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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com (157)

. Evangelho de 10/04/2016 - 3º Domingo de Páscoa
. Evangelho de 03/04/2016 - 2º Domingo de Páscoa


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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10.04.2016
3º Domingo de Páscoa — ANO C
( BRANCO, GLÓRIA, CREIO – III SEMANA DO SALTÉRIO )
__ Simão, filho de João, você me ama? __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Neste terceiro domingo de Páscoa, a Igreja nos ensina a ter confiança. A morte de cruz encerrou o ministério terreno de Jesus. Ao exclamar: "Tudo está consumado!", ele proclamou ter levado a termo a missão recebida do Pai. Todavia, restava muito a ser feito. O Evangelho deveria ser anunciado a todos os povos, e a salvação chegar até os confins da terra. A sementinha do Reino não podia ficar infrutífera, mas era preciso fazê-la desabrochar para tornar-se árvore frondosa. A missão, agora, seria tarefa dos discípulos. Seguindo o exemplo dos apóstolos, todos nós somos chamados a pregar o nome de Cristo sem medo, mesmo em meio às adversidades e perseguições do mundo. Peçamos a Deus, nesta Missa, a graça de confiar sempre; de confiar sem medo; de confiar sem limites; lançando as redes em nome de Cristo, com a certeza de que faremos um mundo melhor e uma sociedade mais justa.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Neste domingo celebramos o encontro de Cristo ressuscitado com os Apóstolos e seu convite para lançarem as redes nas águas profundas da missão. Também nós somos convocados a atrair discípulos para Cristo. Nesse sentido, rezemos pela XXXI Jornada Mundial da Juventude, de 26 a 31 de julho de 2016, em Cracóvia, na Polônia, cujo lema e: “Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: A grande liturgia do céu, que constitui o modelo ideal da liturgia cristã no dia de domingo, é celebrada diante do trono de Deus e do seu Espírito por vinte e quatro anciãos e quatro seres vivos (símbolo da humanidade e das forças cósmicas). As primeiras aclamações dirigidas à Deus são sucessivamente atribuídas ao Cristo que aparece como "cordeiro", vivo, mas com os sinais de sua paixão. O coro de louvor, que inclui as criaturas espirituais do céu e todos os seres vivos e inanimados do cosmos, reconhece ao "Cordeiro Imolado" as próprias prerrogativas de Deus.

Sintamos o júbilo real de Deus em nossos corações e cheios dessa alegria divina entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Atos 5,27-32.40-41): - "Importa obedecer antes a Deus do que aos homens."

SALMO RESPONSORIAL (Sl 29/30): - "Eu vos exalto, ó Senhor, porque vós me livrastes."

SEGUNDA LEITURA (Apocalipse 5,11-14): - "Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos."

EVANGELHO (Jo 21,1-19 ou 1-14): - "Apascenta as minhas ovelhas."



Homilia do Diácono José da Cruz — 3º Domingo de Páscoa — ANO C

O homem da praia...

Um grande amigo que acompanha atentamente as reflexões, me alertou sobre o evangelho desse terceiro Domingo da Páscoa: “Olha Diácono, é aquele evangelho onde o “Pedrão”, joga a toalha e vai pescar..” “Pedrão” é o jeito carinhoso que ele chama São Pedro, eu não o censuro porque, de fato, a primeira impressão que se tem é essa: Que o apóstolo Pedro desistiu de tudo e voltou á vidinha antiga, indo pescar. O mais interessante, é que a sua reestréia na profissão de pescador, foi uma lástima: lidou a noite inteira com a sua equipe de trabalho, e não pescaram nada, pelo que diz o texto.

Depois, um fato mais estranho aconteceu: Jesus, que era carpinteiro e não pescador, aparece na praia, pede alimento e depois dá palpite na atividade pesqueira de Pedro e dos outros pescadores experientes, mandando jogar a rede do lado direito. Dá para imaginar a cara de “poucos amigos” que Pedro fez, com aquele palpite de um estranho.Por que, vamos e convenhamos, que diferença faz, jogar a rede do lado esquerdo ou direito da barca? Aquele estranho não entende nada de pesca.

Entretanto, seguindo exatamente a sua palavra orientadora, aconteceu uma pesca milagrosa, e as duas barcas ficaram tão cheias de peixes graúdos, que por pouco não afundaram. Antes que alguém diga que isso mais parece lorota de pescador, deixa-me informar que essa história é absolutamente verdadeira, mas... É claro que não se trata de peixes...

Quando Jesus chamou Pedro, Thiago e João, um belo dia á beira mar, prometeu que daquele dia em diante, iria fazer deles, pescadores de homens. Não se pode também, imaginar que Pedro decidiu sair pelos lugarejos, fazendo uma pregação meio louca, da sua própria cabeça, e que daí as coisas não deram certo. Mas o evangelista se reporta aos primeiros tempos da comunidade primitiva. Que dureza tentar cumprir a missão, sem Jesus por perto! A primeira sensação é realmente de um grande fracasso, em nossas comunidades a gente experimenta muito isso, a própria vida da comunidade, ás vezes se acha comprometida e parece que todo trabalho não vai dar em nada.

Os apóstolos sabiam muito bem qual era a missão que o Senhor lhes havia confiado, nós também nos dias de hoje, já estamos até carecas de saber qual é a missão primária da igreja, e o que compete a cada batizado fazer, para que o anúncio do evangelho aconteça, mas o problema são os métodos que nós utilizamos, será que estão corretos, será que são os mais adequados, será que não estamos querendo fazer as coisas do nosso jeito?

Há os que confundem o evangelho com ideologias políticas, ou com uma Filosofia de vida, há os que pensam que o evangelho não tem nada a ver com a nossa vida e a nossa história, com a realidade onde estamos inseridos, e pensando desta forma, lá se vão noites e noites de uma pescaria infrutífera, trabalhos pastorais, reuniões cansativas e desgastantes, projetos que não saem das gavetas, catequese “arroz com Feijão”, normas e regras na Vida dos Sacramentos, que não agregam nada. As pessoas chegam, procurando alimento, e vão embora esfomeadas, esta é uma grande verdade.

Tudo isso porque falta ás vezes o essencial, o reconhecimento de Jesus presente em nossa lida comunitária, aqui um detalhe extremamente importante: para reconhecê-lo, só a fé não basta, é preciso uma relação amorosa com Deus presente em Jesus, por isso João, o discípulo que Jesus amava, exclama feliz, ao constatar o resultado surpreendente da “pescaria” “É o Senhor!”. Jesus jamais será percebido na comunidade se faltar aquilo que é essencial: a relação de amor para com ele. Há os que o buscam somente na razão, outros o buscam e pensam tê-lo encontrado na emoção, qualquer um desses caminhos não será válido, se faltar essa relação amorosa.

Mas o coitado do Pedro quase morreu de vergonha quando escutou falar que aquele homem na praia era Jesus, e correu vestir-se porque estava nu. Sem a consciência de que Jesus caminha conosco na igreja, a gente não se reveste da graça santificadora, quando estamos nus, expomos a nossa vergonha, pois não temos como ocultá-las, mas revestidos da roupa nova que Jesus nos oferece com a Salvação, tornamo-nos homens novos, e a Luz da Graça Divina nos dá a roupagem nova, ocultando nossas fragilidades e limites, somos enfim, recriados, essa seria a palavra certa para o processo de salvação.

Comunidade é lugar de acolhimento, portanto de calor humano, que aquece com brasas fumegantes alimentando todos os que a buscam, Na brasa daquele homem misterioso á beira da praia, e que eles não sabiam ainda bem, quem era, já tinha um peixe e pão, mas ele pede alguns dos peixes que eles haviam pescado. Comunidade é lugar de alimentar e ser alimentado, de receber e de dar. Feito isso, juntando o peixe de Jesus e o seu pão, e os peixes graúdos, que são os frutos do trabalho em comunidade, seja ele qual for, o alimento está assegurado a todos. Jesus indicou o lugar, isso é, o como fazer, e eles acreditaram... Eis aí o eco das palavras da mulher das Bodas de Cana “Fazei o que ele vos disser...”

Na comunidade, Deus e Homem se unem, em uma parceria misteriosa chamada comunhão de vida, é isso, somente isso, que garante alimento em abundância a todos...

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — 3º Domingo de Páscoa — ANO C

É o Senhor!

Aquele discípulo que Jesus amava percebeu e disse: “É o Senhor!” (Jo 21,7). Além dessa vez, a palavra “Senhor” aparece cinco vezes mais no Evangelho de hoje. Esta palavra nos lembra do nome de Deus no Antigo Testamento. O livro do Êxodo nos relata que Deus apareceu a Moisés e lhe disse: “EU SOU AQUELE QUE SOU” (Ex 3,14). Deus é! Poucos capítulos depois aparece consignado num mandamento o respeito que se deve ter pelo nome de Deus: “não pronunciarás o nome de Javé, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro” (Ex 20,7). A tradição judaica, numa mescla de respeito e escrúpulo, deixou de pronunciar o santo tetagrama, YHWH, e utilizou “Adonai”, Senhor. Na Sagrada Escritura, Senhor é, por tanto, sinônimo de Deus, do seu nome. Fica claro, por outro lado, que a revelação de Ex 3,14 indica a transcendência de Deus já que “Aquele que é” nos diz algo do que é Deus, permanecendo, porém, no mais além.

Deus é! Ao contrário, a criatura não é! Apresenta-se assim à nossa inteligência cristã uma doutrina básica, uma distinção de primeira ordem: Deus é, a criatura não é. Deus é tudo, nós não somos nada! Deus é criador, nós somos criaturas e, por tanto, a nossa existência depende totalmente dele. É muito sadio saber quem somos, dessa maneira não iremos por aí vangloriando-nos, cheios de soberba e vaidade. É verdade: nós não somos! Somente depois, num segundo momento podemos afirmar: e o que somos vem de Deus! A nossa dependência de Deus é tal que se por algum momento ele deixasse de pensar em nós e de nos amar, deixaríamos de existir imediatamente. Isso é muito importante: Deus não me ama porque eu sou bom, mas eu sou bom e eu posso ser melhor porque Deus me ama, a minha existência e tudo o que eu tenho depende radicalmente do amor de Deus. Aquele que permanece no mais além se fez presente no mais aquém.

Ele é o Senhor! São João o reconheceu e avisou a Pedro. Depois dessa afirmação, a atitude dos discípulos vai mudando: Pedro se oculta, os discípulos se calam e não ousam perguntar nada a Jesus, ao mesmo tempo a confiança deles no Senhor vai aumentando. Quando nós tivermos mais consciência do senhorio de Deus nas nossas vidas, quando reconhecermos a transcendência de Deus, quando percebermos que ele nos ama com amor eterno, a nossa atitude também será outra. A força do Ressuscitado está se manifestando durante esses dias na Igreja. É uma realidade! Observe um pouco ao seu redor e verá na vida dos seus irmãos as maravilhas da graça. Mas, é verdade, para ver essas coisas, é preciso amar a Deus. Você percebeu que somente S. João, esse discípulo apaixonado por Deus, percebeu que era o Senhor? Como não reconhecer a Deus nas encruzilhadas da nossa vida se nós o amamos? Como não viver em sua presença se tudo o que existe nos fala dele? Meu Deus do céu, como ainda somos cegos! Vivemos frequentemente como se Deus não existisse. Estou pensando em tantos cristãos que muitas vezes atuam como se Deus não os visse, como se Deus não se importasse com eles, como se pudessem fugir da sua face adorável.

É o Senhor! Nós o temos também, e principalmente, no Sacramento da Eucaristia. Jesus é Deus, o Criador, o Senhor. Quando os sacerdotes e os leigos perceberem de verdade que é o Senhor, muita coisa mudará: as nossas celebrações eucarísticas estarão repletas desse sentimento de presença de Deus, de transcendência de Deus, e da sua proximidade amorosa. Quando isso acontecer, as paróquias serão lugares de adoração de Jesus na Eucaristia, de silencio, de respeito. Quando percebermos de verdade que Jesus está presente na Eucaristia verdadeiramente, realmente e substancialmente com o seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, participaremos da Santa Missa e da Adoração eucarística cuidando também dos detalhes do culto católico, não por escrúpulo, mas por amor: não teremos problema nenhum em adornar dignamente as nossas igrejas, em dourar ou pratear os cálices utilizados na celebração eucarística, em dar ao Senhor um sacrário fisicamente digno dele, em comportar-nos com a “urbanidade da piedade” sabendo que somos filhos amados de Deus e que, por tanto, podemos aproximar-nos com confiança do trono da graça. É o Senhor!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 3º Domingo de Páscoa — ANO C
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (Ap 5, 11-14)

INTRODUÇÃO: O trecho de hoje é parte da abertura do livro selado, pelo cordeiro que rompe os selos. A perícope é a introdução desse cordeiro a quem todos adoram como  Deus que está no trono, e que por ser imolado, é digno de romper os selos, já que por seu sangue remiu todo homem sem distinção de tribo, língua, povo e nação (Ap 5, 9). Esta imagem de Cristo, como cordeiro, é uma das mais frequentes no Apocalipse. Provém, sem dúvida, de Is 53, 7: Como um cordeiro é arrastado ao matadouro, como uma ovelha emudece diante dos tosquiadores e não abre a boca. É também figura do cordeiro pascal de Êx 12, 3-6. Os sete chifres indicam um poder absoluto e os sete olhos de Zc 4, 10 são figuras da onisciência de Deus, pois o número sete é sinal de completa perfeição. Sete os dias em que o mundo foi feito por Deus e tudo era bom, como diz o Gn no capítulo primeiro. O cordeiro é hoje mostrado como o único que pode descobrir os mistérios da vida humana na sua História, passada, presente e futura e é por isso que é aclamado pelos habitantes do céu.

O CÂNTICO: Então vi e ouvi voz de muitos anjos ao redor do trono e dos viventes e dos anciões. E milhões e milhões (11) falantes com grande voz: digno é o cordeiro imolado de tomar o poder e riqueza e sabedoria e força e honra e glória e louvor (12). Et vidi et audivi vocem angelorum multorum in circuitu throni et animalium et seniorum et erat numerus eorum milia milium dicentium voce magna dignus est agnus qui occisus est accipere virtutem et divinitatem et sapientiam et fortitudinem et honorem et gloriam et benedictionem. TRONO [Thronos <2362> =thronus] derivado do verbo Thraö [sentar-se] é uma cadeira com escabelo para os pés, própria dos reis e magistrados. No AT Ez 1,26 viu como uma espécie de trono sobre um tablado de safira [pedra preciosa de cor azul] sobre o qual estava sentada uma figura como de homem. Era a manifestação do Senhor [Jahveh]  em  glória  e  poder. Também  Satanás  tem  o  seu    trono

(Ap 2, 13) e Cristo tem o trono junto ao do Pai (idem 3, 21). Esse trono de Deus está nos céus (4, 2), reino absoluto, onde a vontade do Pai se cumpre totalmente. Ezequiel descreve a figura divina que representa Jahveh, como uma figura como de homem, sentada sobre o trono, brilhante como metal, como fogo, e ao redor dela, um resplendor como de arco íris. Não era propriamente Deus, o Senhor, como diz Ezequiel, mas a sua glória. João no Apocalipse (4, 2-3) a descreve assentada no trono, como semelhante no aspecto a uma pedra de jaspe [variedade de quartzo opaco de diversas cores] e de sardônio [ágata de cor amarela]. Uma glória, [auréola ou arco íris] nimbava o trono com reflexos de esmeralda [pedra preciosa de cor verde]. A figura do sentado no trono é Deus, segundo 7, 10: Salvação é do nosso Deus que está sentado no trono. Segundo um targum [comentário em aramaico] o nome de Jahveh [o que é] tem como comentário o triplo o que é, o que era e o que será. O Apocalipse substitui o que será pelo que vem, para implicar a expectativa escatológica de Cristo (1, 4; 8), que deveria vir entre nuvens (1, 7). Junto ao trono está o cordeiro, e em seu redor, uma série de personagens como anjos, viventes e anciãos. Saindo do  trono havia relâmpagos, vozes e trovões, à semelhança do monte Sinai (Êx 20, 18). Na frente do trono estão os sete espíritos, como sete lâmpadas de fogo. Representam o multiforme e completo Espírito Divino que, na dogmática cristã, é a pessoa do Espírito Santo.  Ao redor do mesmo, os anjos, os 4 seres viventes e os anciãos. ANJOS [Aggelos <32>=angelus]:antes de mais nada temos que falar que todas as criaturas celestes de alguma relevância estão diante do trono, como servidores do que é, do que era e do que será, expressão que é uma maneira de dizer o Eterno, como traduzem os modernos rabinos o nome Jahveh e que vemos em outros tempos substituído por Adonai [meu Senhor]. Entre eles, os anjos, verdadeiros cidadãos e moradores do céu ocupam o primeiro lugar, segundo diz Jesus em Mt 18, 10 e Mt 24, 36. Por isso, fala de muitos e logo na continuação dirá dez milhares e dez milhares e milhares e milhares que, em termos modernos, podemos falar de bilhões e bilhões. De seu número podemos afirmar que Jesus conhecia bem esse número, quando afirma que em sua defesa o Pai pode lhe dar 12 legiões de anjos (Mt 26, 35) quase a metade do número total [28] das legiões que constituíam o exército romano no seu século. OS VIVENTES [Zöon<2226>=animal] na realidade é um ser vivo que pode ser um animal, embora para estes tenhamos o grego Therion [besta]. A maioria traduz animais, seguindo o livro de Ezequiel, cp 1 e 10. Seu número era quatro, assim como os quatro seres vivos que, segundo Ezequiel, rodeavam o trono de Jahveh (Ez 1, 5) [hai<02416>=animal] e que a Vulgata traduz como animalia. Seu aspecto era de leão, de touro, de homem e de águia (4, 7). OS PRESBÍTEROS [Presbyteroi<4245>=seniores] em número de 24 que eram como os senadores ou consultores dos reis de antigamente. Os milhões e milhões podem ser também outros seres não nomeados especificamente, como os bemaventurados que seriam diferentes dos anjos antes nomeados como uma multidão. O LOUVOR: Todo o drama está disposto para louvar o Cordeiro imolado, que não éoutro que Cristo. A ele proclamam digno de tomar o poder e riqueza e sabedoria e força e honra e glória e louvor. São sete atributos que em número coincidem com a perfeição que é devida a todo ser superior que obtém o mando e a autoridade sobre todo o Universo. Este está representado pelos anjos do céu, pelos seres viventes, que são os representantes de todo ser vivo em suas melhores qualidades: o leão, a realeza entre os animais; o touro, a força e preeminência entre o gado; o homem, a sabedoria e como tal rei da criação; e a águia, rainha das aves e a rapidez de movimento. São como os quatro pontos cardinais em que o Universo tem sua base de sustentação. Os presbíteros em número de 24 representam as 24 classes sacerdotais do AT,  ou as 24 horas do dia, ou em duas partes divididos, os 12 patriarcas ou profetas do AT e os doze apóstolos do Senhor aos quais Deus confiou o reino.

O UNIVERSO: E toda criatura que está no céu e na terra e debaixo da terra e sobre o mar, as que existem e as que neles, todas ouvi dizendo ao que está sentado sobre o trono e ao cordeiro: o louvor e a honra e a glória e o poder pelos séculos dos séculos (13). Et omnem creaturam quae in caelo est et super terram et sub terram et quae sunt in mari et quae in ea omnes audivi dicentes sedenti in throno et agno benedictio et honor et gloria et potestas in saecula saeculorum.Até este momento, o louvor provinha dos céus mais altos, onde o trono se encontrava. Agora será toda criatura do Universoque entra para formar parte do hino de louvor e da proskinesis correspondente. CRIATURA [Ktisma <2938>=creatura] o significado é ser feito (logicamente por Deus) como em 1Tm 4, 4: pois toda criatura de Deus é boa. No Apocalipse, Ktisma sai de novo em 8, 9 ao falar da terceira parte das criaturas do mar que morreram. Trata-se, pois dos seres vivos criados por Deus, segundo o que diz o Gênesis: Deus criou os animais selvagens… os grandes e os pequenos, segundo a sua espécie (1, 25) e viu tudo que havia feito e eis que tudo era bom (1, 31). Ou como diz o quarto evangelho: Tudo foi feito por meio dele; e sem ele, nada se fez do que foi feito (1, 3). E o evangelista amplia a definição de criatura a todo o âmbito universal com centro na terra; e no céu e no mar e no mundo inferior como rodeando a mesma. Nada do que existe, como mundo animado, está fora de sua visão universalista. Quando fala do mar coloca as criaturas sobre ele, pois o abismo [o profundo do mar] era o mundo de Satanás e este não podia louvar nem a Deus, nem ao cordeiro, objetos da louvação do canto em questão. Tudo o que pode louvar une-se a essa glorificação dada a Deus [o sentado no trono] e ao Cordeiro imolado [Cristo]. O CORDEIRO [Arnion <721>=agnus] A palavra é diminutivo de arén [<704>=cordeiro, que não estava em uso], e é usada 30 vezes no NT, das quais uma única vez em Jo 21, 15 quando Jesus pede a Pedro que alimente meus cordeirinhos [ta arnia mou]. Fora deste versículo, todas as demais entradas estão no Apocalipse, como título com que é conhecido o Cristo. Fora destas passagens em Jo 1, 29 o Batista chama Jesus de amnos [<289>=agnos]. Esta palavra é a própria para cordeiro, não o diminutivo, e sai 4 vezes no NT: duas em João (1, 29 e 1, 36) e uma em At 8, 32 e a outra em 1 Pd 1, 19. Arnion é usado pelo autor do Apocalipse precisamente porque quer ressaltar a ideia do cordeiro  ou seh [<07716>=agnus], no sentido geral de rês pequena, pois podia ser um cabrito, distinto do Kebes [<03532>=agnus] cordeiro; e de ‘ez [<05795> =haedus] cabrito. O cordeiro pascal devia ter menos de um ano e, portanto um cordeirinho (Êx 12, 5). O arnion como vítima pascal deve ser diferenciada dos dois cordeiros [kebes] sacrificados diariamente em holocausto [òlah<59930>=oblatio]. Estes recebiam o nome geral de Tamid segundo Êx 29 38-42. Os dias de lua nova o número de vítimas se multiplicava, assim como nas grandes festividades, especialmente na semana dos tabernáculos. Era holocausto em ação de graças e não pelos pecados. Mas no dia do Pessah (Êx 12, 27) o cordeiro [seh] seria imolado e comido e o que não fosse consumado seria através do fogo, de modo que era também uma espécie de holocausto. Porém a verdadeira imolação de Cristo, como cordeiro [amnos] por [hyper] o pecado  do mundo (Jo 1, 29) foi feita na cruz, e seria a réplica única e irrepetível do dia do Yom Kippur, segundo Hb 9, 12; pois foi feita de uma vez e não todos os anos, repetida pelo Sumo Pontífice, como no AT. O LOUVOR: É um canto de ação de graças e de reconhecimento do poder e sabedoria a quem se rende eternamente as vontades e o acatamento de todo o Universo. Assim será a ida futura e assim deve começar nossa vida na terra.

A ADORAÇÃO: E os quatro viventes diziam: Amém. E os vinte e quatro anciões caíram e  prostraram ao que vive pelos séculos dos séculos (14).  Et quattuor animalia dicebant amen et seniores ceciderunt et adoraverunt. AMÉM: Pode ser traduzido por assim éou assim será (Ap 22, 29). Sai 13 vezes no texto massorético e 16 no texto grego da Septuaginta. Nas doxologias do Kaddish, como oração final nas sinagogas, era a resposta dos fiéis às bênçãos do presidente recitadas após a leitura da Escritura, ou de uma homilia religiosa, nas sinagogas. O significado real é certamente ou em citações: que conste. Popularmente tem o significado de Palavra de Deus. Em serviços religiosos significa estar de acordo com o anteriormente expressado como em I Cor 14, 16. Do hebraico passou a todas as línguas e é praticamente uma palavra universal, de modo a ser a mais conhecida das palavras em língua humana. É quase idêntica a palavra amam que significa crer ou fiel, do qual temos um exemplo em Ap 3, 14 em que Cristo é o amém, testemunha fiel. Assim significa certamente ou verdadeiramente, expressão de absoluta verdade e confiança, como em Ap 22, 20. João, no quarto evangelho, a usa repetidamente, amém, amém 25 vezes o que significa com toda certeza. PROSTRARAM: É a proskinesis como ato de homenagem aos reis que consistia em se ajoelhar, tocando a frente no chão e estendendo os braços em gesto de súplica. QUE VIVE: Com o sufixo de pelos séculos indica a pessoa do Pai de que anteriormente disse o que é, o que era e o que será, como tradução da palavra Jahveh, o Eterno. Este canto segue ao canto do cordeiro em Apocalipses capítulo 5.

Evangelho  (Jo 21, 1-19)
APARIÇÃO NA GALILEIA

INTRODUÇÃO: No relato de hoje, advertimos duas cenas distintas: 1ª) Uma aparição de Jesus a seus discípulos na Galileia. 2ª) Uma conversa particular com Pedro a quem encarrega o mando como pastor de seu novo rebanho. A barca, a pesca, a comida, apontam para a dimensão universal da Igreja constituída por aqueles que Jesus designou como pescadores de homens. É a renovação da missão apostólica começada precisamente no mesmo mar e com os mesmos pescadores. Daí que a conversa com Pedro tenha um objetivo particular como representante dessa mesma missão. Jesus, com a tríplice pergunta, quer reabilitar o apóstolo, covarde diante de um testemunho que podia implicar castigos e penalidades, mas que, uma vez declarado seu amor pelo Mestre, corajosamente o declarará perante as autoridades religiosas dos hebreus e civis dos romanos. A sua morte será como a firma da verdade de sua pregação. Ninguém poderia, diante dos fatos últimos de sua vida, repreendê-lo ou menosprezá-lo pela covardia no pátio da casa de Caifás.

A APARIÇÃO: Depois destas (coisas), manifestou-se de novo Jesus aos discípulos, junto ao mar de Tiberíades.Manifestou-se, pois assim (1). Postea manifestavit se iterum Iesus ad mare Tiberiadis manifestavit autem sic.  DEPOIS DISTO:O  grego meta tauta [depois disto] é mais uma conjunção literária do que cronológica ou histórica. Admite, portanto, outras aparições às quais o evangelista não presta atenção por não considerar importante ou relevante a catequese delas derivada. MANIFESTOU-SE: O verbo com o qual o evangelista descreve a aparição é  FANEPOÖ [<5389>=manifestare], cujo significado é manifestar, deixar claro, tornar visível. Esta última acepção é a mais conveniente no trecho de hoje. Jesus se tornou visível junto ao mar de Tiberíades. Segundo Mateus, era o lugar que o anjo apontou às mulheres, como próprio para se manifestar como ressuscitado (Mt 28, 10).TIBERÍADES: O nome do lago em hebraico é Kinneret ou kinnerot, que, traduzido ao grego, tomou a forma de Gennesaret. A palavra original deriva do nome Kinnor, cítara, devido à forma da sua superfície. No NT seu nome é de mar ou lago de Galileia (Mt 4, 18) ou de Genesaret (Lc 5, 1).  No ano 20, Herodes Antipas transformou uma pequena aldeia de nome Rikkat, na capital de seu tetrarcado. Com esse nome de Tiberíades desejava Antipas honrar o imperador reinante, amigo de sua juventude em Roma. Por sua vez, Tibério deriva de Tíber que muitos afirmam ter o significado etrusco de rio-deus [river-god]. No tempo de Jesus, o mar era conhecido como mar de Tiberíades, uma das quatro cidades santas do judaísmo, [Jerusalém, Hebron, Tiberíades e Safed], pois foi nela que os rabinos se refugiaram após a queda de Jerusalém e redigiram a Mishná e o Talmud. O mar de Tiberíades, segundo a tradução judaica, era um mar de peixes puros, peixes que qualquer pessoa podia pescar com anzol; mas que, com rede, unicamente tinham direito a fazê-lo os descendentes da tribo a quem correspondeu a região, como sorte da divisão territorial da terra prometida.

OS DISCÍPULOS: Estavam juntamente Pedro e Tomé, o apelidado Dídimo, e Natanael, o de Caná da Galileia, e os do Zebedeu  e outros dois dos seus discípulos (2). Erant simul Simon Petrus et Thomas qui dicitur Didymus et Nathanahel qui erat a Cana Galilaeae et filii Zebedaei et alii ex discipulis eius duo. TOMÉ: O nome do discípulo era Tomé, forma sincopada de To‘am [gêmeo] em grego Thomas de quem sabemos algumas coisas,  devido a pena do quarto evangelho, pois os três sinóticos só trazem seu nome na lista dos doze. Pelo quarto evangelho conhecemos algumas características do discípulo: que seu apelido era Dídimo [duplo, ou gêmeo como nome], tradução do To’am hebraico, tudo nos leva a um ambiente greco-hebraico, próprio das cidades do norte da Galileia; de seu espírito forte e resoluto, ao convidar os outros discípulos a seguir Jesus a Jerusalém para morrer com o mestre(Jo 11, 16); que era curioso e queria saber das coisas claras ao pedir na última ceia explicações a Jesus sobre sua partida e o caminho (Jo 15, 5), de sua ausência no domingo, quando Jesus se apresentou pela primeira vez ressuscitado (Jo 20, 24); de seu ato de fé uma vez que viu e creu no domingo seguinte (Jo 20, 26) e agora neste trecho final do evangelho. NATANAEL: Nathanaël <3482> em grego, significa, segundo o hebraico original Dom de Deus. No AT era uma das cabeças de família da tribo de Issacar (Nm 1, 8). No NT é o nome de um discípulo do Senhor, que segundo a tradição se confunde com Bartolomeu, sendo este nome patronímico para indicar o pai, e significando filho de Tolmai. Segundo o quarto evangelho, Natanael era de Caná da Galileia (Jo 21, 2). Era amigo do apóstolo Filipe (Jo 1, 46) e tinha em pouco caso os nativos de Nazaré. Dele, diz Jesus que era um autêntico israelita sem mentira (Jo 1, 47), que o conhecia quando estava sob a figueira, ao que Natanael respondeu declarando Jesus como Messias (Jo 1, 49). Ao estarem juntos, significa que Natanael formava parte dos 12, entre os quais também se encontravam outros dois que João não nomeia nesta ocasião. Aqui, a palavra mathetés tem o sentido de apóstolo, indivíduo  do grupo que formava os doze, apontados por Jesus como seus íntimos seguidores. Temos, pois, um total de sete, reunidos em torno de Pedro que se dispõem a pescar, dos quais cinco aparecem com nome próprio. Estavam juntos, provavelmente na casa de Simão Pedro, já que este toma a iniciativa de pescar durante a noite ou muito de madrugada (v. 3 ).

O CONVITE: Diz a eles Simão Pedro: vou pescar. Dizem-lhe: Vamos também nós contigo. Saíram e subiram ao barco de imediato. E naquela noite nada capturaram (3). Dicit eis Simon Petrus vado piscari dicunt ei venimus et nos tecum et exierunt et ascenderunt in navem et illa nocte nihil prendiderunt. É Simão Pedro que levado de sua vivacidade, como homem tremendamente ativo, convida a todos a pescar. Saíram, diz João, o que significa que estavam reunidos numa casa, e entraram no barco para pescar. Mas naquela noite nada apanharam. Repete-se o caso da pesca milagrosa de Lucas 5, 4+ . Alguns intérpretes pensam que ambas as pescarias são redutíveis a uma só.

A PESCA: Chegada já, pois a manhã, apresentou-se Jesus, de pé, na praia (todavia não conheceram os discípulos que é (sic) Jesus)(4). Diz-lhes então Jesus: Moços, não tendes por acaso alguma coisa de comer? Responderam-lhe: Não (5). Ele, pois, lhes disse: Lançai ao lado direito do barco a rede e encontrareis. Lançaram, portanto e já não puderam puxar pela multidão dos peixes (6). Mane autem iam facto stetit Iesus in litore non tamen cognoverunt discipuli quia Iesus est. Then Jesus said to them, Children, do you not have anything to eat? They answered Him, No. dixit eis mittite in dexteram navigii rete et invenietis miserunt ergo et iam non valebant illud trahere a multitudine piscium. A inutilidade dos esforços durante a noite e primeiras luzes do dia [o tempo mais propício para a pesca] vê-se interrompida pela presença na praia de um estranho, a quem não conhecem, mas que ordena lançar a rede à direta do barco. A palavra moços, na realidade, seria meninos, tradução direta de paidia grego, um diminutivo de pais, filho, criança ou servo, que na tradução espanhola é muchachos e ragazzi em italiano. O grego prosfagion significa propriamente um acompanhamento para o pão, geralmente peixe. A vulgata traduz por pulmentarium manjar composto de farinha e legumes cozidos, ou qualquer manjar. Assim se explica como viram as brasas arrumadas sobre as quais estavam os peixes e o pão. Jesus trazia, pois, o pão e esperava que os peixes fossem ofertados pela pesca que estava no ponto de terminar, pois era de manhã cedo que os pescadores do lago traziam suas capturas. A reposta foi Não.  LANÇAI A REDE: Era um mandato, ou uma proposta? Vejamos alguns pontos interessantes. Já temos em outra ocasião falado do significado da direita para a cultura judaica da época.A pesca foi tão volumosa que não conseguiram puxar ou arrastar a rede. Esta é descrita com o genérico nome de diktyon. A rede diktyon, era o nome comum que poderia ser diferenciado em amfiblestron (=tarrafa) e sagene (=rede de arrastão). Pela continuação, veremos que parece ser a rede do tipo tarrafa, pois lemos que não podiam puxá-la por causa da multidão dos peixes, que eram grandes em número de 153. E se admiraram de que a rede não estivesse rota. O número indica duas coisas: a primeira, que os pescadores tinham que pagar impostos pelo número de peixes fisgados, logo temos a valoração de um experto, e em segundo lugar o número tinha um sentido cabalístico como veremos no parágrafo correspondente.

É O SENHOR: Diz então o discípulo, aquele que Jesus amava, a Pedro: É o Senhor. Simão, pois, Pedro, tendo ouvido que é o Senhor, cingiu o colete (de pescador), pois estava nu, e lançou-se ao mar (7). Dicit ergo discipulus ille quem diligebat Iesus Petro Dominus est Simon Petrus cum audisset quia Dominus est tunicam succinxit se erat enim nudus et misit se in mare. O DISCÍPULO AMADO: O discípulo amado reconheceu no fato extraordinário da pesca a presença de Jesus. Era a segunda vez que semelhante pesca acontecia em suas vidas de calejados pescadores (Lc 5, 4-7). Por isso, disse a Pedro: O senhor é Jesus ressuscitado, pois não poderia ser outro devido ao fato tão extraordinário. Quem era esse discípulo? Há 4 possibilidades: um dos filhos do Zebedeu, ou um dos outros dois discípulos que não são nomeados. Descartados estes últimos, podemos pensar num dos dois irmãos filhos do Zebedeu. E dentre Tiago e João este tem a maior possibilidade porque era o companheiro de Pedro em muitas ocasiões de modo que entre os dois existia uma íntima amizade, como vemos na pergunta final de Pedro em 19, 20. Pedro e João serão os dois discípulos que prepararam a Páscoa (Lc 22, 8). E do momento em que pela terceira vez Jesus aparece, estarão unidos como em At 1, 13; curam o paralítico 3, 11, e são chamados ao sinédrio após serem presos (4, 3,7). Por isso, o mais provável é supor que era João o discípulo amado, também predileto de Pedro como amigo íntimo, que por ser amigo do pontífice abriu as portas a quem, no instante da prisão, não teve medo de lutar; mas que logo caiu, renegando conhecer Jesus diante dos criados. Pedro, também nesta ocasião, não esperou ter no barco os peixes e se cingiu da capa, ou colete (de pescador), pois estava sem a túnica, e se lançou ao mar. Esta é a tradução que pensamos expressa melhor o original grego. Pedro não podia cumprimentar o Senhor nu, ou seja, só com o calção, pois o intercâmbio de saudações era considerado como um rito religioso. Para um judeu vestir só a túnica era estar nu. Já a tradução das duas palavras chave: epenyitês e diazônnymi tem o significado respectivo de casaco de pescador e cingir. Eis, pois, a razão da tradução que temos antes oferecido. Alguns autores traduzem que cingiu o blusão, pois não tinha embaixo outra roupa e assim se atirou ao mar. Nas margens do lago, a terra afunda rapidamente, de modo que Pedro teve que nadar antes de encontrar o chão de areia da praia. Comparando o relato de Lucas da primeira pesca milagrosa com esta de João, vemos como Pedro, uma vez em terra faz a proskinese e se declara homem indigno e pecador. Desta vez, ele se aproxima adiantando-se a seus companheiros.

OS OUTROS DISCÍPULOS: Então os outros discípulos no barquinho, vieram, pois não estavam longe da terra senão como duzentos côvados, puxando a rede dos peixes (8). Ora como desceram na terra, veem brasas preparadas (no chão) e um peixinho sobre elas e pão (9). Alii autem discipuli navigio venerunt non enim longe erant a terra sed quasi a cubitis ducentis trahentes rete piscium. Ut ergo descenderunt in terram viderunt prunas positas et piscem superpositum et panem. O trabalho de arrastar a rede com os peixes foi deixado aos outros discípulos, que estavam na barca [pequena nave, segundo o original grego]. Os duzentos côvados eram aproximadamente 100 m de distância da margem, pois o cubitus romano era aproximadamente 532 mm. Mas quando chegaram viram um peixe sobre umas brasas (andrakian= prunas latino) que estavam preparadas (keimenên, ou positas, como se descreve o estado dos panos vazios do sepulcro e que no caso traduzimos por arrumados, Jo 20, 6) sobre elas um peixinho superposto, e pão. Provavelmente o pão estava também sobre as brasas, como era costume assá-lo. Jesus tinha preparado o café da manhã de seus discípulos. É quando veem o café preparado, Jesus lhes pede que tragam dos peixinhos (sic) assim pescados. Foi quando Pedro subiu ao barco e arrastou a rede até terra, rede que estava cheia de 153 peixes; e sendo tantos, não se rompeu. Nada diz o evangelista sobre o que Pedro viu, tudo o que demonstra que o evangelista somente narra o que ele próprio viu, sendo, portanto homem diferente do apóstolo Pedro, e só escrevendo como testemunha vidente e não pelo que ouviu, como testemunha de testemunhas.

FALA JESUS: Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixinhos que capturastes, agora (10). Subiu Simão Pedro e arrastou a rede sobre a terra, cheia de peixes grandes, 153; e, sendo tais, não se rompeu a rede (11). Dicit eis Iesus adferte de piscibus quos prendidistis nunc. Ascendit Simon Petrus et traxit rete in terram plenum magnis piscibus centum quinquaginta tribus et cum tanti essent non est scissum rete. CENTO E CINQUENTA E TRÊS: O número é exato, não redondo, e pode significar, na gematria [numerologia hebraica] da época, algum mistério que S. Jerônimo explica dizendo que os gregos distinguiam exatamente 153 espécies de peixes, com os quais a captura era símbolo da totalidade da pesca que os discípulos, já como pescadores de homens viriam realizar. Mas esse número de espécies é contestado porque outros apontam números superiores ou inferiores. Uma outra solução é que o número 17 composto do 10 e 7, que simbolizam a perfeição, são pontos que, colocados como lado de um triângulo e multiplicados por 3, dá 51 e como são três lados teremos 153. Sabemos da gematria, ou seja, da representação numérica de letras e frases, tal como o número 666 no Apocalipse 13, 18. Mas parece que o número é um claro indício de que o narrador estava lá e sabia bem e narrava corretamente o que tinha presenciado. Esta é a mais correta solução do caso. Por isso, pode ele afirmar que esta era a terceira vez que Jesus apareceu aos discípulos, havendo sido ressuscitado dos mortos. O evangelista era também pescador e sabia que esse número tão grande de grandes peixes tinha necessariamente que ter rompido a rede. Daí que identificá-lo com Lázaro, como sendo o autor do evangelho, seja uma hipótese impossível. O quarto evangelista era um dos doze, um pescador, a quem Jesus distinguia com seu afeto especial: dos três apóstolos de tal forma distinguidos, devemos excluir Pedro, pelo que veremos na continuação. Não era Tiago, pois este estava morto quando o evangelho foi escrito. Logo só fica João , que aliás tem toda a tradição atrás de seu nome.

A REFEIÇÃO: Diz-lhes Jesus: Vinde, comei. Porém ninguém dos discípulos se atrevia a lhe perguntar tu quem és, porque eram conscientes que és o Senhor (12). Vem, pois Jesus e toma o pão e dá a eles e o peixe semelhantemente (13). Esta é a terceira vez que se manifestou Jesus ressuscitado dentre os mortos. Dicit eis Iesus venite prandete et nemo audebat discentium interrogare eum tu quis es scientes quia Dominus esset. Et venit Iesus et accepit panem et dat eis et piscem similiter. Hoc iam tertio manifestatus est Iesus discipulis cum surrexisset a mortuis Esta já a terceira (vez) se manifestou Jesus a seus discípulos, tendo surgido dos mortos (14). Dicit eis Iesus venite prandete et nemo audebat discentium interrogare eum tu quis es scientes quia Dominus esset Et venit Iesus et accepit panem et dat eis et piscem similiter. Hoc iam tertio manifestatus est Iesus discipulis cum surrexisset a mortuis Temos traduzido respeitando os tempos verbais de modo especial que és o Senhor. Não é uma simples asseveração de um fato, mas uma afirmação clara de fé no Ressuscitado, como o novo Senhor de suas vidas. Jesus toma o pão e o peixe e reparte aos seus discípulos, fazendo de sua manifestação uma comida, como tinha dito anteriormente na parábola do banquete, que representava o Reino (Mt 22, 2). E o evangelista termina esta parte do seu evangelho afirmando que era a terceira vez em que Jesus se manifestava uma vez ressuscitado a seus discípulos reunidos. Aqui, discípulo está em sentido restritivo do conjunto dos doze.

PEDRO: Uma vez, portanto tomaram o desjejum, diz Jesus a Simão Pedro: Simão de Jonas me amas (agapas) mais que estes? Diz-lhe: Sim, Senhor, tu tens conhecimento que te amo (filo). Diz-lhe: alimenta (boske) meus cordeirinhos (15). Cum ergo prandissent dicit Simoni Petro Iesus Simon Iohannis diligis me plus his dicit ei etiam Domine tu scis quia amo te dicit ei pasce agnos meos. Jesus, após a refeição da manhã, como indica o verbo aristeö grego, se dirige especialmente a Pedro e em três perguntas formais exige do apóstolo uma retificação de suas três negações. As palavras empregadas por Jesus não parecem uma simples escolha literária, mas também uma marcada seleção intencional. Jesus chama Pedro pelo seu nome inicial: Simão de Jonas, como se esse momento e circunstâncias fosse uma citação judicial. Jesus usa o nome real e o sobrenome patronímico do apóstolo. Quem era o pai de Simão? João ou Jonas? Segundo o quarto evangelista era filho de João (1, 42 e 21, 15-17), segundo o texto grego de Marcos é de Jonas [segundo o texto de Nestlé]. Já Mateus em 16, 17 diz ser ele barjona o que significa filho de Jonas. Uma outra questão é que o latim traduz Simon Johannis unicamente no trecho de hoje, ou seja, filho de João, quando no grego temos filho de Jonas, segundo o grego de Nestlé. Efetivamente em duas ocasiões os evangelistas usam o verdadeiro nome oficial do apóstolo: Mateus quando Jesus o coloca como chefe da Igreja e o chama em aramaico como Simão bar Iona (Mt 16, 17) e nesta ocasião também ao revesti-lo com o cuidado pastoral de todo o rebanho, chamando-o Simão Iona. Ionah ou Ionas significa pomba em hebraico e João significa presente de Deus. Mais que estes: O comparativo pode ser traduzido por estes ou estas coisas, ou seja, seu barco, suas redes, seus peixes, seu trabalho. Parece que pela conclusão de toda a perícope devemos pensar nestes, ou seja, os outros discípulos.  Ao verbo agapaö, amar em termos gerais, Pedro responde com o fileö, um amor especial dedicado ao amigo, muito mais que ao senhor. Apapáô expressa um amor mais espiritual, como o que existe entre homem e Deus ou usado para o amor para com os inimigos e filéô o amor entre amigos. Nas respostas, Pedro sempre usa o filéô, mas não parece existir grande diferença entre os dois verbos; pois antes de dar a terceira resposta o evangelista une os dois verbos ao afirmar que Pedro ficou triste por Jesus ter perguntado três vezes se o amava (filéô). O verbo saber (eideö) tem como significado original ver, mas também a Vulgata traduz por scire (saber) como o fazem as línguas vernáculas. A resposta de Jesus traduzida diretamente do grego é: Alimenta (Boske) meus cordeirinhos (arnia). Na segunda proposta, no lugar de boske usa poimaine, cujo significado primário é apascentar.

SEGUNDA PERGUNTA: Diz-lhe de novo pela segunda vez: Simão de Jonas. Amas-me (agapas)? Diz-lhe: Sim, Senhor, Tu conheces que te amo (filo). Diz-lhe: apascenta minhas ovelhas. Dicit ei iterum Simon Iohannis diligis me ait illi etiam Domine tu scis quia amo te dicit ei pasce agnos meos. Comparada esta segunda pergunta e declaração com a primeira, vemos que a pergunta é a mesma, usando os mesmos verbos, agapaö e fileö; mas na resposta de Jesus encontramos duas diferenças: o verbo boskö (alimentar) é substituído por poimainö (apascentar) e o arnia (cordeirinhos) por probata (sheep, gado menor, como ovelhas e cabras). Podemos pensar que as diferenças são unicamente redacionais. Porém creio que as palavras foram escolhidas com sumo cuidado: Boskö para alimentar os cordeirinhos (arnia) e poimeine para apascentar ou pastorear as ovelhas (probata).

TERCEIRA PERGUNTA: Diz-lhe pela terceira vez: Simão de Jonas amas(fileis) me? Contristou-se Pedro porque lhe disse pela terceira vez amas (fileis) me e lhe disse: Senhor tu percebes todas as coisas tu conheces que te amo (filo). Diz-lhe Jesus: Alimenta minhas ovelhas. (17). Dicit ei tertio Simon Iohannis amas me Contristatus est Petrus quia dixit ei tertio amas me et dicit ei Domine tu omnia scis tu scis quia amo te. Dicit ei pasce oves meas Na terceira resposta usa o verbo gignoskö, conhecer, como complemento de eidö. A tradução seria: todas as coisas tu soubeste  (viste), tu conheces (gignoskeis) que te amo. O emprego do passado indica que Pedro tem consciência de que Jesus está querendo tirar dele tantas respostas afirmativas quantas negações obtiveram os criados na noite em que Jesus esteve em casa de Anás. A cada resposta Jesus acrescenta um pastoreio especial. Como temos narrado anteriormente, os verbos usados boskö e poimainö têm significados parecidos. Boskö é usado na pergunta 1 e 3 e tem como significado fundamental alimentar, e poimainö significa tomar conta, ou guardar. Porém não parece que estes detalhes entrem nos preceitos de Jesus. Os animais que metaforicamente representam os homens a serem pastoreados são cordeirinhos (1) e reses menores como ovelhas e cabras (2 e 3). Na metáfora existe alguma distinção com sentido especial entre cordeirinhos e ovelhas? Provavelmente não. Os três mandatos seguem as três disponibilidades de Pedro, mas poderiam ter sido uma só pergunta e um só mandato; mas, como temos dito, foi um ato premeditado de Jesus para indicar que cada uma das negações tinha um sentido tanto teológico como humano especial. Jesus também sentiu cada uma das negações como um golpe baixo de quem era seu amigo e de quem se esperava mais coragem e amor. Mas existe também uma conclusão óbvia: O amor apaga toda culpa e toda pena de pecados anteriores. Jesus já o havia afirmado quando a pecadora regou com  pranto os seus pés: Seus numerosos pecados são perdoados porque ela demonstrou muito amor (Lc 7, 47). Esta conclusão é suficiente para admitir a existência do pecado e sua permissão pela providência divina. Jesus mesmo dirá, como confirmação desta disposição divina, que há maior alegria por um pecador que se arrepende do que por 99 justos que não necessitam de arrependimento (Lc 15, 17). E esse foi o destino de Jesus: buscar os pecadores (Lc 5, 32). Uma outra conclusão é a de que Pedro é o novo pastor do rebanho de Jesus, seu sucessor e não somente como pastor, mas também como oferenda ao Pai a quem devia dar glória, como Jesus fez com sua morte, exatamente como, na continuação, afirmará profeticamente Jesus.

A PROFECIA: Certamente, certamente te digo: quando eras mais jovem cingias a ti mesmo e andavas onde querias; quando, porém tenhas envelhecido, estenderás tuas mãos e outro te cingirá e te levará onde não queres(18). Isto, portanto disse, significando com que classe de morte dará glória a Deus; e dizendo isso diz-lhe: acompanha-me (19). Amen amen dico tibi cum esses iunior cingebas te et ambulabas ubi volebas cum autem senueris extendes manus tuas et alius te cinget et ducet quo non vis. Hoc autem dixit significans qua morte clarificaturus esset Deum et hoc cum dixisset dicit ei sequere me. O DESTINO: As palavras certamente, certamente [amém, amém] são o início com o qual Jesus reclama a atenção e propõe uma espécie de juramento em que o narrador empenha sua palavra sobre a verdade do que afirma. A palavra amém tem origem hebraica: era a resposta que os ouvintes davam à oração do dirigente, como confirmação, à semelhança do que fazem os evangélicos após ouvirem um sermão, [amém, aleluia] e significaria assim seja. Mas também temos o amém no início de uma afirmação, exatamente como faz o quarto evangelho, que tem o costume de repetir a palavra, e significa que a declaração equivale a um juramento e traduziríamos por verdadeiramente os asseguro. O destino de Pedro era perder a liberdade de modo a ter que estender as mãos (ou braços); porão um cinto [ou atadura ] ao teu redor e serás levado onde não desejas. E isto na velhice. O evangelista comenta que essa foi a morte com a qual daria Pedro glória a Deus. Significava morte de cruz? Ágabo, o profeta, predisse a Paulo que seria preso (At 21, 11-12), ligando pés e mãos com o cinto do apóstolo. Pelo menos Jesus profetiza a prisão de Pedro e uma morte como consequência da mesma, que nas palavras deste versículo não podemos afirmar seja de cruz. Porém existe uma circunstância que sempre foi admitida como símbolo da cruz: estender os braços. Tendo em conta que o kai grego é tradução do wau hebraico e que este nem sempre é uma conjunção copulativa, poderíamos traduzir: estenderás os braços(= morte de cruz), já que outro te cingirá (ser preso) e te conduzirá onde tu não desejas. Por isso o evangelista dirá que essas palavras seriam sinal da morte com a qual ele daria glória a Deus e o anima a seguí-lo. A glória seria dar a vida em obediência como Jesus declarou: Meu Pai é glorificado quando produzis muito fruto e vos tornais meus discípulos (Jo 15, 8). Estas palavras indicam que o evangelista as escreveu, após a morte de Pedro no ano 64 em Roma, no império de Nero. Ao mesmo tempo confirmam as palavras de Jesus: O discípulo não é maior do que seu mestre (Mt 10, 24).

PISTAS:
1) Temos aqui um perdão dado, pecado por pecado, e com uma penitência que exige o amor onde antes existia uma apostasia. Se Jesus assim perdoa o pecado gravíssimo de seu apóstolo e o confirma em seu ministério, não se compreende como alguns rigoristas dos primeiros séculos recusaram o perdão aos apóstatas que, levados pela covardia, renegaram sua fé oferecendo incenso aos ídolos.

2) A conduta de Jesus não é unicamente de perdão, mas também de restituição de um ministério do qual Pedro mostrou-se indigno com sua conduta. A conduta dos homens constituídos como pastores não deve ser motivo de tanto escândalo como para desanimar e anular a fé dos crentes.

3) Jesus exige amor tanto dos que quer sejam seus pastores, como também amor dos que um dia quebraram seus vínculos. Um pecador arrependido não é só um desgarrado que volta, mas todo aquele que admite sua maldade e quer voltar ao caminho do amor e da fidelidade.

4) O perdão divino segue o amor humano, que realmente restitui e regenera o pecador. O amor é a base dos que querem ser admitidos como membros da família divina, ou seja, filhos de Deus. Este mundo é uma ocasião de aprender a amar, um amor do qual, como diz S. João da Cruz, seremos julgados no último dia.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


 

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03.04.2016
2º Domingo de Páscoa - Domingo da Misericórdia — ANO C
( BRANCO, GLÓRIA, CREIO, PREFÁCIO DA PÁSCOA I – II SEMANA DO SALTÉRIO )
__ Recebei o Espírito Santo! __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

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Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: A liturgia deste segundo Domingo de Páscoa nos convida a uma apropriada reflexão sobre nossos periódicos encontros com o Ressuscitado, quando ele mesmo nos oferece sua palavra viva e seu corpo e sangue, alimentos salutares que fortalecem nossa difícil caminhada no mundo. É sempre o Senhor quem toma a inicitiva de nos animar com a mensagem de esperança e amor e quem continuamente põe à nossa disposição as condicões necessárias para que, unidos aos irmãos na fé e na esperança, celebremos já a salvação definitiva, aproveitando na terra as coisas próprias do céu.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Hoje é o segundo Domingo de Páscoa. Nossos corações exultam ainda com o aleluia pascal. Cristo venceu a morte e nos fez conhecer o amor de Deus. Celebremos, pois, este dia como um domingo que não tem fim. É por isso que a semana passada foi um único Dia de Páscoa, vivido na liturgia como uma páscoa continuada, antecipação do céu.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Jesus ressuscitado está presente na comunidade, dando início à nova criação. Os cristãos sentem sua presença na ação do Espírito que os move à implantação do projeto de Deus na história. Contudo, da comunidade se espera uma fé madura, que não exige sinais extraordinários para perceber Jesus nela. Agradecemos ao Pai pela vitória de Cristo sobre nossa morte, pecados e incredulidades. Acolhemos a presença do Ressuscitado na comunidade unida e suplicamos o sopro de seu Espírito para vencer nossos medos, animar nossa fé ainda tão frágil e nos fortalecer na missão de testemunhas da ressurreição. Neste Domingo da Misericórdia, celebramos a páscoa de Jesus, que se realiza em todas as pessoas e grupos que vivem e promovem a paz e a reconciliação. O Evangelho apresenta a aparição de Jesus ressuscitado num quadro "litúrgico". Os discípulos estão reunidos, no domingo à noite (dia da ressurreição) e novamente oito dias depois. Jesus apresenta-se com os sinais gloriosos da paixão; transmite-lhes, com seu Espírito, os dons pascais resumidos na paz, na reconciliação; confirma-lhes a fé e anuncia a bem-aventurança dos que creram sem tê-lo visto.

Sintamos o júbilo real de Deus em nossos corações e cheios dessa alegria divina entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Atos 5,12-16): - "Enquanto isso, realizavam-se entre o povo pelas mãos dos apóstolos muitos milagres e prodígios."

SALMO RESPONSORIAL (Sl 117/118): - "Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; Eterna é a sua misericórdia!"

SEGUNDA LEITURA (Apocalipse 1,9-13.17-19): - "Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, e o que vive."

EVANGELHO (João 20,19-31): - "Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto!"



Homilia do Diácono José da Cruz — 2º Domingo de Páscoa — ANO C

"O ESPÍRITO QUE DÁ A VIDA PLENA..."

A descrença de Tomé persiste ainda hoje nas comunidades cristãs, pois em sã consciência, é difícil as vezes, ter a crença inabalável de que o Senhor está vivo e presente na comunidade. Não só porque não podemos vê-lo nem tocá-lo, mas principalmente porque a vida em comunidade nem sempre é o que sonhamos e esperamos.

Como pode Jesus estar presente se certas coisas dão tão errado, como pode Ele estar presente e as intrigas, fofocas, divisões, mal entendidos, ciúmes e inveja, serem tantas no seio da comunidade. Enfim, são tantos pecados da nossa Igreja, da parte dos fiéis e dos ministros, que é impossível crer que o Senhor está realmente presente. Parece mesmo que o Senhor desistiu da barca da Igreja e ela foi a deriva.

O próprio ambiente, e as condições em que a comunidade se encontrava, após a morte de Jesus, já era algo mais para a incredulidade e o fracasso, do que um retorno ao projeto do Reino anunciado por Jesus. Estavam de portas fechada, por medo, provavelmente iriam fazer uma última reunião, dizer que foi um prazer caminharem aqueles três anos juntos, mas que infelizmente era melhor cada um tomar o seu rumo e retornar á vidinha de antes.

Muitos cristãos, marcados por desilusões, pensam assim, alguns até insistem em procurar uma comunidade perfeita e pensam tê-la encontrado, até que nova desilusão provém e a fé vai perdendo o seu encanto. Parece que a Igreja e o Cristianismo, tornaram-se intrusos na vida do homem.

Entretanto, uma assembléia que estava destinada a dissolver-se, porque havia perdido o seu rumo, é surpreendida pela presença do Senhor! É nos momentos de fracasso, medo e desânimo, que Jesus se revela na assembléia. Quantos momentos e períodos assim, a Igreja já não viveu, desde os primórdios até os dias atuais? Digamos que, se ela fosse uma grande “farsa” como pensam alguns “iluminados”, como alguém poderia sustentar uma “farsa” ao longo de dois milênios de História....

“A Paz esteja convosco!” É a primeira saudação do Ressuscitado. Como viver a paz em meio ao “caos” da Família, sociedade, comunidade, será que a Paz tem algum significado, será que ela é realmente buscada? Não! Da parte do homem nada há que se possa fazer para se construir a paz... Que não é ausência de guerras e conflitos, que não é ausência de problemas, isso seria a plenitude, e o ser humano, com suas limitações e fragilidades, jamais concretizaria o sonho da paz, mesmo porque, para quem detém algum poder, paz é quando tudo está sob controle, como era a famosa Pax Romana.

Paz, no contexto da igreja comunidade, é a presença do Senhor, entretanto, é bom compreender bem, o que significa a presença misteriosa de Jesus em nosso meio, pois há muitos que a compreendem como uma espécie de “alívio”. Jesus caminha com a nossa igreja, então vamos deixar que Ele resolva todos os problemas e dificuldades, podemos cruzar nossos braços e ficar no aguardo do grande Dia, em que seremos todos com Ele, arrebatados ao céu....

O evangelho de João, escrito 90 anos após a ascensão de Jesus, quer ajudar as comunidades cristãs, daquele tempo e também as de hoje, a perceberem que a Fé não nasce de uma experiência humana, não é resultado do raciocínio e nem produto da lógica. O Reino de Deus anunciado por Jesus, não é um reino lá de cima, sem qualquer conexão com as realidades humanas, é um reino aqui de baixo, com suas raízes plantadas no chão da história, mas que, apesar disso, não depende do homem, de suas aspirações ou ideologias, para atingir a plenitude.

Este homem novo, que não é alienado, mas que também não é só uma realidade carnal e psíquica, nasceu no “sopro” de Jesus, este homem convocado para viver uma nova realidade celestial, mesmo em meio ao “caos” estabelecido na humanidade, é que forma a Igreja dos que crêem, e que não encontrando em si mesmo uma força que transforme aas relações, sonha, constrói e vai a luta, impelido pelo Espírito do Senhor Ressuscitado, que vai á frente da sua Igreja, como um General vai á frente da Batalha, convicto da vitória.

Há uma missão a cumprir, dificílima e sempre desafiadora, para cada Cristão Batizado, mas o bom êxito da missão está assegurado, porque é o Espírito do Senhor, que nos move, anima, direciona e impulsiona. Não importa as nossas fragilidades, vacilo e indecisões, pois o mais importante é que, como São Tomé, reconheçamos Jesus como nosso único Deus e Senhor, tudo o mais, inclusive a tenebrosa força do mal, está abaixo desse Senhorio, a Soberania pertence a Cristo, e somente a Ele...

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — 2º Domingo de Páscoa — ANO C

Encontrar o Ressuscitado e acreditar nele

Hoje, Jesus aparece no meio da comunidade reunida. Nós também, reunidos com os nossos irmãos na fé, fazemos a experiência do Ressuscitado. Claramente no caso daqueles discípulos foi uma experiência muito especial, já que eles viram o corpo glorioso do Senhor. A nossa experiência, sem ser do mesmo modo, não deixa de ser maravilhosa, já que nós contemplamos o corpo eucarístico do Senhor, comungamos o seu Corpo e o seu Sangue. No mistério da Eucaristia está todo o Mistério Pascal do Senhor. Eis aqui um argumento totalmente convincente para que não faltemos a Missa dominical!

A propósito, um homem escreveu uma carta ao diretor do jornal da sua cidade e comentava como ir à igreja todos os domingos tinha pouco sentido. “Fui à igreja durante 30 anos – escrevia –, e desde então escutei mais ou menos 3000 homilias. Não posso, porém, lembrar-me de nenhuma delas. Penso então que eu perdi o meu tempo e os sacerdotes o seu ao dar sermões ao vazio.” Por causa daquela carta teve início uma polêmica na seção “Cartas ao Diretor” daquele jornal, que continuou durante semanas, até que alguém escreveu uma consideração que, surpreendentemente, acabou com todas as controvérsias: “estou casado há 30 anos. Desde então fiz aproximadamente 32000 refeições entre almoços e jantares. No entanto, não posso lembrar-me de nenhum menu inteiro de nenhum desses dias. Não posso, porém, concluir que essas refeições não serviram para nada. Alimentaram-me e deram-me forças para viver, e se eu não tivesse feito aquelas refeições já estaria morto.”

É na igreja onde fazemos a nossa experiência de Cristo ressuscitado, é aqui onde comungamos o Corpo ressuscitado do Senhor. O Domingo é o dia do cristão, pois é o dia do Ressuscitado. O Domingo só é domingo por causa do Senhor Jesus. “Este é o dia que o Senhor fez para nós”, é o primeiro dia da semana, marcando assim o início de uma nova fase: o da nova criação. O Domingo é também o oitavo dia, apontando dessa maneira para o descanso eterno, para a escatologia, para o céu. Já que a semana tem apenas 7 dias, chamar o domingo de “oitavo dia” é colocá-lo em outra dimensão, a eterna.

Diante do Cristo ressuscitado e da sua grande Misericórdia, tomemos como ponto de partida da nossa oração para o dia de hoje e para essa semana aquela frase cheia de fé e de rendição diante do Mistério: “Meu Senhor e meu Deus”. Quando Jesus for de fato Senhor e Deus das nossas vidas, acontecerá conosco aquilo que a Sagrada Escritura relata dos primeiro cristãos: “A multidão dos cristãos era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32). No filme sobre o Papa João Paulo II, Karol – o homem que se tornou papa, que é muito recomendável, aparece muitas vezes a saudação cor unum et anima uma, a expressão vem desse trecho da Bíblia. Precisamos ser um só coração e uma só alma, nas nossas celebrações dominicais e lá fora, atuando assim seremos coerentes com o nosso ser cristão.

Uma última recomendação: vá à Missa ainda que você não sinta nada. Não importa! Nós não servimos a Deus em troca de sentimentos. Por outro lado, caso o Senhor nos conceda um sentimento de alegria e de satisfação, agradeçamos-lhe, mas não façamos desses sentimentos o motivo da nossa lealdade, da nossa fidelidade. Dá pena escutar a esses ex-católicos afirmando que mudaram de igreja por que lá, na outra, se sentem bem. Ora, para sentir-se bem, basta ir a uma discoteca! Desculpem que eu tenha baixado o nível, porém, convenhamos!

Maria, auxílio dos cristãos, nossa Mãe, causa de nossa alegria, nos ajude e nos faça mais devotos da Eucaristia, do Mistério Pascal de seu Filho e mais atentos às necessidades dos demais.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 2º Domingo de Páscoa — ANO C
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Epístola (Ap 1, 9-11ª; 12-13; 17-19)

O AUTOR: Eu, João, o também vosso irmão e copartícipe na tribulação e no reino e na perseverança de Jesus Cristo, estava na ilha, a chamada Patmos, pela palavra do Deus e pelo testemunho de Jesus Cristo (9). Ego Iohannes frater vester et particeps in tribulatione et regno et patientia in Iesu fui in insula quae appellatur Patmos propter verbum Dei et testimonium Iesu. JOÃO: [Iöannës <2491>=Iohannes]é um nome de origem hebraica [Yehohanan], cujo significado é Jahveh é um dador gratuito ou de graça. Com este nome temos 4 pessoas diferentes no NT: João, o Batista; João, o apóstolo, o que escreve o quarto evangelho, que a tradição diz ser também o autor do Apocalipse; João, com o sobrenome de Marcos, companheiro de Barnabé e Paulo, como narra At 12, 12 e João, um membro do Sinédrio (At 4, 6). Sobre o autor do Apocalipse, a tradição diz que o evangelista e discípulo amado do Senhor (Jo 13, 23) teve nos últimos anos o cuidado das igrejas da Ásia Menor onde morreu com idade avançada. Porém, há autores modernos, desde o final do século XIX, que afirmam nunca saiu da Palestina onde morreu já avançado em anos. Esta hipótese não é muito seguida e existe uma terceira em que se afirma que tanto o Quarto Evangelho como o Apocalipse derivam do ensinamento do apóstolo João, sem dúvida por intermédio de redatores pertencentes aos meios joaninos de Éfeso. O livro durante muito tempo  foi posto em dúvida em certas comunidades cristãs.  Hoje é um dos preferidos pelas comunidades evangélicas e considerado como profecia do passado por muitos eruditos católicos. IRMÃO [Adelfos<80>=frater] é a palavra comum entre os cristãos que se consideravam filhos de Deus e, portanto, verdadeiros irmãos pelos méritos de Cristo, o Filho natural do Pai comum.

COPARTÍCIPE [rSygkoinövos <4791>=particeps] derivado de syn [juntamente] e koinönos [associado] que, neste caso, é devido à perseguição ou TRIBULAÇÃO [Thlipsis <2347>= tribulatio] com o significado de opressão, aflição, sofrimento, tribulação, angústia, perigo, desgraça. Como em todos os escritos apocalípticos, o autor descreve em temos escuros a realidade, para caso de ser descoberto, não dar motivo à polícia para aumentar a perseguição. Daí o estilo criptográfico que é chamado apocalíptico. Cremos, portanto que a melhor tradução é perseguição.PERSEVERANÇA [Hypomonë<5281>=patientia] firmeza, perseverança, constância, tenacidade, resistência. Em Rm 5, 3, Paulo fala de que ele se gloria na tribulação [perseguição?] sabendo que a tribulação produz a perseverança(TEB). PATMOS <3963> que em grego significa meu assassinato, era uma pequena ilha do grupo das Cíclades do mar Egeu, que recebeu seu nome das árvores que produzem a turpentina ou trementina, ou seja, de certos pinheiros. Tem aproximadamente 50 Km de circunferência [10X5 milhas] e está próxima das costas da Ásia Menor, especialmente de Éfeso. S. Ignácio diz que João foi desterrado a Patmos pelo imperador Domiciano, que Irineu calcula ser ao redor dos anos 95 ou 96 não por um pecado, ou delito, mas por sua fé em Cristo, como afirma o próprio João neste versículo pela palavra de Deus e pelo testemunho de Jesus Cristo. Da ilha, uma vez livre, viveu em Éfeso, distante aproximadamente 60 Km da mesma. Segundo os autores modernos relatam, Patmos era uma espécie de Alcatraz no império romano. Funcionava como um cárcere sem muros. A ilha era rica em mármore e a maioria dos presos estava forçada a trabalhar nas canteiras da mesma. Atualmente não tem árvores, nem rios, nem vegetação, exceto alguns cantos cultivados entre as rochas. Há uma gruta donde a tradição diz que o apóstolo morava e na qual teve suas visões. É, pois uma ilha deserta, isolada, estéril, apropriada como prisão. Segundo antigos testemunhos, no ano 96, após a morte de Domiciano, João pode sair para Éfeso, no tempo de Nerva, o novo imperador.

A VOZ: Achei-me em espírito no dia do Senhor e escutei detrás de mim uma grande voz como de trompa (10). Fui in spiritu in dominica die et audivi post me vocem magnam tamquam tubae. EM ESPÍRITO [En Pneumati <4145>= in spiritu] o verbo egenomën <1096> que a vulgata traduz por fui, do verbo ginomai, tem o significado de transformar-se, ter lugar, suceder, ocorrer, acontecer, passar, surgir, resultar, chegar a ser. Daí que podemos traduzir por achei-me possuído no espírito. Podemos dizer, comentando Paulo em Gl 5, 16, que não foi impulsionado pela carne, mas levado pelo espírito que provem de Deus mesmo, e que o que viu e agora escreve, são fatos e palavras que constituem o que os antigos profetas chamavam oráculo do Senhor. DIA DO SENHOR é o domingo e vemos como já era desde tempos apostólicos o dia primeiro da semana chamado dia do Senhor por causa da ressurreição de Jesus. Talvez seja também uma reação contrária ao dia de Augusto celebrado uma vez por mês em honra do imperador. TROMPA [Salpigx<4536>=tuba] é o shofar <07782> feito de um chifre de carneiro. Quando o shofar soava em Israel, o Senhor se levantava do assento do juízo e se assentava no assento da misericórdia. Assim como as trombetas anunciavam a presença de um rei mortal, o Shofar [tuba] anunciava o rei dos reis e senhor dos senhores (Sl 98, 6) onde a AV traduz: Com trombetas [behachatsoserat, salpigxin, tubis, trombetas],e ao som de buzinas [shofar, salpiggos keratinës, bucinae, trompas], De fato a setenta distingue entre salpigx [trompa] e salpigx keratinës [ trompa de chifre]. A primeira é chatsotserah <02689> e a segunda é shofar<07782>. Este foi o instrumento tocado pelos sacerdotes em Jericó, feito de um chifre de carneiro [yobel<03194], que também recebia o nome de yobel e de donde vem a palavra jubileu [yobel<03104>] com o mesmo nome, de Lv 25, 10, anunciado pelo som deste instrumento. De fato existem duas palavras: trombeta, diminutivo de trompa, com os significados de clarim, corneta (corno em espanhol), ou cornetim. Atualmente, é chamada de trompete. O corno, que melhor podia ser trompa [famosas as trompas de caça na idade média], se é de chifre de carneiro, é o Shofar. E assim devia ser traduzido o Shofar que, em grego, a Setenta traduz como salpigx. O som do shofar é o que deve ser ouvido sempre que a presença do Senhor esteja a ser anunciada, como no monte Sinai (Êxodo 19:16, 19), onde este instrumento (som fortíssimo de trompa (shofar), segundo a TEB], aparece pela primeira vez na Bíblia. Daí deduzimos que a trombeta é o Shofar, chamada para indicar a vinda e presença do Senhor.

ALFA E ÔMEGA: Dizendo: eu sou o alfa e o ômega, o primeiro e o último; e o que estás vendo escreve num livro e envia às  sete igrejas, as da Ásia (11a). Dicentis quod vides scribe in libro et mitte septem ecclesiis. ALFA E ÔMEGA: No alfabeto grego eram as duas letras inicial e final do mesmo. Por isso, o autor explica o significado desse enigma na continuação. O primeiro e o último. Que quer dizer isso? O título era próprio de Jahveh no AT como vemos em Is 41, 4 : ego Dominus primus et novissimus ego sum. Como vemos em Ap 1. 8, são palavras de Jesus, o Cristo e ele a si mesmo se define como o princípio e o fim de tudo, exatamente como o Deus do AT. Primeiro e último, pois não existe um parêntese de tempo ou espaço em sua vida. Quer dizer que a criação do mundo e o seu fim estão unidos a Cristo como princípio e fim. Por ele tudo foi criado; por ele tudo chegará ao fim próprio, para o que foi destinado. Tudo foi feito por ele e sem ele nada se fez do que foi feito (Jo 1,3). Isto é o princípio e o fim. O seu império está nas palavras do anjo a Maria: Reinará na casa de Jacó e seu reino não terá fim (Lc 1, 33). Paulo diz claramente que o fim da Lei é Cristo (Rm 19, 4). E unicamente o fim de tudo será conseguido quando Cristo entregar o seu reino a Deus Pai (1 Cor 15, 24). Portanto, poderá dizer: Eu sou o que é e o que era e o que vem, o Todo poderoso (Ap 1,8). SETE IGREJAS: São sete cidades da Província da Ásia, desde 133 a.C. que era administrada por um procônsul, dependente do Senado e cuja capital era Éfeso, que com Pérgamo, eram cidades das mais populosas da oikoumene. Além das sete citadas, havia outras na região, como Colossas que não são denominadas. Alguns manuscritos as denominam e são: Esmirna, Pérgamo, Tyatira, Saris, Filadélfia e Laodicea. Parece que o número 7 não é um numerus clausus, mas um número típico em que entra a totalidade das igrejas no tempo. Também as cartas de Paulo foram dirigidas a sete Igrejas como Roma, Corinto, Galácia, Éfeso, Colossas, Filipo e Tessalônica. Uma outra interpretação é que a província romana de Ásia estava dividida em sete distritos postais, correspondentes às sete cidades para as quais envia a carta, o autor do livro.

OS CASTIÇAIS: E virei-me a ver a voz que falou comigo; e tendo-me virado, vi sete castiçais dourados (12). Et conversus sum ut viderem vocem quae loquebatur mecum et conversus vidi septem candelabra aurea, SETE CASTIÇAIS: João pensou ver o sujeito da voz, mas no seu lugar só viu sete candelabros de ouro. Uma tipificação do Menorah? Era o Menorah uma lâmpada de azeite de sete braços, elemento ritual do judaísmo que simbolizava os arbustos em chamas que viu Moisés no monte Sinai (Êx 25). Encontrava-se no Tabernáculo e passou a formar parte dos dois templos: o de Salomão e o de Herodes. Não deve ser confundido com o Hanukiá que celebra os 8 dia que a luz de uma candeia durou milagrosamente 8 dias até que foi purificado o templo pelos Macabeus. Uma planta que cresce em Israel chamada de Moriah tem sete galhos e parece com a Menorah, o que deu lugar a ser a inspiração do mesmo. Após a destruição do templo, o famoso candelabro foi levado a Roma, onde sua figura ainda pode ser vista no arco de triunfo de Tito. Uma base para explicar o seu desenho está em que representa os sete corpos celestes da antiga cosmologia hebraica: Sol. Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Uma outra interpretação é que representa a árvore da vida que em termos pagãos era representada pela deusa Asherah, que em hebraico era chamada de Hochmah e em grego de  (sabedoria). Na realidade, deveríamos traduzir castiçais e não candelabros, pois estes são troncos que recebem vários braços em cujos extremos estão as lâmpadas e os castiçais são um para cada lâmpada. Alguns intérpretes dizem que os castiçais são as imagens das sete igrejas e que as luzes ou lâmpadas no extremo de cada castiçal representam a luz de Cristo que cada castiçal levanta para ser mais bem vista, segundo o que diz o Senhor (Mt 5, 15). Não é a Menorah, um único candelabro com sete braços, mas são sete castiçais em cujos extremos temos as lâmpadas com sua luz independente. Nácar Colunga traduz candeleros em espanhol, que é castiçal em português. No AT temos um profeta que vê também as sete lâmpadas, mas com a diferença de que é um único candelabro do qual saem sete tubos (RA) ou bicos (TEB), como era o Menorah. Em Zacarias ainda existe uma outra imagem: a das duas oliveiras. A Igreja é onde encontramos a luz de Cristo e não em cada indivíduo em particular de modo que stare cum Christo é stare cum Ecclesia. É nela que encontramos a verdadeira luz de Cristo.

O FILHO DO HOMEM: E no meio dos sete candelabros um semelhante a um filho de homem revestido de vestido talar e cingido nos seios com uma cinta dourada (13). Et in medio septem candelabrorum similem Filio hominis vestitum podere et praecinctum ad mamillas zonam auream. FILHO DO HOMEM: ÉJesus que aparece em funções de um juiz escatológico como em Daniel 7, 13-14: vindo nas nuvens do céu e foi-lhe dado domínio e glória. Era o título messiânico usado por Jesus e que a Igreja raramente usou, preferindo, após a ressurreição, o título de Senhor, que ao contrário da humanidade, manifestava mais bem a natureza divina de Cristo.

VESTIDO TALAR ou como diz o grego podërës [<4158>=poderes] que em latim significa túnica talar, usada pelos sacerdotes. Provém do grego pous [pé] e arö [unir]. É a única vez [aplax] que sai no NT. Seu simbolismo indica que Jesus era sacerdote, sumo dirá a epístola aos hebreus (7, 17). CINTA DOURADA era a banda de quatro dedos de largura que devia cingir a túnica do Sumo sacerdote (Êx 28, 4, 31-32; 29, 5) em sinal de glória e de majestade (Êx 28, 39). Em 39, 5 descreve-se a faixa que era feita de linho, ouro, e púrpuras. A faixa de Jesus tinha mais ouro do que os fios da antiga faixa sacerdotal, pois era de ouro puro. Segundo o tipo do AT, se os sacerdotes tinham que cuidar do Menorah de modo que não faltasse o azeite, nem o pavio fosse insuficiente, Cristo cuida das igrejas do NT de modo a suas luzes estarem sempre brilhantes no dia e especialmente na escuridão da noite, que era simbolicamente a noite sem fé do mundo pagão.

NÃO TEMAS: E quando o vi, cai aos pés dele como morto e pôs a s sua mão direita acima de mim dizendo-me: Não temas! Eu sou o primeiro e o último (17). et cum vidissem eum cecidi ad pedes eius tamquam mortuus et posuit dexteram suam super me dicens noli timere ego sum primus et novissimus. O apóstolo estava abrumado pela visão, embora conhecesse que era o mesmo Jesus, o que o amava e com o qual viveu momentos de intimidade e amizade na terra. Como é descrito com cores simbólicas, era de uma majestade impressionante e, por isso, diante do temor natural, João recebe as palavras que o próprio Jesus disse aos discípulos no meio da tempestade, andando sobre as ondas do mar: Não temais (Jo 6, 20): Sou eu, dirá então. E agora: Sou o primeiro e o último.

DONO DA VIDA: E o que vive e que foi feito morto e eis que estou vivo pelos séculos dos séculos. Amém. E tenho as chaves do Hades e da morte (18).Et vivus et fui mortuus et ecce sum vivens in saecula saeculorum et habeo claves mortis et inferni. O QUE VIVE: propriamente o vivente [Zön<2198>=vivus] é uma clara alusão à morte e ressurreição. Como diz na continuação, foi feito morto [egenomën nekros <1096; 3498> =fui mortuus] que podemos traduzir por estive morto, já que o latim não tem o verbo estar que é comum ao português e espanhol. No presente está vivo e essa vida será eterna pelos séculos  [aiön<165> saeculum]. O aiön grego significa uma idade perpétua, um período de tempo sem medida ou muito longo, daí um século e quando repetido eis tous aiönas tön aiönön é traduzido ao latim in saecula saeculorum e ao português por pelos séculos dos séculos, ou seja, sem fim o forever em inglês. O Amém final indica assim é. HADES [hades<86>=infernus] era o deus de ultratumba também chamdo Pluto, que logo passou a chamar-se de reino dos mortos, do qual Hades era o rei. É neste sentido que Cristo tem as chaves [para entrar ou sair] desse reino e consequentemente, será o dominador da morte, como se esta tivesse vida própria e fosse uma pessoa real. É o mesmo que disse Jesus a Marta : Eu sou a ressurreição e a vida (Jo 11, 25).

O MANDATO: Escreve as que vedes e as que são e as que estão a acontecer depois delas (19). Scribe ergo quae vidisti et quae sunt et quae oportet fieri post haec. Com estas palavras está claro que o relato do livro na continuação é inspirado por mandato de Jesus, o Cristo. As coisas que tendes visto: ou seja, a visão de Jesus, como glorioso e majestático, o sumo pontífice da nova era. As que são, ou seja, as das sete igrejas da Ásia. Finalmente as que estão a acontecer, ou seja, no futuro próximo. Provavelmente não escatológico, pois o Apocalipse trata dos tempos anteriores e próximos futuros, segundo a opinião dos modernos exegetas. Efetivamente, o livro está dividido em três partes: coisas que o autor já viu: capítulo I. Coisas que eram do tempo presente: capítulos 2 e 3. E finalmente, o futuro: capítulo 4 até o fim.

Evangelho ( Jo 20, 19-31) - PRIMEIRA APARIÇÃO AOS DOZE

1ª PARTE: JESUS APARECE AOS DISCÍPULOS

OS LUGARES PARALELOS: Temos, além do relato de João, outros dois paralelos, muito mais breves, como corresponde a um resumo auricular e não a um testemunho ocular. São Marcos 16, 14-18 e Lucas 24, 36-49. Contrastaremos todos eles para determinar o grau de historicidade e o valor teológico das afirmações como catequistas bíblicos.

TEMPO: Sendo, portanto, o entardecer naquele dia o primeiro da semana e as portas trancadas donde estavam os discípulos reunidos por medo dos judeus, veio o Jesus e ficou em pé no meio e diz-lhes: paz convosco (19). Cum esset ergo sero die illo una sabbatorum et fores essent clausae ubi erant discipuli propter metum Iudaeorum venit Iesus et stetit in medio et dicit eis pax vobis João é o mais detalhado neste respeito: estando, pois, aquele dia perto do fim [opsies], o primeiro da semana, temos traduzido por entardecer. Comparado com o relato de Lucas anterior ao sucesso de João, que este não narra, da aparição aos dois de Emaús, parece que temos uma pequena contradição de tempo. Os dois de Emaús pedem a Jesus que fique, pois está na tarde e o dia já há declinado [temos traduzido literalmente]. Como pode dizer João que depois de uma caminhada de sessenta estádios, aproximadamente 9 mil metros, ou duas horas de caminho ainda era a tarde do dia? Vamos explicar esta aparente contradição. A tarde começava às quinze horas. Era este também o tempo em que se iniciavam as jantas. O dia, na primavera palestina, termina entre 17:30 e 18 horas. Caso estejamos, segundo Lucas, no início das 16 horas teremos mais duas horas de volta e os dois discípulos estariam com os doze às 18 horas, precisamente o fim do dia como afirma João. OS DISCÍPULOS: Além dos doze [melhor onze, porque Judas estava morto] estavam os dois de Emaús e provavelmente mais, dentre os quais logo nos Atos se dirá eram cento e vinte. Dentre os onze faltava Tomé o chamado Dídimo. Tanto Tomé como Dídimo significam o mesmo: gêmeo. Como diz Lucas estavam reunidos os onze (!) e seus companheiros comentando uma aparição a Pedro [Simão] (Lc 24, 33-34) que João não narra porque ele não foi testemunha do fato. Temos uma falha de informação em Lucas porque não sendo ele testemunha narra na totalidade, os onze, quando na verdade faltava um: Tomás. Também vemos como em Marcos existe uma narração formal e genérica, quando resume todas as aparições afirmando finalmente que apareceu aos onze quando estavam à mesa e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não haviam dado crédito aos que o tinham visto ressuscitado (34, 14). Vemos que esta última afirmação é só em parte verdadeira  como constatamos em Lucas 24, 34. Esta falta de detalhes indica claramente que eles tratam o assunto na sua generalidade, como um fato que transcende a história e forma parte da tradição. Não assim em João onde hora, lugar e circunstâncias permitem conhecer o que uma testemunha viu e ouviu. Por isso temos dois detalhes importantes: o medo aos judeus [propriamente jerosolimitanos] e as portas fechadas, ou melhor, trancadas. JESUS VEIO: É desta forma como aparece para estar na frente de todos a figura do ressuscitado. Nada de ruídos, de resplendor, de experiências impactantes. Como entra a luz quando uma janela é aberta, assim o corpo de Jesus entrou e se colocou no meio deles. A PAZ: A figura na frente deles não é uma estátua; fala e comerá logo, para demonstrar que não é um espírito, uma fantasia, um fantasma. Mas vamos agora estudar suas palavras. A primeira palavra de Jesus é uma saudação que podemos dizer entra dentro do costume ambiental: PAZ. A palavra hebraica Shalom da qual a grega Eirene e a latina Pax são traduções, significa evidentemente ausência de guerra e vida tranqüila Lc 14, 32, mas também significa bênção, glória, riqueza, descanso, bem-estar, saúde física, esperança de êxito, justiça, salvação: ou seja tudo que acostumamos chamar de estado feliz. Especialmente paz e justiça aparecem unidas (Mt 5, 9-10). A paz é dom precioso de Deus (1 Cor 1, 3). Daí que o futuro Messias, Jesus em definitivo, seja antes de  tudo um porta-voz da paz e inclusive se identifique com ela (Rm 5, 1). É o Messias que a comunica por meio do Espírito como antecipação da paz definitiva (Rm 14, 7). Se a primeira vez, a palavra pode ter o significado de uma saudação (19), quando é repetida pela segunda vez, tem um significado profundamente teológico: ela é a base do Espírito que transforma os discípulos em enviados do Pai, recebendo o principal carisma da nova era: o espírito de reconciliação que basicamente é perdão. Algo novo está ocorrendo; e esse algo novo é um bem divino:  essa profunda e definitiva paz, que Deus está disposto a partilhar como doador com simples seres humanos.

AS CHAGAS: E dito isto, mostrou-lhes as mãos e o seu lado; alegraram-se, pois, os discípulos vendo o Senhor (20). Et hoc cum dixisset ostendit eis manus et latus gavisi sunt ergo discipuli viso Domino. Jesus mostrou suas chagas: mãos e pés, segundo Lucas (24, 39) e mãos e lado, segundo João (20, 21). Lucas declara o propósito dessa prova como demonstração  de que ele era o mesmo Jesus crucificado que tinha sido depositado no sepulcro e não um fantasma. Nem a afirmação de Lucas nega a de João nem esta poderá ser tomada como contraditória à de Lucas. Máxime que João distingue duas aparições: uma só para Tomé em que pede que este introduza a mão no lado, daí que o lado era mais importante para João do que as chagas do pé. Lucas só traz uma aparição, porque para ele o importante era que Jesus tinha sido visto pelos onze. Isto explica  as diferenças entre os dois. Não todos os detalhes são importantes, mas só aqueles que do ponto de vista do autor contribuem para demonstrar ou confirmar seu propósito. Desde este momento, Jesus será o crucificado, ou seja, aquele que em seu corpo apresenta umas feridas que inicialmente foram vergonha e humilhação, mas que desde agora, seriam glória e exaltação. O Jesus-homem, filho de Maria [filho do homem] agora se apresenta como o Cristo-Senhor verdadeiro filho de Deus [Cristo Deus].

O PERDÃO DOS PECADOS: Disse-lhes então o Jesus de novo: Paz convosco. Como me enviou o Pai também eu os envio (21). E dito isto, soprou e diz-lhes: recebei um espírito divino(22). Se de alguns perdoardes os pecados, são a eles perdoados, se de alguns retiverdes, retidos são (23).. Dixit ergo eis iterum pax vobis sicut misit me Pater et ego mitto vos. Hoc cum dixisset insuflavit et dicit eis accipite Spiritum Sanctum. Quorum remiseritis peccata remittuntur eis quorum retinueritis detenta sunt A nova missão dada por Jesus aos discípulos está intimamente unida ao perdão dos pecados. Por isso Jesus repete de novo Shalom lekem [Eirene ymin grego, ou Pax vobis latino]. Mas esta paz não é uma saudação, mas uma doação, um presente divino que é um perdão pela conduta imprópria dos discípulos durante os dias de paixão e morte de Jesus. Jesus esquece e perdoa. Sua paz, que é felicidade e alegria por sua presença viva no meio deles, quer ser uma reconciliação sem recriminações nem censuras. O perdão é total. O desejo de Jesus vai além do simples perdão. Jesus pretende dar aos discípulos um novo ministério: uma função divina como dom totalmente extraordinário que requeria um ato solene, visível e simbólico; ou seja,  uma ação sacramental em que o homem é instrumento visível da ação interior divina. A missão atual é totalmente diferente da dada aos doze (Mt 10, 1 +) e aos discípulos (Lc 10, 1+) que unicamente consiste em anunciar a Boa Nova e testemunhá-la com poder de curar e autoridade sobre os demônios. É uma missão nova que participa da missão fundamental do próprio Jesus, que vamos estudar na continuação. Jesus não só envia os discípulos, mas também o Paráclito (Jo 16, 7). E a missão dos discípulos está na mesma ordem da missão do Paráclito. É, pois uma missão muito importante.

MISSÃO DE JESUS: Como o Pai me enviou, dirá Jesus. Com estas palavras Jesus afirma o sentido de sua vida: Ele é um enviado do Pai, um mensageiro que tem como finalidade o que a continuação descreve como doação aos seus discípulos: o perdão. Que Jesus era enviado do Pai temos clara confirmação em Jo 5, 30 e 36. Mas qual foi a  missão fundamental de Jesus? O anjo anuncia um Salvador que será Cristo-Senhor (Lc 2, 11). No nome da pessoa estava escrita a missão de sua vida. Por-lhe-ás o nome de Jesus, pois ele salvará seu povo de seus pecados (Mt 1, 21). E o Batista descreve o futuro Messias declarando-o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29). A missão de Jesus se cumpre no momento de sua morte quando pode exclamar: está consumado (Jo 19, 30). Pouco antes, ao ser elevado na cruz, reclama do Pai o perdão; e o mais admirável é que esse perdão não é para os amigos, mas para os inimigos: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23, 34). Foi para essa hora[de paixão] que ele veio (Jo 12, 27). O perdão é uma amostra de que Deus é Pai e de que a justiça de Deus é clemência para quem recebe o evangelho como a Boa Nova da graça: O ano de graça do Senhor (Lc 4, 19 e Is 61, 2). Na última ceia declara o mistério encerrado na cruz como o sangue a ser derramado em prol da multidão para o perdão dos pecados (Mt 26, 28) e João na sua primeira carta resumirá esta missão afirmando: o sangue de seu Filho nos limpa de todo pecado (1 Jo 1, 7).

MISSÃO DOS DISCÍPULOS: 1)Jesus a identifica com a sua: como o Pai me enviou assim eu vos envio (21). Um favor deve ser tomado em sentido o mais amplo possível, sem restrição, como dizem os letrados em Direito. Perdoar não é só usar palavras, mas contribuir com ações, unindo-se à sua paixão para que os novos sofrimentos atuem como causa segunda do perdão, o qual Paulo já expressava numa frase de difícil interpretação: Em minha carne estou completando o que falta às tribulações de Cristo em favor de seu corpo que é a Igreja (Cl 1, 24). E como tal corpo de Cristo, também ele (sendo parte da Igreja) sofre e adquire méritos para a conversão dos pecadores, como muitos santos sofreram e S. Agostinho confirma em seus escritos. A Deus só podemos dar o nosso sofrimento de quem entrega sua vida, perdendo-a como prova do amor (Rm 5, 8). E nisso consiste precisamente o sacrifício (Ef 5, 2). 2) Jesus realiza uma ação que relembra pelo verbo usado a mesma de Gênesis 2, 7, segundo a setenta, quando Deus soprou sobre o barro para dar vida ao corpo inerte. Logo teremos uma vida nova dada aos discípulos. Até agora Jesus nunca fez gesto semelhante que implicava modo diferente de ser discípulo. 3) As palavras que explicam a ação de Jesus formam um só conjunto com a missão e o sopro, que tem como significado o perdão dos pecados. Aqui não encontramos menção do Evangelho, não aparece o Reino, não deixa os efeitos salutares aos ouvintes da palavra, mas os efeitos são dirigidos aos presentes, todos eles alegres e com viva fé no Senhor: Se perdoais serão os pecados [dos outros] perdoados, se não os perdoais [os retiverdes forçosamente, segundo o grego] não estarão perdoados. Os hemistíquios finais de cada frase estão na voz passiva o que significa uma ação direita de Deus. Poderíamos traduzir livre, mas literalmente a nova missão apostólica desta forma: Deus perdoará a quem perdoardes; e Deus não perdoará a quem não perdoardes. O melhor comentário é o do Beato Isaac della Stella: A Igreja nada pode perdoar sem Cristo e Cristo nada quer perdoar sem a Igreja. A Igreja não pode perdoar senão a quem é penitente, isto é, a quem Cristo tocou com sua graça; e Cristo nada quer considerar como perdoado a quem despreza a sua Igreja.4) Por issoa condição indispensável do penitenteé seu amor por Cristo, segundoas palavras do próprio Jesus: Eu vim chamar os pecadores ao arrependimento (Lc 5, 32) e seus muitos pecados lhe são perdoados porque amou muito; mas aquele a quem pouco se perdoa ama pouco (Lc 7, 47) ou em termos mais ocidentais: A quem pouco ama, pouco se perdoa.

INTERPRETAÇÃO: Que podemos dizer desta segunda missão dos discípulos chamados a perdoar os pecados? ANTES do século XVI todas as Igrejas admitiam que os apóstolos e seus sucessores tinham o poder ministerial de perdoar os pecados dos fiéis em nome de Cristo. DEPOIS, com a vinda da Reforma, os evangélicos afirmam que este poder e este encargo são entregues a todos os discípulos; de fato a todos os fiéis de todos os tempos (Jo 17, 20) e não a Pedro em particular (Mt 16, 19) ou a um ordo sacerdotal (Lc 24, 48). O perdão não é dado por meio de um poder ministerial causado por uma recepção do Espírito; porém, escutando o testemunho dos fiéis, os homens acreditarão (seus pecados lhes serão perdoados) ou se escandalizarão (seus pecados lhes serão retidos). Estas são as novas afirmações dos chamados evangélicos. A igreja Romana admite como certo que o poder dado por Cristo de perdoar os pecados se exerce também no Batismo e na pregação da palavra (Mc 15, 16). Todo sacerdote no final da leitura do evangelho diz: Pelos vocábulos ditos, sejam perdoados nossos delitos. O teólogo Bruce  Vawter declara que este dom do Espírito está aqui relacionado explicitamente com o poder outorgado à Igreja para continuar ostentando o caráter judicial de Cristo no referente ao pecado. Mas há algo mais: especialmente da passagem atual temos duas definições dogmáticas que interpretam a Escrituras em sentido histórico ou literal: A PRIMEIRA definição é do Concílio de Constantinopla (ano 553) proclamando que quando o Senhor insuflou sobre os apóstolos, estes recebem realmente e não figurativamente  o Espírito Santo. A SEGUNDA é do Concílio de Trento, declarando anátema do ponto de vista católico, a interpretação desta passagem como não se referindo à potestade de perdoar e reter os pecados no sacramento da penitência, mas somente restringida à autoridade de pregar o evangelho.

LUGARES PARALELOS: Em primeiro lugar temos a passagem da confissão de Pedro: E te darei as chaves do Reino dos Céus: E se alguma coisa ligares sobre a terra, estará ligada nos céus. E se alguma coisa desatares sobre a terra estará desatada nos céus (Mt 16, 19). Pedro recebe de Jesus uma autoridade que é jurídica como chefe do conjunto apostólico. É definitivamente o poder de admitir ou rejeitar dentro da comunidade homens e ideias como fundamentalmente afins ou inimigas às mensagens verdadeiras do evangelho. Uma outra passagem é: Em verdade vos digo que tudo que por quaisquer motivos ligares sobre a terra estará ligado no céu. E tudo que por qualquer causa desligares sobre a terra estará desligado no céu (Mt 18, 18). Trata-se do mesmo direito de admitir ou rejeitar homens e doutrinas, porque este versículo é a conclusão de como tratar aquele que não querem se arrepender, uma vez que rejeita a voz da Igreja. Nesse caso será tratado como gentio ou publicano. Uma terceira passagem está em Tiago 5, 16: Confessai, pois, uns aos outros os vossos pecados e orai uns pelos outros para que sejais curados. O contexto indica que é nos momentos de doença em que o doente chama os presbíteros da Igreja para ser ungido e a oração da fé salvará o doente e o Senhor o porá de pé; e se tiver cometido pecados, estes serão perdoados (15). Uma quarta passagem é encontrada em 1 Jo 9: Se confessarmos os nossos pecados, ele (Deus) é fiel e justo de modo que demita nossos pecados e nos limpe de todas as maldades. Finalmente Pedro, à pergunta dos ouvintes, que devemos fazer, dirá: Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados (At 2, 18). Destes textos deduzimos: 1o) Que Cristo realmente tem poder para entregar sua autoridade como faculdade a ser exercida visível e externamente sobre os homens . 2o) Que pelo menos de duas formas desde os tempos apostólicos essa potestade era usada: no batismo e na doença. Temos como confirmação os casos de Ananias (At 5, 1-11) e do incestuoso de Corinto (1Cor cap 5) em que o pecado é retido e punido.

PARTE: SEGUNDA APARIÇÃO

OITO DIAS: E dentro de oito dias, de novo estavam dentro os discípulos dele e Tomé junto com eles. Vem o Jesus, trancadas as portas, e ficou de pé no meio e disse: paz convosco (26). Et post dies octo iterum erant discipuli eius intus et Thomas cum eis venit Iesus ianuis clausis et stetit in medio et dixit pax vobis. TOMÉ: Seu nome hebraico significa o mesmo que Dídimo em grego: gêmeo, como o evangelista João diz em 11, 16. Somente João dá alguns detalhes de sua presença entre os apóstolos. Vamos e morramos com ele dirá em Betânia do outro lado do Jordão (Jo 11, 16). Era um homem que não se acalma com meias verdades e quer saber o significado próprio das palavras: Senhor, não sabemos aonde vais, como vamos saber o caminho? (Jo 20, 14). Ele estava com os outros pescadores na beira do mar quando Jesus aparece aos sete discípulos que intentavam pescar (Jo 21, 2). Este último evento indica que Tomé era também de Betsaida, amigo de Pedro e de João. Seu desejo de conhecer a verdade foi sem dúvida a base para o chamado evangelho de Judas Tomé, o Gêmeo, que teve uma inusitada influência entre eruditos desde a descoberta de Nag Hammadi. Num programa de History Chanel o dito evangelho é tomado como mais antigo do que os evangelhos da cruz como apelidam os canônicos que retraem [não sei com  que critérios] até 40 ou mais anos após a morte de Jesus, ou seja, após o ano 70, ano da destruição de Jerusalém. Aproveito para dizer um fato incontestável: No capítulo 15 da primeira carta aos de Corinto temos em essência o evangelho: Transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as escrituras. Foi sepultado; ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas e depois aos doze (1 Cor 15, 3-5). Porém todos afirmam que esta carta foi escrita três anos após a visita de Paulo aos de Corinto, que sucedeu entre 52-53 de nossa era. Em definitivo 20 anos após a morte de Jesus. Podemos dizer com a mesma segurança que o evangelho de Tomé foi escrito antes desse evangelho básico dos primeiros cristãos? Porque o dito evangelho só é um evangelho em que Jesus é Mestre de Sabedoria e não redentor e vítima pelos pecados, que ressuscita no terceiro dia. Ou será que a dúvida de Tomé a respeito da ressurreição de Jesus se tornou certeza e por isso, só os ditos do mestre valiam a pena de serem escritos? A FÉ DE TOMÉ: Ela veio de uma visão direta do Ressuscitado: Estavam de novo reunidos, oito dias depois, os discípulos e desta vez estava Tomé com eles. De novo as portas estavam fechadas. Atravessar as paredes é um fenômeno que modernamente vemos como parte da parapsicologia e não do milagre. É o fenômeno chamado aporte, definido como aparições de objetos que atravessam obstáculos como paredes, muros e corpos opacos de todo gênero ou mesmo vindos de longe. Encontramos exemplos em Edivino A Friderichs no livro <Panorama da Psicologia ao alcance de todos> paginas 162-167. O aporte é um fenômeno físico comprovável e até certo ponto experimental, não porque saibamos as causas e possamos explicar o fenômeno em si, mas porque, sem truques, podemos observá-lo e pode ser objeto das experiências de nossos sentidos, ou seja, da ciência experimental. Ora bem: se não sabemos explicar um fenômeno que acontece sem outra intervenção aparente que a mente humana, e não podemos duvidar de sua existência, como poderemos afirmar que o que a ciência não explica não pode existir como realidade e será, portanto fantasia, mito ou crendice? O aporte também? A ciência moderna desvendou muitos mistérios, mas também descobriu muitos mais ainda por explicar, que antes eram desconhecidos. Estamos entre a luz e as trevas. Não podemos negar a existência da lua por termos nascido cegos; portanto não podemos negar muitos fatos que acontecem ou podem acontecer por não tê-los visto. Entre eles os milagres, que não são de séculos muito distantes sem testemunhas contemporâneas; mas que contêm testemunhos oficiais desde o momento de sua realização, como o caso do coxo de Calanda. Por que não aceitá-los? A INCREDULIDADE: Não é só a de Tomé, donde vemos que não era suficiente a afirmação de seus condiscípulos e amigos. Era um cabeçudo, que só podia crer em semelhante acontecimento que ultrapassava seu íntimo convencimento, vendo e tocando por seus próprios olhos e suas próprias mãos. Não aceitava testemunhos imparciais, mesmo amigos, que por outra parte nada tinham a ocultar e nenhuma vantagem em afirmar. Tomé é o símbolo e o tipo de muitas pessoas modernas que não negam a evidência, mas que, como os antigos fariseus, atribuem ao acaso e a insuficiência científica hoje em dia, explicações que requereriam uma causa transcendente. Isso porque os levaria a retratar suas convicções e humilhar suas pretensas certezas. Como Tomé, são capazes de repetir: Se eu não vir, se eu não tocar não posso crer (Jo 20, 25)

A RENDIÇÃO: Depois diz a Tomé: traz teu dedo aqui e vê minhas mãos e traz tua mão e introduz no meu lado e não te tornes incrédulo mas fiel (27). Deinde dicit Thomae infer digitum tuum huc et vide manus meas et adfer manum tuam et mitte in latus meum et noli esse incredulus sed fidelis O ato de Jesus foi de uma delicadeza total: Um milagre só para que seu discípulo pudesse crer. A fé que, segundo João, nasce da vontade do Pai e consiste em ver o Filho e nele crer para obter a vida eterna e ser ressuscitado no último dia (6,40) foi dada a Tomé como um verdadeiro presente, devido à sua oração [de Jesus]: por eles te rogo pelos que me deste, porque são teus (17, 9) de modo que não se perca nada do que ele me deu, mas o ressuscite no último dia (6, 39) a não ser o filho da perdição (17, 12). Tomé se rende ante a evidência. A dúvida de Tomé é também para nós um esclarecimento de que hoje podemos tirar uma ideia esclarecedora: o lado de Jesus está aberto. Esse lado onde brotou sangue e água (19, 34) ainda está aberto. Porque é aquele Jesus Cristo que veio por meio de água e sangue (1Jo 5, 6). Porque são três os que testemunham na terra: O Espírito, a água e o sangue; e os três a um [só objetivo] se unem (1 Jo 5, 8). É o lado da morte que se torna fonte de vida para nós: de perdão pela água do batismo e de vida pelo sangue da Aliança, que representa a vida. Esse lado que se tornou  imagem, não da morte, mas da vida para os que o contemplam como vivo, mas crucificado. Duas são as expressões do primitivo cristianismo que hoje apelam a nossa fé: Jesus é o Senhor e ele é o Crucificado. E podemos contemplar, como João mostra, o Crucificado como o traspassado, que exige de nós água e sangue, Batismo e Eucaristia. Água que lava o pecado e o sangue como aspergido desde a cruz à semelhança do que acontecia no AT no dia do Yom Kippur em que o sangue do bode era aspergido sobre o altar. Atualmente entre os judeus modernos é o dia da reconciliação, dia em que se deve estender ao inimigo a mão da reconciliação, esquecer as ofensas recebidas e desculpar-se pelas feitas aos outros. Este ofício da expiação, na epístola aos Hebreus, no capítulo 9, tem uma perfeita réplica no NT com o Crucificado como vítima de expiação.

MEU SENHOR E MEU DEUS: Então responde o Tomé e disse-lhe: O Senhor meu e o Deus meu! (28). Respondit Thomas et dixit ei Dominus meus et Deus meus. É a palavra da fé mais vibrante e mais pessoal. Que mais poderíamos dizer da figura de Jesus que é Deus e, portanto Senhor, e que melhor de sua relação conosco que declará-lo meu como uma possessão tão pessoal como íntima? Entramos dentro da divindade e nos deixamos impregnar de sua transcendência. Por isso, a Igreja não encontrou outra melhor expressão de fé através dos séculos que esta de Tomé: Meu Senhor e meu Deus!

BEMAVENTURADOS: Diz-lhe o Jesus:porque me viste, Tomé, tendes acreditado. Ditosos os que não vendo e acreditaram (29). Dicit ei Iesus quia vidisti me credidisti beati qui non viderunt et crediderunt. A Bênção é para todos os que, sem terem visto, não obstante creem. Sem dúvida que Deus e Jesus, como fiel seguidor de seus planos, escolhem o melhor caminho para a fé. Não é a submissão a uma aparição sobrenatural, mas a um fato não experimentado e difícil de acreditar, portanto. Sobre as conclusões da ciência, sempre experimentais, e sobre a lógica da razão sempre humana, está o poder divino e a coerência de quem  aceita a palavra como norma de vida. Se confessares com tua boca que Jesus é Senhor e creres em teu coração [mente] que Deus o ressuscitou dentre os mortos serás salvo (Rm 10, 9). Esta é a Bênção que Jesus promete aos que nele crêem, sem terem visto.

MUITAS OUTRAS COISAS: Porém estas estão escritas para que acrediteis que o Jesus é o Cristo o Filho do Deus e para que crendo tenhais vida em seu nome (31). Haec autem scripta sunt ut credatis quia Iesus est Christus Filius Dei et ut credentes vitam habeatis in nomine eius. Com esta frase João declara que seu evangelho tem o defeito de toda obra humana: a limitação. Porque apesar de ser inspirada também tem características de obra humana como estilo, língua e métodos. João não pretendia escrever tudo, mas aquelas coisas que eram mais apropriadas a sua finalidade: Para que os leitores creiam que Jesus é o Ungido [Messias], o Filho do Deus [verdadeiro] e para que crendo tenhais vida em seu nome(31). Com isso se cumpria a declaração de Jesus a Marta: Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que morra viverá e quem vive e crê em mim jamais morrerá. E ele poderá perguntar a cada um de nós como a Marta: Crês nisso? (Jo 11, 25-26).

PISTAS:
1) O relato de João é simples; as circunstâncias não são barrocas nem fantasiosas, mas completamente naturais, com a exceção da figura de Jesus que foge à compreensão humana e lógica dos acontecimentos que chamamos naturais. Será um fantasma? Será um sonho? Por isso, João diz que Jesus mostrou suas chagas: era o crucificado. Durante 40 dias será visto, sempre de improviso, e aparecerá quando a necessidade ou a oportunidade o recomendem. É Jesus e não os apóstolos quem comanda a visão. Foi visto [opthé] como quando sem a vontade humana o sol aparece de manhã no horizonte. Um pouco diferente é a visão que dele temos pela fé: Não submetidos a uma evidência, mas passando da palavra à visão, para nesta encontrar o Amor.

2) Uma nova relação surge entre Jesus e seus discípulos: Os pecados podem ser perdoados e o saberemos ao escutar a palavra de perdão, como sabemos o fim de um julgamento ao escutar a sentença definitiva de um juiz. A paz reina de novo entre céu e terra.  Tudo é fruto de uma entrega, a de Jesus, que termina em sacrifício, o mais humilhante e bárbaro de toda a antiguidade. A cruz agora é salvação e o sofrimento tem essas suas mesmas qualidades: entrega e sacrifício. E Ele embora seja ainda o crucificado, se tornará Senhor e se tornarão benditos todos os que, sem tê-lo visto, acreditem que está vivo e que como Senhor da morte é também Senhor da vida.

3) A fé não é um produto do raciocínio e da lógica científica após laboriosa investigação. Um e outra não levam à fé, mas sugerem a dúvida. A fé é um dom de Deus que propõe vida após a morte, perdão após o pecado. Porém a nossa fé está baseada no testemunho dos que o viram e ouviram como ressuscitado. Pois a fé provém da pregação (Rm 10, 17). Ou seja, está avaliada por uma tradição que se tornou anúncio e escuta; tradição inicial como de origem apostólica. Na base, pois, da fé está a tradição antes do que a palavra escrita.

4) O evangelho, como livro ou Escritura, nasceu de um testemunho que foi escrito, uma vez ouvido. E tanto valor tem essa escrita quanto mais fiel é ao testemunho que recolhe e que ouviram os anunciados. A Escritura foi e ainda é tradição, enquanto esta a interpreta com a autoridade de quem primeiro a ouviu como palavra. E como livro, a palavra é sempre limitada, por não poder explicar-se a si mesma e por não conter tudo o que poderia ter sido ouvido e escrito. Como diz João nesta primeira conclusão, seu livro não tem outra finalidade além da fé. Seu livro estará mais completo com os outros livros que chamamos evangelhos.

5) Por ser uma passagem para a fé não deverá ser lido com curiosidade, nem como uma história em que buscamos tempo, lugar, circunstâncias  e detalhes que são de interesse humano, mas como fundamento da fé; desta buscamos conhecimentos que devemos aceitar como verdades divinas: como devemos pensar diante dos grandes problemas da vida, como passar da fé ao amor para ajustar nossa vida, porque encontramos diante de nós a figura do ressuscitado como Senhor e Deus da nossa vida.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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