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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com
. Evangelho de 19/09/2010 - XXV Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 12/09/2010 - XXIV Domingo do Tempo Comum


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Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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19.09.2010
XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C

__ “A RIQUEZA PARA CONSTRUIR A FRATERNIDADE” __

Ambientação:
Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! O mundo está geralmente dividido em ricos e pobres. A contestação, a luta de classes parece baseada no princípio de que não há possibilidade de acordo senão pela eliminação de uma das partes. O anúncio do reino de Deus, do seu amor que salva, é feito num mundo dividido entre ricos e pobres. É um anúncio que, revolucionando o íntimo do homem, revoluciona também certo tipo de ordem social. Entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Am 8,4-7): - "Por causa da soberba de Jacó, jurou o Senhor: Nunca mais esquecerei o que eles fizeram."

SALMO RESPONSORIAL 112(113): - "Louvai o Senhor que eleva os pobres, que eleva os pobres!"

SEGUNDA LEITURA (1Tm 2,1-8): - "Quero, portanto, que em todo lugar os homens façam a oração, erguendo mãos santas, sem ira e sem discussões."

EVANGELHO (Lc 16,1-13): - "Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes."



Homilia do Diácono José da Cruz – XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – (Ano C)

A DECISÃO CERTA

O que vale mais, o dinheiro ou a amizade? Parece ser essa a questão colocada pelo evangelho desse domingo. Saber tomar a decisão certa na hora certa, saber perder agora para ganhar depois. É o pensamento que desencadeia a nossa reflexão, pois só assim iremos compreender porque um administrador desonesto é elogiado e sua atitude marcada pela esperteza, é apontada por Jesus como uma referência aos seus discípulos.

Quando a palavra de Deus entra em nosso coração, provoca um questionamento, “e agora, o que devo fazer?”. A novidade anunciada por João Batista faz os seus ouvintes se questionarem e o mesmo irá ocorrer quando o apóstolo Pedro faz o primeiro querígma, logo após pentecostes. Uma coisa é certa, se aceitarmos o evangelho de Cristo, a nossa vida nunca mais será a mesma, porque passará por uma transformação radical, é impossível pensar e agir de maneira contrária ao evangelho, após o impacto do primeiro anúncio e o encantamento que ele provoca pela pessoa de Jesus.

Todo ser humano passa por este momento de questionamento interior em sua existência, porque, de uma forma que não sabemos, Deus alcança todo homem, independente da sua profissão de fé, ou mesmo que se declare um descrente. Quando o homem faz essa experiência de Jesus em sua vida, não há tempo a perder, a decisão precisa ser tomada de imediato, porque cada minuto torna-se precioso em sua vida. O administrador desonesto foi pego de surpresa pelo seu patrão, que não lhe deu nova oportunidade e sem sequer ouvir suas explicações, o despediu de suas funções.

Pena que lá em Brasília a decisão não seja tomada com tanta rapidez, para punir quem foi desonesto e a impunidade, principalmente em relação a governantes, juízes e legisladores, continua a ser uma triste realidade em nosso país. Mas na parábola, o administrador desonesto não teve a mesma sorte, pois lá não era o Brasil, e foi demitido sumariamente pelo seu patrão, e a perda do cargo tão importante o fez refletir e começou a se questionar e pensar o que seria dele no futuro.

Há pessoas que levam a vida sem se preocupar com o seu sentido maior, passam boa parte da existência correndo atrás de valores que não servirão para nada, há ainda muitos que vivem apenas por viver, tanto faz ir para o norte ou para o sul, ficar parado ou caminhar, crer ou não crer, nada faz diferença em sua  vida e nunca pensam em algo mais ousado, em uma vida mais plena, como é o desejo do Deus Criador, esses se assemelham com esse administrador, que aproveitando do cargo que exercia, fazia e desfazia, negociava a vontade e só pensava em ganhar cada vez mais, seus contatos e relações eram marcadas somente pelo profissionalismo. Porém, de repente a “casa caiu” e ele viu a sua segurança abalada, simplesmente não tinha futuro, estava condenado á ficar na rua da amargura. O que fazer no presente, de imediato, para reverter essa situação terrível?

Foi então que o administrador descobriu outro valor mais importante que o dinheiro faturado nas negociatas com os fornecedores, a amizade sincera de alguém que pudesse lhe oferecer abrigo e estadia, quando o dinheiro do acerto acabasse e não tivesse para onde ir. Mas teve que fazer algo que nunca havia feito antes; abriu mão do seu lucro, que até então julgava ser o mais importante, e assim, chamando cada um dos devedores, diminuiu a conta, deixando de receber a parte a que tinha direito. Quando descobrimos logo cedo, no uso da razão, que somos filhos e filhas de Deus, objetos do seu amor, a nossa vida tem que ser diferente no sentido de superar qualquer ódio, barreira ou divisão, valorizando a vida do próximo e mantendo com todos uma relação de amor, onde a dignidade humana seja respeitada, pois nenhum bem material ou dinheiro neste mundo, pode ter mais valor do que a vida do homem.

É esta a decisão certa que precisa ser tomada por todo cristão, chamado por Deus, para viver em comunhão com ele, saber viver bem essa vida, compreendendo que ela é apenas uma passagem, um caminho, que nos leva a um futuro maravilhoso, nos tabernáculos eternos da casa do Pai. É assim que procede o servo fiel, que sabe usar dos bens dessa vida, para promover a partilha, o amor e a fraternidade.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – (Ano C)

Prudência

Ao escutar o Evangelho de hoje, pode-se perguntar: e “porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz” (Lc 16,8) se o Senhor nos mandou ser “prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16)? Ao citar essa passagem, outra pergunta se impõe à nossa consideração: por que as serpentes servem como modelo de prudência? Quiçá porque, como se diz, elas não se expõem para atacar. Já no livro do Gênesis se dizia que “a serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado” (Gn 3,1). Neste capítulo também se pode ver a maneira espertalhona que a serpente, símbolo do diabo nesse caso, teve para levar os nossos primeiros pais ao pecado que nos trouxe a ruína espiritual. Mas, cuidado, prudência e astúcia são duas realidades distintas, ainda que, à primeira vista, poderíamos confundi-las. A astúcia, na verdade, é uma falsa prudência, porque está penetrada de simulação e interesse. A prudência, ao contrário, é uma virtude que – segundo a maneira de pensar de Santo Tomás de Aquino – nos dá uma visão clara das coisas, fazendo com que valorizemos mais a verdade que nelas há que as nossas tendências apetitivas. Um exemplo das mais variadas manifestações da virtude da prudência é – como dizia um santo – não expor-se como católico quando está de moda ser católico e, ao contrário, manifestar-se católico quando todos se acovardam. Pensemos, por um momento, em qual dessas duas situações nos encontramos.

A prudência é uma virtude cardeal, ou seja, uma das quatro virtudes ao redor das quais giram os demais valores que constroem uma vida humana na verdade e na bondade e com uma unidade sem fissuras. Somente a pessoa prudente pode ser ao mesmo tempo forte, temperada e justa. Isso é assim porque a prudência nos ajuda a aplicar o conhecimento do bem que temos às nossas ações concretas. A primazia da prudência entre as virtudes cardeais é porque – como disse Josef Pieper – a realização do bem exige um conhecimento da verdade.

Recta ratio agibilium – a definição é de Aristóteles –, a prudência é a reta razão do agir, isto é, o conhecimento certo sobre a realidade que estamos dispostos a pôr em prática. Como se pode ver, essa virtude nos afasta de uma espécie de “moral do dever”, que não é a moral cristã. A questão não o que “eu devo” fazer em cada momento, isso é secundário, mas “fazer aquilo que está de acordo com o meu ser humano e cristão, ou seja, fazer aquilo que está de acordo com a verdade conhecida”. Isso exige – como dizia Santo Tomás de Aquino, aprender da própria experiência (memoria do passado); pedir conselho; pensar com calma (reflexão); decidir-se (a indecisão, além de gerar perda de tempo, nos leva a cometer muitas imprudências. Tendo os elementos necessários, se decide, sem ficar dando voltas e mais voltas ao tema); perceber as circunstâncias nas quais nos encontramos (circunspecção) para ver se é conveniente ou não atuar dessa maneira ou de outra; cautela (segundo o Aurélio, é o cuidado por evitar um mal, mas é algo mais: significa conjugar a bondade com a prudência); disposição e prontidão para resolver aqui e agora as situações urgentes (sagacidade); capacidade de tomar providências (prever um pouco o que poderia acontecer e agir em consequência, por exemplo, se eu sei que tenho uma prova no final do mês posso começar a tomar providência estudando).

Como é importante conjugar a prudência com a bondade e a simplicidade. Sem elas, a prudência se transformaria em astucia e já não seria uma disposição boa. Por outro lado, bondade sem prudência é “ser bonzinho” no sentido de “tolo” e simplicidade sem prudência é “ser simples” no sentido pejorativo da palavra. Um cristão tem que fazer de tudo para não ser tolo nem simplório.

Nossa Senhora é chamada na Ladainha de Virgo prudentissima, Virgem prudentíssima. Entre os vários aspectos que se poderiam destacar na prudência de Nossa Senhora, chama a nossa atenção o fato de que o adjetivo “prudentíssima” qualifica o substantivo “Virgem”. Com certeza, “prudentíssima” poderia qualificar substantivos como “Mãe”, “Rainha”, etc. Eu acho que não seria um exagero pregar sobre a virtude da santa pureza, pensando nos adjetivos que a Virgem Maria recebe na Ladainha, e um das qualidades da pureza de Nossa Senhora é a prudência. Será que isso não nos está dizendo algo importante para nós que vivemos num mundo tão hedonista e tão erotizado? Prudência na vivência de todas as virtudes, uma das quais, a pureza.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – (Ano C)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (1 Tm 2, 1-8)

INTRODUÇÃO: Paulo pede que se façam orações em favor de todos os homens, especialmente pelos que têm autoridade, porque deles dependem a paz e o bem-estar de todos. A razão é que Deus deseja a salvação de todos, pois nos deu um único mediador, Jesus Cristo, o qual se entregou em resgate por todos nós. Esta é uma verdade que Paulo prega como essência de seu ministério apostólico. E Paulo dá uma dica de como devemos orar nas assembleias dos fiéis.

ORAÇÃO DO CRISTÃO: Rogo, pois, principalmente que todos façam súplicas, orações, intercessões, ações-de-graças em favor de todos os homens (1). Obsecro igitur primo omnium fieri obsecrationes orationes postulationes gratiarum actiones pro omnibus hominibus. A carta é uma série de recomendações sobre diversos assuntos e o primeiro é de como se deve orar durante a liturgia comum nas assembleias cristãs. Em primeiro lugar, Paulo declara que as orações não devem excluir nenhum homem, formando parte principal das reuniões dos fiéis. Estas orações têm como natureza a SÚPLICA [deësis<1162>=obsecratio] cujo significado é a necessidade, especialmente do mendigo; e daí a súplica própria de quem pede para subsistir.  Uma amostra é o Pai Nosso no início da segunda parte. ORAÇÃO [proseuchë<4335>=oratio ou precatio] é propriamente a petição formal [res sacra] dirigida a Deus em termos gerais, que para um caso particular, usaríamos deësis [petitio]. INTERCESSÃO [enteuxesis<1783>=postulatio], intercessão, petição feita por outros. EUCARISTIA [eucharistia<2169>=gratiarum actio] que não aparece em textos hebraicos e só em gregos como 2 Mc 2, 27 e Eclo 37, 11; pois no lugar de ação-de-graças, os judeus usavam o louvor como em Lv 22, 29, com a palavra todah<08426>= confissão, louvor; e daí o sacrifício de louvor, que a Vulgata traduz por gratiarum actio. É a primeira parte do Pai Nosso.  Paulo deseja que estas súplicas e intercessões sejam feitas por toda classe de homens, sem distinção. Mas, no meio delas, escolhe as mais necessárias para uma vida sossegada, como vemos no versículo seguinte.

OBJETO DA ORAÇÃO: Pelos reis e por todos os que têm superioridade, para que tranquila e sossegada vida vivamos em toda piedade e dignidade (2).  Pro regibus et omnibus qui in sublimitate sunt ut quietam et tranquillam vitam agamus in omni pietate et castitate. SUPERIORIDADE [en yperoche<5247>=in sublimitate] a palavra significa elevação, portanto, será em preeminência, em excelência ou superioridade.  Dentre eles, Paulo destaca os REIS. Em Éfeso propriamente, era o imperador de Roma, o único que podia ter o título de Basileus. Os governadores das províncias recebiam o título de Hegemonos; mas Paulo sabia que todos eles eram necessários para a paz entre os cidadãos e que um território sem governo era um inferno; melhor seria ter um tirano que viver num território acrático. Exemplos atuais: Somália e o Afeganistão. Ainda não estourou a primeira perseguição de Nero e a vida dos cristãos era livre dentro dos limites do Império. Unicamente os judeus se tinham oposto à difusão do evangelho. PIEDADE [eusebeia<2150>=pietas] cujo significado é reverência, respeito; e se o considerarmos em relação a Deus, podemos falar de piedade ou religiosidade. Ou seja, do espírito de reverência devido à presença da divindade. DIGNIDADE [semnotës<4587>=castitas] é a qualidade de uma pessoa que a torna distinguida, respeitável, digna, grave e majestosa, honrada e proba, ou de respeito, como em 1Tm 3,4: criando os filhos sob disciplina com todo respeito. É somente usada essa expressão por Paulo três vezes em duas epístolas as de Timóteo e Tito. De fato, devido ao seu sincretismo em que os romanos admitiam os deuses locais, não como vencidos, mas como associados, o cristianismo encontrou facilidades que se tornaram inimizade entre os judeus.

AGRADÁVEL ORAÇÃO: Porque isto é bom e aceitável diante de nosso salvador, Deus (3). Hoc enim bonum est et acceptum coram salutari nostro Deo. Dois ensinamentos aparecem claros neste versículo: que bom e agradável é a reza pelos dirigentes políticos; pois o fim é a paz social e a liberdade de culto dela ou com ela relacionada. E finalmente, que Deus é o Salvador. Dele, pois, dependemos e a Ele devemos dirigir nossas súplicas.

UNIVERSALIDADE DA SALVAÇÃO: O qual deseja que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade (4). Qui omnes homines vult salvos fieri et ad agnitionem veritatis venire. DESEJA [thelei <2309>=vult] é o verbo que denota vontade, propósito, determinação de fazer com amor e prazer uma coisa ou ação específica. SALVEM [sözö <4982> salvare] do infinitivo passivo que pode ser traduzido por um reflexivo como é no caso; ou melhor, pelo passivo: sejam salvos, cujo ativo é Deus que fará todo o possível para salvá-los. Essa salvação implica a libertação da condena no dia do julgamento final messiânico e dos perigos e obstáculos que obstruíam a recepção da fé em Cristo. É coisa muito diferente dessa libertação sócio/política que os modernos cristãos pró-socialismo têm pretendido na América do Sul, por exemplo. CONHECIMENTO [epignösis<1922>=agnitionem] o grego epignösis [de epi e gnösis] indica um supra conhecimento como tradução literal; ou seja, um conhecimento perfeito. É a palavra usada por Paulo 15 vezes nas suas epístolas e sempre sobre a matéria de coisas éticas ou referentes à divindade. VERDADE [alëtheia<225>veritas]. Objetivamente é a verdade, ou seja, a conformidade da mente e da palavra com os fatos e coisas que existem. Tratando-se de Deus, e do ponto de vista da revelação, é o conjunto das verdades que as escrituras contêm, opostas às interpretações errôneas como são as dos judeus ou heréticas dos cristãos que eram considerados falsos mestres. Subjetivamente, era a virtude contrária à simulação, engano, falsidade e também podemos falar de fidelidade aos princípios e valores conhecidos. Neste caso, se trata de conhecer a verdade fundamental, ou seja, Deus como Salvador por meio de Cristo como nosso mediador, ao qual acedemos pela fé e a entrega amorosa, obrigada pela gratitude de reconhecê-lo como sacrificado por nossa salvação. Verdade que explicará, sucintamente, Paulo nos versículos seguintes 5 e 6.

CRISTO ÚNICO: Um, pois, Deus; um também mediador entre Deus e homens, o homem Cristo Jesus (5). Unus enim Deus unus et mediator Dei et  homo Christus Iesus. Entre as verdades necessárias para a salvação, Paulo cita as duas necessárias e fundamentais: Um só Deus, coincidente na época com a fé judaica; mas também o acesso ao mesmo é único, que Paulo cita como sendo o homem Cristo Jesus. MEDIADOR [mesitës<3316>=mediator] derivado do adjetivo mesos <3319>=meio, entre: é a pessoa que intervém entre duas outras para restaurar a paz e amizade entre elas, ou estabelecer pacto ou convênio entre as mesmas. Paulo usa a palavra com o significado de árbitro e intercessor, três vezes (Gl 3, 19. 20 e esta de 1Tm 2,5), explicando que a proclamação da Torah não foi uma intercessão de anjos, que não foram mediadores, pois o mediador foi Moisés que a transmitiu como sendo a voz de Deus. Mas o novo pacto teve como mediador um outro homem: o Ungido [Messias] Jesus. A noção de mediador, neste caso, está melhor explicada em Hebreus 9, 15 e 12, 24, em que o sangue de Cristo, morto como vítima, foi a aspersão do novo pacto.  E temos: Por isso… Considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus (Hb 3, 1). O sacerdote era o mediador escolhido que através do sacrifício tornava a divindade propícia e disposta a perdoar os pecados do povo. E Jesus, como afirma a carta dos hebreus, é o único e verdadeiro sacerdote da nova Lei. Convinha que em todas as coisas [Cristo] se tornasse semelhante aos irmãos para ser misericordioso e fiel, sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo (Hb 2, 17). Neste versículo, vemos como a humanidade de Cristo, o homem Jesus, foi o elemento fundamental para o seu sacerdócio: para que em todas as coisas se tornasse semelhante aos irmãos, dirá o texto aos hebreus. Terminemos finalmente com Hb 4, 14: tendo Jesus, o Filho de Deus, como sumo sacerdote que penetrou os céus, e fez o que no AT era próprio do Yom Kippur, entrar no Santo dos Santos a morada e Deus com seu povo, num ato de propiciação, oferecendo o sangue da vítima. Cristo, entrou no mais alto dos céus (o novo santo dos santos do novo tabernáculo) oferecendo seu próprio sangue (Hb 9, 12), uma única vez, para sempre, quando se ofereceu a si mesmo (Hb 7, 27). E é único, pois os antigos sacerdotes eram muitos porque a morte lhes impedia permanecer em sua função. E Cristo vive no mais alto dos céus o verdadeiro trono divino, para sempre, em perpétua função de seu sacerdócio eterno, como diz Hb 7, 21: feito sacerdote com juramento por aquele que lhe disse: O Senhor o jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre.

MINISTÉRIO ATUAL: O qual se deu a si mesmo redenção para todos, o testemunho em circunstâncias oportunas (6). Qui dedit redemptionem semet ipsum pro omnibus testimonium temporibus suis. E Paulo, na continuação, descreve qual é atualmente o ministério de Jesus, sacerdote, que foi outrora pagamento por alforria de escravos e agora testemunho do mesmo para evitar a ira divina pelos pecados atualmente feitos. REDENÇÃO [antilytron <487>=redemptio] constitui um dos dogmas centrais do cristianismo: Cristo redentor, pois com sua morte salvou a humanidade da morte e da escravidão do pecado, pagando com o preço de seu sangue, o resgate destinado a satisfazer a justiça divina. De modo que a morte de Cristo foi o sangue derramado para remissão dos pecados (Mt 26, 27). Da fórmula honor est in honorante, injuria in injuriato, é prova de que o pecado chamado mortal, em certo modo, tem uma malícia infinita devido ao objeto pessoal do mesmo que é o próprio Deus, que é desprezado e subvalorizado pela opção desordenada do pecador. Logo, somente uma pessoa com valor infinito é capaz de elaborar completa reparação. Não poderia ser um anjo, mas um homem com valor infinito, como diz Paulo: o Homem Cristo Jesus (Vers. 5), porque em Hb 2, 11 se afirma que quem santifica e os que são santificados são todos um. Assim só um homem que fosse ao mesmo tempo Deus, podia ser o verdadeiro Redentor. O modo da redenção é declarado no credo: desceu dos céus [era Deus] se encarnou [feito homem], padeceu [imolação] e foi sepultado [morte sacrifical]. Foi uma operação teândrica [de theos, divina e de andros, humana], pois sem a participação do homem não haveria satisfação, e sem a dignidade do Deus não seria suficiente. As duas passagens de Isaías: Traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele e pelas suas pisaduras fomos sarados (53, 5) e o meu servo, o Justo justificará a muitos porque as iniquidades deles levará sobre si (53,11), claramente o indicaram no AT; e no NT lemos que não veio a ser servido [como Senhor] mas para servir [como escravo]  e dar sua vida em redenção por muitos [lytron anti pollön] (Mt 20, 28); coisa que Paulo ratifica como fé da primitiva igreja: Justificados gratuitamente [döreran] por sua graça [të autou chariti] mediante a redenção [dia tës apolytröseös] que há em Jesus Cristo (Rm 3, 24). S Anselmo refletindo em Deus homo pode ser considerado como o autor que fez a primeira apresentação sistemática desta doutrina que é chamada realista da redenção. A idealista, inicialmente proposta por Abelardo Socino (1562) é a restauração da vida humana a uma vida imortal divinizada, preferível a considerar a redenção como expiação dos pecados através da morte de Cristo. Mas sempre a realista predominou dentro da tradição da Igreja e inclusive entre os reformadores, de modo que a satisfação vicária é a seguida pelo catecismo da Igreja, contra a Escola Racionalista que vê um espírito de vingança, indigno de Deus, na redenção tradicional. Mas confundem pecado de vingança com virtude de justiça. A voluntariedade do oferecimento de Cristo satisfaz a justiça e tira toda vingança como motivo da Redenção, colocando esta dentro da virtude do amor e da gratuidade, como diz Paulo: me amou e se entregou por mim (Gl 2, 20). O qual pode ser dito de todo fiel cristão. Modernamente há uma redução da redenção, segundo a Teoria da Libertação, a luta entre oprimidos e opressores, reduzindo a paixão e sofrimentos de Cristo a um exemplo e paradigma em favor da justiça social a ser alcançada pela luta de classes dos injustamente tratados pelos que têm o poder e o dinheiro.

PAULO ARAUTO E MESTRE: Para o que fui, eu fui posto anunciador e apóstolo, digo a verdade em Cristo e não minto, mestre das gentes em fé e verdade (7). In quo positus sum ego praedicator et apostolus veritatem dico non mentior doctor gentium in fide et veritate. ANUNCIADOR [kërix<2783>=praedicator] O Kërix era o arauto, mensageiro ou precursor, no sentido de anunciar a vinda ou as mensagens oficiais de reis, magistrados príncipes e comandantes militares. Aqui Paulo, como os arautos das autoridades civis e militares, diz possuir pública autoridade que o constitui o anunciador primeiro e oficial e ao mesmo tempo apóstolo, e MESTRE [didaskalos <1320> =doctor] dos gentios. Isto último ele afirma com um juramento em que põe como testemunha de sua verdade, Cristo, dando a este o lugar que no AT correspondia a Jahveh. Com este final, Paulo retifica todo o dito anteriormente como verdade fundada naquele que a si mesmo se disse ser a Verdade (Jo 14, 6). E não esquece a parte humana de seu trabalho ou ministério: a fidelidade [en pistei<4102>=in fide], acepção primitiva de pistis ou fides e que Paulo considera também em Gl 5, 22 como fruto do Espírito [tradução de RA]. Uma outra interpretação seria ver a fé como a palavra que prega Paulo junto com a verdade (vide Rm 10, 8 e Gl 3,2).

OS HOMENS: Quero, pois, que os varões orem em todo lugar levantando santas mãos fora de ira e disputa (8). Volo ergo viros orare in omni loco levantes puras manus sine ira et disceptatione. Neste parágrafo, Paulo fala só de homens no sentido sexual de VARÕES. Possivelmente a oração é pública dentro da assembleia, como ele recomenda em 1 Cor 14, 24 que as mulheres calem, pois não lhes é permitido falar, devem estar submetidas aos seus maridos, segundo o que lemos em Gn 3, 16: teu desejo te arrastará a teu marido que te dominará. Paulo, que afirma a Lei [o Pentateuco] como sendo inútil para a salvação, não obstante, dela toma a palavra de Deus como ainda válida na nova Lei. O versículo diz respeito ao oráculo de Malaquias: desde o nascente do sol até o poente é grande entre as nações o meu nome e em todo lugar lhe é queimado incenso e trazidas ofertas (1, 11) e a palavra de Jesus: vem a hora quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai… em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade (Jo 4, 21-23). Contrariamente ao que os judeus afirmavam: As portas do céu só se abrem na terra de Israel. As preces sem terra [israelita] não têm como subir ao Senhor, mas se os israelitas as enviam de terra não pertencente a Jerusalém, unicamente quando chegam a Jerusalém são enviadas ao santuário e daí ascendem ao céu (Shaare Ors). E tem muitas normas para as preces particulares de modo que não devem ser dirigidas de lugares sujos ou fedorentos (Maimônides). LEVANTANDO AS MÃOS, seguindo o exemplo de Abraão que respondeu ao rei de Sodoma: Levanto a mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o que possui os céus e a terra (Gn 14, 22). Este gesto era também comum entre os gentios. Os judeus só podiam levantar as mãos em oração, embora pudessem orar sem levantar as mãos. Jesus orava levantando os olhos ao céu, como vemos em Mt 14, 29. As mãos deviam ser puras e sem nenhum crime ou pecado. Dirá Isaías: Quando estendeis as mãos escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade dos meus olhos; cessai de fazer o mal (Is 1, 15-16). O costume, além das mãos estarem em conformidade com o coração, é que deviam estar limpas, de modo que os judeus as lavavam antes de orar, e como sempre, o ato externo de lavar era mais importante que o interno de purificar o coração. Segundo Maimônides, antes de orar as mãos devem ser lavadas até o cotovelo com água e se não existir água, dentro de uma área de 4 milhas, deve o orante esfregar as mãos. E antes da oração da manhã, não só as mãos, mas a cara e os pés devem ser lavados e só então devem ser recitadas as preces. Paulo não se importa com a limpeza externa, mas com a purificação interior: sem IRA NEM DISPUTA [chöris orgës <3709> kai dialogismou<1261>=sine ira et disceptatione]. IRA: Orgë é ira, cólera, raiva. Paulo está na linha de Jesus, o Mestre, que manda: se ao trouxeres ao altar a tua oferta te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferenda; vai primeiro reconciliar-te com teu irmão (Mt 5, 23-24). E que em termos familiares, Pedro afirma pedindo aos maridos que tenham consideração para com as mulheres como parte mais frágil, tratando-as com dignidade, porque sois juntamente herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações (1Pd 3, 7). DISPUTA: Dialogismos: raciocínio, deliberação, questionamento; ou hesitação, dúvida; ou disputa e controvérsia. Pela primeira palavra ira devemos ter um significado correspondente. De Maimônides, o grande comentarista de ritos e leis judaicas, temos esta nota esclarecedora: Os homens não devem orar de pé, nem com riso, nem de modo leviano, conversas, contenções ou ira: mas com as palavras da lei. E rabi Chanina: Num dia de ira um homem não deve rezar. Tudo isto está claro na grande oração de Jesus, o Pai Nosso: Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos os nossos ofensores (Mt 6,12), que também Lucas repete em 11, 4. O perdão do inimigo é uma condição necessária para que a oração tenha a eficácia que Jesus prometeu: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á (Mt 7, 7).

Evangelho (Lc 16, 1-13)
O ADMINISTRADOR INCOMPETENTE [Negligente]

INTRODUÇÃO: Dizia também a seus discípulos: Certo homem era rico, o qual tinha um administrador e este lhe foi denunciado como defraudando os seus bens (1). Dicebat autem et ad discipulos suos homo quidam erat dives qui habebat vilicum et hic diffamatus est apud illum quasi dissipasset bona ipsius. ADMINISTRADOR [oikonomon <3623>=vilicum] é o mordomo ou despenseiro de casa, também tesoureiro, que em geral era um liberto ou escravo, a quem o dono da casa entregava a gerência da casa, os recibos e gastos, junto com a direção dos empregados e até dos filhos ainda pequenos. A terra era nos tempos de Jesus a base da riqueza de modo que os soldados romanos recebiam como prêmio após sua aposentadoria (25 anos) terras para cultivar. Ou recebiam 12 anos de paga como compensação. A mão-de-obra era barata, constituída pelos escravos de guerra; e a maioria dos novos amos, que nada ou pouco sabiam de agricultura, deixavam suas propriedades nas mãos de administradores. Como exemplo, temos, nos tempos do Imperador Trajano, após as guerras da Dácia [Romênia ocidental], que teve em suas mãos 500 mil escravos que podiam servir nos novos assentamentos dos soldados e somas consideráveis de ouro e prata. Para comemorar a conquista mandou esculpir a coluna trajana com 200m de esculturas nas quais ele mesmo saia 70 vezes. Por essa vitória, o Imperador recebeu o nome de Dácio e os romanos tiveram 123 dias de espetáculos no anfiteatro. A palavra oikonomos significa um administrador-superintendente de modo que todos os problemas da casa e dos bens estivessem dirigidos a uma economia tanto de mercado como de supervisão de comidas e criados dentro da casa. Geralmente os administradores eram escravos de confiança ou libertos, já que um romano considerava o ofício indigno de um cidadão do império. Esperava-se dos administradores um bom rendimento dos bens a eles confiados. O pago dado ao administrador era um tanto por cento dos bens envolvidos nos negócios. Como não era permitida a usura existia um método para burlar a lei e os fiscais. O produto vendido era quantificado com um valor superior ao real. Exatamente como hoje se acostuma fazer com os orçamentos públicos para engordar os funcionários desonestos. DEFRAUDANDO [diaskorpizo <1287>=dissipare] A tradução do verbo diaskorpizo é espalhar ou dispersar; portanto o administrador não é um ladrão, que se aproveita para se enriquecer, ou seja, infiel, mas um irresponsável ou negligente em suas funções de modo que o lucro que esperava o dono não foi obtido. Lembra a parábola dos talentos em Mateus (25, 15) ou das minas em Lucas (19, 13). Traduzir por infiel predispõe a uma interpretação errônea da parábola. Mais: temos que estudar os costumes da época para saber quem eram os administradores e qual o seu ofício e então entendermos melhor o sentido da parábola, e portanto, a conclusão da mesma, que é o importante em todo exemplo bíblico.

AS CONTAS: E tendo-o chamado, lhe disse: Que (é) isto que ouço de ti? Presta contas de tua administração. Pois não poderás administrar mais (2). Et vocavit illum et ait illi quid hoc audio de te redde rationem vilicationis tuae iam enim non poteris vilicare. A competência em nosso caso era deficiente. O dono não estava contente e decidiu substituí-lo. Temos o exemplo de S. Calisto, Papa, que foi um escravo a quem seu dono Carpóforo, alto funcionário do palácio imperial, colocou à frente de uma banca. Calisto perdeu o dinheiro do amo e o que os cristãos lhe confiaram. Foge; mas, encontrado, é encerrado no xadrez de onde seu amo o tira reconhecendo a probidade do escravo. Calisto recobra os bens que os judeus, enganando-o, tinham maldosamente se apropriado. Os judeus se vingam denunciando-o como cristão e o Imperador Cômodo o manda para as minas da Cerdanha. Daí saiu por um edito de liberdade que Márcia, a favorita do imperador, conseguiu. De volta a Roma foi para Anzio para evitar a vingança dos judeus. O Papa Zeferino em 198 o torna seu secretário, conselheiro e administrador dos bens da Igreja, que defendeu através do artifício das catacumbas [daí a de S. Calisto], pois o novo imperador Septímio Severo reconhecia as funerárias como corporações legítimas, independentemente de sua religião. Calisto foi considerado como um gênio administrador e organizador. Precisamente por ser um ex-escravo, os fiéis o escolheram como Papa em lugar de Hipólito, escritor e grande de Roma, pelo qual este último se rebelou, formando um partido cismático. Hipólito é por isso considerado o primeiro anti-papa. Ambos se distanciaram na doutrina em que o rigorismo de Hipólito não perdoava os apóstatas, os adúlteros e os homicidas, e Calisto se inclinava por perdoar o pecado, mas impor uma severa penitência. Calisto assim como Hipólito, terminaram suas vidas como mártires. Calisto foi deposto e lançado ao poço da casa.

A DECISÃO: Então disse para si o administrador: Que farei, porque o meu dono me tira a administração? Não posso cavar. Envergonho de mendigar (3). Ait autem vilicus intra se quid faciam quia dominus meus aufert a me vilicationem fodere non valeo mendicare erubesco. O administrador demitido pensou nas duas coisas que na época existiam como meio de sobreviver: um emprego no campo como simples camponês ou recorrer à esmola como faziam muitos cidadãos em Roma. Desde a República existia a annona ou distribuição de trigo aos necessitados. Era uma prática considerada como dever do Estado que não só protegia os setores mais desfavorecidos economicamente, mas também prevenia as revoltas sociais. Os ediles realizavam o aprovisionamento e até se encarregavam de importar o trigo suficiente para a distribuição que era vigiada pelos curatores frumenti de modo a corrigir os abusos. A instituição se conservou até o final do império Romano. Não sabemos se existia alguma coisa parecida na Palestina, mas parece que houve situações em que o governo distribuiu alimentos em tempo de fome, pois Herodes o Grande até vendeu seus talheres de prata para comprar trigo. O Nosso administrador ao ser revogado de seu ofício se transformava em pedinte comum.

O ARDILOSO COMPORTAMENTO: Conheço que farei para que quando for removido me recebam em suas casas (4). Scio quid faciam ut cum amotus fuero a vilicatione recipiant me in domos suas. E tendo chamado cada um dos devedores do seu dono, disse ao primeiro: quanto deves ao meu amo? (5). Convocatis itaque singulis debitoribus domini sui dicebat primo quantum debes domino meo. Mas ele bolou um plano inteligente: tornar-se-ia cliente de seus ricos devedores. Os clientes eram as pessoas que após a salutatio de manhã recebiam o pão e a cebola para o dia ou uma cesta de comida no lugar do mesmo. Ou talvez pretendesse o cargo de administrador dos novos amigos assim ganhos à sua causa. Para isso mandou vir os que eram devedores do seu dono e da dívida retirou suas ganâncias que ele já não podia receber por ter perdido o emprego. O salário era próprio dos trabalhadores manuais. Este não era o caso dos administradores; mas existia uma retribuição que compensava as horas dedicadas. Um exemplo era o que sucedia com os professores ou pedagogos. Sem salário fixo, eles recebiam uma compensação porque poderiam ter trabalhado em outros menestréis e receber um salário apropriado. Eram as perdas que eram pagas e não o trabalho. O modo de proceder do administrador não era pois, um roubo, mas um estratagema bem bolado. Por isso podia ser admirado pelo seu senhor sem que pudesse ser acusado de ladrão.

UMA IDEIA RADIANTE: Ele então disse: cem bats de azeite. E disse-lhe: toma a tua conta e sentado, logo escreve cinquenta (6). At ille dixit centum cados olei dixitque illi accipe cautionem tuam et sede cito scribe quinquaginta. Depois a um outro disse: Tu pois, quanto deves? Ele então disse: Cem coros de trigo. E diz-lhe: toma a tua conta e escreve oitenta (7). Deinde alio dixit tu vero quantum debes qui ait centum choros tritici ait illi accipe litteras tuas et scribe octoginta. AS QUANTIDADES PERDOADAS: Parece que perdoa mais ao que deve 100 bats de azeite, aproximadamente 4 mil litros; pois o bat era uma medida  de capacidade de líquidos que equivalia a 40 litros, igual a metreta latina. A medida de sólidos era o coro equivalente a 400 l de modo que os cem coros de dívida equivaliam a 40 mil litros. O perdão do azeite era de 200 l e o de trigo de 800 l, quatro vezes mais em quantidade; mas considerando que os preços eram diferentes, temos que os 800 l de trigo equivaliam aos 200 l de azeite. Era provavelmente o dinheiro correspondente ao que o administrador deveria ganhar. Por isso o comentário do dono é só de louvor ante a perspicácia do seu antigo empregado, sem taxá-lo de ladrão. Aliás, a palavra latro latina era como se designava os soldados de suas legiões, que pelos saques e tropelias por eles cometidos, teve depois um significado restrito aos que se apropriavam dos bens alheios.

O LOUVOR DO DONO: E louvou o dono o administrador da iniquidade porque fez sensatamente; já que os filhos deste tempo (são) mais sensatos que os filhos da luz, em sua geração (8). Et laudavit dominus vilicum iniquitatis quia prudenter fecisset quia filii huius saeculi prudentiores filiis lucis in generatione sua sunt. O antigo empregador comentou elogiosamente a conduta que apontou como prudente [fronimos], sensata, judiciosa ou sábia, por previdente. CONCLUSÃO 1ª): OS FILHOS DESTE SÉCULO [aion <165> =saeculi]] são mais sábios que os filhos da luz em sua geração. A palavra aion designa tempo, duração, vida, século, idade, geração. As diversas traduções como a latina dizem: os filhos deste século são mais prudentes que os filhos da luz nesta geração. A tradução da bíblia de Jerusalém: os filhos deste século são mais prudentes com sua geração do que os filhos da luz. A espanhola: Os filhos do mundo são mais sagazes em suas relações que os filhos da luz. Que se entende por filhos deste século, ou mundo?  A frase filhos deste século [aion] sai duas vezes em Lucas. Uma aqui e outra em Lc 20, 34. Segundo Lc 18, 30 o século [aion] é oposto ao tempo presente [kairós]. Podemos afirmar que aion significa uma etapa, uma era. Os filhos desta etapa são os que mais tarde são descritos como os que escolheram a maimona (13). Os outros são os filhos da luz, que têm uma conotação parecida com os que descrevem os essênios como opostos aos filhos das trevas. A frase sobre a luz como unida a Cristo, sai em Jo 8, 12  quando Jesus afirma que ele é a luz e quem o segue não andará nas trevas, pelo contrário terá a luz da vida. Paulo fará uma distinção entre o homem psychikós [natural] e o homem pneumatikós [espiritual] que é a mesma distinção que Lucas faz neste evangelho. Vemos nesse trecho como o administrador prepara seu futuro, fazendo amigos de modo a ter uma aposentadoria por assim dizer garantida. Como prepara seu futuro o seguidor de Cristo? A isso dá resposta a segunda conclusão.

OS AMIGOS: Pois eu vos digo: Fazei para vós amigos da mamona da iniquidade para quando falharem vos recebam nas tendas eternas (9). Et ego vobis dico facite vobis amicos de mamona iniquitatis ut cum defeceritis recipiant vos in aeterna tabernacula. CONCLUSÃO 2a): FAZER AMIGOS: Do modo que o administrador fez amigos para um futuro tranquilo, devem também os filhos da luz, seguidores de Cristo, fazer amigos para que seu futuro seja o mais seguro e ditoso possível. Devem procurar fazer amigos da riqueza [Mamona] da iniquidade      [tes adikias]. A palavra mamona não é grega, mas sua origem é semita. É usada no grego em singular e aparentemente indeclinável. A vulgata não traduz a palavra, a usa também em singular e a declina como da 1a declinação. As traduções das diversas línguas traduzem por riquezas  em plural ou dinheiro em singular. A mais fiel é a inglesa que conserva o mammon. É uma palavra de origem aramaica mamon ou mamona. Seu significado primitivo seria objeto ou pessoa em que se pode confiar. Daí que Lucas diga confiar [pistoi] em objeto [de adikia = injusto de confiança] (11). Em Eclo 42, 9 significa riqueza. E no Targum se traduz por fazenda, ganância. S. Agostinho dirá que também era usado em fenício como o dinheiro de resgate de um escravo. O apelativo de iníquo é devido ao influxo contrário com que disputa o coração do homem para afastá-lo de Deus. Em Coelet 5, 8 lemos: A riqueza [traduzido por abundância] da terra pertence a todos. Marcos vê nas riquezas uma sedução, um engano quase impossível de se evitar (4, 18). O Coelet diz em 27, 2 Muitos pecam por amor ao lucro. Aquele que procura enriquecer-se se mostra implacável. A expressão riquezas injustas é de Sirac 5, 8: Não confies nas riquezas injustas, porque não te servirão para nada no dia da desgraça. O grego dos setenta diz  epi chremasin adikois. Pois a palavra chremata,  em plural, indicava riquezas. Daí provém a palavra castelhana crematística que pode ser traduzida ao português por pecuniário. A palavra adikiais [maldosas] é traduzida por mal adquiridas ou injustas como se a causa da obtenção fosse uma injustiça social, quando na realidade se trata mais de riquezas enganosas, pois não podem salvar o homem na hora mais angustiosa como é a da morte. Em que sentido elas são descritas como mammona tes adikias [bens da iniquidade] por Jesus, pois aparentemente a frase é uma autêntica palavra do Mestre? São riquezas mentirosas que iludem os homens e, portanto iníquas, maldosas. Basta esta mentira que em si encerra para titularem as mesmas como riquezas iníquas. Em Marcos 4, 19 são chamadas enganosas [apate]. É delas que se servem os prudentes do reino para adquirir amigos que à semelhança dos agradecidos pela ação do administrador incompetente, receberão os seus benfeitores nas suas tendas que são as eternas.

DO POUCO PARA O MUITO: O fiel em mínimo também em muito é fiel; e o em mínimo iníquo também em muito iníquo é (10). Qui fidelis est in minimo et in maiori fidelis est et qui in modico iniquus est et in maiori iniquus est.  Se pois,  não fostes fiéis quanto ao mammona enganoso, quem vos confiará o verdadeiro? (11). Si ergo in iniquo mamona fideles non fuistis quod verum est quis credet vobis. E se não fostes fiéis quanto ao alheio quem vos dará o vosso? (12). Et si in alieno fideles non fuistis quod vestrum est quis dabit vobis. 3a) DO POUCO PARA O MUITO: parece que esta sentença de quem é fiel no mínimo será fiel no muito etc. é uma frase que foi acrescentada e tomada da parábola das minas (19, 17). É uma tese para deduzir a conclusão imediata: Se não fostes fiéis quanto ao mammona enganoso, quem vos dará o verdadeiro [como administradores] (11)? Como vemos, existe uma oposição entre o falso e o verdadeiro dinheiro; por isso a nossa tradução de enganoso ou falso da palavra adikias tem uma base real. O relativo Quem indica muito provavelmente Deus. Deus olha o comportamento atual para dar uma recompensa futura e total.  Se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o próprio (12)? É uma frase difícil de interpretar. À vista do administrador da parábola que gerencia bens alheios, podemos dizer que a frase é uma reflexão sobre como a gerência de bens temporais da frase anterior determina a gerência última de bens que são inatos e acompanham sempre a pessoa, como a pele rodeia o corpo. Estes bens são evidentemente a fé e a pertença ao Reino. Somente os verdadeiros ricos, que não se deixam envolver pela sedução das riquezas, serão dignos de entrar no Reino.

MORAL DA HISTÓRIA: Nenhum empregado pode servir a dois senhores. Pois odiará a um e amará o outro ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao mammona (13). Nemo servus potest duobus dominis servire aut enim unum odiet et alterum diliget aut uni adherebit et alterum contemnet non potestis Deo servire et mamonae. Jesus explica quem são esses senhores: Deus e Mammona. Todo o anterior serve para esta conclusão que é definitiva. Também Mateus nos apresenta a mesma declaração em 6, 24. O grego em ambas as passagens só se diferencia porque Lucas fala de nenhum empregado devido ao qual é feito a conclusão de uma parábola, enquanto Mateus generaliza a afirmação com o absoluto, ninguém. De uma situação puramente humana e racionalmente lógica, Lucas tira uma conclusão que é absoluta em termos de contradição. Deus e as riquezas, estas sem distinção de procedência, são termos opostos. Ou servimos a Deus ou servimos às riquezas, mas as duas coisas ao mesmo tempo não são possíveis.

PISTAS:

1) Dizia um padre num de seus sermões: Ou abraçamos a pobreza ou abraçamos os pobres. Para a grande maioria a pobreza é o caldo de cultivo de suas vidas. Entendemos por pobres aqueles que devem trabalhar para poder viver. Os que não querem trabalhar não comam, dirá Paulo em 2 Ts 3,10. Então teremos que dizer: Bemaventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino. A eles devemos pregar para que não se deixem iludir pela sedução das riquezas (Mc 4, 19).

2)  Os ricos têm no evangelho de hoje um exemplo para, quando a aposentadoria da vida chegar a termo, encontre amigos que os recebam nas moradas eternas: fazer bom uso das riquezas. Elas não formam parte íntima do homem. Devem ser abandonadas e os ricos são meros administradores das mesmas. Um dia teremos que dar conta da administração. Assim como o administrador deu parte ou tudo do que era seu para adquirir amigos, da mesma forma devemos também fazer amigos com essas riquezas que não nos pertencem, mas que administramos.

3) O que não é necessário para uma vida digna segundo nossa classe social da qual fazemos parte, pertence aos pobres. O luxo é uma afronta e um pecado. Porque esse luxo precisamente como supérfluo pertence aos necessitados e estamos roubando o que estamos esbanjando. E estamos dando um péssimo exemplo que causa inveja, um vício, e não admiração ou uma virtude.


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12.09.2010
XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C

__ “A EXPERIÊNCIA DO PERDÃO, RENOVAÇÃO DO ÍNTIMO” __

Ambientação:
Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs! O amor de Deus para com os homens é tão gratuito que não podemos pretender ter direito a ele; é tão absoluto que jamais podemos dizer que nos falta. O amor humano, ao contrário, é tão limitado e fechado pelo nosso egoísmo, tão raramente ultrapassa a estrita justiça ou se liberta da severidade moralista, que facilmente imaginamos um Deus vingador e uma religião baseada no temor. Quem de nós se lembra de que a "graça" que pedimos a Deus significa "ternura" e "piedade" pelo pecador? Só um estudo atento da Palavra de Deus pode ajudar-nos a tomar consciência do sentido da misericórdia indefectível de Deus. Entoemos cânticos ao Senhor!

(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Ex 32, 7-11.13-14): - "Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito."

SALMO RESPONSORIAL (50/51): - "Vou agora levantar-me, volto à casa do meu Pai!"

SEGUNDA LEITURA (1Tm 1,12-17): - "Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra: Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores."

EVANGELHO (Lc 15,1-32): - "Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão."



Homilia do Diácono José da Cruz – XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – (Ano C)

A Misericórdia Divina

Eu gostava de colecionar bolinhas de gude e cheguei a ter quase mil unidades, mas havia uma opaca, de cor avermelhada e amarela que parecia uma pedra preciosa e era a minha predileta. Um dia dei pela falta da minha jóia rara e fiquei alguns dias “amuado” e minha mãe, vendo a minha súbita tristeza, lembrou-me que eu possuía mil, ela não compreendia que aquela era minha predileta, cuja beleza todos os meninos da região admiravam, mas ela era única e toda minha. Uma semana depois de intensa procura, acabei encontrando-a no fundo do quintal e minha alegria foi tão grande que sai pulando pela calçada e adentrei pela casa, para que todos soubessem que havia achado a minha bolinha perdida.

Minha mãe, que nada entendia de bolinhas de gude raras, não entendia minha predileção por aquela bolinha especial, e talvez achasse que era uma perda de tempo dar tanta atenção a uma só deixando de lado as outras mil. É essa a linha de raciocínio das parábolas apresentadas no evangelho desse domingo, da moeda perdida, da ovelha desgarrada e do Filho pródigo.

A diferença está que para mim, aquela bolinha era especial e valia mais que as outras, porque era mais bonita e tinha um atrativo a mais, a moeda que a mulher havia perdido era igual às outras, mas não estava mais diante dos olhos de sua dona, a ovelha nada tinha de diferente das demais, porém estava perdida, sem abrigo e sem alimentação, foram essas as preocupações da mulher e do proprietário das ovelhas. O coração de Deus também é assim, ama de um modo pessoal e especial a cada ser humano, assemelha-se aquela mãe que só consegue dormir quando chega o último dos filhos na madrugada.

Em nossa sociedade predomina um modo de pensar que é contrário, achamos que é perda de tempo dar atenção a quem não tem talento, a quem não é direito, a quem enveredou pelo caminho do mal, a quem se perdeu nas drogas e nos vícios, a quem destruiu a família, a quem não estuda e nem trabalha, e no campo religioso, a quem se tornou pecador e não parece disposto a converter-se. “Esse fulano não tem jeito, esse sujeito é irrecuperável, para esse não adianta falar de Jesus” quantas vezes não ouvimos afirmações como essa, na escola, na família, e até na comunidade! Tem muito cristão encabeçando lista a favor da pena de morte. Será que vale a pena falar de Deus a um traficante, falar sobre o amor manifestado em Jesus a favor de todos e de cada homem? Quantas ovelhas desgarradas, quantas moedas perdidas, quantas bolinhas de gude, lindas, feitas a imagem e semelhança do Criador, que estão apenas sujas, desfiguradas, jogadas em um canto qualquer.

As pessoas facilmente desistem da vida, do amor, desistem de viver bem com outras pessoas, cada um quer fazer as malas e tomar o seu rumo, viver de maneira desenfreada, sem virtudes e sem compromisso, achando que irão assim encontrar a felicidade, quem desiste de amar, jamais será feliz! A falta de amor nos faz passar fome, e nos joga na miséria, fomos criados para viver no amor e Deus é a fonte que nos alimenta, longe dele,  a nossa vida perde totalmente o seu sentido.

Há um filho pródigo em cada um de nós, que se ilude correndo atrás dos amores fantasiosos que o mundo nos oferece, não temos noção do quanto o Pai nos ama, não percebemos que moramos na casa de Deus e que o seu coração de Pai nunca para de bater por nós. Sempre há um dia que deparamos com o vazio, diante das “lavagens” de porcos que não nos alimenta. Voltamos para a casa do pai na condição de mendigos, sujos, rasgados e cheirando mal, e o Pai, mal nos avista vem correndo ao nosso encontro, nos abraça apertado e nos cobre de beijos, não se importando que estejamos impuros, joga sobre nossa miséria uma túnica branca, alvejante e perfumada, veste nossos pés imundos com uma sandália e em nosso dedo coloca um anel.

E o filho mais velho, que papelão! Achou que sua conduta irrepreensível o fazia merecedor do amor do pai, relacionava-se com ele como com um patrão, não reconhecia o outro como irmão e por isso recusou-se entrar para comer, beber, dançar e se alegrar com a volta do mais novo. Por acaso não somos um pouco assim? A nossa prática religiosa, seja lá de que igreja ou crença for, não nos faz muitas vezes olhar os “afastados” com certo desdém?

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – (Ano C)

“Alegria no apostolado”

Todo cristão deve ser apóstolo. Trata-se de uma exigência do próprio batismo. Caso não tenhamos o desejo de aproximar as pessoas de Deus, de leva-las às fontes da graça, de sofrer e rezar pela salvação delas, perguntemo-nos se realmente amamos a Deus e se estamos convencidos da fé que professamos e vivemos. Na verdade, se a nossa fé é operativa, evangelizar será uma consequência necessária. Deveríamos vibrar, alegrar-nos verdadeiramente por cada pessoa que entra na Igreja, essa comunidade de salvação.

A fé é o melhor presente que se pode oferecer a alguém. Diante dos valores da fé até a vida se relativiza, todos os mártires de Cristo mostraram que isso é assim mesmo. Nós, católicos, precisamos estar mais convencidos de que temos na Igreja toda a verdade e de que podemos fazer um grande bem à humanidade ao oferecer-lhe Cristo, a Verdade (cfr. Jo 14,6). Por outro lado, saber-se na Casa da Verdade, que é a Igreja, não nos autoriza a ser intolerantes com as pessoas. É certo: a Igreja é “a coluna e sustentáculo da verdade” (1 Tm 3,15), mas nós não somos donos da verdade, mas os seus servidores, nem personificações da verdade. Ademais, a nossa vida não se modela sempre pela verdade que conhecemos, professamos e amamos… basta pensar nos nossos próprios pecados.

Apesar dos pesares e em plena luta por alcançar a santidade, devemos estar sempre prontos para ganhar novas almas para Cristo. Como? Eu acho que umas das características mais notáveis dos apóstolos do século XXI deveria ser a alegria da fé. Quando os outros virem que nós estamos alegres por ser cristãos, verdadeiramente contentes e desejosos de participar da Missa, que a confissão passou a ser para nós o “sacramento da alegria”, que somos bem educados, que não “damos patadas” e procuramos não andar de cara fechada, que nos preocupamos por eles, que somos pessoas que sabem amar de verdade, então se convencerão do poder transformador do cristianismo, não só no âmbito pessoal, mas também em todas as esferas sociais.

Não faz muito tempo encontrei um panfleto titulado “apostolado do sorriso”. Gostei! Entre outras palavras, dizia: “é suficiente um leve sorriso nos seus lábios para levantar o coração, para manter o bom-humor, conservar a paz da alma, ajudar a saúde, embelecer o rosto, despertar os bons pensamentos, inspirar obras generosas”. Como a bondade e a simpatia atraem! Os outros se convencerão de que, apesar dos nossos numerosos problemas, há alguém que nos mantêm felizes e risonhos. Eles buscarão descobrir o segredo da nossa felicidade e nesse momento… estaremos mais felizes. Por quê? Uma pessoa a mais se interessa pelo Deus da nossa alegria!

Que pena! Os escribas e os fariseus não pensavam assim! Eles ficaram murmurando quando Jesus acolheu os pecadores. O filho mais velho, aquele que sempre estava na casa do pai, que ficou chateado quando o seu irmão voltou ao lar, representa não só cada fariseu triste pela atitude de Jesus, mas também representa a cada um de nós quando, vivendo há tantos anos na casa do Pai, na Igreja, perde a capacidade de admirar-se, surpreender-se e alegrar-se pela conversão de um novo adepto à causa de Deus.

Aquele panfleto do “Apostolado do sorriso” terminava assim: “o teu sorriso pode levar esperança e abrir horizontes aos agoniados, aos deprimidos, aos descoraçoados, aos oprimidos, aos tentados e aos desesperados. O teu sorriso pode ser o caminho para levar as almas à fé. O teu sorriso pode ser o primeiro passo para levar um pecador a Deus. Mas, sobretudo, sorri à Santíssima Trindade. Sim, sorri às três Pessoas que moram na tua alma, enquanto aceitas com amor tudo o que elas te enviam e merecerás também o radiante sorriso delas, que será a tua felicidade nesta e na outra vida”.

Sorri! Motivos? Temos de sobra: somos filhos de Deus, membros da Igreja, amigos de Deus, evangelizadores de Jesus Cristo, homens e mulheres de oração, pecadores perdoados por Deus, crucificados com Cristo através das constantes tribulações. Sorrimos porque somos felizes, porque Deus mora na nossa alma, porque queremos conquistar a todos para Deus. Tribulações, angústias, perseguições, fome, nudez, perigos (cfr. Rm 8,35), nem diabos… nada, absolutamente nada, poderá separar-nos do amor de Deus nem roubar a nossa alegria evangelizadora.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – (Ano C)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Epístola (1 Tm 1, 12-17)

INTRODUÇÃO: As duas cartas a Timóteo, junto com a de Tito, formam um conjunto chamado de cartas pastorais. Pois não estão dirigidas às igrejas, mas aos pastores das mesmas. Não são propriamente dogmáticas, mas contêm instruções com respeito à conduta dos ministérios correspondentes. Quando foi escrita? Devemos falar de probabilidades. Paulo fundou a Igreja de Éfeso na sua terceira viagem, prolongando-se aí sua estância pelo tempo de três anos (55-57). Logo passou a Macedônia na Turquia europeia e finalmente a Corinto. Daí partiu para Jerusalém onde foi preso. A carta não poderia ter sido escrita antes desse seu primeiro cativeiro, pois a situação descrita (Timóteo como chefe da igreja e Paulo em Macedônia com intenção de ir pronto a Éfeso) não pode ser a desta carta. Assim, temos que admitir que Paulo saiu livre de Roma, visitou a Espanha e voltou ao Oriente, e da Macedônia escreve a carta entre os anos 64-67. Conteúdo: Nas instruções podemos ver um início do Direito Eclesiástico: é a organização que brota da primitiva igreja, palavra que Paulo usa três vezes nesta carta (3, 5.15;5, 16), e não uma igreja carismática mas hierárquica e fortemente organizada em que há superiores e súditos como em toda sociedade com classes. Timóteo aparece com poderes especiais, encontramos os nomes de bispos (3,2), presbíteros (5,17) e diáconos (3, 8) com funções muito concretas e diferentes com respeito aos simples fiéis. Porém não existe uma diferença entre bispo e presbítero, sendo praticamente sinônimos. Do conteúdo devemos ressaltar os falsos doutores e o modo de combatê-los. Timóteo: Foi um dos colaboradores de maior confiança de Paulo, nomeado 6 vezes no livro dos Atos e 18 nas epístolas paulinas. Tinha nascido em Listra (perto de Icônia na Turquia asiática) de pai gentil e mãe judia, convertido por Paulo na sua primeira viagem, e tomando-o como seu auxiliar na segunda, se tornando um companheiro inseparável, até a primeira prisão romana. Parece que era de caráter tímido e de saúde precária. Foi bispo em Éfeso e a tradição fala de seu martírio. No trecho de hoje, temos uma digressão pessoal de Paulo, relatando em sua própria vida o plano salvador, misericordioso e sábio, de quem é o dono do Universo, o Deus, Rei Sempiterno.

ESCOLHA DE PAULO: E dou graças a quem me fortaleceu, a Cristo Jesus, ao nosso Senhor; porque me avaliou como fiel, estabelecendo-me para o ministério (12), e sendo inicialmente blasfemo e perseguidor e insolente; mas teve misericórdia porque sem saber procedi na incredulidade (13). Gratias ago ei qui me confortavit Christo Iesu Domino nostro quia fidelem me existimavit ponens in ministeri, Qui prius fui blasphemus et persecutor et contumeliosus sed misericordiam consecutus sum quia ignorans feci in incredulitate. FORTALECEU [endynamösanti<1743>=confortavit] na realidade, temos o particípio ativo de aoristo do verbo endynamoö, derivado de dynamis [força] que significa fortalecer, como em At 9, 22: Paulo, porém, mais e mais se fortalecia e confundia os judeus. E foi contado ou AVALIADO [ëgësato<2233>=existimavit] do verbo ëgeomai, que sai 70 vezes no NT, e que tem o significado de liderar, como em Lc 22, 26: entre vós …aquele que dirige seja como o que serve. Mas também tem o significado de considerar, contar, estimar avaliar, como em At 26, 2: eu me considero tanto mais feliz, rei Agripa. A TEB traduz como julgou digno de confiança. FIEL [pistos<4103>=fidelis], de fato o sustantivo pistis que é traduzido por fé nas cartas paulinas, tem o significado primordial de fidelidade [emunah hebraico]. Fiel é quem cumpre o contrato, digno de confiança, pois procura cumprir o prometido com sua palavra. Paulo foi considerado digno de confiança para exercer o ministério como apóstolo. Para isso foi necessária uma conversão, fruto da misericórdia. Assim, de perseguidor e blasfemo, por negar a dignidade de Cristo, e de INSOLENTE [Ybristës<5197>=contumeliosus] insolente, alguém que, soberbo, usa uma linguagem insultante, ou faz coisas que humilham e envergonham os outros. Somente sai de novo em Rm 1, 30: Caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, que a TEB traduz por provocadores e Nácar por ultrajantes. Paulo carrega as tintes pretas sobre si mesmo antes de sua conversão, até que a misericórdia de Deus o retirou de seu PROCEDER NA INCREDULIDADE que, do ponto de vista moral, era impecável (Fp 3, 9), mas como remido por Cristo totalmente oposto por falta de fé.

PELA GRAÇA DE DEUS: Superabundou, pois, a mercê do nosso Senhor por meio da fidelidade e do amor o qual [está] em Cristo Jesus (14). Superabundavit autem gratia Domini nostri cum fide et dilectione quae est in Christo Iesu. SUPERABUNDOU [yperepleonasen<5250>=superabundavit] de super [sobre] e pleonazö <4121>[abundar, ou desbordar] é um apax mas que relembra o mais frequente e simples onde abundou[epleonasen] o pecado superabundou [ypereperisseusen] a mercê [charis] (Rm 5, 20). MERCÊ [charis<5484>=gratia] um benefício, um ato de bondade, um favor ou mercê e por parte de Deus, misericórdia, perdão. FIDELIDADE [pistis <4102>=fides] originalmente fidelidade, qualidade de quem é confiável, para ser usada no NT como crença, fé, especialmente em Cristo como o Logos feito homem. O latim também admite o significado de fidelidade. Aqui se trata de um atributo de Deus que é descrito como fiel e amoroso com um amor manifestado em Jesus Cristo. Podemos também traduzir por fé, como sendo a base dessa atitude divina que responde com amor à fé de quem se entrega a Cristo. Porém no versículo seguinte, vemos que pistis<4102> [substantivo] se traduz em pistos<4103> [adjetivo] e que esta fidelidade é a palavra de Deus.

A PALAVRA FIEL: Fiel (é) a palavra e digna de toda aceitação, porque Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais principal sou eu (15). Fidelis sermo et omni acceptione dignus quia Christus Iesus venit in mundum peccatores salvos facere quorum primus ego sum. Neste versículo, Paulo, como sempre, concatena ideias e deriva para o objeto principal do cristianismo:Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores [o que estava perdido] e olha para sua vida e exclama: eu sou um deles, o PRINCIPAL [Prötos <4413>=primus] primeiro em tempo ou lugar, em rango, em influência: chefe, principal. Temos Mt 20, 27: quem quiser ser primeiro entre vós, será vosso servo. Palavras que repete Mc 10, 44. Uma outra citação é Mt 22, 38: Este é o principal e grande mandamento. Vemos como aqui, Paulo a si mesmo se situa como o mais importante entre os pecadores, devido precisamente ao que ele escreveu no versículo 13. Todos os santos, especialmente se convertidos, têm-se declarados os piores pecadores do mundo. E não mentiam, pois a luz do Espírito iluminava suas vidas e com extremo detalhe eles compreendiam a diferença entre a santidade divina e a fragilidade humana. Esta era como um ponto vazio dentro da imensidade de Deus, que a Escritura chama de majestade ou doxa. Assim veem sua impotência na frente da supremacia divina e qualquer pequena falha é uma imensa culpa merecedora do máximo castigo.

MISERICÓRDIA: Mas por isso recebi misericórdia, para que em mim, primeiramente, mostrasse Jesus Cristo toda tolerância, para exemplo dos que estariam a crer nEle para vida eterna (16). sed ideo misericordiam consecutus sum ut in me primo ostenderet Christus Iesus omnem patientiam ad deformationem eorum qui credituri sunt illi in vitam aeternam. RECEBI MISERICÓRDIA [ëleëthën <1653>=misericordiam consecutus] O verbo eleeö significa ter compaixão, compadecer-se, ter misericórdia, esta última própria de Deus, como o elison dos Kyries que ainda a igreja mantém de sua liturgia grega original. Como o tempo é aoristo e passivo, devemos traduzir por fui objeto de misericórdia. Temos um exemplo em Mt 5, 7: Ditosos os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia (eleëhesontai) [o mesmo tempo que nosso atual versículo]. Paulo insiste no milagre de sua conversão em Damasco. TOLERÂNCIA [makrothymia <3115>=patientia] com o significado de paciência, firmeza, constância, perseverança, resignação e até lentidão em vingar agravos, ou seja, tolerância, que é a acepção que temos escolhido, pois ante um inimigo como era Paulo antes de Damasco, Jesus teve essa tolerância e paciência diante de um pecador. Por isso, a conduta de Jesus serve de paradigma para todo pecador ou infiel que, a exemplo de Paulo, se tornaria  fiel, aceitando a fé para sua salvação ou seja, para a vida eterna.

DOXOLOGIA: Ao rei dos séculos imortal, invisível, ao só sábio Deus, reverência e glória nos séculos dos séculos. Amém (17). Regi autem saeculorum inmortali invisibili soli Deo honor et gloria in saecula saeculorum amen. SÉCULOS [aiön<165>=saeculum]. Temos a doxologia final, dirigida a Deus a quem Paulo chama rei dos séculos, ou  seja, da eternidade como deve ser traduzida a palavra aiön, um tempo o mais comprido, sem limites, para sempre, que o latim traduz pelo tempo mais longo de seu vocabulário que era o século e em geral pelos séculos  ou pelos séculos dos séculos. É como se atualmente disséssemos por milhões de anos luz. A tradução dos séculos é um tanto imprópria e assim alguns preferem eterno (RA), que é realmente o sentido exato da frase. Os adjetivos ou atributos divinos são especiais: imortal, invisível, sábio. É o louvor como ação-de-graças, que em termos hebreus não existe tal ação como de gratitude. A frase final eis tous aiönas tön aiönön [pelos séculos dos séculos] era o término doxológico das orações latinas: per omnia saecula saeculorum. É o para sempre  ou por toda a eternidade.

Evangelho (Lc 15, 1-32)
PARÁBOLAS DA MISERICÓRDIA

INTRODUÇÃO: Neste domingo podemos ler a leitura breve de Lucas 15, 1- 11 ou a longa em que encontramos a parábola, talvez a mais bonita, dos evangelhos: a parábola chamada do filho pródigo. Como esta parábola já foi comentada no IV Domingo da quaresma deste ano, dedicaremos o comentário de hoje à explicação das duas parábolas precedentes: a da ovelha e da dracma perdida.

OS OUVINTES: Todos os publicanos e pecadores estavam se aproximando de Jesus a ouvi-lo (1). erant autem adpropinquantes ei publicani et peccatores ut audirent illum. Sabemos quem eram os publicanos: Os arrecadadores de impostos, mal vistos pelos judeus, por serem julgados como colaboradores de um poder que tinha o César como dono de um império, no qual ele era o representante de deuses pagãos. Os publicanos cobravam um dinheiro que pertencia ao único Deus, Javé, dono da terra das promessas. Os pecadores são os sujeitos da ruptura voluntária com esse mesmo Deus, especialmente se o pecado é de idolatria, como no caso do antigo Israel, dado ao culto dos Baal ou deuses cananeus, culto especialmente praticado pelos reis, tanto do Norte como do Sul, após Salomão. Em Lucas, a palavra pecador [amartolos] tem por vezes o sentido que tem em Mateus a palavra gentil [ethnikós]. Tal é o caso do amor que em Lucas vemos oferecido aos amigos pelos pecadores (6, 32-34), esses pecadores que em Mateus são chamados publicanos e gentios (5, 46-47).  No caso atual, já fizemos questão de afirmar que os gentios eram considerados pecadores de modo especial. Pelo que diz respeito às mulheres de vida pública, temos que dizer que as etairas ou cortesãs eram consideradas em grande estima entre os gregos. Eram diferentes, tanto das concubinas como das esposas, pois as etairas alegravam os banquetes aos quais nunca acudiam as esposas e possuíam conhecimentos dos quais uma mulher honrada se envergonhava, como saber ler e escrever. Essas mesmas qualidades tinham as geishas entre os japoneses. Mas também existiam as de classe inferior, chamadas porné, que é o nome usual  da Escritura e que  Lucas emprega no evangelho de hoje como sendo as mulheres com as quais o filho menor dissipou sua herança (30). Existiam também as hieródulas, escravas sacerdotisas da deusa Afrodita [Vênus latina], deusa do amor. De modo especial em Corinto eram as prostitutas sagradas em número muito grande que iniciavam os jovens no amor. No Gênesis temos o relato de Judá que se acostou no caminho com uma mulher que ele pensou ser prostituta cultual [Kedeshá] e em 2 Rs 23, 7 o rei Josias demoliu a casa dos Kadeshim (sic) ou prostitutas sagradas, que o texto dos setenta não traduz, mas deixa com o nome plural de kadesh no masculino. No NT aparece a palavra pornés traduzida por meretriz [a que ganha] embora os romanos tinham as pallaca [cortesãs], as pala [abertamente] e as meretrizes todas elas sob o nome de prostitutas [oferecidas]. Se entre os romanos o adultério estava proibido sob pena de morte, isso era mais devido às consequências sociais que acarretava o filho ilegítimo, do que ao ato em si considerado como pecaminoso. O filho legítimo de uma matrona romana era livre e tinha seu status derivado da classe social do pai. Um filho ilegítimo era um escravo, seja qual fosse o pai, que se considerava o único elemento a proporcionar a vida. O óvulo feminino só foi encontrado no fim do século XIX. Para evitar que os jovens pudessem pôr em perigo a honra dos lares vizinhos, é que o adultério estava penalizado com a pena de morte,  que o pai deveria cumprir se o marido não o fizesse, segundo a lei Julia. Por isso os prostíbulos eram considerados como serviços sociais necessários. Para distingui-las as prostitutas estavam obrigadas a vestir uma toga curta e escura que as diferenciava das outras mulheres. Os soldados romanos não podiam se casar durante os 25 anos que durava seu alistamento. Daí o número grande de cortesãs que acompanhavam os exércitos.

QUE BUSCAVAM ELES EM JESUS? E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo que este recebe pecadores e come com eles (2). Et murmurabant Pharisaei et scribae dicentes quia hic peccatores recipit et manducat cum illis. A doutrina do Mestre era bem acolhida por um povo que era desprezado pela classe social governante, saduceus e fariseus, porque Jesus acolhia os publicanos e pecadores e até comia com eles, coisa inaudita e que feria a consciência da época, fundada na separação dos dois povos e inimizade entre ambos, como dirá Paulo em Ef 2, 14. Daí que murmurassem contra Jesus, acusando-o de recebê-los e de comer com eles, fato este que implicava uma certa intimidade e até amizade.

JESUS SE DEFENDE: Então lhes disse esta parábola dizendo: (3). Et ait ad illos parabolam istam dicens. Que homem dentre vós tendo cem ovelhas não deixa as 99 no descampado e vai à perdida até que a encontra (4). Quis ex vobis homo qui habet centum oves et si perdiderit unam ex illis nonne dimittit nonaginta novem in deserto et vadit ad illam quae perierat donec inveniat illam. E encontrada, a põe sobre seus ombros gozoso (5). Et cum invenerit eam inponit in umeros suos gaudens. E chegando em casa convoca os amigos e os vizinhos dizendo-lhes: regozijai-vos comigo porque encontrei a ovelha, a perdida. (6) Et veniens domum convocat amicos et vicinos dicens illis congratulamini mihi quia inveni ovem meam quae perierat. Digo-vos, assim haverá gozo no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos os que não têm necessidade de arrependimento (7). Dico vobis quod ita gaudium erit in caelo super uno peccatore paenitentiam habente quam super nonaginta novem iustis qui non indigent paenitentia. 1A PARÁBOLA. É a parábola da ovelha perdida. Todo pastor que tem 100 ovelhas é capaz de deixar 99 no descampado [eremos grego], ou seja, sem que ninguém as cuide para buscar a perdida. Mateus, em lugar paralelo, fala dos montes que para o caso é o mesmo, pois os pastos estavam situados na faixa montanhosa da Judeia ao leste de Jerusalém entre ela e o mar Morto (Mt 18, 12). Mas a particularidade da parábola, a coisa que da pé para rebater seus inimigos, é a alegria do pastor, uma vez encontrada a ovelha desgarrada: a coloca sobre seus ombros e na volta à sua casa chama amigos e parentes para narrar um fato extraordinário, o encontro da ovelha que estava perdida. Jesus termina afirmando que o que é feito na terra é pálido modelo para céu. As coisas perdidas têm mais valor que as que todos os dias usamos. Uma ovelha desgarrada pesa mais na balança do sentimento do que 99 para as quais não é necessária vigilância. Por isso haverá (mais) alegria no céu sobre a conversão de um pecador que muda de conduta, do que sobre 99 justos que não precisam mudar suas vidas (7). O grego segue, neste caso, o comparativo semítico e por isso é necessário introduzir o mais entre parêntesis. A expressão no céu aponta para o habitante principal do mesmo que é o próprio Deus. Na segunda parábola, os exultantes serão os habitantes do mesmo: os anjos. Com isso, Jesus indica que o fenômeno não é unicamente humano, mas se estende até ser aprovado pela vontade última, como é a divina. Para ela também é motivo de máxima alegria a conversão de um pecador.

2A PARÁBOLA. A DRACMA PERDIDA. Ou que mulher, tendo dez dracmas, se perder uma dracma não acende uma lucerna e varre a casa e busca diligentemente até a encontrar (8). Aut quae mulier habens dragmas decem si perdiderit dragmam unam nonne accendit lucernam et everrit domum et quaerit diligenter donec inveniat. E tendo-a achado, reúne as amigas e as vizinhas dizendo: regozijai-vos comigo, porque achei a dracma a que tinha perdido(9). Et cum invenerit convocat amicas et vicinas dicens congratulamini mihi quia inveni dragmam quam perdideram. Assim, digo-vos: haverá gozo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende (10). Ita dico vobis gaudium erit coram angelis Dei super uno peccatore paenitentiam agente. É um paralelismo perfeito da parábola anterior. Uma coisa perdida que tem um valor extra quando é encontrada, pois alegra o coração de quem a busca até tal ponto que deseja compartir seu gozo com os vizinhos. Na realidade, as 10 moedas não eram uma quantidade notável como para constituir uma fortuna. É possível que o valor da moeda derivasse do fato de formar parte das arras ou moedas com as quais as mulheres adornavam o véu nupcial. Porém o texto não dá indício algum para esta interpretação. De fato uma dracma era equivalente ao denário, ou seja, o salário de um dia. E considerando que o valor  de uma coisa depende da estima que seu dono da à mesma, podemos afirmar que uma mulher cujo único tesouro são as dez moedas tem um apreço muito grande a esse pequeno tesouro que constitui parte de sua vida feliz. O termo final da parábola é o mesmo que o da parábola anterior: alegrai-vos comigo porque encontrei a dracma que tinha perdido.  Assim vos digo que haverá gozo entre os anjos de (sic) Deus por um pecador que se arrepende.

3A PARÁBOLA. É a conhecida como do Filho Pródigo, que por ter sido comentada no IV DOMINGO DA QUARESMA deste ano não comentaremos aqui.

PISTAS:
1) Jesus dá uma lição de como devemos ver as pessoas que aparentemente estão fora do círculo da moralidade social em que pensamos encontrar-nos. São os marginados pela sua conduta pecaminosa. Jesus afirma que a sua conversão deve ser causa de alegria verdadeira. É por isso que ele toma a atitude do pastor que vai atrás da ovelha desgarrada ou a mulher que varre e limpa a casa para encontrar a moeda perdida de sua coleção.

2) Além dessa conclusão, Jesus mostra o autêntico rosto do Pai que é o de procurar o que estava perdido, pois ao encontrá-lo a alegria produzida é muito maior e duradoura que a tristeza da perda, nunca definitiva. Jesus dirá de si mesmo que veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19, 10). Várias congregações religiosas abundam na mesma teoria para delimitar sua vocação.

3) Pelo que diz respeito a nós, a notícia implícita na parábola é de grande ânimo e consolação. O pecado não nos afasta definitivamente de Deus. Ele espera nossa conversão que é como um achado após uma intensa busca. Um pecador arrependido vale mais que 99 justos, e sua conversão enche de alegria um Deus que espera sempre. A conversão é a maior alegria de quem deu a vida para os que intentam a volta, após se afastar do caminho.

4) Deus não tem inimigos, mas desgarrados ou extraviados. Por isso sua maior virtude é a espera, como espera o amor pela pessoa amada. Como deveríamos aprender dessa sua maneira de esperar para que o mal se transforme num bem, causando maior alegria do que a tristeza originou a primeira ausência!


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( Salmos )

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