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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com (157)

. Evangelho de 27/03/2016 - Domingo de Páscoa e da Ressurreição do Senhor
. Evangelho de 20/03/2016 - Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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27.03.2016
Domingo de Páscoa e da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo — ANO C
( BRANCO, GLÓRIA, SEQUÊNCIA, CREIO, PREFÁCIO DA PÁSCOA I – I SEMANA DO SALTÉRIO )
__ Feliz Páscoa - Festa da Ressurreição __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: É Páscoa. A vida venceu a morte. A liturgia deste domingo celebra a ressurreição e garante-nos que a vida em plenitude resulta de uma existência feita dom e serviço em favor dos irmãos. A ressurreição de Cristo é o exemplo concreto que confirma tudo isto. Dentro de nossas experiências de morte, acolhemos com alegria o vibrante anúncio da ressurreição. Em diálogo amoroso com o Ressuscitado, somos por Ele alimentados e, como novas criaturas, assumimos a missão de testemunhas da vida nova e da paz.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Como diz o salmo 117(118), este é o dia que o Senhor fez para nós; alegremo-nos, pois, e nele exultemos. A vida venceu a morte! O Cristo ressuscitou! Celebremos, então, o Domingo da Páscoa como a Eucaristia mais jubilosa da liturgia cristã.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Hoje ressoa na Igreja o anúncio pascal: Cristo Ressuscitou; ele vive para além da morte; é o Senhor dos vivos e dos mortos. Na "noite mais clara que o dia" a palavra onipotente de Deus, que criou os céus e a terra e formou o homem à sua imagem e semelhança, chama a uma vida imortal o homem novo, Jesus de Nazaré, Filho de Deus e Filho de Maria.

Sintamos o júbilo real de Deus em nossos corações e cheios dessa alegria divina entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Atos 10,34.37-43): - "Ele nos mandou pregar ao povo e testemunhar que é ele quem foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos."

SALMO RESPONSORIAL (Sl 117/118): - "Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!"

SEGUNDA LEITURA (Colossenses 3,1-4): - "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus."

EVANGELHO (João 20,1-9): - "Em verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos."



Homilia do Diácono José da Cruz — Domingo de Páscoa — ANO C

"O SENTIDO VERDADEIRO DA PÁSCOA"

A palavra Páscoa tem sua origem no hebraico “Pascha” que significa passagem, e no Judaísmo está contextualizada no fato histórico ocorrido em 1250 A.C que foi a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. A narrativa encontra-se no livro do Êxodo, que pertence ao Pentatêutico, conjunto dos cinco primeiros livros da Sagrada Escritura, cuja autoria é atribuída a Moisés. O ritual da páscoa judaica segue as determinações dadas pelo próprio Deus ao Sacerdote Aarão conforme Êxodo 12, 1-8.11-14 e o fato histórico, com esse caráter religioso, tornou-se para o Povo um memorial da noite em que Deus os libertou da escravidão do Egito, através de Moisés, derrotando o império do Faraó.Anteriormente a páscoa era uma Festa dos Pastores, que comemoravam a passagem do inverno para a primavera quando por ocasião do degelo, e surgindo a primeira vegetação à luz do sol, os animais deixavam suas tocas, sendo essa a origem do Coelhinho da Páscoa e do ovo, que ao ter a sua casca quebrada deixa romper a vida que há dentro dele.

A libertação do Povo da escravidão do Egito é o acontecimento mais importante na tradição religiosa de Israel que o tornou um memorial celebrado no ritual judaico, preceito estabelecido pelo próprio Deus, muito rico em sua simbologia.Trata-se de uma refeição feita em pé, com os rins cingidos, sandálias nos pés e o cajado na mão, como quem está de partida “comereis as pressas, pois é Páscoa do Senhor”. O sangue do Cordeiro imolado irá marcar o batente das portas dos que iriam ser salvos do anjo exterminador, e as ervas amargas lembram a escravidão e o sofrimento que o povo passou.

Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José, tendo passado pelo rito iniciático do Judaísmo, freqüentava o templo e a sinagoga, como qualquer judeu fervoroso. Não era sua intenção fundar uma nova religião, mas sim resgatar a essência na relação dos homens para com Deus, que o judaísmo havia perdido por causa do rigorismo do seu preceito e dos seus ritos purificatórios. O fenômeno do messianismo era muito comum naquele tempo, como hoje quando surgem a cada dia novos pregadores em cada esquina, mas somente Jesus é o verdadeiro e único messias, aquele que fora anunciado pelos profetas, o Ungido de Deus, descendente da estirpe de Davi, o grande Rei porém, na medida em que Jesus vai manifestando quem ele é, e o seu modo de viver, convivendo com os pecadores impuros, curando em dia de Sábado e fazendo um ensinamento novo que estabelecia novas relações com Deus e com o próximo.

Tudo isso foi gerando um descontentamento nas lideranças religiosas que de repente começaram a vê-lo como uma séria ameaça a estrutura religiosa existente, e a expulsão dos vendedores e cambistas do templo foi a gota dágua que faltava para à sua condenação, sendo dois os motivos que o levaram à morte: o primeiro de caráter religioso, pois ele se dizia Filho de Deus e isso constituía-se uma blasfêmia diante do judaísmo, o segundo de caráter político, Jesus veio para ser Rei dos Judeus, representando uma ameaça ao augusto Cezar Soberano do império Romano.

O Povo esperava um Messias Libertador político para restaurar a realeza em Israel, que se encontrava sob a dominação dos romanos. É essa a moldura histórica dos fatos que marcaram a vida de Jesus, nos seus três anos de vida pública, desde que deixara a casa de seus pais em Nazaré e dera início as suas pregações tendo formado o Grupo dos discípulos.Logo após sua morte e ressurreição, nas primeiras comunidades apostólicas (dirigidas pelos apóstolos) se perguntava por que Jesus havia morrido? Nas reuniões que ocorriam aos domingos, porque Jesus havia ressuscitado na madrugada de um Domingo, os apóstolos faziam a Fração do Pão, recordando tudo o que Jesus fez e ensinou, concentrando suas pregações na morte e ressurreição. E assim começou-se a se fazer as primeiras anotações sobre Jesus e mais tarde, entre os anos 60 e 70, surgiram os evangelhos que revelavam, não só porque Jesus havia morrido, mas também como e onde havia nascido e de como vivera a sua vida fazendo o bem, anunciando um reino novo sempre na fidelidade e obediência ao Pai e no amor aos seus irmãos.

A Ressurreição de Jesus é um fato apenas compreensível e aceitável à luz da Fé, que é um dom de Deus concedido aos homens, pois o momento da ressurreição não foi presenciado por ninguém e o que as mulheres viram, segundo o relato dos evangelhos sinópticos, foram os “sinais” da ressurreição: túmulo vazio, os panos dobrados e colocados de lado, e ainda um personagem que dialoga com Madalena, confundido por ela com um jardineiro, que anuncia que Jesus de Nazaré não estava mais entre os mortos porque havia ressuscitado.As mulheres tornaram-se desta forma as primeiras anunciadoras da ressurreição aos apóstolos. Outra evidência foram as aparições de Jesus Ressuscitado aos seus discípulos, reunidos em comunidade conforme relato do livro do Ato dos Apóstolos. Não se tratam de aparições sensacionalistas para causar impacto e evidenciar a vitória de Jesus sobre os que conspiraram a sua morte, mas sim de um Deus vivo e solidário com os que nele crêem, para encorajar a comunidade dos apóstolos, que tiveram a princípio muita dificuldade para vencer o medo e descrença, que abateu-se sobre eles com a morte de Jesus.

A Ressurreição de Cristo está no centro da Fé cristã, que é, segundo o pensamento Paulino, a garantia de nossa ressurreição, que não pode e nem deve ser compreendida como uma simples volta a esta vida porque se trata de uma realidade sobrenatural entendida e aceita pela Fé, e não de um fato científico. O Cristo Ressurrecto apresenta um corpo glorioso! É este o destino feliz dos que crêem e vivem essa esperança que brota da Fé, pois a Vida venceu a morte!

Celebrar a Páscoa é celebrar esta Vida Nova de toda a humanidade, que irrompeu da escuridão do túmulo com o homem Jesus de Nazaré. É a passagem do pecado para a graça de Deus, das trevas para a luz, da Morte para a Vida , porque o espírito Paráclito que Cristo deu à sua igreja no dia de Pentecostes, tudo renova e permite que, caminhando na Fé, já desfrutemos, ainda que de maneira imperfeita, dessa comunhão íntima com Deus, no Cristo glorioso que nos acompanha nessa jornada terrestre, e que nos acolherá um dia na plenitude da Vida Eterna.

Uma feliz Páscoa a todos!

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — Domingo de Páscoa — ANO C

Glória de Deus, vida do homem

A expressão acima é um resumo da frase de S. Irineu de Lyon: “a glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem consiste em ver a Deus”. Vamos refletir nessas duas realidades nesse dia de festa e alegria, pois Cristo ressuscitou, aleluia!!!

Romano Guardini, famoso teólogo ítalo-alemão, afirmou no seu célebre livro “A essência do Cristianismo” que “Cristo fala não somente com palavras, mas com todo o seu ser. Tudo o que ele é, é revelação do Pai. Então é quando o conceito de revelação alcança toda a sua plenitude. O racionalismo, que tanto influenciou no pensamento cristão situa a essência da revelação no pensamento que se revela e na palavra que o expressa. A palavra que a boca fala não é, porém, mais que uma parte de uma palavra mais ampla, isto é, daquela palavra que consiste na plenitude do ser. Cristo é a palavra, inclusive quando “não abre a boca e quando não fala”. Toda a sua essência é palavra”.

Hoje, neste domingo de Páscoa, o Cristo glorioso manifesta de maneira excelente o seu ser e, desse modo, nos está revelando plenamente o poder do Pai nele e o quanto ele pode no Pai. Cristo se manifesta e a sua auto-manifestação é, para nós, e ao mesmo tempo revelação de Deus numa plenitude sem precedentes. Por outro lado, é também revelação da humanidade glorificada em Jesus na sua novidade mais radical.

Puxa vida, será que eu falei difícil? Vejamos: o Cristo ressuscitado manifesta, de maneira gloriosa, o poder de Deus em favor da humanidade. É Deus que irrompe mais uma vez neste mundo fazendo com que o corpo morto do Senhor passe, sem corromper-se, a um estado glorioso do qual participam todos os homens em Cristo. Deus, que veio revelando-se há séculos aos seres humanos e em favor deles, manifestou de maneira excelente qual era o fim das constantes preocupações de Deus pelo homem: o Senhor, no seu amor, o queria salvar. Essa salvação não é somente uma salvação temporal, dos males presentes. Trata-se de algo muito mais profundo: Deus desce até o abismo da morte, até o mais profundo das misérias humanas, para resgatá-lo e trazê-lo à vida. Como consequência desta profunda libertação vêm também as distintas libertações que redundam em bem de toda a sociedade temporal.

Contudo, a Ressurreição não é só a manifestação de Deus em favor do homem, mas também é a manifestação da glória à qual está chamada toda a natureza humana. O homem foi criado para a felicidade, para a imortalidade, para estar eternamente com Deus. Aquilo que o Concílio Vaticano II dissera de que só Cristo revela ao homem o que é o homem, se manifesta, de maneira plena, na glorificação de Jesus. Toda pessoa humana está chamada à plenitude de vida que Cristo manifesta em sua humanidade glorificada.

Dizíamos antes que a palavra é a plenitude do ser. Cristo, Palavra do Pai, é plenitude. Cada um de nós também está chamado a manifestar a plenitude do próprio ser em Cristo. Ser em outro poderia ser algo pobre; mas quando esse alguém no qual se é nada mais é que o próprio perfeito Deus e perfeito Homem, então ser em Cristo-Deus aparece como algo incomensuravelmente maior que ser em si mesmo e segundo os próprios critérios.

Afinal, quem pode fazer-se a si mesmo? É preciso começar a reconhecer essa verdade basilar: somo criaturas! Num segundo momento, precisamos dar-nos conta de outra verdade que enriquece toda a nossa vida: a nossa finalidade é a felicidade. Somos seres finalizados, destinados à bem-aventurança eterna, à felicidade sem fim. Ficaríamos verdadeiramente frustrados se não alcançássemos o fim para o qual somos feitos e para o qual nos propusemos.

Rezando hoje ao Todo-poderoso e Senhor Cristo Ressuscitado, nosso Deus e único Salvador, reafirmaremos também a nossa esperança nele e a nossa fé firmíssima de alcançar o fim para o qual ele nos criou. O dia de hoje foi feito para nós, para que exaltássemos o nosso Deus ressuscitado e contemplássemos nele a glória da nossa humanidade.

Vamos também felicitar Nossa Senhora com a oração que lhe dirigiremos durante todo o Tempo Pascal, o “Regina Coeli”:

V. Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia.
R. Porque quem merecestes trazer em vosso seio, aleluia.
V. Ressuscitou como disse, aleluia.
R. Rogai a Deus por nós, aleluia..
V. Exultai e alegrai-vos, ó Virgem Maria, aleluia.
R. Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente , aleluia.

Oremos. Ó Deus, que vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do vosso Filho Jesus Cristo, Senhor Nosso, concedei-nos, vos suplicamos que por sua Mãe, a Virgem Maria, alcancemos as alegrias da vida eterna. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.

Feliz Páscoa!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — Domingo de Páscoa — ANO C
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (Cl 3, 1-4)

INTRODUÇÃO: Neste trecho, Paulo chama a atenção dos colossenses para o fim fundamental que deve dirigir toda a vida de um cristão: ele está unido a Cristo, de modo que deve imitar a vida do Mestre e, conforme essa vida, passar por este mundo vivendo a esperança de uma ressurreição do Cristo místico e total que Paulo predica em suas epístolas.

RESSUSCITADOS COM CRISTO: Se, pois, tendes ressuscitado com Cristo buscai as (coisas) do alto onde o Cristo está sentado na destra do Deus (1). Igitur si conresurrexistis Christo quae sursum sunt quaerite ubi Christus est in dextera Dei sedens. A epístola é um canto a Cristo como sendo o fundamento e raiz da vida e do pensamento dos fieis [a sabedoria divina em nossas vidas] a quem é dirigida a carta. Essa ideia tem uma parte negativa: nada de uma Lei que ata e oprime, como eram as normas antigas em que os judeus fundamentavam sua salvação, que Paulo descreve com o não tomes, não proves, não toques como sendo mandamentos e doutrinas dos homens (Cl 2, 21-22) e que constitui a sabedoria humana para satisfazer a carne. Aqui começa o nosso trecho de hoje. TENDES RESSUSCITADO: Para Paulo, o batismo é um morrer ao homem velho e um ressurgir com Cristo que é o novo Adão (1 Cor 15, 45), de onde nasce a nova humanidade. O grego Synegeirö [<4891>=conresurgere] está formado pela partícula syn [conjuntamente] e egeirö [levantar-se] que ao uni-lo com Cristo significa corressuscitar, ou seja, ressuscitar juntamente com ele. DO ALTO [Anö<507>=sursum] é um advérbio que indica acima, ou seja, segundo o pensar da época, do céu. Por isso Paulo acrescenta que é o lugar onde está sentado Cristo atualmente. E prossegue na DESTRA [<Dexios<1188>=dextera] de Deus. Na linguagem simbólica ou metafórica, necessária para poder falar de coisas que não conhecemos, Deus habita um lugar próprio: o terceiro céu, embora saibamos que está em todo lugar e entendamos a metáfora de sua destra como o lugar mais próximo e que exerce o maior poder, dentro de seus planos de criação e redenção. Cristo seria o primeiro ministro do rei universal que é Deus. Paulo emprega as palavras do salmo 110, 1 para esse seu simbolismo: Oráculo do Senhor ao meu senhor: senta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos o escabelo de teus pés.

A SABEDORIA VERDADEIRA: As do alto considerai não as sobre a terra (2). Quae sursum sunt sapite non quae supra terram. E como se fosse um poema em que predomina a repetição com palavras novas, mas respeitando a mesma ideia, dirá de novo que as coisas do alto [não as da terra] serão as que devem nos preocupar e dominar a nossa consideração. A morte mística é uma morte parcial: morte a tudo que na terra se considera vida de felicidade como riquezas, prazeres e honras e vida de escravos com Cristo, sempre servindo como ele deu exemplo em Jo 13, 15 dizendo que se isso praticarmos seremos felizes (idem 18).

VIDA COM CRISTO: Já que morrestes e vossa vida está escondida com Cristo em Deus (3). Mortui enim estis et vita vestra abscondita est cum Christo in Deo. Paulo repete, mais uma vez, a ideia de que todo batizado está morto para toda atividade que não seja a vida com Cristo. Vida que ele declara está oculta. Não é uma vida para ser reconhecia pela fama do mundo, mas para ser ocultada em sua maior parte, como foi a vida de Jesus. Pode ser também que esse ocultismo seja devido a que a vida plena do Cristão só se manifestará na glória, glória que agora está escondida e que desconhece o sujeito da mesma como glória, no futuro. S. Teresa dizia que se pudéssemos ver a glória duma alma em graça, ficaríamos estonteados de sua maravilha. Porque essa alma é como um pequeno céu que guarda em seu interior o esplendor divino, da forma como o que viram os três apóstolos no monte Tabor. Metamorfose que se realiza na alma em que Deus habita por graça. Porém, essa vida está escondida no momento presente na terra. Paulo dizia de si mesmo que não vivia ele, mas que era Cristo quem vivia sua vida nele por meio da fé (Gl 2, 20). Pouco antes, ele escrevia aos de Colossos: se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças? (Cl 2,20). De onde podemos intuir que essa sua preocupação com que as leis mosaicas não anulassem a lei da cruz de Cristo, entrava dentro dessa base terrena que não devia ser considerada como vida cristã.

GLÓRIA FUTURA: Quando o Cristo se manifestar, nossa vida, então também vós com ele vos manifestareis em glória (4). Cum Christus apparuerit vita vestra tunc et vos apparebitis cum ipso in gloria. Na 1 Jo 3, 2, o apóstolo também fala de uma manifestação de Deus em nossas vidas e que então seremos semelhantes a Ele pois o veremos como Ele é. Isto é entrar na glória divina. Quando Jesus se declara como caminho e vida (Jo 14, 6) pensamos nas coisas da terra e que ele nos guia e é vida durante nossa caminhada aqui embaixo; mas na realidade, está se referindo à vida final, a eterna, como ele proclama (Jo 3, 15). Pois não seria nossa condição muito melhor se só esperássemos Jesus para melhorar o mundo atual. O fracasso seria o resultado imediato. Essa vida que ele promete em abundância está oculta na terra e só será plena e visível no reino futuro, onde a fraqueza é substituída pelo poder e onde a ignomínia é transformada em glória (1Cor 15, 43), ou como declara aos filipenses, que transformará nosso corpo de reles condição em corpo de glória (3, 21).

EVANGELHO (Jo 20, 1-9) - A RESSURREIÇÃO DO SENHOR

INTRODUÇÃO: Estamos acostumados a escutar os mestres falando do sepulcro vazio e da lousa retirada. São as bases -eles o afirmam- da ressurreição de Jesus. Mas, nesse caso, por que os judeus não se tornaram cristãos? Será que existem dois grupos separados ante o acontecimento, um que reflete a atitude do discípulo amado, que viu e creu. E um outro, a de Pedro, que ficou maravilhado com o acontecido, mas sem chegar às portas da fé? Qual foi, em definitivo, a causa que também mudou a atitude de Pedro até a fé? Somente a disposição dos panos, unicamente a ausência do cadáver? Quiçá a pedra de entrada, retirada talvez de forma abrupta? Acreditamos que existe uma experiência que não podemos chamar de histórica porque é íntima e não compartida de forma sensível por todos como testemunhas. É a experiência mística da visão sobrenatural, nem por isso menos real e vívida que a experimentada pelos sentidos. Pelo contrário, deixa uma memória tanto menos extinguível quanto mais extraordinária e infrequente ela é. Logicamente quem de antemão descarta o sobrenatural, tenderá a explicar o fenômeno em termos naturais de paranoia e histeria. Mas quando a visão é coletiva, e mais, quando responde a situações diferentes, com pessoas entre si independentes, como é o nosso caso, a explicação natural não é suficiente e constitui o único recurso de quem não quer admitir o sobrenatural. Têm ouvidos e não ouvem, têm olhos e não veem (Mc 8, 18). Cremos que as bases da ressurreição foram as experiências místicas dos discípulos que as tornaram testemunhas (Lc 1,2) de que Jesus vivia e era Senhor. É o caso de Paulo que nem viu o túmulo, nem conhecia Jesus; mas que O viu e ouviu em Damasco (At 9, 4-7). Mas vejamos o evangelho e sua exegese. Dos quatro evangelhos canônicos que a tradição identifica com Marcos, Mateus, Lucas e João, somente este último autor foi testemunha ocular (19, 35) que escreveu afirmando a verdade de seu testemunho (21, 24). Isso indica que ele esteve lá como testemunha de vista. Mas também seu testemunho poderia ser como ouvinte indireto, pois logicamente não ouviu as palavras entre Jesus e Pedro. Daí sua autoridade e importância como ouvinte de uma tradição imediata, reconhecida. É precisamente o que aconteceu com Marcos e Mateus (Lc 1,2). Lucas se apresenta como o investigador e ordenador dos fatos narrados por testemunhas oculares e espalhados por ministros [oficiais] da Palavra (Lc 1, 20). Se Marcos, Mateus e Lucas não são as testemunhas oculares, como é o quarto evangelho, são sim testemunhas oficiais de uma tradição que pode ter muitas lacunas e até importantes deficiências como todo relato humano de segunda mão; mas temos a certeza de que os fatos não são inventados. A tradição é a testemunha principal destes três evangelhos que chamamos sinóticos. Disso deduzimos que as conclusões são importantíssimas porque são de testemunhas auriculares nos quais a primitiva Igreja acreditava; e eram fatos reais aqueles em que essa fé estava fundamentada. Há dentro dessas narrações, interpretações que dependem do ambiente e das tradições do antigo Israel, que se fundam tanto na Torah [lei escrita] como na Mishná [lei falada]. Por isso escolhemos como linha essencial o evangelho de João, a única testemunha ocular e auricular dos fatos do Domingo da Ressurreição.

AS CIRCUNSTÂNCIAS: Porém no dia um (primeiro) da semana, Maria a Madalena vem de madrugada, estando ainda escuro, ao monumento e olha a pedra arrancada do monumento(1). Una autem sabbati Maria Magdalene venit mane cum adhuc tenebrae essent ad monumentum et videt lapidem sublatum a monumento. O DIA: Te de mia<2291> tön sabbatön<4521>: A tradução literal seria ¨No dia um da semana¨ porque Sabbatön, em plural, deve ser traduzido por semana. Assim lemos em Lucas 18, 22 que o fariseu jejuava duas vezes do sábado: [dis tou sabbatou] ou duas vezes da semana [tradução literal]. Outra irregularidade é que se usa o plural [sabbatön dos sábados, ou das semanas]. O latim traduz una autem sabbati de forma completamente literal até retendo o numeral, o que podemos traduzir ¨No uno do sábado¨. O latim não traduz Sábados, mas Sábado, assim evitando a semana e ordenado o dia como cabeça para o numeral um. Na realidade mia significa uma [dia é feminino em grego] e está implícita a palavra emera [dia], sendo possível a tradução primeira no lugar de uma; ou seja, o grego usa o cardinal [um] pelo ordinal [primeiro]. Não existe, pois, dificuldade em traduzir: no primeiro dia da semana. Aliás o grego, tanto de João como de Lucas, toma a ordem pelo simples cardinal e teremos a tradução: ¨No primeiro (entende-se dia) da semana¨. Mateus também usa o sábado em plural. Marcos dirá que, passado o sábado (o dia, porque em singular). Somente na vulgata de Mateus encontramos o ordinal [prima] e somente Marcos usa Sábado em singular. Que indica tudo isto? Provavelmente uma tradução direta do aramaico, transmitido verbalmente. Resolvidas as dificuldades, traduziremos da melhor maneira possível, conservando o original: Ora, no primeiro dia da semana, ou seja, segunda-feira para nós. A HORA: Cedo, ainda estando escuro- dirá João. Ou seja, de madrugada. Mateus dirá que ao luzir o dia. Marcos dirá muito cedo, quando o sol estava saído, o que parece uma contradição. Lucas fala de uma alvorada profunda que o latim traduz por ao primeiro romper do dia. Unicamente Mateus parece discordar e assim podemos ler: Depois do sábado, no alvorecer do primeiro [dia] do sábado [da semana]. O latim da vulgata serviu para confundir, traduzindo Opsé de sabbatön por vespere autem sabbati, literalmente: na tarde do sábado; porque véspera significa a tarde do dia. Mas logo Mateus acrescenta eis mian sabbatön [no primeiro das semanas]. Era na tarde do sábado ou eram as primeiras horas do domingo, que, segundo os cálculos antigos, começava às 6 da tarde do sábado e não as 24 horas? As vésperas são as orações que se recitam na tarde do dia, mas sempre ao redor das cinco da tarde. Logo parece que Mateus dá uma hora que corresponde com as últimas horas do sábado tal e como o entendemos hoje. Porém o advérbio Opsé significa depois, muito tempo após, tarde no dia, no fim. Daí que podemos traduzir por no fim do sábado. E assim hoje todas as traduções dizem: passado o sábado. Logo todos coincidem no dia, e na hora.

AS MULHERES: Marcos fala de Maria, a Madalena, Maria de Jacó e Salomé (16, 1). Mateus de Maria, a Madalena e a outra Maria (28, 1), expressão repetida de 27, 61. Sabemos que essa outra era a mãe de Tiago e de José (27, 56), os chamados irmãos de Jesus (Mt 13, 55). Para Lucas são muitas as mulheres; além da Madalena e Maria de Jacó, estava Joana e as demais mulheres com elas (24, 10). Evidentemente Lucas está se referindo às mulheres que acompanhavam Jesus com suas posses como diz em 8, 3: Joana, mulher de Cuza, o mordomo de Herodes, Susana e várias outras. Como vemos, eram ricas e nada diz das que eram parentes de Jesus como Maria de Jacó ou parentes dos discípulos como Salomé, a mãe dos filhos de Zebedeu que era ao mesmo tempo parente de Jesus. Já João fala unicamente de Maria, a Madalena, porque provavelmente seja a única que viu o Senhor ressuscitado (Jo 20, 117), embora as outras tenham visto os anjos (Lc 24, 23) e também porque ele afirma, no seu evangelho, que narra como testemunha os fatos que escreve. Só com a Madalena ele teve contato e por isso despreza, ou melhor, não pode contar fatos dos quais ele não foi testemunha. Assim podemos compaginar a singeleza da Madalena em João com a pluralidade e a riqueza dos detalhes dos outros evangelistas. O relato de João é, pois, muito pessoal e relativo, mas totalmente verídico.

MARIA, A MADALENA: A) O SOBRENOME :O sobrenome Madalena tem dado lugar a muitas investigações e delas destacamos duas: 1ª) Um toponímico que poderia indicar que a mulher era de, ou tinha morado em Magdala. O seu sobrenome não era patronímico nem familiar, mas geográfico o que indica ser uma mulher solteira ou viúva sem filhos. Magdala [também de nome Magadã] situava-se no lugar que hoje ocupa Tariqueia, cinco quilômetros ao norte de Tiberíades, a cidade capital do tetrarca Herodes Antipas. A palavra Tariqueia é de origem grega e significa pesca salgada. Contava com uma frota de 230 barcas e uma população de 40 mil habitantes; mas esta cifra parece exagerada e teremos que deduzi-la a 4 mil. Era a cidade mais importante do lago, incluindo Tiberíades. O nome primitivo talvez fosse Migdal-El [= torre de Deus]. O nome de Magdala indica que era uma torre-vigia que guardava a importante rota que a atravessava. No AT é possível que seja a Migdal ou Magdalel de Js 19, 38, pertencente ao território de Neftali. O NT usa os nomes alternativos de Magadã (Mt 15, 39) e Dalmanuta (Mc 8,10), que alguns códices traduzem por Magdala. Dalmanuta parece ser a moderna El-Delhamive. O Talmud distingue entre dois Magdalas: Magdala Gadar [hoje El-Hammi] duas horas de caminho do o sul do lago ao leste; e Magdala Nunnaya [dos peixes], chamada também de Tariqueia, perto da antiga Tiberíades, que o Talmud palestino ou de Jerusalém afirma estar a 5,5 km da antiga Tiberíades, capital da Galileia. Segundo o Talmud, Magdala era uma cidade rica, importante centro de agricultura, pesca e comércio, na rota chamada Via Maris que atravessava a baixa Galileia até a fértil planície de Genesaré e que foi destruída pelos romanos devido à depravação de seus habitantes. Após a destruição do templo de Jerusalém, Magdala ou Tariqueia, nome grego com que era conhecida, se tornou sede de uma das 24 classes sacerdotais e lugar habitado por alguns doutores da Lei. Nesta cidade existia, já desde o século IV dC, uma igreja dedicada à memória de Maria, a Madalena. No século VI, o peregrino Teodósio afirma que Magdala equidistava de Heptageon [hoje Ain Tabga] no norte, e de Tiberíades no sul como 3 Km. Esta última foi fundada por Herodes Antipas nos anos 18 a 22 e chegou a ser a capital da Galileia, substituindo a Séforis. Tiberíades tinha foro, estádio, um palácio real, templo pagão e sinagogas. Flávio Josefo a rendeu a Vespasiano. Após a guerra e queda de Jerusalém, o sinédrio residiu nela e nela estava a escola rabínica que compilou o Talmud jerosolimitano no século IV e os massoretas, que no século VIII, vocalizaram o texto das escrituras com pontos vocálicos chamados tiberienses. 2ª) Um apelido: [apodo em espanhol] Uma exegese moderna liga Magdalena com uma palavra hebraica que significaria perfumista. Porém no pequeno dicionário de Sprong mais do que perfume a palavra meged e seu derivado migdanah significa coisa preciosa como uma gema ou um presente muito caro. Segundo o Talmud [o livro mais importante do judaísmo pos-bíblico, intérpretre tradicional da Torah que compreende a Mishná e a Guemará], Magdalena significa cabelo crespo de mulher, embora na sua rivalidade com o cristianismo diz dela que era adúltera. Não são, pois, os evangelhos mas o Talmud que denegriu a Madalena. Era, pois, um apelido como o de Iscariotes de Judas ou de Simão, o Zelota [melhor cananeu]. Lucas fala da Madalena como Maria a chamada Madalena (Lc 8,2). Os demais evangelistas sempre unem Maria com a Madalena [të magdalënë <2094>]. UM EXEMPLO: De Judas dirá Lucas em 22,3 que era chamado [apelidado diríamos, pois o verbo é epikaleô] iskariötës. O nome verdadeiro dele era Judas de Simão, nome patronímico como era o de todos os judeus em geral, que significa Judas filho de Simão. O Iskariotes era um apelido, como podemos ver claramente em João 6, 71 em que fala de Ioudan Simönos iakariötën que a Vulgata traduz como Iudam Simónis, Iscariótem; [hic enim erat traditúrus eum]. Como que dizendo: Iscariotes significava traidor. Os textos gregos recebidos têm alguma diferença. O de Nestlé é o mais clássico, e o de Merk é o texto católico. Um exemplo é o de Lucas 22, 3 em que fala de Judas o apelidado iskariotes [Ioudan ton epikaloumënon iskariotën] {Nota: uma variante do sobrenome de Tomás em grego fala do epikaulomenon Didimon em Lc 6, 15. O texto de Merk substitui epikaloumenon [apelidado] por kaloumenon [chamado]}. Supondo que o original seja epikaloumenon [apelidado], que significaria então o apelido Iskariotes? Até agora derivava-se de ish kariot ou homem de Kariot uma cidadezinha da Judeia perto de Hebron, que tinha como nome Cariot-Hesron ou Hasor. (Js 15, 25). Mas é difícil que nos tempos de Jesus a cidade recebesse o nome de Cariot e não fosse conhecida com o nome de Hasor. A segunda etimologia é de sicariot o partido mais radical dos Zelotas que conhecemos com o nome de sicários. Mas os zelotas e, portanto os sicários, a parte mais radical dos mesmos, só foram conhecidos como tal partido político e grupo terrorista nos anos 60 dC. Consequentemente devemos admitir que a nova interpretação que dá como tradução do nome iskariotes o aramaico ladrão é a única verossímil. Tendo em vista que Madalena é um apelido, seu significado seria o derivado do aramaico perfumista ou o dado pelo talmud: a do cabelo encrespado. B) A MULHER: Mas quem era, na realidade, Maria, a Madalena? a) IDADE: Maria Madalena era uma mulher da qual Jesus tinha expulsado sete demônios que em termos modernos diríamos uma doença mental grave como uma loucura ou esquizofrenia. A Madalena era uma mulher curada por Jesus de sete demônios (Lc 8, 2), de cujo fato não temos mais detalhes. Como os demônios eram a causa das doenças mentais como epilepsia (Mt 17, 15), esclerose (Lc 13, 11) e loucura (Jo 8, 48) e até histeria e mudez (Mt 9, 32), não podemos responder à pergunta: que tipo de doença tinha Madalena? Ela acompanhava Jesus junto com outras mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e também Joana, mulher de Cuza, mordomo de Herodes [Antipas], e Susana e outras muitas as quais o serviam com suas posses (Lc 8, 2-3). Joana era uma mulher de mais de 50 anos e todas as mulheres que acompanhavam Jesus tinham essa idade. Um exemplo é a própria mãe de Jesus, como era também Maria, prima irmã de Nossa Senhora, mãe de Tiago e José, e Salomé, a mãe dos filhos de Zebedeu que estavam com a Madalena ao pé da cruz, como diz Mateus (27, 56). A Madalena era amiga de Maria, a mãe de Tiago e José, e é de se supor da mesma idade, ou seja conforme diz Paulo em 1 Tm 5, 9 das mulheres inscritas no grupo das viúvas com não menos de sessenta anos. b) O COGNOME: Era, como recentes investigações sugerem, um epíteto que significaria cabelo enroscado de mulher, segundo o Talmud, ou perfumista, segundo outra interpretação. Era, pois um apelido como o de Judas, o Iscariote. Mas quem foi na realidade Maria Madalena? Os evangelhos falam de Maria Madalena ou Maria de Magdala. De todos os relatos deduzimos: 1º) Os modernos têm suscitado a velha ideia gnóstica de que foi a esposa de Jesus. Mas, se fosse esposa de Jesus, os evangelistas teriam dito Maria de Jesus, assim como nomeiam a Maria de Cléofas (Jo 19, 25). E Lucas a apresenta como uma das pacientes curadas por Jesus. Porém, é simplesmente Maria, a Madalena (sic) (Mt 27, 56; e 28,1. Marcos 15, 40; 15, 47;16, 1 e 16, 9; Lucas 8, 2 e 24, 10) e finalmente João 19, 25; 20, 1 e 20, 18. Em todos os versículos é Maria, a Madalena, exceto em Lc 8, 2 em que o evangelista explica Maria a chamada [ou apelidada] Madalena. Pelo seu nome podemos dizer que não era casada, nem tinha parentes próximos vivos como filhos tal como Maria de Cléopas ou Maria mãe de Tiago e José. 2º) Era Maria Madalena uma pecadora ou a pecadora de Lc 7, 36-50? É difícil admiti-lo, pois no seguinte capítulo Lucas (8,2) fala de Maria Madalena sem indicar que se trata da mesma pessoa. Ser ou estar possessa não é o mesmo que ser pecadora. E como alguns intérpretes afirmam, a palavra pecadora em Lucas significa mulher pagã ou mulher judia casada com um pagão muito mais do que mulher pública. 3º) Tampouco se pode identificá-la com Maria de Betânia pois o evangelho de João distingue perfeitamente ambas as pessoas. A nossa Maria tem o nome de a Madalena, que, caso fosse toponímico, indicaria um lugar da Galileia, no norte; e a de Betânia [lugar da Judeia no Sul] é chamada de irmã de Lázaro ou irmã de Marta. Poderíamos confundir a pecadora de Lucas 7, 36-50 com Maria de Betânia, porque ambas ungem os pés de Jesus com perfume e secam com seus cabelos. Parece que era um costume aceito na época. A mulher, no caso da pecadora na casa de Simão, teve lugar na Galileia e os convivas eram fariseus; Pelo contrário, Maria, a de Lázaro, fez a unção na Judeia em casa do Simão, o leproso, em Betânia, com os discípulos como convivas e o aparente desperdício do rico nardo poucos dias antes da morte de Jesus. Este fato, narrado por Mateus e Marcos sem indicar o nome da mulher, tem alguns detalhes diferentes de João como o de que o perfume foi derramado na cabeça de Jesus. Lucas fala de uma pecadora em casa de Simão e coincide com João em notar que ela ungiu os pés do Mestre. No máximo poderíamos deduzir que Maria de Betânia, a de João, era a pecadora de Lucas. Porém isto está fora de cogitação porque o mesmo Lucas fala de Maria de Betânia em 10, 39-42 sem falar da identidade das duas. O próprio João distingue em seu relato entre Maria [a de Betânia] a quem chama simplesmente Maria em 20, 11 e 20, 16, e Maria, a Madalena, em 19, 25; 20, 1 e 20, 18. Os textos evangélicos nunca identificam Maria Madalena com a pecadora ou com Maria de Betânia. A Igreja grega celebra três festas diferentes, uma para cada mulher. A Igreja latina antes de S. Agostinho (+430) falava de três mulheres a exceção de uma única passagem. Foi S. Gregório Magno (590-604) que, de fato, identificou as três mulheres. A identificação foi muito posterior ao concílio de Niceia (325). Não houve, pois, na Igreja primitiva intenção alguma de sujar a imagem de Maria Madalena, com a da pecadora de Lucas 7, 36-50 ou com Maria de Betânia, porque ambas ungem os pés de Jesus com perfume e secam com seus cabelos.

OUTRAS MULHERES: Para João, era Maria de Magdala aparentemente a única protagonista, embora admita que com ela havia alguém mais, pois dirá no versículo 2 não sabemos, o que indica a presença de mais alguma mulher com ela e que ela foi a encarregada de comunicar a notícia de que tinham tirado o Senhor do sepulcro. Mateus fala também da outra Maria que Marcos descreve como a de Jacob e ainda acrescenta mais uma testemunha que chama de Salomé. Para Lucas, serão Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Mateus fala também da outra Maria que Marcos descreve como a de Jacob e ainda acrescenta mais uma testemunha que chama de Salomé. Vamos conhecer essas outras mulheres com mais detalhes. A outra Maria era prima-irmã, da mãe de Jesus. Esta nova Maria era mãe de Tiago ou Jacó o menor, e de Joset (sic) (Mc 15, 47). Vemos aqui um argumento para afirmar que os irmãos de Jesus eram os filhos da outra Maria, a prima-irmã de Maria, pois ambos, Tiago e Joset, têm os mesmos nomes que os identificam com o Tiago e José de Mateus 13, 55, e segundo Lucas, mãe de Tiago (Lc 24, 10), que nos parece ser Tiago, o menor, de At 12,17, que sem outro cognome é o irmão do Senhor, como em nota afirma a Bíblia de Jerusalém. Talvez possamos identificá-la com a mulher de Alfeu (Mt 10, 3). Joana era a terceira mulher, esposa de Cuza (Lc 8, 2.3). Finalmente Salomé mulher do Zebedeu (Mt 27, 56) e mãe de Tiago e João.

O MONUMENTO: A palavra usada por João não é sepulcro ou tumba, mas monumento (funerário) ou mausoléu. Somente Mateus usa Tafos que podemos traduzir por sepulcro como na Vulgata. Isso indica que a tumba de Jesus era especial, como a de um rico proprietário. Existiam duas classes de sepulcros que podemos chamar de verdadeiras covas ou cavernas: as mais comuns eram poços de tipo vertical. Sobre a cavidade, como tampa do poço, havia uma pedra ou lousa que cobria o buraco impedindo as feras de se apoderarem do cadáver. Já as covas de tipo horizontal eram sepulcros escavados ao nível do chão com uma abertura de aproximadamente um metro de diâmetro de modo que um adulto devia se agachar (Jo 20, 5) para entrar. Uma pedra, que em casos mais sofisticados, era uma roda deslizante sobre um carril escavado ad hoc, tampava a entrada. Esta parece ser a tumba que quase todos os evangelistas chamam de monumento novo, escavado na rocha, no qual José de Arimateia colocou o corpo de Jesus, envolto num lençol limpo; e rolando uma grande pedra à entrada do monumento, retirou-se (Mt 27, 59-60). Marcos também fala da pedra rolada sobre a porta do monumento. Em Lucas a pedra está desenrolada quando as mulheres vão ao sepulcro na manhã da madrugada do domingo. Segundo comentários da On Line Bible, a pedra de uma sepultura pequena só podia ser movida com o recurso de 20 homens, e a pedra da nossa sepultura era grande. Somente João fala da pedra como Erménon, ou seja, levantada à força, que podemos traduzir por arrancada. Esta seria a tradução mais própria. Segundo os estudiosos, existiam duas classes de sepulturas individuais entre as quais podemos chamar de monumentos: as que se designam por Kõkim, com nichos ou buracos escavados horizontalmente, furados perpendicularmente às paredes, de dois metros de comprimento em que o cadáver era colocado, enterrando no buraco a cabeça em primeiro lugar; e outras em que existiam arcos em cujo semicírculo existia um banco de pedra onde era depositado o morto paralelamente à parede. Parece ser este último o lugar onde repousou Jesus morto, porque as mulheres viram dois anjos um na cabeceira e outro aos pés da mortalha (vers 12). Junto ao santo Sepulcro atual existem as duas formas de tumbas, arqueologicamente documentadas.

O SANTO SEPULCRO: As recentes investigações arqueológicas demonstram que, no tempo da crucifixão de Jesus, as proximidades do Gólgota eram hortos, também usados como sepulturas. As escavações no subsolo da basílica e ao sul da mesma demonstram que desde o século VII aC esta zona foi usada como canteira. E que uma parte desta canteira, nos primeiros anos do cristianismo, foi transformada em horto e usada como lugar de sepultura. No lugar onde se supõe estava o Gólgota encontramos os restos de uma rocha pelada. Desde os primeiros anos, o sepulcro de Jesus foi muito venerado. O momento mais crucial foi a segunda revolta dos judeus e a total destruição de Jerusalém no ano de 135. Adriano expulsou os judeus e edificou sobre a antiga Jerusalém a Aelia Capitolina, levantando nos lugares mais sagrados templos aos deuses romanos. Especialmente, sabemos pelos escritos, que Adriano erigiu estruturas pagãs sobre o Gólgota e o santo sepulcro, fatos confirmados pelas escavações que provam a existência de muros, um celeiro e colunas que depois foram usadas por Constantino para as cisternas e o Anástasis. Aí estava seu capitolium. O lugar sagrado por excelência foi rededicado por Adriano aos deuses romanos. O espaço do Gólgota e a pendente contígua em que estava o Sepulcro foram enchidos de entulho para construir sobre eles o fórum e os templos de Júpiter e Vênus. O terreno foi rodeado por um muro e repleto de enormes quantidades de terra levantando uma esplanada nova sobre a qual colocaram as colunas da rua principal, o cardo, para terminar no fórum (praça) e nos templos. Assim o descreve Eusébio no século IV. No século III os visitantes cristãos nada sabem do Gólgota e do santo sepulcro, sepultados como estavam pelo aterramento de Adriano, entre eles o bispo Macário de Aelia Capitolina, que relatou em Niceia no Concílio o abandono dos lugares sagrados de Jerusalém. Temos uma carta em que Constantino comunica a Macário seu projeto de destruir os templos de Adriano e de escavar o terreno para construir uma basílica. Assim o fez e temos testemunhas de que apareceu a rocha do Calvário, e a entrada do sepulcro perto dela. Os entulhos ocultavam uma velha cisterna para águas de chuva. No fundo da mesma encontraram-se alguns lenhos e pregos velhos. Cirilo de Jerusalém, numa carta, afirma ao imperador Constâncio que em tempos de seu pai foi encontrado o lenho da cruz. Sobre a piscina foi achada uma basílica a quem se deu o nome de Martirium. Sobre o sepulcro se construiu um santuário circular em cujo centro estava o sepulcro a que se deu o nome de Anastasis (ressurreição). Os dois edifícios foram logo unidos por pórticos, galerias e escadas. O complexo foi consagrado em 14 de setembro de 335, cinco anos após a descoberta dos lenhos e pregos por S. Helena. A Igreja atual une ambas edificações, Martirium e Anastasis, e é praticamente a mesma que os cruzados levantaram em 1114. Podemos, pois, afirmar que o sepulcro estava bem perto do Calvário e que os lugares que hoje veneramos se conformam com os que a tradição mais antiga apontava como verdadeiros.

EXCURSUS: A VIDA NA PALESTINA NO TEMPO DE JESUS: Para ver como não podemos explicar cariot como sica e cananeu como zelota, vamos ter uma visão do que foram os movimentos revolucionários imediatamente após a morte de Jesus e as condições de vida no seu tempo. Richard L. Rohrbaugh, na Introdução de um volume sobre "As Ciências Sociais e a Interpretação do Novo Testamento", diz sobre a expectativa de vida da população do Império Romano nesta época: "Cerca de 1/3 daqueles que ultrapassavam o primeiro ano de vida (portanto, não contabilizados como vítimas da mortalidade infantil) morriam até os 6 anos de idade. Cerca de 60% dos sobreviventes morriam até os 16 anos. Por volta dos 26 anos 75% já tinha morrido; e aos 46 anos 90% já tinham desaparecido, chegando aos 60 anos de idade menos de 3% da população". Os que mais sofriam pertenciam às classes mais pobres das cidades e povoados, já que um pobre em Roma, no século I de nossa era, tinha uma expectativa de vida de 30 anos, quando muito. E o autor acrescenta: "Estudos feitos por paleopatologistas indicam que doenças infecciosas e desnutrição eram generalizadas. Por volta dos 30 anos a maioria das pessoas sofria de verminose, seus dentes tinham sido destruídos e sua vista acabada (…) 50% dos restos de cabelo encontrados nas escavações arqueológicas tinham lêndeas. Douglas E. Oakman, em um estudo sobre as condições de vida dos camponeses palestinos da época de Jesus, mostra que a violência que sofriam era brutal. Fraudes, roubos, trabalhos forçados, endividamento, perda da terra através da manipulação das dívidas atingiam a muitos. VIOLÊNCIA: Existia uma violência epidêmica na Palestina. Quando Vitélio Cumano (48-52 d.C.) é procurador, acontece violenta revolta dos judeus durante a festa da Páscoa, por causa de um ultraje cometido por um soldado romano, que desnuda seu traseiro como gesto de desprezo, proferindo palavras insultantes. A multidão indignada reclama que Cumano castigue o soldado. Mas o procurador, temendo um assalto à torre Antônia, manda vir mais soldados que caem sobre os judeus lançando-os fora do templo. Estes fogem e, no tumulto, morem dez mil, ou vinte mil segundo outros [provavelmente 2 mil]. Galileia e Samaria: Ao passar grande número de judeus pela Samaria para celebrar a festa dos Tabernáculos, alguns samaritanos mataram a um galileu. Da Galileia saiu um grande número de gente para lutar contra os samaritanos. O caso foi para Cumano, o pretor que não fez nada. Então, de Jerusalém, a multidão amotinada abandonando a festa, foi para a Samaria onde mataram muitos e incendiaram vilas inteiras. Cumano mandou as tropas e matou muitos judeus. Os chefes destes, vestidos de cilício, sairam pedindo a todos para não provocar os romanos e o pessoal se dispersou, mas um grande número se aproveitou da situação para seguir roubando e insurrecionando todo o país {entendemos aqui a postura de Caifás que disse é preferível que morra um pelo povo e não pereça toda a nação (Jo 50), máxime que João escreve após estes eventos}. Os samaritanos e os chefes judeus compareceram ante Ummidius Quadratus, legado da Síria acusando-se mutuamente. Depois Quadratus foi a Cesareia onde crucificou a todos os que Cumano tinha capturado vivos. Subindo a Lídia mandou decapitar os 18 judeus que tinham sido os chefes da revolta contra os samaritanos e mandou a Roma para Cláudio os principais dos judeus, o pretor Cumano e Celero, o tribuno, para contar a César o acontecido. Este condenou à morte três dos samaritanos mais poderosos, desterrou Cumano e devolveu o tribuno Celero encadeado à Jerusalém para que os judeus o torturassem e decapitassem. No tempo de seu sucessor Antônio Félix (52-60 d.C.) a tensão aumenta perigosamente. É no seu tempo que surge o grupo dos sicários, assim chamados por usarem em suas ações uma adaga curva e curta chamada "sica". Sua tática é provocar tumultos e desestabilizar o governo através de assassinatos inesperados de personagens importantes. Escondem a sica sob as vestes e misturados na multidão eliminam não só romanos, mas também quem colabora com a ocupação estrangeira. Um dos assassinados, neste tempo, pelos sicários é o sumo sacerdote Jônatas. Outros grupos tentam despertar no povo os sentimentos messiânicos, proclamando-se profetas e fazendo promessas utópicas. Tais grupos são duramente reprimidos pelos romanos através de grandes matanças. Félix manda crucificar inúmeros zelotas durante o seu mandato. Outro procurador terrivelmente corrupto e repressor é Lucéio Albino (62-64 d.C.). Seu sucessor Géssio Floro (64-66 d.C.) consegue então jogar a gota d'água para que o ódio acumulado pelos judeus derrame. Na Palestina do século I d.C. havia um verdadeiro clima de terror. Quando, após muitas arbitrariedades, G. Floro requisita 17 talentos do tesouro do Templo, a revolução estoura. Os judeus escarnecem do procurador, fazendo uma coleta para o "pobrezinho" Floro. Resultado: Floro entrega para os seus soldados uma parte de Jerusalém, para que seja saqueada e crucifica alguns homens importantes da comunidade judaica. Então, os revolucionários chefiados por Eleazar, filho do sumo sacerdote, ocupam o Templo e a fortaleza Antônia. Agripa II tenta conter a revolta e não consegue. Floro teve que se retirar para Cesareia ao ser derrotado. A Palestina é invadida em setembro de 66 por Céstio Gallo, à frente de 40.000 homens, com aqueles estandartes imperiais, que suscitavam tanto horror aos judeus, como imagens idolátricas, e que, por condescendência dos imperadores, até então, nunca tinham sido exibidas em Jerusalém. Era a "abominação da desolação" da qual falou Jesus. É a guerra definitiva na qual não participaram os cristãos porque diante dos estandartes romanos fugiram para Péla na Transjordânia. Com isto queremos aclarar como os verdadeiros movimentos zelotas e sicários eram posteriores ao tempo de Jesus e, portanto os apelidos de Simão e de Judas nada tinham a ver com os partidos violentos.

A REAÇÃO: Corre, então, e vem junto a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem amava Jesus e diz-lhes: Arrebataram o Senhor do monumento e não sabemos onde o deixaram (2). Cucurrit ergo et venit ad Simonem Petrum et ad alium discipulum quem amabat Iesus et dicit eis tulerunt Dominum de monumento et nescimus ubi posuerunt eum. Embora no evangelho de hoje seja unicamente a Madalena a protagonista, sabemos que ela não foi sozinha ao sepulcro, mas talvez a única a correr e dar a notícia da violação da tumba. Não unicamente viu a pedra arrancada, mas também foi testemunha da desaparição do corpo. Todas as mulheres que a acompanhavam viram o sepulcro aberto ou se preferimos a pedra removida (Mc 16, 4; Mt 28, 2; Lc 24, 2 e Jo 20, 1). Sobre a pedra da entrada do sepulcro há uma unanimidade: ela era grande e era uma pedra circular que se rolava para tampar a boca do mesmo. Sobre esta pedra, há duas maneiras de interpretar sua remoção: estava rolada de novo como parece indicar Mc 16, 4, Mt 28, 2 e Lc 24, 1; pois todos usam o termo kylio grego rolar, no caso apokylio. Distingue-se entre pros-kylio rolar em direção a; e apo-kylio rolar à parte ou para fora. Porém, João, o único que viu o sepulcro, usa o verbo airö [levantar] como se a pedra tivesse sido violentamente arrancada, que é traduzido por revolvida [port] removida [esp] ribaltata, virada [ital] e taken away, arrancada [ingl]. Evidentemente assim se explica melhor a passagem de Mateus que diz: O anjo do Senhor descendo do céu girou a pedra e sentou-se sobre ela (Mt 28, 2). Caso rolasse a pedra até o lugar primitivo dentro da cavidade da rocha seria impossível se assentar sobre ela, mas se a pedra fosse lançada fora como numa explosão desde o interior, ela ficava deitada, diante da boca do sepulcro e facilmente serviria de assento. Optamos por esta opção que o quarto evangelista nos oferece. Um fato assim era extraordinário e indicava uma violação da tumba. Elas se perguntam: Quem ou como poderia ter rolado a pedra que era pesada? É um problema para as forças de uma só pessoa. Madalena voltou imediatamente para avisar aos apóstolos de que alguma coisa terrível tinha acontecido com o corpo do Senhor. Que ela estava acompanhada no momento da visão da pedra removida podemos deduzir de suas palavras aos dois apóstolos: Tiraram do sepulcro o corpo do Senhor e não conhecemos onde o colocaram (Jo 20, 3). O plural indica que ela fala em nome de todas, sem ser este o caso de um plural majestático. O sepulcro não estava muito longe dos muros e no máximo seria um ou dois quilômetros de distância entre o sepulcro e o lugar onde estavam os dois apóstolos. Uma outra observação: a volta da Madalena seria a mais rápida possível, daí que ela não estivesse presente à aparição dos anjos às outras mulheres. Marcos (16, 5) Dirá que as mulheres entraram no monumento e viram um adolescente sentado à direita [às direitas em grego]. Mateus, confusamente, une a aparição do anjo aos soldados com a visão do mesmo pelas mulheres. Do relato de Mateus (28, 1-7) parece que as mulheres nem entraram no sepulcro [foram vê-lo], mas estavam perto do mesmo quase junto aos guardas que no momento ficaram desacordados como mortos; e então as mulheres ouviram o anúncio: Não está aqui…. ressuscitou (Mt 28, 6-7). É um relato tão diferente que não parece ser certo historicamente, mas produto de uma apologética, cuja tradição Mateus redige em seu evangelho. Lucas (24, 3-4) afirma que entraram no monumento e não encontraram o corpo do Senhor. Durante um tempo elas ficaram sem saber o que pensar. Foi então que dois anjos se colocaram junto delas em roupas fulgurantes. Lucas, pois, admite um tempo entre a entrada no sepulcro, a visão do desaparecimento do corpo e a aparição dos anjos. Foi o tempo suficiente para que a Madalena voltasse pedindo ajuda aos apóstolos. OS DISCÍPULOS: Pedro é bem conhecido, mas quem era o outro discípulo descrito como aquele que era amado por Jesus? Que significa para João a palavra discípulo, Mathetés em grego? A palavra grega é sempre traduzida por discípulo, mas nem sempre tem um significado concreto e único. O Batista tinha seus discípulos, dois dos quais se encontraram com Jesus e se tornaram seus primeiros discípulos (Jo 1, 35-37). Os discípulos de Jesus entram dentro de duas categorias: a restritiva, dos doze como em Jo 6, 22 pois no barco só eles podiam embarcar, ou Jo 13, 5 em que lava os pés dos discípulos. E a mais ampla, dos que seguem sua doutrina como a si mesmos se declaram os judeus como discípulos de Moisés (Jo 9, 28) e de cujo grupo formavam parte os que ao ouvirem a palavra dura no discurso de Cafarnaum abandonaram Jesus (Jo 6, 60). Logicamente este discípulo era não só amado por Jesus, mas também íntimo de Pedro. Foi a ele, recostado no corpo de Jesus, e que era amado em particular, a quem Pedro perguntou quem era o traidor (Jo 13, 23-24). Seguindo o mesmo quarto evangelho, em 1, 37-42 é o discípulo do Batista que acompanha André. Em 18,15-16 acompanha a Pedro e por sua intercessão o introduz na casa do Pontífice. Em 19, 25-27 está ao pé da cruz e recebe Maria como mãe. Está pescando junto com Simão Pedro quando da aparição de Jesus no lago da Galileia (21, 7). Pedro pergunta a Jesus sobre a sorte do mesmo e, da resposta, todos pensam que não morrerá (Jo 21, 20-23). Finalmente ele é quem afirma que todo o escrito corresponde a seu testemunho pessoal, sem intervenção de outras testemunhas (Jo 21, 24). Porém, apesar de todos estes dados, não temos certeza de quem seja esse discípulo amado, tão ligado a Pedro. Existe um dado a mais: Foi enviado junto com Pedro para preparar a ceia da Páscoa (Lc 22, 8). Provavelmente também seriam os dois os enviados para trazer o jumentinho no dia dos ramos (Lc 19, 29). Após a ressurreição, nos Atos dos Apóstolos, ambos os vemos juntos, entrando no templo (At 3,1). Ambos são levados juntos para serem julgados pelo Sinédrio e interrogados pela autoridade que pergunta em que nome fizeram a cura do paralítico (At 4, 1-7). Foram enviados juntos a Samaria para evangelizar os samaritanos (At 8, 14). Isso tudo converge em que seja João, o irmão de Tiago, esse tal discípulo. Uma coisa é certa: o acompanhante de Pedro é o discípulo amado. Outra é provável: ele é João a quem Jesus chamou filho do trovão (Mc 3, 17).

PEDRO E JOÃO: Saiu, pois, Pedro e o outro discípulo e vieram ao monumento (3). Corriam, pois, os dois juntamente e o outro discípulo correu na frente mais rápido que Pedro e entrou primeiro no monumento (4).Exiit ergo Petrus et ille alius discipulus et venerunt ad monumentum. Currebant autem duo simul et ille alius discipulus praecucurrit citius Petro et venit primus ad monumentum. Os dois versículos denotam a testemunha de primeira mão. Há detalhes que correspondem a uma memória autêntica de fatos jamais esquecidos porque correspondem a um dia inesquecível.

OS PANOS: Então, tendo se inclinado, olha os panos estendidos; todavia não entrou (5). Chega, pois, Simão Pedro seguindo-o e entrou no monumento e observa os panos estendidos (6). Et cum se inclinasset videt posita linteamina non tamen introivit . Then Simon Peter came following him, and went into the tomb and saw the linens lying. Explicaremos no parágrafo seguinte como estavam os panos [linteamina]. Neste parágrafo vemos a concordância na apreciação dos fatos entre as duas únicas testemunhas: não existia o corpo e só ficaram os panos da mortalha que estavam estendidos no lugar do corpo que tinham envolvido.

O SUDÁRIO: Mas o sudário, aquele que estava sobre a cabeça dele, não (estava) estendido dentro dos panos, mas fora, enrolado num lugar à parte(7). Et sudarium quod fuerat super caput eius non cum linteaminibus positum sed separatim involutum in unum locum. Vamos explicar estas poucas palavras que têm sido interpretadas de forma tão diversa pelos muitos autores que as trasladaram do grego. Os detalhes apontam a testemunha ocular presente aos fatos. Unicamente João fala do encontro dos panos mortuários. Totalmente crível, pois, máxime que não narra fato sobrenatural algum que, em últimas instâncias, poderia ser produto de fantasias. Podemos ver três tipos de panos: vendas com o latim mais preciso de linteum; o lençol em latim sindon como em grego e finalmente o detalhe de João do sudário, que é de suma importância. Os othonia que vê Pedro correspondem às vendas e ao lençol, que estavam keimena (posita), do verbo keimai (estar deitado em oposição a estar de pé) e que podemos muito bem traduzir por deixados, jacentes, como o corpo de um morto. Tentaremos traduzir da melhor maneira possível o relato de João. João ou o discípulo preferido por Jesus chegou e se inclinou e sem entrar viu os panos deitados [esta é a tradução direta de Keimena, que nós temos substituído por estendidos] (Jo 20, 6). O latim posita pode ser traduzido por uma das 4 acepções de ponere: pôr (put), colocar (place), deitar (lay), arrumar (set). Talvez devêssemos traduzir também por arrumados. Mas o mais importantes é o que João declara mais adiante como testemunha ocular. Pedro entra e então João tem uma visão mais detalhada do que tinha acontecido. Os versículos 6 e 7 têm sido traduzidos de forma diferente. (6) Pedro entrou dentro do monumento [sepulcro] e vê os othonia [<3608>=linteamina=panos de linho <3608>] keimena [<2740>=posita=postos ordenadamente]. Vamos explicar detalhadamente o significado das palavras e depois traduzir livremente, mas corretamente, a frase. Entrou em aoristo. Vê em presente, indicando um presente histórico que realça a veracidade do testemunho pessoal. O sepulcro recebe o nome de mneméion, ou seja, monumento funerário, que podemos traduzir por mausoléu, ou tumba sepulcral monumental. Uma outra palavra é othonia que o latim traduz por linteamina [roupas de linho]. A palavra é quase exclusiva de João que diz foi atado por othoiniois (linteis). Lucas a usa para dizer que Pedro encontrou os panos unicamente (24, 12). O que Pedro viu, segundo João, eram othonia (linteamina) e o Soudarion (19, 6) do latim sudarium, um lenço. Othonion é um pedaço de pano, em latim linteum às vezes pode indicar ataduras. No singular pode significar qualquer pano de linho desde uma vela de barco, um vestido e até panos mortuários. A lã era considerada imprópria para vestimentas puras como eram as dos sacerdotes e logicamente também para cobrir os cadáveres, impedindo que objetos de procedência animal poluíssem os mortos por contato direto. A palavra está, pois, em perfeita consonância com a relíquia que conhecemos como Santo Sudário de Turim. Mas a palavra que tem dado lugar a maior número de polêmicas é Keimena. É o particípio presente da voz média ou passiva do verbo Keimai que podemos traduzir por estando deitados. Podemos encontrar dois significados diferentes desta palavra no texto grego dos evangelhos; 1) Tratando-se de coisas inanimadas keimenon [singular] significa colocadas, ordenadas, postas aí, como traduz propriamente a vulgata: posita [posto, situado, colocado com certa ordem, arrumado, sem estar tirado de qualquer jeito]. Assim em Jo 2, 6: estavam keimenai as talhas de pedra das bodas de Caná. 2) Com respeito a pessoas significa a postura jacente, deitada, em oposição a de pé ou sentada. Um exemplo é Lc 2, 12 quando o anjo anuncia aos pastores que veriam o menino deitado na manjedoura. Assim Mateus 28, 6 o anjo anuncia às mulheres: Vede o lugar onde jazia. No caso, pois, optaremos pelo significado dispostos em ordem. Não creio que possamos traduzir por desinflados, aplanados, como disse meu antigo e queridíssimo professor de grego, hebraico e bíblia o Pe. .Balaguer (qepd). Alude o professor a que uma cidade conquistada é também keimene, ou seja, arrasada as muralhas tendo desabado. Porém existe uma outra forma de ver as cidades keimenai, como mortas, como um morto jaz inerte, sem vida, sem pensar em muralhas desmoronadas. Mas, se trata de textos evangélicos. E os dois exemplos evangélicos podem ser perfeitamente traduzidos como ordenadamente postos. Assim será nossa tradução: vê os panos mortuários ordenadamente arrumados. O SUDÁRIO: Vejamos o significado de soudarion [<4676>] grego. Geralmente era o lenço próprio para tirar o suor do corpo. Era o lenço de grande tamanho que cobria o rosto dos mortos. Ele estava sobre sua cabeça (7). Isto indica que cobria rosto e nuca como se fosse um capuz, que, aliás, era veste mandatária dos condenados à morte como diz Cícero: I lictor, colliga manus, caput obnubito, arbore infelice suspendito. Vai, lictor, atada a mão, tampada a cabeça, seja pendurado da árvore infeliz. Porém também os mortos de morte natural tinham um sudário que era atado ao redor do rosto como um lenço dos antigos desenhos dos pacientes de dor de dentes para impedir a abertura da boca (Jo 11, 44) [opsis autou soudario periededeto , traduzido ao latim por fácies illius erat ligata], como eram ligados os pés e também as mãos porém com faixas [keiriais grego]. Encontramos no mesmo evangelista duas descrições diferentes de cadáveres: Lázaro e Jesus. Um deles, Lázaro, de morte natural, em que um sudário foi usado para atar o rosto e impedir que o maxilar relaxado abrisse a boca, portanto [fácies ligata], atado ao redor do mesmo. No outro, Jesus, um sudário colocado sobre a cabeça [super caput ejus], ou seja, cobrindo totalmente a mesma; cremos que poderia ser o capuz. O corpo de Jesus foi envolto num lençol, segundo Lucas 23, 53 e mais explicitamente João dirá que eram panos de linho [othonia], os mesmos que ele encontrou dispostos em ordem. Temos uma prova de como os corpos eram sepultados ao vermos no dia de hoje os enterros dos mortos no Oriente: Envoltos num lençol e com três ataduras. Uma no pescoço, outra nas mãos e a terceira nos pés. Dentro desse <sarcófago> de linho teremos o rosto coberto com um lenço que foi o que João viu ou meta ton othonion keimenon, allá khoris entetyligmenon eis ena topon. A tradução latina é: non cum linteamínibus pósitum, sed separátim involútum in unum locum. A tradução latina, como sempre, é literal e precisa. De ambas as frases deduzimos: o sudário, que estava [anteriormente] cobrindo a cabeça, não estava posto junto aos lençois, mas fora [dos mesmos], enrolado [do latim podemos traduzir tirado] a um único lugar [numa posição única]. É esquisito que o eis ena topon seja um acusativo de movimento, que dificilmente pode ser traduzido como estando [verbo estático] em um [outro] lugar, mas deveríamos traduzir como tirado, jogado [tomado do latim] para um lugar diferente, muito melhor que enrolado. Esta é a única maneira de entender o texto que é traduzido de maneira tão diversa. Como interpretá-lo? Não posso assegurar nada como certo. Porém dado o assombro de Pedro e a decisão de João de acreditar na ressurreição, podemos dizer que naquele sepulcro havia dados suficientes para descartar o roubo e pensar numa coisa sem explicação natural. Isso não tanto pelo modo como estavam os panos, mas pelo jeito como eles viram o sudário. Se o corpo não estava dentro, é lógico que a mortalha estivesse aplainada como vazia. Mas se o sudário não estava dentro da mortalha e era visto como deixado fora da mesma em lugar visível isso quer dizer que saiu de dentro das ataduras exatamente como o corpo, de modo incrível. Vamos explicá-lo com um exemplo: imaginemos que enterramos um familiar. Na preparação do morto, ao vesti-lo colocamos uma gravata no defunto. Logo dentro do caixão, fechado com pregos, o enterramos. Dois dias após nessa tumba comum vamos enterrar uma outra pessoa. Ao abrir a tampa do sepulcro vemos que a gravata que estava no pescoço do defunto está fora do caixão, sendo que este está fechado com pregos como no tempo em que o enterramos e ao abri-lo nos deparamos que o corpo não está lá. Que pensaríamos? Pois, de modo semelhante encontrou João o corpo que ele tinha ajudado a amortalhar e no lugar da gravata o que estava fora da mortalha [fora do caixão para nosso caso] era o sudário. Por isso, Pedro voltou para casa, muito surpreso com o que acontecera (Lc 24, 12). Vamos traduzir mais livremente: Viu os panos vazios no lugar onde antes envolviam o corpo; mas o sudário estava jogado fora dos panos em lugar separado deles. Ou seja, sem que as ataduras fossem desatadas, formando um conjunto harmoniosamente jacente (o positum latino) viu o lenço que cobria a cabeça que estava como um embrulho em lugar separado das mesmas. Para entender o impacto sobrenatural que recebeu Pedro, Lucas (24, 12) usa o Thaumazo grego que se emprega para explicar a maravilhosa impressão diante de um milagre (At 3, 10).

JOÃO ACREDITOU: Então, pois, entrou também o outro discípulo que tinha chegado primeiro ao monumento e viu e creu (8). tunc ergo introivit et ille discipulus qui venerat primus ad monumentum et vidit et credidit. O testemunho do apóstolo-evangelista aqui é reforçado, porque ele, não entrando, não poderia ter arrumado os panos. Eles estavam aí, e sua vista, como antes temos explicado, foi suficiente para que o apóstolo amado cresse à vista do que ele observou.

A CONFUSÃO DE PEDRO: Porque ainda não tinham conhecido a Escritura que é necessário ele ressuscitar dos mortos (9). Nondum enim sciebant scripturam quia oportet eum a mortuis resurgere O comentário abrange tanto ele, João, como Pedro. Se tivessem sabido e interpretado a Escritura, não teriam corrido angustiados para ver o acontecido como se fosse um roubo. Pedro, segundo Lucas, ficou cheio de estranhezas sobre o que tinha contemplado. Pelos mesmos fatos, João acreditou na ressurreição. João, conforme seu propósito, nada diz sobre os sentimentos de Pedro, mas escreve sobre o que ele viu e acreditou. Porém deixa entender que Pedro tanto como os outros discípulos ainda não podia compreender os textos sobre a Ressurreição e esta não cabia em suas cabeças. Foram tomados de surpresa e contra toda expectativa. Jamais a ressurreição de Jesus entrava nos planos de suas vidas. E nas nossas?

PISTAS:

1) Nos relatos da ressurreição vemos a descrição de um verdadeiro milagre. Em todo fato sobrenatural existem dois fatores independentes: Um deles é o fato humano, que todos podem ver e do qual podem ser testemunhas. No caso, a pedra rolada ou bruscamente jogada fora [o sepulcro aberto], a ausência do cadáver que a Madalena atribui a roubo: pegaram o corpo do Senhor e não sabemos onde o levaram (2). A disposição da mortalha que mesmo aceitando traduções menos comprometidas, indicava alguma coisa de anormal. E está o outro fator que é a causa de um fato sem explicação humana nem científica: Como pode acontecer? E é precisamente nesta inexplicável causa, que encontramos um poder transcendente se finalmente cremos, ou um mistério que pensamos seja produto do acaso ou de uma causa que deixamos para o futuro poder descobrir, se o agnosticismo domina nosso pensamento.

2) A fé: Foi necessário o encontro pessoal para que os discípulos cressem em Jesus ressuscitado, com a exceção de João. O sepulcro aberto e a disposição dos panos mortuários foram suficientes para que, desses indícios, João acreditasse. Daí sua informação que parece sem importância, mas que foi para ele o início de uma vida nova e da qual nós podemos aprender uma lição extraordinária. Nós também temos unicamente indícios sem que exista o encontro pessoal com Jesus. Porém deve existir uma vontade de crer para que esses indícios não sejam um desperdício. É essa vontade que precede a fé e que será motivo de nossa justificação como Paulo afirma (Rm 4, 3).

3) Os evangelhos recolhem informações, indícios e testemunhas que apontam à transcendência de Jesus e à transcendência de nossas vidas, dependentes de Jesus. Todas as demais religiões se apoiam em valores humanos ou humanizados da divindade. Não existe um homem-Deus. A nossa, em valores divinos que são humanos em Cristo, especialmente na sua ressurreição que não é unicamente a de Jesus, mas também nossa como afirma Paulo. E sem esta fé na ressurreição, é vã a nossa fé (1 Cor 15, 17) e sem essa esperança, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens (idem 15, 19).

4) Diante do encontro pessoal de Cristo com seus apóstolos, o sepulcro vazio, os lençois e sua disposição passam a ser secundários. Eles passaram do Jesus de Nazaré ao Cristo Senhor pela visão que tiveram de sua pessoa ressuscitada. Por isso que nos outros três evangelhos as aparições são tão importantes e que os detalhes do sepulcro se tornam vagos e imprecisos. Somente João os descreve minuciosamente porque foi neles que ele encontrou a sua fé. Foi o único que acreditou sem ter visto o Senhor [o ressuscitado]. E neste sentido, João é o discípulo que melhor se assemelha a nós, porque sem ter visto acreditamos por indícios e informações de testemunhas oculares. Por isso somos PÁSCOA!

EVANGELHO ALTERNATIVO - Lc 24, 13-35 - OS DISCÍPULOS DE EMAÚS

EMAÚS: Ora, eis que dois deles estavam caminhando nesse dia a uma vila, distante sessenta estádios de Jerusalém, de nome Emaús (13). Et ecce duo ex illis ibant ipsa die in castellum quod erat in spatio stadiorum sexaginta ab Hierusalem nomine Emmaus. EMAÚS: Seu nome significa banhos quentes e era uma vila [komes], ou seja, um conglomerado de casas rústicas para servir de habitações para os camponeses e outros, chamados teknos [marceneiro, pedreiro e ferreiro numa só pessoa] com uma população talvez inferior a 400 habitantes. Na atualidade, existe um local a 60 estádios ou aproximadamente 10 Km de distância de Jerusalém, que corresponde ao relato de Lucas. O Emaús bíblico [El-Qubeibah] está situado ao lado de uma via romana que ia de Jerusalém ao mar. Perto existe uma fonte que se diz era onde Jesus lavou os pés após a caminhada com os dois discípulos.

A CONVERSA: E eles conversavam entre si acerca de todas as coisas acontecidas (14). E sucedeu que, enquanto eles conversavam e discorriam, também ele, (o) Jesus, tendo-se aproximado, caminhava com eles (15). Et ipsi loquebantur ad invicem de his omnibus quae acciderant Et factum est dum fabularentur et secum quaererent et ipse Iesus adpropinquans ibat cum illis. ACONTECIDAS [Symbebëkotön <4819>=acciderant]: Evidentemente eram os sucessos da morte de Jesus e de sua desaparição, tendo como sinal de discussão o sepulcro vazio. Era o domingo e o acontecido estava recente em suas mentes. Disso falavam entre si enquanto caminhavam. DISCORRIAM [Syzëtein <4802>=quaererent]: O verbo grego significa buscar, inspecionar, examinar e também debater, comentar. Temos optado por um verbo neutro como discorrer, ou seja, comentar em sentido de querer compreender o que tinha sucedido, pois para eles, os fatos não tinham uma razão compreensível. Nesse momento, Jesus, que no grego tem o artigo determinante para indicar que era Ele precisamente, uniu-se a eles, como nova companhia.

OLHOS IMPOSSIBILITADOS: Porém, os olhos deles estavam travados de modo a não o reconhecerem (16). Oculi autem illorum tenebantur ne eum agnoscerent. TRAVADOS [Ekratounto <2902>=tenebantur]: Segundo o sentir da época, os olhos tinham dentro uma espécie de lanterna ou lâmpada, que se iluminava e assim podiam ver as coisas (Mt 6, 22 e Lc 11, 34). O verbo grego Krateö significa agarrar, se manter firme, resistir, conter, e por isso, optamos por travar; daí entupir, estar fechado.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


 

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20.03.2016
Domingo de Ramos e da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo — ANO C
( VERMELHO, CREIO, PREFÁCIO PRÓPRIO – II SEMANA DO SALTÉRIO )
__ Da paixão à ressurreição __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Irmãos e irmãs, sejam bem-vindos à celebração do domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Fazemos memória da entrada de Jesus em Jerusalém para realizar o seu mistério pascal. Aclamemos aquele que vem em nome do Senhor, seguindo as suas pegadas. É Domingo de Ramos. São os últimos passos da caminhada rumo à Páscoa. Com Jesus, caminhamos rumo à Jerusalém, cenário onde se desenvolverão os grandes mistérios de nossa fé. Hoje, carregando ramos em nossas mãos, somos convidados a contemplar o Deus que, por amor, fez-se servo e se entregou para que o ódio e o pecado fossem vencidos e a vida nova triunfasse. Com o Domingo de Ramos, descortina-se a Semana Santa em que a Igreja celebra os mistérios da salvação levados a cumprimento por Cristo nos últimos dias de sua vida, a começar pela entrada messiânica em Jerusalém. Queremos ter em nossos corações o mesmo desejo ardente de Jesus para com ele celebrar a sua Páscoa e assim participar de sua Ressurreição.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Iniciamos a Semana Santa comemorando a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém, montado em um jumentinho, como um pobre, e aclamado pela multidão, como um rei. É o Filho do Homem, cuja realeza tem sua manifestação mais plena na cruz. Por isso, esta semana culmina com o Tríduo Pascal, que comemora a morte e ressurreição de Cristo. Imitando o povo de Jerusalém, festejemos a entrada triunfal de Jesus na cidade Santa, e, com Maria, fiquemos junto a Ele ao pé da cruz.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER:A oferta de sacrifícios a Deus parece constituir, em todos os povos, a expressão mais significativa do senso religioso do homem. Despojando-se de tudo o que lhe pertence por conquista ou pelo trabalho, o homem reconhece que tudo pertence a Deus e lho restitui em agradecimento. Jesus fez sua a pobreza radical do homem perante Deus, apoiou-se na palavra do Pai e não se subtraiu à condição do homem pecador, ao sofrimento que vem do egoísmo e nem aos limites da natureza humana, nem mesmo à morte.

Sintamos o júbilo real de Deus em nossos corações e cheios dessa alegria divina entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


EVANGELHO DA BENÇÃO DOS RAMOS (Lc 19,28-40): - "Bendito o rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!"

PRIMEIRA LEITURA (Is 50,4-7): - "O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida"

SALMO RESPONSORIAL (Sl 21): - "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"

SEGUNDA LEITURA (Fl 2,6-11): - "Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra."

EVANGELHO DA MISSA - LEITURA DA PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO (Lucas 23,1-49):
ATENÇÃO: A leitura da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 23,1-49) é muito extensa e não é possível colocar na janela azul. Por favor, pegue a Bíblia para a leitura.



Homilia do Diácono José da Cruz — Domingo de Ramos — ANO C

"ACOLHAMOS NOSSO REI"

Lembro-me quando Pedro Augusto Rangel elegeu-se primeiro prefeito da minha cidade de Votorantim recém emancipada,  e o povo se aglomerava no jardim "Bolacha", onde ele passou com um grupo numeroso, a gente ficava na calçada em meio a multidão e acenávamos com a mão, enquanto que ele nos retribuía com acenos e sorrisos. Eu me senti orgulhoso por estar lá, apesar de ser um menino, pois o fato do prefeito ter retribuído o aceno, dava-me a nítida impressão de que ele olhava para mim. Essa troca de olhares, sorrisos, acenos, tudo é um sinal exterior daquilo que interiormente estamos sentindo. Eu na verdade não sentia nada, mas percebi que meu pai estava emocionado e dizia todo radiante “Esse é dos nossos, é do povão”.

O povo simples, postado á beira do caminho que levava a Jerusalém, se identificavam com Jesus de Nazaré, havia em todos aqueles corações, marcados pela esperança, um sentimento de alegria, porque o esperado reino messiânico estava chegando naquele homem: Jesus de Nazaré, montado em um jumentinho, para por um fim no reino da pomposidade. O mesmo sentimento presente no coração do povo estava também no coração do Messias, porém, a salvação e libertação que ele trazia era em seu sentido mais amplo.

A procissão do Domingo de Ramos exterioriza esse acolhimento, essa aceitação de Jesus, no coração e na vida de quem crê, mas precisamos tomar muito cuidado, para que o nosso canto de Hosana, não fique no oba-oba do entusiasmo momentâneo, pois proclamá-lo nosso Rei e Senhor, significa um rompimento com qualquer mentalidade ou cultura da modernidade, é a experiência profunda da conversão sincera, é a prática de uma espiritualidade que ultrapassa a religiosidade ou o simples devocional, e que nos coloca na linha do discipulado.

A ruptura se faz necessária justamente porque as vozes contrárias ao Reino, dos Poderes do mundo, tentarão sempre abafar ou distorcer a palavra de Deus. Por isso, o servo sofredor, apresentado por Isaias na primeira leitura, é alguém “duro na queda”, inflexível, convicto da missão, e que nunca se deixa “engambelar”, porque tem a língua sempre afiada, não para cortar a vida do próximo, mas para proclamar as Verdades de Deus, reconfortando os tristes e abatidos, despertando esperança no coração de todos os que o ouvem. Ainda é esse mesmo Deus que lhe abre ou ouvidos para que escute como discípulo.

Escutar como discípulo requer a disposição interior em doar-se totalmente por esta causa, por isso este Servo sofredor, que a igreja aplicou a Jesus, coloca toda sua confiança no Deus que vem ao seu auxílio, e que jamais o irá desapontar. Há ainda nessa liturgia, uma atitude que não deve faltar na vida de quem se dispõe a acolher Jesus Cristo como seu único Senhor e Salvador, é o esvaziamento, em grego “kênose”, que encontramos na segunda leitura dessa liturgia, quem quiser encher-se como um pavão, e alimentar a vaidade da santidade, nunca poderá ser discípulo autêntico, pois o Cristo que hoje acolhemos é o Cristo da vergonha e humilhação, é o Cristo rebaixado á condição de servo, é o Cristo que morre nu, pendurado em uma cruz, em uma morte vergonhosa e extremamente humilhante.

Acolher e ovacionar Jesus neste domingo de ramos é bastante comprometedor, por isso que a procissão expõe a fé da nossa igreja publicamente, acenar com os ramos, cantar nossos hinos de louvores e de Hosana, significa a disposição, a coragem e a fidelidade, para percorrer esse mesmo caminho, na firmeza inabalável, ainda que o mundo nos apresente tantos atalhos sedutores, onde podemos ser cristãos adocicados, ou se preferirem, cristãos de “meia tigela”, sem sofrimento e sem nenhum compromisso com o ensinamento do evangelho, como dizia um compadre na porta da igreja, em tom de brincadeira “Ser cristão é coisa muito boa, o que atrapalha é a cruz”, assim pensa a maioria dos cristãos da modernidade, e o próprio Pedro – Chefe da Igreja – também pensava, pois negou o mestre por três vezes, hoje se nega muito mais.

O evangelho da paixão nos mostra o elemento fundamental na vida do cristão: a oração, mas não aquela em que choramingamos diante de Deus, pedindo para que ele mude a nossa sorte, nos favorecendo em tudo aquilo que queremos, mas oração igual à de Cristo em sua agonia.

E finalmente, em um momento tenebroso, Lucas descreve a prisão de Jesus, como uma vitória momentânea das trevas sobre a luz. Jesus hoje continua preso, querem abafar o seu ensinamento, distorcer a essência do seu evangelho, amenizar as exigências do ser cristão, transformando-o em um cristianismo mais “light”. É bom durante a procissão de ramos, fazermos um questionamento: De que lado nós estamos? Senão, esta Semana chamada de Santa, será apenas mais uma entre muitas, cheia de piedade e devoção, e sensibilidade capaz de arrancar lágrima dos olhos, nada que uma boa dramatização teatral, também não consiga fazê-lo...

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — Domingo de Ramos — ANO C

Atitudes corretas

Hoje começa a Semana Santa, uma oportunidade que a Igreja nos oferece para que estejamos bem unidos aos mistérios centrais da vida de Jesus Cristo. Acompanharemos o sofrimento de Jesus e nos alegraremos com a sua glória. Talvez seja interessante ter uma perspectiva através da qual olhar o mistério pascal de Cristo: alguns procurarão ter as atitudes de Nossa Senhora, outros procurarão fazer as vezes de São José, outros ainda pedirão a fidelidade de João, alguns suplicarão o paraíso com o chamado “bom ladrão”, muitos reconhecerão a divindade de Jesus como o soldado que estava aos pés da cruz do Senhor, outros finalmente chorarão como a Madalena. Nessas horas supremas não podemos ser traidores quais Judas, tampouco podemos fazer como os escribas e os sumos sacerdotes que “buscavam algum meio de prender Jesus à traição para matá-lo” (Mc 14,1).

Qual vai ser a sua atitude? Na terceira semana da quaresma, numa das leituras semanais se falava da animadversão que os da sinagoga começavam a ter para com Jesus: “Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício” (Lc 4,29). Diante dessa atitude, o Evangelho deixa bem claro que “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4, 30). Cristo estará passando bem perto de nós durante essa Semana Santa. Será que também nós o deixaremos continuar o seu caminho sem deter-se diante das nossas necessidades espirituais? Está nas nossas mãos!

Nesse Domingo de Ramos seria bom que trabalhássemos as nossas atitudes, que pensássemos diante de Deus sobre as disposições do nosso coração, que nos abandonássemos em suas mãos deixando que Deus atue cada vez mais nas nossas vidas, principalmente durante essa semana de abundantes bênçãos.

Atitudes? Referem-se às nossas posturas diante das pessoas ou das coisas. Geralmente, toda ação causa em nós uma reação. E são as nossas reações que vão delineando o nosso caráter, que nos vão fazendo pessoas boas ou más. Isto é, as nossas ações não são simplesmente atos bons ou maus, mas com elas nós mesmos nos tornamos pessoas boas ou más. As nossas atitudes mostram a medida da nossa humanidade e, também, da nossa divinização em Jesus Cristo.

Quem adota uma atitude que se resume na acolhida de Cristo tem que concretizá-la na jornada de cada diz. São Josemaría Escrivá expressava-o de maneira magistral: “o nosso caminho é o corrente: santificar as ações vulgares e comuns de cada dia…, fazer decassílabos, verso heroico, da prosa diária”. Durante essa semana, procuraremos santificar essas ações vulgares. Não nos enganemos porque também a nossa penitência é vulgar, é comum: coisas pequenas feitas por pessoas que podem oferecer a Deus essa pequenez. A amabilidade, a generosidade e humildade são disposições, atitudes, virtudes a serem cultivadas durante essa semana santa. Para melhor acolhermos a graça de Deus nas nossas vidas, não nos esqueçamos de que Deus também pede de nós o esforço para abrirmo-nos aos outros: será preciso convidá-los a rezar conosco nesta semana, estar atentos às suas necessidades materiais e espirituais, ajudar alguém a entrar no caminho de Deus.

Uma última coisinha: não percamos as celebrações litúrgicas da Semana Santa, principalmente a Vigília Pascal, que é a máxima celebração do Ano Litúrgico da Igreja. Convidemos os nossos amigos a participarem também. Quem sabe não será essa a grande oportunidade que muitos terão para aproximarem-se de Deus?

Não vamos perder oportunidade de viver o tempo presente dando muito atenção a Deus e aos demais. O seguinte relato pode nos inspirar a tomar algumas atitudes. Cito o texto de Cristina Moraes Vojvodic em “Retratos de Família”:

“A princípio, mal notou o movimento dentro do car ro ao lado, entretido como estava com seus próprios pensamentos, mas a insistência foi tanta que acabou por se voltar para ver o que era. Um menino, lá pelos seus dois anos de idade, acenava um adeusinho, provavelmente cansado da sua prisão sobre quatro rodas. Consciente ou inconscientemente, recusou-se a permitir essa ”invasão” e ignorou a criança. Sim, suas metas estavam muito bem estabelecidas e nada nem ninguém poderiam impedi-lo de alcançá-las.

“O menino não desistia. Melhor não retribuir o gesto, pois aí é que ele não pararia mais. Seus filhos, ele bem se lembrava, eram assim mesmo quando peque nos. Andar. Ótimo; agora ficaria longe do pequeno e inoportuno vizinho. Parar. Qual! Lá estava ele, com seu sorrisinho e seu incansável “tchau”… Igualzinho a seus filhos… não! Os anos haviam passado e seus filhos eram maiores, já não achavam graça nisso. Aliás, não achavam graça em coisa alguma, ou quase. Pa reciam uns perfeitos adultinhos, exigentes, enfadados, descontentes e irônicos. Experimentou certo des conforto ao pensar nisso, mas não era culpa sua.

“Quando havia ocorrido a transformação em seu re lacionamento com os filhos? No começo, havia sido bom – é fácil contentar os pequenos -, mas gradati vamente os filhos tinham-se tornado verdadeiros es tranhos; não buscavam a sua companhia; não o pro curavam nos poucos momentos de que dispunha. Olhou rapidamente para o lado e viu que o menininho ainda tentava chamar a sua atenção. Já não sorria… Já não acenava. Agora batia no vidro, impacientemente.

“Lá se foi o menino… Que decepção deve sentir uma criança que se vê ignorada! Será que os seus próprios filhos lhe haviam acenado durante esses anos todos sem que ele os notasse, ou, pior ainda, percebendo que o faziam sentir-se incomodado, “invadido”? Será que a única coisa que, em silêncio, tinham insistido em receber era a sua atenção? Que decepção deviam sentir! Talvez fosse tarde para procurá-los. Talvez já não qui sessem a sua companhia. Ele mal os conhecia. Haveria algum modo de atingi-los?

“Novo movimento no tráfego, e mais uma vez o me nino do carro ao lado estava a olhá-lo, quieto, a testa grudada na janela.

“Sentiu-se um pouco ridículo de acenar assim, so zinho no carro, com um gesto pouco espontâneo, meio contido. Se alguém o visse iria rir. Que rissem! Já ace nava agora com um pouco mais de ânimo e, quando deu por si, estava até sorrindo. Do outro lado, o me nininho demorou um pouco a reagir, como que duvi dando do que via, mas logo abriu o rosto em uma ri sada e, com toda a alegria, acenou furiosamente para o seu novo amigo. E assim continuaram por alguns minutos em sua muda comunicação, até que o trânsito os separou definitivamente.

“Nada havia acontecido, de fato. Tudo continuava igual, mas uma vaga sensação de contentamento se in filtrou em sua mente. Quem sabe seus filhos ainda qui sessem tentar encontrá-lo!”

Acaso não estará Deus acenando para nós nesta Semana Santa esperando a nossa resposta afirmativa e decidia a segui-lo cada vez mais intensamente e com atitudes bem concretas?

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — Domingo de Ramos — ANO C
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (Fp 2, 6-11)

INTRODUÇÃO: O trecho é considerado um hino em louvor a Cristo; mas podemos considerá-lo como uma autêntica fórmula de fé em que os cristãos resumiram a vida do Salvador: Um despojamento [Kenösis], um revestimento [sua humanidade], uma humilhação [sua obediência], uma morte sacrifical [de cruz]. A esse destino, livremente assumido, correspondeu sua exaltação [ressurreição] sobre toda criatura [novo nome], que o elevou à categoria divina [Senhor]. Se christianus alter Christus, é assim que deve ser nossa história dentro da História da humanidade, pois foi essa existência a escolhida como caminho e vida pelo Filho de Deus.

A KENÖSIS: O qual (Cristo) em forma de Deus existindo (continuando a existir), não estimouroubo ser igual a Deus (6),mas esvaziou-se a si mesmo tomando a forma de um escravo, em semelhança de homens se tornando (7). Qui cum in forma Dei esset non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo, sed semet ipsum exinanivit formam servi accipiens in similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. FORMA [Morfë<3444>=forma] é a aparência, figura, ou externa maneira com a qual uma pessoa, é vista; diferente do schema <4976> que pode ser traduzido por modelo, aspecto, hábito. A forma indica em si mesma a presença externa com a qual uma pessoa ou coisa pode ser vista e conhecida. EXISTINDO [Yparchön <5225>=esset]: O verbo Yparchö tem como sentido estar por baixo, começar, ou simplesmente ser como em 1Cor 11, 7 quando Paulo fala do varão, como sendo [representando] imagem e glória de Deus. Uma vez pode ser traduzido como viver; por exemplo, em Lc 7, 25 em que fala dos vivendo [yparchontes] em palácios. As traduções antigas falam de subsistir com o significado de existir ou continuar existindo, permanecer. Talvez pudéssemos traduzir por permanecendo em forma de Deus, ou continuando a ser Deus, que indica não deixando de ser Deus. ESTIMOU [Ëgeomai <2233>=arbitrare]: A tradução primária é liderar, conduzir, e também considerar, estimar, julgar, pensar, como parece ser o caso.Um exemplo em 2 Cor 9, 5: Julguei[ëgësamën] pois necessário. Assim temos traduzido por estimar. ROUBO [Arpagmos<725>=rapina]: traduzido como roubo, latrocínio, furto, apoderar-se de uma coisa imprópria ou que não lhe pertence. É a única vez [ápax] que acontece no NT. O significado é que a divindade era própria dEle e não houve mistificação ou apropriação imprópria da divindade em sua pessoa. ESVAZIOU-SE [Ekenösen<2758>=exinanivit]: o verbo Kenoö significa esvaziar. A fé se torna vaziae a promessa nula dirá Paulo em Rm 4, 14. O significado é que externamente nada demonstrava do que podia ser atributo, qualidade ou sinal distintivo da divindade. Pelo contrário o que era próprio dEle foi anulado porque tomou totalmente outra maneira de ser visto e esta foi a puramente humana, que Paulo chama aspecto de um escravo. O DOULOS [<1401>=servus] não pode ser traduzido por servo, pois estes não existiam na época ou eram chamados diakonoi. A tradução, pois, deve ser escravo, condição última entre os homens e que estavam à disposição do amo sem ter vontade própria. A mesma Virgem Maria declara ser escrava do Senhor (Lc 1, 38), indicando a total submissão e obediência ao que desde então seria seu Senhor. SEMELHANÇA [Omoiöma <3667>=habitus]: semelhança, parecido,  aspecto, forma. Esse aspecto é o de um homem, ou, segundo a tradução direta, aspecto de homens em plural. Como conclusão, temos que Cristo tem como essência a divindade e que a humanidade foi como um vestido ou aspecto externo com o qual foi reconhecido entre os homens de seu tempo. A Igreja interpreta esta passagem declarando: uma pessoa divina e duas naturezas: divina primeiro, como increada e eterna,  e logo, humana, como criada e assumida.

OBEDIÊNCIA: E sendo encontrado em hábito como homem, humilhou-se feito obediente até (a) morte, morte, porém de cruz (8). Humiliavit semet ipsum factus oboediens usque ad mortem mortem autem crucis. HABITO [ Schëma <4976>=habitus]: Em grego significa figura, modo de se comportar, maneira de proceder ou viver. A Vulgata tem a primeira parte como porção do versículo anterior [habitus inventus ut homo]. A ideia subsistente é que Cristo se comportou como um homem comum, sem que a diferença com a divindade pudesse ser vista pelos contemporâneos. HUMILHOU-SE [Etapeinösuin <5913>=humiliavit]: de Tapeinoö que significa humilhar, rebaixar, degradar, abater, abaixar. A ideia é que Cristo desceu até uma posição humilde e humilhante, pois o eauton designa que ele quis tomar essa postura voluntariamente como forma que o rebaixou até uma escravidão total como foi sua obediência até a morte. Porém não uma morte natural, que já seria aceitar um fim indigno de um Deus, mas uma morte de CRUZ [Staurou<4716>=crucis]. Hoje só temos uma visão bastante desluzida do que era a morte de cruz. Só falamos em sofrimentos físicos, mas não pensamos na humilhação que os acompanhava. A cruz era degradante e infamante. Era tratar o homem como um escravo que não tivesse outro direito há não ser o aviltamento e o desprezo. Vejamos o que Pedro pensava da cruz: Senhor, não acontecerá isso a ti (Mt 16, 22). E sobre a humilhação temos as palavras de Jesus: Quando envelheceres estenderás tuas mãos e um outro te cingirá e te conduzirá para onde não quiseres (Jo 21, 18) que parece que o tratará como um animal, mas que era o modo de como os condenados eram conduzidos entre os abusos da multidão apos ouvir: I, lictor, obnubilato capite,  duc illum in crucem (Vai lictor, coberta a cabeça, conduze-o à cruz). A cruz era a mais cruel e mais humilhante morte que um homem podia pensar e a essa morte se submeteu voluntariamente Jesus de Nazaré. Dou minha vida pois ninguém a tira de mim. Eu conheço o Pai e dou a minha vida pelas minhas ovelhas (Jo 10, 15) e é por isso que meu Pai me ama porque eu dou a minha vida (idem 17) ninguém a tira de mim, mas eu a entrego por mim mesmo…este é o mandato que eu recebi de meu Pai (idem 18). Em tudo isso encontramos a obediência de Cristo que resulta em humilhação e morte de cruz.

EXALTAÇÃO: Por isso, também [o] Deus o exaltou e o presenteou com um nome sobre todo nome (9). Propter quod et Deus illum exaltavit et donavit illi nomen super omne nomen. Neste versículo temos a reação do Pai que premeia a obediência do Filho. A EXALTAÇÃO [Yperypsösen <5251>=exaltavit] que composto de Uyper [sobre] e Ypsoö [exaltar]; na realidade significa, pois, exaltar sobremaneira. E Paulo explica, dizendo que lhe concedeu um NOME [Onoma<3686>=nomen] no lugar da pessoa. Entre os hebreus, o nome próprio estava relacionado com Javeh, e era uma espécie de qualificação ou destino, de modo que temos vários casos em que Jahveh, ou o anjo do mesmo, comuta o nome: Jacó em Ishrael [homem que luta com Deus] é clássico do AT e Simão em Kefas [rocha] do NT. Em ambos os casos o nome determina a função escolhida por Deus, que destina uma pessoa para um específico fim. Qual é o nome que recebeu o homem de Nazare? Paulo o declara no versículo seguinte Iësous (grego) Iesus (latim) ou Jehoshua [Jahveh salva] do hebraico, que, por sua vez, designa o Josué do AT que foi o sucessor de Moisés. De fato, segundo Êx 17, 9, em hebraico YeHOSHUA[<0391>=Josue] e em grego IËSOUS. O nome era frequente na época, pois Flavio Josefo menciona 20 personagens com esse nome. Em aramaico, e este era o idioma de Jesus, soava como Jeshua. Marcos e Lucas escrevem Iësous ho Nazarënos; e Mateus e João, Jësous ho Nazöraios, fórmula que aparece também nos Atos. Em Nazarënos temos referência ao lugar de residência desde a infânia e em Nazöraios um composto das palavras neser[retonho] e semah [germe] tendo, segundo esta interpretação, um caráter messiânico ou o de Nazareo que significa separado para Deus, como em Nm 6. O nome de Jesus é considerado de tal forma único, na atualidade, que não é usado para nome próprio no Brasil. Excepcionalmente ele é comum, por exemplo, na Espanha.

O NOME: Para que no nome de Jesus todo joelho se dobre sobre os céus e sobre a terra e inferiores da terra (10). ut in nomine Iesu omne genu flectat caelestium et terrestrium et infernorum. No NOME DE JESUS relembra o que Paulo dizia: Se confessares em tua boca que Jesus é Senhor e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Rm 10, 9). Não é, pois, um nome mágico, que pronunciado de imediato realize a obra de salvação, já que deve ser pronunciado desde a fé, aceitando seu senhorio; é, portanto, essa aceitação que Paulo chama de pistis e que em grego podemos traduzir por entrega fiel e confiada, a que provoca a ação salvífica por parte de Deus. JOELHO [Gonu<1119>=genu]: está unido à palavra DOBRAR [Kamptö <2578>=flectare] que como frase significa venerar e em termos religiosos adorar como diz Paulo em Rm 14, 11: Como está escrito: por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho e toda língua dará louvores a Deus. Paulo cita Isaías 45, 23. E esta citação coloca Jesus, o Cristo, a par de Jahveh, sendo agora o Deus do NT. CÉUS, TERRA E INFERIORES: Propriamente sobre os céus, sobre as terras e inferiores da terra. Na concepção do mundo tripartido da época, o mundo era como uma casa de três andares: o inferior era o submundo ou o Katachthonios [<2709>=inferior] onde se encontrava o abismo. Katachthonios é adjetivo e significa subterrâneo, por baixo da terra, que os romanos chamavam de infernos. A palavra é composta de Kata [embaixo] e Chthön [terra]. O adjetivo se torna neutro nesta passagem e plural, indicando a totalidade dos diversos lugares inferiores ou infernos. Era o lugar em que o maligno [Satanás]  tinha seu domínio como príncipe [não senhor]. No segundo andar, temos a terra e sobre ela habitavam os homens e nos lugares inóspitos [éremoi] assim como no ar, estavam os demônios, em geral espíritos akathartoi ou impuros. Finalmente, os céus que eram habitados pelos anjos e era o domínio absoluto de Deus que tinha como príncipe Miguel. Dentre os céus o mais alto [ypsistos] era o terceiro em que estava a morada de Deus (2 Cor 12, 2). Os anjos cantam glória a Deus nos mais altos céus (Lc 2, 14). Com esta frase Paulo quer dizer duas coisas: 1º) Que Jesus deve ser adorado como Deus. 2º) Que a criação está a Ele submetida em sua totalidade.

A CONFISSÃO: E toda língua confesse que Senhor (é) Jesus Cristo para glória de Deus Pai(11). Et omnis lingua confiteatur quia Dominus Iesus Christus in gloria est Dei Patris. CONFESSE [Exomologësetai <1843>=confiteatur]: A confissão é obrigatória como disse Jesus: A quem me confesse diante dos homens o confessarei também eu diante de meu Pai celeste (Mt 10, 32), que com sua parte negativa indica uma necessidade absoluta em ordem à salvação. O verbo Exomologëö [<1843>=confiteor] tem o significado de confessar, proclamar, declarar em geral publicamente uma verdade, anteriormente mais ou menos oculta. Pode ser um pecado, um delito, ou uma verdade religiosa. SENHOR: [Kyrios <2952>=dominus]: em sentido geral, significa dono; em sentido restrito e religioso, é próprio de Deus, que logo foi restringido a Cristo. A proclamação que é exigida pelo sacrifício da cruz é que Cristo é agora o verdadeiro Deus dos homens. E isso para GLÓRIA [Doxa<1391>=gloria] do Pai. Ou seja, que nesta proclamação de Cristo como Senhor, estamos dando um grito de loa e louvor à sabedoria e ao amor de Deus como Pai: Pai de Jesus e Pai de todos os homens que Jesus salvou por sua expiação no sacrifício de sua morte na cruz.

EVANGELHO (Lc 19, 28-40)

A GEOGRAFIA: E tendo dito estas coisas, seguia na frente subindo para Jerusalém (28). E sucedeu, como se aproximasse de Betfagé e Betânia, junto ao monte, o chamado das Oliveiras, enviou dois dos seus discípulos (29). Et his dictis praecedebat ascendens in Hierosolyma Et factum est cum adpropinquasset ad Bethfage et Bethania ad montem qui vocatur Oliveti misit duos discipulos suos. Marcos e Lucas falam de Betfagé e Betânia próximas de Jerusalém. Na realidade não temos certeza de donde estavam situadas as duas vilas ou aldeias, que é como descreve Mateus, Betfagé com a palavra Kome, significando subúrbio também. Num mapa atual o Monte das Oliveiras está ao nordeste do muro leste da cidade de Jerusalém. O caminho desde Jericó o bordeja pelo leste e sul. Ao enfrentar Jerusalém encontramos  ao sul o monte chamado pelos cruzados de Monte do Escândalo. Mateus só menciona Betfagé, a menos de dois quilômetros de Jerusalém. Parece que tanto Betânia (casa dos dateis ou tâmaras) a três quilômetros da grande cidade como Betfagé (casa dos primeiros figos, brevas em espanhol) na metade do caminho entre Betânia e Jerusalém, eram vilas residenciais de sacerdotes. Betânia era a aldeia de Lázaro onde Jesus tinha seus amigos e se hospedava. De Betfagé só conhecemos que estava a menos de uma milha (1600m) de Jerusalém para que os sacerdotes pudessem descansar nos dias de sábado sem infringir a Mishná que mandava serem as distâncias percorridas menos de dois mil côvados (mil metros) e em circunstâncias especiais duplicava-se a distância.

. O JUMENTINHO: Dizendo: ide à vila oposta, na qual entrando, encontrareis um potro atado, sobre o qual nunca homem algum montou; tendo-o desatado trazei [-o] (30). Dicens ite in castellum quod contra est in quod introeuntes invenietis pullum asinae alligatum cui nemo umquam hominum sedit solvite illum et adducite. Este detalhe está claramente explicitado por Marcos e Lucas com a palavra grega Pólos, que é traduzido por colt em inglês e potro ou poldro ao português. Só que, devido ao fato de que estava junto com a mãe, esta atada, tratava-se logicamente de um jumentinho, o Onárion de João. Segundo Mateus encontraram os dois discípulos enviados, talvez Pedro e João (vide Lc 22,8), uma jumenta com seu potro ou jumentinho, aquela atada; ou como diz Marcos (11, 5) um potro atado à porta de fora no cruzamento do caminho. A vulgata traduz ante januam foris in bivio (= diante da porta de fora, na encruzilhada). No lugar de encruzilhada podemos traduzir rua. Como sempre, nestas minúcias, Mateus se dirige pelo afã catequético e metódico-didático, conformando-se o melhor possível com as antigas profecias. Todos ressaltam o jumento como besta de carga e não como animal de guerra.

UMA QUESTÃO: E se alguém vos perguntar por que desatais, assim dizei-lhe: que o Senhor dele tem necessidade (31). Et si quis vos interrogaverit quare solvitis sic dicetis ei quia Dominus operam eius desiderat. É pura lógica que ao tomar como próprio um jumento que tinha seu amo, os discípulos fossem interrogados sobre o fato, que mais bem pareceria um roubo ou apropriação ilícita. Por isso a resposta devia ser clara: O Senhor, isto é o Mestre Jesus, precisa dele. Temos traduzido literalmente para ver a beleza do grego.

ENCONTRARAM O POTRO: Tendo partido, pois, os enviados, encontraram como lhes disse (32). Estando, pois, eles a desatar o potro, disseram os donos dele a eles: por que desatais o potro? (33). Eles, pois, disseram: O Senhor tem necessidade dele (34). Abierunt autem qui missi erant et invenerunt sicut dixit illis stantem pullum. Solventibus autem illis pullum dixerunt domini eius ad illos quid solvitis pullum. At illi dixerunt quia Dominus eum necessarium habet. A Vulgata acrescenta no versículo 32 o potro que estava ali. O resto da narração é de uma lógica real. A resposta dos dois discípulos se ateve ao que Jesus pressentia.

A PROCISSÃO: E o levaram a Jesus e, colocando seus mantos sobre o potro, montaram Jesus sobre ele (35). Ora, marchando ele, esparziam seus mantos no caminho (36). Et duxerunt illum ad Iesum et iactantes vestimenta sua supra pullum inposuerunt Iesum. Eunte autem illo substernebant vestimenta sua in via. VESTUÁRIO: Os judeus usavam só duas peças para se vestir: a túnica vestido interior e o manto ou vestido externo. Lucas fala de Imation [<2440>=vestimentum], termo geral para veste, mas que em especial designava o manto ou capa larga, que era usado também como cobertor para dormir. Os mantos serviram, pois, como sela para um jumentinho que nunca tinha sido montado e ao mesmo tempo como tapete, sobre o qual pisava o animal no pequeno trajeto desde Betfagé até a entrada no templo, pela porta do Oriente, talvez menos de mil metros. O recebimento recorda a passagem de Jeú em 2 Rs 9, 13 em que os chefes do exército deitaram suas capas para que Jeú, atravessando sobre elas, subisse os degraus para ser coroado rei de Israel. Talvez era uma forma de se declarar vencidos ou inferiores à realeza, como os vencidos na batalha, que tinham que se deitar passando o exército vencedor sobre eles, como era costume entre os orientais. De Catão, o de Útica, se diz que seus soldados também espalharam suas clâmides, ou mantos militares, para que sobre eles passasse o general.

A MULTIDÃO: Então aproximando-se da descida do monte das Oliveiras, começou toda a multidão dos discípulos, gozosos, a louvar a Deus com grande voz por todos os fatos de poder que tinham visto (37), dizendo: Bendito o que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória no mais alto (38). Cum adpropinquaret iam ad descensum montis Oliveti coeperunt omnes turbae discentium gaudentes laudare Deum voce magna super omnibus quas viderant virtutibus, dicentes benedictus qui venit rex in nomine Domini pax in caelo et gloria in excelsis. Lucas limita-se a afirmar que os discípulos, gozosos, louvavam (ainein) a Deus com grande voz por todas as maravilhas [Dynameön <1411>=virtutibus] de que tinham sido testemunhas. O que eles gritavam era: ¨Bendito quem chega como rei em nome do Senhor. Paz no céu e glória nos (lugares ou regiões) mais altos!¨ Esta é a tradução literal. De quem saiu a iniciativa dessa manifestação exultante? A eleição da cavalgadura foi de Jesus. Mas as palavras de exaltação e júbilo foram, sem dúvida, escolhidas pelos discípulos, a começar pelos apóstolos. Eles acreditavam que Jesus entraria como rei messiânico em Jerusalém e começaria logo a reinar. Parte do argumento dessas suas expectativas estavam fundadas nas maravilhas que tinham visto fazer por Jesus, como era a cura do cego de Jericó, a multiplicação dos pães, e a ressurreição de Lázaro, que segundo João (12, 12) era o motivo principal da aglomeração da multidão em torno do Mestre nazareno. Esperava-se o Messias sobre um jumento (ver profecias) vindo em direção de Jerusalém, tal e como afirmava Zacarias. Os discípulos, iletrados eles e rudes de entendimento, provavelmente não sabiam nada sobre a profecia, mas estavam cheios de entusiasmo e esperavam o restabelecimento do Reino de Israel (At 1,6). Quando Jesus pediu um jumento eles imediatamente pensaram na entrada triunfal, especialmente porque o cavalo era próprio dos romanos, como instrumento de guerra, e é possível que não fosse usado na época pelos judeus, que tinham jumentos e dromedários como bestas de carga e não cavalgaduras militares. HOSANÁ: Segundo Marcos, Mateus e João o grito comum das turbas era Hosaná, ( Hosaina em hebraico) que não se traduz por ser uma voz comum dentro das assembleias primitivas cristãs, palavra que chegou até nós na versão latina do Sanctus, o prefácio do cânon eucarístico: Hosanna in excelsis. A palavra original era composta de Hoshiáh (salva) e de náh,( rogo-te,  please em  inglês). A tradução vernácula é: Senhor, dá a vitória; ou dá Senhor, dá o triunfo. O salmo 118 [ou 117 dos setenta] diz entre os versículos 24-26: (24) Este é o dia que o Senhor fez; que ele seja nossa felicidade e nossa alegria! (25) Dá Senhor, dá a vitória! Dá Senhor, dá o triunfo! (26) Bendito seja aquele que entra em nome do Senhor! Nós vos bendizemos desde a casa do Senhor. Já os setenta traduzem o versículo 25 por Ó senhor, salva, pedimos! Ó senhor conduze-nos a bom termo!. Esta minha tradução direta do grego coincide com a da BAC volume IV, e com a Vulgata. Também com  a RA (revista e atualizada) evangélica. No tempo de Jesus, a palavra Hosana já tinha o significado de Viva! S. Agostinho afirmava que tinha o valor de uma interjeição latina, ou seja, um grito de júbilo, como olé ou viva. OS GALHOS: O caminho foi também adornado com galhos que eram tirados das árvores próximas, como dirão Marcos e Mateus, coisa que Lucas não descreve. João ainda diz que portavam ramos de palma, o que parece duvidoso, pois tais árvores não existiam perto de Jerusalém. É duvidoso pensar que os galhos estavam jogados no caminho, o que dificultaria a caminhada, mas nos lados do mesmo tal e como se acostumava fazer na procissão da festa das tendas ou sukoth. BENDITO: É o Eulogemenos, que se diferencia do Makários (feliz ou sortudo). Eulogemenos (bendito por excelência) significa uma qualidade intrínseca que o aproxima à divindade. A palavra está nos quatro evangelistas, sem distinção. A quem se refere? Ao que vem em nome do Senhor, como rei. A realeza está clara e explicitamente indicada em Lucas, Marcos e João; e implicitamente em Mateus quando indica o filho (descendente) de Davi, como termo do elogio, título que era totalmente messiânico. O clamor dos Hosanna in excelsis termina o texto latino, tradução direta do grego em Marcos e Mateus. Já Lucas termina os animados gritos da multidão com sua preferida frase desde a aparição do anjo aos pastores: ¨No céu paz e glória nos mais altos (céus)¨. Os judeus tinham três céus no mínimo, no mais alto encontrando-se a morada de Deus. A ele se refere o upsistois (=excelsis) grego. Sem dúvida, que cada evangelista, preservando a substância dos fatos, leva, como vulgarmente se diz, a água a seu moinho, dando lugar a uma certa flexibilidade em suas afirmações. As aclamações, unidas aos atos simbólicos referidos, mostram o desejo de receber como rei libertador à semelhança de como foi recebido Simão Macabeu (1 Mc 13, 51) após ter conquistado a cidadela de Jerusalém por meios pacíficos. Ele ordenou ser esta data celebrada todos os anos. Lembra também a purificação do templo em 2 Mc 10, celebrada todos os anos no mês de Kislev (dezembro) durante sete dias, à maneira das tendas. Tanto num caso como noutro, eram memórias de aclamar publicamente a presença divina, como soberano, na pessoa de Simão, por exemplo, entre o povo. No caso de Jesus também era o momento de entender essa presença na figura do seu enviado Jesus, o de Nazaré. Se em Jo 6,15, Jesus resiste ao anseio do povo de aclamá-lo rei (fora do tempo e da cidade previstos), agora ele não só deixa fazer, mas participa e colabora, pedindo uma cavalgadura ad hoc.  O povo pensava em armas e vitórias para obter um triunfo político e guerreiro. Jesus, segundo a profecia de Zacarias, pretendia um triunfo pacífico como vítima, e um reino espiritual em que a geografia não recortasse sua influência e o amor dilatasse seu reinado, conquistando os corações. A paz, oferecida no perdão mais generoso, e a humildade, básica na sua submissão aos mais cruéis instintos humanos, e sua obediência à vontade do Pai até a morte na cruz, seriam de agora em diante, também para seus discípulos, as chaves básicas de seu reinado.

NOTA: AS PROFECIAS: Temos Isaías 62, 11 Eis que o Senhor fez ouvir até as extremidades da terra estas palavras: ¨Dizei à filha de Sião: Eis que vem o teu salvador, vem com ele a sua recompensa, e diante dele, o seu galardão¨. E melhor do que esta, Zacarias 9, 9:¨Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí  vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, e num jumentinho, cria de jumenta¨. Parecem dois animais diferentes; temos por isso colocado o e em itálico como ressalte. Mas pode ser que como a palavra profética estava em verso, o e não seja disjuntivo entre duas palavras (jumento e cria de jumenta) mas a ilação entre duas orações (montado num jumento, ou seja um potro de jumenta). Esta última tradução está confirmada com o latim da vulgata: ¨ascendens super asinum et super pullum filium asinae¨. Sem dúvida, que Mateus fez uma interpretação sui generis, duplicando os animais e fazendo com que Jesus montasse ao mesmo tempo sobre dois animais, o que não parece provável. Interessante é que os setenta têm uma tradução diferente do texto hebraico: ¨montado sobre uma besta de carga (daí a distinção com o cavalo que não era besta de carga mas besta de guerra) e (que era) potro (jumento) novo¨. O jumento é, pois um animal de usos pacíficos (daí a humildade do rei). Mas: como vemos na sequencia, o animal em que montou Jesus devia ser novinho, sem conhecer cavaleiro que o montara anteriormente. Cremos, pois, que era só um animal o que escolheram os discípulos, um potro de jumenta, novo,  sobre o qual nunca ainda ninguém tinha montado. Este inciso era para indicar a divindade de Jesus, pois no AT só podiam ser oferecidos em sacrifício animais que não tivessem sofrido jugo. Os rabinos diziam que se Israel fosse puro, o Messias viria sobre as nuvens conforme Dn 7, 13; mas em caso contrário sobre um jumento conforme Zacarias 9, 9. Realmente, a profecia se cumpre nesse dia de modo completo. Se o jumento foi em tempos primitivos animal de cavalaria real ou pelo menos entre os nobres e dignitários como em Gn 22, 3 ou Jz 3, 10, nos tempos de Jesus era um animal humilde próprio de pobres. O quarto evangelista tem um comentário que abunda neste modo de pensar da humildade da cavalgadura: ¨Isto não o entenderam os discípulos; só quando Jesus foi glorificado (após sua ressurreição e ascensão) entenderam o que estava escrito e compreenderam o que eles tinham feito nesse dia¨. Segundo 1 Rs 1, 33 a 45 a cerimônia em que Salomão foi entronizado era após cavalgar sobre um mulo.(pered em hebraico e hemionos em grego) A palavra grega indica seguramente a origem do animal, um meio jumento ou híbrido, seria a tradução, que no Israel pré-bíblico não era permitido por lei procriar, mas que parece ser animal de cavalgadura nos tempos de Salomão. Este, rei pacífico por excelência, era o tipo de Jesus que entrava em Jerusalém como tal e que seria, de um modo especial, coroado na cruz poucos dias depois.

ALGUNS FARISEUS: Então alguns dos fariseus dentre a multidão lhe disseram: Mestre, repreende os teus discípulos (39). Ora,tendo respondido, disse-lhes: Digo-vos que se estes calarem, as pedras gritarão (40). Et quidam Pharisaeorum de turbis dixerunt ad illum magister increpa discipulos tuos. quibus ipse ait dico vobis quia si hii tacuerint lapides clamabunt. Alguns fariseus, que estavam misturados com o povo, pretendem acalmar o entusiasmo dos discípulos, pedindo a Jesus que reprove a conduta dos discípulos. Talvez temendo uma reação violenta dos romanos que vigiavam, desde a torre Antônia, o sucesso. Mas Jesus diz que até as pedras clamariam caso os discípulos calassem. Isso indica claramente que Jesus nesse momento estava colaborando com seu triunfo e que exultava também com os que o aclamavam. As pedras gritarão ou contra eles [os fariseus] ou declarando Jesus como  Messias. Em hebraico pedra [eben<068>] e filho [ben<01121>] são sons parecidos e temos em Mt 3, 9 o trocadilho que compara filhos [ben] com pedras [eben]: não vos digais entre vós somos filhos de Abraão; porque Deus pode levantar destas pedras[ebenim]filhos[benim] de Abraão. Talvez tenhamos uma recordação de Habacuc 2, 11: as pedras dos muros gritarão e as vigas dos madeiros responderão, que parecia ser um provérbio em Israel contra os que fizeram o mal.

PISTAS:

1) Um mesmo relato, é essencialmente narrado com absoluta fidelidade pelos quatro evangelistas. As discrepâncias, não só redacionais e literárias, mas também em pequenos detalhes, servem para indicar procedências diversas na origem das narrações, mais do que rasgos literários nos autores, que também existem. Tudo isso contribui à verdade essencial dos fatos, que não são copiados literalmente, como quem traduz um texto único. É lamentável que os que se intitulam sábios e entendidos, comparem a veracidade dos relatos evangélicos canônicos com as narrações dos apócrifos, dando a estes o mesmo nível de autenticidade que a dos quatro evangelhos tradicionais, como vemos numa revista moderna. Sem dúvida que o motivo último dos evangelistas foi a catequese e a apologia. Mas isso não derruba sua historicidade essencial. Tudo pelo contrário, é nela que se fundamentam. Outra coisa é que existam no dia de hoje, quando o milagre pode ser cientificamente comprovado, aqueles que rejeitam todos os milagres evangélicos, deixando Jesus só com a doutrina, desprovida de autêntica firma divina.

2) Para quem tem lido e estudado desapaixonadamente os quatro evangelhos, uma coisa é certa: São as palavras de Jesus as que revelam máxima coincidência entre os evangelistas, de modo que elas estão na mesma ordem que as palavras de Javé que inspiraram os antigos profetas, quando eles anunciavam: é a palavra de Jahveh. Já nas narrações de fatos e parábolas existem logicamente uma diferença circunstancial que é devida as diferentes recordações. Parece que as palavras de Jesus eram dísticos que a memória facilmente retinha quando não existiam outros meios mnemotécnicos.

3) Qual era a importância deste trecho de hoje para que os quatro o relatassem? Talvez o fato de que Jesus poderia, se quisesse, ter sido o Rei davídico esperado, mas que ele após esse dia triunfal recusou semelhante messianismo, optando por outro em que a vitória viria pelo sacrifício e a cruz.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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