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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (ou Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 26/10/2014 - 30º Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 19/10/2014 - 29º Domingo do Tempo Comum


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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26.10.2014
30º Domingo do Tempo Comum — ANO A
( VERDE, GLÓRIA, CREIO – II SEMANA DO SALTÉRIO )
__ “Amar não é um puro sentimento: é o jeito de agir como Deus age.” __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Sabemos, todos nós, da relevância que os relacionamentos têm em nossas vidas. Talvez não seria exagero dizer que somos aquilo que relacionamos. Por isso, a harmonia depende, em grande parte do modo como nos relacionamos uns com os outros. Quando nossos relacionamentos se tornam confusos e, às vezes, até mesmo agressivos, a desarmonia começa a fazer parte da vida. Tudo fluirá com facilidade se soubermos nos relacionar bem com Deus, com as pessoas, situações e conosco mesmos. Portanto, para que os relacionamentos possam produzir harmonia em nossos corações, faz-se necessário viver no amor e se alimentar dele. Quando o amor faz parte de nosas vidas, tudo será feito com serenidade, leveza e com mais eficácia.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Neste domingo nos reunimos para celebrar o amor de Deus e viver de acordo com sua vontade. Que nossos corações se entreguem a esse amor que dá alegria e coragem para transformarmos nossa existência.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Será necessário afastar-se dos homens para encontrar a Deus? E quem encontrou a Deus ainda poderá voltar aos homens e viver com eles? Interessar-se por eles, trabalhar com eles e para eles? Em outras palavras, são compatíveis o amor de Deus e o amor dos homens, ou, ao contrário, um exclui o outro, de modo que seja absolutamente necessário fazer uma opção? Nenhuma dessas perguntas recebeu de Jesus uma resposta essencial: o primeiro mandamento é amar a Deus e o segundo, que lhe é semelhante, amar os homens. Não se pode, pois, pensar que a entrada de Deus numa consciência provoque a exclusão do homem.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo, entoemos cânticos jubilosos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Ex 22,20-26): - "Não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito."

SALMO RESPONSORIAL 17(18): - "Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação!"

SEGUNDA LEITURA (1Ts 1,5c-10): - "a vossa fé em Deus propagou-se por toda parte."

EVANGELHO (Mt 22,34-40): - "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo."



Homilia do Diácono José da Cruz – 30º Domingo do Tempo Comum – Ano A

"O AMOR ÚNICO!"

Nas palestras sobre o Sacramento do Matrimonio, e até em algumas homilias de casamentos, há algo que digo sempre aos noivos "Que o amor conjugal celebrado no altar, diante de Deus, não pode ser apenas um sentimento... O sentimento humano é algo muito vago e inconstante, hoje se sente, amanhã não se sente. Claro que o amor nasce de uma convivência e na forma de sentimento, isso é perfeitamente compreensível, entretanto, para ser elevado á dignidade de Sacramento, é, preciso algo mais do que um mero sentimento, esse algo mais chama-se DECISÃO e VONTADE.

O Doutor da Lei indaga de Jesus, com segundas intenções, qual entre os 680 mandamentos originados do Decálogo, é o mais importante. Jesus, sempre de maneira sábia surpreende seu interlocutor, pois muda a conversa de direção, saindo do mero legalismo para uma atitude concreta de vida, que supõe naturalmente uma decisão e uma vontade.

"Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento". O amor de Deus por nós, manifestado em Jesus de Nazaré, não é um mero sentimentalismo, o nosso amor a Deus também não pode ser um sentimento piegas, senão ele não sobrevive ao tempo, amar do modo como está na lei, envolvendo coração, alma e entendimento, é amar integralmente, de maneira gratuita e incondicional, a cada dia decidindo e direcionando a nossa vontade a esse amor. O amor não pode ser um gesto de gratidão, de pena ou compaixão, e muito menos de retribuição, o outro não precisa me dar razões para o amar, devo amá-lo por decisão e vontade, mesmo que ele não mereça e nunca vá me retribuir: esse é precisamente o amor cristão.

E se esse amor fosse só para com Deus estava resolvido, bastasse cumprir as obrigações religiosas, rezar, ir à igreja, dar o dízimo, receber os sacramentos, ouvir a palavra, visitar o Santíssimo etc. Tem cristão que pensa amar a Deus fazendo todas essas coisas.

Não são dois amores ou dois modos de amar, mas um só, Amar a Deus e ao próximo, porque Deus se deixa amar no outro e manifesta o seu amor através do outro, é como se o homem fosse o intérprete do amor de Deus, dando-lhe visibilidade. Nas coisas que Deus nos faz sempre há alguém envolvido... Decisão e vontade de amar são fatores determinantes do AMOR, aos irmãos e irmãs da comunidade, na vida conjugal e familiar, que precisa ser renovado a cada dia, a cada momento, pois se não iluminarmos o amor com a luz da Fé, ele será um sentimento, uma nuvem passageira, um amor de vidro, que facilmente se quebra...

Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento, eis o primeiro e o maior de todos os mandamentos, na resposta que Jesus dá aos fariseus, no evangelho desse domingo. Em meio a relações amorosas tão distorcidas, temos aí o modo de amar, em sua essência. Pertencemos a uma sociedade onde até  crimes monstruosos são cometidos  em nome do amor.

Amar de todo o coração significa uma decisão tomada a favor da outra pessoa, significa uma vontade manifestada em gestos e atitudes, de toda a alma significa que o amor adquire um caráter sagrado, algo que só podia mesmo ser divino, e de todo o entendimento, amor que pauta pela razão, pela compreensão do outro, trata-se de uma entrega total, não por imposição, mas dentro de uma total liberdade.

Talvez possamos nos perguntar, será que Deus precisa de um amor assim, da parte do homem?

Pois sendo Todo Poderoso e Onipotente, que necessidade tem Deus de querer ser amado desta maneira? O contexto desse mandamento que está no cerne da lei, é que Israel tem muitas opções de divindades, deuses dos povos pagãos, e que acabavam influenciando o Israelita, esse amor da totalidade é apenas a atitude de fé, de quem crê em um único Deus, e que não precisa de nenhum outro, mesmo porque, não há outro Deus senão o Deus da Aliança. Tal como naquele tempo, há em nossos tempos mil opções de pequenos deusinhos que se apresentam diante de nós, querendo submissão e oferecendo-nos em troca algo ilusório.

Já o Deus dos cristãos, que mostra o seu rosto em Jesus de Nazaré, pede aos seus seguidores algo muito simples, e ao mesmo tempo revolucionário e inédito: o amor gratuito e incondicional, o amor total da entrega ao outro, respeitando a sua dignidade de Filho de Deus, o amor que sempre sorri e nada cobra o amor paciente, compreensivo, que sabe sempre esperar, perdoar, que suscita no outro essa vida nova, que orienta, exorta, mostra o caminho, toma pelas mãos, cura, renova, liberta e salva.

Entretanto, se compreendermos que Jesus restaurou cada homem, tornando-o Filho de Deus, e dando-lhe a dignidade de ser novamente sua imagem e semelhança, concluímos que Deus está em cada homem, no mais profundo do seu ser existencial, independente da sua fé, da sua condição social ou moral, logo, fica muito claro, porque o segundo mandamento é semelhante ao primeiro e tem o mesmo peso – Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Deus está no outro, e ama a todos, então, se eu deixo de amar o outro, estou indo contra Deus, ao contrário, se eu amo o outro, de todo o coração, isso é, por minha vontade e decisão (mesmo que o outro não mereça) de toda a minha alma, porque o amor destinado ao próximo é também sagrado, porque Deus está nele, e de todo o meu entendimento, não ao sabor das paixões e interesses, mas á luz da razão. Essa é a única e verdadeira forma de se amar a Deus, a ponto de João afirmar categoricamente “Se alguém disser que ama a Deus, que não vê, e não ama o irmão que está ao seu lado, é mentiroso e enganador”.

Portanto, que ninguém mais diga – Não vou a Igreja por causa das pessoas, mas por causa de Jesus, falar essa frase e defendê-la, é próprio de quem tem uma espiritualidade vazia, de quem ainda não entendeu de que todo o ensinamento cristão está concentrado nesta grande verdade.

Para compreender esse evangelho, que aliás, é bem simples, vamos conversar com um especialista em trânsito:

___O que é uma placa normativa e qual delas é a mais importante?

___Placa normativa é, por exemplo, uma placa que determina a velocidade a ser desenvolvida em um local de muito trânsito, por exemplo. Sobre qual delas é a mais importante, poderíamos dizer que, todas e nenhuma...

___Como assim, a resposta está confusa, ou é todas ou é nenhuma...

___Veja bem, se você é um motorista consciente, que tem percepção da realidade que o cerca, sabendo, portanto, que o local é de trânsito intenso, por exemplo, de pessoas, essa consciência vai fazer automaticamente reduzir a velocidade, exista ou não uma placa no local. O motorista não tem consciência só sabe obedecer a placa, diminui a velocidade por causa dela, é aquele que ao passar pelo radar eletrônico vai devagar, mas depois acelera e tira o atraso... esse é o legalista, o que obedece para não sofrer uma punição, só isso.

O que o Doutor da Lei apresenta a Jesus é uma questão legalista, mas a sua resposta ultrapassa o meramente legal, vai além de qualquer norma ou Lei.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 30º Domingo do Tempo Comum – Ano A

“Amar de fato”

O padre católico Georges Lemaître propôs, lá pelo ano 1927, o que hoje se conhece como a teoria do Big Bang ou – na linguagem do próprio Lemaître – teoria do átomo primordial. Segundo essa teoria, o Universo derivou-se de um átomo com temperatura e densidade altamente elevadas. Este átomo, devido à compressão de energia, se teria explodido há uns 13 bilhões de anos atrás. A partir de então, o Universo está em constante expansão e a sua temperatura continua diminuindo.

Tal hipótese é bastante coerente. Ela não contradiz a Sagrada Escritura quando esta afirma que “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1,1). A Escritura fala de Deus que cria todas as coisas, todas em absoluto. Trata-se de um começo primordial. O Big Bang nos fala de um começo que não exclui o Criador do Big Bang. Ou seja, esse átomo primordial pressupõe uma causa externa a si mesmo.

Mas, porque eu estou falando do Big Bang se o Evangelho de hoje nos fala de amor a Deus e ao próximo? É simples. Quando nós fomos conquistados pela graça de Deus começou a existir em nós, que somos um microcosmo, um átomo de caridade inicial: potente, com temperatura e densidade altamente elevadas. No dia do nosso Batismo começou uma explosão de graças em constante expansão até o momento presente. Se tivéssemos morrido naquele mesmo dia iríamos ao céu sem passar pelo purgatório, teríamos visto a glória de Deus já que a graça é o começo da vida eterna em nós.

A Escritura diz que “Deus é amor” (1 Jo 4,8.16). Ele é o amor perfeito. Nós somos uma espécie de universo em desenvolvimento, em expansão, rumo ao ato perfeito do amor segundo a nossa própria capacidade de criaturas.

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Mt 22,37). Mas, como amar? O Catecismo nos diz que a maneira concreta de amar a Deus é viver as virtudes teologais: fé, esperança e caridade (cfr. Cat. 2086). Quando a graça de Deus atingiu a nossa vida, nós, sendo o que somos, passamos a ser o que não éramos: filhos no Filho. Todo o nosso ser foi elevado à vida sobrenatural. A partir daquele momento, o Pai começou a gerar o seu Verbo (eternamente gerado) e a espirar o seu Amor (eternamente espirado) em nós, dentro de nós; nós passamos a ser templos de Deus, moradas do Altíssimo. Consequentemente, as nossas faculdades superiores também foram elevadas: a inteligência foi potencializada pela fé, a vontade foi fortificada pela caridade, e ambas foram revigoradas pela esperança. Se nós percebêssemos de verdade o que vale a nossa vida em Deus, não a trocaríamos por nada nesse mundo; as coisas temporais guardariam uma relação profunda com as realidades eternas. Talvez já seja assim, mas, caso contrário, pensemos no quanto estamos perdendo ao não buscar a intimidade com a vida íntima do Deus uno e trino.

A pessoa que ama a Deus de todo o coração o adora, conversa com ele, oferece-lhe tudo buscando uma comunhão de vida cada vez mais perfeita com ele. O cristão tem que amar verdadeiramente o Senhor com exclusividade: Deus é o único Deus! Há que evitar, por conseguinte, a superstição, a idolatria, a adivinhação, a magia, os horóscopos, o pôr Deus à prova, o sacrilégio, a simonia, o ateísmo e o agnosticismo. Poderíamos fazer uma reflexão sobre cada um desses pecados citados. No entanto, de momento, basta saber que todas essas coisas tiram a Deus do centro das nossas vidas e fazem com que a criatura ocupe o lugar de Deus no nosso coração.

Mas, pode a criatura ocupar algum lugar no nosso amor? O Evangelho de hoje responde com toda propriedade: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39). Como? A essa pergunta se responde com os seguintes mandamentos: honrar pai e mãe, não matar, não pecar contra a castidade, não furtar, não levantar falso testemunho, não desejar a mulher do próximo e não cobiçar as coisas alheias. Como se pode ver, todos os mandamentos continuam válidos e o cristianismo sempre os ensinou. Não obstante, a vida cristã não consiste em cumprir mandamentos, mas em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Em que medida? Na medida de Cristo. A nossa moral, a nossa ética, não é uma moral de mandamentos, mas a vida nova em Cristo, moral de amor e de virtudes. De fato, diz o Catecismo: “Os mandamentos propriamente ditos vêm em segundo lugar; exprimem as implicações da pertença a Deus, instituída pela Aliança. A existência moral é resposta à inciativa amorosa do Senhor” (Cat. 2062). Dito de outra maneira, a nossa existência cristã é vida no amor de Deus cujas implicações são, basicamente, o cumprimento dos mandamentos.

Quem ama a Deus, ama o próximo. O amor do cristão, mergulhado no amor que Deus tem por todos os seres humanos, se compadece e vai ao encontro das necessidades dos outros. Somente o amor de Deus no coração explica ações como essas: “o rei S. Luís visitava e cuidava dos doentes com tanto desvelo como se fosse sua própria obrigação. (…) S. Gregório muito folgava de dar agasalho aos peregrinos, a exemplo do patriarca Abraão, e, como ele, recebeu um dia o Rei da glória na forma de um peregrino. Tobias exercia a caridade, sepultando os mortos. Santa Isabel, sendo uma augusta princesa, achava a sua alegria em humilhar-se a si mesma. Santa Catarina de Gênova, tendo perdido o seu marido, dedicou-se ao serviço num hospital. Cassiano refere que uma jovem virtuosa, que muito desejava se exercer na paciência, recorreu a Santo Atanásio, que a encarregou de uma pobre viúva melancólica, colérica, enfadonha e mesmo insuportável, de sorte que, como a viúva estivesse constantemente ralhando, a jovem tinham ocasião bastante de praticar a brandura e a condescendência” (S. Francisco de Sales, Filotéia ou Introdução à vida devota, III, 1). Chegaremos lá? Com a graça de Deus e o esforço pessoal, amaremos de fato.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 30º Domingo do Tempo Comum – ANO A
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (1Ts 1, 5c-10)

APELO DE PAULO: Tendes conhecido de que modo nos comportamos entre vós por vossa causa (5). Scitis quales fuerimus vobis propter vos. A partir do início deste versículo, Paulo explica como aconteceu a entrada dos tessalonicenses no cristianismo: a pregação de Paulo foi acompanhada de milagres [en dynamei] de dons do Espírito [en Pneumati] e tudo com profunda entrega [plërosofia pollë]. É agora que Paulo apela a seu comportamento entre os Tessalonicenses e a resposta destes últimos diante das verdades do evangelho. Quase com as mesmas palavras descreve Paulo seu ministério apostólico em Corinto: Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus (1 Cor 2, 5). E é para que através da fé os corações dos tessalonicenses, como escreve aos de Colossos, sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo (Cl 2,2).

OS IMITADORES: Assim vos tornastes nossos imitadores e do Senhor, recebendo a palavra em grande aflição, no meio do gozo do Espírito de Deus (6). Et vos imitatores nostri facti estis et Domini excipientes verbum in tribulatione multa cum gaudio Spiritus Sancti. Nas condições narradas no versículo anterior, os tessalonicenses tornaram-se IMITADORES [mimëtai<3402>=imitatores] de mimëtës como modelo e exemplo, como também pede aos de Corinto: Peço-vos, portanto, que sigam o meu exemplo (1 Cor 4,16). Porque Paulo lhes escrevia, dizendo: Até esta presente hora, sofremos fome e sede, e estamos nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa. E nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos. Somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e sofremos; Somos blasfemados, e rogamos; até o presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos (1 Cor 4, 11-13). Também o Senhor esteve sujeito a uma rejeição violenta, como ele afirmou: Desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele (Mt 11, 12). E dá a razão: porque receberam a palavra com GRANDE AFLIÇÃO [thlipsei <2347> pollë<4183>=tribulatione multa]: Thlipsis é a palavra grega que significa opressão, aflição, tribulação e perseguição, como em At 11, 19. Como tribulação Paulo fala aos romanos dizendo: Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração (Rm 12, 12). Como dificuldade, em plural dificuldades, lemos 2 Cor 8, 13: Não digo que vão fazer bem a outros, a ponto de passarem dificuldades, a respeito da esmola dada para os outros fiéis em necessidade. Porém, sendo as tribulações externas, o interior está cheio do GOZO [chara<5479>=gaudium] do Espírito SANTO [agios<40>=sanctus]. Chara grego é gozo como em Mt 28, 8 em que as mulheres, saindo pressurosamente do sepulcro, com temor e grande alegria [chara], correram a anunciá-lo aos seus discípulos. Paulo descreve em Rm 14, 17 a realidade interna do Reino: o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. E Jesus descreve este gozo em Mt 25, 21: E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. Agios uma coisa pertencente à divindade e consequentemente sagrada ou divina: Se alguém destroi o templo de Deus, também Deus o destruirá. De fato, o templo de Deus é santo [agios] e vocês são esse templo (1 Cor 3,17). PNEUMA: Dentre os espíritos, temos o ESPÍRITO HUMANO, como afirma Paulo: Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou (1 Cor 5, 3). Os ESPÍRITOS MALIGNOS ou impuros: estava na sinagoga deles um homem com um espírito imundo, o qual exclamou (Mc 1, 23). Finalmente, o que chamamos de ESPÍRITO SANTO e que aparece primeiro em Mt 3, 11: Eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas sandálias não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. Esse Espírito nos foi dado como amor de Deus: o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Também dos dons carismáticos que não implicam necessariamente justificação. Finalmente do próprio Espírito Santo que habita dentro do homem, justificado pelo batismo, e que o Batista viu repousar em forma de pomba sobre Jesus (Jo 1, 32). Espírito que repousa ou habita interiormente em todo batizado, como rogavam em At 8, 15: Quando estes chegaram, oraram pelos crentes da Samaria para que recebessem o Espírito Santo.

MODELO: De modo que vos tornastes exemplos a todos os crentes na Macedônia e na Acaia(7). Ita ut facti sitis forma omnibus credentibus in Macedonia et in Achaia. EXEMPLOS [typoi<5179>=forma] A palavra typos significa MARCA, como em Jo 20, 25: se eu não vir o sinal [typon] dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei. IMAGEM ou estátua como em At 7, 43: Antes tomastes o tabernáculo de Moloc,e a estrela do vosso deus Refam, Figuras que vós fizestes para as adorar. MODELO como em At 7, 44: O tabernáculo do testemunho, como ordenara aquele que disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto. Moralmente é um EXEMPLO ou paradigma como Fl 3,17: Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. MACEDÔNIA: província romana, estabelecida oficialmente em 146 aC depois que o general romano Quinto Cecílio Metelo derrotara Andrisco de Macedônia. Era então o resto do império macedônico que teve seu esplendor com Alexandre, o Magno. Salônica ou Tessalônica era a capital da região. Hoje ocupa o nordeste da Grécia atual. Ela foi também a cuna de Aristóteles. ACAIA: seu território corresponde com o Peloponeso, onde estava o golfo de Corinto, o monte Patras, a cidade de Esparta e a região de Arcádia ao norte desta última. Foi conquistada por Roma no ano 146 aC numa campanha militar conduzida por Lucio Mummio que terminou com a destruição de Corinto. Esta cidade era próspera nos tempos de Paulo, assim como Tessalônica. Falar de Macedônia e Acaia era praticamente falar de toda a Grécia continental em tempos do apóstolo.

LABOR DOS TESSALONICENSES: Por meio de vós há ressonado a palavra de(o) Deus não só na Macedônia e Acaia, mas também em todo lugar vossa fé, a dirigida a Deus, há ressonado de modo que não há necessidade de nós termos que falar alguma coisa (8). A vobis enim diffamatus est sermo Domini non solum in Macedonia et in Achaia sed in omni loco fides vestra quae est ad Deum profecta est ita ut non sit nobis necesse quicquam loqui. POR MEIO DE VÓS: Talvez por meio de Priscila e Áquila que chegaram de Roma, seguindo a expulsão dos judeus por Claudio, segundo lemos em At 18, 2, Paulo soube em Corinto das notícias de Macedônia, vindas de Roma, quando o casal se juntou a Paulo para falar de Jesus na sinagoga (At 18,2). EM TODO LUGAR: Sem dúvida que é um ditirambo; mas pelo menos em Roma, capital que acolhia toda novidade religiosa, a fama dos tessalonicenses como cristãos tinha chegado aos fiéis da capital do império. Após a entrada em Filipos, abortada pelos judeus, Tessalônica foi o lugar propriamente grego em que Paulo teve oportunidade durante um tempo de pregar e converter grande número de gregos (At 17, 4). Essa fé é descrita como DIRIGIDA A DEUS: como se disséssemos, de uma fé em ídolos, agora encontramos a fé no único e verdadeiro Deus; pois o número de conversos entre os pagãos de Tessalônica foi grande, segundo o livro dos Atos (cap 17). Essa fé é tão conhecida que Paulo diz que não tem necessidade dele contar como foi a conversão dos tessalonicenses quando chegar a uma outra cidade e especialmente em Roma. Ou também que ele não teve necessidade de pregar o evangelho porque os próprios tessalonicenses o faziam de modo perfeito. A primeira conclusão parece mais conforme com o que Paulo escreve no versículo seguinte.

FINAL: Pois eles mesmos anunciam, no tocante a nós, que classe de entrada tivemos junto a vós e como os volvestes a(o) Deus desde os ídolos para servirdes o Deus vivo e verdadeiro (9). E para aguardardes o seu Filho dos céus, a quem levantou dentre os mortos, Jesus que nos livra da ira vindoura (10). Ipsi enim de nobis adnuntiant qualem introitum habuerimus ad vos et quomodo conversi estis ad Deum a simulacris servire Deo vivo et vero. Et expectare Filium eius de caelis quem suscitavit ex mortuis Iesum qui eripuit nos ab ira ventura; A acolhida de Paulo em Tessalônica foi muito comentada como vimos no versículo anterior, por ser uma cristianização em massa de gregos e pelo longo espaço de pregação de Paulo na sinagoga contra os judeus, que aparentemente não podiam o contradizer. Dessa pregação, Paulo resume os principais resultados: mudança do paganismo idolátrico ao monoteísmo estrito que Paulo declara ser o Deus VIVO [zön<2198>vivus]. Este atributo oposto ao morto como era todo ídolo, que em figura de homem principalmente, não podia nem ver, nem ouvir, nem andar (Ap 9, 29). O primeiro que usa a palavra vivo para o Deus monoteísta é Caifás: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus (Mt 26, 63). VERDADEIRO: [alëthinos<228>=verus] com o significado de verdadeiro ou real. VERDADEIRO, como em Jo 3, 33: Aceitar o seu testemunho é reconhecer que Deus é verdadeiro. Ou REAL, como em Jo 17, 3: A vida eterna consiste em conhecerem-te como único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste. No AT temos Jahveh Elohim que poderíamos traduzir por o existente dos deuses ou o Deus vivo de Caifás. Assim temos um Deus que é real e amante da verdade. Mas essa fé tem uma esperança que é motivo da nova vida do cristão; pois nos movemos pelo desejo, que é esperança de um bem, neste caso supremo: a liberdade da IRA [orgë<3709>=ira] VINDOURA [erchomenë <2064> =ventura]. IRA: Frequentemente encontramos no NT a ira de Deus. Qual o significado? Em Jo 3, 36 encontramos a resposta inicial: Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece. A fé é a primeira causa de salvação. Se não dobrarmos a soberba mental diante da loucura do amor divino, nos espera a ira de Deus, como diz Dante nas portas do inferno, abertas pelo amor desprezado. Ira que recai sobre os filhos da desobediência (Ef 5, 6) ou da rebelião [os anjos rebeldes?](Cl 3, 6). Ira que também se manifesta diante da impiedade e da injustiça ante os homens necessitados: Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça (Rm 1, 18). VINDOURA: Muitos pensam que esta ira é a do juízo final na Parousia, em cujo caso o verbo ruomai <4506> deveria estar no futuro [livrará] e não no particípio de presente [livra]. No caso, com o presente que nos livra, Paulo expressa uma proposição dogmática, dando a Jesus o titulo de Redentor. Mas se traduzimos no futuro, a visão paulina se traslada ao juízo final, com Jesus como juiz supremo do universo. No primeiro caso, temos o juízo particular de cada pessoa, juízo que Paulo admite em Fl 1, 25: Tenho o desejo de partir e de estar com Cristo, o que seria incomparavelmente melhor. No segundo caso, o da Parousia, é para ouvir: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo (Mt 25, 34). Em ambos os casos serão recebidos como triunfadores, podendo a eles se referir as palavras de Jesus: levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima (Lc 21, 28). E não como vencidos, pisoteados pelo inimigo, como diz o Salmo 7, 5: Calque o inimigo aos pés a minha vida sobre a terra, e reduza a pó a minha glória.

EVANGELHO (Mt 22, 34-40)
Lugares paralelos: Mc 12,28-31 e Lc 10, 25-28

O DEVER PRIMÁRIO DO HOMEM

INTRODUÇÃO: Os três sinóticos trazem o episódio do legista ou escriba tentando por Jesus à prova por meio de uma pergunta: Qual é o mandamento principal da lei? Embora Lucas difira um pouco, [que devo fazer para obter a vida eterna? - será a questão proposta pelo fariseu] a pergunta é a mesma em essência. Dos três evangelistas podemos deduzir que a resposta de Jesus foi ad hominem, especialmente se seguimos Lucas, isto é, perguntando por sua vez: Que recitas [lês em voz alta, será a melhor tradução de anagignoskeis = discernir ou ler] por meio da lei? (Lc 10, 26). E imediatamente o legista, ou escriba recitou o Shemá: Ouve, Israel! O Senhor é teu Deus. O Senhor é único. E amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda tua alma, e com toda tua força (Dt 6,4-5). Marcos acrescenta com toda a tua mente. Segundo Mateus e Marcos, parece que houve um intento de fazer um pulso com Jesus para ver sua qualidade como rabi, ou mestre. Jesus acabava de dar uma reposta magistral aos saduceus (Mt 22, 23-33) sobre a ressurreição dos mortos e, agora, era questão de saber sua altura teológica sobre uma questão na qual eles mesmos estavam divididos: Qual é o principal dos mandamentos da Lei? A pergunta é também atual, não só por sua materialidade, mas também porque na resposta encontraremos a base para realizar com perfeição todos os demais mandatos. O amor a Deus deve ser também a razão de que amemos ao próximo, ou cumpramos com perfeição os mandamentos da segunda tábua. É falso afirmar que amar uma pessoa por amor a Deus e não por amor a ela mesma, seria bastante estranho e o próprio Jesus não terminaria de o entender. (J A P).

OS FARISEUS: Mas os fariseus, tendo ouvido que tinha silenciado os saduceus, reuniram-se sobre isso (34). Pharisaei autem audientes quod silentium inposuisset Sadducaeis convenerunt in unum. NOME: Da palavra parisaya [plural farisim, já que p e f eram sons confundíveis em hebraico] significa separados. Aparecem como grupo à parte nos tempos de Hircano [c. de 135 aC], separados do resto do povo que não guardava a lei e que, portanto, poderia ser considerado como ímpio. Mas foi no reinado de Alexandra (76-67 aC) que começam a ter influência como o grupo mais respeitado do judaísmo e, portanto, como líderes do mesmo. IDEOLOGIA: O que era peculiar ao farisaísmo era que procurava, mediante a obediência à Torah [Lei], representar o verdadeiro povo de Deus que se preparava para a vinda do Messias. Os pontos de vista eram os preceitos legais, observados com toda escrupulosidade, tanto os que se referiam à purificação como as datas sagradas e as ações rituais. A tradição era tão obrigatória como a lei escrita, de modo que Rabi Shammai podia afirmar que tinha duas Torah: a Torah escrita e a Torah oral. Nisso se diferenciavam dos saduceus que só consideravam como lei o Pentateuco e conseguiam persuadir os ricos, enquanto os fariseus tinham a seu lado a multidão. Praticamente, toda a vida veio a ser regulada por uma série de disposições individuais. Como atos de purificação, adotaram os ritos severos que eram próprios dos sacerdotes antes dos atos litúrgicos. Afirmavam que havia 613 preceitos dos quais eram negativos tanto quantos dias tem o ano (365) e o resto (248) eram positivos. Os escribas davam preferência aos mandatos transmitidos por via oral (Mt 15, 2). Adotaram os conceitos persas e helenísticos da ressurreição e do julgamento depois da morte e da existência de seres supra-humanos como anjos e demônios que os saduceus rejeitavam (At 23, 8). Em política, contra os zelotes, renunciavam a todo ato de violência. Aguardavam o Messias que os saduceus não esperavam. No NT são nomeados 75 vezes. Três dos evangelistas tratam dos fariseus como inimigos de Jesus, com a exceção de Nicodemos, por sua hipocrisia (Mt 23, 15) e por sua cegueira em compreender o verdadeiro messiado, não aceitando Jesus por suas implicações teológicas ( Lc 5, 21 e Jo 7, 48) e iniciando a perseguição dos primeiros discípulos, como foi o caso de Saulo, antes de sua conversão. Lucas parece que opta por um termo médio. Há fariseus que aceitam Jesus (At 5, 34 e 23, 9) e outros mais intransigentes que o rejeitam como Saulo. NÚMERO: Eram aproximadamente 6 mil no tempo de Jesus. Dividiam-se em grupos não menores de 12 e não maiores de 20, segundo o que estava prescrito sobre o banquete pascal. Tinham como costume celebrar, cada sábado, um banquete na casa de um dos que formavam o grupo. O banquete era preparado antes das 6 horas da tarde da sexta feira e se celebrava depois dessa hora. Sua principal ocupação era o estudo da lei, de modo que desprezavam o povo comum, chamado de ham-haaretz ou povo da terra, aos quais jamais convidariam para seus banquetes. Não obstante, um deles, Simão, convidou Jesus a um desses banquetes como lemos em Lucas 7, 36. O SILÊNCIO: Como lemos em Mt 22, 23-33 a pergunta dos saduceus foi sobre a ressurreição dos mortos, que Jesus resolveu mostrando a inépcia dos interrogadores. As ideias que tinham dos ressuscitados eram exageradamente materiais e humanas e como tal não correspondiam com a realidade. O CONSELHO: Foi uma reunião informal, e o assunto era Jesus: como demonstrar que era um incompetente como Rabi. O grego usa a frase epi auto, temos traduzido como se fosse uma frase neutra [sobre isso], mas pode ser do gênero masculino [sobre ele] ou seja sobre Jesus. A Vulgata traduz in unum, que creio não corresponde exatamente ao texto grego, que, por outra parte é traduzido por entorno a El, nos comentários em espanhol de Tuya O.P. Outras traduções: insieme, together, em grupo, não me parece mais prováveis.

OS MANDAMENTOS: Então interrogou um deles, jurista, tentando-lhe e dizendo (35): Mestre, que mandato (é) grande na Lei? (36). Et interrogavit eum unus ex eis legis doctor temptans eum. Magister quod est mandatum magnum in lege. JURISTA: A palavra NOMIKÓS significa um experto na Lei, que hoje diríamos jurista. Mestre é o mesmo vocábulo usado anteriormente na pergunta do tributo em Mt 22, 17, com a intenção de logo ironizar sobre a idoneidade de Jesus como versado na Lei, o qual ridicularizava em extremo sua liderança. A pergunta, em grego, que tem comparativos e superlativos, adoece de uma falta de sintaxe, mas indica uma tradução literal de uma língua semítica que carece dos mesmos. Seria: qual é o maior dos mandatos na Lei. Nas versões mais literais se introduz o artigo definido para ficar como qual é o grande mandamento na Lei, ou the great commandment. Corretamente, Marcos fala do principal [prötë] de todos (12, 28). Em Lucas, a pergunta é: o que devo fazer para obter a vida eterna? (10, 25). Os judeus distinguiam entre Torah [Lei] e mandatos [Mizvoth em hebraico e Entolai em grego]. Um dito farisaico afirmava que O Santo [Há Kadosh] só revelou a recompensa a dois preceitos. O mais importante: Honra os teus pais (Êx 20,22) e o menor de todos: Deixa livre a mãe quando pegares os filhotes dos passarinhos (Dt 22,7). Dos 613 mandatos, 365 eram negativos e 248 positivos. Os legistas davam preferência aos mandatos transmitidos por via oral {as tradições dos anciãos de que fala Jesus (Mt 15,2)} sobre os escritos como lei de Moisés (Mt 15,3). Não se discutia se as leis cerimoniais, como referidas ao culto, eram superiores aos preceitos morais referidos aos homens, nem se discutia entre preceitos grandes e pequenos (Mt 23, 23 e Mt 5,19). Era importante saber qual deles era o [megalé] grande (sic) na Lei, ou seja, um superlativo, segundo as normas das línguas semitas: Qual era o maior dos mandamentos prescritos por Moisés? Na resposta, Jesus fala de prótë [principal ou primeiro em excelência]. Os próprios fariseus falavam do Sábado, já que diziam que quem guarda o sábado guarda toda a lei. Outros diziam que era a observância das três refeições ou banquetes nas três festas principais como era tradição entre os anciãos e que sempre se celebravam no Sábado da correspondente semana. Outros falavam do sacrifício diário do cordeiro no templo.

A RESPOSTA: Jesus, pois, lhe disse: Amarás (o) Senhor, o teu Deus de todo o teu coração, e em toda a tua alma e em toda a tua mente (37). Ait illi Iesus diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo et in tota anima tua et in tota mente tua. Segundo Mateus e Marcos, Jesus dá uma resposta direta. É a resposta do Shemá. Mas a leitura de Lucas é a mais provável: Jesus pergunta, em termos socráticos, por sua vez: Que está escrito na lei, como recitas a mesma (Lc 10, 26)? Ou seja, qual é o dever iniludível e diário, como oração e como adoração de um judeu religioso? Sem dúvida, Jesus está perguntando pelo SHEMÁ, a recitação da lei, feita duas vezes por dia, por todo judeu maior de idade. Essa lei era a que estava dentro das filaterias, as caixinhas amarradas na fronte. O Shemá constituía a confissão de fé fundamental de Israel. Consta o Shemá de três lugares da Escritura: A primeira parte (Dt 6,4-9) consiste na profissão de fé no Deus do céu e da terra, manifestando a total consagração do homem a ele. A esta declaração de fé a chamavam tomar sobre si o jugo da soberania celestial. Nela se faz do amor de Deus o rasgo fundamental da piedade judaica que por amor a Deus é capaz de sacrifício e renúncia. Do versículo 8 [as atarás a tua mão como um sinal e serão como um frontal entre os teus olhos] os mestres da lei fabricaram os filatérios na fronte e na mão esquerda. É provável que também Jesus usasse os mesmos, especialmente para orar, particularmente, de manhã cedo. Dizem do rabi Aquiba que, torturado e penteadas suas carnes com ganchos de ferro, afirmou: Agora conheço o que significa com toda tua alma e pronunciou a palavra único várias vezes até que saiu dele a alma com esta palavra. A segunda parte (Dt 11,13-21) é uma exortação a cumprir os mandatos do Senhor. A terceira parte (Nm 15,37-41) é o mandato de tecer um manto com faixas e borlas para servir de recordação dos mandatos. São os tsitsit ou franjas do manto chamado Talit. Comparado este texto de Mateus com o grego da Setenta temos as seguintes diferenças: no lugar de dianoia [pensamento como causa, ou seja, mente] está dunamis [força, capacidade] e no lugar do ex preposição de procedência, temos, em Mateus, para o segundo e o terceiro agentes [alma e entendimento] o en geralmente traduzido por em, mas que pode ter o significado de lebab<03824> [o ser interior], nephesh<05315> [alento ou espírito de vida], maod<03966> [poder, força]. E implicam um pleonasmo contínuo para indicar que todo o ser humano, em potencial, deve ser usado no amor a Deus.

O SEGUNDO: Este é primeiro e grande mandato (38). Mas (o) segundo é semelhante a ele: amarás teu próximo como a ti mesmo (39). Hoc est maximum et primum mandatum. Secundum autem simile est huic diliges proximum tuum sicut te ipsum. Semelhante em motivo e objeto: o amor ao próximo que Lucas explicará com uma parábola quem é o tal próximo. Ou seja, todo necessitado, todo aquele que necessita de misericórdia de modo especial. O próximo, que em grego é traduzido por Plësios [vizinho, contíguo], tem em hebraico a palavra Rea como expressão do mesmo com outras conotações. Segundo o comentário bíblico moderno do rabino Meir Matziliah, as palavras que designam companheiro, próximo e irmão são réa – amith- ben- am- ah. Ah é irmão e era usado para todo israelita. Em Lv 19, 17-18 saem esses quatro termos ah (irmão) amith (companheiro), bem (filho) am (povo) e rea (próximo) A citação será: Não odiarás o teu irmão [ah 0251] no teu coração; repreenderás a teu companheiro [amith 05997] e por causa dele não levarás sobre ti pecado(17). Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos [ben 01121] do teu povo [am 05971]; mas amarás o teu próximo [rea 07453] como a ti mesmo. O texto do Levítico (19, 18) frequentemente citado de amarás o próximo como a ti mesmo é um texto negativo de não fazer o mal, pois começa com não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos de teu povo, mas amarás o teu amigo [rea em hebraico significa companheiro, irmão] como a ti mesmo. A Vulgata traduz rea como amicum e o grego como plesion, este como próximo, ou vizinho. A Nova Vulgata usa o proximum. Vemos que é um texto negativo impedindo atos de vingança ou de rancor. Mas Jesus, ao citar o mandato, dizendo que é semelhante ao primeiro, o transforma em amor positivo, amplamente descrito em Lucas como se demonstra com a parábola do bom samaritano. O próximo é todo aquele que necessita de nossa ajuda sem distinção de qualquer classe. Ele deve ser amado como nos amamos a nós mesmos. E como mandato positivo, ele obriga sempre. Os dois mandatos são semelhantes, porque têm a mesma motivação: o amor.

A LEI E OS PROFETAS: Destes dois mandamentos toda a lei e os profetas estão pendurados (40). In his duobus mandatis universa lex pendet et prophetae. Esta frase, que temos sublinhado, para um judeu significava a Sagrada Escritura, a Revelação. Com esta afirmação, Jesus declara que toda a obra divina feita para o povo de Israel teve como motor o amor e que o amor que Deus espera dos homens é uma resposta ao amor anteriormente recebido pelos mesmos. Por isso, a lei explica o modo de amar a Deus como sendo total: em todo teu coração [kardia], e em toda tua alma [psyché] e em toda tua mente [dianoia]. A vulgata traduz o En grego por ex toto corde e por in tota anima e in tota mente. É uma tradução do Becol hebraico original, que a Setenta traduz com a preposição EX ou EK e que tem o significado como desde ou tendo como origem. Exatamente como trazem Marcos e Lucas o becol é traduzido por Ex [desde] como faz a Vulgata: ex toto corde tuo et ex tota anima tua et ex tota fortitudine tua. A Fortitudo [força] foi trocada por Mateus por Dianoia [mens latina e entendimento português]. Com isso, ele conseguia entrar no mundo tripartido dos Pitagóricos que dividiam o ser humano em corpo, alma e razão, e do qual temos uma reminiscência em Paulo, aos Tessalonicenses, falando do espírito, alma e corpo (5, 23). A ideia, como vemos, é que Deus é o Senhor absoluto e a ele devemos tudo o que temos. Foi tendo em mente esse relacionamento Senhor/súdito, esse Senhor que tirou Israel da terra do Egito, que a vida humana se torna uma dívida e que Jesus dirá: Devolvei a César [o senhor temporal] o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22, 21). É agora que Jesus explica em que consiste esse tributo a Deus: Não era propriamente dar dois dracmas – o dobro que anualmente se dava como capitatio ao César – mas era um tributo total. A reposta de Maria, eis a escrava do Senhor: faça-se em mim a tua palavra, é a única correspondente a toda criatura que quer cumprir com esse mandamento as responsabilidades de uma vida, que só a Deus pertence. Deus deve ocupar o primeiro lugar em nossos planos [mente], em nossos desejos [coração] e em nossas atividades [corpo]. Devemos cumprir em nossas vidas o que rezamos em nossas orações: Faça-se em mim a tua vontade como ela é suprema no céu. Este é o nosso Shemá Cristão.

CONCLUSÕES: O mandato supremo não é negativo, mas positivo. Indica que fazer o bem é muito mais importante que evitar o mal. 1o) Esse bem que desejamos realizar se traduz no amor que estamos obrigados a dar. 2o) Que se nossa vontade total (mente, alma e forças) está dirigida, todo o pensamento, todo o ser e toda nossa força estarão implicados e facilmente o mal será evitado. 3o) Que o amor não deve ser unicamente o fim como mandato mas o motivo e a razão de toda conduta. Exclusivo e total em nossa vida, qualquer deficiência ou insuficiência devem ser consideradas como pecado; ao grande mandamento corresponde logicamente o grande pecado. Em Deus, o amor é misericórdia devido à pequenez e debilidade do homem. No próximo e para o próximo o amor é benevolência e bondade, além de equidade e justiça. O budismo se fecha em si mesmo. Judaísmo e Islã se fecham na comunidade, e debatem o mal com o mal. Só o cristianismo rejeita o mal, mas acolhe o pecador como próximo e assim transforma a regra da caridade em norma universal.

PISTAS:

1) Jesus não responde unicamente à pergunta de qual é o mandato mais importante, mas dá uma visão total da vida, como estando sujeita a um dever fundamental: nascemos, vivemos e realmente crescemos para amar. Todo outro caminho está equivocado. E esse amor tem como objeto o outro. O Outro que é Deus e o outro que é o homem com quem convivemos. Se nessa relação com o outro existisse uma outra razão fora do amor, podemos afirmar que essa relação seja dinheiro, poder, sexo, ou prazer, estaria errada e seria a base do pecado.

2) A Deus o amamos mais do que a nós mesmos: com tudo que é nosso, sem medida, que é a verdadeira medida do amor a Deus. Ao próximo como a nós mesmos. Estas são as únicas diferenças entre um e outro amor. O primeiro é total e absoluto. O segundo é relativo, mas não oposto ao maior amor com o qual amamos: aquele com o qual amamos e estimamos nossa própria vida, saúde e bem-estar.

3) Nesse amor encontramos a medida exata de nossa autêntica realidade. Qualquer outra regra de conduta é falsa e não oferece a razão verdadeira ou causa formal de nossa existência. Nascemos para amar porque somos, por causa de Deus e de nossos pais, produtos do amor.

4) Todos os dias, e, especialmente nos momentos de reflexão, devemos pensar: como podemos amar melhor as pessoas com as quais convivemos. Amar é uma entrega de pequenos sacrifícios e de insignificantes renúncias. Porém somadas, constituem o grande holocausto em que se consome uma existência que produz a grande convivência de confiança, paz, liberdade e felicidade de todos.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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19.10.2014
29º Domingo do Tempo Comum — ANO A
( VERDE, GLÓRIA, CREIO – I SEMANA DO SALTÉRIO )
__ “A César o que é de César, mas a Deus o que é de Deus!” __
Dia Mundial das Missões
Dia da Infância Missionária

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

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NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Sabemos que muitas páginas foram escritas sobre o poder na história da humanidade. Poder usado para construir história e poder mal utilizado que destruiu milhões de vidas humanas, civilizações e culturas. Dizem os historiadores que o poder é enfeitiçante e os psicólogos alertam que o poder pode tornar-se patológico. Muitos dão tudo para ter mais poder e tantos o constroem na base da força. Até mesmo a Igreja, como é do nosso conhecimento, escreveu páginas violentas para aumentar seu poder temporal. Foram em outros tempos, mas seja de lição e memória, pois a missão da Igreja não consiste em disputar poder, mas em cultivar o Reino de Deus no mundo de modo profético, lembrando ao poder político que não é dono do povo, mas servidor do mesmo. Neste mês dedicado às missões, celebramos hoje o Dia Mudial das Missões e da Infância Missionária.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Neste domingo, Dia Mundial das Missões e da Obra Pontifícia da Infância Missionária, além de nossa contribuição concreta nas coletas, a Igreja nos pede que assumamos a missão como compromisso batismal para todos os dias. Lembremo-nos de que se encerra hoje, em Roma, o Sínodo dos Bispos sobre “Os Desafios Pastorais da Família no Contexto da Evangelização”. Agradeçamos a Deus pelo Sínodo e rezemos para que as famílias tenham a iluminação do Espírito para enfrentarem os desafios do nosso tempo.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Diversas, e às vezes divergentes, são as interpretações dadas à célebre frase-resposta de Jesus aos que queriam armar-lhe uma cilada: uma frase de efeito, como que evasiva, com a qual Jesus responde sem se perturbar; uma resposta irônica, como se Jesus quisesse dizer: só quando se tem que pagar os impostos aparece o problema da consciência; uma definição precisa dos limites do campo e das relações recíprocas entre Estado e Igreja. De qualquer modo, é claro que o que importa é o reino de Deus. É o único absoluto a ser buscado. Jesus veio pregar o reino; esta é a realidade fundamental e clara. Diante deste anúncio, tudo passa para segundo plano. Com isto, Jesus não quer negar a função de César, mas quer atingir seus adversários que não compreenderam sua missão e esquecem a questão decisiva.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo, entoemos cânticos jubilosos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Is 45,1.4-6): - "Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus."

SALMO RESPONSORIAL 95(96): - "Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!"

SEGUNDA LEITURA (1Ts 1,1-5): - "Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações."

EVANGELHO (Mt 22,15-21): - "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"



Homilia do Diácono José da Cruz – 29º Domingo do Tempo Comum – Ano A

"O que é de Cesar, e o que é de Deus?"

Neste, evangelho, a resposta de Jesus “Dai a Cesar o que é de Cesar, dai a Deus o que é de Deus” precisa ser bem trabalhada para que não tiremos conclusões precipitadas. Os Fariseus tentaram colocar Jesus em uma “saia Justíssima”, se a sua resposta pendesse para um dos dois lados, os Sabichões ficariam com a “Faca e o Queijo” na mão, para o condenarem.

A resposta de Jesus, embora pareça pacificadora, é na verdade bem provocante, se considerarmos o fato de que ele quer ver a moeda que eles a apresentam, indagando-lhes de quem é a imagem nela gravada, neste detalhe está a chave para a compreensão do ensinamento.

Os Fariseus querem ser tão espertos, mas na verdade ajudam Jesus em uma aula prática quando apresentam e moeda e dizem que a imagem nela contida é de Cesar. A resposta de Jesus talvez os tenha decepcionado, estavam doidos para darem o “Bote”, mas novamente o Mestre tirou de letra não fazendo o “joguinho” do grupo Farisaico. Mas não podemos olhar para os Fariseus, lá longe na linha do tempo, precisamos prestar mais atenção á nossa postura na relação com as pessoas na comunidade, nas pastorais, nas reuniões do CPP ou do CPC, onde também ás vezes se fazem certas perguntas que só têm como objetivo condenar o outro.

A moeda traz a imagem de Cesar, o Imperador divino, que as pessoas no Império devem cultuar e adorar, é uma imagem que sinaliza domínio e poder sobre todas as pessoas.  Entretanto, o Ser Humano é a imagem e semelhança de Deus, Criador e Salvador, que ao contrário do Poder Imperial, nos promove e nos liberta, da condição de escravos á condição de filhos e Filhas de Deus, temos em nós a imagem libertadora e redentora do nosso Deus, carregamos essa marca desde o Batismo, onde fomos consagrados um dia ao Senhor.

Se os Fariseus fossem um pouco mais inteligentes teriam percebido que a resposta de Jesus foi exatamente uma dura crítica ao paganismo reinante no Império, acima de tudo Deus e nada pode querer estar acima dele. Nos dias de hoje, por acaso também não ocorre o mesmo? Somos todos, homens e mulheres marcados pela Vida que em Cristo Jesus Deus nos deu, entretanto, nos deixamos arrastar por outras imagens que o poder temporal grava em nós, nos seduzindo e nos fazendo escravos.

Jesus não nos quer cristãos alienados, sem compromisso com a ética, moral, política, ao contrário, nos quer como sementes na massa, testemunhas do seu santo evangelho. Exercer a nossa cidadania também é uma forma privilegiada de sermos cristãos, e se ainda houver dúvidas a este respeito, basta nos lembrarmos das palavras do Santo Padre o Papa Francisco que definiu a política como a mais autêntica e verdadeira expressão da caridade. Quem sonega no pagamento de impostos, quem se omite da questão política, é tão corrupto e culpado, como os governantes e legisladores desonestos.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 29º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Sem cera!

“Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens” (Mt 22,16). Os homens que falam são aduladores! E Jesus não se deixa conquistar pela duplicidade da linguagem, nem pela malícia daqueles homens. O Evangelho descobre a falsidade deles logo no começo da narração; eram discípulos daqueles fariseus que tinham deliberado “sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras” (Mt 22,15).

Afirmava um amigo meu que cada um de nós leva dentro um “pequeno fariseu” ou um “discípulo de fariseu”. E tem razão! Frequentemente, podemos procurar parecer o que não somos para agradar, para subir na vida, para alcançar uma posição social, para… Desta maneira, se pode passar a vida com um disfarce no rosto, ocultando assim o que há de mais belo em nós ou não permitindo que as coisas sejam curadas porque não mostramos ao médico divino as nossas feridas.

Deus realmente não gosta da falta de sinceridade. “Os discípulos de Cristo “revestiram-se do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,24). “Livres da mentira” (Ef 4,25), devem “rejeitar toda maldade, toda mentira, todas as formas de hipocrisia, de inveja e maledicência” (1 Pd 2,1)” (Cat. 2475).

Explica um autor que “os romanos, na sua paixão pelo belo e pelo autêntico, admiravam as expressões artísticas mais perfeitas e genuínas, e não admitiam defeitos nas obras de arte. Por isso, quando um escultor falhava, procurava dissimular o defeito cobrindo a irregularidade com cera. E quando a estátua saía perfeita das suas mãos, dizia-se que estava completa, íntegra, autêntica, sine cera – “sem cera”. Daí deriva a expressão sincera” (R. Llano Cifuentes, Vidas sinceras).

Devemos ser assim diante de Deus, “sem cera”, isto é, sinceros; é preciso que sejamos sinceros, bem sinceros: com o nosso confessor, com o diretor espiritual, com aquelas pessoas que tem como encargo saber aquilo que devem saber sobre nós para ajudar-nos. Nós, os cristãos, não participamos das festas de disfarces espirituais porque sabemos que diante de Deus somos o que somos, e nada mais. A máscara que as vezes queremos fazer para nós e que talvez até chamaria a atenção dos outros, nada vale diante de Deus. Jesus conhece até o mais profundo do ser humano, nada se pode esconder dele, muito menos continuar com um disfarce que vele o rosto. Caso contrário, podemos escutar do Senhor aquela palavra que é bastante forte: “hipócritas” (Mt 22,18).

A sinceridade nos leva à autenticidade, a sermos nós mesmos. Também nos leva à simplicidade: nada temos que esconder, somos sempre o que somos e nos mostramos como somos diante dos outros. A pessoa sincera é simples, não anda com complicações, com cavilações inúteis. Uma pessoa sincera é humilde, virtude esta que muito agrada a Deus e atrai novas graças.

Gostaria de insistir num aspecto da sinceridade que é capital. Trata-se daquela sinceridade total que devemos ter no sacramento da confissão. Lá vamos para dizer as podridões, os pecados; para mostrar as feridas, as chagas, as coisas feias. Nenhum padre espera que cheguemos ao confessionário para dizer as nossas virtudes, as coisas boas que fizemos ou como somos pessoas “nota 10”. Não! Para isso não é o sacramento da confissão. Vamos confessar-nos para dizer os pecados, ser perdoados e ficar reconciliados com Deus e com sua Igreja. Devemos ser, portanto, bem sinceros. Melhor ainda se começarmos a falar aquelas coisas que nos parecem mais difíceis de dizer, as que nos causam maior vergonha. Deus nos livre de esconder por vergonha algum pecado, neste caso a nossa confissão seria inválida e nenhum pecado seria perdoado. Outra coisa é quando a gente se esquece de dizer algum pecado. Neste caso, todos os pecados ficam perdoados, podemos ficar bem tranquilos depois da confissão e continuar comungando; na próxima que nos confessarmos diremos aquilo que tínhamos esquecido.

Sinceridade! Sinceridade! Sinceridade! Desta maneira tudo se resolverá, mais cedo ou mais tarde. Confiemos no Senhor, digamos-lhe o que está acontecendo conosco e ele nos dirá aquilo que ele quer de nós. Sejamos sinceros com Deus, pois ele sempre o é conosco.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 29º Domingo do Tempo Comum – ANO A
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (1Ts 1,1-5b)

INTRODUÇÃO: Paulo e Silvano e Timóteo à Igreja dos tessalonicenses em Deus Pai e Senhor de Jesus Cristo: Graça para vós e paz da parte de Deus Pai e de(o) Senhor Jesus cristo (1). Paulus et Silvanus et Timotheus ecclesiae Thessalonicensium in Deo Patre et Domino Iesu Christo gratia vobis et pax.SILVANO [Silouanos<4610>=SilvanusSilvanus, de origem latina significava o espírito tutelar dos bosques. Já o nome de Silas parece semítico com o significado de pequeno Saul ou lobo. Com o nome de Silas sai 12 vezes nos Atos. Em 15, 22 é junto com Barsabás [ou Judas] o escolhido para acompanhar Paulo e Barnabé a Antioquia e declarar o acordado  no concílio de Jerusalém. Tanto Barsabás como Silas eram profetas, ou tinham o carisma da profecia (Idem 15, 32). O profeta neotestamentário tinha como função principal a de exortar os fiéis e algumas vezes como no caso de Ágabo prediziam o futuro (At 11, 27-28). Numa segunda atuação, Silas foi escolhido por Paulo ao se separar de Barnabé para a segunda viagem a Síria e Cilícia (At 15, 40). Nessa viagem, em Listra, uniu-se a eles Timóteo. Em Filipos são vítimas de uma demonstração hostil por ter curado uma escrava possessa que, com suas adivinhações, dava enormes ambições a seus amos (At 16, 19). Em Tessalônica são perseguidos pelos judeus locais e também em Berea. Paulo deixa Silas e Timóteo e marcha só a Atenas e daí a Corinto (At 17, 15), onde parece uniram-se os três (2 Cor 1, 19). Aqui desaparece Silas do livro dos Atos. Mas é de Corinto que com o nome de Silvano aparece como co-autor da epístola aos Tessalonicenses (1 Ts 1,1). Finalmente na primeira epístola de Pedro aparece Silvano como companheiro e irmão fiel que é o seu amanuense e escritor material da carta (1 Pd 5, 12). TIMÓTEO [Timotheos <5095>=Timotheus] nome grego que significa aquele que honra Deus, era filho de Eunice (2 Tm 1, 5), mulher judia de Listra, casada com um grego (At 16, 1), e neto de Loide, cristãs de início. Paulo o circuncidou para torná-lo aceitável aos judeus-cristãos que ainda praticavam o rito (At  16, 3). Acompanhou Paulo nas suas últimas viagens, mencionadas no ano 49 nos Atos. O interesse de Paulo era que Timóteo representava a primeira geração de cristãos que não tinham conhecido Jesus e que passavam da era judaica messiânica à universal dos gregos e pagãos.TESSALÔNICA [<2331>] atualmente Salônica é a segunda cidade da Grécia,  capital da Macedônia e importante porto do norte do mar Egeu, com uma população de 1 milhão de habitantes. Fundada em 315 aC pelo rei Casandro de Macedônia, casado com Tessalonike, meia-irmã de Alexandre, o Grande. Ela recebeu o nome devido a vitória  do Pai, Filipo,  pelo triunfo sobre Tessália. Em 146 Tessalônica passou a formar parte do Império romano como capital das quatro províncias de Macedônia e se transformou num importante centro comercial sobre a via Egnacia, calçada romana que unia Bizâncio com Durazzo no Adriático. DEUS PAI: É um título que Paulo sempre atribui a Deus em relação com o homem Jesus, que não tem pai humano e que assim confirma as palavras de Gabriel:o espírito de Deus [agios] descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus. E como Pai, é Senhor segundo a natureza e a lei. GRAÇA [charis <5489>= gratia] e PAZ [eirënë<1515>=pax]: a frase substitui o chaire [<5463> = alegra-te] grego e o salve [= saúde] latino. É a introdução cristã das cartas de Paulo, em que charis expressa o desejo de que a boa vontade de Deus encha  de alegria e paz, ou conforto, as almas dos ouvintes com as palavras da carta. É o início da carta aos gálatas, romanos, coríntios etc. Nas pastorais, ainda temos misericórdia [éleos] intercalada entre a graça e a paz. A graça corresponde, pois, ao chaire ou chairein [plural] grego e a paz ao shalonhebraico. Graça está no lugar de favor, amabilidade; e fala da bondade de Deus  que provém  todas as necessidades e desejos dos ouvintes, especialmente as do tipo espiritual, das quais Cristo é o intercessor. A paz, que era a saudação hebraica por excelência, agora se torna, em palavras de Paulo, como reconciliação mais do que conjunto de bens para aqueles aos quais a carta está dirigida. A reconciliação é uma das ideias primordiais de Paulo, como efeito da cruz: E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação (2 Cor 5, 18). Pois havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliou consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus (Cl 1, 20)..

AÇÃO DE GRAÇAS: Damos graças ao Deus sempre, por todos vós, fazendo memória vossa em nossas orações (2). Gratias agimus Deo semper pro omnibus vobis memoriam facientes in orationibus nostris sine intermissioneDAMOS GRAÇAS [eucharistoumen<2168>=gratias agimus] do verboeucharisteö, com o significado de dar graças, agradecer. Essa é também uma das prioridades de Paulo nas orações: Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo (Ef 5, 20). Em tudo vê Paulo a bondade de Deus e porisso a ação de graças é a coisa mais natural. Devemos a vida e devemos a justificação como mercês do Bom Deus que dizia Teresa de Lisieux, e estamos no caminho da glorificação. Não por méritos, mas por pura mercê que unicamente exige nessa linha de salvação a cooperação, o não se opor à obra de Deus criador, Redentor, Santificador e Glorificador. Mas especialmente, Paulo tem um motivo particular: a fé dos tessalonicenses é motivo de ação de graças e por isso termina FAZENDO MEMÓRIA [mneian<3417> poioumenoi <4106>=memoriam facientes] que tanto pode ser traduzido por recordando-vos como por mencionando-vos. Esta última parece mais apropriada; pois usando o plural nossasindica que as orações [proseuchai] eram as recitadas em voz alta nas assembleias religiosas da comunidade.

A MEMÓRIA: Sem interrupção, recordando de vossa obra de fé, e do trabalho do amor, e daperseverança da esperança de nosso Senhor Jesus Cristo diante do Deus e Pai nosso (3). Memores operis fidei vestrae et laboris et caritatis et sustinentiae spei Domini nostri Iesu Christi ante Deum et Patrem nostrum. SEM INTERRUPÇÃO [adialeiptös <89>= sine intermissione]: o grego é um advérbio com o significado de sem interrupção, assiduamente, incessantemente. Tendo na memória aOBRA [ergon<2041>=opus] de vossa FÉ [pistis <4102>=fides]. Ergon é obra ou ação, também prática. Parece que os tessalonicenses foram submetidos, como Paulo, às diversas perseguições, pelo fato da sua fé em Cristo, como Messias, Filho de Deus, morto para a Redenção dos homens. Inicialmente, pistis era fidelidade. Asim fala a Septuaginta da fidelidade [emunah] de Deus em Hab 2, 4: ‘o de díkaios ek pisteös mou zësetai [=viverá por minha fidelidade]; mas que no hebraico será a fidelidade dele, do justo [por sua fidelidade =emunatu] Porém, esta última acepção do hebraico parece ilógica diante do contexto. Não obstante, o massorético foi o texto usado por Paulo em Rm 1, 17 com a tradução de fé  do justo: Mas o justo viverá da fé [‘o de díkaios ek písteös zësetai]. Obra esta da fé, talvez como diz João, mais por parte de Deus do que do homem: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou (Jo 6, 29). TRABALHO <kopus<2873>=laborDO AMOR [agapë <26> =caritasKopus inicialmente designava um batido do coração em pena (Jr 51, 3 na Septuaginta),  para depois significar trabalho, labuta, unido à fadiga; daí aflição. Como em Lc 11, 7: Se ele, respondendo de dentro, disser: Não me importunes; já está a porta fechada, e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para te dar. Paulo usa-o com o significado de fadigas e 2 Cor 6, 5: espancamentos, prisões, tumultos, fadigas [kopois], vigílias e fome. Assim,como um resumo dessa vida sofrida dos tessalonicenses, Paulo escreve um pouco mais adiante:Vindo, porém, agora Timóteo de vós para nós, e trazendo-nos boas novas da vossa fé e amor, e de como sempre tendes boa lembrança de nós, desejando muito ver-nos, como nós também a vós (3, 6). E em Hebreus 6:10 Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra, e do trabalho do amor que para com o seu nome mostrastes, enquanto servistes aos santos; e ainda servis. A isso chamará Paulo cooperação no evangelho (Fp 1, 5). Finalmente PERSEVERANÇA [ypomonë<5281>=sustinentiaDA ESPERANÇA [elpis<1680>=spes]. Ypomonë é constância, firmeza, perseverança, traduzida muitas vezes por paciência como virtude passiva. E entra agora a terceira virtude cristã: a esperança. Se em Fp 4, 8 Paulo diz que as virtudes humanas devem ser a base de todo cristão, agora louva as virtudes cristãs por excelência, nos tessalonicenses, já que como diz em Rm 8, 6: A inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Trata-se da esperança, essa da que vos está reservada nos céus, da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho. Realmente a vida cristã se identifica com essas três virtudes teologais. Dirá Paulo em 1 Cor 13:13: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

A ELEIÇÃO: Sabendo, irmãos diletos por Deus, a vossa eleição (4). Scientes fratres dilecti a Deo electionem vestram. DILETOS [ëgapëmonoi<25>=dilecti] é o particípio perfeito passivo do verboagapaö, de significado amar, ter preferência por, estimar. Em parte sinônimo de fileö, mas tendo suas diferenças. Praticamente, é a mesma diferença entre os vocábulos latinos diligere amare. Cícero escreve de um amigo: Ut scires illum a me non diligi solum, verum etiam amari. O amor implica uma entrega total ao amado. A dileção é predileção e confiança. De modo que o amor  é a dileção levado ao extremo de que o outro é mais importante do que o eu próprio. No nosso caso, o verbo agapaö é o preferido para as relações entre Deus, como Pai, e os homens, como seus filhos. Por isso, dirá João 3:16 Deus amou [ëgapësen] o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eternaFileö é mais próprio de uma eleição intelectual e amaö de uma escolha íntima e sentimental. Embora ambos os verbos podem ser usados como iguais em Jo cap 21 nas perguntas de Jesus a Pedro. ELEIÇÃO[eklogë<1589>=electio] é a eleição feita por Deus para a entrada na fé de determinadas pessoas como diz Jesus; Todo aquele o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora (Jo 6, 37). No cântico de Ef 1, 3-10 lemos: Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade. Para louvor da sua graça gloriosa que ele gratuitamente nos concedeu no seu amado Filho.

MÉTODO EVANGÉLICO: Porque o nosso evangelho não chegou a vós somente em palavra, mas também em poder e em Espírito de Deus e em muita garantia como soubestes como nos comportamos entre vós por vós (5). Quia evangelium nostrum non fuit ad vos in sermone tantum sed et in virtute et in Spiritu Sancto et in plenitudine multa sicut scitis quales fuerimus vobis propter vos. Paulo fala agora de seu ministério evangélico. Não foi a palavra só, mas as obras, como diz Paulo em Rm 15, 16. 18-19: Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo. Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras. Pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus; de maneira que desde Jerusalém e arredores até à Ilíria, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo. ESPÍRITO DE DEUS [pneumati<4151> agiou<40>=spirito sancto] Uma das acepções de Espírito [Pneuma] é a que diferencia Deus de toda entidade diferente do mesmo. É o Espírito de Deus ou do Senhor, como em Mt 3, 16: sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu oEspírito de Deus [to Pneuma tou Theou] descendo como pomba e vindo sobre ele. Ou em Lc 4, 18: OEspírito do Senhor [pneuma kuriou] é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres.Espírito que também é chamado de sagrado [agios] e que tanto a Vulgata como as línguas vernáculas traduzem por santo, como testemunha o Batista: E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas sandálias não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo [agiö], e com fogo (Mt 3, 11).Esse Espírito éPALAVRA de Deus e PODER de Deus: Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida (Jo 3, 14). E em Rm 15, 19, Paulo fala do poder de Deus que acompanhou seu ministério: Pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus; de maneira que desde Jerusalém, e arredores, até à Ilíria, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo.GARANTIA [plërosofia<4136>=plenitudo multa] literalmente estar cheio que traduzem por total convicção, ou máxima garantia e certeza. Naturalmente, que o poder [dynamis] de Deus manifestado nos milagres, dava a Paulo essa garantia de que sua palavra era a palavra de Deus. E desses fatos os tessalonicenses foram testemunhas: como discutiu três sábados na sinagoga, e como ao se converterem vários cidadãos pela palavra de Paulo, foi este perseguido e teve que se ocultar em Berea  de onde também foi expulso (At cap 17). Mas foi em Filipos, onde milagrosamente as correntes de Paulo e Silas, após um terremoto, foram soltas. Sem dúvida, que estes atos eram também conhecidos pelos tessalonicenses, cuja cidade não distava muito de Filipos. E Paulo apela à sinceridade de sua palavra como um exemplo dado aos tessalonicenses enquanto esteve entre eles. Nos comportamos entre vós -escreve.

EVANGELHO - Mt 22,15-21
Lugares paralelos: Mc 12, 13-17 e Lc 20, 20-26)

O TRIBUTO A CÉSAR

INTRODUÇÃO: Estamos na última semana da vida de Jesus. Ele atua como Rabi [mestre] no pórtico de Salomão ao oriente da esplanada do templo. Seus inimigos estão à espreita para ver como apanhá-lo em suas palavras e, por isso, propõem diversas questões, que eram discutidas na época, com o intuito de ver seus conhecimentos e até de poder acusá-lo diante das autoridades por sua discrepância da Lei, ou sua oposição às autoridades romanas. Um destes episódios é o de hoje, em que existe um acordo entre inimigos com o fim de poder apresentá-lo como inimigo do verdadeiro Israel e falso messias em consequência. A resposta tem servido para distinguir os dois poderes, o espiritual e o temporal, para não transformar em teocracias os governos das diversas nações. A solução não contrapõe os dois poderes, mas reconhece que ambos têm autonomia própria e implicitamente admite a superioridade do poder divino a quem devemos obediência e principalmente adoração. O cristão tem que ser um bom cidadão, cumprindo as leis civis e os compromissos sociais, mas deve, antes de tudo, obedecer aos mandatos de Deus, impressos na sua consciência.

A REUNIÃO (15): Então, tendo se retirado, os fariseus reuniram-se em conselho, como tender a ele (Jesus)uma cilada, de palavra (15). Tunc abeuntes Pharisaei consilium inierunt ut caperent eum in sermone.Após a parábola dos vinhateiros homicidas, os chefes sacerdotais, os escribas e os anciãos procuravam prender Jesus; mas tinham medo da multidão (Mc 12, 12). Ou seja, os componentes do grande Sinédrio declararam Jesus como inimigo, mas sabiam que era perigoso atuar contra ele, pois não encontravam um argumento válido para condená-lo, de modo que o povo concordasse com a ação repressiva. Segundo João, até reuniram o Sinédrio (sic) ou Conselho, como traduz a Vulgata, e que a bíblia de Jerusalém conserva. Na realidade, foi um conselho formado pelos componentes do Sinédrio.  Por isso Lucas pode afirmar que foi num symbolium [uma sessão deliberativa] em que se buscava precisamente prender Jesus numa armadilha [esse é o sentido de pagideuö], que, infelizmente, traduzem por surpreender algumas bíblias. O propósito era mostrar Jesus como inimigo da lei e, portanto, do povo. Nesta última semana, Jesus se manifestou extremamente prudente, por exemplo, quando não quis dizer com que autoridade ele tinha expulsado os vendedores do templo.

OS INTERROGADORES (16): Então enviaram-lhe seus discípulos com os herodianos, dizendo: Mestre, temos visto que és verdadeiro e  ensinas em verdade o caminho de Deus e não (te) importas por ninguém, pois não olhas as aparências dos homens (16). Et mittunt ei discipulos suos cum Herodianis dicentes magister scimus quia verax es et viam Dei in veritate doces et non est tibi cura de aliquo non enim respicis personam hominum DISCÍPULOS: Eram discípulos [mathetai] dos fariseus, segundo Lucas, junto com herodianos.  O que significa que os verdadeiros responsáveis não se atreveram a dar a cara. Já a coisa começa por ser maldosamente preparada. Sabemos que os fariseus, amantes e observantes da lei, eram os que tinham escrúpulos de dar o tributo a César porque era o mesmo que dá-lo ao deus [Júpiter Capitolino] do qual era representante. Era, pois, um ato de idolatria. Sabemos pela história que os generais [imperatores] romanos vitoriosos pintavam seus rostos de vermelho e coroados com um diadema de laurel representando o deus Marte, atravessavam a via sacra para subir ao Capitólio onde veneravam a tríada capitolina: Júpiter [Ótimo , Máximo] Juno [esposa e irmã de Júpiter] e Minerva [deusa da sabedoria e de Roma, assim como Atenea era de Atenas]. Como encarnação do deus Marte, o general vitorioso, vinha  oferecer seus respeitos a sua mãe Juno e seu pai Júpiter aos quais ele creditava a vitória. Desde Augusto, no ano 12, a C. o Príncipe, foi nomeado também Pontifex  Maximus, obtendo assim a suprema direção do Estado e do culto. Embora Tibério rejeitasse o culto ao Imperador por considerar a si mesmo um simples mortal, pagar o imposto a César era, segundo os fariseus, oposto ao primeiro mandamento. Os judeus reconheciam o protetorado romano mediante o juramento de fidelidade e o sacrifício diário no templo em nome do Imperador, ficando eximidos de qualquer outro culto. Por outra parte, entre os judeus no século I, se recitava o Shemá, junto com o primeiro mandamento e não se considerava válida a oração em que faltasse ao nome de Deus o título de rei. Pois era  Ele o único Senhor de Israel (Dt 6,5). Por isso, à instigação de Judas, apodado o galileu, houve uma revolta após a morte de Herodes o Grande, no ano 6 d.C.  Judas era  provavelmente um rabi, pois Josefo o declara sofista, a  quem seguiu uma parte dos fariseus da seita de Sammay que depois foram denominados de zelotas. Os romanos os trataram como ladrões ou malfeitores (ver  Lc 23, 33). Esse era provavelmente o espírito dos fariseus. A rebelião obrigou Públio Quintílio Varo, o legado da Síria, a uma luta contra os insurretos, terminando com a toma de Jerusalém e crucifixões em massa. As rebeliões na Palestina nos últimos 150 anos a.C. causaram 200 mil mortos em Israel. Já osherodianos eram partidários da união com Roma, da qual derivavam muitas vantagens para os tetrarcas herdeiros de Herodes, o Grande, e seus oficiais e servidores. Como vemos, os herodianos tinham uma política completamente contrária dos fariseus. Da resposta de Jesus, como veremos mais tarde, esperavam-se duas conclusões: duma delas se aproveitariam os fariseus para condená-lo como inimigo da lei e do povo. Da outra, os herodianos teriam argumento suficiente para denunciá-lo a seu tetrarca como subversivo, por negar o imposto devido a César, tal como pediam a Pôncio Pilatos, por Jesus se declarar como Ungido Rei (Lc 23, 2). Por essas razões, os judeus se opuseram aos recenseamentos romanos. Só Jahweh teria direito a fazer semelhante ato de total soberania. Já Davi teve um castigo por um recenseamento como vemos em 2 Sm 24, 1-14. Por isso houve duas revoltas por motivo dos recenseamentos romanos. O recenseamento romano estava dividido em duas partes: o REGISTRO [apografé] ou inventário de todas as pessoas e propriedades. Por causa destas últimas, o registro deveria ser feito no lugar onde estavam as mesmas. No caso de José, sabemos que foi em Belém. Em todo o império romano esse censo ficou registrado no ano 8 a.C, exceto no reino de Herodes, na Palestina, onde foi feito um ano mais tarde, no ano 7. a.C, ainda na época de Herodes em que os judeus deveriam prestar o juramento de fidelidade ao Imperador. Uma segunda parte era o  TRIBUTO ou arrecadação (apotimesis) feito durante 0 legado de Quirino no ano 6 d C, cessado o domínio de Arquelau na Judeia. Este foi o momento em que Judas o Galileu inicia a revolta e prega a doutrina dos Zelotas contra o tributo aos romanos, conquistando Séforis, a capital do Norte. Citamos Flávio Josefo: Em Séforis (a 7 km. de Nazaré) da Galileia, Judas, filho de Ezequías, o chefe dos bandidos que havia assolado antes a região até que foi dominado pelo rei Herodes, reuniu uma banda muito numerosa, rompeu as portas dos arsenais do rei e, distribuindo as armas a seus partidários, atacou os demais candidatos ao poder. Varo, então legado na Síria, tomou consigo as duas legiões que restavam com quatro regimentos de cavalaria e foi para Tolemaida…. Gaio, um dos seis generais, derrotou as tropas enviadas contra ele, tomou Séforis a incendiou e reduziu seus habitantes à escravidão. …Varo subiu com o grosso do exército em direção à Samaria, mas respeitou a cidade ao saber que seus habitantes não tinham tomado parte nos distúrbios provocados por outras cidades. …Dali chegou a Jerusalém e bastou que aparecesse com o exército para que se dispersassem os judeus no campo. Os que estavam na cidade acolheram Varo, que por meio do exército buscou os responsáveis da sedição. Os menos turbulentos foram encarcerados e os mais culpáveis em número de dois mil foram crucificados. Jesus morava em Nazaré e teria na ocasião 13 anos. A contemplação das ruínas de Séforis foi um espetáculo triste de sua juventude. A ideia da revolta foi, sem dúvida, a razão pela qual Caifás afirmou: é de interesse [dos judeus] que um só homem morra pelo povo e não perca a nação toda (Jo 11, 50). Outro momento de rebelião foi na morte de Herodes, o Grande. Um tal Atrongeo, pastor que se intitulou rei e assolou a Pereia com seus homens armados. Tudo demonstra que havia uma síndrome de temor diante da repercussão que um messianismo político/militar poderia  acarretar ao povo com a violenta resposta romana. MESTRE: O título dedidaskalos(o magister latino) responde, sem dúvida, ao rabi hebraico, um mestre da Lei que tinha discípulos. A palavra RABI  significa meu grande (mestre). O título, assim como o ditirâmbico subsequente, é pura adulação. Diante de um juízo, a imparcialidade é a principal qualidade de um juiz  e, além disso, para um judeu, era importante que o ensino estivesse em conformidade com a vontade divina, mostrada em seus preceitos [caminhos] como colunas da verdade. Jesus era um mestre que não tinha precedentes e seguia seu próprio critério. Por isso podiam afirmar que não olhava a face [prosopon] de ninguém, que podemos traduzir por: que não tinha uma linha determinada e ensinava segundo o que sentia verdadeiro e justo. Queriam saber sua opinião, que, sem dúvida, seria particular e distinta.

A PERGUNTA: Dize-nos, portanto, que te parece? É lícito dar tributo a César ou não? (17).Dic ergo nobis quid tibi videatur licet censum dare Caesari an non. LÍCITO: O gregousa o verbo impessoalexestinque propriamente significa estar conforme à lei, ou seja, ser lícito. O TRIBUTO: Distinguia-se o FOROS, ou tributo direto anual sobre casas, terras e  até pessoas (ver Lc 20,22) e o KENSOS(Mt e Mc) ou imposto per cápita, a capitatio romana, chamada também tributum, diferente das taxas alfandegárias, chamados TELOS, impostos indiretos daí a palavra telônion. Assim como o tributo oudidracmado templo, parece que o censo era pago em moeda, logicamente a moeda romana, odenário de prata. Moedas de cobre eram cunhadas nas províncias, mas a prata e o ouro eram todas feitas em Roma. Com isso, a dependência do poder central era evidente. Os denários tinham a efígie do imperador com a inscrição correspondente. Já as moedas hebraicas não tinham efígies, mas somente inscrições como Davi e Salomão de um lado e Jerusalém de outro. Na moeda romana havia uma palavra que podia também ter uma interpretação duvidosa: o cognome de augustus, palavra de origem cultual que denotava uma elevação sagrada de um personagem e era derivada de augere eaugur traduzida em grego por Sebastós, venerável ou adorável. Entre os romanos, os impostos diretos eram de três classes: Tributum soli,(= imposto sobre a terra) sobre todas as propriedades salvo as beneficiadas pelo ius italicum (=direito itálico), Tributum capitis sobre todas as rendas mobiliárias; e o simples Capitatio (= capitação), imposto direto anual, que recaia sobre todos que fossem peregrinos ou não cidadãos romanos: Trata-se do imposto pessoal, que todos as pessoas deveriam pagar: os homens desde os 14 anos e as mulheres desde os 12 até a idade de 65 anos. Nos impostos indiretos poderiam ser incluídos todos os demais impostos territoriais e alfandegários. Como vemos, a questão era especialmente sobre o imposto pessoal. Logo  provavelmente se trata docapitatio. Por outra parte, estava o didracma, tributo pessoal, dado ao templo, também anual, equivalente a dois denários (= ou salários de dois dias) que obrigava a todos os judeus varões maiores de vinte anos, tanto da Palestina como da Diáspora, excluindo mulheres, crianças e escravos. Sobre este imposto capital, romano, vejamos AS DUAS MENTALIDADES tradicionais na época: 1) A teoria dos zelotas,  seguida pelos fariseus discípulos de Shammay, cujo chefe Sadduk lutou com Judas, era de que o único rei de Israel era Jahweh, de modo que não consideravam válida uma oração em que faltasse a Deus o título de rei. Os romanos mantinham o princípio de que, com a conquista, as terras de um país passavam a ser propriedade do Estado, mas cujo usufruto era deixado aos nativos. Neste princípio jurídico fundamentavam a exigência dos impostos. Em contra estava aposição israelita de que as terras eram uma herança dada a  Israel por Deus, a título inalterável. A obediência a Deus proibia, pois, aceitar o princípio jurídico romano e, como contrária a esse mandamento, interpretavam a participação nos tributos. Uma outra questão era o culto ao Imperador que aparecia nas imagens das moedas. As imagens do imperador eram, pelo culto dado ao mesmo, as que produziam maior escândalo. Hipólito dirá que alguns exageram os preceitos de modo a não tocar as moedas afirmando que não é lícito nem tocar, nem olhar, nem fabricar imagens. Também não entram nas cidades cujas portas estão adornadas com imagens, pois consideram esse caminho como pecaminoso. 2) A outra maneira de considerar os impostos era a dos herodianos,que outrora viram em Herodes o Messias de Israel. Os impostos eram uma maneira de ter os romanos como amigos e realizar uma política de paz que, em definitivo, seria de bem-estar para o povo. Não existia mal algum em se deixar influir por culturas modernas e progressistas. Para estes, a recusa do pagamento de tributos era voltar a uma era obscurantista e  se expor a represálias por parte da potência dominadora. Não podemos pensar que estes tivessem o pensamento de Paulo de que toda autoridade procede de Deus (Rm 13, 1). A PERGUNTA: É lícito significa se está de acordo com a lei. Pagar o tributo a César seria, segundo os zelotas e os fariseus, dar dinheiro a um representante de um deus pagão. Seria manter o princípio de propriedade do Estado Romano sobre terras que Jahvé-Deus tinha dado a Israel a título inalienável. Segundo os juristas romanos, os indígenas tinham unicamente o usufruto das mesmas. Por isso a taxação era uma escravidão evidente, segundo os radicais palestinos. Diante deste fato, a resposta, se fosse favorável aos romanos, atrairia o desprezo do povo sobre Jesus. Mas se a resposta de Jesus fosse contrária ao pagamento do tributo, poderia ser causa suficiente para tratar Jesus como revoltoso e os herodianos acusá-lo-iam às autoridades, como realmente o fizeram, de impedir de pagar tributo [foros] a César (Lc 23,2).

PRIMEIRA RESPOSTA: Tendo conhecido Jesus a maldade deles, disse: por que estais me tentando, hipócritas? (18). Cognita autem Iesus nequitia eorum ait quid me temptatis hypocritae. Jesus conhece de imediato o laço e a intenção, totalmente maldosa, dos interlocutores. É uma cilada. E a sua ignorância e as suas palavras de louvor ao Mestre eram completamente falsas. Daí o título de hipócritas.

PETIÇÃO E SEGUNDA RESPOSTA: Mostrai-me a moeda do censo. Eles, então, lhe trouxeram um denário (19). Assim, lhes diz: De quem esta imagem e a inscrição? (20). Dizem-lhe: de César. Então lhes diz: restitui, pois, as (coisas) de César a César e as do Deus ao Deus (21) (sic). Ostendite mihi nomisma census at illi obtulerunt ei denarium. et ait illis Iesus cuius est imago haec et suprascriptio. dicunt ei Caesaris. Tunc ait illis reddite ergo quae sunt Caesaris Caesari et quae sunt Dei Deo. Quis traduzir literalmente o grego que tem uma especial força na sua simplicidade. A palavra essencial éapodote <591> [o reddite latino] que não é um simples dar, mas devolver, restituir, retribuir, pagar um débito. A Vulgata, como quase sempre é a melhor tradução do grego, pois o reddite significa devolver. A moeda que eles usavam pertencia ao César, pois foi cunhada em Roma (vide 17). Quais os bens que deveriam pagar ao César? Logicamente a paz, a segurança e os diversos benefícios e utilidades que de um bom governo obtêm os cidadãos, que eles aceitavam com o juramento de fidelidade e o sacrifício diário no templo. Sobre o censo, e o denário vede o comentário aos versículos 16 e especialmente o 17. Uma outra tradução do reddite é pagar, no sentido de pagar  uma dívida ou um benefício, que, no caso, vemos completamente coerente com os benefícios obtidos sob a dominação romana. Jesus pede a moeda onde estava escrita ao redor da efígie do César: César Tibério, do divino Augusto filho, ele mesmo Augusto, Pontifice Máximo. A moeda estava cunhada em Roma, como todas as moedas em ouro ou prata. Todos, tanto fariseus como herodianos, usavam a moeda, o que era de fato aceitar o domínio do César. A tradução mais exata da resposta  de Jesus seria: Devolvei [pagai]a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Sem dúvida, que Jesus aponta para uma dívida que temos, tanto com as autoridades civis como para com Deus. 1o) Ele estabelece uma clara distinção entre os deveres cívicos e os religiosos, não confundindo as áreas, mas separando-as. 2o) Toda autoridade da qual nos servimos, como se serviam do denário os judeus, tem origem divina, como ele respondeu a Pilatos: Nenhuma autoridade terias sobre mim se de cima não te fosse dada (Jo 19,11). 3º) Devemos pagar o tributo a César. 4º) Assim como pagamos o tributo a Deus, pois ambos são autoridades legítimas, que contribuem para o bem-estar de nossas vidas.

CONCLUSÃO: Deus quer ser representado na autoridade do homem, como diz Paulo, independentemente dessa autoridade ser boa ou má. Em Rm 3,1 afirma: Não há autoridade que não proceda de Deus e as autoridades que existem foram por Ele instauradas. Este princípio não pode ser interpretado como o fez Wycliffe (De Dominio Divino Libri Tres), afirmando que somente era real o domínio dos que não estavam em pecado mortal. E dele se serviu para desacreditar a autoridade eclesiástica, determinando como único princípio dominante a Bíblia, interpretada individualmente. Não o interpretavam assim Paulo e Pedro. O primeiro advertiu a Timóteo (1 Tm 2,2): “Se façam pedidos, orações, súplicas, ações de graças …pelos reis e todos os que detêm autoridade a fim de que levemos uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e dignidade”. Pois os bandidos, os revolucionários da época tornavam a convivência cidadã em temor e insegurança contínuos, como sucede hoje pelo terrorismo e guerras revolucionárias. Por outra parte, Pedro em (1 Pd 2,18) atacará o princípio wycleffiano diretamente, já que escreve: “Sede submissos a qualquer instituição humana por causa do Senhor, quer ao rei, porque é soberano, quer aos governadores, delegados por ele para punir os malfeitores e louvar as pessoas de bem”. E aos escravos: “Sede submissos com profundo temor aos vossos senhores, não apenas aos bons e afáveis, mas também aos perversos (1 Pd 2,18)”.

PISTAS:

1) No mundo moderno, não interrogamos Jesus sobre o tributo a César, mas interrogamos a Igreja sobre o Jesus que está mostrando ao mundo: O homem oprimido tem adulterado a mensagem evangélica sobre o verdadeiro Jesus, Filho de Deus, Redentor e Salvador. Do evangelho tomamos unicamente a mensagem sobre a justiça e igualdade; e a fé, fundamento da vida cristã,  fica diluída em termos humanos. O Homem oprimido substitui o Deus encarnado.

2) Em Jesus queremos ver um revolucionário e, na revolução, um remédio universal, uma redenção necessária, embora dolorosa. Portanto, devemos favorecê-la e acompanhá-la com ilusão e até propagá-la como remédio dos males modernos. Da frase eu vim evangelizar os pobres, reduzimos o evangelho a uma simples consequência de semelhante afirmação. O resto da boa notícia não interessa.

3) É por isso, que os milagres de Jesus, ou são silenciados ou são negados e, entre eles, a Ressurreição. A vida eterna do evangelho é traduzida como vida melhor na terra, por uma divisão mais justa das riquezas. O sobrenatural é substituído pelo natural, o pão de cada dia desloca o Pão Eucarístico, necessário para a verdadeira vida. A política tem tomado o lugar da religião. Damos a César [o povo, ou melhor, o povinho é o César atual] o que é de César; mas não damos a Deus o que é de Deus, embora esse Deus moderno seja o Grande Arquiteto que anula o Cristo do qual temos recebido o nome. A fé se reduz a uma ideia mais conforme com a Filosofia natural do que com a dos versículos dos evangelhos.

4)Temos que nos perguntar se damos a Deus o que é de Deus. Porque, embora sabendo que ele é o verdadeiro Senhor de nossas vidas, o temos relegado a um segundo plano, quando nos declaramos independentes ou buscamos nosso próprio bem, no lugar da vontade que é absoluta no céu e que deveria ser também soberana na terra, como rezamos no Pai Nosso.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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