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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 26/04/2015 - 4º Domingo de Páscoa
. Evangelho de 19/04/2015 - 3º Domingo de Páscoa


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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26.04.2015
4º Domingo de Páscoa — ANO B
( BRANCO, GLÓRIA, CREIO – IV SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "O Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas" __

Dia Mundial de Oração pelas Vocações

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2015
Tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”
Lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,5)

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: O quarto domingo da Páscoa é conhecido como o domingo do Bom Pastor. Proteger a vida é a principal atividade do Bom Pastor. Tanto protege que dá a vida e conhece as ovelhas. Proteger a vida é um gesto amoroso de Deus em favor seja da vida em geral, como da vida de cada um, em particular. Jesus se apresenta como o Bom Pastor. Ele é a referência suprema. A intenção principal da nossa celebração atual é pelas vocações sacerdotais e religiosas, pois, como é sabido, hoje celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Juntos, queremos interceder ao Pai, por Cristo, o Bom Pastor, que desperte entre nós e no mundo inteiro, vocações sacerdotais e religiosas.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: No domingo do Bom Pastor, somos convocados a rezar por todas as vocações que constituem o chamado para a atuação concreta dos discípulos-missionários. Somos uma Igreja peregrina e, por meio dos ministérios e dos serviços comunitários, colocamos em prática nossa vocação missionária.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: O Bom Pastor nos reúne, fazendo de nós um só rebanho, uma só família. Numa relação de amor, ouvimos sua voz e damos graças sobre o pão e o vinho, sinais sacramentais da sua vida que nos é dada. Esta participação na eucaristia nos leva, como bons pastores, a doar livremente, com ele, nossa vida a serviço dos irmãos. Também hoje celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Na Mensagem para este dia, o Papa Bento XVI nos lembra que "as vocações são dons do amor de Deus" e ainda faz um apelo "aos jovens e às jovens que, de coração dócil, se coloquem à escuta da voz de Deus, prontos a acolhê-la com uma adesão generosa e fiel". Assim, queremos rezar pedindo pelas Vocações.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Atos 4,8-12): - "Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos."

SALMO RESPONSORIAL 117(118): - "A pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se agora a pedra angular."

SEGUNDA LEITURA (1 João 3,1-2): - "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus."

EVANGELHO (João 10,11-18): - "Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas."



Homilia do Diácono José da Cruz – 4º Domingo de PáscoaANO B

"Dou a Vida pelas Ovelhas..."

Confesso que ás vezes como católico, sinto uma “pontinha” de ciúmes dos dirigentes das Igrejas Históricas, que são denominados de “Pastores”, que a meu ver é um título mais profundo e sublime do que “Padre”, que por sua vez significa “Pai”.Entretanto, ambos estão corretos e de acordo com o evangelho, pois a palavra “Padre”, embora signifique “Pai” é compreendida no sentido de ser aquele que cuida, toma conta, zela, dirige, mantém, e não aquele que “gera”, embora ainda haja o argumento de que, no batismo a igreja filhos e filhas de Deus, entretanto, o Batismo é realizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, portanto, a palavra pastorear é uma ação mais humana e esta é, a meu ver, uma das mais belas alegorias aplicadas a Jesus, pelo evangelista.

No antigo Testamento, a maioria dos pastores não eram donos do rebanho, mas trabalhavam para alguém que era o verdadeiro proprietário. Em Ezequiel 34, Deus censura os maus pastores e garante que ele mesmo irá cuidar do seu rebanho “Eu mesmo apascentarei o meu rebanho, eu mesmo lhe darei repouso, buscarei a ovelha que estiver perdida, curarei a ferida, reconduzirei a que estiver desgarrada”

Em Jesus Cristo essa profecia se cumpre, e quando ele se apresenta como o Bom Pastor, está dizendo a todos aqueles a quem confiou as ovelhas : “Vejam, é assim que eu quero que tratem as minhas ovelhas”. Portanto, nenhum dirigente de uma Igreja Cristã, poderá ter dúvidas sobre como tratar as ovelhas, a consciência de que elas não são suas, não fazem parte de sua propriedade, deve estar sempre presente na missão de um verdadeiro pastor. As ovelhas pertencem a Deus, devem ser conduzidas até sua casa, e cabe ao pastor apenas mostrar o caminho.

Há neste evangelho um versículo que ensina de modo muito claro como age o verdadeiro pastor, e aqui a reflexão se torna mais ampla, porque o recado não é direcionado apenas aos dirigentes, mas a qualquer cristão que tenha na comunidade alguma responsabilidade pastoral. Na nossa compreensão do dia a dia, alguém que é BOM, é aquela pessoa quietinha, que não tem boca pra nada, que não reclama, não critica, só faz o bem, é muito boazinha. Mas o conceito de BOM, nesse evangelho, sendo aplicado a Pastor, quer antes de tudo nos mostrar que Jesus, enquanto modelo perfeito de homem, no seu jeito de amar, vai além dos limites.

Podemos entender melhor esse pensamento na comparação entre o Pastor e o mercenário, que também é um pastor, porém, profissional contratado, uma espécie de “Tarefeiro”, que pastoreia o rebanho apenas pelo salário, tendo certas obrigações e deveres constantes do contrato, por exemplo, diante de algum perigo que rondasse as ovelhas, ele teria que defendê-las, porém, desde que a sua vida não estivesse sendo colocada em risco: diante de um Leão faminto e feroz, ele podia abandonar o rebanho á sua própria sorte, pois não tinha como enfrentar um leão, ou seja, na defesa da vida das ovelhas há um limite. Então não vamos fazer mau juízo do mercenário.

Entretanto, é bom fazer uma pergunta fundamental: quem é que irá contratar um profissional, que trabalhe apenas pelo salário, que apenas faça aquilo que é necessário, ou que apenas cumpra o contrato? Se fosse em um time profissional, seria aquele jogador que só entrou para ganhar o “bicho”, nunca vai “suar” a camisa, aliás, nem a camisa do time ele vai vestir. É aquele agente de pastoral, ou participante de um movimento, que sempre diz de peito estufado “A minha parte eu sempre faço!”. Esse é o mercenário, que sempre faz o que tem que fazer, e que é sua obrigação.

Jesus Cristo, o único e verdadeiro Pastor, apresenta-se como BOM nesse sentido, de que as ovelhas, cada uma delas em particular, são o alvo de sua atenção, de modo que o seu interesse está voltado totalmente para elas, a vida do rebanho todo e de cada ovelha, é mais preciosa do que a sua própria Vida, e se vier uma matilhas de Lobos ferozes, ou um bando de leões famintos, ele nunca “dá no pé”, mas fica e enfrenta, ainda que esse ato, marcado de um amor extremoso e infinito, represente a perda da sua vida.

Há uma tentação muito grande, de nesse Domingo do Bom Pastor, olharmos para os nossos dirigentes e pastores, ministros ordenados e servos de Deus, colocados pela Instituição à frente da comunidade, paróquia ou Diocese, criticar duramente sua conduta e condená-los ao inferno ainda em vida, mas pensemos um pouco naquelas ovelhas, numerosas ou não, ou quem sabe apenas uma ovelha, que Deus colocou sob os nossos cuidados, na vida comunitária ou familiar, se a nossa relação com elas, não se modelar em Jesus, o Bom Pastor, nosso pecado será tão grave como o das lideranças, e também iremos um dia prestar conta dessas ovelhas diante do único e verdadeiro DONO do rebanho. (Domingo do Bom Pastor – João 10, 11-18)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 4º Domingo de PáscoaANO B

“Um só rebanho e um só pastor”

Há pouco celebrávamos o aniversário natalício do nosso amadíssimo Papa Bento XVI: 85 anos! Alegrávamo-nos também por causa de outro aniversário do nosso queridíssimo Bento XVI: sete anos de Papa! Hoje, no Evangelho, Jesus fala de si mesmo, que é o bom pastor. Dá vontade de agradecê-lo por que não nos deixa sozinhos um só instante. Contudo, essa presença invisível do Bom Pastor na sua Igreja torna-se visível pelo seu vigário: o Papa. Ele é verdadeiramente o vigário de Jesus Cristo, isto é, faz-lhe as vezes. É o sucessor de Pedro! É Pedro dos nossos dias!

Jesus Cristo fundou um rebanho e colocou Pedro à frente desse rebanho para que, junto com os demais apóstolos, o pastoreasse. Pedro e os demais apóstolos morreram, mas a obra de Jesus, que é a Igreja, deveria continuar. Lógico é que o Senhor fizesse perpetuar o serviço do pastoreio de sua Esposa, a Igreja. Os mesmos apóstolos colocaram pessoas à frente das diversas comunidades para pastoreá-las. Tratava-se, afinal, da obra de Jesus que já não podia mais parar!

Recordemos uma das verdades que professamos frequentemente: a Igreja de Cristo é una: por sua Fonte, a Trindade Beatíssima, um só Deus em três Pessoas; por seu Fundador, Jesus Cristo; por sua Alma, o Espírito Santo (cf. Cat. 813). Alguém poderia perguntar: se a Igreja é una com uma indivisibilidade tão fundada, como explicar a diversidade que há nela? A resposta pode dar-se na mesma linha do que antes foi dito: Deus é um, mas também é trino; a Igreja é una, mas também guarda em si a diversidade. Esta variedade de povos, culturas, espiritualidade, ritos, não impedem a unidade da Igreja. Ela desprende todo o vigor de sua unidade em meio de tão rica variedade.

Em concreto, para verificar o grau de unidade que alguém tem com a Igreja de Cristo é importante fixar-se nos vínculos de unidade. Logicamente, o vínculo dito “invisível” não é verificável, pois se trata da graça de Deus, que faz com que haja “a caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14). Além do vínculo invisível, existem os vínculos visíveis, que sim são verificáveis: a profissão de uma única fé recebida dos apóstolos, a celebração dos Sacramentos, a sucessão apostólica (através do Sacramento da Ordem, que mantém a concórdia na Família de Deus que é a Igreja). Classicamente, isso tem sido expressado assim: comunhão na Fé, nos Sacramentos e no Regime (cf. Cat. 815).

Em sentido estrito, para que alguém esteja em plena comunhão com a Igreja são necessários todos os vínculos, sem excluir a graça de Deus. Não será difícil concluir que nós, os que estamos em plena comunhão com a Igreja Católica mediante os vínculos externos ou visíveis, podemos não estar em plena comunhão se consideramos o estado de graça. É doutrina católica que não é possível saber com certeza de fé se estamos ou não na graça de Deus. Consequência: nunca presumir! É verdade que sempre podemos, supostos os meios sobrenaturais adequados, confiar que estamos em graça; no entanto, sempre com o santo temor de Deus e a consciência de que quem nos salva é o Senhor. É paradoxal, mas verdadeiro: somos a comunidade dos salvados em busca da salvação!

Talvez alguém se assustaria com a afirmação tão clara que os filhos da Igreja ousam dizer nos tempos atuais: a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. Contudo, isso é verdade: a Igreja que Jesus Cristo quis e fundou é a Igreja Católica, a única Igreja de Cristo, entregue a Pedro e aos demais Apóstolos. “Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na (“subsistit in”) Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (LG 8).

O que fazer então com o ecumenismo? Será o que antes se afirmou não desmorona essa tentativa de unidade? Não. O ecumenismo não pode ser confundido com o “falso irenismo”, com meias verdades, com maneiras suaves fundadas na ignorância. Com o movimento ecumênico, a Igreja tem procurado fazer realidade o desejo de Cristo de que todos sejam um (Cf. Jo 17,21), e fá-lo na verdade e na caridade. Apesar de ser um trabalho difícil, o ecumenismo precisa ir adiante. O primeiro gesto ecumênico a ser feito, porém, é o da oração; precisamos rezar muitas vezes a oração que Cristo rezou: “que todos sejam um”. No Concilio Vaticano II, “por «movimento ecuménico» entendem-se as atividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e ações que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo» estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime. Enfim, todos examinam a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, levam vigorosamente por diante o trabalho de renovação e de reforma” (UR 4).

Uma observação que vale a pena fazer: a conversão das pessoas à uma determinada Igreja ou Comunidade Eclesial não vai em contra do ecumenismo. Caso um irmão de uma confissão evangélica queira alcançar a plena comunhão com a Igreja Católica será sempre bem recebido e nós, os católicos, devemos alegrar-nos imensamente de que essa pessoa alcance a plenitude dos meios para a sua salvação.

Para que fique mais claro: uma pessoa chega a pertencer a Igreja de Cristo pelo batismo. Qualquer batizado pertence à Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica. Isso quer dizer, a efeitos práticos, que um cristão de uma comunidade eclesial evangélica pertence à Igreja de Cristo, mas não pertence a ela totalmente; de fato, quanto esse cristão vem à Igreja Católica fala-se que ele alcançou a plena comunhão com a Igreja. Com outras palavras, antes de ser católico ele pertencia à Igreja de Cristo, mas só parcialmente; depois de vir à Igreja Católica ele alcançou a comunhão plena com essa Igreja.

Devemos pedir ao Senhor insistentemente: que todos sejam um! Assim haverá, inclusive numericamente, um só rebanho e um pastor!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Espiritualidade | Meditações

Meditações sobre a Ressurreição

1. O VAZIO DO CORAÇÃO SEM DEUS

Lágrimas ao amanhecer

Quando o Domingo de Páscoa começava a clarear,  um grande silêncio envolvia o descampado onde se encontrava o túmulo de Jesus. Só duas coisas poderiam chamar ali a atenção de um passante solitário: uma grande pedra circular – que servira para fechar verticalmente a entrada do sepulcro – fora rolada e estava posta a um lado; e perto da entrada escancarada, uma mulher, em pé, soluçava baixinho, com um leve estremecer de ombros, de modo que os primeiros raios de sol faziam cintilar as lágrimas que lhe escorriam pelas faces. Era Maria Madalena.

Entretanto – lemos no Evangelho de São João –, Maria conservava-se do lado de fora, perto do sepulcro, e chorava (Jo 20,11). Era a segunda vez, naquele amanhecer de domingo, que Maria ia até ao sepulcro de Jesus, incansável no seu empenho por  prestar uma última homenagem a nosso Senhor, depois da sua paixão e morte.  Ajudada por outras santas mulheres, queria ungir-lhe o corpo – que na sexta-feira santa só tinham podido ungir às pressas e de modo incompleto – com os aromas que haviam preparado.

Foi assim que Maria Madalena chegou ao túmulo juntamente com Maria, mãe de Tiago e Salomé, suas amigas. Estas últimas – conta São Marcos – fugiramtrêmulas e amedrontadas (Mc 16,8), ao verem que o sepulcro estava vazio. Maria, porém, foi correndo à procura de Pedro e João, para lhes dizer, quase sem fôlego: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram(Jo 20,2).

Há espanto geral. Recuperados do primeiro susto, os dois Apóstolos saem em disparada e ela vai atrás. Quando chegam ao túmulo, entram, e ficam perplexos ao ver que, além de estar vazio, os panos com que tinham amortalhado o cadáver de Jesus permaneciam intactos, com o mesmo formato que tinham quando envolviam o corpo de Cristo, só que agora aplanados, como se o corpo do Senhor os tivesse atravessado, esvaziando-os sem nem mesmo tocá-los; e o sudário que lhe cobrira a cabeça estava cuidadosamente enrolado, também intacto, a um lado.  Pedro e João, emocionados e perplexos, sentiram as pernas tremer e o coração rebentar, e voltaram correndo ao Cenáculo para avisar os outros. Maria, porém, não arredou pé de lá. Não queria ir-se embora. Queria encontrar Jesus, queria honrá-lo com carinho, mesmo que fosse apenas um pobre cadáver dilacerado. Por isso estacou ali, imóvel, chorando.

As suas lágrimas silenciosas eram a expressão do seu amor. São Gregório Magno, o grande Papa do século sexto, tem um comentário muito bonito a este respeito: “E nós temos que pensar – diz ele – na força tão grande do amor que inflamava a alma daquela mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo quando os apóstolos dele já voltavam. Buscava a quem não encontrava; chorava procurando-o e, consumindo-se no fogo do seu amor, ardia no desejo de encontrar aquele que imaginava roubado. E assim aconteceu que só ela o viu, a única que ficou procurando… Começou a buscar, e não o encontrou; perseverou no seu querer, e achou-o; de tal forma cresceram os seus desejos, e tanto se dilataram, que acabaram alcançando o que buscavam”.

Quando meditamos em tudo o que nos conta dessa mulher o santo Evangelho, percebemos que a vida de Maria Madalena poderia ser definida assim: o Amor com maiúscula, ou seja, o Amor de Deus, procurou-a e salvou-a; ela correspondeu a esse Amor e não se cansou, por sua vez, de procurá-lo, de modo que toda a sua vida foi uma busca ardente e um  aprofundamento nesse divino Amor, como o foi a vida de muitos grandes santos… Mas tem havido tantas confusões, tantas mentiras e interpretações esquisitas sobre o amor de Maria Madalena, que vale a pena lembrar a sua verdadeira história.

Quem era a mulher de Magdala?

Na realidade, trata-se de uma confusão que – na maior boa fé, aliás – dura há séculos. Para começar, é muito importante lembrar quem não era Maria Madalena. Os melhores comentaristas do Evangelho, já desde os tempos de Santo Agostinho, alertam-nos para que não a confundamos com outras duas mulheres do Evangelho. Uma é aquela pecadora pública que certa vez banhou os pés de Jesus com lágrimas de arrependimento e os ungiu com bálsamo (cf. Lc 7,37 ss.); e a outra é Maria de Betânia, a irmã menor – pura e singela – de Marta e Lázaro, que também derramou perfume sobre a cabeça e os pés de Jesus pouco antes da Paixão, num gesto de fina cortesia, muito oriental (Jo 12,3).

Além desse esclarecimento, é interessante frisar que o Evangelho nunca disse que Maria Madalena fosse uma prostituta ou que tivesse uma vida leviana. Aliás, afirma de fato algo muito pior. Diz que, dela, Jesus tinha expulsado sete demônios (Lc 8,2). Isto é muito sério. Bem sabemos que o número sete – na linguagem bíblica – significa muitos, uma multidão. Pois é isso que dela nos diz São Lucas.

É, sem dúvida, algo terrível. Só o podemos compreender se tivermos consciência de que o demônio – como ensina a Bíblia – é, acima de tudo, o pai da mentira, do orgulho e do ódio. Como deve ter sido espantosa a vida dessa pobre mulher! Um poço de ódio, de raiva, de desconfiança, de mentira, de rancor… Pode haver sofrimento maior? Um verdadeiro inferno! Uma mulher incapaz de amar, incapaz de alegrar-se, incapaz de vibrar com a  verdade, de admirar a beleza e de saborear o bem; incapaz de perdoar, incapaz de sorrir com carinho para os outros…! Porque um coração afastado de Deus e entregue ao diabo – ao pecado – é como um poço escuro e fundo. Lá não pode penetrar um raio de luz divina. A pessoa chega a tornar-se incapaz de acreditar que o amor, a beleza e a bondade existam. Só conhece as trevas em que se afunda…

A tristeza no fundo do coração

Esse “poço escuro”, essas “trevas”, são o retrato da tristeza que há hoje em dia no fundo de muitos corações. Corações eternamente insatisfeitos, pessoas que podem cantar, gritar, possuir, experimentar, dançar, agitar-se, embriagar-se de álcool, sexo, drogas e emoções radicais, mas que por dentro estão sombriamente vazias. Vivem instaladas no “coração das trevas”. E, mesmo sem o saberem, procuram, procuram. Percebem que lhes falta o essencial, algo que passaram a vida buscando  sem encontrar. Sentem-se como alguém que se esfalfou tentando apanhar a água da fonte com um recipiente furado. Atormenta-as, então, uma ânsia de infinito que as queima por dentro, mas que nenhum tesouro do mundo e nenhuma loucura do mundo e nenhum prazer do mundo conseguem satisfazer…  Pode-se dizer que estão torturadas por uma esperança distorcida, por um infinito desejo de felicidade, que corre expectante atrás do vazio. É lógico que essa esperança distorcida termine no desespero. O fundo do fundo da vida delas é a ausência…, é o vazio…, e morrem sem saber por quê nunca foram felizes.

E, no entanto, o porquê é claro: elas sofrem da ausência de Deus! Essas pessoas – como Madalena antes de encontrar Jesus – não sabem que o seu mísero coração está gritando aquelas palavras de um poema de Tagore: “Tenho necessidade de Ti, só de Ti! Deixa que o meu coração o repita sem cansar-se. Os outros desejos que dia e noite me envolvem, no fundo, são falsos e vazios. Assim como a noite esconde em sua escuridão a súplica da luz, na escuridão da minha inconsciência ressoa este grito: «Tenho necessidade de Ti, só de Ti!». Assim como a tempestade está procurando a paz, mesmo quando golpeia a paz com toda a sua força, assim a minha revolta bate contra o teu amor e grita: «Tenho necessidade só de Ti!»”

O encontro que tudo mudou

Assim estava Maria Madalena, quando um belo dia – de surpresa – Jesus foi buscá-la. Não conhecemos os detalhes. Só sabemos que Jesus teve compaixão dela, e dela expulsou sete demônios, como recordávamos acima. Dá para imaginar o que deve ter sentido aquela alma, ao encontrar-se livre do Maligno e inundada pelo dom da graça, conduzida por Jesus à descoberta deslumbrante de Deus? Que deve ter sentido quando experimentou – quiçá pela primeira vez na vida – a pureza e a grandeza do Amor, pois, como diz São João,  Deus é Amor (1 Jo 4,8).

Encontrar Deus, na pessoa de Cristo, foi como sair da asfixia do poço e, de repente, “respirar”, absorver Deus até ao fundo da alma, como uma aragem do Céu que a criava de novo. Madalena passou a ser uma mulher que, pela primeira vez na vida, se apercebeu de como é bela a criação, todas as criaturas, transfiguradas pelo olhar e a presença do Salvador. Seu coração transformou-se numa brasa incandescente, inflamada pelo Amor que se derrama do Céu sobre o mundo através do Coração de Jesus.

É natural que, a partir do dia em que o antigo coração das trevas foi inundado pela fé, pela esperança e pelo amor, começasse a seguir Jesus e a servi-lo, com uma dedicação abnegada e total, como conta o Evangelho, juntamente com outras santas mulheres. Seguir Cristo tornou-se, a partir daquele momento, a razão – toda a razão – da sua existência. Servir Jesus passou a ser para ela um puro amor, que cumulava de plenitude e sentido o seu pensar, sonhar e viver.

Por isso, quando a avalanche de brutalidades da Paixão, o ódio implacável dos inimigos, desabou sobre Cristo e o reduziu a um cadáver ensangüentado na Cruz, Maria Madalena – grudada à Mãe do Salvador – agarrou-se à Cruz como quem se agarra à vida. Viver sem Jesus era para ela – como para todos os corações que encontraram Cristo de verdade – a vertigem de um vazio de morte. Essa é a Madalena que vemos chorar junto do sepulcro do Senhor. Essa a razão de que só pense em buscar o meu Senhor (Jo 20,13).

O reencontro da vida

Enquanto estava assim, desolada, o Evangelho nos descreve uma cena deliciosa: Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco… Eles perguntaram-lhe: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13). A Madalena suplicante, toda “procura”, encarnava nesses momentos aquelas palavras do profeta Isaías: A minha alma desejou-Te, meu Deus, durante a noite e, dentro de mim, o meu espírito procurava-Te (Is 26,9). Assim buscava Jesus.

O Evangelho continua, e dá-nos alegria acompanhá-lo: Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: “Mulher, por que choras? Quem procuras?”  (Jo 20,15). Comove ver Jesus ressuscitado, Jesus em pessoa, indo ao encontro daquela pobre criatura, como o pai que desfruta por dentro ao pensar na surpresa maravilhosa que preparou para o filho. E é muito bonito perceber – para quem conhece e medita o Evangelho – que, depois da ressurreição, Jesus se mostra mais humano ainda, se possível, do que quando andava com os seus pelos caminhos da Galiléia e da Judéia. Torna-se mais próximo, afetuoso, acessível. E   aparece com uma nova carga de alegria: “diverte-se”, por assim dizer, alegrando os seus amigos com atitudes cheias de “bom humor”, de um divino e delicioso bom humor.

Para captar isso, basta continuar a acompanhar esse diálogo do Senhor com Madalena. Quem procuras? ­– pergunta-lhe Jesus -, e ela, supondo que fosse o jardineiro, respondeu: “Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o irei buscar”.  Cristo não quer prolongar mais a aflição, e manifesta-se abertamente: Disse-lhe Jesus: “Maria!”  O Evangelho aqui balbucia, só sabe repetir a exclamação que saiu daquela Maria estremecida de gozo, com os olhos arregalados e o coração prestes a explodir: Voltando-se ela, exclamou em hebraico: Rabôni!”, que quer dizer “Mestre!”… Nesse exato momento, Jesus a olha com ternura e a “nomeia” sua primeira mensageira da fé, da alegria da Ressurreição:  Não me retenhas…Vai aos meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena correu (nesse dia, realmente, não parou de correr…) para anunciar aos discípulos que tinha visto o Senhor e contou o que Ele lhe tinha falado (Jo 20,15-18).

A partir desse momento, para Madalena a vida voltava a ser Vida, com maiúscula. O futuro era radiante: o reencontro com Jesus encheu de novo o vazio da alma com a luz cálida e inextinguível da esperança.

A chegarmos a esse ponto, será bom refletir e perguntar-nos: “Será que, pensando nos vazios que com freqüência eu sinto, a lição da Madalena não me diz nada?”  Todo vazio, toda amargura, é uma ausência: a ausência de Deus. Pode ser a terrível ausência provocada pelo pecado, pelos sete demônios, mas pode ser também a ausência de uma alma boa que perde Deus de vista, fica morna na fé, e acha então inexplicáveis muitas tristezas que a atormentam e que têm uma perfeita explicação: são a ausência do “amor” de Deus na alma, são a frieza de quem tem Jesus ao lado (sempre está ao nosso lado, sempre nos procura, como fez com Madalena) e não o enxerga, são a amargura esquizofrênica de quem se queixa de Deus, justamente na hora em que Deus mais a ajuda… Como Madalena, que pensava que Jesus (aquele Jesus que não reconheceu) lhe tinha roubado Jesus… Não acontece algo disto conosco?

Sim, acontece. Diante de muitas dificuldades, lutas ou cruzes que Deus nos envia para o nosso bem, pensamos tolamente que Deus nos abandonou ou se afastou de nós. Que retirou a sua mão e não nos ajuda com a sua graça. E é quando está mais próximo.

Gravemos bem a lição das lágrimas e do júbilo de Maria Madalena. Convençamo-nos, profundamente, de que toda tristeza, toda amargura, toda revolta, no fundo, é uma ausênciade Deus (maligna ou benigna, mas nunca boa). Por isso, decidamo-nos a procurar Deus, a procurar Jesus com toda a nossa alma, como Madalena: com a mesma determinação com que ela o procurou. –”Onde está?” – diremos a nós mesmos – e responderemos com a decisão de aumentar o nosso aprofundamento na fé, a nossa leitura e meditação do Evangelho e das riquezas da doutrina cristã… E, se nos perguntarmos: – “Como achá-lo?”,  deveremos responder:  – “Como Madalena, que busca, pergunta, procura e não pára até encontrá-lo, ou seja, como Jesus nos ensinou: rezando, pedindo, orando sem cessar, pois a sua promessa não falha: Eu vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e vos abrirão.

2. EMAÚS: A DECEPÇÃO E A ESPERANÇA

Dois homens tristes no entardecer

O Evangelho de São Lucas, no seu capítulo 24 (13-35), faz-nos contemplar de perto, de uma maneira muito viva, dois homens que  – na tarde do próprio dia da Ressurreição de Jesus – estão voltando para casa, cabisbaixos e decepcionados: os discípulos de Emaús.

Nesse mesmo dia – diz São Lucas -, dois discípulos caminhavam para uma aldeia, chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios –cerca de doze quilômetros. Iam falando um com o outro sobre tudo o que se tinha passado . Aquilo  que se tinha passado era, nada mais nada menos, a paixão e a morte de Jesus, a “derrota” estrondosa de Cristo às mãos dos seus inimigos, enquanto as multidões, que cinco dias antes, no domingo de Ramos, o haviam aclamado entusiasmadas, vociferavam com ódio: Crucifica-o! Crucifica-o!

Podemos imaginar, por isso,  qual era o seu estado de ânimo. Perdidos, deprimidos, desnorteados, conversavam como quem não acaba de acreditar que tivesse sido possível aquele afundamento dos seus sonhos. Assim andavam quando Jesus aproximou-se e caminhava com eles; mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não o reconheceram.

São Josemaría Escrivá oferece-nos uma descrição cálida da aparição de Jesus ressuscitado a esses discípulos: “Caminhavam aqueles dois discípulos – escreve – em direção a Emaús. Andavam a passo normal, como tantos outros que transitavam por aquelas paragens. E ali, com naturalidade, aparece-lhes Jesus e caminha com eles, numa conversa que diminui a fadiga. Imagino a cena, bem ao cair da tarde. Sopra uma brisa suave. Em redor, campos semeados de trigo já crescido, e as oliveiras velhas, com os ramos prateados à luz tíbia”. São palavras poéticas que nos ajudam a fazer meditação, sentindo-nos dentro da cena, participando dela “como mais um personagem”.[i]

Ouçamos, pois – enquanto os acompanhamos –, as primeiras palavras que o Senhor lhes dirige: De que vínheis falando pelo caminho, e por que estais tristes?.        O diálogo que se travou é digno de ser meditado. Primeiro, como pessoas frustradas, os discípulos respondem  de mau humor, num tom ríspido: Um deles, chamado Cléofas, respondeu-lhe: “És tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu nestes dias?”… É como se dissesse, meio admirado e meio irritado: “Todo o mundo sabe. Onde é que você vive? Só você está por fora?”

Que ironia! Dirigem-se rudemente a Jesus, lançando-lhe em rosto a sua ignorância a respeito da tragédia… do próprio Jesus! Tudo isso chegaria a ser cômico, se não fosse dramático. Mas nosso Senhor, como em todas as cenas da ressurreição, mostra-se especialmente afável e bem-humorado para com eles. Ousaria dizer que é até propositadamente divertido. Fazendo-se de ingênuo, pergunta-lhes “Que foi? Que houve?… Assim quer ajudá-los a abrir o coração, como, aliás, Ele deseja fazer conosco sempre que nos vê desanimados ou tristes: “Eu estou aqui – diz-nos -. Fala comigo”.

E eles abriram-se mesmo. Despejaram o vinagre da sua decepção. Falaram ao caminhante desconhecido sobre um tal Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo, comentando os acontecimentos trágicos da quinta e da sexta-feira santas, e contaram-lhe como tinha acabado pregado na Cruz. Depois, confessaram a sua tremenda frustração: Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel, e agora, além de tudo isso, já é o terceiro dia que estas coisas aconteceram.

Um erro de esperança

Esse era o mal que lhes corroía a alma: Nós esperávamos. Tinham colocado toda a sua esperança no Senhor. Tinham apostado nele. Por isso o haviam seguido, por isso tinham abandonado os seus planos pessoais, o aconchego do lar, tudo, jogando a vida numa só carta: a esperança de que Jesus fosse o poderoso Rei-Messias anunciado pelos Profetas, que triunfaria sobre todos os inimigos e se assentaria no trono do Reino de Israel, restabelecendo-o para sempre. Ninguém lhes tinha contado ainda que, em plena Paixão, Jesus declarara inequivocamente a Pilatos: O meu Reino não é deste mundo…

No entanto, eles, quase com certeza, já lhe tinham  ouvido dizer: O Reino de Deus está dentro de vós…  E também tinham escutado muitas das parábolas do Reino, que falavam, por meio de expressivos simbolismos, não de um reino terreno, político, mas de um Reino de graça, de paz e de amor que cresce dentro dos corações, nas famílias, nas sociedades, como o trigo que germina de noite e de dia; como o grão de mostarda que é pequenino e se torna árvore alta; como o fermento invisível que a mulher põe na massa de farinha e acaba fermentando-a toda… Ou como um Pai que perdoa o filho fugitivo, e um Pastor  que procura a ovelha perdida e que é, ao mesmo tempo, o Rei-Deus que nos convida a participar do seu banquete de amor eterno…

Poderíamos definir com exatidão o engano dos discípulos de Emaús – igual ao de muitos atuais discípulos de Cristo – como um grande “erro de esperança”. Aí esteve a sua falha. Tinham esperança, sim, mas era uma “esperança equivocada”, não era a virtude cristã da esperança. Em conseqüência, estavam irremediavelmente fadados à decepção e ao fracasso, como quem dispara uma flecha para o alvo errado, ou dirige um veículo fora da estrada, que, quanto mais rápido vai, mais perto está do desastre.

Assim são muitas mulheres e muitos homens de hoje. O seu mal é a visão deturpada da esperança: esperam o que não devem, e esperam mal. Os exemplos são inúmeros: falsas esperanças amorosas, falsas esperanças profissionais, falsas esperanças de glória e triunfo, falsa confiança nas riquezas…

Onde está o erro? A resposta é simples. Espera mal quem espera qualquer coisa diferente da Vontade de Deus a seu respeito, qualquer coisa – por grande e empolgante que seja – que esteja fora dos planos que Deus preparou e deseja para ele. Então, acontece a essas pessoas  o que Jesus dizia aos fariseus: Frustraram o desígnio de Deus a seu respeito (Lc 10,30). A vida deles tornou-se um plano divino traído, frustrado, que Deus não pode reconhecer como seu, e tem que lhes dizer: Não vos conheço (Mt 25,12).

É importante perceber que as pessoas não ficam frustradas “principalmente” por não terem alcançado os seus desejos, os seus sonhos. Na realidade, muitas das piores frustrações são as daqueles que alcançaram mesmo esses desejos e sonhos (“Já estou na faculdade, já tenho emprego, já me casei, já sou rico”), mas depois percebem que nada disso os preenche, não lhes traz a felicidade. Homens e mulheres ficam frustrados “principalmente” porque – sem sequer darem por isso – não atingem o ideal para o qual foram criadas por Deus, ou seja, por não terem sido fiéis à sua vocação de filhos de Deus, e por isso – desculpem a expressão rude – a vida delas, em vez de alcançar o desenvolvimento e maturidade de um filho que cresce, foi como um aborto. Fora do que Deus espera de nós, tudo é um triste aborto provocado… por nós!

Pensemos, por exemplo, nos casamentos fracassados. A maioria deles afundou-se porque marido e mulher “esperaram mal”. O que é que espera a maioria dos noivos, quando vão para o casamento? Sem dúvida, amar e ser felizes. Mas amar, como? Serem felizes, como? Muitos só pensam em  “receber” do outro muito carinho, paciência, compreensão, todo o aconchego para se “sentirem bem” realizando os seus próprios gostos e caprichos, os seus prazeres, e até as suas manias. Poucos pensam em dar e dar-se generosamente para o bem do outro e dos filhos, em construir uma família com abnegação generosa e desprendimento alegre, felizes por fazerem felizes os demais. Ou seja, não pensam no verdadeiro amor, no autêntico amor-doação, no único que pode trazer a felicidade.

Por isso, quando chega a hora da verdade e aparecem as dificuldades inevitáveis – essas com as quais Deus conta para nos purificar e amadurecer –, não compreendem que essas dificuldades são apelos para se darem  mais, para amarem mais, para dialogarem mais, e não para irritações, más caras, resmungos e gritos; que é a hora da compreensão, e não a da imposição; que é a hora de escutar com humildade, e não de “ter razão”…. Infelizmente, não entendem nada disso. E, então, tudo vai por água abaixo. Não foram ao casamento preparados para o verdadeiro amor, mas para “consumir” satisfações (como “consomem” os outros prazeres da vida). É natural que acabem dizendo,  como os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos outra coisa”…

É preciso abrir os olhos da alma, com a ajuda de Deus, e compreender que a vida não é uma laranja para chupar e cuspir, que os outros não são cana de açúcar para tirar o caldo e jogar fora o bagaço, que Deus não é um “seguro protetor de egoísmos”, e que os outros não são “bens desfrutáveis”. Viver e ser feliz é coisa infinitamente maior do que “usufruir”!

A virtude da esperança

Qual é, então, a verdadeira esperança cristã? É a confiança firme, nascida da fé viva que nos diz que viveremos envoltos no amor de Deus aqui na terra – em todas as circunstâncias e vicissitudes de cada dia – e, depois, eternamente no Céu. Tudo o que conduz a isso é bom. Tudo o que afasta disso é mau. Tudo o que conduz a isso acaba em felicidade – já aqui na terra -, e tudo o que afasta disso acaba em tristeza, e até – Deus não o permita – pode acabar em tormento eterno.

É muito claro o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre a esperança: “A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças próprias, mas no socorro da graça do Espírito Santo… A virtude da esperança responde à aspiração de felicidade colocada por Deus no coração de todos os homens; assume as esperanças que inspiram as atividades dos homens; purifica-as para ordená-las ao Reino dos Céus; protege contra o desânimo; dá alento em todo o esmorecimento; dilata o coração na expectativa da bem-aventurança eterna. O impulso da esperança preserva do egoísmo e conduz à felicidade do amor” (nn. 1817 e 1818). São textos preciosos, que daria para meditar durante horas.

A grande lição dos discípulos de Emaús

Voltando para a cena dos discípulos de Emaús, vale a pena prestar atenção ao que Cristo lhes disse, quando terminaram o seu desabafo de desiludidos. Nosso Senhor começou a falar-lhes de modo claro, incisivo, sem rebuços, com palavras que tiveram o efeito de lancetar-lhes o tumor de ceticismo que lhes corroía o coração: Ó gente insensata e lenta de coração para acreditar em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que o Cristo sofresse estas coisas e assim entrasse na sua glória?” E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras”, ou seja, as inúmeras profecias que falavam da sua Paixão. Jesus desvendou-lhes, assim, com um jato de luz divina, o plano da Trindade para a salvação do mundo, uma salvação que havia de ser realizada pelo máximo ato de Amor imaginável: a entrega do Filho de Deus na Cruz para a redenção dos nossos pecados.

Foi na Cruz, com efeito, onde o Filho de Deus – Deus feito Homem, encarnado por nós – atingiu o limite máximo do Amor, e com esse amor ilimitado, envolveu, compensou, purificou e superou todos os nossos desamores, todos os nossos pecados. Como fruto deste seu sacrifício, derramou sobre nós a graça do Espírito Santo – o fogo do Amor divino em pessoa –, e abriu-nos de par em par  as portas do Céu.

Quer dizer que o que Cléofas e o companheiro lamentavam como uma desgraça (a paixão e morte de Cristo), foi, na realidade,  a maior maravilha de toda a história da humanidade, o maior bem do mundo, o maior motivo de alegria de todos os séculos! Insensatos! – disse-lhes Jesus. Sim, insensatos os que não vêem isso e vão atrás de sombras e aparências falsas!

Enquanto Jesus ia falando pelo caminho, os corações dos dois caminhantes foram mudando. Um calor novo os invadiu, uma faísca de esperança se acendeu neles.  Aproximaram-se da aldeia para onde iam, e Jesus fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-no a parar: “Fica conosco, já é tarde e o dia declina”..

É uma bela oração para nós fazermos, quando começarmos a sentir a proximidade de Jesus: “Fica conosco!  Não nos deixes, queremos estar contigo, queremos ter-te como amigo, queremos abrir-te a alma. Fica!”  E, além do mais, bem que percebemos que já se nos faz tarde, que a vida passa, que a vida acaba, sim, já é tarde e o dia declina. Olha, Senhor,quegastamos boa parte deste “dia”, que é a vida, entre falsas esperanças e verdadeiras frustrações. Precisamos de Ti. Por favor, fica, que só em Ti se acha a esperança…

Com Cristo, o coração arde

Então – continua a contar São Lucas –, entrou com eles, e aconteceu que, estando sentados à mesa, ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lho. Então se lhes abriram os olhos e o reconheceram…, mas ele desapareceu. Diziam então um ao outro: “Não é verdade que o nosso coração ardia dentro de nós enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”

Tudo, nessa belíssima cena dos discípulos de Emaús, é espelho e modelo para nós. Bem dizia São Josemaría Escrivá: “Caminho de Emaús, caminho da vida”… Quando nos entristecer a falta de sentido de tantas coisas, e sobretudo, quando nos acabrunharem as decepções que parecem amontoar-se e afogar a esperança, façamos como os discípulos de Emaús:

Primeiro, abramos a alma a Deus (às vezes, a melhor maneira de abri-la é fazer uma confissão muito sincera).

Depois, escutemos as suas palavras, meditemos a Sagrada Escritura – especialmente os Evangelhos – com calma, com carinho, deixando que as Palavras de Deus penetrem na alma como a chuva na terra. Elas nos mostrarão que o que nos parece ruim muitas vezes é bom, que a Cruz – que julgamos ser uma porta que se nos fecha e nos deixa num beco sem saída – na realidade é uma porta que se abre, para que entremos num mundo melhor, de mais amor, de mais bondade, de mais pureza, de mais virtude.

Em terceiro lugar, acolhamos Jesus em casa, na casa da nossa alma, recebendo-o sempre dignamente na Eucaristia, na Comunhão, que é a união com Deus mais íntima que a criatura humana pode ter nesta terra: Jesus em nós, Jesus alimento nosso, Jesus sangue do nosso sangue e vida da nossa vida!

E por fim, a alegria. O coração desanimado, que estiolava e murchava, agora arde dentro de nós, e inflama-nos com uma nova esperança. Vemos um novo sentido para a vida, iluminada pela fé e o amor de Cristo, e temos necessidade de correr ao encontro dos outros, para contagiá-los com a nossa esperança, como fizeram os discípulos de Emaús depois que Jesus os deixou.

Lição de fé, lição de amor, lição de esperança. Vêm a calhar palavras com

que São Josemaria começava uma homilia sobre a esperança: “Há já bastantes anos, com a força de uma convicção que crescia de dia para dia, escrevi: Espera tudo de Jesus; tu nada tens, nada vales, nada podes. Ele agirá, se nele te abandonares. Passou o tempo, e essa minha convicção tornou-se ainda mais vigorosa, mais funda. Tenho visto, em muitas vidas, que a esperança em Deus acende maravilhosas fogueiras de amor, com um fogo que mantém palpitante o coração, sem desânimos, sem decaimentos, embora ao longo do caminho se sofra, e às vezes se sofra deveras”[ii].

Isto foi o que aconteceu com os discípulos de Emaús. Com o coração inflamado pela esperança, desfizeram o caminho dos desertores, voltaram a reunir-se com os Apóstolos e as santas mulheres no Cenáculo e participaram da alegria que – no meio ainda de sombras e hesitações – começava a alastrar-se entre eles e que anunciava, mesmo que muitos ainda não o percebessem plenamente e estivessem ainda atingidos pelo temor, um futuro de esperança pelos séculos dos séculos, até ao fim do mundo: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente!…”  Esta é a grande verdade! A esperança cristã acabava de nascer com a ressurreição de Cristo, e já não morreria nunca mais.

3. MEDO E ESPERANÇA

O medo dos Apóstolos, depois da Paixão

Os Evangelhos de São Lucas e São João mostram ao vivo, com detalhes cheios de sugestão, o estado de ânimo dos Apóstolos, ao anoitecer do dia da Páscoa, quando eram cada vez mais intensos – e confusos – os rumores dos que diziam que tinham visto Jesus vivo (Cf. Lc 24,36-49 e Jo 20,19-23).

Jesus ressuscitado acabava de estar com os discípulos de Emaús. Estes, quando Jesus os deixou, voltaram correndo, afogueados,  a Jerusalém – ao Cenáculo –  para contar a todos a grande notícia: como o tinham encontrado no caminho e como o haviam reconhecido ao partir o pão (Cf. Lc 24,35).

Os Apóstolos (todos, menos Judas, já morto, e Tomé, que andava ausente), e mais alguns discípulos – mulheres e homens -, acolheram-nos agitados, alegres e, paradoxalmente, ainda perplexos. Já eram vários os que falavam de que Cristo vivia – Ressuscitou, diziam, e apareceu a Simão! -; já se lhes ia acendendo no coração, como uma chama vacilante, a esperança, mas o sentimento dominante da maioria ainda era o medo. E é sobre este medo que agora vamos meditar. Pode dar-nos luzes boas, a nós que também conhecemos esta chama vacilante  que oscila entre o medo e a esperança.

O que nos conta o Evangelho? São João, falando desse fim de tarde do Domingo da Páscoa, começa por dizer que, ao anoitecer do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus (Jo 20,19). Esta é a primeira coisa que comenta, para nos situar no ambiente: estavam trancados no Cenáculo, naquele quarto de cima (Cf. Lc 22,12) onde Jesus instituíra a Eucaristia, porque tinham medo: temiam, e com razão, que os mesmos que tinham acabado com Jesus quisessem acabar com eles, seus discípulos. Quem não teria medo de sofrer a mesma sorte do Mestre, odiado, perseguido e crucificado?

A verdade é que todos nós, nas mesmas circunstâncias,  sentiríamos a mesma coisa. Mas, por mais que compreendamos e desculpemos os discípulos, não devemos esquecer que esse medo surgiu e cresceu sobre um vácuo de esperança, uma falha que poderia não ter existido, e que, por isso, desagradou a Nosso Senhor. Se não fosse assim, Jesus teria sido injusto ao recriminar, primeiro aos de Emaús e depois a todos eles, o fato de terem sido obtusos e lentos em crer no que Ele próprio lhes dissera pelo menos três vezes, bem claramente: que era necessário que o Filho do Homem padecesse muitas coisas (Mc 8,31), que era necessário que fosse  levado à morte e que ressuscitasse ao terceiro dia (Lc 9,22).

Por que estais perturbados?

São Lucas, por sua vez, diz que, enquanto os de Emaús ainda falavam com os demais no Cenáculo – estando as portas bem trancadas -, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”. Perturbados e atemorizados [o medocontinuava], pensaram estar vendo um espírito [tão longe estavam de ter certeza da Ressurreição]. Mas Ele  disse-lhes: “Por que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas nos vossos corações?” (Lc 24,36-38).

Como é humano o Evangelho! Como num filme realista, mostra-nos os pobres Apóstolos aturdidos pela surpresa inaudita de verem  Jesus no meio deles. Era algo tão fantástico, que lhes parecia impossível, e tremiam de medo de que não fosse verdade, de que seus sonhos tornassem a cair outra vez no chão, despedaçados, como lhes acontecera nas horas trágicas da Paixão.

Por isso, Jesus, cheio de carinho e de compaixão por aquelas crianças-grandes, meio perdidas, deu-lhes provas capazes de “arrasar” quaisquer dúvidas, para que vissem que tudo era verdade e abrissem as portas da alma, para que nela entrasse a alegria. ”Por que surgem –disse-lhes – tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Apalpai e vede, que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho”. Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés (Lc 24,38-40).

E eles, vendo-o, tiveram uma reação tão humana! Como a da mãe, que recupera o filho que julgava perdido, e, de tão feliz, nem consegue acreditar que aquilo seja verdade; custa-lhe crer que possa haver neste mundo uma alegria tão grande! Diz o Evangelho: E, como, na sua alegria, não queriam acreditar, de tão  assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: “Tendes aí alguma coisa que se coma?” Então, ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles (Lc 24,41-43).

É maravilhosa esta cena. Ver Cristo glorioso comendo um pedaço de peixe assado na frente de todos! Como olharia para eles, enquanto comia! Como eles o olhariam embasbacados, vendo-o comer! Não falta nesta cena aquela ponta de alegria bem-humorada que caracteriza Jesus após a Ressurreição. Como Jesus é humano! E como é divino, na grandeza do seu Amor!

O medo bom e o medo mau

Vale a pena aprofundarmos um pouco no que esta cena da Ressurreição nos sugere a respeito do medo e da esperança. Quem conhece o Evangelho, sabe que Jesus falou várias vezes aos Apóstolos sobre o medo. Poderíamos lembrar várias passagens.

Talvez  a mais interessante, porém, seja aquela em que Jesus deu aos Apóstolos uma bela lição, para que aprendessem a “temer” direito, a temer “bem”, coisa que não é nada fácil. Porque se pode ter um medo bom ou um medo mau, um medo certo ou um medo errado. Essa lição, deu-a Jesus numa ocasião em que estava falando da Providência de Deus nosso Pai. Explicou-lhes, então, com carinho:  Digo-vos a vós, meus amigos: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois disso nada mais podem fazer. Eu vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar no inferno; sim, eu vo-lo digo: temei a este (Lc 12,4-5).

A seguir, tranqüilizou-os, dando-lhes a certeza de que podiam esperar tudo da bondade de Deus, de tal modo que a esperança vencesse sempre o temor: Não se vendem cinco pardais por dois vinténs? E, entretanto, nem um só deles passa despercebido diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Nãotemaispois. Vós  valeis mais do que muitos pássaros (Lc 2,6-7).

É importante não perder de vista os “dois medos” de que Jesus fala: o que um filho de Deus não deve ter e o que todos devemos ter.

Há uma coisa comum a todos os medos: o receio de perder algo que amamos. Santo Tomás de Aquino, com muita acuidade, diz que “todo o temor nasce do amor”. E Santo Agostinho, mais poético, diz que o medo é “o amor em fuga” (o amor que quer fugir daquilo que lhe pode roubar o seu bem, ou seja, aquilo que ama). Assim, quem ama o dinheiro e acha que é o maiorbem da sua vida, tem pavor de perder o dinheiro. Quem ama muito a esposa ou o marido e os filhos – seu maior bem na terra -, treme de medo de perdê-los. E quem ama a Deus sobre todas as coisas teme mais do que tudo perdê-lo eternamente ( este é o santo temor de Deus).

Quer dizer que os nossos medos são como que a sombra dos nossos amores. Se eu descubro o que é que mais temo perder, perceberei o que  mais amo na vida. Isto faz lembrar aquele delicioso braço-de-ferro que se deu entre São Luís, rei da França, e o chefe do seu exército, Joinville, senescal da Champagne, contado por este último na sua crônica biográfica sobre o santo rei.

São Luis disse certa vez a Joinville que preferia cem vezes mais ficar leproso a cometer um só pecado mortal. Joinville, muito franco e desbocado, retrucou dizendo que preferia cometer cem pecados mortais antes que ficar leproso. E São Luis ficou tão aflito que naquela noite não dormiu e, no dia seguinte, chamou Joinville e, muito mansamente, lhe fez ver que a lepra acaba quando morre o corpo, mas que o pecado mortal pode acompanhar a alma no inferno por toda a eternidade.

É exatamente neste sentido que Jesus nos diz que não temamos o que nos pode fazer perder os bens efêmeros, e, pelo contrário, temamos o que nos pode fazer perder os bens eternos.

Os bens efêmeros e os bens eternos

Normalmente, nós fazemos o contrário do que Jesus nos ensina. Horroriza-nos perder a saúde corporal, mas não nos horroriza perder a saúde espiritual   (o pecado mortal, que tanto preocupava São Luís da França). Os pais, com freqüência, fazem como Joinville; pensam que, para o filho, é cem vezes pior o risco de não entrar na faculdade do que o risco de não entrar no Céu. Por isso, acham importantíssimo que estudem horas e horas – o que está certo –, mas não ligam se os filhos não dedicam a Deus sequer a hora semanal da Missa, e não se confessam nem uma vez por ano, e não levam nem um pouquinho a sério o sexto e o nono mandamento da Lei de Deus.

E, no entanto, os bens efêmeros sempre nos deixam o coração angustiado, porque, mesmo quando parecem mais seguros, inquieta-nos o medo de perdê-los, uma vez que todos eles são bens que mudam ou podem mudar (por exemplo, a fortuna ou a amizade), que morrem ou podem morrer (amigos, parentes, nós mesmos), que enganam ou podem enganar (qualquer ser humano, pecador como nós, pode iludir-nos), que frustram ou podem frustrar (como muito sonhos conquistados que depois nos decepcionam)… Por isso, é loucura pôr neles todas as esperanças da vida!

Todos sabemos – apesar de que preferimos não pensar – que a doença, o desemprego, a falência, a perseguição, a morte, toda sorte de “contrariedades” e “desgraças” podem roubar-nos esses bens. Mas esquecemos que ninguém –a não ser nós mesmos – pode roubar-nos  os bens eternos, se nos esforçamos por viver no amor de Deus. Quem nos separará do amor de Cristo? – dizia São Paulo, num santo desafio. – A tribulação? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? [...] Mas, em todas essas coisas somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. E conclui dizendo que não existe poder nem força nos céus, na terra e nos abismos que nos possa separar do amor de Deus em Cristo Jesus Senhor nosso (Cf. Rom 8,35-39). Só o nosso pecado!

É um grande cântico à esperança esse de São Paulo! Foi desse teor o que entoaram os mártires, espoliados e desenganados de tudo na terra, mas que caminhavam para a morte cantando, com a esperança de receberem o abraço eterno de Deus.

Entendemos o que são os “bens eternos”?

Vamos pensar um pouco mais, e descobriremos um panorama ainda mais belo. Comecemos perguntando-nos: quais são os bens eternos?

Numa primeira resposta, imediata, diríamos: a Vida eterna, o Céu, que é a visão e a posse amorosa de Deus – supremo Bem e soma de todos os bens – para sempre. E talvez acrescentássemos que também são bens eternos as coisas que nos santificam e nos encaminham para o Céu, como a oração, as Confissões e Comunhões bem feitas, os sacrifícios e penitências oferecidos a Deus com sinceridade e devoção.

Tudo isso é verdade, mas, se ficássemos só nisso, não acabaríamos de entender o que Cristo nos ensinou. Neste sentido, são muito esclarecedoras as seguintes palavras de Jesus: Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça corroem, onde os ladrões furam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e os ladrões não furam nem roubam (Mt 6,19-20).

Cristo fala-nos de ir juntando, ao longo da vida, muitos tesouros no céu, que jamais nos serão roubados, que não serão efêmeros, mas eternos. E, quais são esses tesouros? Todos os nossos pensamentos, palavras, ações, iniciativas, empreendimentos, trabalhos, divertimentos, conversas, alegrias, etc, etc, que – praticados por nós com a alma em estado de graça – estiverem de acordo com a vontade de Deus, e forem marcados pela retidão e, sobretudo, pelo amor a Deus e ao próximo.

É muito esclarecedor o que Jesus diz sobre o grande valor que pode ter um simples copo d’água: Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa (Mt 10,42). Quer dizer que tudo o que  for bom e reto, tudo o que não for egoísta, por pequeno que seja, se é vivido com amor (a Deus e aos nossos irmãos) passa a ser um bem eterno, que a morte não poderá levar. Jesus frisa especialmente as boas obras, as obras de misericórdia feitas em favor dos necessitados: Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber [...] Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. É bonito perceber que, vivendo assim, agindo retamente, com coração grande, tornamos eterno pelo amor tudo o que fazemos!

De fato, se vivêssemos deste modo, que medo poderíamos ter? É inevitável, certamente, omedo psicológico instintivo (pura reação emocional), que nos acomete diante de um perigo, um assalto, uma doença grave, uma incerteza… Mas o cristão pode superar esse temor graças à virtude da esperança, coisa que o descrente não pode fazer. Pode superar isso, porque a esperança cristã (virtude teologal) nos garante, com absoluta certeza, duas coisas:

Primeira, que Deus é tão bom que faz concorrer tudo para o bem daqueles que oamam (Rom 8,28)absolutamente tudo.

Segunda, que, se lhe formos fiéis, o sorriso de Cristo estará aguardando-nos, por assim dizer, junto da porta escancarada da casa do Pai, para nos oferecer uma felicidade indestrutível, eterna, um Amor sem fundo e sem fim. Eu vou preparar-vos um lugar… Quero que onde estou, estejais vós comigo… Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo ( Cf. Jo 14,2-4; Jo 17,24; Mat 25,34).

Aconteça o que acontecer, pois, se tivermos fé, esperança e amor (ou seja, se formos cristãos), perceberemos que Jesus está sempre ao nosso lado e sempre nos diz: A paz esteja convosco; sou Eu, não tenhais medo (Cf. Lc 24,36.38-39).

É lógico, portanto, que, ao meditarmos sobre o mistério da Páscoa, demos graças a Jesus porque, com a sua Ressurreição, conquistou para nós a vitória sobre o medo, porque substituiu o nosso medo pela grande esperança, essa belíssima virtude, que é o perfume e o incentivo da alma dos que ainda  caminhamos na terra rumo à Casa do Pai.

4. RESGATANDO SÃO TOMÉ

Coração valente

São Tomé é uma figura que costuma ser apresentada como símbolo do ceticismo: Já há até uma frase feita: “Ver para crer, como Tomé”. E, no entanto, Tomé é um dos personagens mais comoventes do Evangelho. Vamos procurar compreender, nesta meditação, que, em boa parte, Tomé é um injustiçado. Como é que era mesmo Tomé na realidade? Que nos diz dele o Evangelho?

Para começar o “resgate” de Tomé (que resgata os bons exemplos que nos dá), é preciso dizer que, dele, sabemos uma coisa certa, e é que foi um dos idealistas que, deixando todas as coisas, seguiram Jesus. Portanto, confiava em Jesus, acreditava nele – senão, não teria largado tudo e apostado nele  – ; além disso, tinha-lhe amor, pois ninguém se entrega nas mãos de uma pessoa que lhe é indiferente; e era generoso.

Logicamente era humano, e, portanto,  tinha fraquezas como aliás todos os Apóstolos, como todos nós. Mas, antes da Paixão de Jesus, o Evangelho mais nos mostra nele fortaleza que fraqueza. Refiro-me àqueles momentos críticos – pouco antes da Paixão – , em que Jesus já era perseguido de morte em Jerusalém e teve de retirar-se para além do Jordão, juntamente com os Apóstolos, porque ainda não tinha chegado a sua hora.  O que lá aconteceu é tocante…

Naquele lugar retirado, Jesus recebeu o recado de Marta e Maria, pedindo-lhe que fosse de novo a Jerusalém (a Betânia, pertíssimo de Jerusalém), porque seu irmão Lázaro estava muito doente: Senhor, aquele que amas está enfermo. Jesus, no entanto, deixou-se ficar ali ainda dois dias. Mas, de repente, disse: Voltemos para a Judéia. Isso assustou os discípulos: Mestre – disseram-lhe –, há pouco os judeus te queriam apedrejar, e voltas para lá? Jesus não ligou, e disse-lhes  abertamente que Lázaro já tinha morrido, mas –acrescentou – vamos a ele. Todos ficaram gelados, pensando que aquilo era pôr-se na boca do lobo…

Todos menos um! Tomé! Só ele, cheio de coragem, foi capaz de dizer aos seus condiscípulos:Vamos também nós, e morramos com ele! Estava disposto a morrer com Jesus, por Jesus. Como vemos, no coração de Tomé não há nada de covardia, nem de dúvidas, nem de vacilações.

Coração sincero

E ainda há um outro traço do caráter de Tomé que o Evangelho põe em relevo.Tomé era um homem que era sincero e gostava da objetividade. Não era daquele tipo de homens que são “objetivos” só para pôr dificuldades, tirar o corpo e dizer que não dá (“sou realista”, dizem, e, na realidade, são pessimistas ou comodistas). Ele gostava da objetividade para entender melhor as coisas e, assim, poder agir melhor e resolver melhor os assuntos. Isso não diminuía nem um pouco a fé que tinha em Jesus. Tomé unia a fé ao realismo, um binômio excelente em si mesmo…, mas que pode desequilibrar-se, e então se torna perigoso (como logo veremos). É algo que fica bem claro na Última Ceia.

Naquela noite da Quinta-feira Santa, Jesus estava despedindo-se dos seus discípulos, e consolava-os com infinita ternura dizendo-lhes: Não se perturbe o vosso coração. Na casa de meu Pai há muitas moradas …; vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo… E vós conheceis o caminho para onde eu vou. Neste ponto interveio Tomé, com a sua franqueza um pouco brusca, mas cheia de confiança em Jesus:  Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho?  Jesus não levou a mal essa pergunta nem a achou indelicada. Ao contrário, tomou pé dela para dizer umas palavras que ficarão para sempre gravadas no coração do cristão: Jesus  respondeu-lhe: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim”.

Mas houve um outro momento crucial, em que esse realismo franco de Tomé… espanou. Foi após os acontecimentos perturbadores da Paixão, quando Jesus já havia ressuscitado (e daí vem a “má fama” de Tomé).

Lembremos o que aconteceu. Na tarde do domingo de Páscoa, em que Jesus apareceu aos Apóstolos no Cenáculo, Tomé – diz o Evangelho – não estava com eles. Ou seja, não viu Jesus. Provavelmente, chegou bem mais tarde, naquela noite, ou então só voltou à casa no dia seguinte. Podemos imaginar que chegou ao Cenáculo triste, com olheiras de pouco dormir e o ricto amargo na boca de muito sofrer. Pois bem, mal acabava de subir a escada até o segundo andar – a sala de cima  –, quando os outros que lá estavam se lhe atiraram em cima, agitadíssimos, dizendo: Vimos o Senhor!

Pobre Tomé! Aquela enxurrada de entusiasmo, totalmente inesperada, caiu-lhe como um golpe de malho na cabeça. Deixou-o atordoado. Eu o imagino de olhos arregalados, assustado com a estranha euforia dos outros, balbuciando: “Estão loucos! Vocês perderam o juízo?” E o bom Tomé, o sofrido Tomé, o franco Tomé, de repente embirrou. A sua tendência para o realismo e a objetividade saiu dos eixos, extrapolou em casmurrice e desequilibrou-se: Mas ele replicou-lhes: Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei! Emburrou, e não havia modo de fazê-lo sair atitude fechada.

O amor que faz duvidar

Vemos nessa atitude só um defeito? Será que não poderíamos pensar que era tão grande o carinho de Tomé por Jesus, que não agüentava pensar sequer na possibilidade de que houvesse um engano? Não tinha coragem para deixar que a sua esperança subisse a mil por hora como um foguete, na crença de que Jesus vivia, para depois cair vertiginosamente e espatifar-se no chão, na decepção. E se tudo não passasse de histeria dos amigos? Não esqueçamos que, às vezes, a alegria dá medo. Temos tanto receio de embarcar numa alegria grande que depois nos possa decepcionar! Por isso, quando desejamos muito, muito mesmo, uma coisa que nos promete enorme alegria, temos a tendência instintiva de começar a pensar nas coisas “ruins” que poderão acontecer: vai surgir um imprevisto, vai falhar na última hora, vou chegar atrasado, não vai dar certo…

Isso pode explicar a reação negativa de Tomé. No entanto, é preciso reconhecer que houve mesmo uma falha. De fato, Jesus teve de corrigi-lo… E, do erro dele, nosso Senhor quis que nós aprendêssemos. Ele sempre tira o bem de tudo, mesmo do mal.

Em que consistiu seu erro? Naquela hora decisiva, faltaram-lhe a fé e a esperança sobrenaturais. Tomé quis ser tão realista, tão terra-a-terra – para se garantir  – , que só ficou vendo o que tinha debaixo dos pés e na ponta do nariz. Isto é o que acontece com todos os que se chamam a si mesmos “realistas”, gente de “pé no chão”, “experientes” e “conhecedores da vida”…, e se esquecem de que a coisa mais “realista” que há no mundo é a presença viva de Deus, o seu poder e a sua ação amorosa… e muitas vezes inesperada e desconcertante.

Um realismo que se torna pessimismo

É interessante observar que todos os pessimistas se chamam a si mesmos realistas e desprezam os “sonhadores” (assim chamam aos que vivem da fé), como se fossem ingênuos ou tolos. Felizmente, nós cremos no Deus da esperança, e por isso somos necessariamente otimistas.

Cristo quer, sem dúvida, que vivamos uma vida realista, mas contando com o “fator” mais real de todos, que é Ele e a força assombrosa do seu amor e da fidelidade às suas promessas. Assim o expressa, de maneira maravilhosa, a Carta aos Hebreus:  A fé é o fundamento das coisas que se esperam, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos antepassados. A falta desta fé no amor e nas promessas de Deus traz consigo a falta da esperança que a fé deveria gerar. Este foi o motivo da repreensão afetuosa que Jesus deu a Tomé. E deu-a com razão, pois Tomé não soube pôr toda a sua fé nas promessas anteriores de Cristo  – voltarei a vós…., ao terceiro dia o Filho do homem ressuscitará… –; e não deu crédito ao testemunho dos outros Apóstolos que, por ser unânime, merecia confiança.

Mas a repreensão de Jesus, como todas as suas palavras e atos, é uma grande luz para a nossa alma. Vejamos o que diz o Evangelho:

Oito dias depois (da aparição aos Apóstolos no dia da Páscoa), estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”… Podemos imaginar a cara de espanto do nosso Tomé… O seu coração deve ter ficado acelerado, quase que a estourar-lhe o peito, quando Jesus se dirigiu pessoalmente a ele. Depois, Jesus disse a Tomé: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado, e não sejas incrédulo, mas homem de fé! E, apanhando a mão de Tomé, fez como estava dizendo.

A reação de Tomé, caindo em lágrimas aos pés de Jesus, foi esplêndida: Respondeu-lhe Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” Ele, que tinha duvidado, acabou fazendo o maior ato de fé até então pronunciado por qualquer dos Apóstolos: um ato de fé absolutamente explícita, luminosa, nadivindade de CristoMeu Deus! E Jesus encerrou a questão, pensando em nós, em todos os que haveríamos de ser os seus discípulos, no decorrer dos séculos: Creste porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem terem visto!

O lado luminoso da lição de Tomé

É como se, com as palavras que dirigiu a Tomé, Cristo nos perguntasse: “Você crê mesmo em mim?” “Você, por crer em mim, sabe esperar nas coisas que não se vêem, que só se prevêemcom a fé, sabe esperar nas coisas que Deus quer, mas que os “realistas” chamam “impossíveis?” Vale a pena lembrar o que escreve São Paulo: Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera?[1]

Deus – por assim dizer  – “desafia-nos” a viver de esperança, a saber esperar do seu amor coisas grandes que não vemos, coisas que nos parecem impossíveis, mas que Ele nos quer dar. Mesmo diante das maiores dificuldades, todos podemos dizer com São João:  Nós conhecemos o amor de Deus, e acreditamos nele.

O “realismo” cristão está feito de fé, de audácia e de magnanimidade. O nosso realismo é a esperançaAíestá o segredo do otimismo do cristão.É preciso que, aquecidos pela fé, pelo amor e pela esperança, saibamos apontar alto, apontar para coisas grandes, para ambições santas, e confiar plenamente em Deus. A mulher de fé, o homem de fé,  confia sobretudo em dois pilares fortíssimos sobre os quais se apóia a esperança cristã: a obediência a Deus (fazer o que sabemos que Deus nos pede), e a oração (pedir com a fé com que um filho pede a um pai de cujo amor não duvida). Apoiada na obediência e na oração, a nossa esperança ficará, como diz o  Livro da Sabedoria”, cheia de imortalidade.

Há alguns exemplos, no Evangelho, que ilustram tudo isto muito bem. Hoje vamos focalizar apenas um deles, que é especialmente claro e tocante.

Generosidade e esperança

Todos nos lembramos, provavelmente, da passagem do Evangelho que narra a primeira multiplicação dos pães. E talvez tenhamos presente a figura encantadora daquele menino   – de que fala São João no capítulo sexto do seu Evangelho –, que colaborou com o milagre.

Mais de cinco mil pessoas estavam certa vez em um lugar afastado, ouvindo Jesus. Passou o tempo e sentiram fome. Percebendo isso, o Senhor disse aos Apóstolos que lhes dessem de comer. Mas como poderiam fazê-lo? Não havia nem pão nem dinheiro para comprá-lo. De repente, André apareceu trazendo pela mão um garoto, que estava, ao mesmo tempo, feliz e meio encabulado: “Eu posso dar – assim deve ter falado o menino a André – cinco pães de cevada e dois peixes”. Ao vê-lo, Jesus sorriu, pegou os pães e os peixinhos, e deu a entender a todos que tudo estava resolvido. Mandou sentar na relva todo o mundo, pediu aos Apóstolos que repartissem  os cinco pães e os dois peixes e … comeram todos à vontade e ainda sobraram doze cestos! Um milagre apoiado num “impossível”, numa oferenda pequena, mas cheia de amor, de generosidade…

Não é clara a mensagem? Cristo – com esse milagre – diz-nos: “Não desanime se acha que não tem meios para resolver os problemas, para sair de uma situação de pecado, para ajudar um filho ou um amigo, se acha que não tem capacidade para aliviar as necessidades de tantas pessoas que carecem de tudo e sofrem; ou para fazer apostolado; ou que não tem forças para adquirir determinadas virtudes. Tenha confiança em mim, e faça da sua parte o que puder, ainda que seja pouquinho…; mas que seja tudo o que pode mesmo, como o menino que deu tudo o que tinha. O resto – acrescenta Jesus – é comigo.

Concluindo esta meditação, não vemos que o maior e melhor realismo do mundo é ter fé e confiança em Deus? As pessoas que agem “como se Deus não existisse, ou não visse, ou não amasse” caem na e mais trágica falsificação da realidade. As pessoas que ainda não perceberam que a oração é infinitamente mais forte que a energia atômica e que o poder quase ilimitado do dinheiro, estão fora da realidade. As pessoas que não percebem que a maior garantia de que receberão os dons de Deus é obedecer a Deus – obedecendo ao seu Evangelho e à sua santa Igreja – estão fora da objetividade. Não nos deixemos dominar nunca – ainda que a nossa vida atravesse momentos muito difíceis – por uma visão acanhada e míope. Peçamos a Tomé que nos ajude a ser os “realistas da esperança”, que com certeza ele nos acudirá. Tem experiência…

5. ROTINA E AMOR

Um trabalho cansativo e inútil

Há uma cena encantadora, no final do Evangelho de São João (Jo 21, 1 ss.), que hoje nos vai ajudar a meditar sobre a nossa vida, a pensar diante de Deus, concretamente, no sentido do nosso dia-a-dia, que tantas vezes nos parece monótono e cinzento.

Trata-se de uma cena de pesca, de um fato que aconteceu depois da ressurreição de Cristo, quando os Apóstolos, a pedido de nosso Senhor, já tinham subido de Jerusalém para a Galiléia. Lá, certo dia, se encontravam juntos cinco deles (Pedro, Tomé, Bartolomeu ou Natanael, Tiago e João e outros dois cujo nome não se menciona). Estavam novamente à beira do lago de Genesaré, palco que fora do seu trabalho profissional e também lugar de encontros inesquecíveis com Jesus.

Estava caindo a tarde. Pedro, então, disse aos outros: Vou pescar, e assim o fizeram: Partiram e entraram na barca. Naquela noite, porém, não pescaram nada.

Após uma noite de esforços inúteis – lançar a rede, recolhê-la vazia! -, estavam voltando para a praia em silêncio, como antigamente já lhes acontecera (cf. Lc 5, 5), e seus corações estavam tão cinzentos como a cor das nuvens do ante-amanhecer.

O coração inundado pela neblina cinza e triste de um trabalho inútil!  Essa é a cor de muitos corações, quando sentem o peso da rotina dos dias: sempre o mesmo trabalho, sempre os mesmos lugares, sempre as mesmas caras, sempre o mesmo trânsito, sempre as mesmas reclamações da mulher, sempre os mesmos mutismos e alheamentos do marido, e os mesmos problemas dos filhos, e a mesma dor de coluna, e a mesma falta de dinheiro… E isso, um dia e outro dia, e um mês e outro mês, e um ano e outro ano… As pessoas sentem-se envolvidas por essa rotina como por um gás asfixiante, e pode chegar um momento muito perigoso, que é quando pensam: “Não agüento mais, isto não é vida”.

A solução será “mudar”?

Muitos acham, então, que a solução consiste em “mudar” (mudar de cidade, mudar de mulher ou de marido, mudar de trabalho, mudar de religião, mudar os hábitos certos e passar a ter vida desregrada). Ou então “desligam” de tudo e de todos, e passam a viver num mundo de sonhos, de fantasias (divagações de Internet e tv), de saudades…, que, por serem evasões, facilmente desembocam na pior fuga, na alienação completa do álcool e das drogas.

Santo Agostinho, o coração inquieto que não se conformava com as coisas confusas e medíocres, dizia: “Eu temia tanto como à morte ficar preso pelo hábito rotineiro” (Et tamquam mortem reformidabam restringi a fluxu consuetudinis). Mas não resolveu o problema fugindo, e sim arrependendo-se dos seus pecados e procurando Deus com toda a sua alma.

Todos deveríamos ter pavor tanto da rotina asfixiante como da falsa solução da fuga… Porque o problema da rotina –contrariamente ao que a maioria pensa – não está na repetiçãomonótona das ações e das circunstâncias externas, mas na falta de renovação do nosso coração, do nosso modo de ver e amar as coisas e as pessoas. O mal está exclusivamente dentro de nós, gostemos ou não de reconhecer isso.

É muito sugestiva, a respeito disso, aquela história que conta Chesterton sobre o inglês que se sentia entediado de morar sempre na mesma ilha, e por isso foi à procura de outra terra, a terra dos seus sonhos. Viajou muito. Todos os países aonde aportava não o satisfaziam. Já se estava cansando de tanto viajar, quando avistou uma terra que o atraiu extraordinariamente. Aproximou-se dela, desembarcou, começou a internar-se no território e logo chegou, cheio de entusiasmo, à conclusão: “Esta é a terra dos meus sonhos, a que sempre andei procurando!” Ao perguntar a um dos habitantes onde estava, este respondeu-lhe: “Na Inglaterra”.

Algo de parecido acontece conosco. Não precisamos ir atrás de outras “ilhas”. Basta ficarmos na nossa – na nossa vida real – , mas vendo-a e vivendo-a com frescor de novidade. Isto é o que Jesus nos ensina. Voltemos, então, à nossa cena de pesca.

 Jesus na luz do amanhecer

O Evangelho, após falar da pesca falha, continua a contar:  Ao romper o dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não o reconheceram. Jesus disse-lhes então: “Rapazes, tendes alguma coisa que comer”.  É tocante verificar que Jesus ressuscitado apresenta-se aos Apóstolos humano, afetuoso, familiar, não com uma majestade gloriosa e distante. Fala familiarmente: Rapazes! Pergunta se têm algo que se possa comer. Ele quer mostrar-nos que, depois da ressurreição (agora, portanto!), deseja viver junto de nós como um amigo muito próximo, compreensivo, humano, inseparável…

Mas, como acontece conosco, sucedeu que os discípulos, com uma grande miopia espiritual, não perceberam que Jesus estava lá, sempre junto deles, e continuaram  soturnos e tristonhos. Dá para imaginar o tom  de aborrecimento com que devem ter respondido, incomodados, a Jesus: -”Não! Não temos nada para comer”. E acho que nosso Senhor – rei e senhor de toda a alegria – divertiu-se, humana e  “divinamente”, quando lhes disse: Lançai a rede ao lado direito da barca e encontrareis. Aconteceu o que já dá para imaginar: uma pesca milagrosa, abundantíssima. Lançaram a rede e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar.  Jesus não faz as coisas pela metade…

Ao ver aquele milagre, João disse a Pedro: “É o Senhor!” João, o discípulo amado, foi o primeiro a ter sensibilidade para perceber que aquele desconhecido era Jesus, e avisou o “patrão” da barca, Pedro. E o bom Pedro, o Pedro emotivo e impulsivo que todos conhecemos, “deu uma de Pedro”: Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou o cinto da túnica, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Não pôde esperar que a barca chegasse à terra. Lançou-se de cabeça à água, ansioso por chegar a Jesus quanto antes! Pouco depois chegaram os outros na barca, arrastando a rede cheia.

E o que encontraram? Vamos prestar bem atenção. Vocês acham que encontraram um Jesus hierático, sentado numa cátedra de marfim, dizendo-lhes: “Vamos deixar-nos de coisas banais, materiais, agora que me reconheceram, e vamos falar do que importa: de coisas celestiais, de coisas elevadas, só das coisas espirituais, as únicas que contam”? Vocês acham que foi assim? É claro que não! Todos sabemos que foi bem diferente. Vejamos o que diz o Evangelho.

            Ao saltarem em terra, viram umas  brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão. Disse-lhes Jesus: “Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes… E depois : Vinde comer. E pronto! Lá ficaram sentados em roda, à volta da fogueirinha que o próprio Jesus acendera, sentindo o cheiro delicioso de peixe fresco assado – que Jesus já tinha começado a preparar, muito diligentemente, com as suas próprias mãos – , e repartindo pedaços de pão e comendo como uma alegre turma de amigos em  piquenique de “feriadão”…

Jesus ama o “trivial cotidiano”

Jesus fez questão de valorizar, de mostrar como é importante o “trivial cotidiano”. Eu tenho um conhecido que até chorava de emoção ao pensar nesta cena: “Você – dizia – não percebeu como é maravilhoso? Cristo farofeiro! O Filho de Deus, farofeiro!”

Esse meu amigo se alegrava justamente ao perceber o carinho com que Cristo vê e valoriza a nossa vida diária, as pequenas coisas da vida,  que às vezes nos parecem tão longe dos grandes ideais, e concretamente tão longe do ideal cristão de Amor e de santidade…E esquecemos que Jesus passou trinta anos vivendo com amor a “rotina dos dias”, no lar de Maria e José, tendo uma vida normal, discreta e simples, de família, de trabalho…, sendo, como se lê no Evangelho,  o carpinteiroo filho do carpinteiro… E aquilo era a “vida do Deus feito homem”, cheia, portanto, de grandeza divina, de santidade. Com ela estava nos redimindo, estava nos salvando.

Se refletirmos um pouco, perceberemos que esta cena de Cristo que pesca juntamente com os discípulos, e prepara o almoço, e toma a refeição com os amigos, e conversa com eles à beira do lago é um símbolo do que deveria ser cada um dos nossos dias. Também nós podemos acordar cada manhã (pensemos na manhã da segunda-feira mais cinzenta de todas), e – se nos tivermos lembrado de rezar e oferecer o nosso dia a Deus – , poderemos ver, com a luz da fé, que Jesus está junto de nós e nos diz: “Vamos começar o dia juntos, vamos trabalhar juntos, vamos tratar bem os outros, vamos fazer do “trivial cotidiano” uma aventura de Amor…”.

Seria tão bom que conseguíssemos ser cristãos que rezam, que se lembram com fé de Deus durante o dia inteiro! Bastaria, para isso, às vezes,  trazer um crucifixo no bolso, ou um terço, e rezar as orações que amamos, também pela rua; e dizer muitas breves jaculatórias  – do tipo “Jesus, eu te amo! Jesus, dá-me um coração como o teu!” – no trânsito, e ao iniciar uma tarefa, e ao morder os lábios para não xingar ou resmungar ou falar mal dos outros…. Se conseguíssemos conversar com Cristo até dos detalhes mais triviais, com certeza se acenderia uma luz nova no nosso coração e, com essa luz, veríamos de uma maneira “nova” todas as coisas que, com Ele, nunca ficam gastas, puídas, aborrecidas e rotineiras. Entenderíamos então  por que Jesus nos diz: Eis que eu faço novas todas as coisas (Ap 21,5).

O “santo do cotidiano”

Há uma doutrina cristã maravilhosa, que São Josemaría Escrivá, como instrumento de Deus, proclamou com uma clareza e uma força tão grandes, que acendeu chamas de alegria e de amor em milhares de pessoas comuns – cristãos “vulgares” – em todo o mundo. A missão que Deus lhe confiou consistia em contribuir para que os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, compreendessem  “que a sua vida, tal como é, pode vir a ser ocasião de encontro com Cristo: quer dizer, que é um caminho de santidade e de apostolado. Cristo está presente em qualquer tarefa humana honesta: a vida de um simples cristão – que talvez a alguns pareça vulgar e acanhada – pode e deve ser uma vida santa e santificante”.

E como conseguir viver esse ideal? São Josemaría mostrava o caminho: “Fazei tudo por amor–dizia -. Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo”.  E aplicava esta doutrina – que é inspirada no Evangelho e em São Paulo (se não tiver amor, nada me aproveita…: 1 Cor,13,3) – a todas as coisas cotidianas boas e normais: podemos sorrir, por amor, quando não temos vontade mas os outros precisam de “caras sorridentes”; podemos acabar, por amor, um trabalho que gostaríamos de interromper por cansaço; podemos colocar a roupa no seu lugar, oferecendo esse sacrifício a Deus, em vez de jogá-la em cima da cama ou no chão; podemos rezar as orações que nos propusemos, ainda que nos custe concentrar-nos, porque não queremos furtar a Deus, com desculpas de cansaço (que não teríamos para um jogo de futebol ou para assistir à telenovela)  esses momentos que são para Ele…

São Josemaria Escrivá, quando estava nesta terra, ajudava as pessoas – e também agora continua a ajudá-las lá do Céu– a converter, com a graça de Deus, todos os momentos e circunstâncias da vida em ocasião de amar e de servir, com alegria e com simplicidade, e iluminar assim os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor. Para os que se propõem seriamente viver assim, a rotina é impossível. O amor e o desejo de servir fazem ver tudo como uma oportunidade única, inédita, de dar (amar é dar) algo a Deus e aos nossos irmãos. Feito com carinho, tudo se faz “novo”…

Lembro-me agora de um episódio de faz muitos anos. Fui certa vez comprar figuras de presépio a um artesão – um artista de verdade –, e lhe pedi uma figura igual a outra que ele tinha lá numa prateleira do ateliê. Disse-me rotundamente que não. Perguntei: “Mas não conserva o molde?” Ao ouvir essas palavras, levantou-se indignado, como se eu o houvesse ofendido, e gritou: “Molde! …Molde!.. Eu não tenho molde. Cada figura é única e irrepetível”… Se cada dia nosso fosse assim, sem “molde” rotineiro, sem ser uma “peça em série” , que maravilha…!

Neste sentido é que Mons. Escrivá  dizia: -“Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir… Deus espera-nos cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho”. “A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia”.

E, ao falar disso, insistia com especial ênfase na santificação do trabalho. Incutia nas almas o ideal de realizar o trabalho por amor a Deus e com o empenho de servir ao próximo: trabalho bem feito, acabado, caprichado nos detalhes, digno de ser colocado no altar do coração  e oferecido juntamente com Jesus-Hóstia na Santa Missa. Toda a vida do cristão se converteria assim numa Missa. É a isso que todos nós deveríamos aspirar.

Já imaginou como tudo mudaria se, ao terminar cada um dos nossos dias e fazer a nossa oração da noite, pudéssemos dizer:  – «Amanhã vou começar um outro dia, uma nova etapa da minha “vida diária”. Mas agora já não vou encará-lo aborrecido, suspirando e dizendo: “mais um”. Não! Ajudado por Deus, vou entrar nele com a luz que Jesus acendeu no meu coração, e direi, com alegria: “Hoje começa mais um dia, novinho em folha, por estrear. Hoje se me apresenta mais uma ocasião de amar e de servir. Vou me esforçar – rezando, mantendo o mais possível a presença de Deus – por conseguir que o meu amor introduza belas novidades, atitudes renovadoras, na minha rotina de todos os dias”.

6. AS LÁGRIMAS DE SÃO PEDRO

Pedro se entristeceu

Uma das cenas mais tocantes do relato evangélico sobre as aparições de Jesus ressuscitado é a do diálogo que Cristo manteve com Pedro, enquanto caminhavam à beira do lago de Tiberíades (João, 21, 15 ss.).

Sete dos discípulos de Jesus – conta São João –, enquanto esperavam na Galiléia o encontro que Cristo marcara lá com eles (cf. Mc 16,7), foram pescar no lago, como tantas vezes o haviam feito em anos anteriores.  Naquela noite, porém, nada apanharam. Começavam a voltar para a praia, quando avistaram, na vaga luz do amanhecer, uma figura imprecisa. Não é agora o momento de comentar com detalhe toda essa belíssima passagem do Evangelho, que ocupa todo o capítulo 21 de São João.  Baste-nos lembrar que a “figura” avistada  era Jesus, que Cristo se dirigiu logo a eles com afeto, orientou-lhes a pesca e realizou um milagre; depois, tomou com eles, sentados na praia, uma refeição de peixe assado e pão, e lhes inundou o coração de ternura e alegria.

Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes? Respondeu ele: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”… Três vezes

repetiu essa pergunta amorosa. Podemos imaginar os sentimentos de Pedro, que por três vezes tinha negado Jesus durante a Paixão. O apóstolo, com certeza, não esperava essas palavras. Talvez aguardasse apenas uma manifestação explícita de que, apesar de seu grave pecado, nosso Senhor já o perdoara. Jesus, porém, lembrou-lhe indiretamente, delicadamente, suas três negações. Se mexeu, porém, de leve na sua ferida, foi apenas para ungi-la com o bálsamo do carinho e da esperança.

Não há dúvida de que a pergunta de Jesus – os três pedidos de amor e a confiança com que o confirmou em sua missão – trouxe à memória de Pedro aqueles momentos amargos da Paixão em que negara uma e outra vez conhecer Cristo e declarara enfaticamente nada querer saber dele. Como lhe doeu logo na alma ter sido tão covarde, tão egoísta, capaz de renegar Jesus e até de falar mal dele, para salvar a sua própria pele.

Naquela noite triste, Cristo estava no pátio da casa do sumo sacerdote, preso, manietado, com as faces roxas de pancadas e sujas de escarros e a alma dilacerada por insultos e calúnias, e muito precisado de carinho, de consolo, de amizade… E foi justamente nessa noite Pedro o rejeitou, negou conhecê-lo e disse não ter nada com ele. Mas, ao mesmo tempo, foi uma noite muito bonita. É comovente lembrar que, depois da terceira negação, quando o galo já havia cantado – como Jesus predissera –, diz são Lucas que, voltando-se o Senhor, olhou para Pedro. Então Pedro lembrou-se da palavra do Senhor: ”Hoje, antes que o galo cante, me negarás três vezes”. E, saindo fora, chorou amargamente (Lc 22,62).

Pobre Pedro! Como deve ter sido aquele olhar de Jesus sofredor! Nele não houve nada de recriminação, nada de ressentimento. Apenas estava dizendo a Pedro com os olhos: “Eu te amei com predileção e, apesar de tudo o que acabas de fazer, continuo a amar-te, pobre amigo, pobre filho meu”. Era um olhar de misericórdia, que é a expressão mais bela e profunda do amor que Deus nos tem, “amor mais forte do que a morte –diz João Paulo II -, mais forte do que o pecado”. E ainda acrescenta: “São infinitas a prontidão e a força do perdão de Deus. Nenhum pecado humano prevalece sobre esta força e nem sequer a limita” (Enc. Dives in misericordia, n. 83). Será que percebemos a enorme fonte de confiança, a inesgotável fonte de esperança que é, para o pecador – para todos nós, que somos pecadores -,  a misericórdia de Deus? É tão imensa, tão incrível,  que nos desarma.

Pois bem. Foi isso o que aconteceu com Pedro depois daquele olhar de Jesus. Lembrou-se então, com certeza, do momento em que Jesus o escolhera para ser seu Apóstolo, o chefe dos Apóstolos, a pedra fundamental da sua Igreja (cf. Jo 1,40-42). Lembrou-se do imenso oceano de cuidados, compreensão, afeto, paciência, ensinamentos e  ajudas que Jesus lhe havia dispensado ao longo dos três anos em que tinham andado juntos; compreendeu que tinha sido objeto de um carinho imenso, que, mesmo que quisesse, não teria como pagar… E, naquela noite de dores, Jesus lhe pagava o pecado, não com um castigo, nem sequer com um olhar de censura ou de rejeição, mas com aquele olhar acolhedor e afetuoso. Por isso, Pedro, saindo fora, chorou, chorou transtornado de pena, chorou desfeito perante a misericórdia de Cristo… Dizem que, durante anos, ainda se lhe notava na face a vermelhidão causada por tantas lágrimas.

Eram lágrimas de amor ardente. Houve outro Apóstolo, que, nas horas da Paixão, também negou, traiu, e se arrependeu – Judas –, mas chorou só de remorso e de raiva, do horror insuportável que lhe causava perceber o pecado que tinha cometido. Pequei, entregando o sangue de um justo (Mt 27,4) – gritou; mas não lhe adiantou nada. Não soube confiar na misericórdia de Deus, não foi capaz de acreditar na misericórdia divina, “que– como diz o Papa João Paulo II –  sabe tirar o bem de todas as formas do mal existente no homem e no mundo” (Enc. Dives in miseriordia, n.44).  Judas Iscariotes desesperou-se, jogou então no templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se (Mt 27,5). Poderia ter sido um grande santo, se tivesse compreendido o coração de Jesus, se tivesse sido humilde…!

Reflexos da misericórdia de Deus

Mas voltemos àquela conversa a sós de Jesus ressuscitado com Pedro, à beira do lago, pois ela nos sugere outras coisas belíssimas, além das que já meditamos.

Para isso, será bom recordar a cena completa: Tendo eles comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Respondeu ele: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta os meus cordeiros”. Perguntou-lhe outra vez: “Simão, filho de João, tu me amas?” Respondeu-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta os meus cordeiros”. Perguntou-lhe pela terceira vez: “Tu me amas?” Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: “Tu me amas?”, e respondeu-lhe: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas”.

Que vemos aí? Que verdades sobre Cristo nos mostra esse trecho do Evangelho? São coisas difíceis de expressar, ainda que sejam coisas muito simples. Todas elas são reflexos da misericórdia de Deus:

– Por um lado, Jesus ajuda Pedro a apagar os seus três pecados com três atos de amor.

– Em segundo lugar, Jesus faz ver a Pedro que, apesar do seu pecado, o considera capaz de ser muito santo, de amar mais do que todos estes, mais do que ninguém. Que confiança!

– Terceiro: em vez de depor Pedro do seu cargo de Pastor e chefe da Igreja, por ter caído tão baixo, Jesus faz questão de confirmá-lo na autoridade que lhe havia conferido, para que fosse o primeiro entre todos os Apóstolos (Cf. Mt 16,18-19). Como vemos, Jesus confirma-o na função de pastor dos cordeiros e pastor das ovelhas, ou seja, pastor dos pastores e pastor do povo fiel, de todo o seu rebanho, que é a Igreja.

Todos esses “reflexos da misericórdia” nos falam da esperança que deve animar a nossa vida de filhos de Deus. O primeiro e o segundo “reflexo” falam sobretudo da confiança que Jesus tem em nós, na nossa capacidade de nos recuperarmos, por mais que tenhamos sido e sejamos pecadores; e  também da alegria que Deus “experimenta” quando um pecador – por mais “trapo sujo” que seja – se volta para Ele, arrependido e com amor.

Há um poeta católico francês, Charles Péguy, que captou muito bem a beleza deslumbrante da misericórdia e da esperança que ela suscita. Vale a pena lembrar o seguinte trecho de um de seus poemas?

            “Deus pôs a sua esperança em nós. Foi Ele que começou. Ele esperou que o último dos pecadores,

            que o mais ínfimo dos pecadores, fizesse pelo menos algum pequeno esforço pela sua salvação,

            por pouco, por pobremente que se esforçasse,

            que se ocupasse ao menos um pouco disso.

            Ele esperou em nós. Virá a ser dito que nós não esperamos nele?

            Deus depositou a sua esperança, a sua “pobre” esperança em cada um de nós, no mais ínfimo dos pecadores.

            Virá a ser dito que nós, ínfimos, que nós, pecadores, vamos ser nós a não depositar a nossa esperança nele?

É essa riqueza do amor paternal de Deus a que se vê de forma tocante na parábola do filho pródigo. O filho menor abandona a casa paterna, comete pecado atrás de pecado, disparate atrás de disparate, e Jesus mostra-nos o seu pai, que simboliza Deus, encostado ao limiar da porta de casa, perscrutando o caminho, na esperança de ver um dia o filho voltar. E quando enxerga ao longe uma nuvenzinha de pó, o seu coração adivinha o retorno do filho, e quando já se aproxima aquele mendigo empoeirado, o pai já sabe que é ele, e, então,  movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o cobriu de beijos (Lc 15, 20).Bastou ao filho a boa vontade de arrepender-se, de voltar, de abrir o coração para dizer, com doída sinceridade: Pai, pequei contra o céu e contra ti… , para ser envolvido por todo o amor do pai.

Quem não sabe dizer pequei, esse não sabe dizer Pai! Porque só quem descobriu o amor de Pai que Deus nos tem pode dar-se conta de como lhe pagou mal tanto amor, de como o esqueceu, de como lhe desobedeceu, de como o ofendeu…., e então pode doer-se por amor, que é o verdadeiro arrependimento, a verdadeira contrição. Foi o sentimento que Pedro tinha no seu coração e que Jesus o ajudou a externar com palavras:  Amas-me? –Amo-te…

Sem esse amor, infelizmente, nem chegamos a reconhecer os nossos pecados. Achamos uma desculpa para todos eles, a começar pela desculpa de dizer que nem sequer são pecados, que “eu não cometo pecados”, e assim fechamos o mal dentro da câmara escura do nosso coração e trancamos a porta à misericórdia de Deus, ao seu perdão.

Mais reflexos da misericórdia

Mas, como víamos, há um segundo ponto. Jesus, na praia, perguntou a Pedro:  Amas-me mais do que estes? É o segundo ato de confiança de Jesus. O pecador que se arrepende de verdade, por amor, recebe a graça de Deus – normalmente mediante a confissão -, e, se corresponde a essa graça, pode chegar a uns cumes de santidade infinitamente maiores do que os abismos aonde se precipitou com o pecado. É o que aconteceu com Pedro, com Paulo, com Santo Agostinho e com tantos outros. E aí temos outro grande motivo de esperança.

Por isso, não tem o espírito cristão a pessoa que diz: “Eu já pequei tanto, caí tão fundo, fiz tantas barbaridades, que o máximo a que posso aspirar é a obter a duras penas o perdão de Deus e entrar no Céu por uma frestinha, como o último da fila, como o “patinho feio”, depois de ter ficado no purgatório até o fim do mundo…”. É uma maneira errada, nada cristã, de ver as coisas.

Isso está claro no caso de Pedro. Mas também fica patente na parábola do filho pródigo. Ao filho pecador que se arrepende, o pai cumula-o de tantos bens e tantas honras, envolve-o em tanta alegria, que provoca a inveja do irmão mais velho, trabalhador, honesto, mas egoísta e mesquinho. Convinha fazermos uma  festa  - retruca o pai -,  pois este teu irmão estava morto, e reviveu; estava perdido, e foi achado (Lc 15,32) Este é o espírito de Jesus: Digo-vos que haverá mais júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento (Lc 15,7).

Sim. Este é o espírito de Jesus. Será que é o nosso? Nós confiamos assim? Somos capazes de arrepender-nos assim? Somos capazes de fazer penitência, por amor, e de mudar com alegria e de recomeçar com vibração? Cristo deixou-nos um meio fácil e acessível: o Sacramento da Penitência, a confissão. Dele diz o Papa João Paulo II, na encíclica que antes citávamos: “Neste Sacramento, todos podem experimentar, de modo singular, a misericórdia, isto é, aquele amor que é mais forte do que o pecado”.

E é também o Papa João Paulo II quem nos diz, com belas palavras: “A conversão a Deus consiste sempre na descoberta da sua misericórdia, do seu amor fiel até às últimas conseqüências. O autêntico conhecimento do Deus da misericórdia é a fonte constante e inexaurível de conversão” (Cf. encíclica Dives in misericordia, nn. 44, 57, etc.)

Um último reflexo

Mas ainda nos resta dizer alguma coisa sobre o terceiro ponto. Jesus não só perdoa Pedro como o confirma naquela missão da máxima responsabilidade, que é ser o supremo Pastor da Igreja aqui na terra. Também aí a prova de confiança de Jesus é tão grande que dá à nossa esperança vibrações de alegria.

Eu penso que, aplicado a cada um de nós, isto nos diz: “Deus espera muito de você, por mais que a sua vida passada tenha sido um desastre. Não fique apontando baixo. Não coloque metas medíocres na sua vida cristã, na sua vida de intimidade com Deus, na sua oração, no seu apostolado, na sua dedicação ao bem material e espiritual dos seus irmãos. Seja audaz! Aponte muito alto, pois é aí, nas alturas, que Cristo – que o perdoou e voltará sempre a perdoar, se se arrepender – o espera”.

Aquele poeta antes citado contempla a vida dos filhos de Deus como um caminho ascendente, sempre subindo, sempre subindo, até chegar ao Céu. Ele imagina a fé, a esperança e a caridade como três irmãs, e diz que a esperança é a irmã menor, que parece fraquinha, mas que, na realidade, é a que arrasta com força irresistível as outras duas:

            “No caminho ascendente, arenoso, incômodo,

            na caminhada ascendente,

            arrastada, pendurada dos braços das irmãs mais velhas,

            que a levam pela mão,

            a pequena esperança

            avança.

            E, no meio, entre as duas irmãs mais velhas, tem o ar de se deixar arrastar,

            como uma menina que não tivesse forças para caminhar,

            e que fosse arrastada pela estrada contra vontade.

            Quando, na realidade, é ela que faz andar as outras duas,

            E que as arrasta,

            E que faz andar toda a gente,

            E que a arrasta.

Força e grandeza da esperança cristã! É uma chama radiante que a ressurreição de Jesus faz arder no mais fundo do coração. O Papa diz que “Cristo ressuscitado é a encarnação definitiva da misericórdia, o seu sinal vivo”. Peçamos ao Senhor que, mesmo que tenhamos a desgraça de traí-lo muitas vezes, nos conceda a graça de não trairmos nunca a esperança, essa fabulosa esperança que Ele nos ganhou morrendo e ressuscitando, e que a nossa Mãe Maria, Mãe de misericórdia, nos ajude a mantê-la como um farol aceso.

7. AMOR NO CÉU E MISSÃO NA TERRA

Um olhar para o futuro

No final do seu Evangelho, São João transcreve o diálogo tocante que Cristo manteve com Pedro:

– Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?

– Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo!

Repetindo três vezes a sua declaração de amor, Pedro reparou as suas três negações. Depois disso, Jesus confirmou-o na sua missão de pastor supremo da Igreja e continuou caminhando e conversando com ele pela margem do lago de Genesaré.

Num dado momento, inesperadamente, o Senhor parou e fitou Pedro nos olhos. Antecipando a perspectiva do seu futuro, disse-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais jovem, cingias-te e ias para onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. Por estas palavras, indicava o gênero de morte com que ele havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: “Segue-me!” (Jo 21, 15-19).

Assim foi. Durante a perseguição do imperador Nero, Pedro foi preso em Roma pelo ”crime” de ser cristão, e, amarrado como um bandido, levaram-no ao patíbulo, onde o crucificaram. O Apóstolo, cheio da fé e da fortaleza que o Espírito Santo lhe infundia, padeceu e morreu serenamente, e – segundo a tradição – teve o detalhe delicado de pedir que o crucificassem de cabeça para baixo, pois se considerava indigno de morrer como o seu Senhor Jesus.

Uma primeira mensagem

Prestando atenção a essa profecia de Jesus, reparamos que nela há duas mensagens. Uma encerra-se no modo em que Jesus alude à morte. A outra, no É modo como alude ao sofrimento, à Cruz. Detenhamo-nos um pouco em ambas. Desde já, é importante perceber que Jesus fala da morte e da dor com tanta naturalidade que é evidente que não pensa que nenhuma das duas seja uma coisa terrível, ruim. Isso faz pensar.

Mensagem sobre a morte. A própria naturalidade – naturalidade séria e grave, mas serena – com que Jesus fala da morte revela que, para Nosso Senhor, a morte não é nem uma tragédia nem o fim de tudo. Ele mesmo dissera que morrer é chegar passar para a casa do Pai (Cf. Jo 14,2). Quer dizer que a vida nesta terra é apenas um caminho – bem curto, por sinal – ; deve ser uma passagem que encaminha para a meta definitiva, que é o Céu, a união plena e feliz com Deus e o convívio com os amigos de Deus por toda a eternidade. Este é o verdadeiro fim e destino do homem.

Isso é algo que Pedro, sob a luz da fé e a graça do Espírito Santo, compreendeu muito bem, como se reflete nesse trecho da sua primeira carta aos fiéis cristãos: Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia, ele fez-nos renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcessível, reservada para vós nos céus. (1 Pedr 1,3-4).

E, na segunda carta, falando da vocação cristã, diz com serena clareza: Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais de assegurar a vossa vocação [...]. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pedr 1,10-11).

O triunfo, a realização autêntica da vida é a salvação eterna, é ser santo, é ir para o Céu. Que adianta – dizia Jesus – alguém ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma (Mat 16,26).

 Sem olhar para a vida eterna, todas as grandezas e conquistas deste mundo são pó e vento que passa. Mais ainda, uma vida carregada de “realizações”, mas virada de costas para Deus, é como um navio ricamente equipado, que navega com cargas valiosíssimas, mas não tem destino, não chegará a porto algum; seu destino consistirá em girar no redemoinho e afundar no abismo.

Uma segunda mensagem

A segunda mensagem é a serenidade com que Jesus fala da dor – do martírio de Pedro – como de um bem, considerando-o como um modo de amar e de glorificar a Deus (Cf. Jo 21, 19).

O próprio Pedro chegará a ver o sofrimento, sob a luz poderosa da fé e do amor, como um verdadeiro tesouro. Àqueles cristãos do século primeiro, perseguidos de morte pelo Imperador (muitos foram queimados vivos como tochas, quando Nero incendiou Roma),  escrevia-lhes dizendo que seus padecimentos eram a prova a que é submetida a vossa fé,  mais preciosa do que o ouro perecível (1 Ped 1,7). E exortava-os deste modo: Alegrai-vos de ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada a sua glória (1 Ped 4,13). Referindo-se ainda a Jesus, acrescentava com palavras tocantes: Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes nele sem o verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa (1 Ped 1,8).

Ao meditar nessa fé dos que conheceram Cristo e os Apóstolos, causam-nos imensa pena aqueles que são incapazes de entender a grandeza do fim sobrenatural da nossa vida – Deus, o amor que dá sentido a tudo, o Céu – e vivem exclusivamente atrás do prazer, da ambição e da vaidade: balões ocos, furados, que a morte vai queimar. Só a alma iluminada pela luz do Espírito Santo pode compreender o paradoxo, incompreensível para um materialista, de que amar a Cruz – a Cruz-amor de Cristo e do cristão – é o segredo para se ser feliz, não só no Céu, mas já antes na terra. Mas este é um tema bem profundo, que agora ultrapassa a nossa reflexão [2]. Falta-nos ainda acompanhar a parte final do diálogo entre Cristo e Pedro que estamos meditando.

Uma passagem alegre e fecunda

Depois das palavras sobre o futuro de Pedro, houve mais um diálogo interessantíssimo. O apóstolo Pedro, voltando-se para trás, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava – João, o narrador destas cenas – . Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, e este? Que será dele?”Jesus não lhe quis satisfazer a curiosidade, e respondeu-lhe de um modo aparentemente seco:“Que te importa…? Tu, segue-me!” (Jo 21,20-22).

Digo que é aparentemente seco, porque, entre Pedro e Jesus, havia uma confiança grande e afetuosa, difícil para nós de calibrar. Podemos, contudo, imaginar Nosso Senhor com um sorriso meio brincalhão, dizendo a Pedro algo assim: “Estamos falando agora é da tua vida, da tua missão e da tua entrada no Céu, não da vida dos outros. Cada filho de Deus tem a sua tarefa, a sua vocação própria. Deixa João tranqüilo. É claro que também tenho uma missão reservada para ele, e não é nada pequena (de fato João viveu até cerca dos cem anos, cuidou de Nossa Senhora, difundiu a fé entre milhares de pessoas, escreveu o quarto Evangelho e três Epístolas que fazem parte da Bíblia… Nada menos!). Mas o que interessa é que tu, Pedro, cumpras a tua missão pessoal. Por isso, te digo: Tu segue-me!

Com certeza, estas palavras – Tu, segue-me! – provocaram um sobressalto no coração de Pedro, pois fora com esses mesmos termos que Jesus o chamara, três anos antes, à beira do mesmo lago onde agora estavam, para se tornar o seu apóstolo. O coração de Pedro deve ter acelerado. As lembranças do dia da vocação devem ter-lhe voltado à memória, rodando com a nitidez de um filme colorido.

Na realidade, havia uma correspondência significativa – querida por Cristo – entre aquele dia, já remoto, do primeiro chamado e esse dia do encontro com o Ressuscitado. No dia da sua vocação, Jesus, antes de comunicar-lhe a chamada, fez o prodígio da primeira pesca milagrosa, que São Lucas descreve no capítulo quinto, e à qual já nos referimos.  Naquele dia, após o milagre, Pedro jogou-se aos pés do Senhor, e este disse-lhe: “Não temas; de agora em diante serás pescador de homens” (Lc 5, 10). Era uma definição simbólica da vocação do apóstolo, e é também uma definição da vocação apostólica do cristão: Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens (Mat 4,19).

A Igreja nos ensina que todos os batizados temos uma vocação divina e uma missão a realizar no mundo. Deus chama-nos a todos para sermos pescadores de homens. Não podemos ficar pensando apenas na nossa santificação, na nossa salvação. Não é cristão ficar fechado nas preocupações e sonhos pessoais. Estamos chamados por Deus a envolver afetuosamente os outros – respeitando-lhes sempre a liberdade – nas “redes” da nossa caridade, do nosso amor fraterno, desse amor que deseja para todos o maior bem, isto é, trazê-los para junto de Cristo, tal como os Apóstolos puseram aos pés de Jesus os cento e cinqüenta e três peixes grandes.Peixes que o próprio Jesus fez questão de que simbolizassem as almas: farei de vós pescadores de homens!

Perguntemo-nos, à vista disso, quantos parentes, amigos, colegas, conhecidos já levamos nós aos pés de Cristo, à alegria de se encontrarem com o olhar de Cristo, com a palavra de Cristo, com o Coração de Cristo; à felicidade de descobrirem junto de Jesus o amor que não acaba e que dá o sentido à vida?

O mar da Galiléia, para nós, é o mundo, e o “Pedro” atual, o Papa, no caso  João Paulo II, posto ao leme  da barca da Igreja, nos deu como lema – para o novo milênio – as mesmas palavras com que Jesus mandou Pedro pescar, naquele encontro do dia da vocação: -Duc in altum! – Mar adentro! Deus quer que recristianizemos o mundo!

Por incrível que pareça, Deus, que é tudo e fez tudo , quer contar conosco para estender pelo mundo os frutos da Redenção que Cristo conquistou para nós na Cruz, ao preço do seu Sangue. Ele quer que o Reino de Deus também “dependa de nós”: do nosso exemplo, do nosso empenho em difundir a doutrina cristã, do nosso apostolado pessoal, feito com a palavra compreensiva, com a confidência amiga, com o conselho leal.

“Mar adentro! Sigamos em frente, com esperança! – escreveu João Paulo II na Carta sobre o novo milênio –  Diante da Igreja – dizia – abre-se um novo milênio como um vasto oceano onde aventurar-se com a ajuda de Cristo [...]. O mandato missionário introduz-nos no terceiro milênio, convidando-nos a ter o mesmo entusiasmo dos cristãos da primeira hora; podemos contar com a força do mesmo Espírito que foi derramado no Pentecostes e nos impele hoje a partir de novo sustentados pela esperança que não nos deixa confundidos (Rom 5,5)”.

Cheio de um santo otimismo, o mesmo Papa, na sua Carta sobre o Rosário, escrevia que o Cristianismo, “passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de Deus a “fazer-se ao largo” – mar adentro! – para reafirmar, melhor, para “gritar” Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como “caminho, verdade e vida” , como “o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização”.

Concluamos esta reflexão. A vida tem como meta, certamente, o Céu. Mas, antes de chegarmos ao Céu, é preciso que arregacemos as mangas e realizemos muitas coisas na terra. Sobretudo, é preciso que ajudemos muitos a encontrarem e amarem  a Deus, porque Cristo nos deu essamissão no mundo e confia em nós.

8. SÃO PAULO, MESTRE DA LUTA ESPIRITUAL

Um olhar humilde e agradecido

            São Paulo, no final da primeira Carta aos Coríntios, após falar das diversas aparições de Cristo e evocar o seu encontro com Jesus ressuscitado às portas de Damasco, diz com humildade: E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque sou o menor dos Apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus…(1 Cor 15,8-9).

                       São Paulo é uma testemunha excepcional da Ressurreição de Jesus. Para ele, o fato decisivo, queb transformou toda a sua vida, foi o encontro pessoal que teve com Cristo ressuscitado às portas de Damasco (At 9,1ss.).

            Paulo, por mais que passassem os anos,  nunca se esquecia de que fora um perseguidor dos cristãos, de quem Jesus teve misericórdia, e de que Cristo o escolheu, sem mérito algum da sua parte, para fazê-lo Apóstolo. Não se sentia digno disso. Comparando-se com os outros Apóstolos, via-se a si mesmo como um aborto, como o mais indigno… Ele mesmo dirá que Deus escolheu o que é fraco no mundo para confundir os fortes; e o que é vil e desprezível no mundo, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são. Assim, nenhuma criatura se vangloriará diante de Deus (1 Cor 1,27-29).

            É importante ter presente essa sua declaração, totalmente sincera,  de ser nada, oúltimo, para avaliar melhor o que afirma a seguir, após aquelas palavras: não sou digno de ser chamado apóstolo.  Textualmente, diz: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que Ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo (1 Cor 15-10). Não parece que agora, de repente, Paulo fica orgulhoso, convencido e arrogante, ao dizer: Tenho trabalhado mais do que todos eles, do que todos os outros Apóstolos…? Que significa isso?

            Significa que São Paulo era humilde de verdade, e não de fachada: porque a humildade é a verdade – como gostava de lembrar Santa Teresa de Ávila – , e São Paulo não se gaba de nada. Está feliz de poder louvar a Deus que, com a sua graça o tornou, mesmo sendo o menor, capaz de trabalhar por Cristo com uma eficácia inexplicável, enorme. Ele agradece, comovido, e sabe bem que tudo é puro dom de Deus: Pela graça de Deus sou o que sou… Tenho trabalhado…, não eu, mas a graça de Deus comigo. Fica bem claro.

A humildade e a esperança

            Estamos aqui perante um paradoxo, que faz parte da essência da vida cristã, ainda que pareça um contra-senso. O paradoxo é que, ao mesmo tempo que – com muita humildade – devemos considerar que não somos capazes de fazer nada, devemos esforçar-nos e trabalhar como quem é capaz de tudo, porque confiamos na graça que Deus nos dá. Toda a vida cristã – toda a santidade – consiste em saber conjugar a graça de Deus e a nossa correspondência, a humildade com a luta cheia de esperança.

             O próprio Jesus, por meio da comparação da videira e das varas, nos disse que, por nós mesmos, somos incapazes da fazer nada, nada que tenha valor aos olhos de Deus, nada que santifique, nada que valha para a vida eterna.: Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5)

            São Paulo estava tão consciente disso que podia escrever, falando da sua vocação de Apóstolo:  Deus fez brilhar a sua luz [a luz da fé] em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo [para que déssemos a conhecer a luz da verdade de Cristo]. Porém  –continua -, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós (2 Cor 4,6-7). Sem a graça, Paulo sabe que não tem nada, não pode nada e não é nada. Isto ele sentiu-o, de uma maneira muito especial, num momento dramático de sua vida.

“Basta-te a minha graça”: as fontes da graça

            Abrindo a alma aos coríntios, o Apóstolo conta-lhes que houve um momento em que quase se desesperou. A par de muitas graças de Deus, experimentou também muitas limitações, dificuldades e sofrimentos. De modo especial, o fez sofrer um tipo de fraqueza física ou de doença, que nós não conhecemos exatamente, mas que a ele o apavorava, porque achava que ia impedi-lo de continuar a trabalhar no apostolado. Como sofria! Era um desespero! Comparava esse mal a um anjo de Satanás, que me esbofeteia, para me livrar do perigo da vaidade. E dizia: Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele me disse: “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força”…  Portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo (2 Cor, 12,7-9).

            Bem claramente se vê a consciência que tinha de que, sem a graça de Deus, não podia nada. Sentia-se um zero absoluto. Que fazia, então? Porventura ficava passivo, esperando que a graça descesse do Céu sobre ele? Não. Fazia duas coisas, que todos os cristãos deveríamos fazer. Primeira: procurava constantemente a graça nas suas  fontes Segunda: lutava com todas as suas energias para corresponder às graças que Deus lhe concedia. É muito bonito e ilustrativo recordar  algumas das recomendações que fazia aos seus discípulos, porque refletem o que acabamos de lembrar.

             Numa das suas primeiras cartas, dizia aos tessalonicenses: Vivei sempre contentes. Orai sem interrupção…Orai também por nós (1 Tes 5,16-17.25). Sentia a necessidade da oração constante, sem pausas, lembrando-se de que Deus vincula muitas das suas graças à oração –Pedi e recebereis! (Mt 7,7) -, e que o próprio Cristo tinha insistido na necessidade de orar sempre e não desfalecer (Lc 18,1). Também dizia aos filipenses: Não vos inquieteis com coisa alguma! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças (Fil 4,6). E, aos romanos: Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração (Rm 12,12). Tinha a certeza de que, com a oração, tudo se alcança de Deus, tudo o que nos é necessário para vivermos como bons filhos de Deus e para superar o que nos quer afastar dessa vida santa.

            Na mesma carta aos romanos, Paulo usa uma expressão muito sugestiva. Compara a oração a uma grande arma de combate: Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e do amor que é dado pelo Espírito Santo, combatei comigo, dirigindo as vossas orações a Deus por mim (Rm 15,30)O Catecismo da Igreja pode falar, por isso, do “combate da oração” (n. 2725).

            A oração é tão importante, tão fundamental, que Santo Afonso Maria de Ligório chegava a dizer: Quem reza certamente se salva; quem não reza certamente se condena.

            Além dessa insistência na necessidade da oração, São Paulo afirma também, de uma maneira impressionante, que os que desprezam a graça da Comunhão, por tratarem com desrespeito a Eucaristia, por comungarem mal, ficam doentes espiritualmente e morrem, perdem a vida divina: Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos (1 Cor 11,30)Lembrava-se muito bem de que Jesus afirmara taxativamente, falando da Eucaristia: Este é o pão que desceu do céu… Quem come deste pão viverá eternamente, Se não comerdes a carne do Filho do Homem…não tereis a vida em vós mesmos (Jo 6, 51 e 53).

            Ao lado dessa exortação a tirar forças desse alimento eucarístico, que é o próprio Cristo, São Paulo não deixava de recordar aos fiéis a necessidade de estar em estado de graça para comungar; algo que é extremamente importante lembrar nos dias de hoje: Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Aquele que o come e o bebe indignamente, sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (1 Cor 11, 27-29). É forte, mas a Igreja sempre fez eco a essas palavras inspiradas pelo Espírito Santo:Examine-se cada um a si mesmo… E, se reconhecer que está afastado de Deus por algum pecado grave, um pecado mortal, vá confessar-se quanto antes e, sem dúvida, confesse antes de comungar.  

            O ensinamento de São Paulo deixa bem claro que, para vivermos bem a vida dos filhos de Deus, precisamos absolutamente da graça divina – da graça do Espírito Santo – que conseguimos por meio dos sacramentos – especialmente da Penitência e da Eucaristia –, e por meio da oração e do amor a Deus com que fazemos as coisas. Essas são as três grandesfontes da graça: os Sacramentos, a eficácia impetratória da oração e o mérito sobrenatural das boas obras realizadas por amor a Deus.

A luta ascética do cristão

            Estivemos vendo a necessidade da graça. Vamos considerar agora o segundo “pólo” do paradoxo de que falávamos acima: a necessidade de lutarmos sinceramente para corresponder à graça que Deus nos dá.

            Sobre essa segunda “necessidade” – a necessidade de lutar, além de rezar – , São Paulo é mestre, e mestre genial. Já recordamos que ele dizia, após considerar-se nada: Mas, pela graça de Deus sou o que sou, e a graça que Ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado – tenho lutado – mais do que todos eles. Esse homem de garra fala sempre da luta do cristão como de um desafio otimista, como de uma competição atlética ou esportiva. Como nos faz bem lembrar-nos disso e decidir-nos também nós a ser  “lutadores” – no esforço por melhorar – , cheios de otimismo e espírito esportivo. Não vemos que é assim que se manifesta a nossa esperança na graça de Deus? Se não tivéssemos essa confiança na ajuda de Deus, não lutaríamos, largaríamos tudo.

            Vamos, pois, meditar sobre um par de trechos dos mais “esportivos” de São Paulo. Podemos começar com aquele que fala do estádio olímpico.  São Paulo está escrevendo aos coríntios (que, por sinal, lhe deram muito trabalho), e diz-lhes: Nas corridas de um estádio, todos correm, mas bem sabeis que um só recebe o prêmio. Correi, pois, de tal maneira que o alcanceis… Assim corro eu, mas não sem rumo certo. Dou golpes [aqui pensa nos pugilistas], mas não no ar…(1 Cor 9,24-27).

             Quantas sugestões não contêm essas palavras! Não é verdade que, muitas vezes, nos sentimos espiritualmente parados, estagnados? Os nossos defeitos, em vez de diminuir, parece que aumentam. Não falo agora dos que se despreocupam da perfeição cristã, e só querem saber da “boa vida”. Estou pensando em gente que tem fé, que tem amor a Deus, e que desejaria melhorar. Mas, apesar da boa vontade, percebe que não avança nem um milímetro; pelo contrário, parece que a cada dia recua um pouco . E assim passam os anos, e aumenta o desânimo. E a esperança, onde fica? Parece que não existe. Mas, como pode existir se rezamos pouco, e não lutamos esportivamente, a sério, como os atletas no estádio?

            Poucos podem dizer que, para ganhar mais fé, mais paciência, mais compreensão, mais ordem, mais formação, mais constância, mais generosidade com o próximo, mais qualidade e profundidade na oração e no trabalho…, poucos podem dizer – insisto – que fazem o que diz São Paulo, ou seja, que lutam com a garra de um campeão no estádio olímpico. Para isso, precisariam ter metas concretas de oração e de luta, e não só boa vontade e bons sentimentos. Deveriam determinar-se e dizer: “Eu me proponho isto, a partir de amanhã: aquela oração, aquele esforço, e aquela mudança de atitude; não quero ficar dando  golpes no ar (muito sentimento, muitas palavras vãs e pouco sacrifício)”. Deveriam evitar, além disso,correr sem rumo, ou seja, deveriam procurar ter uma orientação, uma direção espiritual que lhes facilitasse traçar roteiros, concretizar um plano de vida; que acompanhasse a aceleração da sua “corrida”, e os ajudasse a retificar e a aprender com os erros, como faz o treinador com os atletas… Sim.  Quantos há que possam dizer que fazem o que Paulo recomenda? Poucos. Muito poucos. Somos comodistas. Não gostamos dos nossos defeitos, mas conformamo-nos com eles. Não lutamos como Paulo pedia  a Timóteo: Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna! …Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras… (1 Tim 6,12 e 2 Tim 2,5).

            Paulo podia pedir isso a Timóteo –e a todos os fiéis –porque ele o praticava. É tocante a “confissão” que faz na Carta aos Filipenses. Depois de falar das suas ânsias de conhecer mais e mais a Cristo e de experimentar o poder da sua ressurreição, diz que luta para conquistar Cristo, e explica como é essa luta: Não pretendo dizer que já alcancei esta meta e que cheguei à perfeição. Não. Mas empenho-me em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus me chama em Jesus Cristo (Fil 3,10-14).

            Bastaria que cada um de nós meditasse devagar essas palavras, para perceber que nelas se encerra um magnífico programa de luta – de vida – cristã. Um programa que poderíamos resumir assim: Se confiarmos na graça de Deus – no auxílio do Espírito Santo -, nunca iremos sentir-nos “satisfeitos” (“não pretendo ter alcançado a meta”); nunca iremos parar de nos propormos novas metas de melhora (“olhando para a frente”); nunca iremos olhar com desânimo para os nossos fracassos e erros, já perdoados por Deus (“esquecendo o que fica para trás”), mas continuaremos a esforçar-nos com alegria e otimismo renovados em cada instante (“atirando-me ao que resta para a frente”).

             Como animam essas palavras! Basta meditá-las um pouco, para nos sentirmos dispostos a não abandonar a luta – as batalhas que Deus nos pede – por maiores que sejam as dificuldades.

             Essa é a grande lição ascética de São Paulo: se formos humildes, se confiarmos totalmente em Deus, se perseverarmos na oração e na prática dos Sacramentos, se encararmos a luta com otimismo e espírito esportivo, Deus fará com que a nossa vida na terra seja uma caminhada feliz, que sempre progride – por mais que esteja pontilhada de quedas –  e que desembocará na alegria inefável da meta, do prêmio celeste, ao qual Deus nos chama.

9. MARIA, MÃE DA SANTA ESPERANÇA

A Mãe que soube esperar

Uma tradição muito antiga, que atravessou os séculos e ficou plasmada em muitas obras de arte, afirma que a primeira aparição de Cristo ressuscitado foi à sua Mãe Santíssima.

É natural que Jesus, que ficava feliz – depois da ressurreição – trazendo a alegria aos que amava, tivesse dado a precedência da alegria à sua Mãe. Não era ela quem mais a merecia? Ela que acreditara firmemente, desde o momento da Encarnação, que aquele seu filho, que ao mesmo tempo era o filho do Altíssimo, seria – como o anjo Gabriel lhe havia anunciado – o Messias descendente de Davi, que reinaria eternamente e seu Reino não teria fim;  ela que se unira ao Redentor em todos os momentos da sua vida e especialmente na Paixão, oferecendo a sua imensa dor juntamente com o sacrifício redentor do Filho; ela que ouvira sair dos lábios murchos de Jesus agonizante sobre a Cruz aquela “nomeação” como Mãe dos discípulos, mãe de todos os homens: Mulher, eis aí teu filho”…; ela certamente merecia ter as primícias do júbilo da ressurreição. E é o que Jesus ressuscitado lhe deve ter dado, sem dúvida, como atesta a tradição.

É muito bonito pensar que, naqueles momentos de escuridão quase total que envolvia os discípulos logo após a morte e o sepultamento de Jesus, a única luz de esperança que não se apagou, que continuou a brilhar, foi o coração de Maria. Seu coração, que acabava de seratravessado por uma espada de dor, como profetizara Simeão era, ao mesmo tempo, a única lâmpada que ardia com a chama da santa esperança. Ela foi a única que, no silêncio do sábado santo, esperou na ressurreição ao terceiro dia

A Mãe que ensina a confiar

Certamente, ao longo de toda a sua vida, ela viveu e encarnou a esperança como ninguém. Movida pelo Espírito Santo, Santa Isabel louvou-a assim no dia da Visitação: Feliz a que acreditou, porque se cumprirão todas as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor.  Acreditou, e desse solo fecundo da fé, brotou a esperança como uma planta viçosa, como uma fonte

Conta-nos São Lucas, no Evangelho, que no dia da Visitação, Santa Isabel, movida pelo Espírito Santo, louvou Nossa Senhora com estas palavras: Feliz a que acreditou, porque se cumprirão todas as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor (Lc 1,45). Maria acreditou e, do solo fecundo da sua fé, brotou a esperança como uma planta viçosa, como uma fonte cristalina, como um diamante único, indestrutível. Por isso a Igreja a chama Mãe da santa esperança, e por isso nós a invocamos como Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa… Não são apenas belas palavras. Têm um conteúdo profundo. Descrevem a missão que Jesus lhe confiou em relação aos seus irmãos – a nós, que somos todos irmãos de Jesus (cf. Rm 8,29) e filhos de Maria (Jo 19, 26).

Quando Jesus nos deu Maria como Mãe, no momento solene da agonia na Cruz, quis garantir-nos a esperança. É verdade que a nossa esperança deve estar, toda ela, colocada em Deus. Deus, e só Deus, é o motivo e a fonte radical da esperança. Mas Ele deu-nos uma Mãe – a sua Mãe – para que, com o calor de seu coração, nos ensinasse a confiar; para que estendesse a mão a estas pobres crianças suas que somos nós, para que as guiasse e as introduzisse no mundo maravilhoso da esperança.

Uma das orações mais antigas dirigidas a Nossa Senhora é aquela que ainda hoje os católicos piedosos sabem de cor: “À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus, não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo”. É uma expressão da confiança filial em Maria que nos encaminha para a esperança plena em Deus.

Na verdade, o Espírito Santo – inspirador da Sagrada Escritura – deixou-nos motivos mais do que suficientes para que aprendêssemos a confiar na “Esperança nossa”. Bastaria lembrar a cena das bodas de Caná (Jo 2,1-11), onde a petição de Maria – suave, discreta, sussurrada ao ouvido – obteve de Jesus o seu primeiro milagre, a transformação da água em vinho.

Naquela festa de bodas, começou a faltar o vinho. Maria teve pena dos noivos. Aquilo podia estragar a alegria singela do banquete. Então falou com seu Filho: Não têm vinho! A resposta de Jesus pôde parecer um balde de água fria – Mulher, isto nos compete a nós? A minha hora ainda não chegou – , mas Maria não achou que fosse assim, e com toda a paz disse aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser… ; e não precisou de fazer mais. Jesus mandou, na hora, encher de água umas grandes talhas que lá estavam e depois indicou que fosse servido o seu conteúdo aos convidados: foi o melhor vinho da festa!

Maria adiantou assim, misteriosamente, a hora dos milagres de Jesus. E graças a esse primeiro milagre, obtido pela intercessão da Virgem, o Evangelho diz que Jesus manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele. Tudo, pela solicitude de Maria, pela ternura do seu coração. Se Jesus fez isso, a pedido de Maria, o que não fará por nós? É como se Ele próprio nos estivesse dizendo: “Vocês vêem? Confiem na Mãe! Eu a ouvirei sempre! Ela conseguirá tudo de mim!”

A Mãe de misericórdia

É por isso que os santos e os bons teólogos a chamam a “onipotência suplicante”, uma maneira hiperbólica – mas realista – de referir-se ao poder das súplicas de Maria diante de Jesus. São Bernardo, o “trovador da Virgem”, gostava de compará-la ao aqueduto que recebe a água da fonte (a água da graça, da fonte que é Deus) e a faz chegar a nós, da mesma maneira que um aqueduto recolhia então a água das montanhas e a conduzia até os povoados. E assim dizia: “Recebendo a plenitude (da graça) da própria fonte do coração do Pai, no-la torna acessível… Com o mais íntimo, pois, da nossa alma, com todos os afetos do nosso coração e com todos os sentimentos e desejos da nossa vontade, veneremos Maria, porque esta é a vontade daquele Senhor que quis que tudo recebêssemos por Maria”.

Que confiança, que consolo isto nos dá! Não é verdade que, às vezes, o que mais nos custa é esperar na misericórdia divina, porque vemos que não a merecemos, e  que Deus, sendo justo, deveria castigar-nos, especialmente depois de tantos arrependimentos efêmeros, de tantas reincidências meio cínicas?  E, no entanto, nem no pior dos casos devemos desesperar da misericórdia de Deus, mesmo que nos sintamos afundados – como o filho pródigo – na mais espessa, suja e viscosa lama do pecado. Nessa triste situação, ninguém como Maria para ajudar-nos a confiar na misericórdia de Deus. Ela é Mãe. Não tenhamos medo, por mais sujos e machucados que estejamos. Ela não deixará de propiciar um bom banho aos seus meninos. Ela nos moverá a ter arrependimento, ela nos levará – se for preciso, pela orelha  — até à confissão, e nos carregará finalmente no colo, limpos e felizes.

“Se eu fosse leproso – escrevia São Josemaría Escrivã -, minha mãe me abraçaria. Sem medo nem repugnância alguma, beijar-me-ia as chagas. – Pois bem, e a Virgem Santíssima? Ao sentir que temos lepra, que estamos chagados, temos de gritar: Mãe! E a proteção de nossa Mãe é como um beijo nas feridas, que nos obtém a cura”.

A poderosa intercessora

A confiança em Nossa Senhora sempre foi tão grande entre os bons cristãos, que alguns até “exageraram”. Mas exageraram de uma maneira bonita, assim como se amplia um detalhe de uma flor belíssima, muito além do seu tamanho normal, para poder apreciá-la melhor. Não há “mentira” nisso!  Um exemplo entre mil são uns versos do “poeta da esperança”, o francês Charles Péguy, que põe na boca de Deus Pai as seguintes palavras (deliciosamente “exageradas”):

“Eu não vi no mundo  – diz Deus – nada mais belo que uma criança que adormece fazendo a sua oração (…).[o poeta estende-se, em versos tocantes, falando da maravilha que é a criança que dorme rezando, e aí nenhuma das coisas bonitas que diz é exagero].

“Nada é tão belo! – continua a dizer Deus -. E este é mesmo um ponto em que a Virgem Santa está de acordo comigo. Lá em cima (no Céu).

“Inclusive, eu posso dizer que este é o único ponto em que estamos plenamente de acordo. Pois geralmente os nossos pareceres são contrários.

“Porque ela está do lado da misericórdia,

“E eu…, bem, é preciso que eu esteja do lado da justiça”.

Esses versos fazem sorrir (e até comovem um pouquinho), mas são “verdadeiros” pelo sentimento de confiança em Maria que transmitem. Junto dela, só um cego espiritual, um tolo… ou um demônio, podem perder a esperança.

Foi assim que o entenderam os cristãos desde o começo. Não podemos esquecer o que nos mostra a Sagrada Escritura, nos Atos dos Apóstolos, logo depois da Ascensão do Senhor. Jesus tinha-se despedido recomendando aos seus que permanecessem em Jerusalém, até que sejais revestidos da força do Alto (Lc 24,49), ou seja, até a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Pois bem, no livro dos Atos diz-se que todos – os Apóstolos, os discípulos, as santas mulheres – obedeceram, e se reuniram, durante dez dias, no Cenáculo, com Maria, a Mãe de Jesus. Lá, junto dela, como uma família apinhada em torno da mãe, perseveravam unanimemente na oração (At 1,14). Junto de Nossa Senhora, tornava-se fácil cumprir o que Jesus mandara. Sempre é assim! A única coisa que ela nos pede é o que pediu aos serventes de Caná: Fazei tudo o que Ele vos disser. E ela fica junto de nós para nos ajudar a cumpri-lo.

Por isso, uma vida espiritual impregnada de devoção a Nossa Senhora é uma vida espiritual sadia, voltada inteiramente para o cumprimento da Vontade de Deus. “Antes, sozinho, não podias… – dizia Mons. Escrivá -. – Agora, recorreste à Senhora, e, com Ela, que fácil!”

Quem quer a graça de Deus, a Ela recorre

É uma experiência universal na história do cristianismo. Dante Alighieri deixou-a maravilhosamente expressa no canto trinta e três do “Paraíso” da “Divina Comédia”, o último canto do livro, que começa com uma oração de São Bernardo à Virgem Maria, um cântico que, entre outras coisas, diz assim:

“Ó Virgem mãe, filha do teu Filho,

humilde e alta mais que criatura alguma,

termo imutável dos desígnios divinos [...]

…Cá no Céu, tu és para nós sol radiante

de amor; e em baixo, entre os mortais,

és uma fonte viva de esperança.

Senhora, és tão grande e tanto podes,

que quem quer graça e a ti não recorre

o seu desejo quer voar sem asas. [...]

…Em ti, misericórdia; em ti, piedade,

em ti magnificência, em ti se junta

quanto há nas criaturas de bondade….

Mesmo que a tradução faça perder o sabor inexprimível do texto italiano, mantém a alma desses versos.

Anteriores a Dante são umas palavras anônimas, cheias de devoção, que alguém rabiscou num manuscrito medieval, falando das rosas que compõem o “rosário” de Maria: “Quando a bela rosa Maria começa a florescer, o inverno das nossas tribulações se desvanece e o verão da eterna alegria começa a brilhar”.  É popular, é muito simples, mas é muito expressivo.

Confiar em Maria como uma criança confia na mãe

            Na realidade, a nossa confiança em Maria não só deve ser simples – como a fé do povo mais simples – , mas deve adquirir a pureza e a singeleza total da infância. Podemos dizer que a nossa confiança só será perfeita quando, como Jesus nos pede, nos transformarmos e nos fizermos como crianças (Mt 18,3).

A este propósito, penso que vale a pena evocar uma lembrança de há bastantes anos. Trata-se de um pequeno episódio da vida de um padre de aldeia, de dois metros de altura, ossudo e desengonçado como um don Camilo de Guareschi, e que foi meu amigo. Aconteceu que, na altura do Natal, seguindo o costume da sua terra, preparava-se para receber algum presente trazido na corcunda dos camelos pelos Reis Magos. Nessa ocasião, seguindo um sistema do tipo do “amigo secreto”, os “reis magos” íamos ser um grupo de colegas, padres como ele. Cada um escreveria uma carta aos Reis, fazendo o pedido. O nosso don Camilo (que se chamava Pedro) escreveu esta:

“Meus caros Reis Magos:

Muito embora sempre vos tenha amado e pedido favores, especialmente quando fazeis a vossa visita à terra, não vos tinha escrito desde faz, se bem me lembro, uns trinta anos. Eu era então um garoto com muitos sonhos na cabeça, que se foram apagando com o decorrer do tempo. Mas agora acontece que, graças a Deus, torno a sonhar, muito embora os sonhos sejam, naturalmente, diferentes dos que tinha então. O meu desejo atual é o de tornar a ser criança, apesar da minha respeitável estatura, para assim conseguir de vós quanto deseja e precisa meu coração de menino. Sim, o que para mim eu quero é isto: que me alcanceis a infância espiritual, para que sempre possa caminhar agarrado à mão de Deus; pois provavelmente vos seria meio difícil conceder-me a infância corporal. A Providência divina fez-me também pai de umas boas centenas de almas, que amo entranhadamente, e para as quais vos peço muita saúde espiritual, visto que há muitas que estão doentes. Com a certeza de que me haveis de conceder o que vos peço, beijo as vossas mãos benfazejas”.

Os Rei Magos atenderam seu pedido, e ele recebeu como presente uma imagem de Nossa Senhora, linda, com um olhar de mãe, com um sorriso cálido de mãe, que fazia com que qualquer um se sentisse, perto dela, uma criança amparada, totalmente aconchegada…

Como história puxa história, aí vai outro belo episódio dos tempos atuais. Um dos maiores poetas do século vinte foi Paul Claudel, um diplomata francês que se converteu ao catolicismo, por graça de Nossa Senhora, certa vez em que assistia – sem fé – a uma Missa natalina na catedral de Nôtre-Dame de Paris. Maria tocou-lhe o coração, alcançando-lhe do Espírito Santo a graça da fé, e o meteu para sempre no coração de seu Filho Jesus. Claudel tornou-se um grande católico e foi um dos maiores poetas e dramaturgos do seu século. A graça da sua conversão ficou-lhe tão gravada na alma que, sempre que podia, dava uma passada por Nôtre-Dame, entrava na catedral e ficava a olhar para a imagem da Senhora, da Mãe que o salvara.  Ele mesmo, num dos seus poemas, descreve qual era, nessas ocasiões, a sua oração. A tradução dá uma idéia dela, ainda que, como toda tradução, desbote o colorido do original:

É meio-dia. Vejo a igreja aberta. É preciso entrar.

Mãe de Jesus Cristo, não venho rezar.

Nada tenho a oferecer e nada a pedir.

Mãe, venho apenas olhar para ti.

Olhar para ti, chorar de alegria, recordar

que sou teu filho e que tu estás aqui.

Apenas um instante, enquanto tudo pára.

Meio-dia!

Estar contigo, Maria, neste lugar onde tu estás.

Nada dizer, olhar para o teu rosto,

Deixar o coração cantar em sua própria linguagem [...]

…porque tu és a Mãe de Jesus Cristo,

que é a verdade entre os teus braços e a única esperança… [...]

Porque estás aqui para sempre, simplesmente porque tu és Maria,

simplesmente porque existes,

Mãe de Jesus Cristo, nós te agradecemos!

Esta é que é a verdadeira devoção a Maria. Isto é o que devemos colocar em cada Ave Maria, em cada Terço, em cada Salve Rainha, em cada oração silenciosa, em cada jaculatória da ladainha, em cada olhar e em cada suspiro filial…

Agradeçamos a Jesus a Mãe que nos deu, porque – com ela – é impossível perder a esperança. Digamos-lhe, com palavras da antiqüíssima antífona Salve, RainhaVida, doçura e esperança nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei!


[2]  Cf. F.Faus: A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante, São Paulo 2001

[i] São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, n. 313

[ii] Amigos de Deus, n. 205


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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19.04.2015
3º Domingo de Páscoa — ANO B
( BRANCO, GLÓRIA, CREIO – III SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "Bíblia: local de encontro com o Ressuscitado" __

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2015
Tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”
Lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,5)

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

NOTA ESPECIAL: VEJA NO FINAL DA LITURGIA OS COMENTÁRIOS DO EVANGELHO COM SUGESTÕES PARA A HOMILIA DESTE DOMINGO. VEJA TAMBÉM NAS PÁGINAS "HOMILIAS E SERMÕES" E "ROTEIRO HOMILÉTICO" OUTRAS SUGESTÕES DE HOMILIAS E COMENTÁRIO EXEGÉTICO COM ESTUDOS COMPLETOS DA LITURGIA DESTE DOMINGO.

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: A fé na ressurreição de Jesus volta a aparecer neste terceiro Domingo da Páscoa, mas com uma exigência que nos faz sentir, no mínimo, diante de um grande desafio. A fé na Ressurreição do Senhor está relacionada com a compreensão das Escrituras. É pelas Escrituras que nós nos encontramos com Jesus, depois de sua ressurreição. Queremos, nesta celebração, glorificar o Pai pela Palavra divina que está entre nós, e suplicar o dom da inteligência para entendermos as Escrituras em vista da conversão de nossas vidas.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Nesta celebração acolhamos o Ressuscitado, que caminha conosco para nos fortalecer e abrir-nos o coração à inteligência das Escrituras. Reconheçamos nossa necessidade de sua presença libertadora.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Em nossa assembléia litúrgica o Senhor se manifesta vivo, aquece o nosso coração com sua Palavra, partilha conosco o pão da vida e, abrindo os nossos olhos, nos anima e nos envia ao mundo como testemunhas da vida nova, do perdão e da paz. Nós, pelo testemunho que nasce pela fé, queremos dar continuidade ao projeto de vida do Deus fiel, anunciando em nome de Jesus a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Atos 3,13-15.17-19): - "Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos para serem apagados os vossos pecados."

SALMO RESPONSORIAL (4): - "Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face!"

SEGUNDA LEITURA (1 João 2,1-5): - "Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito."

EVANGELHO (Lucas 24,13-35): - "Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia."



Homilia do Diácono José da Cruz –3º Domingo de PáscoaANO B

"VÓS SEREIS MINHAS TESTEMUNHAS!"

Certa vez um amigo solicitou minha ajuda para atuar como testemunha a seu favor em um processo trabalhista, antes tive de passar pelo advogado, que sendo um ótimo profissional quis saber em detalhes tudo o que eu iria dizer diante do juiz, caso fosse necessário. Um bom testemunho é feito com firmeza, convicção e clareza de ideia, pois naquele momento a palavra é dele, e o advogado, promotor, juiz, júri, e as partes envolvidas, apenas o ouvem, uma palavra errada ou mal colocada, poderá por a perder todo o processo.

O papel de uma testemunha é convencer quem não presenciou o fato, de que o ocorrido é verdadeiro e não há nenhuma outra interpretação, por isso, se Jesus fosse como um advogado altamente profissional e rigoroso, nem os discípulos e muito menos nós, seríamos constituídos suas testemunhas.

No evangelho desse terceiro domingo de páscoa, para início de conversa o confundiram com um fantasma, e olhe que já era praticamente a terceira aparição do Senhor, à comunidade. Os dois que iam para Emaús o confundiram com um forasteiro, na comunidade, as duas primeiras reuniões foram com as portas fechadas, por medo dos judeus, e ele já tinha aparecido uma vez, no evangelho de hoje, mesmo ouvindo o depoimento dos discípulos de Emaús, e vendo Jesus aparecer diante deles, ficaram assustados e cheios de medo. Jesus falou com eles, mostrou as mãos e os pés, deixou-se tocar, ainda assim não acreditaram, a ponto do próprio Senhor lhes censurar porque estavam preocupados e tinham dúvidas no coração.

Em uma audiência diante de um tribunal, essas testemunhas seriam no mínimo desastrosas, dá até para imaginar o diálogo “Vocês viram Jesus ou não?”. “Não sabemos Meritíssimo, se realmente era ele, parecia um fantasma, a gente o viu e o tocou, ele até comeu um peixe assado, pode ser que seja ele mesmo”. Que “belo testemunho”, não afirma e nem confirma...

No final do evangelho, Lucas afirma que Jesus abriu a inteligência dos discípulos, para entenderem as escrituras. O pensamento humano tem uma tampa, um limite aonde chega a lógica humana depois de investigar e estudar muito alguma questão; dali para frente, há um mistério que só pode ser compreendido por aquele que crê, ou seja, ler as escrituras apenas com a nossa inteligência, fechada no horizonte humano, não vamos entender coisa alguma. Mas se as lermos na perspectiva de Jesus de Nazaré, sua vida, sua história, sua morte e ressurreição, iremos compreender o sentido da vida, porque nele encontramos o nosso verdadeiro DNA, a nossa origem e o nosso fim, em Cristo mergulhamos ao encontro daquele que é a Vida em toda sua plenitude, pois nele fomos recriados, mudou-se a referência.

Herdamos sim, o pecado original de Adão e Eva, mas agora já sabemos a verdade, não há possibilidade de a serpente nos enganar, pois conhecemos aquele que é mais Poderoso e Sábio do que a serpente, nós conhecemos aquele que esmagou o mal com a sua morte e ressurreição, não há duas alternativas, só uma e apenas uma, para quem desejar a Salvação: Jesus Cristo, o Filho de Deus!

Adão e Eva não sabiam o que iria lhes acontecer, não tinham ainda uma referência. Nós temos: Jesus é alguém da Trindade que se fez homem, que se faz ouvir, que se deixa tocar, que senta conosco em uma mesa e faz uma refeição, coloca todas as cartas na mesa, abre o jogo, nada esconde como o tentador e enganador. Joga às claras, ele é a luz do mundo, o único caminho e a única verdade, Ele só não pode decidir por nós, por isso o seu reino e o seu projeto de vida nos são apresentados como uma proposta, cabendo a nós usarmos o livre arbítrio para aceitá-lo ou recusá-lo.

É esse Jesus Cristo Alfa e Ômega, princípio e fim, Senhor absoluto da História e Salvador do Homem, que nos congrega como Igreja, que nos lava de nossas culpas e nos redime dos nossos pecados, que faz de nossas comunidades um pedacinho do céu prometido, mais ainda, conhecendo nossas fraquezas e limites, sabendo que temos muitas dúvidas no coração, nos alimenta com a eucaristia, fala em sua santa palavra, abrindo a nossa inteligência com o seu espírito que vem do alto.

Embora não sejamos confiáveis para serem suas testemunhas, ele mesmo nos qualifica: nossas palavras nunca caem no vazio, pois é ele próprio que fala, e nós, tocados pela graça da eucaristia, conseguimos superar os limites na nossa relação com o próximo, e se quisermos, o nosso amor será sem limites como o de Jesus, basta aceitar e querer. Isso se chama santidade de vida, que permite o entrelaçamento em nós, do humano e divino, aquele que é santo, aceita participar da nossa vida, mesmo com os seus limites e fragilidades.

Uma vez encarnado em Maria de Nazaré, Jesus se encarna de novo em cada homem, e em cada mulher, que esteja disposto a acolhê-lo, para fazê-lo nascer nos corações de outros homens e mulheres, que ainda não o conhecem, é aí que acontece o testemunho, onde o amor é imprescindível!

“Nisso reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Qualquer outro testemunho ou revelação, que não trouxer a exigência do amor a Deus e ao próximo, é falso e não será digno sequer de atenção.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 3º Domingo de PáscoaANO B

“As Sagradas Escrituras vistas desde Cristo”

Que alegria! Voltar a ver o Mestre. Foram os discípulos de Emaús que disseram: “não se nos abrasava o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32). Quando eles ainda estão conversando sobre o que tinha acontecido com eles no caminho, Jesus aparece e lhes deseja a paz; ele continua a explicar-lhes sem interromper o argumento: “Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o quede mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (Lc 24,44).

Observe-se o seguinte: Jesus fala com eles recordando-lhes diretamente as profecias do Antigo Testamento e, indiretamente, as maravilhas de Deus outrora operadas. Isto é, as grandes obras que Deus operou noutros tempos continuam sendo uma referência para falar do Messias Salvador, que é Jesus Cristo. Contudo, o Antigo Testamento ganha todo o seu esplendor somente quando interpretado desde Cristo, é ele quem faz a interpretação das antigas escrituras de Israel. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que “Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo, e o Antigo se tornasse claro no Novo” (DV 16). Na verdade, toda a Bíblia só tem sentido como revelação divina em Cristo e na Igreja. Desvincular a Escritura Sagrada de Cristo e da Igreja é transformá-lo num mero livro de literatura. Neste caso, eu não sei se ela teria muito êxito.

O católico deveria ler mais as Sagradas Escrituras; desconhecê-la é ignorar Jesus Cristo, já que a Bíblia dá testemunho de Jesus Cristo. Mas, lembremo-nos: ela deve ser entendida em Cristo e na Igreja.

O que se quer dizer com isso? Explicando-o de maneira negativa: não se deve fazer uma interpretação livre da Bíblia que vá contra o seu sentido verdadeiro no contexto de uma autêntica interpretação. De maneira positiva, deve-se afirmar que a Bíblia deve ser entendida no seu contexto, que é essencialmente um ambiente de fé e eclesial. Não nos esqueçamos que a Bíblia é fruto da Tradição: Jesus pregou, os apóstolos pregaram; tão somente depois foi colocado por escrito a pregação de Jesus e dos Apóstolos.

As pessoas que fazem livres interpretações da Bíblia, só que à margem da interpretação autêntica da Igreja Católica, acabam, de uma maneira ou outra, criando o seu próprio universo bíblico, que não é o de Cristo. Daí que há tantos cristãos com a mesma Bíblia e ao mesmo tempo há tantas denominações cristãs, as quais, frequentemente, brigam entre si. Isso é muito feio! A divisão entre os cristãos é um escândalo que provoca a incredulidade ou pelo menos não ajuda os outros a aproximarem-se da fé em Cristo.

Mas, porque há tantas interpretações da Bíblia e, simultaneamente, tantas “igrejas”? “Tantas cabeças, quantas sentenças!” Cada um quer manter a sua opinião, o seu parecer. Por minha vez, gosto de pensar que a Igreja Católica é como uma mãe, daquelas que já estão bem velinhas, mas com uma jovialidade digna de ser invejada por qualquer menininha de 15 anos. A idade da Igreja? Somente 2000 anos. A sua experiência é vastíssima: conhece muito bem aquelas coisas que se referem a Jesus Cristo, conhece melhor ainda aquelas coisas que se referem ao ser humano, viveu por entre derrotas de impérios e reis, sobreviveu a ataques ocultos e manifestos… Enfim, nada nem ninguém pode contra a Igreja Católica, pois Jesus quer que ela chega à escatologia. Agora eu pergunto: como se pode ir contra a autoridade de alguém que tem 2000 anos de experiência e que só nos ensina o caminho do bem, da verdade e do amor?

Nós, os católicos, temos resposta para qualquer pergunta. Pena que o cristão, frequentemente, não se preocupa em ser formado, em ler, em conhecer a Sagrada Escritura. No caso de que viesse a desviar-se, talvez colocaria a culpa nessa Mãe bondosa que é a Igreja e que só tem buscado o seu bem dando-lhe a verdade que é Cristo.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 3º Domingo de Páscoa — ANO B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (1Jo 2,1-5ª)

INTRODUÇÃO: Esta parte é uma censura contra os gnósticos, cuja ética se reduzia ao conhecimento, sem que as obras fossem parte da moral para uma união com Deus definitiva, na qual consistia a felicidade última, ou se quisermos, a salvação. Não basta conhecer, é necessário guardar os mandatos, pois nisto consiste o amor de Deus, que deve ser perfeito para nEle estar em união e gozar de sua vida. O pecado, a transgressão dos mandatos, é a maior oposição a esse amor. Não devemos pecar; mas caso o fizermos temos um advogado [paraklëtos] defensor, que é Jesus Cristo, o qual é expiação ou se oferece como pagador pelas dívidas devidas aos pecados de todo o mundo. Não guardar os mandatos divinos é não conhecer a Deus, porque a perfeição é precisamente observar os mesmos. Nesta linha, o apóstolo dirá que quem permanece em Deus não peca; e, portanto, quem peca nem O viu nem O conhece (3,6). O pecado é próprio do diabo, que foi desde seu início pecador. O nascido de Deus não pode pecar porque tem nele a semente divina, contrária ao pecado. Este trecho, como em geral a carta, foi escrito contra duas heresias: os antinomos [contrários à Lei] que afirmavam que só a fé era suficiente, podendo viver como quiser; e os perfeccionistas que afirmavam que o pecado estava tão destruído que era como um câncer extirpado de modo que toda ação de um fiel não era pecado ao estilo dos perfeitos albigenses do século XII ou quietistas de Miguel de Molinos do século XVII.

     O ADVOGADO: Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis e se alguém pecar temos um advogado junto ao Pai Jesus Cristo [o] justo(1). Filioli mei haec scribo vobis ut non peccetis sed et si quis peccaverit advocatum habemus apud Patrem Iesum Christum iustum. Como em toda exortação, que é uma pequena reprimenda, João usa palavras suaves chamando seus leitores de FILHINHOS [teknia<5040>=filioli]. A palavra é um diminutivo de teknon<5943>= filho em sentido amplo como pode ser um adotado. Teknion é a palavra predileta de João; Aparece uma vez nos evangelhos e precisamente no evangelho joanino; e, com a exceção de Gl 4, 19 em Paulo, as outras 7 vezes unicamente nesta carta de João. PEQUEIS [amartëte <264>=peccetis] é o aoristo subjuntivo do verbo amartanö, fazer o mal, pecar, como em 1 Cor 7, 28: Mas, se te casares, não pecas; e, se a virgem se casar, não peca. Esse pecado pode ser contra Deus, como recitamos no Pai Nosso (Mt 6, 12); ou pecado contra o próximo (Mt 18, 15: se teu irmão pecar contra ti); ou contra si mesmo (1 Cor 6, 16: Fugi da prostituição. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo); ou contra a lei (At 28, 5: Paulo, em sua defesa, disse: Eu não pequei em coisa alguma contra a lei dos judeus, nem contra o templo, nem contra César). O pecado é substancialmente desobediência, como foi o primeiro de Adão: Pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos (Rm 5, 19). ADVOGADO [paraklëtos <3875>=advocatus], o grego significa advogado, intercessor, ajudante, e unicamente este vocábulo é usado por João 4 vezes no evangelho e uma nesta carta. Nas 4 vezes que aparece no evangelho a Vulgata conserva o grego [paracletus] e unicamente na carta traduz por advocatus, mas tenhamos em conta que aqui o paraklëtos não é o Espírito Santo, mas Jesus. Ele é o defensor dos pecadores, ou como diz Paulo, o intercessor: Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós (Rm 8, 34). O que é confirmado em Hb 7, 25. JUSTO [dikaios<1342> =iustus], a palavra dikaios significa homem que observa a lei como era José, esposo de Maria (Mt 1, 19). Na linguagem bíblica justo é oposto a pecador como em Mt 9, 13; eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. Serão assim chamados os salvos que estão à direita do juiz no último dia (Mt 25, 37). Pelo que respeita ao evangelho de João, temos 3 versículos em que entra a palavra dikaios: 5, 30 7; 5,24 e 17, 25. O último se refere ao Pai: Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. Nesta epístola o epíteto é dirigido a Jesus em três ocasiões: Esta de 2,1; em 2, 29 e 3,7 todas elas diz respeito à bondade de Cristo, como regra em que nossa conduta deve ser medida, ou bondade que olha o pecador com olhos de misericórdia, pelo que na continuação escreve na carta.

 PROPICIAÇÃO: Porque ele é propiciação por nossos pecados, não só, porém,  dos nossos, mas também pelos de todo o mundo (2). Et ipse est propitiatio pro peccatis nostris non pro nostris autem tantum sed etiam pro totius mundi. PROPICIAÇÃO [ilasmos <2434> =propitiatio] é expiação, ou seja, sacrifício pelos pecados, apaziguamento, conciliação. O termo é próprio de João nesta carta e só o encontramos de novo em 4, 10: Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.  É a palavra usada em 2 Mc 3, 33: Enquanto o Sumo Sacerfote oferecia o sacrifício de expiação [ilasmon] apareceram a Heliodoro os mesmos jovens [dois anjos]. Paulo prefere ilastërion (Rm 4, 25) assim como Hb 9, 5: Sobre a arca os querubins da glória, que faziam sombra no propiciatório. O mesmo autor explica qual é esta expiação: Convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar  [ilaskesthai] os pecados do povo. E Paulo estende esta propiação a todo o mundo. De alguma maneira que não conhecemos, a expiação, que é pagamento pelo mal causado, chega a todos os homens. A uns para salvação, a outros para diminuir o castigo temporal, ou em qualidade ou intensidade, o eterno e sempre pelos pecados.

     VERDADEIRO CONHECIMENTO: E nisto sabemos que o temos conhecido, se guardamos os seus mandatos (3). Et in hoc scimus quoniam cognovimus eum si mandata eius obs ervemus. SABEMOS [ginöskomen<1097>=scimus] presente do verbo ginöskö, de significado saber, conhecer, entender, perceber, realizar, reconhecer, apreciar; e em sentido metafórico, ter relações sexuais. A frase, ao repetir o mesmo verbo [ginoskö], deve ter o significado que encontramos em Jr 31, 34: Não ensinará mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: Conhecei o SENHOR; porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR; porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados. É, pois, ter um trato íntimo com Deus como amigo e senhor, ao mesmo tempo. Jesus dirá em Jo 10, 14: Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido  Por isso, João fala de que o verdadeiro conhecimento de Deus consiste em observar seus mandatos ou mandamentos. Como dirá mais tarde, o critério de que verdadeiramente conhecemos Deus, é o amor: Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor (4,8). Pois quem está em amor está em Deus, e Deus nele (4,16). E é precisamente a prática desse amor, a caridade com o próximo, que distingue o verdadeiro do falso discípulo de Cristo: Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo 13, 35). E nesta carta afirma: Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. A importância do verbo ginoskö nos escritos joaninos é clara: mais de 40 vezes no evangelho e 21 nesta pequena carta. Indica a unidade de autor dos dois escritos sagrados.

O MENTIROSO: Aquele que diz que o conheceu e que não guarda seus mandatos é mentiroso e nele não existe verdade (4). Qui dicit se nosse eum et mandata eius non custodit mendax est in hoc veritas non est. MENTIROSO [pseustës <5583>=mendax]. Mentir é dizer o contrário do que se pensa. Para conhecer o amor é preciso amar; e amar é conhecer verdadeiramente o nosso Deus; aí temos o amor autêntico: Não pode existir contradição entre a palavra amor e o fato de amar, que é guardar os mandatos divinos. Com a mesma segurança que afirma que se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós (1 Jo 1, 8), o apóstolo declara que se dissermos que temos comunhão com Ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade (1, 6). E termina com um argumento fácil de compreender: Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu [que está presente], como pode amar a Deus, a quem não viu [que é ausente]?(4,20).

     A PERFEIÇÃO: Aquele, pois, que guardar sua palavra, verdadeiramente nele o amor de (o) Deus tem sido aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nEle (5). Qui autem servat verbum eius vere in hoc caritas Dei perfecta est in hoc scimus quoniam in ipso sumus. No seu evangelho, João declara as mesmas ideias: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele (Jo 14, 21). E também: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada (idem 23). APERFEIÇOADO [teteleiötai<5048> =perfeito] é o indicativo perfeito passivo do verbo teleioö com o significado de completo, acabado, perfeito, terminado, como em Jo 4, 34: Jesus declarou: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e terminar a sua obra. É por isso que nesta carta o apóstolo conclui: Se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor. Nisto conhecemos que estamos nEle, e Ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito (1 Jo 4, 12-13). Assim, João afirma que a perfeição consiste no amor, de modo que sejamos templos do Espírito de Deus. Se outra deidade ou amor se apodera de nosso coração somos como idólatras que adoramos um outro deus que pode ser o dinheiro (Mt 6, 24), o egoísmo, o bem-estar ou a honra como era o caso dos fariseus, que amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas, e as saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.  (Mt 23, 6-7). S. José de Calasanz em suas constituições disse que a perfeição da vida cristã está no amor. E até que este amor não seja perfeito não entraremos no Reino definitivo. O contrário do Inferno em que o amor próprio será quem rejeita Deus até imperar o ódio a todo bem, que não é verdadeiro fora de Deus, e como Deus é o único bem completo (Mc 10, 18) a Ele odeiam de modo especial e definitivo. Como vemos, há uma lógica permanente entre os ensinamentos de Jesus e as declarações de seus discípulos: é a razão iluminada pela fé, que no mundo intelectual de alguns teólogos com o vírus germânico – como diz um autor – se transformou na fé iluminada pela razão.

EVANGELHO (Lc 24, 35-48) - APARIÇÃO AOS DISCIPULOS EM JERUSALÉM
Lugares paralelos: (Mt 28, 16-20; Mc 16, 14-18 e Jo 20, 19-23)

O evangelho é continuação do episódio dos dois discípulos de Emaús, que estão contando sua experiência ao grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém. É surpreendente que dentro da conversa os outros discípulos estavam conformes em acreditar na ressurreição de Jesus porque este tinha sido visto por Pedro (Lc 24, 34). E então, diante de um grupo propenso a admitir a verdade sem ter visto as provas, mas só pelo testemunho dos videntes, é que Jesus aparece. E é precisamente nesta visão que deveria ser esperada que o discípulos acreditam ver um fantasma. Por que? A explicação é dada por João no seu evangelho: As portas estavam trancadas e embora admitissem Jesus ressuscitado não pensavam que ele podia atravessar muros e portas. Além disso, a aparição foi instantânea, como claramente o indica João e afirma Lucas ao dizer que esteve no meio deles [estê en mesô autôn], um aoristo de ação repentina que a bíblia de Jerusalém traduz apropriadamente por se apresentou no meio deles, e que temos traduzido por ficou de pé no meio deles, como o latim registra: stetit. Segundo Lucas, a finalidade da aparição é 1º) acabar com as dúvidas sobre sua ressurreição; 2º) confirmá-los na certeza de que Jesus cumpriu perfeitamente os planos divinos, profetizados desde Moisés através de todos os profetas, especialmente sobre sua paixão e ressurreição; 3º) que eles estavam designados a proclamar o perdão dos pecados a todas as nações em seu nome; 4º) e finalmente, que de tudo isso eles deveriam se tornar testemunhas. Podemos dizer que Lucas resume numa única aparição e em poucos parágrafos o que talvez tivesse acontecido em circunstâncias diversas. Vamos explicar passo a passo o evangelho de hoje.

A NARRAÇÃO: E eles declaravam as coisas do caminho e como foi conhecido por eles na fração do pão (35).  Et ipsi narrabant quae gesta erant in via et quomodo cognoverunt eum in fractione panis. Os dois diziam, ou melhor, interpretavam, pois esse é o sentido do verbo exêgeomai, quando alguma divindade tinha falado ou revelado alguma verdade. O sentido era que, não unicamente, narravam como tinham conhecido o Ressuscitado, mas, o sentido das palavras reveladoras sobre a paixão e morte que foram explicadas como necessárias pelo viajante, que no caminho os acompanhou. A outra revelação era de que eram intérpretes de como foi a fração do pão, que foi a razão de entender quem realmente era o companheiro de viagem. Sem dúvida que Jesus quis ressaltar o sacramento da Eucaristia que foi chamado de fração do pão, no início, como diz o livro dos Atos em 2, 42 em que o texto grego traz a mesma palavra Klasis. Essa comunhão de comida e bebida é logo ressaltada no final deste evangelho quando Jesus pede alguma coisa para comer.

A APARIÇÃO: Falando, pois, estas coisas ele, Jesus, se apresentou no meio deles e diz a eles: paz para vocês (36). Dum haec autem loquuntur Iesus stetit in medio eorum et dicit eis pax vobis ego sum nolite timere. Nada a comentar a não ser o dito no domingo anterior sobre o fato de se apresentar Jesus com as portas fechadas, como diz João. A paz era uma saudação comum neste caso.

A REAÇÃO: Tendo ficado, portanto, espantados [ptoêthentes] e temerosos, pensavam ver um espírito (37). Conturbati vero et conterriti existimabant se spiritum videre. O verbo ptoetheô indica espanto, susto, perturbação. Além desse espanto como temos traduzido, o ânimo dos discípulos encheu-se de medo: a razão é que pensavam ser um espírito a figura que viam diante deles. Espírito que não se diferenciava de um fantasma. Era a mesma reação que tiveram quando viram Jesus caminhando sobre as águas (Mt 14, 26 e Mc 6, 49). O verbo é unicamente empregado por Lucas numa outra ocasião em 21, 9 ao ficarem aterrorizados ou atemorizados por causa das guerras e subversões anteriores à destruição de Jerusalém. O medo, pois, dominava todos eles e a razão é que pensavam fosse um espírito ou um fantasma. No caso do lago, o medo fez com que eles gritassem. Agora o medo paralisou a reação até que Jesus os acalmou com suas palavras.

JESUS OS TRANQUILIZA: E disse a eles: Por que estais perturbados e qual a causa de que surjam hesitações nos vossos corações? (38). Et dixit eis quid turbati estis et cogitationes ascendunt in corda vestra? Era uma reprimenda e ao mesmo tempo uma solução para os problemas suscitados pela dúvida e depressão dos últimos acontecimentos. Podemos ler a resposta de Jesus dada aos de Emaús: insensatos e lentos de coração [duros de cabeça] para crer tudo que os profetas anunciaram!

A PROVA: Vede minhas mãos e meus pés; porque eu mesmo sou! Apalpai-me e vede porque um espírito carne e ossos não têm, como me vedes tendo (39). Videte manus meas et pedes quia ipse ego sum palpate et videte quia spiritus carnem et ossa non habet sicut me videtis habere. Temos traduzido muito literalmente o grego. Estas palavras indicam que Jesus se apresentou como um homem normal com as mesmas características que tinha na vida mortal que os discípulos tão bem conheciam. Daí oti autos egô eimi que podemos traduzir livremente por sou o mesmo que vocês conhecem, não é outra pessoa a que estais vendo. E em vista disso, anima-lhes a apalpar seu corpo e a ver mãos e pés que estavam com os sinais das chagas. Se estas palavras têm algum sentido histórico, ele é o de manifestar que Jesus está vivo, que a morte não o venceu, que a vida do além pode ter momentos em que se parece com a vida anterior, como se esta seguisse e aquela fosse uma continuação. Sobre o modo de pensar de alguns teólogos que dizem que a ressurreição é uma forma de vida só espiritual, vemos como Jesus se manifesta em corpo vivo e que não existe sentido em afirmar que só o espírito vive e o corpo como que se destrói e não alcança a nova vida. Como diz o catecismo é impossível interpretar a ressurreição de Cristo fora da ordem física e não reconhecê-la como um fato histórico…. Pois o corpo ressuscitado é o mesmo que foi martirizado e crucificado,  pois ainda traz as marcas de sua Paixão… Não constitui uma volta à vida terrestre… como foi o caso de Lázaro, pois seu corpo possui propriedades novas que o situam além do tempo e do espaço…ele passa de um estado de morte para uma outra vida, participando da vida divina no estado de sua glória de modo que Paulo pode chamar a Cristo de o homem celeste.

A DEMOSTRAÇÃO: E tendo dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés (40). Et cum hoc dixisset ostendit eis manus et pedes. Lucas resume, numa única aparição, as duas que João narra em domingos alternados. Lucas também amplia a descrença e a dúvida ao conjunto, o que parece não ser totalmente conforme com a realidade, segundo vemos em Mateus 28, 17 onde lemos que alguns duvidaram. Para João, o incrédulo foi Tomé, o Dídimo [gêmeo] e a este mostrou mãos e costado. A explicação é que João foi o único que esteve presente à crucifixão e ao enterro e sabia da ferida do costado. É lógico que Lucas falasse de pés e mãos por desconhecer a ferida do lado que não era detalhe comum entre os condenados à cruz.

AINDA INCRÉDULOS: Ainda, pois, não crendo eles pela alegria e estando maravilhados, disse a eles: tendes comida aqui? (41). Adhuc autem illis non credentibus et mirantibus prae gaudio dixit habetis hic aliquid quod manducetur. Parece que nem todos acreditaram mesmo vendo as feridas, ou pensavam que era Jesus em espírito ou como um fantasma, mas não como uma realidade. Aquele que viam era Jesus, porém, não como um ente corpóreo mas como um ente espiritual, como um fantasma. O verbo thaumazô indica tanto admiração como assombro, maravilha, enfim um trauma que impede racionar corretamente e ver as coisas com a inteligência. Estavam absortos, sem poder reagir de modo racional. Por isso, Jesus apela à última razão: os espíritos não comem, porque não têm corpo. E ele tinha corpo; por isso ele mostrou sua realidade corporal, pedindo comida que lhe foi oferecida de imediato.

A COMIDA: Então eles lhe entregaram uma parte de peixe cozido e de um favo de mel (42). At illi obtulerunt ei partem piscis assi et favum mellis. E havendo tomado, na vista deles, comeu (43). Et cum manducasset coram eis sumens reliquias dedit eis. Como vemos, o latim diz que Jesus não terminou a comida, mas deixou parte da mesma. Não era a intenção saciar uma fome, mas demonstrar uma realidade da qual os discípulos podiam duvidar. O favo de mel falta nalguns manuscritos assim como tomando as sobras lhas deu a eles como aparece no latim. Não só com essa ação demonstrou Jesus a sua corporeidade aos discípulos, mas também a todos os que querem ler os evangelhos como uma tradição da Igreja e do que esta pensava e sentia nos primeiros momentos. Os discípulos estavam certos de que Jesus tinha um corpo e não era puro espírito.

A JUSTIFICAÇÃO: Então lhes disse: estas mesmas [são] as palavras que falei diante de vocês quando ainda estava com vocês: que era necessário se cumprissem todas as [coisas] escritas na lei de Moisés e nos profetas e nos salmos acerca de mim (44). Et dixit ad eos haec sunt verba quae locutus sum ad vos cum adhuc essem vobiscum quoniam necesse est impleri omnia quae scripta sunt in lege Mosi et prophetis et psalmis de me. Com esta afirmação Jesus se afirma na ideia de que ele estritamente cumpriu as Escrituras, que antes de sua paixão já tinha explicado a seus discípulos. Esta divisão tríplice das Escrituras é a única que encontramos nos evangelhos. Com isso Jesus indica que não há parte da Escritura que não dá testemunho de Jesus. Eram profecias escritas na lei de Moisés [Pentateuco] nos Profetas [livros históricos, sapienciais e profetas propriamente ditos] e nos Salmos [livros litúrgicos]. Em definitivo, toda a Escritura. Com isso, Jesus se distancia dos saduceus e dos samaritanos, que só admitiam como Escritura autêntica o Pentateuco. A dúvida é em que passagem de Moisés, entendido como o autor do Pentateuco, está escrita sobre Jesus e sua paixão. A resposta é dada por Pedro: Moisés falou: Deus vos suscitará dentre os vossos irmãos um profeta semelhante a mim; vós o ouvireis em tudo o que ele vos disser. E todo aquele que não escutar esse profeta, será exterminado do meio do meu povo (At 3, 22-23). Por isso, nos evangelhos lemos várias passagens em que se diz que de Jesus escreveu Moisés (Lc 24, 27; Jo 1, 45 e 46 e 5, 46). Evidentemente o escrito de Moisés é sobre o novo profeta que seria como ele foi: o legislador. A lei de Jesus, segundo Jo 1, 17, era contra a lei mosaica, uma oferta de graça e verdade, ou seja, de amor e de fidelidade [logicamente da parte de Deus por meio de Jesus]. Moisés essencialmente falou desse novo povo que devia escutar Jesus como escutou em seu dia, Moisés. E o exemplo de Moisés que içou a serpente no deserto é o modelo de Jesus levantado na cruz. Segundo os padrões da época esse exemplo que entrava dentro dos haggadoth [parte integrante do Talmud como narrações ilustrativas da Lei] era uma profecia da morte de Jesus para salvar todo o povo que a ele olhasse no meio de suas angústias de morte. Um outro exemplo era o maná que Moisés usou para alimentar os hebreus no deserto. Também Jesus, e por duas vezes, no deserto alimentou o povo multiplicando pães e peixes (Mt 14, 13-21 e 15, 32-38) e dessa multiplicação Jesus tirará uma consequência baseada em Moisés para afirmar que o verdadeiro pão do céu era sua própria pessoa descida do céu e transformada em comida e bebida (Jo cp 6). Pelo que diz respeito aos profetas, o servo de Isaías sofredor é o melhor exemplo de Jesus nos capítulos 52 e 53. E os salmos, basta ler o salmo 22. Alguns autores, levados de um espírito moderno, pensam que as referências de Moisés e demais livros devem ser claras. Se olharmos para os discursos dos primeiros apologistas, como Pedro e Estêvão, vemos como tanto Jesus como os fariseus admitiam como provas evidentes o que nós poderíamos chamar de indícios insuficientes. Tal o caso de Deus disse: sois deuses, do salmo 82, 6, que Jesus aplica ao seu caso em Jo 10, 34. Segundo estimativas dos estudiosos, nos evangelhos existem não menos de 300 referências ou citações do AT. É a mesma justificação que o caminhante deu aos discípulos de Emaús.

JESUS MESTRE: Então abriu a mente deles para entenderem as Escrituras (45). Tunc aperuit illis sensum ut intellegerent scripturas. A presença de Jesus não vinha unicamente confirmar na fé, mas também demonstrar os planos divinos abrindo os olhos dos discípulos para a realidade verdadeira dos mistérios que se encerravam na morte e ressurreição de Jesus. Desses novos ensinamentos saíram os discípulos, propondo uma visão do alto dos acontecimentos em Jerusalém nos últimos dias. Pedro argumenta com os salmos 16 e 110. E é esquisito ver como eles, que não eram doutos nas Escrituras, agora as usam com extrema maestria para provar que Deus constituiu Senhor e Cristo a esse Jesus que tinham crucificado (At 2, 36).

A BASE: E disse a eles que assim estava escrito e assim convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos no terceiro dia (46). Et dixit eis quoniam sic scriptum est et sic oportebat Christum pati et resurgere a mortuis die tertia. São três afirmações que estavam contidas nas profecias do AT: Padecer como servo, segundo lemos em Isaías, como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado (Is 53, 4), após a detenção e julgamento, cortado da terra dos vivos (Is 53, 8). Deram-lhe sepultura ente os ricos (Is 53, 8). Após o trabalho fatigante de sua alma ele verá a luz e se fartará (Is 53, 11). Sobre a ressurreição, não abandonarás minha vida no sheol, nem deixarás que teu fiel veja a corrupção (Sl 16, 8). Os judeus afirmavam que a corrupção e, portanto, a alma [nefesh] abandonava o corpo três dias após a morte. Logo esta afirmação de não deixar ver a corrupção equivalia a estar vivo aos três dias. Este versículo constitui a base do evangelho. Isso é o que eles deviam ensinar como testemunhas do novo século ou Eón.

O KERIGMA: E serem anunciados em seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as gentes a começar por Jerusalém (47). Et praedicari in nomine eius paenitentiam et remissionem peccatorum in omnes gentes incipientibus ab Hierosolyma. De fato, no primeiro discurso de Pedro, este retoma o assunto da conversão e do perdão dizendo: Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados (At 2, 38). Teremos que voltar a esse discurso de Jesus e a seu eco em Pedro para encontrar a verdadeira essência do cristianismo. Este exige uma parte do homem que é a sua intenção de mudar de conduta, aceitando como norma, não a sua, mas a divina; e por outra parte oferece uma ampla dádiva divina: o perdão absoluto, sem mais condições, como é oferecido no batismo.

TESTEMUNHAS: Portanto vós sois testemunhas destas coisas (48). Vos autem estis testes horum.  Esta é a razão das aparições de Jesus: o testemunho que deviam dar seus discípulos de que ele estava vivo e, portanto, ressuscitado. Com esta última afirmação de Jesus vemos a realidade da escolha, da vida em comum e da maneira de proclamar Jesus ao mundo inteiro: Os ministros do kerigma são testemunhas da Ressurreição. Por isso, os modernos teólogos que põem em dúvida aspectos da mesma como a reduzindo a uma vista interior sem materialização, ou ao sepulcro vazio, são o oposto dos apóstolos, diretos seguidores de Jesus.

PISTAS:

1) É de se supor que este aparecimento é um compêndio dos dois que João narra em diferentes domingos consecutivos no capítulo 20. As diferenças que temos mostrado indicam que as fontes foram diferentes. As convergências no dia e hora, na súbita entrada, na amostra das chagas, e na paz como saudação expressa, indicam que o fato foi visto por várias testemunhas e que os relatos variam por serem várias as fontes e diferentes os objetivos, ressaltando um ou outro detalhe segundo impressões e intenções pessoais.

2) O relato, com as palavras de surpresa e de temor, indica que uma coisa é acreditar em relatos de outros e outra muito diferente ver os fenômenos que não são nem frequentes, nem naturais. Em todos os relatos de visões sobrenaturais do mundo moderno, como Fátima, vemos que o temor acompanha sempre o sobressalto da aparição.

3) O convite a tocar e não só ver indica que o corpo presente diante deles tinha aspectos físicos ou que podiam se conformar às leis físicas, à vontade do ressuscitado. As feridas muito mais do que o rosto eram as marcas que determinavam, em definitivo, a realidade da pessoa na frente deles. Se faltava alguma prova para se certificar de que aquilo era real, comeu uma porção de peixe. Parece que o evangelista queria refutar toda dúvida possível. Mesmo assim existem muitos como Tomé, aqui evocado, não como apóstolo, mas como incrédulo. Por isso, podemos afirmar que existem muitos, como Tomé, que não acreditam porque não têm visto.

4) Diante do escândalo da cruz que na época era muito maior do que nos dias de hoje, além da sua presença era necessário que Ele provasse ser tudo conforme às Escrituras. Os caminhos de Deus consistem,  como afirmava Paulo, em mostrar sua sabedoria e fortaleza no que é loucura e fraqueza para os homens (1 Cor 1, 25). Daí que a maior esperança seja a dos mais necessitados: Bemaventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus (Lc 6, 20).

5) É inacreditável ver como os modernos críticos falam da pedra arrancada e do sepulcro vazio como fatos  históricos e os aceitam como tais; mas quando se trata das aparições dizem que não são fatos históricos e os rejeitam, embora fossem escritos pela mesma pena e o mesmo escritor. São fatos experimentais que cada um pode sentir, segundo sua própria mentalidade. Mas tocar, comer, entram em uma experiência íntima ou podem ser admitidos como históricos?


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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