam, tornaram-se perenes, transpondo fronteiras e todas as barreiras que separa os homens, para anunciar Jesus Cristo, o Filho de Deus, aquele que plenificou o nosso existir. (São Pedro e São Paulo MATEUS 16, 13-19)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa - SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO (Ano C)

Viva o Papa!

Tu és o Cristo”, eis a profissão de fé de Pedro. “Tu és Pedro”, eis a demonstração de que Deus confia nos homens. Na clausura do Ano Sacerdotal, o Papa Bento XVI falava da audácia de Deus, que consiste em confiar nos homens a tal ponto de fazer deles instrumentos e canais de graça. Realmente, Deus confia em nós! Não nos necessita, mas quis necessitar de nós.

São Pedro nasceu em Betsaida, cidade da Galiléia. Conheceu Jesus através de seu irmão André. Jesus “fixando nele o olhar” (Jo 1,42) o chamou para segui-lo. O olhar carinhoso de Cristo devia ser arrebatador, convincente e encerrava um radicalismo de entrega a Deus atraente. Aquele olhar transformou Pedro, agora chamado Cefas, pedra, Pedro. De simples pescador converte-se num pescador de homens. Foi o vigário de Cristo na terra quando ele, o Senhor, já não estava entre os seus em corpo mortal.

Jesus quis instituir a sua Igreja tendo Pedro e seus sucessores à frente dela, e isso para sempre. Pedro, Lino, Cleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleutério, Vítor,… Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI: 266 papas, 265 sucessores de São Pedro. Que maravilha! Cheios de entusiasmo professemos a nossa fé nesta Igreja, que é “Una, Santa, Católica e Apostólica, edificada por Jesus Cristo, sociedade visível instituída com órgãos hierárquicos e comunidade espiritual simultaneamente (…); fundada sobre os Apóstolos e transmitindo de geração em geração a sua palavra sempre viva e os seus poderes de Pastores no Sucessor de Pedro e nos Bispos em comunhão com ele; perpetuamente assistida pelo Espírito Santo” (Paulo VI, Credo do Povo de Deus).

S. Jerônimo expressou firmemente a sua adesão ao Papa com as seguintes palavras: “não sigo nenhum primado a não ser o de Cristo; por isso ponho-me em comunhão com a Sua Santidade, ou seja, com a cátedra de Pedro. Sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja”.

A história da Igreja – são já dois mil anos! – é uma demonstração de força e de debilidade, também no que se refere à história do papado. Graças a Deus, o século XX está cheio de grandes Papas, a começar por S. Pio X no começo do século culminando com João Paulo II. Todos nós somos testemunhas também da bondade e da inteireza do atual Romano Pontífice, Bento XVI: quanta fortaleza, quanto amor a Deus, quantas lutas para defender a Santa Igreja. A maioria dos Papas foram homens magníficos, cheios de Deus e entregues ao serviço do rebanho a eles confiado.

A Igreja é santa, é guiada e sustentada por Deus, nada a pode derrotar. É Santa, os pecadores somos nós; Deus a fundamentou de tal maneira que nem o inferno e seus demônios, nem os homens, poderão derrotá-la. A Igreja, esposa de Cristo, chegará à Parusia. Outro fato maravilhoso é que os Papas, mais santos ou menos santos, sempre guardaram intacto o depósito da fé. Deus garante o pastoreio da Igreja através desses homens que ele mesmo escolheu. É fato e é dogma de fé: o Papa quando fala sobre coisas de fé e de moral com a sua autoridade de Supremo Pastor do rebanho não pode errar, não pode equivocar-se.

O Papa é sempre o bispo de Roma. Deus quis – em sua providência – que Roma tivesse esse significado especial na história da Igreja peregrina. O Romano Pontífice como vigário de Cristo é o administrador de Cristo aqui na terra, como sucessor de Pedro leva consigo toda a autoridade que Cristo confiou ao mesmo Pedro para apascentar o rebanho do Senhor. S. Josemaria Escrivá dizia que “o amor ao Romano Pontífice há de ser em nós uma bela paixão, porque nele vemos Cristo”.

O católico deve estar sempre perto do Papa: escutá-lo, apoiá-lo, rezar por ele e suas intenções. Não podemos romper a unidade católica: todos com o Papa! De fato, para estar em plena comunhão com a Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, é preciso professar a mesma fé, celebrar os mesmos sacramentos e estar unidos à hierarquia cujo ponto principal é o Papa. “Sou católico, vivo a minha fé” (Edições CNBB), um Compêndio da Doutrina elaborado pela Conferência Episcopal, quando se pergunta “Quem é o Papa para nós, católicos?” responde da seguinte maneira: “o Papa é o sucessor do apóstolo Pedro, o bispo de Roma que Jesus constituiu como “perpétuo e visível fundamento da unidade” (…) é o pastor de toda a Igreja. (…) tem a missão de confirmar toda a Igreja na fé, continuando a mesma tarefa que Cristo confiou a Pedro (…) Todo católico, além de conhecer e viver a Palavra de Deus, de dar testemunho da sua fé em Cristo, de participar da comunidade eclesial, espaço de testemunho, de serviço, de diálogo e de anúncio, ama e respeita o Papa e os bispos como seus legítimos pastores. Ora por eles e obedece às orientações da Igreja Católica” (V,15)

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – Solenidade de São Pedro e São Paulo - (Ano C)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Epístola (2 Tm 4, 6-8. 17-18)

Pois eu estou sendo oferecido em libação e a ocasião de minha partida tem chegado (6). Ego enim iam delibor et tempus meae resolutionis instat. OFEERECIDO EM LIBAÇÃO: O verbo spendö [<5743>=delibare] significa derramar, fazer uma libação, e figuradamente, na passiva, de uma pessoa cujo sangue é derramado em morte violenta por causa de Deus. Sai duas vezes no NT. Na segunda é em Fp 2,17:Mesmo que eu seja oferecido por libação [spendomai]sobre o sacrifício. É o mesmo Paulo que fala e que claramente usa com o mesmo sentido o verbo em questão. OCASIÃO: A palavra Kairos [<2540>=tempus] é o momento propício, que temos traduzido por ocasião. PARTIDA: em grego analysis [<359>=resolutio] dissolução, saída, especialmente de um barco, soltar amarras. Paulo está preso em Roma, desamparado de todos sem esperança de libertação. Era o ano de 67 pouco antes de sua morte. Antes desta em que derramou seu sangue por causa do evangelho, escreve esta carta pedindo a Timóteo para que lhe acompanhe nos seus dias finais.

A luta, a boa, lutei. A corrida completei, a fé guardei (7). Bonum certamen certavi cursum consummavi fidem servavi. LUTA: [aglön<73>=certamen] o significado é assembleia, o lugar onde se realiza a assembleia, especialmente para os jogos, a arena dos mesmos, daí a luta, e em geral uma luta ou combate e finalmente uma ação legal ou julgamento. Aqui é claro que Paulo considera sua vida como um combate contínuo contra o mal, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes (Ef 6, 12). O evangelho encontra um inimigo terrível nas verdadeiras forças do mal que não são a carne e sangue [os homens], mas as potestades celestes, ou seja, o próprio Satanás cujo reino Jesus previa como caindo (Lc 10, 18). Só assim descobriremos como a Igreja é perseguida, aparentemente sem motivo ou razão suficiente, como para ser o sangue de seus mártires realmente libados no terreno da História. Isso abre uma porta à interpretação da História do ponto de vista sobrenatural, em que existem momentos como na vida de Jesus dos quais podemos dizer como o Senhor: esta é a hora e o poder das trevas (Lc 22, 63). E Paulo continua sua comparação com o espetáculo dos jogos antigos como se fosse um gladiador que agora entra na corrida das bigas e quadrigas do circo, tudo para conservar sua fé naturalmente na missão de Cristo.

Do resto, me está reservada a coroa da justiça que me dará o Senhor naquele dia, o justo juiz; pois não só a mim, mas a todos os que amam seu advento (8). In reliquo reposita est mihi iustitiae corona quam reddet mihi Dominus in illa die iustus iudex non solum autem mihi sed et his qui diligunt adventum eius.Porém o triunfo final será sempre o triunfo do bem, onde a coroa da justiça, isto é, o prêmio [estamos dentro da arena da competição] a levará unicamente quem tiver competido com a regra do bem-fazer, ou seja, de quem cuidou de cumprir os mandatos do Senhor que constitui a única justiça válida e digna de recompensa. Por isso, a recompensa vem do Senhor, como justo juiz. E esta vitória não é só de Paulo, mas de todos os que amam ou estão esperando esse seu último advento ou presença entre a humanidade.

Pois o Senhor esteve presente e me deu forças para que por meu meio o anúncio fosse completado e o ouvissem todos os gentios e fui libertado da boca do leão (17). Dominus autem mihi adstitit et confortavit me ut per me praedicatio impleatur et audiant omnes gentes et liberatus sum de ore leonis. Nos versículos que faltam nesta leitura Paulo se queixa de sua solidão. Ninguém o visita, ninguém o ajuda. Mas ele encontrou um advogado no Senhor. Foi tal a sua defesa unicamente com a ajuda do paracletos [o advogado defensor prometido por Jesus] que serviu para dar a conhecer o evangelho entre os gentios como aprece na sua defesa diante do rei Agripa (At 25, 13 ss). E diz que foi libertado da boca do leão, ou seja, até agora nessa primeira audiência não foi condenado, como lemos em Sl 22,21: salva-me das faces do leão e talvez tenha em conta o castigo dado a Daniel na cova dos leões do qual o anjo de Jahveh o libertou, mas fizeram pedaços dos corpos de seus inimigos (Dn cap 6).

E me libertará o Senhor de toda obra má e salvará para seu reino, o do céu, ao qual a glória para os séculos dos séculos. Amém (18). Liberabit me Dominus ab omni opere malo et salvum faciet in regnum suum caeleste cui gloria in saecula saeculorum amen. Paulo fala num futuro que ele vê próximo, pois sua morte está já às portas, já que terminou a carreira e finalizou o combate (ver 7). E nessa visão, tem confiança de que Deus [o Senhor, pois Cristo é o Senhor Jesus] liberta-lo-á de toda espécie de mal e o levará ao Reino definitivo que segundo Paulo é o que está no céu [epouranios <2032>=caelestis] ou celeste, coisa oposta a epi tës gës [sobre a terra ou terrestre]. Finalmente, termina com uma doxologia: Glória [doxa], honra ou louvor a esse Deus por sempre. A frase eis tous aiönas tön aiönion tem em latim a tradução de pelos séculos dos séculos e podemos traduzi-la para sempre e por sempre, o que geralmente é por sempre jamais.

Evangelho (Mt 16, 13-19)
PEDRO E PAULO APÓSTOLOS

INTRODUÇÃO: Este evangelho é o primeiro IBOPE do qual temos notícia. A pergunta é: Quem dizem os homens que sou eu, como Filho do Homem? (13). Dois são os elementos de estudo principais derivados deste evangelho: Ekklësia e Petros. Estudaremos o texto comparando-o com os paralelos de Marcos 8, 27-30 e Lucas 9, 18-21. É um texto, o de Mateus, fundamental, que ilumina biblicamente a primitiva Igreja tal e como foi fundada por Jesus. Ekklësia, palavra grega que significa assembleia, designa a comunidade nova, o novo povo de Deus, que ia substituir o antigo povo de Israel. Nela, Petros [a rocha], obtem o poder supremo, o chamado primado do reino que dirá a última palavra sobre quem está dentro e quem deve ser expulso da mesma Ekklësia. E esta estrutura seria a definitiva, sem que a morte [os portões do Ades], tanto de Pedro como de seus sucessores, pudesse contra ela. As consequências são essenciais para entender o cristianismo atual, como organização que contribui para a obra de salvação de Jesus.

A PERGUNTA: Tendo chegado então Jesus para as terras de Cesareia de Filipe, perguntou a seus discípulos dizendo: Quem dizem os homens ser eu, o Filho do homem? (13). Venit autem Iesus in partes Caesareae Philippi et interrogabat discipulos suos dicens quem dicunt homines esse Filium hominis. O LOCAL: Mateus diz que era perto de Cesaréia de Filipe. Na realidade, Jesus veio para os distritos [merë], lugares, ou terras que eram dessa cidade. Cesareia era o nome comum de várias cidades. Essencialmente, na Palestina, existiam duas Cesareias: a de Palestina, cidade romana, fundada por Herodes o Grande, situada na costa do Mediterrâneo, 37 Km ao sul do monte Carmelo e 100 Km ao noroeste de Jerusalém; e a Cesareia de Filipe, cidade gentílica, situada no sopé do monte Hermom, no Antilíbano, na cabeceira principal do rio Jordão, 32 Km ao norte da Galileia. Distava 40Km de Betsaida [dois dias de caminho desta última]. A antiga Panion também Pânias, que hoje ainda subsiste com o nome de Baniyas  numa aldeia das fontes do Jordão. Foi helenizada no século III aC e tinha uma população, também na região, que em sua maioria não era judia. Em 20 aC, Augusto a cedeu a Herodes, que nela construiu um grandioso templo dedicado ao imperador, feito de mármore branco, sobre uma rocha que dominava a cidade e a fértil planície da qual era capital a antigas Pânias, assim chamada porque perto da cidade existia uma gruta, dedicada desde tempos remotos, ao deus Pan ou Panion [deus dos pastores e das florestas]. A cidade foi ampliada e embelezada pelo tetrarca Filipe, que lhe deu o nome de Cesareia em honra de Tibério César. Por isso foi chamada de Cesaréia de Filipe. A partir do século II foi chamada de Cesareia de Pânias e no século IV em diante, o termo Cesareia desapareceu, permanecendo apenas o antigo Pânias. O templo sobre a rocha evidentemente era um símbolo que Jesus não devia desperdiçar. A PERGUNTA: Segundo o evangelho de Mateus, a tradução literal do versículo 13 seria: Quem me dizem os homens ser o Filho do Homem? Esse me [a mim] não está sendo traduzido na vulgata latina nem nas versões vernáculas. Numa linguagem mais elaborada a tradução seria: quem dizem os homens que Eu, o filho do homem, sou? É notório que nas três recensões da pergunta dos três sinóticos a pergunta é a mesma na primeira parte: quem me dizem os homens [as turbas em Lucas] ser? Ou quem dizem os homens que eu sou? Se tomarmos unicamente Mateus, a pergunta seria sobre o Filho do homem. Que ideia tinha a gente sobre esta figura tão frequentemente usada por Jesus como unida ao Reino por ele pregado e presidido? A expressão Filho do homem é semítica e significa em princípio um membro da comunidade humana, especialmente na sua fase de frágil mortal (Is 51, 12 e Jó 25, 6). A expressão Filho do homem se transforma em Daniel (7, 13 +) numa figura simbólica. De um significado plural [o povo dos eleitos] passa a tomar um significado singular como o Filho do homem [um homem] que recebe a glória e o poder que pertencem unicamente a Deus. Por isso foi dado a ele domínio e glória e um reino, de modo que todos os povos, nações e línguas o servissem; seu domínio é um domínio para sempre, que nunca passará e seu reino é um reino que nunca será destruído. Neste último sentido é o título preferido por Jesus, aparecendo setenta vezes na sua boca nos evangelhos. Nesta ocasião, Jesus queria saber qual era a opinião da gente sobre sua pessoa como pregador público de uma mensagem divina. Uma pergunta diretamente unida a seu rol como pregador de um reino que os discípulos esperavam fosse instaurado modo militari em Jerusalém, onde esperavam ir em breve. A figura cume desse reino era, sem dúvida, Jesus que a si mesmo se intitulava como Filho do Homem. FILHO DO HOMEM: ‘O ‘yiós tou anthrópou é uma tradução grega de BEM ADÁM   que ocorre 120 vezes no AT, das quais 96 em Ezequiel, e que é um sinônimo de homem. Em Ezequiel é a denominação que Javé dá ao próprio profeta e é sempre em vocativo. Representava a humanidade em contraste com Deus e aparentando a porção da mesma que sofreria a ira do mesmo. Grita e geme, ó filho do homem, porque ela[a notícia] será contra meu povo(Ez 21, 11). Nos salmos representa a fragilidade humana em comparação com a fortaleza de Deus (8, 4-6). Porém em Dn 7, 13 aparece um como, ou semelhante a um filho de homem [Kebar mas, ‘os Yiós anthropou, quase filius hominis]. Ele provém do céu e é destinado a possuir o domínio universal. Jesus precisamente o aplica à sua vinda futura em Mt 24, 30 e lugares paralelos. No NT a frase, com uma exceção [quando Estêvão vê o filho do homem], é sempre achada em frases, pronunciadas por Jesus.  Mateus usa a frase 30 vezes, Marcos 14, Lucas 25 e João 13. O ponto crucial é precisamente este trecho do evangelho de hoje.

A RESPOSTA: Eles, pois, disseram: Uns, certamente, João, o Batista, outros porém, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas(14). At illi dixerunt alii Iohannem Baptistam alii autem Heliam alii vero Hieremiam aut unum ex prophetis. A RESPOSTA: Podemos dividir esta em duas partes bem diferenciadas: uma, a geral, dada pelo povo, que praticamente indica Jesus como um homem de Deus, especialmente como um profeta comparável aos grandes de Israel; a outra é a resposta particular dada por Simão Pedro. Vamos estudar ambas as respostas. A) O Batista: A pregação de Jesus e dos discípulos era a mesma  de João: Arrependei-vos, o reino de Deus está próximo (Mt 3, 2) e oferecia um batismo como o do adusto homem do deserto (Jo 3, 22-23). O parecido  parentesco entre o Batista e Jesus (Lc 1, 36) talvez facilitasse a ideia de que Jesus era o Batista ressuscitado. Afirmava-se que João, o Batista, era Elias, pois a Escritura afirmava que o antigo profeta não tinha morrido, mas fora arrebatado aos céus no meio de uma tempestade de fogo (2Rs 2, 11). Essa era a razão pela qual se esperava a sua vinda. B) Elias propriamente dito. Segundo a tradição, Elias escreveu uma carta depois de ser arrebatado (2 Cr 21, 12) dirigida ao rei Jorão de Judá por sua conduta idolátrica já que tinha como esposa uma filha do ímpio rei Acab de Israel. Supunha-se, pois, que Elias voltaria antes do dia do Senhor, o dia da vingança e do castigo dos ímpios, dia da ira que está por vir (Jo 3, 7). Em Malaquias 3, 1 lemos: Eu vos envio meu mensageiro. Ele aplainará o caminho diante de mim. Por isso numa data posterior ao livro [após o ano 450 aC] identifica este mensageiro ou anjo, com Elias (seria no acrescentado capítulo 4, versículo 5, que não está no canônico Malaquias). Na sua complicada alegoria animalística da História, o livro apócrifo de Henoc (século II aC), descreve a aparição de Elias antes do juízo e da aparição do grande cordeiro apocalíptico. Isto é importante, visto que João falava do Cordeiro de Deus (Jo 1, 29). Em Eclo 48, 10, temos outra referência do século II aC: Tu que fostes designado nas censuras para os tempos a vir, para aplacar a cólera antes que ela se desencadeie, reconduzir o coração do pai para o filho (Lc 1, 17). Vistos os milagres que Jesus operava, os contemporâneos de Jesus pensavam que se não fosse Elias, que em vida realizou muitos e notáveis milagres, devia ser um profeta redivivo [aneste=despertado] pois a profecia tinha acabado e não era necessária nos tempos messiânicos. C) Jeremias: esta identificação é própria de Mateus, porque como vemos em 2 Mc 2, 4-7 temos Jeremias escondendo a arca e o altar dos perfumes na montanha de Moisés para afirmar: Este lugar ficará desconhecido até que Deus tenha consumado a reunião de seu povo e lhe tenha manifestado a sua misericórdia. E em 2 Mc 15, 13 lemos: Apareceu a Judas um homem de cabelos brancos…Onias disse: Este homem que ora pelo povo e pela cidade santa é Jeremias, o profeta de Deus. D) Um profeta. Lucas dirá que é um dos antigos profetas, redivivo. De fato, os judeus distinguiam entre antigos profetas como Josué, Juízes, Samuel, Davi e os profetas compreendidos no reinado de Davi, e os últimos profetas, a começar por Isaías e terminar com Malaquias. A que profeta se referem os discípulos como porta-voz da vox populi? Talvez Samuel que já nos tempos de Saul se mostrou redivivo em 1 Sm 28, 12 diante da médium de Endor? ( ver hades em parágrafo posterior). Ou talvez Moisés, pois a ele comparam a atuação de Jesus como vemos em Jo 5, 45-46 e 6, 31-32. Na realidade, os enviados oficiais perguntam a João se ele não era o Profeta [como conhecido personagem, esperado nos tempos messiânicos] de Dt 18, 15-18. Pois Javé disse a Moisés: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Por isso em 1 Mc 3, 45 aguardavam a vinda de um profeta que se pronunciasse a respeito. Este profeta, semelhante a Moisés, que deveria ser escutado em tudo (At 3, 22), era o próprio Jesus, coisa que o povo admitiu após a multiplicação dos pães (Jo 6, 14)  e na festa dos tabernáculos em Jerusalém(Jo 7, 40).

E VÓS? Diz-lhes: Vós, pois, quem dizeis que eu sou? (15). Dicit illis vos autem quem me esse dicitis. Que ideia têm eles, seus discípulos, do Filho do homem? Ou seja, que papel na vida pública, especialmente na vida religiosa, deve ter Jesus entre seus conterrâneos? Em qual dessas categorias deveria ser incluído o Mestre que foi seu guia e com o qual conviviam durante esse tempo?

PEDRO: Tendo respondido Simão Pedro disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente (16). Respondens Simon Petrus dixit tu es Christus Filius Dei vivi. O apóstolo-chefe é conhecido por diversos nomes entre os autores do NT. A) Simão. O nome original do apóstolo era Simão, forma abreviada de Simeão [famoso]. De fato, seu nome completo, ou como diríamos hoje, seu DNI era Simão bar Jonas [Simão, filho de Jonas], que a vulgata conserva como Simon bar Iona como vemos no versículo 17 do evangelho de hoje. Já o quarto evangelista diz dele que era filho de João [‘yiós Iöannou] (1, 42),  e que a vulgata traduz por filius Iona (?) que o próprio evangelista repete em 21, 15, como Simon Iöannou [Simão de João], com a vulgata agora traduzindo corretamente por  filius Ioannis ou de João. A dúvida existe: o pai era Jonas [pomba] ou João [ favor de Deus]? Talvez a solução seja a diferença entre o aramaico e o hebraico em cuja escrita as consoantes de Jonas e João eram as mesmas mas a pronúncia diferente. Jesus, sempre que fala com o apóstolo, usa o nome de Simão. Além do nome próprio ou, como dizem em inglês first name, temos outros personagens com o nome de Simão no NT: Simão, o zelotes, um dos doze (Mt 10, 4); Simão, o irmão do Senhor (Mt 13, 55); Simão, o leproso de Betânia (Mt 26, 6);  Simão, o fariseu (Lc 7, 40); Simão, o Cirineu( Mt 27, 32); Simão, pai de Judas, o Iscariotes (Jo 6, 71); Simão, mago (At 8, 9) e Simão de Jope (At 8, 18).  Com este nome de Simão é que Jesus o chama  B) Como Pedro em latim Petrus e em grego Petros. Uma única vez aparece na boca  de Jesus como vocativo ( Lc 22, 34). Esta única ocasião mais parece redacional que ipsissima verba Christi [as próprias palavras de Cristo]. Dentro da parte que poderíamos chamar redacional dos evangelhos,  encontramos a palavra Pedro em Mateus 16 vezes, em Marcos 11, em Lucas 9,  em João 9 e 3 nos Atos.  C) Como Simão Pedro em Mateus 3, em Marcos 1, em Lucas 2, em João 17 e  em Atos 4. D) Como Kefas [o aramaico por rocha] aparece em João 1, 42 e nas epístolas de Paulo, nas duas primeiras, Gálatas e 1 Coríntios e  sempre na boca de Paulo. Deste nome podemos deduzir que a palavra usada por Jesus foi Kefas e que, aos poucos, ela foi traduzida ao grego como Petros, com o mesmo significado; pois pedra seria lythos. Em latim petra também significa rocha, tendo o significado de pedra a palavra lápis ou calculus. A RESPOSTA: Em nome dos doze, Simão responde: Tu és o Cristo [Ungido], o Filho do Deus vivente. Vamos comparar esta resposta com a de Marcos: Tu és o Cristo (Mc 8, 29), e a de Lucas: O Cristo do (sic) Deus. Ninguém duvida de que a resposta mais breve de Marcos é a saída da boca de Pedro. A de Lucas pode ser redacional ao explicar a unção como feita pelo Deus único e a de Mateus uma explicação, como sempre, de um bom catequista, para entender as palavras do apóstolo e a bênção imediata de Jesus. Qual era o significado de Cristo [Chrestós em grego]? Logicamente devemos recorrer à palavra correspondente hebraica. Significa Ungido que seria a tradução da palavra aramaica Messiah. A palavra Messias era traduzida como Christos em grego (Jo 1, 41). Originariamente era uma referência de Há Kohen há Massiah [o sacerdote, o ungido], ou seja, o Sumo Sacerdote, em cuja cabeça tinha sido derramado o óleo, quando consagrado como líder espiritual da comunidade (Lv 4, 3). Daí que o Messias era alguém investido por Deus de uma responsabilidade espiritual especial. Nos tempos de Jesus, existia a ideia de que um descendente da casa de Davi seria o Messias que redimiria a humanidade; tradição que provinha dos tempos de Isaías. E foi o profeta Daniel em 9, 25 que deu uma nova esperança a esse ungido de Deus. Essa tradição encarava o Messias, não como um ser divino, mas apenas como um homem, um grande chefe, reformador social, que iniciaria uma era de paz perfeita. É o que os anjos prometeram aos pastores ao anunciarem o nascimento do Salvador que era o Messias (Lc 2, 14). O termo Filho de Deus vivo era título Messiânico, assim como Santo de Deus (Jo 6, 69). O nome de Filho de Deus é uma expressão usada por Oséias em 2, 1: Aos filhos de Israel…se lhes dirá filhos do Deus vivo, o qual concorda perfeitamente com a frase de Mateus e a confissão de Marta: Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vem a este mundo (Jo 11, 27). O Santo [consagrado] de Deus, era também um título Messiânico,  como vemos em Jo 6, 6, numa confissão feita pelo próprio Pedro. Talvez esta confissão de Pedro no quarto evangelho seja uma réplica mais ou menos exata da que hoje estudamos em Mateus. Para um judeu, o Messias era produto de uma eleição divina que confiava uma missão especialíssima ao seu ungido. Para um grego ou um romano, o título ia além da personalidade humana do Messias. Sabemos que os judeus admitiram Jesus como Messias [Chrestós], título que para os gentios era traduzido como Senhor [Kyrios]. Pois Deus o constituiu Senhor e Cristo [Kyrion autón kai Christon, de At 2, 36]. Sabia Pedro o significado substancial de suas palavras? Pelo que vemos em 16, 22, não. Porém Jesus se serviu das mesmas para fundar sua Igreja. A palavra Messias significa Ungido. Portanto, dizer tu és o Chirstós [Ungido] é a mesma coisa que dizer tu és o Messias. Quanto às palavras O Filho do Deus Vivente [muito melhor do que vivo], que seria dizer o mesmo que Filho do Deus verdadeiro, porque os outros deuses não existem, não vivem; os autores duvidam se são verdadeiramente palavras de Pedro ou foram acrescentadas pela tradição como parêntesis explicativo para distinguir entre o Messias, filho de Davi, um rei de âmbito regional, e o Messias, Filho do verdadeiro Deus, Senhor, portanto, do Universo. As razões aludidas pelos exegetas baseiam-se fundamentalmente nos lugares paralelos de Marcos [tu és o Ungido] e de Lucas [és o Ungido de Deus]. A declaração de filiação divina tem um amplo significado na tradição judaica, já que todo rei era considerado filho de Deus por virtude de seu ofício, como representante divino perante o povo. Mateus, como seus dois paralelos sinóticos, proíbe aos discípulos que digam a alguém que ele [Jesus] era o Cristo. Se o sentido de Filho de Deus fosse estrito, como o entendemos atualmente, a proibição devia recair sobre esta segunda parte, Jesus como Deus, muito mais escandalosa e até blasfema para os contemporâneos, como vemos que a contemplou Caifás (Mt 26, 36). Existia uma aposição entre Messias e Filho de Deus. O pontífice conjura Jesus, em nome do Deus, do vivo [notar a coincidência dos termos] a que declarasse se ele era o Messias, o Filho de Deus. E então Jesus explica a sua transcendência, dizendo estará sentado à direita do Poder [de Deus] e vindo sobre as nuvens do céu. Com isso, o seu messiado se transforma em Divindade; e, portanto, Caifás entende escutar uma blasfêmia já que um homem se declara divino. Mesmo que a resposta de Pedro que estudamos seja estritamente histórica, nem por isso deveria ter um significado transcendente, como era o de declarar Jesus unigênito do Pai.

RESPOSTA DE JESUS: Então tendo respondido Jesus disse-lhe: Bendito és Simão Bar Ionas porque carne nem sangue te revelou mas o meu Pai o (que está ) nos céus (17). Respondens autem Iesus dixit ei beatus es Simon Bar Iona quia caro et sanguis non revelavit tibi sed Pater meus qui in caelis est. BEMAVENTURADO ÉS: O makarismo indica um favor divino alcançado por Pedro que Jesus explicará posteriormente. A carne e o sangue não te revelaram o que disseste. Carne e sangue é uma expressão semítica para significar o homem todo, considerado como puramente homem. Foi o meu Pai [que habita] nos céus que revelou o Filho a Pedro. Mateus entra na mesma linha lógica que descreve João em 6, 36: Todo aquele que o Pai me der virá a mim. Jesus considerou esta declaração de Pedro de tal importância que afirma duas coisas que, sem dúvida, transformarão a personalidade e o ministério do apóstolo.

PEDRO E A IGREJA: E por isso te digo, que tu és rocha e e sobre esta rocha edificarei minha Igreja. E (os) portões do Hades não prevalecerão sobre ela (18). Et ego dico tibi quia tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam et portae inferi non praevalebunt adversum eam. A) Tu  es Petrus: Com esta primeira declaração, Jesus além de trocar o nome do apóstolo, que agora seria Kefas, como vemos nos primeiros escritos (Gálatas e 1Cor), significa seu novo ministério: ser fundamento de um edifício como a rocha era e é em todos os tempos. O nome de Simão seria trocado e usado em grego como Petros derivado da palavra Petra com o significado de rocha ou penhasco. A tradução do grego é muito mais esclarecedora pela força das palavras. Jesus afirma: sobre esta mesma rocha [taute te petra], ou sobre esta que é a rocha, edificarei a minha Igreja. Segundo as escrituras, a mudança de nome é um claro sinal de uma especial escolha e missão divinas. Abrão se tornará Abraão (Gn 17, 5). Jacó se tornará Israel (Gn 32, 29). Sarai será chamada Sara (Gn 17, 15). Gedeão recebeu o nome de Jerobaal (Jz 6, 32). A exceção do caso de Gedeão, todos os outros recebem diretamente de Deus e, coisa notável, com o nome novo nasce um povo novo em todos os casos: Abraão como pai de uma multidão de nações; Sara como matriz de reis poderosos; Israel foi o pai do povo do mesmo nome. Por isso, podemos deduzir que Rocha é não unicamente uma mudança de nome, mas também implica uma novidade de um povo, o povo da nova aliança, do Reinado do Senhor Jesus, que neste caso Mateus chama de sua Igreja. B) Ekklësia: Sobre esta Rocha edificarei a minha Igreja. As traduções que usam a palavra pedra estão deturpadas. Como vimos anteriormente, elas não dariam o verdadeiro sentido de rocha como fundamento sobre o qual se edifica uma casa. Jesus usa a palavra Igreja [Ekklësia] que só aparece uma outra vez em Mateus 18, 17 com o significado de assembleia e nunca em outros evangelhos. Só nos Atos aparece pela primeira vez em 5, 11 quando todos ficaram com grande temor ao conhecerem os fatos de Ananias e Safira. Igreja está aqui como reino visível, comunidade escatológica [no sentido dos últimos tempos] a substituir a sinagoga nestes tempos finais, constituída pelos fiéis que acreditam em Cristo. Há quem, citando as palavras de Paulo, que só admite um fundamento que é Cristo (1 Cor 3, 11) confunda a rocha com o(s) fundamento(s) e admite que também os outros apóstolos edificam sobre o mesmo fundamento diminuindo assim a importância de Pedro, pois Cristo é a pedra mestra [akrogoniaios e lapis, nada de petron ou petra!] (Ef 2, 20) {ver parágrafo anterior da RESPOSTA DE JESUS}. Mas esquecem que a pedra mestra não era o fundamento mas o remate do arco da qual dependia a estabilidade do mesmo. De fato, o grego akrogoniaios tem como raiz akron [tope] e gonia [ângulo], sem nada haver com o elemento pedra [rocha]. Neste caso particular de Pedro, Jesus toma do templo de Pan, de mármore branco, edificado sobre uma rocha nas fontes do Jordão, o simbolismo da igreja e do seu chefe, Pedro. C) O Hades: Esta Igreja que começou com Pedro-rocha será a última e eterna como reunião do povo eleito porque as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Se a afirmação de rocha como personalidade de Simão não fosse suficiente, Jesus persiste nos poderes e qualidades do seu apóstolo ao declarar seu papel primordial nessa grande assembleia dos eleitos, cuja perpetuidade descreve com palavras tomadas da tradição judaica. Fala das portas do inferno, ou melhor, portões do inferno. Há duas palavras em grego que são traduzidas por portas, mas que o inglês traduz por Gates [pyle] e doors [thyra]; em português poderíamos dizer portões e portas. O portão [pyle] era a entrada de uma cidade, de um templo, de um cárcere, de um reino. Assim a sublime porta do império turco. Pyle sai 9 vezes no NT. A porta [thyra] é a entrada ou a peça de madeira ou metal que fecha a mesma na casa e os interiores; também os sepulcros e os apriscos. É usada 18 vezes no NT. Chama a atenção que o pyle se usa em plural [pylai]. Porque os judeus admitiam 3 portas na cidade dos mortos, que corresponde ao Hades grego. Também podemos dizer que a maioria dos portões da cidade eram duplos com um espaço no meio para os guardas e os coletores de impostos. O Hades grego era o reino de uma ilha na nebulosa e subterrânea parte da terra, da qual era rei Aides [o invisível] ou Pluto [o rico]. Tanto bons como maus continuavam a existir como sombras em constante sede, nesse lugar tenebroso. Dentro do Hades, nesse mundo inferior [inferno] existia também um abismo chamado Tártaro, a região mais inferior da terra em que os malvados eram punidos. No judaísmo temos o Sheol do AT, que corresponderia ao Hades grego e a Gehena do NT, esta última identificada com o Tártaro. A essa expressão corresponde o Salmo 9, 14: Tu que me fazes subir das portas da morte. E ao Hades, região dos mortos , Atos 2, 27: Não deixarás a minha vida no Hades e 2, 31: Não foi deixada a vida dele [Cristo] no Hades, que as bíblias traduzem por morte ou região dos mortos. Como conclusão, podemos afirmar que a frase:  as portas do inferno não prevalecerão,  significa que a morte, o fim, jamais chegará a esta Igreja.

AS CHAVES: E dar-te-ei as chaves do Reino dos céus; portanto, se algo atares na terra, está atado nos céus e o que desatares sobre a terra estará desatado nos céus (19). Et tibi dabo claves regni caelorum et quodcumque ligaveris super terram erit ligatum in caelis et quodcumque solveris super terram erit solutum in caelis. Constituída a comunidade de Jesus como uma cidade com seus muros e portões próprios, só existe uma maneira de entrar: abrir as mesmas por meio de chaves, já que o assalto à mesma está descartado no parágrafo anterior [não prevalecerão]. Os levitas passavam a noite na casa de Deus, pois, a eles cabia guardá-la  e abri-la todas as manhãs (1 Cr 9, 27). Sobre o ombro do mordomo Eliacim, filho de Helcias, porá o Senhor Deus a chave da casa de Davi. Ele abrirá e ninguém fechará. Fechará e ninguém abrirá (Is 22, 22). Essa é a chave de Davi que está precisamente nas mãos do Filho do Homem do Apocalipse(3, 7). A similitude é tomada dos costumes da época. Ainda hoje os árabes carregam no ombro uma grande chave para indicar sua autoridade e potestade. A nenhum outro apóstolo foram dadas essas chaves que indicam o total domínio da Igreja. Como no parágrafo anterior, Pedro é singularmente favorecido, além de ser a rocha sobre a qual o fundamento da fé que é Cristo, edificará sua comunidade de crentes. Pedro terá as chaves para indicar quem deve ser incluído ou excluído. Estas chaves têm os seguintes significados: a) O chefe do palácio era quem recebia as chaves (Is 22, 22) e, portanto, era o dignatário de maior hierarquia. b) Se ligadas ao parágrafo posterior, as chaves servem par abrir e fechar, para admitir a entrada dos dignos e para expulsar os indignos. c) Mas também, seguindo o uso rabínico da época, as chaves eram o símbolo do ato de sentenciar questões religiosas como declarar lícita ou ilícita uma conduta. Concordam com esta interpretação as palavras de Jesus aos escribas: Ai de vós legistas, que tomastes as chaves do conhecimento; vós mesmos não entrastes e os que queriam entrar, vós os impedistes (Lc 11, 52). Os rabinos aplicavam a explicação da lei no sentido de declarar algo permitido ou proibido (Jo 21, 13-18). Agora serão Jesus e seus discípulos os que terão autoridade para representar o verdadeiro ensino. Mais: nesse caso o paralelo com as chaves indica que se trata de um verdadeiro poder e não de uma licença de ensino. É o poder que Mateus dá a comunidade na pessoa dos discípulos que têm de declarar quem é culpado de uma transgressão ou pecado, que justifica sua expulsão como membro da comum convivência. Na jurisprudência judaica da época, as chaves significam a faculdade que tinham os juízes de mandar para a prisão ou deixar livre um acusado. Poucos anos mais tarde, Rabi Neconia terminava seus sermões pedindo a Javé que não deixasse atado o que ele tinha desatado, nem desatado o que ele tinha atado; que não purificasse o que ele declarava impuro, nem tornasse impuro o que ele dissera ser puro. Em Mt 18, 18 este poder de excomungar um obstinado é dado, em termos gerais, à igreja, considerada como corpo jurídico, o que aqui é concedido em termos particulares a Pedro, o supremo pastor que deve governá-la em nome e com o amor de Jesus distribuído aos irmãos com dedicação (Jo 21,15-17 e 1 Pd 5,2).

COMENTÁRIOS: O texto é tão claro que os ortodoxos gregos  afirmam que, em suas dioceses, os bispos que confessam a verdadeira fé se integram em Pedro como sucessores e dele herdam o primado. Os evangélicos reconhecem a posição e a função privilegiada de Pedro nas origens da Igreja, mas não admitem sucessor e restringem os poderes à pessoa de Pedro. Os católicos fundamentam sua interpretação no versículo 18: A igreja é imortal, e seu fundamento deve perdurar sempre. Assim como ortodoxos e evangélicos admitem bispos presbíteros e diáconos, como sucessores dos primitivos homônimos, por que unicamente o princípio de unidade deve estar ausente, se é sobre essa rocha que foi fundada a Igreja? Com razão comentava um colega meu no sacerdócio: Nós, católicos, temos a certeza e o orgulho de sermos a única Igreja cristã, edificada sobre fundamento rochoso,  sobre Pedro (ver Mt 7,24). Daí que séculos mais tarde os latinos, com outro primado diferente de Pedro, afirmassem Ubi Petrus ibi Ecclesia Onde está Pedro aí está a Igreja. No caso de não levarmos o livre arbítrio da interpretação das escrituras ao extremo tão radical, que rejeitemos  toda outra autoridade que não seja a acrata da interpretação individual, não se entende por que se admitem sucessores dos apóstolos como são os bispos, rejeitando os sucessores de Pedro, cuja base escriturística é pelo menos tão evidente como a dos bispos, já que em Pedro está fundada a Igreja.

Pistas:

1) Deixemos a primeira pergunta – quem dizem os homens que sou eu?- Porque como está o mundo talvez a reposta muçulmana [um profeta anterior a Maomé] seja a mais próxima daquela dada pelos discípulos em Cesareia de Filipe. Vamos, pois, responder à segunda pergunta: E vós? Hoje não é suficiente a resposta de Pedro: O Messias, o esperado de Israel. A nossa deveria ser: O filho de Deus encarnado, que se entregou e morreu por mim (Gl 2, 20). Por isso, vivemos a vida presente pela fé no Filho de Deus.

2) Na verdade, essa imagem de Cristo que todos nós levamos dentro, desde o batismo, está, ou destroçada, ou escurecida. Como poderemos ser apóstolos se não sentimos sua presença dentro de nós? Como vender um produto do qual não estamos nós, os vendedores, convencidos?

3) A resposta de Jesus dada a Simão indica que a nossa resposta, admitindo seu senhorio total como Messias e como Filho de Deus, é também um dom do céu e que ela merece um makarismo especial. Não seremos os chefes, como Pedro, mas a Igreja estará fundada em nós e nas nossas famílias.

4) Além de Cristo, como figura central, temos Pedro, como figura destacada, por duas razões: por sua fé em Jesus e por sua lista de serviços como chefe da comunidade. A revelação de confessar Jesus como Messias Filho de Deus, é um dom do Pai e isso serve para todos nós. A chefia da comunidade eclesial é própria dele e continua em seus sucessores através dos séculos. A eles pertence o poder das chaves, jurídico e doutrinal, como o entende a Igreja católica. Não foi dado este poder aos outros discípulos e, portanto, devemos distingui-lo do poder evangelizador e de governo dado ao resto dos apóstolos.


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27.06.2010
XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C

__ “CRISTÃO É AQUELE QUE ESCOLHEU CRISTO E O SEGUE” __

Ambientação: Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! Jesus se apresenta como mestre e reune discípulos em torno de si. Para poder colaborar na Missão Divina do Messias, aquele que é chamado deve estar pronto a partilhar a vida e o destino de Jesus, reconhecendo-o e aceitando-o como uma forma pessoal de vida. A vida em comum com o "Mestre" transforma o "discípulo" em auxiliar de Jesus, prepara-o para sua tarefa e o põe em condições de difundir, com poderes divinos, o apelo de Deus à humanidade. Entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (1 Reis 19,16.19-21): - "Vai, mas volta, porque sabes o que te fiz"

SALMO RESPONSORIAL (Sl 15/16): - "Ó Senhor, sois minha herança para sempre!"

SEGUNDA LEITURA (Gálatas 5,1.13-18): - "Amarás o teu próximo como a ti mesmo."

EVANGELHO (Lucas 9,51-62): - "Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus."



- “QUEM VAI COM JESUS?”
    Reflexão do Evangelho por Diácono José da Cruz

Parece que o evangelista São Lucas gosta de provocar os cristãos da sua comunidade e das nossas também, pois depois de nos questionar que Jesus é o nosso, ele imagina que já demos a resposta certa como Pedro e assim, nos apresenta no evangelho desse 13º Domingo do Tempo Comum, esse Jesus que toma o caminho de Jerusalém, onde para muitos não é nenhuma novidade, já que está se aproximando o tempo da Páscoa Judaica e todo Judeu piedoso a quer, e deve celebrar na cidade Santa. Entretanto, para Jesus já está muito claro que, caminhar para Jerusalém é caminhar para a rejeição, condenação injusta e a morte, mas a sua decisão está tomada e nada vai muda-la.

Como vimos também na última reflexão, o seguimento de Jesus é uma proposta, que requer uma decisão, podemos vislumbrar isso em dois Sacramentos do Amor presentes em nossa igreja: o Matrimônio e da Ordem, ambos exigem uma decisão, que depois não poderá ser mudada, e de um certo modo ocorre com todos os que sentem-se despertos para o carisma do serviço nas comunidades, um dia se escuta o chamado e se decide servir  aos irmãos e irmãs, quando essa vocação é legítima, a pessoa nunca desiste, não há obstáculo que a faça voltar atrás. Cristianismo é isso, gente que decide, e sem medo enfrenta a tudo e a todos, para cumprir  a missão de servir, presente em seu coração. Os fatos narrados por Lucas nesse evangelho do 13º Domingo do Tempo Comum mostra-nos precisamente, o que ocorre quando esta decisão não é levada a sério, há muitos seguidores com essas características.

Há aqueles que não têm paciência, quando as coisas não dão certo, como João e Tiago, no momento em que os Samaritanos se recusaram receber Jesus, “Senhor, queres que façamos chover fogo do céu, sobre eles?”. Quantos pensamentos como este ás vezes não passa em nossa cabeça, quando o irmão nos decepciona na comunidade, em algum trabalho pastoral, se a praga ou o desejo oculto dos nossos corações, se concretizasse, penso que o fogaréu seria grande.... As pessoas nunca serão como nós queremos que elas sejam, nem por isso devemos deixar de amá-las, por isso Jesus repreendeu os discípulos que queriam intimidar os Samaritanos, “olha heim, você vai pro inferno se não aceitar Jesus”, se não vir para a nossa igreja ou para o nosso grupo”. Jesus colocou o discipulado como uma proposta, há cristãos que as vezes colocam como imposição.

Há alguns discípulos que estão atrás de segurança, são os exageradamente entusiasmados com a causa “Eu te seguirei para onde fores”, para esses, Jesus de Nazaré é um importante e poderosíssimo amuleto da sorte. Mas Jesus logo os desencoraja “...O Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. Na Pós Modernidade, discípulos com essas características lotam templos imensos, agregam milhões de adeptos, que um belo dia se decepcionará quando descobrirem que não têm segurança alguma no cristianismo.

E em outra categoria, estão os que seguem a Jesus, mas não o colocam como prioridade em suas vidas, “Eu te seguirei, mas primeiro me deixa eu ir enterrar meu pai” conheci alguém que me dizia “quando eu aposentar do serviço, quero me dedicar á igreja”, e outro ainda que argumentava “Tenho muitos problemas na família, que preciso resolver, depois disso terei mais tempo para a igreja”. Segundo esses argumentos, todas as pessoas que se dedicam ao discipulado na comunidade, não têm nenhum tipo de problema particular a ser resolvido, seriam aposentados, desocupados, o discipulado seria uma terapia ocupacional, que é apenas mais uma alternativa. “Deixai que os mortos enterrem seus mortos”. Ser cristão discípulo de Jesus, não é alienar-se dos problemas pessoais ou familiares, antes, é dar a eles um sentido novo, a partir do que se anuncia e se vive na comunidade.

E por último a turma  do MAS, aqueles cristãos que são capazes de dar a vida pelas comunidades, desde que as coisas estejam sempre de acordo com o que desejam,  “Eu te seguirei Senhor, MAS primeiro vou despedir dos meus familiares”. No caminho do discipulado, o seguidor de Jesus terá de passar por rupturas muitas vezes dolorosas. Trata-se de decisões tomadas no dia a dia, e que exigem a fidelidade ao evangelho, valor absoluto no discipulado. Não há lugar para sentimentos baratos, emoções e sensacionalismos de momento, ninguém precisa se despedir das pessoas queridas, para ser membro da comunidade, mas viver com elas uma relação totalmente nova.

Nesse sentido, a exortação do Senhor é muito séria: quem está com a mão no arado e olha para trás, são os que ficam avaliando a árdua caminhada, querendo resultados do seu trabalho, cobrando talvez das pessoas, as mudanças necessárias, são cristãos que se doam, mas cobram resultados da igreja, dos seus membros, das lideranças, e esta é uma atitude perigosa, porque no Reino nem sempre vemos os resultados do trabalho que fazemos, e a tentação de desistir, será sempre grande, e muitos, de fato irão desistir, ao olhar para trás... Estes não estão aptos para o Reino de Deus!

O Projeto de Jesus e seu Reino é VIDA, mas ele não está isento dos fracassos e tropeços, das decepções e desilusões, este é o caminho de Jesus, o Filho de Deus, Verbo Encarnado no meio dos homens, é o único que nos conduz ao Pai, fazendo-nos alcançar a plenitude do nosso Ser. O resto é atalho, que não leva a lugar nenhum... (13º Domingo do Tempo Comum – Lc 9, 51 – 62)

José da Cruz é diácono permanente da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim - e-mail:jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa - XIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Santos normais

Está claro que Tiago e João não pediram que fosse enviado o fogo do Espírito Santo sobre os samaritanos. Eles queriam é que aquele povoado de samaritanos com todos os seus moradores fossem queimados, consumidos, e se transformassem em carvõezinhos! Por isso Jesus os repreende. No entanto, é admirável a naturalidade dos Apóstolos em manifestar diante de Jesus aquilo que pensam e, ao mesmo tempo, é admirável a simplicidade do evangelista em não ocultar os defeitos dos Apóstolos.

Quando lemos biografias de santos e observemos que eles também tinham pecados, animemo-nos: também nós podemos ser santos! Digamos para nós mesmos: se esse foi santo, apesar dos pesares, eu também posso sê-lo. Há livro muito bom de J. Urteaga – cuja tradução portuguesa eu não encontrei – “Los defectos de los santos”, no qual o autor vai analisando exatamente esse aspecto: os defeitos dos santos.

A propósito, conta-se que um jovem escutou certa vez que tinha que ser santo. Resolveu, então, ir à igreja para ver como são os santos. Entrou numa paróquia e começou a olhar as imagens de santos que lá havia. A primeira imagem que ele observou foi a de um santo magro, com os olhos elevados ao céu e quase sem ligar para a terra, em contemplação profunda. Aquele jovem não gostou daquela santidade, parecia-lhe muito distante e um pouco estranha. Viu uma segunda imagem, barroca, com aqueles típicos arrebatamentos místicos, aquelas roupas que dão voltas e mais voltas ao redor do corpo, uns gestos nas mãos um tanto complicados. Tampouco gostou daquela santidade, parecia-lhe do século XVII e, por tanto, muito antiga. A terceira imagem era de um santo que chorava diante da imagem do Cristo Crucificado, fazia duras penitências e tinha um rosto um pouco deformado. O nosso jovem, ao contrário, sentia-se tão alegre e expansivo. Reflexivo e quase chegando à conclusão de que não podia ser santo, meio cabisbaixo e já saindo da igreja, viu que na parede rumo à porta, à altura da sua cabeça, estava uma imagem de um Menino Jesus bem gordinho nos braços de Maria e que ria e brincava com o manto de Nossa Senhora, que também sorria espontaneamente com o Menino. O nosso jovem se alegrou ao ver aquela imagem tão simpática e disse para si: “Eu quero ser santo como esse Menino”. Puxa vida, nada mais, nada menos!

Os santos são pessoas normais. Eles também percebiam a própria concupiscência, e lutavam. Tiago e João que, num ímpeto de ira, queriam pedir fogo do céu para queimar os pobres samaritanos, hoje são venerados como São Tiago e São João. Eram pessoas normais! Agostinho que antes de converter-se ao cristianismo teve um filho fora do casamento, hoje é venerado como Santo Agostinho! Pedro negou Jesus por três vezes e, no entanto, foi-lhe entregue o pastoreio de toda a Igreja e nós pedimos a sua intercessão na Ladainha de todos os Santos como São Pedro. E nós? Do jeito que nós somos, continuemos na luta por amar a Deus, por vencer os próprios defeitos. É verdade, talvez não sejamos canonizados (talvez sim!), mas – com certeza – ao menos canonizáveis. São Josemaria Escrivá, espanhol de caráter bastante forte e muito amável com todas as pessoas, costumava dizer que “a santidade está na luta”. Provemos essa receita: lutemos de verdade e, com a graça de Deus, chegaremos ao céu. Nós seremos santos que tiveram defeitos, mas, não importa, o importante é que lutemos até o fim.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – XIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Epístola (Gl 5, 1. 13-18)

INTRODUÇÃO: Na sua luta contra os judaizantes, que pretendiam ainda ser a circuncisão necessária para a salvação [justificação], Paulo argumenta, modo rabínico, de diversas maneiras, fundando suas premissas na Escritura, interpretada de modo singular. Uma dessas argumentações é a que encontramos na epístola de hoje. A Lei mosaica tratava principalmente de coisas corporais: circuncisão e pureza de alimentos. Era uma lei carnal, e como tal, uma servidão às concupiscências e desejos corporais. Já a fé, base da nova aliança, era uma lei que diretamente visava o Espírito [recebido no batismo] e, portanto, era lei de liberdade. E Paulo confirma a essência diferente das duas leis com o exemplo das apetências do corpo [suas obras] e os frutos do Espírito, estes todos dirigidos ao bem do próximo, porque a lei do Espírito está dirigida pelo amor e nesse amor não se necessita mandato particular, a não ser que o próximo deva ser considerado como desejamos tratar a nós mesmos. Logo devemos rejeitar a lei carnal como uma escravidão e gozar da liberdade que encontrados na lei do Espírito.

LIBERDADE CRISTÃ: Permanecei, pois, firmes na liberdade com a qual Cristo vos libertou (1). State et nolite iterum iugo servitutis contineri. LIBERDADE [eleutheria <1657>=libertas]. Paulo fala em que Deus é Espírito e onde está  o Espírito do Senhor aí há liberdade (2Cor 3, 17). Para entender o argumento paulino devemos ter uma ideia clara de quais eram as mentalidades do seu tempo. Em primeiro lugar, Paulo admitia uma dualidade de carne ou corpo, inclinado ao mal, e de espírito, como base do bem; corpo e espírito que constituiam a totalidade do homem. Se o homem estava inclinado ao mal a culpa era da carne, da lei do pecado (1 Rm 7, 23). Em segundo lugar, Deus como Espírito, era totalmente livre (2 Cor 3, 17), não determinado pelas paixões desordenadas do corpo. Em terceiro lugar, após o batismo, o espírito do homem estava dominado pelo Espírito de Deus (At 19, 2-3). Esse domínio era tal que o corpo estava como morto junto com suas paixões e se podia afirmar que quem tivesse recebido o Espírito estava livre  (2 Cor 3, 17) e unicamente nele reinava a lei do amor, que considera o outro como a si próprio (Gl 5, 14). Por isso, Paulo distingue entre obras da carne  (Gl 5, 19-21) e os frutos do Espírito (Gl 5, 22-23). Quem se diz dominado pelo Espírito não tem que seguir uma lei, pois a lei do Espírito é vida em Cristo Jesus e o livra da lei do pecado (Rm 8, 2). Guiados, pois pelo Espírito, os cristãos não estão sob a Lei (Gl 5, 18). Se isso é verdade do ponto de vista existencial, do ponto de vista legal, Paulo afirma que a liberdade foi conseguida por Cristo, de modo que compara o cristão com Isaac, filho de Sara, a livre; e o judeu com Ismael, filho da escrava Agar, sendo que estas mulheres representavam as duas alianças: Agar, o Sinai, com a Jerusalém terrestre da escravidão; e Sara, a Jerusalém celeste livre, que é nossa mãe (Gl 4, 26). Não somos mais escravos da Lei [da circuncisão], mas estamos livres, pois pertencemos unicamente a Cristo que pagou nosso resgate [apolytron] com o preço de seu sangue (1 Cor 6, 20 e 7, 23).

A LIBERDADE DO AMOR: Pois vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Somente não (é) a liberdade para incentivo na carne; mas através do amor servi mutuamente (13). Vos enim in libertatem vocati estis fratres tantum ne libertatem in occasionem detis carnis sed per caritatem servite invicem. Os gálatas eram, na sua imensa maioria, provenientes da gentilidade e, consequentemente, sua vocação foi feita pela fé em Cristo: logo em e para liberdade da Lei [Torah]. Porém é uma liberdade que exclui os apetites da carne [aformë <874>=occasio] na realidade estímulo, incentivo, aliciante, que temos traduzido como apetites, que a KJV traduz por ocasião ou oportunidade. Cremos que a tradução de incentivo é melhor que a de oportunidade escolhida também pela TEB. E Paulo termina com uma advertência positiva: A verdadeira liberdade é para fazer o bem escolhido como serviço ao próximo. Se escravos, o seremos voluntariamente como Cristo para servir em diakonia voluntária. Esta é a melhor maneira de fazer o bem: libertados do pecado, fostes feitos escravos da justiça (Rm 6, 18). Formados libertos do pecado, agora transformados em servos de Deus (Rm 6, 22) que para Paulo consiste na servidão do anúncio de Cristo como Senhor; e a si mesmo feito escravo para o serviço dos cristãos por amor a Jesus (2 Cor 4, 5).

O ÚNICO MANDATO: Porque toda Lei num mandato se cumpre: em amarás teu próximo como a ti mesmo (14). Omnis enim lex in uno sermone impletur diliges proximum tuum sicut te ipsum. LEI: [Nomos<3551>=lex] embora tenha um amplo significado em grego como lei em geral, preceito, mandato, costume, etc. É propriamente a tradução dos Setenta da palavra TORAH, que é o conjunto de mandatos divinamente inspirados, dado como norma de vida por Moisés. Geralmente é a lei mosaica a que se designa, especialmente por Paulo em suas epístolas. De modo especial é o mandato da circuncisão. MANDATO: [logos< 3056>=sermo] A palavra logos tem o sentido primário de palavra, mas também pode ser usada como decreto, mandato, ordem, profecia, declaração, aforismo, provérbio, máxima, narração, discurso, doutrina. Particularmente no quarto evangelho, Logos é a Palavra essencial de Deus, Jesus Cristo. Foi Heráclito (576-480 a.C) quem usou Logos como a  Razão divina ou o plano que coordena um Universo em contínua mudança. Aqui, logicamente, significa um preceito em particular que expressa toda a lei como num resumo concreto. Este preceito está claramente delineado em Lv 19, 18: Não te vingarás nem guardadarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. PRÓXIMO: [plësion <4139>=proximus] O próximo, que em grego é traduzido por Plësion [vizinho, contíguo], tem em hebraico a palavra Rea como expressão do mesmo com outras conotações. Segundo o comentário bíblico moderno do rabino Meir Matziliah, as palavras que designam companheiro, próximo e irmão são reaamith- ben- am- ah. Ah é irmão e era usado para todo israelita. Em Lv 19, 17-18 saem esses quatro termos ah (irmão) amith (companheiro), bem (filho) am (povo) e rea (próximo) A citação será: Não odiarás o teu irmão [ah <0251>] no teu coração; repreenderás a teu companheiro [amith <05997>] e por causa dele não levarás sobre ti pecado(17) . Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos [ben <01121>] do teu povo [am <05971>]; mas amarás o teu próximo [rea <07453>] como a ti mesmo. O texto do Levítico (19, 18) frequentemente citado de amarás o próximo como a ti mesmo é um texto negativo de não fazer o mal, pois começa com não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos de teu povo, mas amarás o teu amigo [rea em hebraico significa companheiro, irmão] como a ti mesmo. O grego traduz rea como plesion; a Vulgata como amicus e, este, como próximo, ou vizinho. A Nova Vulgata usa o proximum. Vemos que é um texto negativo impedindo atos de vingança ou de rancor. Mas Jesus, ao citar o mandato, dizendo que é semelhante ao primeiro, o transforma em amor positivo, amplamente descrito em Lucas como se demonstra com a parábola do bom samaritano. O próximo é todo aquele que necessita de nossa ajuda, sem distinção de qualquer classe. Ele deve ser amado como nos amamos a nós mesmos. E como mandato positivo, ele obriga sempre. Segundo o comentário do Senhor, este é o segundo mandato da Lei (Mt 22, 39), semelhante ao primeiro, pois tem sua base no amor. De modo que a Lei está contida nestes dois preceitos: amar a Deus e amar o próximo. A Deus, sem limite [sobre todas as coisas, até mais que a si mesmo] e ao próximo, como a nós mesmos. Esse é o caminho da vida e nele consiste a eternidade da mesma.

UM AVISO: Pois se mutuamente vos mordeis e devorais olhai para não vos destruir-vos mutuamente (15). Quod si invicem mordetis et comeditis videte ne ab invicem consumamini. Paulo usa a metáfora comum entre os judeus, para quem come a carne do inimigo era o mesmo que odiá-lo; e, portanto, querer destruí-lo. Nós falamos de comer o fígado, para ódio; e de comer à beijos, para o amor. Neste versículo, Paulo indica que a consequência do ódio ou rancor é a destruição mútua entre os membros de uma comunidade, que deveria ter como norma a dada por Jesus: Nisto conhecerão que sois meus discípulos se tiverdes amor uns aos outros (Jo 13, 35).

UMA ADVERTÊNCIA: Digo, pois; caminhai em espírito e a concupiscência da carne não levareis a término (16). Dico autem spiritu ambulate et desiderium carnis non perficietis.Os que se deixam levar pelo Espírito não se deixam arrastar pelos desejos da carne. O impulso do Espírito deve ser seguido pela sinergia ou cooperação constante da vontade humana, pois, do contrário, o fruto do Espírito seria nulo.

OPOSIÇÃO: Já que a carne se empenha contra o espírito, porém o espírito contra a carne pois eles se opõem mutuamente para que não façais as mesmas coisas que desejais (17). Caro enim concupiscit adversus spiritum spiritus autem adversus carnem haec enim invicem adversantur ut non quaecumque vultis illa faciatis. A oposição carne/espírito, como dissemos no início, continua durante a vida terrena como uma luta entre inimigos com objetivos contrários. O próprio Paulo é testemunha dessa luta que ele declara ser contra as forças espirituais do mal, especialmente pelo que toca à difusão do evangelho (Ef 6, 12);Mas pelo que toca à luta pessoal, Paulo também é de novo testemunha de que na sua carne não habita nenhuma dessas duas forças; pois o querer o bem está nele, porém não sou capaz de efetuá-lo (Rm 7, 18), já que encontra em seus membros uma lei contrária à lei da sua mente (Rm 7, 23) que o escraviza  como lei do pecado, inerente aos membros do seu corpo.

LIBERDADE DO ESPÍRITO: Mas se sois guiados pelo espírito não estais sob a Lei (18). Quod si spiritu ducimini non estis sub lege. Não podemos dar a esta afirmação um valor absoluto, como quem derroga toda norma e lei e tem liberdade absoluta; mas seu significado é que, se realmente somos conduzidos pelo Espírito, ele nos guia de forma que faremos o bem sem necessidade de uma lei que o determine e nos dirija. Existe uma ambiguidade ao traduzir espírito, pois pode ser o espírito do homem e também o Espírito que recebemos como participação da vida divina no batismo. Porém, cremos que, segundo a definição tripartida de Paulo: Corpo [söma], alma [psychë] e espírito [pveuma] (1 Ts 5, 23) este é o Espírito recebido no batismo, cuja origem é divina e não humana. E no mesmo Paulo encontramos o modo de operar do Espírito que produz frutos como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si mesmo. Esses frutos do Espírito não estavam ordenados na Lei que era totalmente negativa: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho. Pelo que diz respeito aos mandatos positivos temos o amor a Deus e, na segunda tábua, a honra devida aos pais. É por isso, que Paulo pode afirmar, num duplo sentido, que contra estas coisas não há lei (Gl 5, 23). 1) Porque não existia lei que as mandasse, 2) Porque não havia um mandato que as proibisse.

Evangelho ( Lc  9, 51-62)

A RECEPÇÃO DO EVANGELHO

PRIMEIRA PARTE

INTRODUÇÃO: As duas partes do evangelho de hoje pertencem à chamada interpolação maior (9,51-18,14). Considerando que Lucas segue em grande parte Marcos, este longo período é como um parêntese de Lucas antes de retomar a linha de Marcos. Neste trecho em que Lucas supõe Jesus caminhando a Jerusalém, Lucas aproveita a circunstância para, na ausência de multidões, mostrar a verdadeira face do discípulo de Jesus. São ensinamentos internos dirigidos aos doze em particular e, portanto, a todo membro que queira formar parte do discipulado estrito. Hoje vejamos dois exemplos diferentes.

AO SE COMPLETAREM OS DIAS: Sucedeu que ao se completarem os dias de sua assunção também ele deixou firme seu rosto de ir a Jerusalém (51). Factum est autem dum conplerentur dies adsumptionis eius et ipse faciem suam firmavit ut iret Hierusalem. A frase indica que todas as circunstâncias da paixão e morte de Jesus estavam programadas pela Providência e que Ele sabia pessoalmente o que ia acontecer. Os três anúncios de sua paixão (9,22; 9,44; 18,31-33), que têm paralelos nos outros dois sinóticos, claramente indicam como Jesus aceitava seu fim para cumprir toda justiça(Mt 3, 13), ou seja, a lei divina que ordenava a conduta humana para salvação dos homens ou santificação dos mesmos. Eram os dias de sua ASSUNÇÃO literalmente de ser assumido ou acolhido em cima. Com toda certeza, indica Lucas a morte de Jesus e sua exaltação por ser recebido como o Filho que cumpriu obedientemente sua missão e por isso elogiado como tal (Lc 9, 35). ENDURECEU SEU ROSTO: Parece um hebraísmo porque nas línguas semitas não existem muitas palavras para indicar idéias abstratas. Hoje diríamos determinou-se a subir a Jerusalém. Talvez venha de Pr 21, 29: o mal tem um ar de afronta; o homem reto solidez no proceder.

MENSAGEIROS: Então enviou mensageiros diante de sua face e saindo, entraram numa aldeia de samaritanos para acomodá-lo (52). Et misit nuntios ante conspectum suum et euntes intraverunt in civitatem Samaritanorum ut pararent illi. A palavra grega é angellos que significa enviado. Era uma aldeia [komes] que devia acomodar Jesus e os doze. Para isso Jesus se serviu provavelmente de dois de seus discípulos como no caso da preparação da ceia pascal. Deste último caso sabemos os nomes Pedro e João. No nosso caso é possível que fossem os dois irmãos Jacobo e João. Foram rejeitados como veremos no parágrafo seguinte.

O CASO DOS SAMARITANOS: E não o receberam porque sua face era de ir a Jerusalém (53). Et non receperunt eum quia facies eius erat euntis Hierusalem. Na subida a Jerusalém os galileus tomavam a rota de Pereia, da Transjordânia, para evitar a rota mais rápida através da Samaria, que sempre era dificultada pela oposição dos samaritanos como contrários ao templo de Jerusalém. Foi isto precisamente o que aconteceu com os dois enviados para buscar alojamento. Samaria tinha sido a capital do reino Norte, fundada como capital por Omri em 870 aC. Após a destruição de Samaria em 720 aC por Salmanasar, os habitantes da região foram substituídos por colonos vindo da Babilônia.(2 Rs 17, 24). Depois do desterro, ao iniciar os judeus a construção da cidade e templo de Jerusalém, encontram oposição em certos grupos de vizinhos que se opunham. Essa hostilidade provinha, segundo a tradição, dos samaritanos. O fato de que uma população meio-judia, que dava culto a Javé e restringia seus livros sagrados ao Pentateuco, e cujo templo estava em Garizim desde a época de Alexandro Magno até que foi destruído nos tempo de João Hircano ( filho de Simão, o macabeu,  rei de 134-104 a.C) no ano 128 aC, odiasse os judeus, especialmente os que subiam a Jerusalém, é coisa natural. A samaritana pergunta a Jesus onde deve ser Javé adorado: Se em Garizim como faziam nossos pais ou em Jerusalém (4, 19). Tudo isto explica a razão do porquê os habitantes da aldeia em questão se opuseram a dar estalagem a Jesus e seu colégio.

FILHOS DO TROVÃO: Tendo visto, pois, seus discípulos, Jacobo e João disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os destrua, como fez Elias? (54). Cum vidissent autem discipuli eius Iacobus et Iohannes dixerunt Domine vis dicimus ut ignis descendat de caelo et consumat illos. Foram os dois irmãos, Jacob e João os que pediram fogo do céu para castigar os que se negaram a aceita-los. Jacob [suplantador] era um nome bem conhecido desde os tempos dos patriarcas. Jacó ou Jacob foi o gêmeo de Esaú e pai dos doze filhos que foram os ancestrais das doze tribos de Israel, nome que ele recebeu do anjo após a luta com este último em Fanuel (Gn 32, 24-32). O nosso discípulo é conhecido como Tiago [o Maior] e assim é traduzido o grego Jacob. João [graça de Deus] é o nome de seu irmão e o autor do quarto evangelho, segundo a tradição. A mãe de ambos era Salomé, acredita-se que parente de Maria (Mc 15, 40 e Mt 27, 56); e o pai Zebedeu (Mt 4, 21). O fogo que eles pediam era uma clara alusão ao caso de 2 Rs 1, 10-12 em que por duas vezes desceu fogo do céu para destruir duas forças enviadas contra o profeta Elias. Jesus tinha dado a eles o nome de Boanerges, que significa filhos do trovão, ou seja, raios, pela sua impetuosidade. Neste caso os repreende. Alguns códices terminam o episódio com umas palavras severas de Jesus: Não conheceis de que espírito sois (55). E no começo do versículo seguinte (56) acrescenta: Pois o Filho do homem  não veio para destruir as vidas [psychai] dos homens, mas para salva-las. Pode ser que estas palavras que temos escrito em itálico sejam uma glosa do redator; porém, refletem exatamente o pensamento do Senhor. Por isso se determinaram a buscar uma outra aldeia.

SEGUNDA PARTE:

O MODELO DE DISCÍPULO: Não falamos daquele que já está no círculo de seguidores, mas dos primeiros passos que devem ser como uma primeira determinação de  seguir o Senhor como objetivo de vida. Antes devemos pensar nas consequências, prever a nova realidade que devemos viver, para tomar a decisão correta e segui-la até o fim.(Lc 14, 31-33).

1º CASO: Sucedeu que andando eles no caminho, disse-lhe alguém: acompanhar-te-ei, Senhor, onde quer que fores (57). Factum est autem ambulantibus illis in via dixit quidam ad illum sequar te quocumque ieris. E lhe disse Jesus: As raposas têm covas e as aves do céu ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça (58). Et ait illi Iesus vulpes foveas habent et volucres caeli nidos Filius autem hominis non habet ubi caput reclinet.Aproveita Lucas que Jesus está a caminho de Jerusalém para apresentar o primeiro discípulo que quer seguir Jesus para onde quer que ele for. Parece uma proposta válida e totalmente desinteressada. A resposta de Jesus mais parece reprimir essa vontade que incentivar o ânimo do mesmo. Seguindo o modo de falar através de parábolas, Jesus lhe mostra a verdadeira realidade: Não devemos esperar de Jesus riquezas e bem-estar. Mais do que uma exposição da pobreza, é a demonstração da vida e caráter itinerante e viajante que corresponde ao discípulo, isto é, ao que se entrega à evangelização. São os mathetoi [no caso os doze] que Jesus envia a anunciar o evangelho, (Mt 10, 1-15;Mc 6, 5-13; Lc 9, 1-6) e também os setenta e dois em Lc 10, 1-12.  Isso vemos especialmente em Paulo e suas viagens apostólicas. Sabemos também como Pedro e outros discípulos viajavam nas suas correrias apostólicas de modo que na Dídaque se fala de que os apóstolos não deverão se deter mais do que um só dia ou dois. Se ficar três dias será um falso profeta. Ele só poderá levar pão e não dinheiro. Se pedir dinheiro será um falso profeta (XI, 5-6).  Porque até animais que eram praticamente nada, como as raposas (Lc 13, 32) que à noite percorriam os campos, tinham tocas, e as aves do céu, como poderiam ser os pardais, que na realidade são vendidos por um vintém (Lc 9, 10) e que tanto se movem, possuíam ninhos, estavam em melhores condições que o Filho do Homem e seus discípulos com respeito a ter um lar fixo, que nem podia ser comparado com uma pedra para descansar e dormir. Outro assunto é a pobreza. Nos tempos de Jesus apareciam mensageiros de deuses que percorriam as regiões pagãs próximas da Galileia, como um tal Luciano, enviado pela deusa Artagatis, que reunia donativos para os sacrifícios de seu santuário. Comprou um asno para carregar os donativos e no fim fez uma reata dos mesmos com os quais entrou no santuário. Em cada viagem trazia setenta sacos cheios. Por isso Jesus compara o seu suposto lar com uma pedra onde pode reclinar a cabeça para dormir, como era costume fazê-lo na época entre os peregrinos que subiam a Jerusalém. Assim termina esta lição de disponibilidade e austeridade que segundo Mateus (8, 19) foi dada a um escriba, ou como diríamos hoje a um advogado ou doutor em leis.

2º CASO: Porém, disse a outro: Acompanha-me. Mas ele disse: Senhor, permite-me primeiro enterrar meu pai (59). Ait autem ad alterum sequere me ille autem dixit Domine permitte mihi primum ire sepelire patrem meum. Jesus convida a uma pessoa a segui-lo. A resposta deste é que deve primeiro enterrar seu pai(59). Esta resposta pode indicar duas coisas: 1°) Que nem todos os que Jesus chamou responderam tão pronto e generosamente como Pedro e André ou os filhos do Zebedeu (Mc 1, 16-20) nem como Mateus-Levi (Mc 2, 14), porque houve alguns que rejeitaram o convite do Mestre.2°) Que as desculpas poderiam ser consideradas como razões realmente poderosas como acontece no caso atual. Enterrar o pai era um mandato tido como sagrado pela lei e a Mishná. Até o sumo sacerdote podia tocar o cadáver do pai para enterrá-lo. Todo aquele que deixa pernoitar um morto quebranta um preceito negativo – diz a Mishná. No nosso caso, o pai tinha falecido recentemente ou o convidado falava de cuidar do velho pai de modo que somente após a morte do mesmo poderia se ver desobrigado de um dever exigido pelo mandamento de honrar pai e mãe? É provável que seja esta a circunstância no caso: o velho pai precisava do filho, talvez único, para passar seus últimos anos como um ancião feliz a quem o filho servia de apoio na velhice até a hora da morte. Porém lhe disse Jesus: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Mas tu afastando-te, anuncia o reinado de Deus (60). Dixitque ei Iesus sine ut mortui sepeliant mortuos suos tu autem vade adnuntia regnum Dei. A resposta de Jesus é surpreendente e até de difícil interpretação: deixa os mortos enterrar seus próprios mortos. Tu vem e anuncia o reino de Deus(60). Que significa? Que um morto, deve enterrar um ser passivo como ele, pesado demais até para um vivo forte poder manejá-lo sozinho? Temos que pensar numa metáfora. Jesus considera como mortas aquelas pessoas que não se deixam guiar pelo anúncio do evangelho. Não são unicamente surdos e cegos (Mt 13, 14-15) que se comportam como coisas inertes com coração de pedra (Ez 11, 19), ou seja, não são vivos. Eles que façam e vivam segundo os antigos preceitos e tradições. Os discípulos de Cristo, porém, devem se orientar por critérios diferentes. Um pai, uma mãe, nunca deve interferir numa vocação como pedra de escândalo, como morto que pertence ao mundo dos mortos. De fato, um pai que se opõe ao evangelho já está morto e nada se pode fazer por ele.

<3624> mou <3450>Luke 9:61  et ait alter sequar te Domine sed primum permitte mihi renuntiare his qui domi sunt.

3º Caso: Disse, pois também o outro: Deixa-me despedir-me primeiro dos de minha casa. (61). Et ait alter sequar te Domine sed primum permitte mihi renuntiare his qui domi sunt. A resposta de Jesus é que não é digno  do Reino de Deus quem após iniciar o trabalho se cansa do mesmo e desiste voltando a vista atrás. O trabalho de arar exige sempre olhar para a frente. Quem nessa tarefa volta a vista atrás é o mesmo que ter sua vontade ocupada em princípios opostos. Ou seja, está mais pendente de outra coisa que a do trabalho iniciado. O provável provérbio é que tenha alguma relação com o discipulado de Eliseu no tempo em que Elias o chamou quando estava arando no campo (1 Rs 19, 19-21), embora não pareça que seja esta a razão, pois Eliseu voltou e depois de matar os bois, seguiu Elias.

PISTAS:

1) Existem duas maneiras de receber Jesus: como hóspede ou como discípulo e colaborador. Elas estão descritas no evangelho: A aldeia samaritana se negou por razões religiosas. É possível que muitas vezes tenhamos feito o mesmo quando o homem necessitado à nossa frente seja um ateu ou um herege. Cristo nos mostra que não é essa a maneira de recebê-lo, já que em todo necessitado está sua pessoa. Como discípulos e colaboradores na missão divina, devemos estar prontos a partilhar da vida e do destino de Jesus, reconhecendo-o e aceitando sua pessoa como um modo existencial de vida.

2) Não se trata de aderir a uma doutrina, mas de seguir um Mestre ligando-se a sua pessoa para sempre. Essa vida em comum com o mestre transforma o discípulo [= aprendiz] em auxiliar, em enviado e colaborador, definitivamente em apóstolo, para difundir a essência de sua doutrina que é a disponibilidade às ordens do alto. Se as antigas profecias se cumprem perfeitamente em Jesus é porque este se torna obediente à voz das mesmas que é a voz do Pai. Se a vida e a doutrina de Jesus se cumprem em seus discípulos será porque estes se tornam dóceis à sua voz e seguem fielmente seus mandatos.

3) Nenhum valor ou lei humana deve ser anteposta ao convite, ao segue-me que uma vez escutado, se transforma em lei absoluta em decisão incondicional e definitiva à pessoa de Jesus que exige além da fé em suas palavras o amor com o qual o contemplamos e servimos. Podem ser ouvidas e admiradas as palavras dos grandes filósofos e pensadores, mas não por isso suas pessoas são dignas de nosso reconhecimento e amor.

4) Vemos como Jesus não recusa o martírio e se dirige a Jerusalém para aí dar testemunho [=martírio] de seu amor ao Pai e de seu sacrifício em favor dos homens. A cruz será para ele motivo de desejo e aspiração como quem ambiciona uma vitória final e importante. Nossa história é bem diferente: até a pequena cruz do dia-a-dia nos cansa e aflige quando deveríamos estar contentes porque é aí onde mais nos aproximamos de Jesus: padecer e não morrer dizia uma alma santa, o que para nós é loucura, mas é a loucura da cruz de que fala Paulo.


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Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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