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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 29/03/2015 - Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
. Evangelho de 22/03/2015 - 5º Domingo da Qaresma


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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29.03.2015
Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor ANO B
( VERMELHO, CREIO, PREFÁCIO PRÓPRIO – II SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "Morrendo, destruiu a morte e deu começo a um novo tempo." __

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2015
Tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”
Lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,5)

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

A assembléia se reúne em um lugar fora da Igreja, de onde, após a bênção dos ramos, sairá em procissão até a Igreja).

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: A Semana Santa que hoje iniciamos atualiza na comunidade cristã os mistérios centrais da redenção: paixão, morte e ressurreição de Jesus. Por isso, deve alcançar entre nós o nível de uma autêntica vivência da fé. Na verdade, somente a partir da fé se capta o mistério do paradoxo de Cristo: ressurreição, vida e triunfo através da humilhação, da cruz e da morte. No Domingo de Ramos lemos dois evangelhos: um antes de começar a procissão e outro na hora costumeira. Aparentemente, o primeiro é festivo e aclama Cristo Senhor e Rei; e o segundo, tem o gosto da morte. Contudo, também o relato da paixão, aponta para um Cristo vitorioso a quem foi dado todo poder no céu e na terra. Tenhamos presente que a Paixão do Senhor, sem deixar de ser um texto histórico e literário, é uma página para ser rezada, meditada no coração. As palmas bentas que logo mais carregaremos, não sirvam de distração, mas nos ajudem a lembrar o Cristo mártir, vitorioso sobre a morte. Cristo morre condenado por homens, para garantir às criaturas humanas a libertação da injustiça e da morte e a posse da santidade da vida.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Meus irmãos e minhas irmãs: durante as cinco semanas da Quaresma preparamos os nossos corações pela oração, pela penitência e pela caridade. Hoje aqui nos reunimos e vamos iniciar, com toda a Igreja, a celebração da Páscoa de nosso Senhor. Para realizar o mistério de sua morte e ressurreição, Cristo entrou em Jerusalém, sua cidade. Celebrando com fé e piedade a memória desta entrada, sigamos os passos de nosso Salvador para que, associados pela graça à sua cruz, participemos também de sua ressurreição e de sua vida .

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Iniciamos hoje a Semana Santa e, com ela, queremos adentrar o Mistério Pascal de Cristo. Em procissão, seguimos os passos de Jesus, fazendo a memória de sua entrada em Jerusalém. Renovando nossa adesão ao seu projeto e, com nossos ramos nas mãos o aclamamos Senhor da Vida e da História. Escutando e participando do mistério de seu despojamento na Paixão, entramos em comunhão com o mistério de sua glorificação e aceitamos que a Páscoa se realize em nossa vida.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente sobre a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Is 50,4-7): - "Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado."

SALMO RESPONSORIAL 22(21): - "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes e ficais longe do meu grito e minha prece?"

SEGUNDA LEITURA (Fl 2,6-11): - "Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai."

EVANGELHO (Mc 11,1-10): - "Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!" NOTA: o Evangelho da Leitura da Paixão está em Mc 15, 1-39



Homilia do Diácono José da Cruz – Domingo de Ramos e da Paixão de Nosso Senhor Jesus CristoANO B

"ACOLHAMOS NOSSO REI!"

Lembro-me quando Pedro Augusto Rangel elegeu-se primeiro prefeito da minha cidade de Votorantim recém emancipada,  e o povo se aglomerava no jardim "Bolacha", onde ele passou com um grupo numeroso, a gente ficava na calçada em meio a multidão e acenávamos com a mão, enquanto que ele nos retribuía com acenos e sorrisos. Eu me senti orgulhoso por estar lá, apesar de ser um menino, pois o fato do prefeito ter retribuído o aceno, dava-me a nítida impressão de que ele olhava para mim. Essa troca de olhares, sorrisos, acenos, tudo é um sinal exterior daquilo que interiormente estamos sentindo. Eu na verdade não sentia nada, mas percebi que meu pai estava emocionado e dizia todo radiante “Esse é dos nossos, é do povão”.

O povo simples, postado á beira do caminho que levava a Jerusalém, se identificavam com Jesus de Nazaré, havia em todos aqueles corações, marcados pela esperança, um sentimento de alegria, porque o esperado reino messiânico estava chegando naquele homem: Jesus de Nazaré, montado em um jumentinho, para por um fim no reino da pomposidade. O mesmo sentimento presente no coração do povo estava também no coração do Messias, porém, a salvação e libertação que ele trazia era em seu sentido mais amplo.

A procissão do Domingo de Ramos exterioriza esse acolhimento, essa aceitação de Jesus, no coração e na vida de quem crê, mas precisamos tomar muito cuidado, para que o nosso canto de Hosana, não fique no oba-oba do entusiasmo momentâneo, pois proclamá-lo nosso Rei e Senhor, significa um rompimento com qualquer mentalidade ou cultura da modernidade, é a experiência profunda da conversão sincera, é a prática de uma espiritualidade que ultrapassa a religiosidade ou o simples devocional, e que nos coloca na linha do discipulado.

A ruptura se faz necessária justamente porque as vozes contrárias ao Reino, dos Poderes do mundo, tentarão sempre abafar ou distorcer a palavra de Deus. Por isso, o servo sofredor, apresentado por Isaias na primeira leitura, é alguém “duro na queda”, inflexível, convicto da missão, e que nunca se deixa “engambelar”, porque tem a língua sempre afiada, não para cortar a vida do próximo, mas para proclamar as Verdades de Deus, reconfortando os tristes e abatidos, despertando esperança no coração de todos os que o ouvem. Ainda é esse mesmo Deus que lhe abre ou ouvidos para que escute como discípulo.

Escutar como discípulo requer a disposição interior em doar-se totalmente por esta causa, por isso este Servo sofredor, que a igreja aplicou a Jesus, coloca toda sua confiança no Deus que vem ao seu auxílio, e que jamais o irá desapontar. Há ainda nessa liturgia, uma atitude que não deve faltar na vida de quem se dispõe a acolher Jesus Cristo como seu único Senhor e Salvador, é o esvaziamento, em grego “kênose”, que encontramos na segunda leitura dessa liturgia, quem quiser encher-se como um pavão, e alimentar a vaidade da santidade, nunca poderá ser discípulo autêntico, pois o Cristo que hoje acolhemos é o Cristo da vergonha e humilhação, é o Cristo rebaixado á condição de servo, é o Cristo que morre nu, pendurado em uma cruz, em uma morte vergonhosa e extremamente humilhante.

Acolher e ovacionar Jesus neste domingo de ramos é bastante comprometedor, por isso que a procissão expõe a fé da nossa igreja publicamente, acenar com os ramos, cantar nossos hinos de louvores e de Hosana, significa a disposição, a coragem e a fidelidade, para percorrer esse mesmo caminho, na firmeza inabalável, ainda que o mundo nos apresente tantos atalhos sedutores, onde podemos ser cristãos adocicados, ou se preferirem, cristãos de “meia tigela”, sem sofrimento e sem nenhum compromisso com o ensinamento do evangelho, como dizia um compadre na porta da igreja, em tom de brincadeira “Ser cristão é coisa muito boa, o que atrapalha é a cruz”, assim pensa a maioria dos cristãos da modernidade, e o próprio Pedro – Chefe da Igreja – também pensava, pois negou o mestre por três vezes, hoje se nega muito mais.

O evangelho da paixão nos mostra o elemento fundamental na vida do cristão: a oração, mas não aquela em que choramingamos diante de Deus, pedindo para que ele mude a nossa sorte, nos favorecendo em tudo aquilo que queremos, mas oração igual à de Cristo em sua agonia.

E finalmente, em um momento tenebroso, Lucas descreve a prisão de Jesus, como uma vitória momentânea das trevas sobre a luz. Jesus hoje continua preso, querem abafar o seu ensinamento, distorcer a essência do seu evangelho, amenizar as exigências do ser cristão, transformando-o em um cristianismo mais “light”. É bom durante a procissão de ramos, fazermos um questionamento: De que lado nós estamos? Senão, esta Semana chamada de Santa, será apenas mais uma entre muitas, cheia de piedade e devoção, e sensibilidade capaz de arrancar lágrima dos olhos, nada que uma boa dramatização teatral, também não consiga fazê-lo...

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – Domingo de Ramos e da Paixão de Nosso Senhor Jesus CristoANO B

“Atitudes corretas”

Hoje começa a Semana Santa, uma oportunidade que a Igreja nos oferece para que estejamos bem unidos aos mistérios centrais da vida de Jesus Cristo. Acompanharemos o sofrimento de Jesus e nos alegraremos com a sua glória. Talvez seja interessante ter uma perspectiva através da qual olhar o mistério pascal de Cristo: alguns procurarão ter as atitudes de Nossa Senhora, outros procurarão fazer as vezes de São José, outros ainda pedirão a fidelidade de João, alguns suplicarão o paraíso com o chamado “bom ladrão”, muitos reconhecerão a divindade de Jesus como o soldado que estava aos pés da cruz do Senhor, outros finalmente chorarão como a Madalena. Nessas horas supremas não podemos ser traidores quais Judas, tampouco podemos fazer como os escribas e os sumos sacerdotes que “buscavam algum meio de prender Jesus à traição para matá-lo” (Mc 14,1).

Qual vai ser a sua atitude? Na terceira semana da quaresma, numa das leituras semanais se falava da animadversão que os da sinagoga começavam a ter para com Jesus: “Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício” (Lc 4,29). Diante dessa atitude, o Evangelho deixa bem claro que “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4, 30). Cristo estará passando bem perto de nós durante essa Semana Santa. Será que também nós o deixaremos continuar o seu caminho sem deter-se diante das nossas necessidades espirituais? Está nas nossas mãos!

Nesse Domingo de Ramos seria bom que trabalhássemos as nossas atitudes, que pensássemos diante de Deus sobre as disposições do nosso coração, que nos abandonássemos em suas mãos deixando que Deus atue cada vez mais nas nossas vidas, principalmente durante essa semana de abundantes bênçãos.

Atitudes? Referem-se às nossas posturas diante das pessoas ou das coisas. Geralmente, toda ação causa em nós uma reação. E são as nossas reações que vão delineando o nosso caráter, que nos vão fazendo pessoas boas ou más. Isto é, as nossas ações não são simplesmente atos bons ou maus, mas com elas nós mesmos nos tornamos pessoas boas ou más. As nossas atitudes mostram a medida da nossa humanidade e, também, da nossa divinização em Jesus Cristo.

Quem adota uma atitude que se resume na acolhida de Cristo tem que concretizá-la na jornada de cada diz. São Josemaría Escrivá expressava-o de maneira magistral: “o nosso caminho é o corrente: santificar as ações vulgares e comuns de cada dia…, fazer decassílabos, verso heroico, da prosa diária”. Durante essa semana, procuraremos santificar essas ações vulgares. Não nos enganemos porque também a nossa penitência é vulgar, é comum: coisas pequenas feitas por pessoas que podem oferecer a Deus essa pequenez. A amabilidade, a generosidade e humildade são disposições, atitudes, virtudes a serem cultivadas durante essa semana santa. Para melhor acolhermos a graça de Deus nas nossas vidas, não nos esqueçamos de que Deus também pede de nós o esforço para abrirmo-nos aos outros: será preciso convidá-los a rezar conosco nesta semana, estar atentos às suas necessidades materiais e espirituais, ajudar alguém a entrar no caminho de Deus.

Uma última coisinha: não percamos as celebrações litúrgicas da Semana Santa, principalmente a Vigília Pascal, que é a máxima celebração do Ano Litúrgico da Igreja. Convidemos os nossos amigos a participarem também. Quem sabe não será essa a grande oportunidade que muitos terão para aproximarem-se de Deus?

Não vamos perder oportunidade de viver o tempo presente dando muito atenção a Deus e aos demais. O seguinte relato pode nos inspirar a tomar algumas atitudes. Cito o texto de Cristina Moraes Vojvodic em “Retratos de Família”:

“A princípio, mal notou o movimento dentro do car ro ao lado, entretido como estava com seus próprios pensamentos, mas a insistência foi tanta que acabou por se voltar para ver o que era. Um menino, lá pelos seus dois anos de idade, acenava um adeusinho, provavelmente cansado da sua prisão sobre quatro rodas. Consciente ou inconscientemente, recusou-se a permitir essa ”invasão” e ignorou a criança. Sim, suas metas estavam muito bem estabelecidas e nada nem ninguém poderiam impedi-lo de alcançá-las.

“O menino não desistia. Melhor não retribuir o gesto, pois aí é que ele não pararia mais. Seus filhos, ele bem se lembrava, eram assim mesmo quando peque nos. Andar. Ótimo; agora ficaria longe do pequeno e inoportuno vizinho. Parar. Qual! Lá estava ele, com seu sorrisinho e seu incansável “tchau”… Igualzinho a seus filhos… não! Os anos haviam passado e seus filhos eram maiores, já não achavam graça nisso. Aliás, não achavam graça em coisa alguma, ou quase. Pa reciam uns perfeitos adultinhos, exigentes, enfadados, descontentes e irônicos. Experimentou certo des conforto ao pensar nisso, mas não era culpa sua.

“Quando havia ocorrido a transformação em seu re lacionamento com os filhos? No começo, havia sido bom – é fácil contentar os pequenos -, mas gradati vamente os filhos tinham-se tornado verdadeiros es tranhos; não buscavam a sua companhia; não o pro curavam nos poucos momentos de que dispunha. Olhou rapidamente para o lado e viu que o menininho ainda tentava chamar a sua atenção. Já não sorria… Já não acenava. Agora batia no vidro, impacientemente.

“Lá se foi o menino… Que decepção deve sentir uma criança que se vê ignorada! Será que os seus próprios filhos lhe haviam acenado durante esses anos todos sem que ele os notasse, ou, pior ainda, percebendo que o faziam sentir-se incomodado, “invadido”? Será que a única coisa que, em silêncio, tinham insistido em receber era a sua atenção? Que decepção deviam sentir! Talvez fosse tarde para procurá-los. Talvez já não qui sessem a sua companhia. Ele mal os conhecia. Haveria algum modo de atingi-los?

“Novo movimento no tráfego, e mais uma vez o me nino do carro ao lado estava a olhá-lo, quieto, a testa grudada na janela.

“Sentiu-se um pouco ridículo de acenar assim, so zinho no carro, com um gesto pouco espontâneo, meio contido. Se alguém o visse iria rir. Que rissem! Já ace nava agora com um pouco mais de ânimo e, quando deu por si, estava até sorrindo. Do outro lado, o me nininho demorou um pouco a reagir, como que duvi dando do que via, mas logo abriu o rosto em uma ri sada e, com toda a alegria, acenou furiosamente para o seu novo amigo. E assim continuaram por alguns minutos em sua muda comunicação, até que o trânsito os separou definitivamente.

“Nada havia acontecido, de fato. Tudo continuava igual, mas uma vaga sensação de contentamento se in filtrou em sua mente. Quem sabe seus filhos ainda qui sessem tentar encontrá-lo!”

Acaso não estará Deus acenando para nós nesta Semana Santa esperando a nossa resposta afirmativa e decidia a segui-lo cada vez mais intensamente e com atitudes bem concretas?

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – Domingo de Ramos e da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - Ano B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Epístola (Fp 2, 6-11)

     INTRODUÇÃO: Esta perícope constituía inicialmente um hino litúrgico, que Paulo incorpora a sua carta com pequenas adições. Afirmam-se nela a divindade e preexistência de Cristo, consubstancial ao Pai; a encarnação do Verbo, como sendo uma pessoa em duas naturezas; a realidade do corpo assumido; o mérito de sua obediência e morte; o direito de Cristo a uma adoração universal, e o exemplo exímio de humildade, abnegação, obediência e caridade do mesmo. A estes conhecimentos dogmáticos podemos acrescentar outros de índole moral e apostólica: Devemos fundamentar nossas vidas no sólido exemplo de Cristo: pela humilhação e cruz é que se consegue a glória.

     DIVINDADE DE CRISTO: O qual em aspecto de Deus persistindo, não considerou cobiça ser igual a Deus (6). Qui cum in forma Dei esset non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo. ASPECTO [morfé<3444>=forma] como em Mc 16, 12: Depois se manifestou de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo. PERSISTINDO [yparchön<5225>=esset] é o particípio de presente do verbo Yparchö com o significado de estar presente, estar à disposição de, ou simplesmente ser, substituindo o verbo einai. É ter posses como em At 3, 6: disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E como einai em Lc 8, 41: E eis que chegou um homem de nome Jairo, que era príncipe da sinagoga. Temos optado pela tradução persistir ou continuar a existir. As traduções, a iniciar pela Vulgata, usam os verbos ser ou ter: tendo ou existindo em natureza de Deus. Indica que Cristo era inicialmente da mesma natureza de Deus. E o confirma na seguinte afirmação: Não considerou como coisa imprescindível ser igual a Deus. Vejamos o sentido das palavras. CONSIDEROU [ëgësato<2233>=arbitatus est] como aoristo do verbo ëgeomai de significado guiar, liderar, governar, como em Lc 22, 26: O maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Mas também tem o significado de considerar, julgar, estimar. Assim: Por conseguinte, estimei que era necessário mandar primeiro estes irmãos para vos ajudarem (2 Cor 9, 5). Ou em Fp 2, 3: Considerem os outros superiores a vós próprios. COBIÇA [arpagmos <725>=rapina] o significado é roubo, furto, rapina, exploração, pilhagem, presa de guerra. Existem duas linhas de interpretação desta segunda parte do versículo: arpagmos é derivado de arpazö <726>, de significado agarrar, apoderar-se, confiscar, arrebatar, pegar por força, como em Mt 11, 12: Se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Em sentido ativo aspargmos é roubo como ato de apoderar-se pela força. E em sentido passivo é presa, saque, pilhagem: bem que tem sido arrebatado à força. A Vulgata opta pelo sentido ativo e traduz rapinam [rapina, usurpação]: Sua tradução será: Não teve por usurpação ser igual a Deus. Que a KJV mantém com thought it not robbery to be equal with God [pensou isso no ser roubo, o ser igual a Deus]. Já as traduções modernas optam pela passiva [coisa a que agarrar-se]: ganancioso tesouro manter-se igual a Deus (Esp). Bene irrinunciabile l’essere uguale a dio (It). A thing to be grasped [coisa a ser retida] (NAS). CONCLUSÃO: no sentido ativo da Vulgata reafirma-se a divindade de Cristo, pois ser igual a Deus não foi uma usurpação ou ato de rapina, mas uma coisa própria de sua pessoa. No segundo caso destaca-se a humildade de Cristo, pois não teve inconveniente em deixar sua glória como Deus e se tornou um homem comum, como vemos na continuação, no versículo seguinte, que é uma explicação deste hemistíquio que estamos considerando.

      A KÊNOSIS: Mas a si mesmo se esvaziou, tomando forma de escravo, tornado em semelhança de homens (7). Sed semet ipsum exinanivit formam servi accipiens in similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. ESVAZIOU [ekenösen<2758>=exinanivit] como aoristo de kenoö significa esvaziar, destruir, anular, como em Rm 4, 14: se os que são da Lei de Moisés fossem os herdeiros, a fé seria inútil e a promessa de Deus não teria valor. E em 1 Cor 1, 17: enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã. A tradução seria, pois, privou-se do que era próprio da divindade para tomar a FORMA [morfë<3444>=forma] é a aparência externa, o aspecto, como em Mc 16, 12: Depois manifestou-se de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo. Nesta perícope temos duas vezes usada a palavra morfë: como forma da divindade (v 6) e como forma da humanidade (v atual). Unida esta frase ao segundo hemistíquio do versículo anterior significa que Cristo, existente como pessoa divina, se despiu dos atributos divinos [majestade, sabedoria e poder] para assumir a forma de um ESCRAVO [doulos <1401> =servus]. Esta forma ou aspecto é chamado de escravo com respeito à divindade, como sendo a maneira mais baixa de ser de uma criatura inteligente com  respeito ao seu senhor, pois o fizeste um pouco menor do que os anjos. De glória e de honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras de tuas mãos. O Messias era, segundo Isaías, o ebed [doulos, servus, escravo] do Senhor [Deus] que teria a mesma vontade de Maria quando respondeu ao anjo: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. Mas também como homem, Cristo diz de si mesmo que veio para servir e não para ser servido (Mt 20, 28) e dos discípulos, que qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo (Mt 20, 27). EM SEMELHANÇA [omoiötati<3667>=in similitudinem] o grego indica semelhança, representando alguém como se fosse um sósia. Cristo era Deus, mas se apresentou como um homem e não excelente e principal, mas da mais desprezível aldeia (Jo 1, 46) nascido de uma mulher humilde (Gl 4, 4 e Lc 1, 48). Tanto o grego como o latim usam o plural e devemos traduzir em semelhança de homens.

     A OBEDIÊNCIA: E encontrado em aspecto como de homem, se rebaixa a si mesmo, feito obediente até morte, morte, porém de cruz (8). Et habitu inventus ut homo humiliavit semet ipsum factus oboediens usque ad mortem mortem autem crucis. ENCONTRADO [euretheis<2147>=inventus] aoristo do verbo euriskö, descobrir, encontrar, mostrar-se. É o verbo usado em Mt 1, 18: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo. ASPECTO [schëma<4976>=habitus] A palavra aparece, além deste versículo, unicamente em 1 Cor 7, 31: Os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa. A diferença entre morfë e schëma: A primeira é forma, a segunda é feitio, padrão ou estilo. A primeira é comparável a substância, natureza ou essência; não em si, mas em sua manifestação; não como vida, mas como atuação de uma vida. Em Deus, sua vida e sua forma de vida são idênticas. Cristo, como homem, é considerado doulos, escravo de Deus. Mas diakonos, servidor dos homens. Já schëma indica o vestido, os gestos, os sermões e ações que em nada diferenciam o homem Cristo dos demais homens. Schëma é muito mais superficial do que morfë. É, em parte, associado com chröma [cor da pele]  e ypografë [esboço]. De modo que morfë aponta a natureza, substância e  schëma a aparência ou aos acidentes. Exteriormente Cristo era Jesus de Nazaré, um homem comum. Mas essa kenosis [palavra de uso teológico] não foi unicamente um esvaziamento da sua divindade, mas houve também uma descida [katabasis de katabaino<2597>] (Jo 3, 13) e um REBAIXAMENTO [tapeinotës] de tapeinoö [<5013>=humiliare] esse rebaixamento foi devido à sua OBEDIÊNCIA [ypokoë <5218> obedientia] até a morte. Paulo declara aqui o que nos evangelhos podemos intuir ao ler a oração de Jesus no Getsêmani: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua (Lc 22, 41). Com isto, Paulo diz que o homem Jesus não merecia morrer, mas por mandato do Pai ele aceitou a morte como sacrifício, vítima pelos pecados do mundo, que o Batista designa como cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29) e que Paulo definitivamente une ao cordeiro pascal, que salvou com seu sangue os hebreus (1 Cor 5, 7), formando parte final do Apocalipse como quem descobre o mistério da História (Ap 5, 6-10). Porém, o sacrifício foi efetuado no alto da cruz para que o mundo saiba como amou o Pai a esse mundo pecador (Jo 3, 10). Num crescendo admirativo, Paulo escreve que a morte do Filho não foi uma morte doce ou gloriosa, mas a mais infame e dolorosa do seu tempo: morte de cruz.

     A  EXALTAÇÃO: Por isso, também (o) Deus a ele exaltou e lhe deu um nome sobre todo nome (9).  Propter quod et Deus illum exaltavit et donavit illi nomen super omne nomen. Da cruz à luz, é o provérbio que melhor sintetiza este versículo, como epílogo deste canto ao Filho encarnado. Devido a essa obediência até a cruz, Deus deu ao homem Filho um NOME [onoma<3686>=nomen] especial e distinguido, que é uma exaltação ou glorificação [apoteosis] após essa kenosis e humilhação da cruz. Geralmente nome é a palavra que determina um indivíduo: os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, chamado Pedro… (Mt 10, 41). Está no lugar de uma pessoa, como em Mt 28, 19: fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Mas também significa título, categoria: Quem recebe um profeta em nome de profeta, receberá recompensa de profeta (Mt 10, 41). Finalmente, está no lugar de reputação ou fama: E ouviu isto o rei Herodes (porque o nome de Jesus se tornara notório)- (Mc 6, 14). O nome recebido é Kyrios [Senhor] Jesus. Como diz Paulo, Kyrios unido a Jesus [Salvador] serve para a salvação: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Rm 10, 9). Nome sobre todo nome é um superlativo próprio das línguas semíticas indicando a superioridade máxima do nome de Jesus como Kyrios.

   OS SÚDITOS: A fim de que no nome de Jesus todo joelho se dobre sobre os céus, e sobre a terra e debaixo da terra (10). Ut in nomine Iesu omne genu flectat caelestium et terrestrium et infernorum. Neste versículo Paulo afirma duas coisas: O senhorio de Jesus ante o qual, como era o costume da época deviam se ajoelhar os súditos; ou, no caso de derrota, se deitar para ser pisoteado, apertando o ventre contra a terra (Sl 7, 5),  e o âmbito do mesmo, que era todo o Universo criado. DOBRE [kampsë<2578>=flectat] é o aoristo subjuntivo do verbo kamptö com o significado de dobrar, curvar; e como é o joelho, o significado textual é admitir Jesus como Senhor, sem que seja necessário o ato material. De fato, a Igreja Católica manda que, diante da presença da Hóstia consagrada, o rito de saudação seja a genuflexão, coisa que diante de imagens é somente a inclinação. SOBRE OS CÉUS [epouraniön<2032>=caelestium], SOBRE A TERRA [epigeiön <1919>= terrestrium] DEBAIXO DA TERRA [katachthoniön<2709>=infernorum]. No esquema tripartido de Universo da época, formado pelos três andares, céu, terra e abismo, em todos eles, o Senhor a quem servir e que é o Kyrios absoluto, será Jesus, o Cristo. De modo que, após essa apoteosis de sua ressurreição, tudo está subjugado ao seu domínio, como afirma Paulo em Ef 1, 10, do plano de Deus que consiste em levar o Universo à sua realização total, reunindo todas as coisas em submissão a Cristo, tanto nos Céus como na Terra. Porque, segundo o que escreve em Cl 1, 16, tudo foi criado por ele e para ele, pois ele é  o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim (Ap 21, 6).

      A CONFISSÃO: E toda língua confesse que Senhor [é] Jesus Cristo para glória de Deus Pai (11). Et omnis lingua confiteatur quia Dominus Iesus Christus in gloria est Dei Patris. Não basta crer no senhorio de Jesus; mas como diz Paulo, também é necessário confessar com a boca que Deus ressuscitou o Senhor Jesus dentre os mortos (Rm 10, 9). Pois como diz na continuação, com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação (idem 10). Já em Mt 10, 32, Jesus afirma: Qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. SENHOR [Kyrios<2962>= Dominus] Kyrios era a palavra grega que traduzia o nome sagrado de Jahveh; de modo que temos Kyrios o Theos como em Gn 4,6 traduzindo o Jahveh Elohim. Logo no NT, Cristo  está no lugar do Deus, embora a palavra própria por Kyrios em hebraico seja Adon, ou melhor, Adonai [meu Senhor] que substituía o nome sagrado [Hashan] de Jahveh que não era pronunciado nas leituras do AT nas sinagogas. GLÓRIA [doxa<1391>=gloria] de Deus Pai. Como diz Paulo quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus (1 Cor 10, 31). Sendo que neste versículo, o homem Jesus está como diferente de Deus a quem Paulo apresenta como pessoa do Pai desde o início, já que fala da obediência do Filho. Em Deus essa glória é a manifestação de sua sabedoria fundada neste caso na cruz, que para os que se salvam é também poder de Deus (1 Cor 1, 18).

EVANGELHO (Mc 11, 1-10) - ENTRADA TRIUNFAL EM JERUSALÉM
Lugares paralelos: (Mt 21, 1-11; Lc 19, 28-40 e Jo 12, 12-19)

AS CIRCUNSTÂNCIAS: E quando se aproximam de Jerusalém, de Betfagé e Betânia, do lado do monte das oliveiras, envia dois dos seus discípulos(1). Et, cum appropinquárent Ierosólymae et Bethániae ad montem Olivárum, mittit duos ex discípulis suis. BETFAGÉ [casa dos figos verdes, brevas em espanhol] era um    kômê<2968>, um vilarejo, aldeia [castellum em latim]. Pode ser traduzido como bairro. Era, segundo nos dizem os dois Talmuds [babilônico e Jerosolimitano], um subúrbio de Jerusalém e, portanto, tinha todos os privilégios da capital. Orígenes afirma que era uma residência de sacerdotes. Na realidade, não sabemos onde estava localizada, unicamente que se situava  numa das ladeiras do monte das Oliveiras. BETÂNIA: Segundo o Talmud seu nome indica casa dos datis e a Betânia da qual fala o evangelho de hoje era uma pequena vila ao sudeste do monte das Oliveiras a 1600 m de Jerusalém. Na época bizantina recebeu o nome de To Lazarion [a de Lázaro] que deu origem ao nome árabe de eu Elzariyah. Aqui residiam os três irmãos: Marta, Maria e Lázaro e Simão o leproso, em cuja casa Maria ungiu os pés de Jesus. A outra Betânia estava situada na margem esquerda do rio Jordão que muitos dizem se identifica com Betabara [casa do passo] que a Vulgata diz ser a Betânia do outro lado do Jordão. Nesta Betânia, ou melhor Betabara, foi batizado Jesus e nela morou algum tempo com seus discípulos fugindo dos judeus que o perseguiam (Jo 10, 40). Num mapa de Jerusalém vemos como Betânia está a uma distância o dobro de Betfagé de Jerusalém. Ambas estão no caminho de Jericó/Jerusalém que bordeja pelo leste e sul o monte das Oliveiras, tendo na frente o monte do Escândalo. O mais provável é que Jesus, chegado em Betânia, pedisse a dois de seus discípulos para irem à frente até em Betfagé, tomar emprestado o jumentinho [filho de uma jumenta] para assim entrar triunfante como rei de paz em Jerusalém.

O MANDATO: E diz-lhes Jesus: Ide ao vilarejo em frente a vocês e em seguida, entrando nele, encontrareis um poldro [pôlon<4454>] atado, sobre o qual ninguém assentou. Havendo-o desatado conduzi (2). Et ait illis: Ite in castéllum, quod contra vos est, et statim introëúntes illuc inveniétis pullum ligátum, super quem nemo adhuc hóminum sedit. Sólvite illum et addúcite. A palavra pölon significa potro, um cavalo novo de três anos aproximadamente; também recebe o nome de poldro. Unicamente Mateus fala de encontrar uma jumenta [onon<3688>=asina] e junto com ela um potro. O substantivo onon é o acusativo da palavra onos, asinus latino. Que se trata de uma jumenta é claro pelo adjetivo dedemenên que é claramente um adjetivo feminino e assim o latim traduz: asinam alligatam (Mt 21,2). Parece que para Mateus onon é neutro comum aos gêneros, porque logo fala de que o poldro estará juntamente com ela [autês]. Para João era um [onarion<2678>] diminutivo neutro de onos. Uma caracterísitica do jumentinho é que ainda ele não foi montado ou como diz o texto grego, sobre o qual nem homem se assentou. Lucas ainda ressalta a virgindade do jumento declarando que sobre o qual, em modo algum,  ninguém dos homens se assentou que o latim traduz ao pé da letra: cui nemo umquam hominum sedit (Lc 19, 30). Marcos dirá: havendo desatado o mesmo, conduzi. É a rudeza de Marcos no domínio imperfeito do grego. Uma tradução demasiado literal do aramaico? Pode ser.

A OBJEÇÃO: E se alguém vos disser: por que fazeis isso, dizei que o Senhor necessita dele e imediatamente enviará ele [o jumentinho] aqui (3). Et, si quis vobis díxerit: Quid fácitis? dícite, quia Dómino necessárius est et contínuo illum dimíttet huc. Mateus fala deles e que enviará eles em plural como se fossem mãe e filhote. Todo o relato de Mateus está um pouco confuso porque parece que ambos os jumentos, mãe e filhote, foram levados a Jesus e sobre ambos ele montou, segundo vemos no versículo 7: puseram em cima deles as suas vestes sobre eles e se assentou sobre eles.

O JUMENTINHO: Afastaram-se, pois, e encontraram o potro atado junto à porta, de fora, no cruzamento de ruas  [amfodon<296>], e desatam (4). Et abeúntes invenérunt pullum ligátum ante iánuam foris in bívio et solvunt eum. Junto à porta de fora. É um inciso digno de anotar porque os animais estavam geralmente dentro das casas no subsolo da casa e os habitantes da mesma no primeiro andar. Estar de fora e na rua era como se estivesse preparado para o uso do mesmo.  O grego amfodon das palavras amfi ou afoteros [ambos] e odós [caminho] indica naturalmente um cruzamento de caminhos. O latim assim o traduz com a palavra bivium [de bi, dois; e via, caminho], caminho que se divide em dois, pois a rua seria a via latina. O inglês traduz por cross way corretamente. Temos traduzido com a maior fidelidade o grego  com os tempos corretos que o latim conserva religiosamente. Isto indica duas coisas: que o texto original, embora incorreto do ponto de vista gramatical, foi preservado como palavra inspirada e que o latim da Vetus Latina foi também preservado, nada menos que por um estilista como era Jerônimo que revisou o texto recebido. É um aval sobre como foi recebido e conservado na Igreja primitiva, como um texto, divinamente inspirado,  que não pudesse ser nem corrigido nem reformado.

O PROTESTO: E alguns dos que ali estavam disseram a eles: que fazeis desamarrando o potro? (5). Et quidam de illic stántibus dicébant illis: Quid fácitis solvéntes pullum? É lógico que os presentes, vendo a ação tão inusitada dos dois estranhos, perguntassem o motivo pelo qual estavam realizando a ação. Foi como uma reclamação por um fato que consideravam completamente imoral, como se fosse um roubo.

 A LICENÇA: Então eles lhes disseram como lhes mandou Jesus  e lhes permitiram (6). Qui dixérunt eis sicut praecéperat illis Iesus, et dimisérunt eis. Ou seja, que a palavra de Jesus foi suficiente para que os donos do jumentinho permitissem que os dois estranhos o levassem. Lucas é mais prolixo ao dizer que quando estavam soltando o jumento os donos perguntaram por que o soltais e então os dois responderam: porque o Senhor precisa dele. Segundo Mateus, nada aconteceu e tanquilamente os dois discípulos, que alguns acreditam serem Pedro e André, o desataram e o trouxeram a Jesus.

JESUS MONTA O JUMENTO: E levaram o potro para Jesus e jogaram sobre ele suas vestes [imatia <2440>]  e assentou-se sobre ele (7). Et duxérunt pullum ad Iesum et impónunt illi vestiménta sua, et sedit super eum. A palavra imation significa veste em geral, mas de modo especial é o manto, capa ou capote. Distinguia-se o imation do chiton que era a túnica latina ou vestido interior. A exceção dos verbos usados, Lucas afirma que eles puseram Jesus sobre o jumento, Marcos e Mateus que foi Jesus quem montou no animal. A palavra chave é vestes, imatia, que se conserva nos três sinóticos mas falta em João. Toda a história é resumida em João dizendo que Jesus tendo encontrado um jumentinho montou-o.

      A PROCISSÃO: Muitos, pois, estenderam os seus mantos no caminho, porém outros cortavam galhos das árvores e estenderam no caminho (8). Plúrima autem turba stravérunt vestiménta sua in via; álii autem caedébant ramos de arbóribus et sternébant in via. A razão de traduzir mantos é porque os judeus da época só tinham dois vestidos: o imátion [capa ou manto externo] [e a túnica, chiton, o vestido interno]. Logicamente, este, eles não podiam retirar e, portanto, só o manto era o que podiam estender no caminho. Lucas é o mais breve unicamente dizendo que estendiam seus mantos no caminho, sem falar dos galhos. O recebimento recorda a passagem de Jeú em 2 Rs 9, 13 em que os chefes do exército deitaram suas capas para que Jeú, atravessando sobre elas, subisse os degraus para ser coroado rei de Israel. Talvez era uma forma de se declarar vencidos ou inferiores à realeza, como os vencidos na batalha tinham que se deitar passando o exército vencedor sobre eles como era costume entre os orientais (Sl 7, 5). De Catão, o de Útica, se diz que seus soldados também espalharam suas clâmides ou mantos militares para que sobre eles passasse o general. No nosso caso, o caminho foi também adornado com galhos que eram tirados das árvores próximas, como dirão Marcos e Mateus, coisa que Lucas não descreve. João dará mais detalhes relativos aos galhos: a grande multidão que viera para a festa tomou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro (Jo 12, 12-13), o que parece um tanto duvidoso, pois tais árvores não existiam perto de Jerusalém. É incerto pensar que os galhos estivessem jogados no caminho, o que dificultaria a caminhada, mas aos lados do mesmo tal e qual se acostumavam fazer na procissão da festa das tendas ou sukoth.

O HOSANA: Tanto os precedentes como os subsequentes gritavam dizendo: Hosanna! Bendito o que vem em nome do Senhor! (9). Et qui praeíbant et qui sequebántur clamábant dicéntes: Hosánna! HOSANNA:  é a palavra grega do salmo 118, 25 que propriamente em hebraico deve pronunciar-se como Hoshiah Nah. O texto grego diz: Ó Senhor, salva, pois! [söson dë]. Ó Senhor conduz já! [euodöson dë]. S. Jerônimo traduz o hebraico assim: obsecro Domine, salva obsecro [hoshiah nah]. Domine, prosperare obsecro. A palavra hoshiah deriva do verbo yasha` <03467>salvar, ajudar e o Nah, uma partícula que acompanha o imperativo do verbo ao qual condiciona. Podemos traduzir o Nah por rogo-te, please em inglês.  A tradução seria, pois: Salva, peço! Como o Nah precede e segue o verbo, a melhor tradução é a dada por Jerônimo na Vulgata: Peço, Senhor, salva, peço! Como vemos na Vulgata do NT, em Marcos, a palavra Hosanna não foi traduzida. Em tempos de Jesus, parece que essa palavra tinha modificado o seu sentido. Não se traduz, por ser uma voz comum dentro das assembleias primitivas cristãs, palavra que chegou até nós na versão latina do Sanctus, o prefácio do cânon eucarístico: Hosanna in excelsis. O salmo 118 [ou 117 dos Setenta] diz entre os versículos 24-26: 24: Este é o dia que o Senhor fez; que ele seja nossa felicidade e nossa alegria! 25: Dá Senhor, dá a vitória! Dá Senhor, dá o triunfo! 26: Bendito seja aquele que entra em nome do Senhor! Nós vos bendizemos desde a casa do Senhor. Já os Setenta traduzem o versículo 25 por Ó Senhor, salva, pedimos! Ó Senhor, conduze-nos a bom termo! Esta minha tradução direta do grego coincide com a da BAC volume IV, e com a Vulgata. Também com a AR (revista e atualizada) evangélica. No tempo de Jesus, a palavra hosanna já tinha o significado de Viva! S. Agostinho afirmava que tinha o valor de uma interjeição latina, ou seja, um grito de júbilo, como olé ou viva. Mateus acrescenta ao Hosanna o objetivo do mesmo: ao filho de Davi terminando com Hosanna nas maiores alturas [In excelsis, traduz o latim]. Lucas escreve que, ao se aproximar da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos jubilosos começou a louvar a Deus com  voz grande por todas as obras que tinham visto, dizendo: bendito o que vem, rei em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas (Lc 19, 37-38). João ainda explica melhor o porquê desta aclamação ao escrever: dava, pois, testemunho disto a multidão que estivera com ele quando chamara a Lázaro do túmulo e o levantara dentre os mortos. Por causa disso, também a multidão lhe saiu ao encontro, pois ouviu que ele fizera este sinal (Jo 12, 17). De quem saiu a iniciativa dessa manifestação exultante? A eleição da cavalgadura foi de Jesus. Mas as palavras de exaltação e júbilo foram, sem dúvida, escolhidas pelos discípulos, a começar pelos apóstolos. Eles acreditavam que Jesus entraria como rei messiânico em Jerusalém e começaria logo a reinar. Parte do argumento dessas suas expectativas estavam fundadas nas maravilhas que tinham visto Jesus fazer, como era a cura do cego de Jericó, a multiplicação dos pães, e a ressurreição de Lázaro, que, segundo João (12, 12), era o motivo principal da aglomeração da multidão em torno do Mestre nazareno. Como temos dito anteriormente, esperava-se o Messias sobre um jumento (ver profecias) vindo em direção de Jerusalém, como afirmava Zacarias. Os discípulos, iletrados eles e rudes de entendimento, provavelmente não sabiam nada sobre a profecia, mas estavam cheios de entusiasmo e esperavam o restabelecimento do Reino de Israel (At 1,6). Quando Jesus pediu um jumento eles imediatamente pensaram na entrada triunfal, especialmente porque o cavalo era próprio dos romanos como instrumento de guerra e é possível que não fosse usado na época pelos judeus, que tinham jumentos e dromedários como bestas de carga e não cavalgaduras militares. BENDITO: É o Eulogemenos, que, a diferença do Makários [feliz ou sortudo], significa uma qualidade intrínseca que o aproxima à divindade, o EULOGEMENOS [bendito] por excelência. A palavra está nos quatro evangelistas sem distinção. A quem se refere? Se refere a Deus ou ao que vem em nome do Senhor, como rei? Evidentemente a este último. A realeza está clara e explicitamente indicada em Lucas, Marcos e João e implicitamente em Mateus quando indica o filho [descendente] de Davi, como termo do elogio, pois Filho de Davi era título totalmente messiânico. Com o clamor dos Hosanna in excelsis termina o texto latino, tradução direta do grego em Marcos e Mateus. Já Lucas termina os animados gritos da multidão com sua preferida frase desde a aparição do anjo aos pastores: ¨No céu paz e glória nos mais altos [céus]¨. Os judeus tinham três céus no mínimo; no mais alto, encontrando-se a morada de Deus. A ele se refere o upsistois [=excelsis] grego. Sem dúvida que cada evangelista, preservando a substância dos fatos, leva, como vulgarmente se diz, a água a seu moinho, dando lugar a uma certa flexibilidade em suas afirmações. As aclamações, unidas aos atos simbólicos referidos, mostram o desejo de receber como rei libertador à semelhança de como foi recebido Simão Macabeu (1 Mc 13, 51) após ter conquistado a cidadela de Jerusalém por meios pacíficos. Ele ordenou ser esta data celebrada todos os anos. Lembra também a purificação do templo em 2 Mc 10, celebrada todos os anos no mês de Kislew [dezembro] durante sete dias à maneira das tendas. Tanto num caso como noutro eram memórias de aclamar publicamente a presença divina, como soberano na pessoa de Simão, por exemplo, entre o povo. No caso de Jesus, também era o momento de entender essa presença na figura do seu enviado Jesus, o de Nazaré. Se em Jo 6,15 Jesus resiste ao anseio do povo de aclamá-lo rei [fora do tempo e da cidade previstos] agora ele não só deixa fazer, mas participa e colabora, pedindo uma cavalgadura ad hoc. O povo pensava em armas e vitórias para obter um triunfo político e guerreiro. Jesus, segundo a profecia de Zacarias, pretendia um triunfo pacífico como vítima, e um reino espiritual em que a geografia não recortasse sua influência e o amor dilatasse seu reinado conquistando os corações. A paz, oferecida no perdão mais generoso, e a humildade, baseada na sua submissão aos mais cruéis instintos humanos de seus contrários, e sua obediência até a morte na cruz à vontade do Pai, seriam de agora em diante, também para seus discípulos, as chaves básicas de seu reinado.

O REINO: Bendito o Reino vindo em nome do Senhor, de nosso pai Davi! Hosanna nas maiores alturas (10). Benedíctus qui venit in nómine Dómini; benedíctum, quod venit, regnum patris nostri David, hosánna in excélsis! O grego é um tanto escuro; o temos traduzido literalmente e, como podemos ver, não se entende bem se o Reino é do Senhor [Jahveh] ou do rei Davi. Por isso o latim começa o versículo com o final do anterior  e desdobra em dois a frase atribuindo a vinda de Jesus a uma presença em nome de Jahveh [o Senhor] e o Reino vindo também com ele, como sendo o reino de Davi, o antecessor. Por essa razão, clamam dando vivas ao mais alto dos céus. Mais claro é Lucas que escreve dizendo: Bendito o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!  Marcos nos dá um grego eulogemenos no final do versículo anterior. Vamos uni-los na nova tradução: Bendito o que está chegando em nome do Senhor! Bendito o reino vindo em nome do senhor nosso pai Davi! Hosanna no mais alto!  Temos explicado as palavras bendito e hosanna. Agora vamos explicar as frases em nome do Senhor e o reino do senhor nosso pai Davi. Em nome do Senhor indica ou um profeta ou um enviado especial cuja conduta estava dirigida pelo Espírito do Senhor, ou seja, pelo poder e sabedoria de Jahvé. É assim como as turbas, especialmente após os dois milagres da cura do cego de nascença e da ressurreição de Lázaro (Jo cap 9 e 11), viam Jesus aproximando-se de Jerusalém,  especialmente montado num jumento, que outrora foi o animal de estimação dos reis: Siba respondeu ao rei Davi: os jumentos são para a família do rei para que monte neles (2 Sm 16, 2). E temos a profecia de Zacarias: Pula de júbilo, filha de Sião; alegra-te, filha de Jerusalém, porque teu rei vem a ti: justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, cria de uma jumenta (Zc 9,9). Dentre as mais de 300 citações de profecias do AT referidas a Jesus, esta é claramente explicitada por Mateus que não duvida em afirmar que levaram ambos, mãe e cria, a Jesus e que este montou em ambos (Mt 21, 4-5). E termina dizendo que o jumento era cria dum animal de carga, para indicar que Jesus não veio como guerreiro, mas como alguém que traz um bem, neste caso a paz. O quarto evangelista amolda a profecia dizendo: Não temas filha de Sião, eis que o teu rei aí vem, montado em um filhote de jumenta (Jo 12, 15). Com o qual indica que não veio fazer a guerra, nem para condenar uma cidade rebelde. Assim o compreenderam seus discípulos após Jesus ter ressuscitado dentre os mortos, como afirmará João, deixando um testemunho a mais dos fatos que ele viu e que confirma com sua escrita (Jo 21, 24).

PISTAS:

1) O relato dos 4 evangelistas é um fato real. Ele tem como base Zacarias. Nos anos 520 a 518 reinava, na Pérsia, Dario I, sucessor de Cambises. Era a época do retorno dos judeus do cativeiro. Em 536 começaram os trabalhos da reconstrução do Templo; mas tão modesto, que os velhos choravam ao compará-lo com o templo de Salomão. Por isso Zacarias quer apresentar um Messias nada triunfante, longe da imagem que os judeus, derrotados e humilhados, tinham de seu sonhado chefe. Montado num jumento que, se em tempos de Salomão podia representar dignamente um rei, nos tempos atuais era um imitação ridícula das esplêndidas montarias dos déspotas persas. Comparado com estas circunstâncias vemos mais claramente que a entrada de Jesus na cidade era uma entrada de paz. Por isso dirá Jesus como lamento sobre Jerusalém: Ah! Se neste dia conhecesses tu a mensagem de paz.

2) Quando Jesus vem nos visitar ele traz a sua paz. Uma paz que tem como base o nosso perdão por parte de Deus e o nosso perdão aos outros homens por nossa parte. É a paz do amor, da fidelidade,  da confiança. A paz que os anjos anunciaram aos pastores, a paz de Cristo ressuscitado aos apóstolos.

3) É por isso que quando o sacerdote visita uma casa como ministro da unção ou da Eucaristia a primeira palavra que deve pronunciar é a paz esteja nesta casa. Não podemos esquecer que a paz de Cristo é também contrária a toda violência, terrorismo ou imposição. A paz humilha o poderoso e eleva o oprimido, porque o abraço da paz só é possível entre iguais.

4) Façamos do abraço da paz na Missa, um ato generoso e universal, em que aquele a quem saudamos seja representante de todos os homens especialmente daqueles que mais necessitam de nossa paz e comunhão fraterna.

5) Jesus entrou em Jerusalém. Nós entramos em nossas casas, nas casas dos amigos e vizinhos. Que tipo de mensagem levamos? É de paz, de serviço, de amor? Enriquece nossa presença ou serve para demonstrar diferenças e rivalidades que se transformam em violentas discussões e definitivas separações?


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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22.03.2015
5º Domingo da QuaresmaANO B
( ROXO, CREIO – I SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, ele continua só grão de trigo." __

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2015
Tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”
Lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,5)

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: A hora de Jesus, também chamada de "glória", é o momento decisivo da cruz, hora do serviço total da entrega da vida. "Se o grão de trigo cair na terra e morrer, produzirá muito fruto". Hoje o Pai nos entrega Jesus, o grão fecundado pela força do Espírito, feito Pão da Vida para nossa salvação. Com alegria renovamos nossa aliança e comungamos seu projeto, aceitando a cruz de nossa vida, como passagem necessária para a ressurreição e alegria plena.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Neste Domingo, preparemo-nos para celebrar a Semana Santa e para contribuir, por meio da coleta do próximo domingo, que é o Domingo de Ramos, com o gesto concreto da Campanha da Fraternidade.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Jr 31,31-34): - "Todos me conhecerão do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado"

SALMO RESPONSORIAL 51(50): - "Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido."

SEGUNDA LEITURA (Hb 5, 7-9): - "Mas na consumação de sua vida tornou-se causa de salvação eterna para todos que lhe obedecem."

EVANGELHO (Jo 12, 20-33): - "Já o glorifiquei e tornarei a glorificá-lo"



Homilia do Diácono José da Cruz – 5º Domingo da Quaresma

"MORRER PARA FRUTIFICAR"

Capitão Tininho era o nome de um grão de feijão, que certa ocasião usei como cobaia, na minha adolescência, para saber como era o desenvolvimento das plantas. Na minha fantasia, o Capitão Tininho retrucou, mas eu o convenci de que ele iria se tornar um herói, e poderia até quem sabe, reescrever a “Viagem ao Centro da Terra”, na visão de um grão de Feijão, e então ingenuamente ele aceitou. Ainda fantasiando, cavei um buraco, fiz um belo discurso para a “tropa” reunida ali, e aplaudimos o Capitão Tininho, que coloquei com carinho no buraco e jogamos a terra por cima. Todos os dias eu regava e revolvia a terra até que em uma manhã surgiu um brotinho quase invisível, fiquei eufórico, era como se estivesse nascendo um filho.

Quando finalmente o pezinho de feijão estava “espigadinho” inclusive com algumas folhas, reuni a “tropa”, na minha fantasia, e começamos aquilo que eu chamei de “Operação retorno”, mas cadê o coitado do Capitão Tininho? Examinei cuidadosamente a raiz do meu pé de feijão, e não tinha nem vestígio do meu herói, de noite comentei com um colega na aula de ciência, que sorriu e me explicou friamente que o Capitão Tininho tinha “esticado a canela”.

Não entendendo perguntei: “Você quer dizer que ele morreu?” E o colega esclareceu que se o Tininho não tivesse morrido, eu não teria o meu pé de feijão. Ainda na minha fantasia, no outro dia reuni a tropa e comuniquei oficialmente o ocorrido “Ele morreu como um herói, nessa missão perigosa” – disse em meu discurso, dando assim por encerrada a minha experiência, concluindo que no ciclo das plantas, senão houver morte, a vida não terá continuidade.

Por isso, no primeiro contato com esse evangelho, quando ministro da palavra, nos anos 80, comentei com meus botões “Eis aqui mais um Capitão Tininho”, referindo-me ao grão de trigo da parábola que Jesus contou em Jerusalém, praticamente às vésperas da sua paixão e morte. Qualquer criança em idade escolar, bem cedo irá aprender que a semente morre nas profundezas da terra, para poder brotar nova plantinha. Mas na dimensão teológica, como poderíamos interpretar esse ensinamento de Jesus, o que significa morrer, nesse sentido?

Eu diria que a morte de Jesus teve início com a sua encarnação, pois no paraíso, o homem sentiu-se tão importante que teve a pretensão de ser o Deus - Todo Poderoso, conhecedor do Bem e do Mal, e senhor de todos os seus atos, enquanto isso, para iniciar a obra da salvação, o Deus Todo Poderoso se fez tão pequeno, que se tornou homem. Essa pequenez de Jesus está diretamente ligada à sua missão – eu vim para servir.

Poderíamos até afirmar que pequeno, é todo aquele que serve, é aquele que sabe partilhar com os outros, aquilo que tem inclusive os carismas. Na teologia judaica, a glorificação divina estava reservada aos justos, que no pós-morte seriam levantados por Deus para nunca mais morrerem. Ora, todas as personalidades bíblicas do A.T são uma prefiguração de Jesus e em alguns gêneros literários, como os evangelhos, por exemplo, encontramos em Mateus uma relação mais direta de Jesus com Moisés. Com a Salvação, Jesus insere de novo o homem na plenitude original do paraíso, sendo esse o anúncio que ele faz aos discípulos no evangelho desse quinto domingo da quaresma, com a afirmativa própria de João de que “Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado”.

Quando o homem busca a santidade e a perfeição em todas as suas ações e pensamentos, manifestando fidelidade ao projeto de Deus, revelando o amor ágape em suas relações com o próximo a glorificação não é simplesmente um prêmio divino, por ele ter sido bom, mas é o resgate perfeito da imagem original de cada ser humano, enquanto imagem e semelhança de Deus, é a volta do Filho pródigo à casa do Pai, recuperando a dignidade perdida com o pecado. Esse processo aconteceu primeiro com Jesus de Nazaré, chamado nas cartas paulinas de primogênito de todas as criaturas e embora não tivesse nele nenhum pecado, ao receber a glória, também glorificou o Pai, que agora poderá olhar o homem realmente como Filho, e restabelecer com ele uma vida de comunhão, para comunicar a sua graça.

É este precisamente o caminho do cristão, não há nenhum outro, é o mesmo caminho de Jesus, o caminho do serviço, do amor ágape, da doação, da fidelidade ao Pai, do despojamento e do esvaziamento, e tudo isso significa “morrer” para si mesmo, ou deixar-se morrer para que o irmão seja bem servido e tenha mais vida. A comunidade é o lugar ideal para se viver a vocação do grão de trigo, morrer para atingir a plenitude, uma linguagem e um ensinamento estranho, para uma sociedade onde ainda prevalece, em todos os segmentos, a famosa Lei de Gerson...

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 5º Domingo da Quaresma

“Atração da Cruz”

Aproximam-se aqueles dias intensos nos quais celebraremos o mistério da nossa salvação. No próximo domingo, a Igreja tornará a vivenciar a entrada de Cristo em Jerusalém e viverá a partir de então, e com muita intensidade, aqueles dias tão fortes da Semana Santa e do Tríduo Sacro. Tão perto de tão grandes acontecimentos, é maravilhoso poder escutar essas palavras de Jesus na Missa de hoje: “E quando eu for levantado da terra atrairei todos os homens a mim” (Jo 12,33).

Contemplamos Jesus levantado na cruz estendendo-se rumo a todos os pontos cardeais, mostrando-se como aquele servo que aparece na profecia de Isaias e que é feito “luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo” (Is 49,6). A cruz do Senhor atrai. Já disse e tornarei a repetir: erram todos aqueles cristãos que querem tirar a cruz do cristianismo, equivocam-se todos aqueles que querem apresentar um cristianismo light, sem exigências, a gosto do “cliente”. Certas comunidades, ditas cristãs, ao parecer muito interessadas no dinheiro dos “fregueses”, retalham a doutrina de Cristo e apresentam somente aquelas coisas que são consideradas agradáveis às pessoas atualmente.

Odo Casel (1886-1948), no seu livro Mysterium des Kreuzes (O mistério da Cruz) apresenta-nos de maneira magistral a verdade conhecida de que Cruz e o Mistério de Deus encontram-se intimamente unidos. A Cruz é reveladora tanto da grandeza de Deus quanto da feiura do pecado. Depois dessa consideração, Casel nos mostra o Mistério da Cruz em relação com o Mistério da Igreja, Corpo de Cristo que nasceu do seu Sangue Preciosíssimo na Cruz. Casel chama a Igreja de concorporea Christi, concorpórea de Cristo. A graça chega até nós através do Mistério da Cruz, motivo suficiente para que amemos a Santa Cruz. No seguimento do Crucificado, o cristão vive no Pneuma, no Espírito Santo, e não na carne. Aquele que renasceu “da água e do Espírito” (Jo 3,5) sabe que ad altiora natus est, nasceu para as realidades superiores. Para conseguir chegar até lá tem que lutar e mortificar-se naquilo que tem de carnal.

O nosso autor observa que nas culturas antigas, as árvores – especialmente os cedros – eram divinizadas. A Sagrada Escritura repugna essa visão divinizadora de árvores. Há três árvores na Bíblia muito importantes: a da vida – que segundo a vontade de Deus, o homem deveria comer os seus frutos e viver –; a da ciência do bem e do mal – da qual o homem comeu, instigado pelo demônio, preferindo um conhecimento fora da submissão e, por tanto, longe de Deus –; finalmente, a árvore da Cruz, que foi colocada na fronteira entre a morte e a vida, entre o mundo pecador e o “mundo” de Deus. Através da árvore da Cruz se pode ter acesso à árvore da vida que está no Paraíso. O ser humano, depois de ter sido expulso do Paraíso, não teve mais acesso à árvore da vida; Deus “colocou ao oriente do jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,24). A árvore da Cruz e árvore da Vida, para alguns Padres da Igreja, se identificam: Crux Christi est lignum vitae, a cruz de Cristo é o lenho da vida (S.Atanasio Sinaíta). A Cruz aparece como condição necessária para aceder à árvore da vida e graças à satisfação que Cristo ofereceu ao Pai, podemos aceder novamente à árvore da vida.

Nós buscamos a árvore da vida, mas às vezes, ao buscá-la de maneira equivocada, podemos acabar dançando ao redor da árvore da morte, que é um ídolo. O ser humano quer encontrar a felicidade nas coisas imediatas, aqui e agora, e não busca a árvore que está na fronteira e que dá acesso à árvore da vida. Temos que aplicar diariamente à nossa vida a contemplação que fizermos sobre o mistério da Cruz, ou seja, carregar a nossa Cruz a través da obediência e do amor.

A cruz de Cristo atraiu cada um de nós e continuará atraindo, também através da vida santa de cristãos bem dispostos a servir a Deus em todos os momentos e a todos os seres humanos por amor a Deus. Isso acontecerá se a nossa vida estiver selada pela santa Cruz, que aponta e traz em si o mistério da Ressurreição do Senhor. Tudo isso custará sacrifício, mas… O que foi a entrega de Cristo na cruz senão uma oferta, um dom sagrado (sacrifício), ao Pai no Espírito?

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 5º Domingo da Quaresma - Ano B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (Hb 5, 7-9)

INTRODUÇÃO: O estado de inferioridade de Cristo  foi temporal (2,7). Após a sua morte fez sua entrada nos céus onde foi constituído e proclamado Filho de Deus (5, 5-10). A presença de Cristo nos céus e sua proclamação como Filho de Deus tem uma importância extraordinária em nossa carta. Cristo é proclamado Filho e Sumo Sacerdote ao mesmo tempo (5, 5-10). Como Sumo Sacerdote purifica-nos do pecado. Como Filho associa a si seus irmãos, os introduz com Ele nos céus e os tornam também filhos de Deus (2, 13-16). Utilizando o padrão do AT,  o autor deduz que Cristo é Sumo Sacerdote porque reúne todas as condições requeridas: ser representante ante Deus, ter compaixão da fragilidade humana, sentir a necessidade de oferecer sacrifícios por eles mesmos e cumprir as ordenanças rituais.Tudo isso se cumpre em Jesus, menos a necessidade de oferecer sacrifícios por si mesmo (4, 16 e 7, 27). Porém, isto não é uma deficiência, mas uma sobreabundância que manifesta um sacerdócio superior.

SACERDÓCIO DE CRISTO: O qual [Cristo] nos dias da sua carne, preces e também súplicas a quem podia salvá-lo da morte por meio de clamor forte e lágrimas tendo oferecido e tendo sido ouvido em atenção à piedade (7). Qui in diebus carnis suae preces supplicationesque ad eum qui possit salvum illum a morte facere cum clamore valido et lacrimis offerens et exauditus pro sua reverentia. CARNE [sarx<4561>=caro]: com esta afirmação coincide o quarto evangelista que não diz se fez homem, mas se fez carne (1,14) para contradizer os docetas que viam um homem em Cristo, mas não feito de carne, a semelhança como experimentamos as visões dos anjos. Jesus não foi uma aparência de homem, mas uma realidade assumindo a carne dos mesmos. Sarx traduz o hebraico bashar<01320> como em Gn 2, 23: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne. PRECES [deësis<1162>=prex] que é a palavra usada por Lc 1, 13: Não temas, Zacarias, porque a tua oração foi ouvida. SÚPLICAS [iketëria<2428> =supplicatio] propriamente era o ramo de oliveira com o qual os suplicantes se apresentavam para serem atendidos. É um apax que só sai neste versículo. Ambas as expressões, seguidas de quem podia salvá-lo da morte, têm sua realidade no momento da oração de Jesus em Getsêmani que em Mateus vemos relatado com estas palavras: Indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. Podemos ver também essa situação em Mt 27, 46: Perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste. Tudo para indicar que Jesus não escolheu a sua paixão e morte, o cálice a ser bebido,] por vontade própria, mas como ato de obediência ao Pai: Sendo obediente até à morte, e morte de cruz (Fp 2, 8). Era a hora em que podia suplicar: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho (Jo 17,1). SALVÁ-LO DA MORTE: Assim o declarou Jesus a Pedro quando lhe mandou invaginasse a espada: Pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? (Mt 26,53). CLAMOR FORTE E LÁGRIMAS [kraugës <2906>ischyras<2478> kai dakryöv<1144>= clamore valido et lacrimis]: é o momento da agonia em que Jesus disse: Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres (Mc 14, 36).  Essas lágrimas eram em forma de sangue, segundo o que narra Lucas 22,44: Posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão. OUVIDO [eiskoustheis<1522>=exauditus]  por causa de sua PIEDADE [eulabeia <2124>=reverentia], coisa que encontramos em Lc 22, 43: Apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. O Filho respondeu com súplicas e lágrimas perguntando se é possível. E dada a resposta negativa, ele foi confortado por um anjo devido a essa eulabeia, reverência, temor de Deus ou piedade que nunca deixa de ser respondida pelo Pai, cuja característica é ser misericordioso e fiel [ehed we emeth]. O anjo que impediu a morte de Isaac, agora não impede o sacrifício de Jesus, mas conforta a angústia de seu coração.

OBEDIÊNCIA: Embora sendo Filho, aprendeu das coisas que padeceu a obediência (8). Et quidem cum esset Filius didicit ex his quae passus est oboedientiam. Não existe amor sem obediência, como claramente afirma Jesus: Se guardardes os meus mandamentos permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor (Jo 15, 10). Neste versículo há uma afirmação dogmática digna de reflexão: Jesus era verdadeiro Filho de Deus. Como tal e segundo o Deuteronômio, esse filho deveria honrar [kabad<3516>timeö=honorare] o Pai (Dt 5, 16). Como diz o livro de Ester, o rei Assuero decretou que todas as mulheres darão honra [yeqar<03366> peritithemi timën= defere] a seus maridos, desde a maior até à menor (Est 1, 20). Essa honra consistia em não fazer o que fez a rainha Vasti por não ter obedecido [asah<06213>] ao mandado do rei Assuero, por meio dos camareiros (Est 1, 15). Mas a verdadeira obediência de Jesus Cristo se deu na hora de sua paixão que mais do que uma aprendizagem [emathen] no sentido ideológico, foi ter uma experiência do que significava uma submissão e obediência. Porque, como diz Paulo, tanto o pecado como a redenção do mesmo tem como base a obediência: Como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos (Rm 5, 19). No canto do Filho, Paulo escreve: Achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz (Fp 2, 8). E embora a fé seja um dom do Pai, ela exige do homem uma obediência que Paulo chama de obediência da fé: O mistério [da entrada dos gentios] manifestado agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé (Rm 16, 25).

A OBEDIÊNCIA: E aperfeiçoado, tornou-se a todos os que o obedecem, causa de salvação eterna (9). Et consummatus factus est omnibus obtemperantibus sibi causa salutis aeternae. APERFEIÇOADO ou sendo perfeito na obediência e no sacrifício que ela solicitava, foi causa de SALVAÇÃO [sötëria<4991>=salus]. Já no dia de seu nascimento Jesus recebeu do anjo o nome de sötër: Na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor (Lc 2, 11). De modo que essa salvação é basicamente perdão e remissão do pecado do povo como diz Zacarias que seu filho anunciaria (Lc 1, 77), e proclamaria na presença de Jesus: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29). Salvação que Paulo denomina justificação e que não foi gratuita por parte do Salvador que trouxe muitos filhos à glória, pelas aflições, o príncipe da salvação deles (Hb 2, 10); mas foi gratuita por parte dos remidos como diz Paulo: Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus (Ef 2, 8). Como temos anteriormente afirmado, a justificação está no plano da obediência: obediência de Cristo pela sua morte na cruz (Fp 2, 8), e de nossa parte obediência da fé (Rm 16, 25). S. Faustina Kowalska escreve  no Diário: Satanás pode  envolver-se no manto da humildade; mas não é capaz de vestir o manto da obediência.

EVANGELHO (Jo 12, 20-33)
MORTE E GLORIFICAÇÃO

INTRODUÇÃO: O evangelho de hoje é próprio de João nas suas circunstâncias de tempo e lugar, e até nas pessoas dialogantes, mas tem muitos pontos de contato com os sinóticos pelo que se refere às afirmações de Jesus sobre sua oblação e morte, como depois veremos, ao tratar de cada um dos versículos.

A DIÁSPORA: palavra grega que significa dispersão. No ano 609 aC quando Nabucodonosor conquistou Jerusalém, destruiu o templo de Salomão e deportou a aristocracia judia para Babilônia. Aqui começa o período do cativeiro. Nos anos 586-538 aC os judeus [nome genérico do povo tanto de Judá como de Israel] iniciariam o que se conhece com o nome de Diáspora [dispersão] fugindo do poder babilônico e do cativeiro de Babilônia, foram especialmente para ao Egito. Paradoxalmente foi um momento auge da cultura hebraica, com a compilação da Bíblia e a sistematização de outras doutrinas tradicionais. Destruído o império neobabilônico pelos persas, estes permitiram que os judeus deportados regressassem para a Palestina com a condição de reconhecerem vassalagem aos persas. Nem todos retornaram, mas os que o fizeram constituíram um foco cultural e religioso, cuja máxima expressão foi a reconstrução do templo de Salomão [completada perto de 515 aC]. A situação dos judeus na Babilônia foi satisfatória pelo menos até o século X dC. A destruição do Estado e do Templo foram experiências traumáticas. Diante da pregação dos profetas, afloraram tanto o desejo de vingança como os sentimentos de culpa e contrição. A religião judaica conseguiu um importante desenvolvimento no exílio babilônico. A sinagoga, talvez a instituição mais importante da vida judaica, começou a atuar em substituição ao destruído Templo. E a estreita  proximidade dos não judeus teve que exercer uma certa influência sobre sua Teologia e o pensamento religioso. Os desterrados nunca abandonaram a esperança de retornar a sua pátria. Até o profeta da condenação, Jeremias, lhes assegurou que finalmente retornariam a sua terra. No Exílio, Ezequiel, com sua profecia da ressurreição dos ossos dos mortos, alentou certamente a esperança. Quando os medos conquistaram Babilônia, os judeus o consideraram um ato de Deus. Ciro, a quem Isaías chama Pastor de Jahvé (Is 44, 28), empenhou-se na reconstrução de Jerusalém e estabelecimento do templo (Idem). Foi concedida aos judeus autorização de regressar a Jerusalém e reconstruir o Templo. O primeiro retorno, 538 aC, incluiu 42360 homens livres e 7337 escravos. O território era pequeno e abrangia Jerusalém e suas vizinhanças. Os regressos sofreram grandes contrariedades assim como a hostilidade dos colonos que os assírios tinham assentado na Samaria, após a conquista de Israel. Estes habitantes eram conhecidos como samaritanos e adotaram certa forma de judaísmo e estavam construindo seu próprio templo no monte Garizim. Em 515 o templo estava reconstruído mas as condições em geral dos habitantes não eram em modo algum favoráveis. Em 458, um segundo grupo de judeus babilônicos chegou à cidade sob o comando de Ezra a quem as novas autoridades da Babilôna tinham nomeado governador. Este grupo compreendia 18 mil homens, mulheres e crianças. O prolongado período de paz sob a dominação persa, em cujo transcurso o aramaico deslocou como língua de uso o hebraico nacional, deu passo, sem sobressalto algum, à incorporação da Judéia ao império dos sucessores de Alexandro Magno [séc III aC]: Ptolomeus primeiros e Selêucidas da Síria depois. O novo âmbito político facilitou mais ainda a diáspora judaica e se iniciou um contato cultural proveitoso com o mundo helenístico. A tradução da Bíblia ao grego em Alexandria [versão dos setenta], significou um passo decisivo na difusão universal das doutrinas hebraicas. Os Selêucidas sírios romperam a tradição de tolerância da que se tinham beneficiados os judeus até o momento e trataram de impor uma helenização forçosa na cultura e na religião. A resistência ficou plasmada nos livros bíblicos de Daniel e Ester e na rebelião capitaneada pelos Macabeus [160 aC]. O enfraquecimento do Império Selêucida, devido as lutas internas, devolveu aos judeus certa independência e tranquilidade durante um século, governados por sacerdotes-reis, descendentes dos Macabeus até a incorporação por Roma, que se deu na metade do século I aC. Durante o período do segundo templo os principais acontecimentos da história judaica aconteceram na terra de Israel. No século II dC, após o fracasso da rebelião de Bar Kokeba e das perseguições subsequentes desatadas por Adriano, o centro da vida judaica se trasladou de Judeia a Galileia. Aqui foi compilado e editado no século III o corpo de leis conhecido como Mishná [literalmente repetição, que foi chamado de segunda lei]. Na Babilônia existia também uma comunidade florescente desde a época do exílio no século VI aC, correspondente a uma densa população judaica desde a época do exílio no século VI aC. No século III dC o maior peso da autoridade religiosa se trasladou da Galileia para a Babilônia pois houve uma corrente de eruditos e discípulos que se dirigiu a esse país. Em 219 chegou a Babilônia Abba Arija, conhecido pelo nome de Ray, um dos mais destacados rabinos de Eretz Israel [terra de Israel]. Ele estabeleceu um seminário em Sura que conjuntamente com a cooperação de seu colega Samuel em Nehardea se converteu no centro da autoridade religiosa para todo o mundo judaico. No fim do século III a Yoshiba [escola] se trasladou a Pumbidita [identificada com a atual Falluia] tendo como dirigente o famoso Judah Ben Ezequiel. Nestes seminários ou escolas [yoshiboth] a Mishnã [lei falada] entrou a formar parte do Talmud [corpus júris hebraico] e os textos e discussões estudados neles são os admitidos hoje em dia como autênticos. O Talmud [composto da Mishná e da Guemará] além da matéria legal e ritual, compreende uma multidão de variados assuntos como lendas, relatos, anedotas, sermões e até debates sobre temas científicos. O Talmud de Babilônia foi completado no século V dC e a versão do Eretz  Israel, chamada de Talmud de Jerusalém, foi terminada antes. Na comunidade de Babilônia, próspera durante vários séculos, houve um cisma entre os séculos IX e X separando caraitas [negando a interpretação rabínica da Escritura] da hierarquia institucionalizada dos rabanaistas. Em certo sentido podemos afirmar que os caraitas e rabanaistas estão como evangélicos e católicos com respeito à interpretação das Escrituras. Hoje praticamente a maioria dos judeus babilônicos têm emigrado ao Eretz Israel. Nos tempos de Jesus existiam judeus em todas as cidades importantes do Império romano. No Egito, havia comunidades judaicas especialmente em Elefantina e Alexandrina em cuja população os judeus eram uma classe à parte. Um exemplo: Temos testemunhos do século III aC do mosaico de uma sinagoga na ilha de Aegina e em Delos e uma menorá [candelabro dos sete braços] em Atenas que indicam que a presença judaica nesses lugares se remonta 2400 anos atrás. Os judeus da diáspora abandonaram a língua materna [o hebraico ou o aramaico] e adotaram a Koiné [grego vulgar] que se introduziu na sinagoga. Por isso o judaísmo egípcio traduziu ao grego o AT [a chamada Versão dos setenta] que foi adotada como tradução oficial da Bíblia em toda a diáspora. Como ela é geralmente citada pelos evangelistas, hoje existe a comum opinião de que essa tradução é a inspirada, mesmo porque o texto hebraico na época não estava fixado. Devido a esta tradução que era lida nas sinagogas, o judaísmo ficou exposto ao influxo cultural do helenismo. Fílon (+perto do 40 dC) é um eco destas tendências que descobrem um sentido mais profundo nas escrituras, servindo-se da filosofia platônica para sua análise. O judeu da diáspora mantinha um forte laço de união ideal e objetivo com a pátria Erezt Israel. Jerusalém e o templo estavam no centro deste sentimento de união. O judeu piedoso oferecia cada ano um tributo financeiro ao Templo [o didracma do evangelho] e seu mais vivo desejo era peregrinar a Jerusalém. Fílon relata que cada ano eram enviados delegados sagrados que levavam ao templo grande quantidade de ouro e prata, produtos das primícias. Cada um,  desde os 20 anos, deve oferecer suas contrbuições anuais, oferta que se denomina Lytra [resgate], pensando que, devido a esta contribuição, poderia ver-se livre da escravidão, das doenças e gozar de perfeita saúde e liberdade. A outra característica era a fidelidade à religião dos pais; era o ligame que formava um estreito vínculo com a comunidade e exclusão do resto da população, fato que influiu muito nos frequentes brotos de anti-semitismo. Isso aconteceu de fato em Alexandria nos anos 38-40. Na realidade, a população do grande porto egípcio estava formada por judeus, gregos e egípcios; porém os judeus ocupavam 3/5 dos bairros da cidade constituíndo 40 % da população, segundo Fílon. Resulta razoável pensar que, com uma população que representava uma percentagem entre 7 ou 10% do total do mundo antigo, em algumas cidades a população judia representasse 25 % ou mais do total. O chamado Politeuma [governo interno] judeu foi destruído nestas revoltas de Alexandria.

OS GREGOS: Havia, porém, alguns gregos [‘ellênes <1672>] dentre os que sobem para que adorassem na festa (20).  Erant autem quidam gentiles ex his qui ascenderant et adorarent in die festo. Conservamos no texto grego os tempos e modos, como sempre, embora, como vemos, a tradução resulta um pouco forçada. Consequentemente a tradução da Vulgata, conservando o sentido, se afasta da literalidade, devido aos problemas de sintaxe que forçariam o texto. Existe também na Vulgata uma variante – assim o estimamos – ao verter gregos [‘ellenes] por gentios. Eram estes gregos gentios, ou melhor, judeus de fala grega, provenientes do fenômeno Diáspora? O dicionário grego distingue entre Hellen <1672>, grego em sentido de gentil e  hellenistés<1674>, um judeu que tem como língua o grego. HELLENES: Claramente vemos o significado de grego total em Jo 7, 35: Para onde irá este que não o possamos achar? Irá porventura para a dispersão entre os gregos?  E em Atos 14:1: Em Icônio  Paulo e Barnabé entraram juntos na sinagoga judaica e falaram de tal modo que veio a crer grande multidão tanto de judeus como de gregos. Nesta última situação vemos como gregos se opõe a judeus e como os tementes de Deus podiam assistir aos ofícios das sinagogas. O próprio Paulo distingue entre judeus e gregos em Rm 1, 16. Pelo que respeita ao termo HELLENISTÊS temos  At 6, 1: Houve murmuração dos helenistas [ellenistön <1675>] contra os hebreus [ebraious <1445>]  porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas. Como o texto de hoje (20) fala de hellenes, podemos afirmar que a tradução da Vulgata gentiles, é acurada e correta. Mas vejamos quais eram estes gregos e estes helenistas com respeito ao judaísmo e sua fé, no parágrafo seguinte. Em todos os tempos muitos pagãos entraram em relação direta e estreita com o judaísmo: Daí temos os dois diferentes tipos de conversos: PROSÉLITOS [do grego prosëlitos<4160>, adventício] que admitiam por completo a religião judaica, se circuncidando. Em Mateus 23, 15 achamos esta classe de conversos que os mestres da Lei  e os fariseus buscavam recorrendo mares e terras, com o qual Jesus admite o fato da dispersão judaica no mundo romano. No livro dos Atos, pela primeira vez, vemos como estes estavam em Jerusalém no dia de Pentecostes, uma das três festas principais dos judeus, judeus, e prosélitos, cretenses e árabes dirá o livro dos Atos (2,11). Nicolau era um desses prosélitos que foi escolhido entre os sete diáconos gregos (At 6,5).  E os TEMEROSOS DE DEUS que acolhiam diversas práticas e crenças judaicas com exceção da circuncisão. Tal era Cornélio [foboumenos ton theon], o centurião romano de quem fala Atos 10, 2. Tanto os prosélitos como os tementes podiam assistir aos ofícios das sinagogas. Porém os tementes não podiam transgredir o muro de separação dos gentios no templo de Jerusalém. Os judeus acusam Paulo de introduzir gregos [®Hellenas]  no templo, em especial Trófimo, o efésio (At 21, 28-29) e por isso querem linchá-lo lá mesmo.

QUEREMOS VER JESUS: Estes aproximaram-se de Filipe, o de Betsaida da Galileia, e perguntaram-lhe dizendo: Senhor, queremos ver Jesus (21). Hi ergo accessérunt ad Philíppum, qui erat a Bethsáida Galilaéae, et rogábant eum dicéntes: Dómine, vólumus Iesum vidére. Filipe era nome grego [que ama os cavalos] e tinha nascido em Betsaida [casa dos peixes]. Era uma aldeia de pescadores ao oeste do lago de Genesaré, terra também de André e de Pedro (Jo 1, 44). Outros dizem que Betsaida estava no leste do lago, na terra da Gaulanítide não longe de onde o Jordão desemboca nele. Filipe era um dos doze escolhidos por Jesus, par de Bartolomeu (Mt 10, 3). Fora deste trecho só João, ao parecer conterrâneo e amigo do apóstolo, traz algum dado interessante. Jesus encontra, no caminho para a Galileia, Filipe e pede que lhe siga (Jo 1, 43). Filipe era amigo de Natanael a quem disse: encontramos o Messias (Jo 1, 45). É o discípulo interrogado por Jesus para saber como dar de comer à multidão em lugar inóspito antes da multiplicação dos pães e peixes  (Jo 6, 5). No discurso da última ceia é Filipe que pede  a Jesus que lhes mostre o Pai (Jo 14, 8). E se encontrava entre os discípulos que permaneceram orando antes do dia de Pentecostes (Jo 1, 12). Era homem diferente do Filipe diácono (At 6,5) famoso por sua evangelização em Samaria (At 8)  e pai de quatro filhas profetisas (At 21, 9). A pergunta é mais uma petição: Senhor queremos ver Jesus. A Palavra Kyrios é traduzida por senhor, título honorífico que expressa respeito e reverência, com o qual os serventes se dirigem a seus donos. Diverge do título de Despotes, que denota um domínio absoluto e poder sem controle. Após a ressurreição o título de Kyrios foi dado em propriedade a Jesus, como Messias e Deus, a quem pertencia o título como dono absoluto do povo de quem este último se declarava súdito e servidor.

ANDRÉ: Vem Filipe e diz a André e de novo André e Filipe dizem a Jesus (22). Venit Philíppus et dicit Andréae, Andréas rursum et Philíppus dixérunt Iesu. O evangelista usa o presente histórico e vemos como o latim expressa os tempos no passado. Fora isso, só temos que falar de André. Seu nome é grego, significando varonil. Era natural de Betsaida (Jo 1, 44), pescador e irmão de Pedro (Mt 4, 11). O nome do pai era Joan ou Jonas (Jo 1, 42) [pomba]. André era discípulo de João o Batista (Jo 1, 42) e trouxe Simão Pedro a Jesus (Jo 1, 41-42). Chamado a pescar homens (Mc 1, 16). Um dos doze apóstolos (Mt 10, 2). Depois de Atos 1, 13 não aparece mais. A tradição afirma que foi crucificado na Acáia, segundo uma ordem do procónsul Eges, cuja esposa se convertera ao ouvir a pregação. A forma de sua cruz é a decussata (cruzada) em X conhecida como cruz de santo André.

A HORA: Jesus porém respondeu a eles dizendo: tem chegado a hora para que seja glorificado [doxasthë <1392>] o filho do homem (23). Iesus autem respóndit eis dicens: Venit hora ut clarificétur Fílius hóminis. Que significa a HORA? Tem o sentido cronológico do tempo (Mt 20, 12). Do instante em que sucede um fato (Mt 8, 13). Algumas vezes designa figuradamente o próprio sucesso como quando se afirma que a mulher quando é chegada a hora (Jo 16, 21) ou a oportunidade: esta é a vossa hora e o poder das trevas (Lc 22, 53). Mas, especialmente, Jesus usa a palavra para se referir 1o) a sua morte e ressurreição que significa o retorno ao Pai (Jo 7, 30  e 8, 20; 12, 27 e 13,1) e 2o) aos tempos escatológicos como em Jo 5, 25 e 6, 28. Evidentemente neste trecho de hoje essa hora é a de sua paixão que para os homens é fracasso e humilhação e para os planos de Deus, que são os que contam definitivamente, são momentos de glória em que Ele mostra sua incomensurável sabedoria, exaltando espiritualmente, o que os homens exaltavam materialmente. GLORIFICAÇÃO: O substantivo glória como o ato glorificar tem no NT o significado de reconhecimento e consequente louvor dos atributos de Deus e de Jesus: Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro (Lc 17,18)? Especialmente a glória de Deus se torna presente e visível de forma esplendente em Jesus: Vimos sua glória, glória do unigênito do Pai (Jo 1, 14). Esta glória se mostra de modo especial na ressurreição de Jesus: Não era necessário que Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória (Lc 24, 26).  Neste caso Jesus diz que o Filho do Homem, ou seja, ele como homem, espera a glorificação que provém do Pai, de Deus: um  reconhecimento por parte deste último de que Jesus estava intimamente unido à divindade. O latim traz o verbo clarificar [honrar ou melhor tornar famoso alguém]; mas logicamente aqui a fama é dada pela ação de Deus como vemos no versículo 28.

O GRÃO DE TRIGO: Em verdade em verdade vos digo: Se o grão do trigo, caindo na terra não morresse, ele permanece só; mas se morresse, acarreta muito fruto (24). Amen, amen, dico vobis, nisi granum fruménti cadens in terram mórtuum fúerit ipsum solum manet; si autem mórtuum fúerit, multum fructum adfert.  A frase em verdade em verdade é usada no início de um discurso ou depoimento como uma espécie de solene afirmação ou no lugar de um juramento em que a verdade [amem significa verdadeiramente] é afirmada de modo enfático como colocando na palavra pronunciada não unicamente a sinceridade do locutor mas a certeza da afirmação. No fim de uma oração significa uma resposta dos ouvintes, em conformidade a toda a prece proferida, que se traduz também por assim seja. O amém é uma palavra universal que não foi traduzida ao grego nem ao latim e conservada íntegra  em conformidade com o texto hebraico do qual se deriva. A raiz é a mesma que a do verbo amam [ser fiel, confiar]. Todo o ambiente desta perícope está baseado na morte de Jesus e sua ressurreição. Daí a comparação com o grão de trigo que para produzir fruto deve antes morrer ao ser enterrado na terra. Como sempre temos traduzido o grego da forma mais literal possível e vemos que a Vulgata confirma a tradução feita. A consequência da morte de Jesus é comparada com a morte do grão para que o fruto seja abundante.

UM ELEMENTO HOMILÉTICO: O amante de sua vida [psychën<5590>] a perderá e o que detesta sua vida no mundo a conservará para a vida eterna (25). Qui amat ánimam suam perdet eam, et qui odit ánimam suam in hoc mundo in vitam aetérnam custódit eam. Os termos bíblicos tanto hebraicos como gregos que designam o que geralmente traduzimos por alma não designam uma parte do ser vivo que é o motor da vida, mas o homem inteiro enquanto está vivo. O homem não tem alma, mas é alma viva, como diz o Gênese: insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente (Gn  2, 7). Por isso podemos traduzir Psychê por vida ou ser vivo enquanto vive. Neste sentido salvar ou perder a vida tem um sentido transcendente, que se a vida não termina aqui e agora podemos compreender as palavras de Jesus como dizendo: quem neste mundo dedica-se a gozar da vida não poderá ter essa dita no outro e pelo contrário quem sacrifica a sua vida [logicamente por amor a mim] esse é que encontra a verdadeira e definitiva vida no além. Os verbos amar e odiar ou detestar, são próprios das expressões em branco e preto das línguas semíticas, que não admitem as cinzas das línguas modernas. Talvez possamos traduzir por quem prefere viver bem esta vida não espere ganhar a vida eterna porque só aquele que sacrifica sua vida na terra é que alcançará a vida plena no além.

O SERVIÇO: Se alguém me serve [diakonê <1247>], siga-me, e onde estou eu também o meu servidor estará; e se alguém me serve, honrá-lo-á [timêsei <5091>] o Pai (26). Si quis mihi minístrat, me sequátur; et, ubi sum ego, illic et miníster meus erit. Si quis mihi ministráverit, honorificábit  eum Pater meus. No grego existem duas palavras diferentes para designar o serviço: Douleuô que significa um serviço feito por escravos  e Diakoneô, de onde procede diáconos, que é o serviço feito por uma pessoa livre de modo voluntário. Diáconos era também o nome dado a quem servia à mesa. O versículo é um quiasmo, de proposições cruzadas, em que o final da primeira constitui o início da segunda. É próprio do quarto evangelista. Todo este versículo parece uma interpolação para explicar em que consiste perder a vida. É um serviço voluntário a Jesus que será premiado com a honra que unicamente o Pai pode oferecer. O verbo timaö significa honrar e ao mesmo tempo recompensar.  E o caminho a seguir é o mesmo de Jesus que termina materialmente e absolutamente na cruz. É uma invitação a seguir Jesus até a morte [dar a vida] na cruz.

A ANGÚSTIA: Agora minha alma tem sido conturbada e que direi? Pai salva-me desta hora! Mas para  isto vim a esta hora (27). Nunc ánima mea turbáta est: et quid dicam? Pater, salvífica me ex hac hora. Sed proptérea veni in horam hanc. Duas questões surgem destas palavras de Jesus: Por que está conturbado [tetaraktai <5015>]? O verbo tarassö indica agitação, distúrbio da equanimidade por medo ou por  pavor de uma coisa que causa ansiedade e angústia. Nada poderia agitar o espírito  de Jesus a exceção da morte na cruz, humilhante do ponto de vista da dignidade humana e terrível pelo sofrimento físico que acarretava. Era como se, neste momento, Jesus estivesse vendo a sua execução e por isso seus sentimentos eram de tristeza e angústia, como ele declarou em Getsêmani (Mt 26, 37). A exclamação de Jesus é muito similar à contada pelos sinóticos no horto de Getsêmani que João não descreve e que aparece neste diálogo com os gregos ou diante de seus discípulos.

A RESPOSTA: Pai, glorifica o teu nome! Veio, pois, uma voz do céu: E o glorifiquei e de novo o gloricarei (28).. Venit ergo vox de Pater, clarífica nomen tuum caelo: Et clarificávi et íterum clarificábo. A ideia de Pai transfere a ideia de um Deus morador de um templo para um Deus familiar e sempre presente na vida do homem. Jesus tem clara a sua filiação que transforma a criação de semelhança em geração de igualdade entre Deus e o homem. Nome está no lugar da pessoa. A voz do céu, segundo alguns comentaristas, seria a bath kol [filha da voz], mas esta voz própria dos profetas, segundo os rabinos, não podia ser a voz plena e completa que se manifestou como testemunha no batismo e na transfiguração, embora nestes últimos casos a voz foi acompanhada da misteriosa presença divina ao se abrirem os céus no batismo e aparecer em forma como de pomba o espírito e ao cobrir a nuvem com a sua claridade o grupo do Tabor. Aqui somente houve uma voz que confundiram com um trovão os que talvez não entendessem o aramaico em que ressoou forte e por isso pensavam fosse um trovão. Mas ela foi clara para os presentes que entenderam a língua: o glorifiquei e o glorificarei de novo. A glorificação anterior eram as obras extraordinárias feitas por Jesus, especialmente com a ressurreição de Lázaro, que foi feita como um pedido ao Pai (Jo 11, 41-42). A segunda parte indica que o Pai aprova o cumprimento do mandato por Jesus, ao entregar a vida como dom voluntário em favor dos homens no alto da cruz. Essa cruz que é maldição e loucura será para Deus o modo escolhido pelo Pai para exaltar Jesus: e quando eu for exaltado da terra tudo atrairei a mim (Jo 12, 32).

INTERPRETAÇÃO: O povo, pois, que estava presente e tendo ouvido dizia: tem acontecido um trovão; outros diziam: um anjo tem falado a ele (29). Turba ergo, quais stabat et audíerat, dicébat tonítruum esse factum. Alii dicébant: Angelus ei locútus est. O trovão era a voz de Deus como vemos por 1 Sm 12, 18: Invocou Samuel o Senhor e o Senhor deu trovões e chuva. E no salmo 18,14: Javé trovejou no céu, o Altíssimo fez ouvir a sua voz. O papel dos anjos era bem conhecido e aceito nos tempos de Jesus como vemos em Atos 23, 8: Os saduceus declaram não haver ressurreição nem anjo nem espírito, ao passo que os fariseus admitem todas essas coisas. Entenderam os presentes de fala grega a voz do trovão? Pode ser que alguns deles ou a maioria não entendesse. Daí a opinião do trovão. Outros pensaram que era um anjo, pois o Deus de Israel estava no santuário como no seu trono e era invisível e inalcançável aos humanos.

EXPLICAÇÃO DE JESUS: Respondeu Jesus e disse: Não por minha causa, esta voz aconteceu mas para vocês (30). Respóndit Iesus et dixit: Non propter me haec vox venit, sed propter vos. Sem dúvida que a voz responde ao pedido de Jesus de sua glorificação; mas ele sabe que essa glória em parte constitui a honra que os homens devem a Deus  e é por isso que Jesus fala de que a voz foi principalmente ouvida pelos presentes como foi o caso da ressurreição de Lázaro, para que creiam que tu me enviaste (Jo 11, 42).

A CONDENAÇÃO: Agora é a condenação [krisis<2920>]  deste mundo; agora o príncipe [archön <758>]  deste mundo será lançado fora (31). Nunc iudícium est mundi, nunc princeps huius mundi eiciétur foras. No lugar de julgamento ou juízo temos traduzido condenação porque krisis embora tenha um significado primário de separação, logo de julgamento, mas também significa condenação. Daí que podemos traduzir como condenação pelo significado do segundo hemistíquio. E por isso o representante desse mundo, o príncipe do mesmo, o Archon, ou seja, chefe, senhor ou dominador do mesmo será lançado ou arremessado fora. É interessante como os evangelhos são muito cuidadosos em escolher os termos de modo que Kyrios só é usado para Deus,  e tanto Miguel como Satã são os respectivos príncipes de seus domínios. O príncipe deste mundo é pois Satanás, como podemos ver por Marcos e Lucas quando ele mostra os reinos do mundo e diz a Jesus tudo te darei se me adorares (Mt 4, 8). O fim deste governo do mundo está à vista. Já começou com a vinda de Jesus, e se confirmará com a sua morte de modo que a salvação estava à disposição de todos os homens unicamente pela fé e entrega a Jesus, escolhendo o senhorio deste em contrário do domínio do maligno em todas as ordens, tanto de pensamento como de ação ou moral.

A ELEVAÇÃO: Porque se eu for levantado [hypsôthô <5312>] da terra atrairei [elkysô <1670>] todos a mim mesmo (32). Et ego, si exaltátus fúero a terra, ómnia traham ad meípsum. Talvez o aoristo de hypsôthô fosse melhor traduzido por quando eu estiver içado da terra. Ver o significado de Hypsoô no comentário do domingo anterior na conversa com Nicodemos sobre o içamento da serpente. O verbo nos recorda os métodos de aclamação dos antigos reis quando eram içados sobre o escudo para a proclamação da multidão. Por isso, Jesus afirma que arrastará todos para a sua pessoa. Será uma aclamação tendo como circunstância a cruz onde seria prontamente elevado.

A MORTE: Pois isto disse significando que classe de morte estava a ponto de morrer (33). Hoc autem dicébat signíficans qua morte esset moritúrus. Efetivamente a cruz era uma morte em que o réu era içado para ser mostrado à vista de todos como um criminoso do qual deviam tomar exemplo para evitar sua conduta. Mas em Jesus, homem justo e filho de Deus, a exibição era para obter a cura, como a serpente no deserto, ou melhor, a salvação para todos os que confiavam na loucura dessa cruz, como sendo a sabedoria de Deus para libertação do pecado e da morte. De modo que encontremos na morte de um a vida para todos.

EXCURSO: BREVE HISTÓRIA DO POVO JUDEU

PERCENTAGEM DE JUDEUS: Qual era a percentagem de judeus na Eretz e na Diáspora? Afirma-se que de 1 a 6. Entre 7 e 10 % da população do Império eram judeus. A alta percentagem era, segundo Josefo, um testemunho da virtude e capacidade de reprodução dos judeus, que, ao contrário dos romanos, não usavam nem contraceptivos nem recorriam ao abortamento. Na Grécia, desprezava-se o comércio e a indústria, atividades que estavam reservadas aos mefíticos [estrangeiros]. Na época da prosperidade de Atenas, trabalhavam 40 mil escravos para 20 mil cidadãos e 30 mil mefíticos cuidavam do comércio. Assim mesmo em Roma  as classes dirigentes desprezavam profundamente toda classe de comércio e todas as atividades que não estivessem relacionadas com a atividade rural. Estrabão (+25 dC) afirma que era difícil encontrar um lugar na terra habitável que não tivesse recebido essa tribo de homens e não fosse possuído por eles [os judeus]. O Império Romano, na época de Trajano em 117 dC na sua maior expansão, tinha uma superfície de 4.532 000 km2 e uma população de 50 a 60 milhões. Nesta época, a população judaica, no âmbito de todo o império, teria alcançado uma cifra entre 4 e 4,5 milhões; alguns historiadores a elevam a 6 milhões, dos quais um milhão ou milhão e meio corresponderiam aos judeus no Império Parto [incluindo Armênia, parte de Síria, Mesopotâmia, Média e Elam]. Em relação, pois, com o Império Romano os judeus constituíam entre 7 e      10 %. Sendo a população do Eretz de 600 mil habitantes, teremos entre 3 e 4 milhões de judeus, habitantes do império romano. Um de cada dez homens era judeu, e visto um total de 40  ou 50 milhões em todo o império, teríamos de 4 a 5 milhões o número de judeus em todo o mundo. No início do século 20 contaram-se 10 milhões de judeus em todo o mundo, dos quais 50 mil habitavam em Jerusalém. Segundo cálculos, 6 milhões deles morreram nas câmaras de gás nazistas. No final desse mesmo século 14,5 milhões de judeus viviam no mundo, dos quais 4,7 habitavam no Eretz Israel.

JUDEUS NA ARÁBIA: Para completar estas breves notícias sobre a história do judaísmo sabemos que antes do surgimento do Islã, no século VI dC, existiam na Arábia poderosas tribos judaicas que dominaram sobre tribos vassalas e um número considerável de não judeus se converteu à fé mosaica. Existem provas de que houve um reino prosélito dos judeus e uma rainha dessa origem. As esperanças de Maomé de convertê-los, não se realizou e isso provocou que as tribos fossem expulsas da Arábia e todos os varões de uma delas executados. Os que ficaram vivos como Dimmies, tiveram que pagar tributos especiais e vestir de preto ou azul, impedindo-os de montar a cavalo. Os órfãos de pai eram obrigados –especialmente no Iêmen -  a se converterem ao islamismo. Os trabalhos próprios eram o artesanato de ouro ou prata, dado que isto era vedado aos seguidores do Islã. Essas limitações já se encontram no chamado Convênio de Omar (ano 637, ainda em vida do profeta) que fixa por meio da doutrina chamada ahl al-jimma os direitos dos judeus e cristãos. Isso mesmo foi o direito que prevaleceu na Espanha durante a ocupação muçulmana. Um dos resultados desta perseguição foi que os judeus de Iêmen se conservaram etnicamente separados e mantiveram seus costumes peculiares. Sua singular pronúncia do hebraico e suas práticas rituais permaneceram intactas durante 2 mil anos, que levarão luz sobre o idioma e cultura da antiguidade hebraica.

JUDEUS NA ARMÊNIA: Temos também o caso dos judeus cuzistãos que de origem armênia se converteram ao judaísmo em 740 dC, formando um reino que impediu a expansão árabe na Rússia. Eram turcos, procedentes da Ásia central. Destes judeus são alguns dos chamados askenazis. Sua relação com os cairitas e rabanaistas tem sido recentemente descoberta nos arquivos das antigas sinagogas.

JUDEUS NA ESPANHA: Caso especial é o dos judeus espanhois. Antes de serem expulsos da Espanha em 1942, foram expulsos junto com os mozárabes da Andaluzia para o Marrocos pelos Almoravides  de Yusuf Ben Tashufin pouco depois de invadirem a península ibérica em 1086, em número de 100 mil ou obrigados a se converterem ao Islã. Também foram expulsos da Inglaterra por Eduardo I em 1290, o que é considerada como a primeira expulsão da Idade Média, com um número de 16 mil; da França em 1032; em 1182 pelo rei Felipe Augusto o da 3a cruzada e em 1321/1324 quando foram confiscados seus bens por Felipe IV o belo, o famoso rei perseguidor dos templários e finalmente na Áustria em 1421, após uma perseguição com 270 judeus queimados, confiscação dos bens e conversão forçosa das crianças. Na expulsão de 1492 da Espanha não houve mortos nem conversões forçosas [exceto que se oferecia o batismo ou a expulsão e os mais ricos optaram pelo batismo, talvez a metade dos 100 mil que foram expulsos], e os judeus tiveram tempo de vender suas posses e levar o preço ao exílio. Tendo à vista o decreto de expulsão de 31 de março de 1492 podemos afirmar: a) Causa de expulsão: pela conversação e comunhão com os cristãos, os judeus os induziam e atraiam à lei mosaica, dogmatizando e ensinado os preceitos e cerimônias daquele [Moisés] e fazendo-os guardar o sábado e as páscoas e festas dela…tal lepra e tão contagiosa não se podia remediar sem a expulsão…subverter os cristãos astuta e mui cautelosamente a sua perfídia judaica…por sua própria culpa submetidos a perpétua servidão e sejam servos e cativos nossos e se são sustentados e tolerados é por nossa piedade e graça e se desconhecem e são ingratos não vivendo quietamente e da maneira dita anteriormente, é pois muito justo que percam a nossa graça e que sem ela sejam tratados como hereges e fautores de dita heresia….por meio de grandíssimas usuras devorar e absorver as fazendas e substâncias dos cristãos exercendo iniquamente e sem piedade a pravidade usuária contra os ditos cristãos e naturais…e como sua saúde consiste em afastá-los da prática, conversação de judeus e judias a qual ..tem causado a dita apostasia e depauperação das fazendas dos cristãos…os infiéis usurários manifestos sedutores dos católicos e fautores de hereges dentre os católicos cristãos, por preservação e conservação das almas deles e da religião cristã DEVEM SER EXPELIDOS E APARTADOS, pois retirando a ocasião de errar é suprimido o êrro. b)Tempo dado: até o fim do mês de julho [4 meses íntegros] e ainda mais 40 dias ou seja 4 meses e mais 40 dias para iniciar as penas previstas por lei.  c) Penas: Só pena de morte e de perdição de bens a nossa câmara e fisco aplicáveis, a qual pena seja incorrida ipso facto e sem processo ou declaração alguma. Nessa pena incorrerão os que acolham, recebam os tais, pois cometerão crime de recepção e fautores de hereges. d) Proteção real: Pessoas e bens estão durante esse tempo sob proteção real de modo que ninguém seja ousado a fazer qualquer dano a pessoas e bens. e) Os bens: Devem ser usados para pagar os  credores e o resto possa ser levado pelos emigrantes. f) O policiamento: O sistema de controle é deixado nas mãos das forças inquisitoriais porque o Santo Ofício da Inquisição seja a autoridade que disponha de dita expulsão, embora sejam as autoridades civis, duques, marqueses, condes, viscondes, nobres barões, oficiais,súditos e naturais, segundo o poder de cada um lhe corresponda. Que a Inquisição seja a polícia tem dois motivos: 1o) que o assunto é de heresia e 2o a Inquisição tinha oficiais já operando como verdadeira polícia religiosa. Comentário: Cremos que podemos afirmar que não houve motivos pecuniários de riqueza real para a expulsão. Foram motivos religiosos e motivos de ordem social, como a extrema usura, mas não em benefício dos monarcas, pois os bens eram vendidos e resultavam em lucro dos vendedores. O motivo religioso da expulsão era de heresia e por isso a Inquisição [tribunal e polícia instaurada em 1478] foi escolhida para cumprir o decreto. Sirvam estas notas para descobrir a verdade: Os judeus foram perseguidos por todas as religiões e em todos os tempos. A intensidade da perseguição foi devida às diversas culturas e ao sentimento de proteção contra uma forma de vida que se descartava como única e inimiga da que prevalecia socialmente na região. A expulsão espanhola não foi a mais cruel nem a mais violenta entre elas.

CONCLUSÕES: Parece que todos se uniram para a destruição e o extermínio do povo judeu, como se este fosse um inocente perseguido. Mas a coisa não é assim tão clara. Lembremo-nos do caso de Fineias (Nm 25), do herém no AT que é traduzido por anátema, e dedicado a Deus devia receber a morte, como vemos em Nm 18, 14 e que na realidade se deu na conquista de Jericó (Jz 6) e Hai (Jz 8) e outras cidades em que só o gado foi poupado. Temos o exemplo de Esdras mais recente em que as mulheres estrangeiras e filhos das mesmas foram expulsos de Israel como vemos no capítulo 10 do livro do mesmo nome. E no século I aC Aristóbulo I (104-103) obrigou os habitantes da Galileia  a se judaizar à força. Mas foi Alexandre Janeu (103-76) o mais cruel dos Asmoneus quem matou 6 mil fariseus porque o receberam com limões quando se preparava para oferecer um sacrifício como sumo sacerdote. Logo em seis anos de guerra civil e repressão, houve  50 mil vítimas, mandando crucificar 800 judeus em Jerusalém fazendo esfoliar vivas mulheres e crianças à vista dos crucificados, de modo que 8 mil judeus fugiram ao  deserto.  Como afirma Serafim Fanjul força é admitir que só na quantidade [por dispor de melhores meios de destruição e de coerção] diferem os abusos ou crimes perpetuados por uma ou outras sociedades.   Todos nós – como afirma o poeta – pusemos nelas [as vítimas] as nossas mãos!

PISTAS:

1) Temos uma página muito esclarecedora da missão de Jesus. Sem dar lugar às perguntas dos gregos, ou pagãos, Jesus oferece um resumo do que é sua atuação e doutrina na terra. Estamos perto da paixão de Jesus e, portanto, este fala de sua hora, comparando sua vida com a de um grão de trigo. Necessariamente ele deve dar a vida para produzir fruto. Esta mesma sorte é a dos que são os diáconos de Jesus, seus servidores.

2) Os seguidores de Jesus têm um denominador comun: são diáconos (26), ou melhor, os servidores de Jesus são seus seguidores que têm como finalidade a mesma sorte de Jesus: a entrega de suas vidas ao serviço do Reino, que os obriga a dar sua vida como grãos de trigo que morrem para frutificar. O papa atual disse aos cardiais recém-nomeados que seu ofício é o serviço à Igreja.

3) O destino do grão de trigo é a sina comum de todos os que querem frutificar: é necessário gastar a vida para produzir o fruto que se espera. É norma universal que o exemplo do grão seja a realidade de toda vida de um verdadeiro discípulo de Jesus.

4) A paixão de Jesus não foi nada fácil de modo a perturbar o ânimo de Jesus ao imaginar os sofrimentos que formavam parte da entrega de sua vida. Nós avaliamos um objeto ou uma ação pelo custo de mão de obra. O custo do sacrifício de Jesus foi o máximo, não unicamente por ser o custo de uma vida, mas pelo modo como ela foi entregue: no maior tormento e máxima humilhação como era a cruz.

5) A vida e a morte de Jesus são a glorificação do Pai. Por isso, a resposta do Pai é de que Ele já glorificou o Filho e sempre o glorificará. Efetivamente as obras de Jesus são um magnífico expoente do amor e poder divinos. A multidão não entendeu a voz e se fixou unicamente nas circunstâncias, sem entender o significado. Isso acontece com as nossas interpretações do evangelho. Quanta literatura para intentar demostrar que não devem ser tomadas literalmente as palavras e diluir a mensagem a termos humanos!

6) A condenação de Satanás parece parcial, visto os resultados atuais. Nos círculos de poder o inimigo ainda tem muito a dizer. Podemos dizer que o triunfo é total em determinados seguidores de Jesus, mas parcial em outros e sem efetividade nos inimigos que aceitam como senhor o poder ou as riquezas.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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