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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 12/03/2017 - 2º Domingo da Quaresma
. Evangelho de 05/03/2017 - 1º Domingo da Quaresma


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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12.03.2017
2º DOMINGO DA QUARESMA— ANO A
( Roxo, Creio, Prefácio Próprio – II Semana do Saltério )
__ "E da nuvem uma voz dizia: Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!" __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Cada ano, o segundo domingo quaresmal nos traz o evangelho da Transfiguração, no início da subida de Jesus a Jerusalém, onde levará a termo a vontade do Pai. Acompanhamos Jesus no seu caminho. Para que não desfaleçamos em nossa fé, faz-se necessário que tenhamos diante dos olhos a glória daquele que será aniquilado, o Filho e Servo de Deus. Por isso, a Aliança com Deus nos compromete, levando-nos a denunciar todo e qualquer tipo de exploração contra a vida, como nos chama a atenção a Campanha da Fraternidade deste ano. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, e a receber de Cristo nossa vocação, para caminhar atrás dele até a glória, passando pela cruz.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Irmãos e irmãs, neste dia do Senhor e no tempo da Quaresma, a Liturgia transforma este lugar em que estamos no monte Tabor. Com os apóstolos, chegamos até aqui para experimentar a manifestação gloriosa do Senhor. Tendo vencido as tentações, o Senhor, transfigurado, revela sua identidade de Filho de Deus. É essa também a nossa identidade concedida pela graça do Batismo. Rendamos graças ao Pai, por Jesus, na força do Espírito Santo.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Revelar-nos ao outro é um ato de confiança, porque lhe dá poder para intervir sobre nós, e partilhar a mesma vida como acontece na amizade e no matrimonio é deixar que seja envolvida toda nossa existência.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo, da Caridade, do Jejum e da Oração, preparemo-nos para a Páscoa do Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Gn 12, 1-4a): - "Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar."

SALMO RESPONSORIAL (32/33): - "Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa salvação!"

SEGUNDA LEITURA (2Tm 1, 8b-10): - "Jesus Cristo não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho."

EVANGELHO (Mt 17,1-9): - "Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!"



Homilia do Diácono José da Cruz – 2º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

"O AMOR QUE TRANSFIGURA"

Para quem não conhece, o Monte Tabor onde teria ocorrido a transfiguração de Jesus, é uma alta colina localizada no Leste do Vale de Jizreel, 17 km a oeste do Mar da Galiléia e o seu topo está a 575 metros acima do nível do mar. Entretanto, não se pode afirmar com absoluta certeza, que essa referência geográfica no episódio da Transfiguração do Senhor, é verdadeira, principalmente quando se sabe, que o evangelista São Mateus escreveu para os Judeus e sempre há em seus relatos, uma forte relação entre Jesus Cristo e Moisés. De qualquer forma o texto nos revela que os discípulos Pedro, Tiago e João, fizeram essa profunda experiência, onde Jesus lhe revelou a sua Divindade. Não é por acaso que na narrativa de Mateus, aparecem ao lado de Jesus o Libertador Moisés e Elias, uma das maiores referências como profeta do Antigo Testamento, é uma catequese que tem como pano de fundo o Judaísmo, comprovando que Jesus é de fato io Messias, aquele que havia sido prometido na Escritura Antiga, e até prefigurado em alguns personagens da História de Israel. A partir de agora, a humanidade não irá mais precisar da Lei e dos Profetas, Jesus não trouxe uma nova Lei ou Aliança, Ele próprio é a Nova Aliança, aquele que de modo único e excelente nos revela o Pai.

Mas o que esse fato refletido no evangelho pelas comunidades de Mateus, tem a ver com a realidade das nossas comunidades cristãs? Sabemos que Jesus é Nosso Deus e Senhor, mas quais as consequências que esta Fé traz em nossa vida? A cada domingo, Dia do Senhor, Jesus convida todos os cristãos a “subirem a montanha”, isso é, a fazerem essa “ascese” nas nossas celebrações. Embora humana, com uma Liturgia que comporta elementos culturais, cada celebração é envolvida pelo Mistério de Deus, como a nuvem que desceu sobre a montanha.

No ambiente celebrativo de nossas igrejas cristãs, de muitos modos Jesus manifesta a glória da sua Divindade, mas de modo excelente na Eucaristia e na Palavra, onde mediante a Fé, podemos sim contemplar a sua glória, sentir a sua presença a conduzir, animar e alimentar os seus, em comunhão com Ele em torno de uma mesa que é a Mesa da Palavra ou da Eucaristia. Moisés e Elias são uma referência importante para todos nós, não como meros personagens históricos, mas como homens que fizeram a experiência de Deus, enquanto anunciadores de uma Libertação que em Jesus atinge a sua plenitude e transcende o meramente histórico, libertando-nos do mal do pecado. O profetismo de Elias anuncia a Palavra Libertadora, o homem nasceu para ser livre, mas a sua liberdade está em Deus, que não permanece impassível diante do sistema opressor que não considera o dom da Liberdade, por isso, a Palavra libertadora se faz ação em Moisés deus vê, ouve, desce e liberta o seu povo. Jesus eleva essa liberdade á sua plenitude, concretizando as promessas de Deus nesse sentido.

O entusiasmo de pertencer a uma comunidade cristã, o privilégio de poder fazer essa experiência com os irmãos e irmãs nas celebrações dominicais, pode nos levar a cometer o mesmo erro de Pedro: o de querermos permanecer apenas na dimensão celebrativa- contemplativa, acomodar-se na Mística e fazer da experiência com Cristo algo muito particular, é esse o significado de querer fazer tendas, e de fato muitos fazem, isolando-se na comunidade ou no seu grupo ou pastoral, achando que a vivência cristã se resume apenas nessa experiência religiosa.

Quando contemplamos a Divindade de Jesus e ficamos só nisso, sentimos medo, porque é impossível compreender um Deus revestido de glória, encarnado em nossa miséria humana. O Sagrado sempre e Sagrado sempre exerceu essa ambiguidade sobre o homem, o encanta, o atrai e fascina, mas também causa medo, quando se está diante do Mistério. Mas Jesus, que tocou nos discípulos, toca também em cada membro da comunidade: “Levantai-vos, não tenhais medo”. E ao descer da montanha, só vêem Jesus caminhando com eles pela encosta da montanha. Eis aqui o grande desafio, vermos Jesus no irmão ou irmã da comunidade, que caminha com a gente, perceber esse Deus extremamente humano, percorrendo nossos mesmos caminhos,, sem nunca deixar de ser o “Outro”, o Transcedente.

E assim, pela sua encarnação recebemos a Graça Divina, e podemos nos abrir para que o Espírito Santo nos renove, nos transforme e nos transfigure no dinâmico processo da conversão, e diferente dos apóstolos Pedro, Tiago e João, ao término da celebração, quando descemos da “montanha”, somos enviados para proclamar bem alto as maravilhas de Deus, a darmos testemunho do evangelho, mostrando que somente na Ressurreição do Senhor encontramos o sentido para a nossa vida terrena.

Derrubemos, portanto, as tendas do nosso comodismo, de uma Fé desvinculada da Vida, nesse segundo domingo da quaresma, e como o Patriarca Abraão, coloquemo-nos á caminho dessa Terra das Promessas, onde cada homem e cada mulher, vivendo em Deus, atingirá a felicidade em seu sentido mais pleno, irradiando em si, a mesma luz fulgurante do Cristo, Homem Deus e Deus Homem, o novo Moisés que nos conduz com segurança a esta terra, cuja estrada passa exatamente na experiência humana, estrada que nosso Deus feito homem também percorreu, e que nos conduz á glória de uma Vida em comunhão definitiva com Ele, que em Cristo nos aceitou também como “Filhos e Filhas, em quem Ele põe todo o seu agrado”. ( 2º Domingo da quaresma MT 17, 1-9)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 2º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

Transfiguração da vida

É mais fácil reconhecer a presença de Deus quando tudo vai bem, difícil é reconhecê-la quando as coisas vão mal. Nesses momentos, parece que Deus não ouve, não atende, não liga para nós. São momentos nos quais a nossa fé é provada, a nossa virtude pode ser evidenciada e os frutos podem amadurecer.

Ao olharmos um pouco o contexto do Evangelho da Transfiguração, observamos que Jesus tinha anunciado aos seus que “é necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que seja levado à morte e ressuscite ao terceiro dia” (Lc 9,22; cf. Mt 16,21); que ele tinha falado também que se alguém o quisesse seguir que tomasse a cruz (cf. Mt 16,24); por outro lado, alguns discípulos esperavam um messias político que vencesse pela força de um exército dominador o poder dos romanos, de cujo jugo desejavam ver-se livres.

Tendo em conta tudo isso, podemos dizer que os discípulos encontravam-se bastante desnorteados e até mesmo desanimados. A transfiguração do Senhor é um consolo. De fato, dizia São Leão Magno que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz”; trata-se de uma “gota de mel” no meio dos sofrimentos. A transfiguração ficou tão gravada na mente dos três apóstolos que estavam com Jesus que anos mais tarde São Pedro lembrar-se-ia deste fato na sua segunda epístola: “Este é o meu filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto”. Esta mesma voz que vinha do céu nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo” (2 Ped 1,17-18).  Ele, Jesus, continua dando-nos o consolo – quando necessário – para podermos continuar caminhando e para que nunca desistamos. É preciso que façamos muitos atos de esperança, uma virtude muito importante para todos os membros desse estado da Igreja que nós chamamos de “militante”. Somos os que combatem e somos combatidos, a nossa força vem do Senhor, nele nós esperamos.

Vale a pena seguir alguém que vai morrer na Cruz Uma pergunta semelhante pôde ter passado pela mente dos discípulos do Senhor como também pôde ter passado alguma vez pela nossa, quiçá formulada de outra maneira. O Papa Francisco, mais do que lembrar-se do escândalo da cruz, aproveita-o desde a perspectiva da pobreza de Jesus, que mostra o “estilo de Deus”, que “não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez conosco” (Francisco, Mensagem para a Quaresma de 2014). Aproveitemos a cruz de Jesus com toda a sua pobreza para crescermos em generosidade nessa Quaresma.

Quando passarmos por provas espirituais difíceis, quando parecer que Deus não nos ouve, que ele está longe de nós, que muda de planos e que “não está nem aí” para os meus planos, lembremo-nos do despojamento do Senhor. Os discípulos de Jesus têm uma sensação semelhante diante do anúncio da Paixão e do seguimento exigido por Jesus: encontravam-se diante de um projeto que eles não tinham imaginado. E agora, vale a pena Vale a pena, discípulos de Cristo Você que lê esse texto: vale a pena? Hoje em dia, você e eu só estamos no serviço do Senhor porque aqueles primeiros viram que valia a pena. Nós também, pessoalmente, vimos que vale a pena e estamos com Jesus.

Os discípulos da transfiguração são os mesmos do Monte das Oliveiras, os da alegria são também os da agonia. É preciso acompanhar o Senhor em suas alegrias e em suas dores. As alegrias preparam-nos para o sofrimento e o sofrimento por e com Jesus dá-nos alegria. Os discípulos, que estavam desanimados diante do Mistério da Cruz, são consolados por Jesus na transfiguração e preparados para os acontecimentos vindouros, como, por exemplo, o terrível sofrimento que Ele padecerá no Getsêmani. Vale a pena segui-lo Certamente.

Animemo-nos, irmãos e irmãos, a nossa pátria é o céu. Para o povo de Israel estar em qualquer lugar que não fosse Jerusalém era estar exilado, fora da pátria; para o cristão, todo este mundo é um exílio, já que a sua pátria é o céu, para lá se encaminha. Mas, paradoxalmente, qualquer lugar neste mundo é para o cristão uma pátria, pois sabe que está no mundo que é propriedade do seu Pai do céu. O nosso desejo de eternidade não anula as nossas responsabilidades para com esse mundo tão amado por Deus e por cada um de nós. Jesus mesmo mostra aos seus discípulos que deve ser assim quando, diante da proposta de Pedro para fazerem três tendas no monte Tabor, desce para continuar junto com eles a sua missão evangelizadora.

Quanto à transformação do mundo que nós, discípulos missionários, somos chamados a realizar, é bom começar “a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. (…) Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana” (Francisco, Mensagem para a Quaresma de 2014). Desde o meu ambiente de trabalho, familiar, desde os meus círculos de amizade… Quais são as vias de apostolado e de promoção dos irmãos que eu posso abrir?

Tendo presente o que foi dito, alguns propósitos concretos para este domingo poderiam ser: trabalhar com desejos de eternidade, olhar as tribulações e contrariedades como uma benção santificadora do Senhor, fazer muitos atos de esperança (“Senhor, eu espero em ti”), pensar muitas vezes durante o dia na presença de Deus junto a nós em todos os momentos, viver na certeza de que nós podemos sempre falar com Deus. Ele é nosso Pai. Além disso, pergunto-me com o Papa, o que eu posso fazer pelos outros? Façamos penitencias que não penitenciem os outros. Talvez seja esse um bom programa para pensarmos mais nos outros e menos em nós. Quem sabe, a partir desse pequeno propósito, o Senhor nos inspirará outros para promover os mais pobres?

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Doutrina e Apologética / e Comentário Exegético para o 2º Domingo da Quaresma - Ano A (mais abaixo)

Caríssimos Irmãos e Irmãs,

Transcrevo abaixo mais um texto de Doutrina da Santa Igreja, extraído do site http://www.presbiteros.com.br, bastante interessante para Grupos de Estudo Bíblico.

Vejam também a página Roteiro Homilético para um maior entendimento da liturgia deste domingo. ATENÇÃO: a página Roteiro Homilético fica no site apenas durante esta semana; não guardamos arquivo dela, portanto, se desejarem guardá-la devem salvar a página ou imprimí-la.

Desejo a todos uma Santa e Feliz Semana, na Graça de Deus Pai.

Dermeval Neves
Webmaster - NPDBRASIL

É bom fazer promessas?

Em síntese:  O presente artigo analisa a prática das promessas feitas a Deus ou aos santos por pessoas desejosas de obter alguma graça. Tal prática tem fundamentado na própria Bíblia (cf. Gn 28,20-22; 1Sm 1,11). Todavia verifica-se que os autores bíblicos faziam advertências aos fiéis no sentido de não prometerem o que não pudessem cumprir (cf. Ecl 5,4). No Novo Testamento São Paulo quis submeter-se às obrigações do voto do nazireato (cf. At 18,18; 21,24). Estas ponderações mostram que a prática das promessas como tal não é má. É certo, porém, que as promessas não movem o Senhor Deus a nos dar o que Ele não quer dar, pois Deus já decretou desde toda a eternidade dar o que Ele nos dá no tempo, mas as promessas contribuem para afervorar o orante, excitando neste maior amor. Acontece, porém, que muitas vezes os cristãos não têm noção clara do porquê das promessas ou prometem práticas que eles não podem cumprir. Daí surgem duas obrigações para quem tem o encargo de orientar os irmãos: 1) mostre-lhes que as promessas nada têm de mágico ou de mecânico, nem se destinam a dobrar a vontade de Deus, como se o Senhor se pudesse deixar atrair por promessas, à semelhança de um homem; 2) procure incutir a noção de que o cristão é filho do Pai e, por isto, não precisa de prometer ao Pai; o amor filial com que o cristão reze a Deus, é mais eloqüente do que a linguagem das promessas, que podem ter um sabor “comercial” ou muito pouco filial.

Comentário: Entre os fiéis católicos não é raro fazerem-se promessas a Deus ou a algum santo,… promessas de algum ato heróico a ser cumprido caso a pessoa receba a graça que deseja. Em conseqüência, fala-se de “pagar promessas”. Não raro os fiéis que prometem, depois de atendidos, não têm condições físicas, psíquicas ou financeiras para pagar as suas promessas. Sentem-se então angustiados, pois receiam que algo de mau ou um castigo lhes sobrevenha da parte de Deus por não cumprirem as suas “obrigações”. O problema é tormentoso e merece ser analisado desde as suas raízes, ou seja, a partir do conceito mesmo de piedade que os fiéis cristãos devem alimentar. É o que vamos fazer nas páginas subseqüentes, examinando: 1) a fundamentação bíblica, 2) a justificativa teológica das promessas, 3) a casuística ocasionada, 4) uma conclusão final.

1. Fundamentação bíblica

O costume de fazer promessas ou, segundo linguagem mais bíblica, votos tem origem na piedade popular anterior a Cristo. É documentado pela própria Bíblia, que nos mostra como pessoas, em situações difíceis necessitando de um auxílio de Deus, prometeram fazer ou omitir algo, caso fossem ajudadas pelo Senhor. Foi, por exemplo, o que aconteceu com Jacó, que, ao fugir para a Mesopotâmia, exclamou: “Se Deus estiver comigo, se me proteger durante esta viagem, se me der pão para comer e roupa para vestir e se eu regressar em paz à casa de meu pai,… esta pedra… será para mim casa de Deus e pagarei o dízimo de tudo quanto me concederdes” (Gn 28, 20-22). Ana, estéril, mas futura mãe de Samuel, fez a seguinte promessa: “Senhor dos exércitos, se vos dignardes olhar para a aflição da vossa serva e… lhe derdes um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor durante todos os dias de sua vida e a navalha não passará sobre a sua cabeça”  (1Sm 1,11). Alguns salmos exprimem os votos ou as promessas dos orantes de Israel; assim os de número 65. 66. 116; Jn 2,3-9.

A própria Escritura, porém, dá a entender que, entre os membros do povo de Deus, houve abusos no tocante às promessas: algumas terão sido proferidas impensadamente: “É melhor não fazer promessas do que fazê-las e não as cumprir” (Ecl 5,4). Havia também quem quisesse cumprir as suas promessas oferecendo o que tinha de menos digno ou valioso em vez de levar ao Templo as suas melhores posses; é o que observa o Senhor por meio do profeta Malaquias: “Trazeis o animal roubado, o coxo ou o doente e o ofereceis em sacrifício. Posso eu recebê-lo de vossas mãos com agrado?… Maldito o embusteiro, que tem em seu rebanho um animal macho, mas consagra e sacrifica ao Senhor um animal defeituoso” (Ml 1, 13s). Com o tempo os mestres de Israel procuravam restringir a prática das promessas, pois podiam tornar-se um entrave para a verdadeira piedade. No Evangelho Jesus supõe que certos filhos se subtraiam ao dever de assistir aos pais, alegando que tinham consagrado a Deus todo o dinheiro disponível:

“Vós por que violais o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Com efeito, Deus disse: “Honra teu pai e tua mãe” e “Aquele que maldisser pai ou mãe, certamente deve morrer”. Vós, porém, dizeis: “Aquele que disser ao pai ou à mãe: Aquilo que de mim poderias receber, foi consagrado a Deus, esse não está obrigado a honrar pai ou mãe”. Assim invalidastes a Palavra de Deus por causa da vossa tradição” (Mt 15, 3-6).

Todavia não consta que o Senhor Jesus tenha condenado o costume de fazer promessas como tal; ao contrário, os escritos do Novo Testamento atestam a prática de S. Paulo, que terá sido a dos cristãos da Igreja nascente e posterior:

“Paulo embarcou para a Síria… Ele havia rapado a cabeça em Cencréia por causa de um voto que tinha feito” (At 18,18).

“Disseram os judeus a Paulo: “Temos aqui quatro homens que fizeram um voto… Purificar-te com eles, e encarrega-te das despesas para que possam mandar rapar a cabeça. Assim todos saberão que são falsas as notícias a teu respeito, e que te comportas como observante da Lei” (At 21, 23s).

Em síntese, a praxe das promessas não é má, pois a S. Escritura não a rejeita, mas, ao contrário, torna-se objeto de determinações legais, como se depreende dos textos abaixo:

Lv 7,16: “Se alguém oferecer uma vítima em cumprimento de um voto ou como oferta voluntária, deverá ser consumida no dia em que for oferecida, e o resto poderá ser comido no dia imediato”.

Nm 15,3: “Se oferecerdes ao Senhor alguma oferenda de combustão, holocausto ou sacrifício, em cumprimento de um voto especial ou como oferta espontânea…”.

Nm 30,4-6: “Se uma mulher fizer um voto ao Senhor ou se impuser uma obrigação na casa de seu pai, durante a sua juventude, os seus votos serão válidos, sejam eles quais forem. Se o pai tiver conhecimento do voto ou da obrigação que se impôs a si mesma será válida. Mas, se o pai os desaprovar, no dia em que deles tiver conhecimento, todos os seus votos… ficarão sem valor algum. O Senhor perdoar-lhe-á, porque seu pai se opôs”.

Dt 12,5s: “Só invocareis o Senhor vosso Deus no lugar que Ele escolher entre todas as vossas tribos para aí firmar o seu nome e a sua morada. Apresentareis ali os vossos holocaustos,… os vossos holocaustos,… os vossos votos…”

Verifica-se, porém, que a prática dos votos nem sempre é salutar, merecendo por isto advertências da parte dos autores sagrados.

2. Qual a justificativa das promessas?

É certo que as promessas não são feitas para atrair Deus como se atrairia um homem poderoso, capaz de ser aliciado por dádivas e “pagamentos”; Deus não muda de desígnio; desde toda a eternidade Ele já determinou irreversivelmente dar-nos o que Ele nos concede dia por dia. Todavia, ao determinar que nos daria as graças necessárias, Deus quis incluir no seu desígnio a colaboração do homem que se faz mediante a oração; com outras palavras: Deus quer dar…, e dará…, levando em conta as orações que Lhe fazemos. Sobre este fundo de cena as promessas têm valor não tanto para Deus quanto para nós, orantes; sim, as promessas nos excitam a maior fervor; são o testemunho e o estímulo da nossa devoção; supõe-se que quem promete e cumpre a sua promessa, exercita em seu coração o amor a Deus; ora isto é valioso. Por conseguinte, quem vive a instituição das promessas em tal perspectiva, pode estar fazendo algo de bom, pois concebe mais amor e fervor. Diz o Senhor no Evangelho, referindo-se à pecadora que lhe lavou os pés pecados lhe estão perdoados” (Lc 7,47). Paralelamente diríamos, pode estar-se abrindo mais plenamente à misericórdia e à liberalidade do Senhor Deus.

3. E a casuística das promessas?

Há pessoas que, depois de receber o dom de Deus, se vêem embaraçadas para cumprir as suas promessas, porque não têm condições de saúde, de tempo ou de bens materiais para executar o que prometeram.

Que fazer?

- Antes do mais, afastem a hipótese, às vezes comunicada por religiões não cristãs, de que, se não “pagarem as suas obrigações”, estarão sujeitos a graves desgraças; na verdade, Deus não é vingativo nem é policial que pune contravenções, mas é Pai…, de tal modo que pensar em Deus deve despertar no cristão sentimentos de paz, confiança e alegria. Isto, porém, não quer dizer que o cristão despreocupadamente deixe de cumprir as suas promessas. Quem não as pode executar, procure um sacerdote e peça-lhe que troque a matéria da promessa. Esta solução condiz com os textos bíblicos que, de um lado, exortam a não deixar de cumprir o prometido (cf. Ecl 5,3), e, de outro lado, prevêem a insolvência dos fiéis e a possibilidade de comutação dos votos (ou promessas) por parte dos sacerdotes:

“Se aquele que fizer um voto não puder pagar a avaliação, apresentará a pessoa diante do sacerdote e este fixá-la-á; o valor será fixado pelo sacerdote de acordo com os meios de quem fizer voto” (Lv 27, 8; cf. Lv 27,13s.18.23).

Poderá acontecer que, em certos casos, o padre julgue oportuno dispensar, por completo, de certa promessa o fiel cristão.

A propósito convém incutir que, se alguém quer fazer uma promessa, evite propor certas práticas que são um tanto irracionais (como ocorre na peça “O pagador de promessas”); procure, ao contrário, prometer práticas não somente exeqüíveis e razoáveis, mas também úteis à santificação do próprio sujeito ou ao bem do próximo. Não tem sentido prometer algo que outra pessoa deverá cumprir, como é o caso de pais que prometem vestir o seu filho “de São Sebastião” no dia da festa do Santo; esta prática como tal não fomenta o amor a Deus e ao próximo. Quanto aos ex-voto (cabeças, braços, pernas… de cera), que se oferecem em determinados santuários, podem ter seu significado, pois contribuem para testemunhar a misericórdia de Deus derramada sobre as pessoas agraciadas; assim levarão o povo de Deus a glorificar o Senhor; mas é preciso que as pessoas agraciadas saibam por que oferecem tais objetos de cera, e não o façam por rotina ou de maneira inconsciente. Entre as práticas que mais se podem recomendar, apontam-se as três clássicas que o Evangelho mesmo propõe: a oração, a esmola e o jejum (cf. Mt 6,1-18). Com efeito, a S. Missa é o centro e o manancial, por excelência, da vida cristã, vida cristã que se nutre outrossim mediante a oração; a esmola e a colaboração com o próximo recobrem a multidão dos pecados (cf. 1Pd 4,8; Tg 5,20; Pr 10,12); o jejum e a mortificação purificam e libertam das paixões o ser humano, possibilitando-lhe mais frutuoso encontro com Deus através dos véus desta vida. Se a prática das promessas levar o cristão ao exercício destas boas obras, poderá ser salutar. Requer-se, porém, que os pastores de almas e os catequistas instruam devidamente os fiéis a fim de que compreendam que as promessas nada têm que ver com as “obrigações” dos cultos afro-brasileiros, mas hão de ser expressões do amor filial e devoto dos cristãos ao Senhor Deus.

4. Conclusão

Como se vê, a prática das promessas pode ser fundamentada na própria Bíblia. Verifica-se, porém, que já os autores sagrados lhe faziam certas restrições. Hoje em dia nota-se que freqüentemente alimenta uma mentalidade religiosa “comercial” ou amedrontada e doentia, gerando facilmente o escrúpulo mórbido. Muitas pessoas se sobrecarregam com promessas e mais promessas que elas não conseguem cumprir; em vez de fomentar a vida cristã, as promessas a prejudicam não raras vezes. Por  isto é de sugerir que os cristãos reconsiderem tal costume, que de resto parece mais fundado numa concepção antropomórfica de Deus (concebido como o Grande Banqueiro, cuja benevolência é preciso cativar) do que na autêntica visão que o Cristianismo tem de Deus. Este é Pai, Aquele que nos amou primeiro, antes mesmo que O pudéssemos amar (cf. 1Jo 4,19.9s; Rm 5,7s); por conseguinte, somos seus filhos, certos de que o amor do Pai é irreversível ou não volta atrás, cientes também de que, antes que Lhe peçamos alguma coisa, Ele já decretou dar-nos tudo o que seja condizente com o nosso verdadeiro bem; diz São Paulo: “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não nos terá dado tudo com Ele?”  (Rm 8,32).

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 262 – Ano 1982 – Pág. 202.


Comentário Exegético – 2º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (2 Tm 1, 8b-10)

INTRODUÇÃO: A carta está dirigida a TIMÓTEO [=aquele que honra a Deus].Timóteo foi discípulo de Paulo, nascido em Listra [perto de Icônio, na Ásia Menor  central], circuncidado, de mãe  judia e pai pagão. Paulo encomendou-lhe as comunidades de Tessalônica, Macedônia e Corinto. Acompanhou Paulo a Jerusalém e, uma vez prisioneiro em Roma, necessitou da companhia de Timóteo. Após ser Paulo liberado, Timóteo o encontrou nas terras da Ásia Menor. Timóteo foi bispo de Éfeso. E ao denunciar uma festividade pagã, foi preso e morreu mártir. Ele é o receptor de duas cartas pastorais de Paulo, assim chamadas por tratar da organização eclesiástica, as obrigações do ministério e a unificação da doutrina e pautas que devem ser seguidas na administração das comunidades. Esta segunda carta a Timóteo tem sido chamada de testamento espiritual de Paulo. Foi escrita desde Roma, onde Paulo estava preso pela segunda vez, pouco antes de seu martírio. Chama Timóteo de meu caro filho e insiste em conservar a doutrina verdadeira intacta. Paulo se despede de seu discípulo enquanto espera a coroa do justo juiz que para ele está preparada. No trecho de hoje Paulo insiste na gratuidade de Deus e o sacrifício salvador de Cristo.

UMA PETIÇÃO: Sofre comigo com o evangelho segundo o poder de Deus(8b). Conlabora evangelio secundum virtutem Dei.SOFRE COMIGO: [synkakopatheson<4777>=conlabora] é o imperativo aoristo do verbo synkakopatheö, cujo significado é sofrer junto com, ser participante de uma aflição, junto à primeira parte do versículo, em que Paulo pede a Timóteo que não se envergonhe do evangelho, indica que, no seu tempo, os ministros do evangelho estavam sendo caluniados e perseguidos. Ordenado por Paulo como bispo de Éfeso é nessa ordenação que o poder de Deus deve ser achado, como fortaleza, caridade e prudência. O fato de Paulo estar na prisão era suficiente na época para se envergonhar de uma pessoa prisioneira da justiça. Daí o pedido do apóstolo para que Timóteo não se envergonhasse de quem aos olhos da justiça e do povo era um miserável, preso por algum crime indigno de um cidadão honesto.

A VOCAÇÃO: De quem nos salvou e chamou com vocação sagrada, não segundo as nossas obras, mas segundo seu plano e mercê  concedida a nós em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (9). Qui nos liberavit et vocavit vocatione sancta non secundum opera nostra sed secundum propositum suum et gratiam quae data est nobis in Christo Iesu ante tempora saecularia. E Paulo argui com uma prova irrefutável. A fortaleza, que deve robustecer todo prisioneiro do evangelho, provém de Deus; porque Ele chamou Paulo, salvando-o de sua intolerância e entregando-lhe um ministério como vocação sagrada [agia], que o ligava à divindade. VOCAÇÃO [klësis<2821>=vocatio] é um chamado, um convite, uma invitação, especialmente do chamado de Deus para adotar a salvação do Reino. Paulo não foi unicamente chamado para o Reino, mas sua vocação foi como ministro de Jesus Cristo (Rm 15, 16), do evangelho (Ef 3, 7 e Cl 1,23) e ministro do Novo Testamento (2 Cor 3,6). E Paulo reitera essa sua convicção de que foi um favor e uma mercê divina e não produto de méritos pessoais por boas obras, mas segundo os planos divinos que optaram por escolher em Cristo a salvação antes dos tempos perpétuos[pro chronön aiöniön]. O aiönios é adjetivo que significa sem fim, nem início.

A MANIFESTAÇÃO: Porém, manifestada agora através da presença de nosso Salvador Jesus Cristo, anulando certamente a morte, porém iluminando vida e imortalidade por meio do evangelho (10). Manifestata est autem nunc per inluminationem salvatoris nostri ça de Cristo Salvador Iesu Christi qui destruxit quidem mortem inluminavit autem vitam et incorruptionem per evangelium. Estes planos e desígnio de Deus são manifestados agora, no tempo de Paulo, pela presença de Cristo  como Salvador. Um dos efeitos de sua ação salvífica é a morte da Morte. Não anula sua ação imediata, mas por meio da imortalidade pregada no evangelho, a vida será a vencedora. A morte será o último inimigo a ser vencido (1 Cor 15, 16). De modo que o triunfo sobre a morte é uma das verdades básicas do evangelho que a proclama e ilumina.

EVANGELHO (Mt 17, 1-9)
A TRANSFIGURAÇÃO
(Lugares paralelos: Mc 9, 2-13; Lc  9, 28-36)

INTRODUÇÃO: Dentro da vida comunitária dos discípulos de Jesus, este momento da Transfiguração, como é chamado nas línguas vernáculas, é um fato especial. Os discípulos conviviam com um Mestre que era dotado de poderes extraordinários, como um profeta de Javé, mas não sabiam que ele era verdadeiramente o Deus conosco. E para esta experiência, Jesus toma seus discípulos mais íntimos, os três que foram sempre os chefes do grupo apostólico (Gl 2, 9) e as testemunhas de seu poder máximo de ressuscitar mortos (Mc 5, 37), mas também de sua fragilidade e temor diante dos sofrimentos e da morte em Getsêmani (Mt 26, 37). O fato de hoje é narrado pelos três sinóticos, sendo Lucas o mais independente entre eles, com mais detalhes ilustrativos, que apresentam o fenômeno como uma preparação para a paixão do Senhor.

DEPOIS DE SEIS DIAS: E depois de seis dias, toma Jesus o Pedro e Jacob e João, seu irmão, e os guia a subir, a um monte em extremo elevado, a sós (1). Et post dies sex adsumpsit Iesus Petrum et Iacobum et Iohannem fratrem eius et ducit illos in montem excelsum seorsum. Marcos e Mateus coincidem no tempo de seis dias, que são contados após a declaração de Pedro sobre o messiado de Jesus (Mt 13, 16). Após esta confissão, sabemos que Pedro não sabia nada sobre o verdadeiro ministério desse Messias que tão firmemente reconhecia. Podemos ver neste sucesso de hoje um outro reconhecimento, que tem como sujeito  o próprio Deus. Deus se confessa, seria o subtítulo deste episódio. Lucas determina a origem da contagem do tempo, mas o intervalo é indeterminado: Passaram, pois, após estas palavras [a declaração de Pedro e o primeiro anúncio de Jesus de sua paixão] como oito dias. Quanto à divergência sobre o tempo transcorrido, não existe uma solução matemática a não ser que a contagem seja uma semana e que o sábado entre dentro da mesma ou caia fora. Parece mais importante a ligação lógica do depoimento humano de Pedro com  o testemunho divino do monte, como se ambos estivessem ligados por um espaço de tempo breve. TOMA JESUS A PEDRO, A JACOB E A JOÃO: Mateus dirá que este último era irmão do anterior e Lucas coloca o nome de João antes do nome de seu irmão. Em todos os textos gregos o nome deste último é Iacobos. Este nome é o mesmo que Jacob do hebraico Ya`aqob  < 03290>em grego Iakwb <2384>. O nome português Tiago, deriva do latim que por sua vez é uma latinização do nome hebraico Jacó [suplantador] porque nascendo depois de seu irmão gêmeo Esaú o suplantou, por meio de um prato de lentilhas, como primogênito, herdeiro da herança do pai. Santo Iago na pronúncia romance tornou-se Sant’Iago e daí São Tiago, de onde derivou o moderno antropônimo em português e espanhol, Tiago. Por uma falsa etimologia derivou a palavra San Diego originando assim o nome de Diogo. Com o decorrer do tempo o nome evoluiu em diversas línguas mantendo-se como Jakob em alemão, Jacques em francês, e James em inglês. De Jacome nasce o Jame  ou Jaume  e finalmente o Jaime que prevalece nos romances orientais da península ibérica. Pedro é o novo nome dado a Simão, filho de Jonas por Jesus que Mateus narra em 17, 18 e que o quarto evangelista dirá será chamado de Kefas ( que quer dizer rocha) (Jo 1, 43). João, sabemos que é o irmão de Tiago e filho, portanto, do Zebedeu. Estes três discípulos foram os que Jesus escolheu para momentos especiais, como a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e a sua agonia em Getsêmani (Mc 14, 33). E OS FAZ SUBIR: Esta é a melhor tradução do grego anaferei  [levar para cima]. Indica que os chamou e pediu que o acompanhassem. A UM MONTE ALTO: Mateus nada  diz da geografia do monte nem do nome do mesmo. Só que era alto. A tradição aponta o Tabor como sendo o monte da Transfiguração. Realmente desde Cesaréia ao Tabor há uma distância de 80 Km, facilmente alcançável em seis dias. O Tabor  é um monte cônico, quase esférico,  se levanta solitário frente à planície de Esdrelon e se eleva 500m sobre o vale que o rodeia. Seu cume oferece uma plataforma de 1200 m de comprimento por 400 de largura. Pode ser alcançada após uma hora de caminhada; e, do seu cume, se contempla uma das paisagens mais grandiosas e contrastantes da Palestina. Os árabes o denominam de Jebel et Tur [ monte dos montes]. Segundo vários estudiosos o monte foi lugar de cultos idolátricos a Baal Sedek [o senhor da justiça]. Recentes escavações confirmam a existência de um templo dórico na montanha. É por essa razão que a bíblia proíbe subir aos montes para orar, pois eles estavam dedicados a divindades pagãs. No AT o livro de Josué coloca o Tabor como ponto de convergência dos limites de três tribos [Zabulon, Neftali e Issacar] (cp 19). Em muitas religiões as montanhas tinham um caráter sagrado. Os israelitas não foram exceção. Foi nos montes Sinai e Horeb que Jahveh apareceu a Moisés e a Elias. E serão precisamente estes dois antigos profetas que aparecem a Jesus num outro monte: o Tabor. No episódio de Débora (Jz 4 e 5 ), que sucedeu no arredores do monte Tabor, vemos como nesse monte existia um culto a Jahveh (4, 6), pois manda as tropas se reunirem no monte, não para lutar, mas para rezar antes da batalha. Porque era o monte em que o redator de Dt 33, 18-19 escreve como bênçãos de Moisés: Prospera Zabulon em tuas expedições e tu, Issacar em tuas tendas! Na montanha em que o povo se reúne para pregar, eles oferecem sacrifícios. Tabor era a única montanha em que ambas as tribos tinham uma fronteira comum. O Tabor era a montanha em que os madianitas mataram os irmãos de Gedeão (Jz 8, 18). Depois de Débora, o ídolo da montanha parece que foi restaurado porque as tribos do norte continuaram a praticar um certo sincretismo de culto, iniciado com Jeroboão (930-910). Debelada a idolatria por Elias, não parece que teve um êxito total e assim, o profeta Oseias na segunda metade do século VIII clama: Ouvi isto, sacerdotes! Atende, casa de Israel, …fostes um laço para Masfa e uma rede estendida sobre o Tabor (Os 5,1). Jeremias considera o Tabor junto com o monte Carmelo como símbolos de preeminência, comparando a superioridade de Nabucodonosor  como era a do Tabor entre as montanhas e o Carmelo sobre o mar (48, 18). Finalmente no salmo 89 : Tabor e Hermon se rejubilam a teu nome [Javé] (versículo 13). Não era um monte qualquer. Era um monte com uma tradição javista particular, que tinha sido retomada após um parêntese de sincretismo idolátrico. Jesus quer com sua  escolha, mostrar um paralelismo exemplar com Moisés e Elias. À PARTE, SÓS: Lucas acrescenta para orar. Destaca Marcos a eleição e a particularidade de estarem os quatro sós, fora de qualquer outra pessoa que pudesse ser tomada como visão acompanhante a Jesus. À parte de serem os mais íntimos de Jesus, todos os três receberam apelidos com os quais seriam conhecidos pela primitiva igreja. Simão [=famoso] seria Kefas[=rocha] ou Pedro, e os dois filhos do Zebedeu [=Javé deu] seriam batizados por Jesus como Boanerges [filhos do trovão] (Mc 3, 17) ou filhos da voz de Deus, voz de vingança como diz I Sm 2, 10. Provavelmente foram assim denominados por quererem que o fogo descesse sobre uma aldeia de samaritanos, como vingança divina, por não quererem  hospedar o colégio apostólico, já que este ia a caminho de Jerusalém. Nesta perícope serão testemunhas especiais da divindade de Jesus, que sempre acompanha o Filho de Homem, que, na realidade, é Filho do Deus (vivo). É por isso que Pedro poderá afirmar: Não foi segundo fábulas sutis [as contadas nas mitologias de gregos e romanos], mas por termos sido testemunhas oculares de sua majestade que vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus  Cristo ( 2 Pd 16). Contrariamente ao que ordenavam a lei e o costume judaico, Jesus sobe ao cume de um monte alto. Não era para sacrificar, mas para estar a sós, já que essa região era como se fosse proibida e não se esperava que a multidão estivesse lá. Era o medo aos Bamá, os lugares cúlticos nos cumes dos montes, como em 1 Samuel 9, 13, em que os setenta retêm a palavra BAMÁ, onde se celebravam os banquetes rituais após os sacrifícios. Eram lugares, onde a deusa feminina da fertilidade, Asherá, estava representada por um poste de madeira e a divindade masculina ou Matsebá por uma ou duas colunas que a simbolizavam (2Rs 3,2), à semelhança dos totens indígenas. Seriam as duas colunas, Jokin (ele estabelecerá) e Boaz (em força) (2 Cr 3, 17), que estavam diante da porta do templo de Salomão, uma representação de Javé, como Deus masculino? Em Levítico 26, 30, Deus diz: ¨Destruirei seus bamoth¨. Antes da monarquia os lugares altos eram lugares de culto a Javé, como vemos em Samuel, no lugar antes citado. Depois da construção do templo por Salomão, os lugares altos representavam o envolvimento pecaminoso em cultos pagãos. Salomão construiu lugares altos para agradar suas mulheres (1Rs 11,7), que só 300 anos depois, na época  de  Josias,  foram  destruídos (2Rs cap 23).  Jeremias ( Jr 19, 5) afirmará  que  as Bamoth [plural de bamá], que nos seus dias eram lugares de sacrifícios humanos, constituíram parte da razão da catástrofe de Jerusalém, ao ser conquistada por Nabucodonosor em 586 aC. Os samaritanos adoravam no monte Garizim (Jo 4, 20). Jesus, que repudiou o uso mercantil do templo, acostumava orar no alto das montanhas (Mt 5, 1).

A METAMORFOSE: E foi transfigurado diante deles e brilhou a sua face como o sol e também suas roupas tornaram-se brancas como a luz (2). Et transfiguratus est ante eos et resplenduit facies eius sicut sol vestimenta autem eius facta sunt alba sicut nix. A palavra empregada por Mateus é metermorföthe <3339>  derivado de meta [entre ou indicando uma transferência ou seqüência] e morphóö [formar, modelar adaptar], indicando uma transformação do sujeito de maneira permanente, à diferença de metaschêmatizo, mudar ou modificar o aspecto de modo temporal. Metemorphöthe é também a palavra usada por Marcos. Lucas, porém, usa uma outra maneira de descrever o fenômeno da transfiguração: e aconteceu ao estar ele orando, a aparência de seu rosto, outra ( Lc 9, 29) [A tradução é o mais literal possível].  Marcos diz: E foi transfigurado na sua presença. A voz passiva do verbo indica uma ação divina. E, segundo o mesmo evangelista, a transformação ou transfiguração deu-se na presença dos três discípulos. A vulgata traduz transfiguratus est que as vernáculas traduzem por foi transfigurado, ou mudou de aspecto. A palavra grega significa uma mudança de forma  ou de ser. O que podemos deduzir dos evangelistas é que a transformação do corpo de Jesus foi completa, tendo como base ou causa a oração, segundo Lucas. DESCRIÇÃO DO FENÔMENO: A) O ROSTO [prosopon]. O grego de Mateus, lampö <2989>, significa emitir luz, brilhar. Segundo o trecho de hoje, em Mateus, essa luz era como a do sol. Marcos usa o verbo stilbö, do qual temos o particípio stilbonta, indica brilhar, de modo que o planeta Mercúrio era chamado stilbontes, o brilhante. Lucas dirá que o aspecto do seu rosto era outro (9, 29). De tudo isso, podemos afirmar que o corpo de Jesus foi transformado em corpo de luz [doxa <1391> grego, gloria latino, que se traduz em claritas em Lc 2, 9 ou majestas em 9, 31], como diz Paulo dos ressuscitados, após falar dos diversos brilhos dos corpos, tanto celestes como terrestres (1 Cor 15, 40), e que no caso dos ressuscitados serão reluzentes de glória (1 Cor 15, 43). Essa glória [doxa ou majestas] é o resplendor com o qual foram vistos os dois personagens que apareceram junto a Jesus e do qual ele também participava (Lc 9, 31-32), pois segundo Mateus, seu rosto brilhava como o sol. Essa doxa da qual  Pedro dirá que o temos visto em todo seu esplendor (2 Pd 1, 16). Essa mesma doxa,  majestas, ou resplendor, era a que os israelitas viram no rosto de Moisés [dedoxasmenê ê opsis, resplandecente a aparência] após sair este da tenda onde se comunicava com Jahveh (Êx 34. 30). O texto original usa o verbo [kâran, que significa emitir chifres e, simbolicamente, emitir raios de luz] como vemos na famosa estátua de Moisés de Miguel Ângelo. A tradução inglesa NIV (New International Version), muito fiel aos textos massorético e grego, diz: his face was radiant [sua face estava radiante]. É o que os evangelistas dizem sobre Jesus e os dois personagens que com ele estavam. Os chifres eram símbolo da divindade, porque era nos animais, o touro, a força, o poder, que se atribuíam aos deuses. E se, como em Moisés, eram resplandecentes, o caso não admitia dúvidas. Era o poder divino que era transmitido a Moisés no decurso de sua conversa com Yahveh no tabernáculo. Não esqueçamos isto, que comentaremos mais tarde. B) OS VESTIDOS, [ himátia<2440> , vestimenta, vestidos ou garments], são os vestidos em termos gerais, embora, como particularidade, se usa também no lugar do clamis, clâmide militar  ou manto em geral.  Mateus dirá que se tornaram brancos como a luz (17, 2) e que a Vulgata traduz como a neve. Tomado de Marcos, 9, 3: E suas vestes tornaram-se brilhantes, extremamente brancas como neve, como nenhum alvejante da terra poderia branquejar. Lucas fala do vestuário no sentido de sua vestimenta, branca reluzente (9, 29). A tradução da Vulgata de Mateus [como a neve] é errônea do ponto de vista literal, mas conforme a realidade porque a luz não tem cor.  Vamos explicar o alvejante de Marcos. Traduzido por fullo latino [pisoeiro], ou seja, o artesão que na base de golpes [no século XVIII substituído por uma máquina], desengraxava e amaciava os panos para depois serem alvejados com um alvejante, que recebe em inglês o nome de fuller´s earth, à semelhança do conjunto de cinzas que como lixívia [ou barrela], usavam nossas avós. Poderíamos traduzir o pisoeiro [espanhol bataneiro] sobre a terra, pelo fuller’s earth inglês e, portanto, alvejante, não o de uma pessoa mas o de um material, como era a lixívia? Sem dúvida. O outro evangelista, Lucas diz que sucedeu que a aparência de seu rosto ficou outra e sua veste brilhou de brancura. Assim era a cor das vestes dos anjos do sepulcro (Lc 24, 4). O branco era a cor da vitória sobre o pecado (Is 1, 18), a veste dos vencedores do cordeiro (Ap 6, 11), a cor do cavalo vencedor (Ap 6, 2), diferente da cor preta da fome (Ap 6, 5), ou esverdeada da morte (Ap 6, 8). Como curiosidade podemos relatar que era também a cor da túnica dos aspirantes a um cargo público, com ela como vestido, se indicava a ausência de corrupção dos chamados, por isso, candidatos [=que vestiam uma veste cândida ou branca]. Tudo isto indica que estamos numa nova dimensão da vida de Jesus. Do Jesus terreno, homem igual a nós, passamos ao Jesus celeste, fonte de luz como dirá o evangelista João (1, 9), com toda probabilidade uma das testemunhas da transfiguração. Na história eclesiástica, temos casos similares a este da transfiguração. A glória refletida no caso de Jesus era também um atributo que podemos ver em Moisés (Êx 34, 29). Essa transformação do rosto do grande líder era devida a sua conversa com Deus. Deus é luz e por isso os que a ele se aproximam recebem essa luz como parte integral de suas vidas. Daí a aureola dos santos que corresponde muitas vezes a fatos reais de suas vidas. A transfiguração tem, pois, na história, fatos reais que a confirmam. A Transfiguração é o modo de ver Jesus através da glória divina, que nele se manifesta no Tabor. Estando o verbo na passiva, significa que é uma obra de Deus e que, portanto, deve-se a uma atuação direta de Deus. A cor dos vestidos era um reflexo do resplendor interior do corpo que resplandecia como o sol. Segundo os comentaristas, a transformação de Jesus é uma prolepsis [antecipação] de sua ressurreição. Os judeus tinham a ideia de que todas as criaturas celestes se tornavam resplendentes na presença divina que estava revestida de luz (Sl 104, 2). Na ausência do Deus Javé, o próprio Jesus era a divindade presente.

ELIAS COM MOISÉS: E eis que foram vistos por eles Moisés e Elias, conversando com Ele (3). Et ecce apparuit illis Moses et Helias cum eo loquentes. A pergunta é como sabiam os três discípulos que eram precisamente Moisés e Elias? Sabemos que Moisés podia ser reconhecido pelo brilho de seu rosto, que, na figuração cristã, aparece com dois chifres de luz e que Elias era o profeta vestido como o Batista. Mas tanto um como outro não poderiam ser identificados unicamente por esses sinais, porque também estavam em majestade (em glória) segundo Lucas, ou seja, deslumbrantes de luz. Ambos, segundo a tradição, deviam voltar nos tempos do Messias. De Elias, temos o testemunho de Lc 1, 17 sobre o Batista: caminhará com o espírito e o poder de Elias; ou Jo 1, 21: és tu Elias? Perguntam ao Batista. De Moisés, temos as palavras do Dt 18,18: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Em I Mc 15, 41 os judeus nomearam Simão, chefe e supremo sacerdote, até que se erguesse um profeta fiel. Por isso também João, o Batista, é interrogado se ele era o Profeta (Jo 1,21). Os judeus não tinham, como nós, figuras em que se apoiar para distinguirem os patriarcas e profetas. Logo, ou foi no decurso da fala entre as três figuras, ou foi depois, o próprio Jesus que, perguntado, desvendou a personalidade de seus dois companheiros, embora antes de falar com Jesus, Pedro já sabia a natureza dos personagens (vers 4). Moisés era o protótipo da antiga lei, o maior profeta de Yahveh, conhecido e admirado como tal pelos judeus. Elias tinha sido o restaurador da lei e do judaísmo em tempos em que a idolatria parecia ter tomado a quase totalidade dos pensamentos dos israelitas de seu tempo. Sou o único dos profetas de Yahveh dirá ele antes do teste do Carmelo (1 Rs 18, 22). Ambos representavam a Lei, um no seu fundamento, outro na sua reabilitação. No mínimo, Jesus estava no mesmo nível que os dois profetas que formavam a coluna da religião de Israel. A preposição grega meta [junto a, ou com] indica que Elias era o acompanhante de Moisés, figura, pois, principal nessa visão. Ambos representavam o AT: a lei e os profetas. Jesus está rodeado, mas supera tanto a lei como os profetas, estes últimos interpretando-a como tradição. Os dois personagens estão com Jesus como interlocutores e, como diz Lucas, em glória, ou seja, resplandecentes como Jesus. Por Lucas também sabemos que a conversa era sobre a morte de Jesus em Jerusalém. Isso indica que essa morte era uma coisa prevista e determinada, da qual dependia o futuro do povo. O motivo da conversa, as palavras posteriores do Pai, indicam claramente que a morte de Jesus devia ser considerada como um triunfo, uma vitória, uma conquista, porém dolorosamente alcançada. Moisés e Elias, ambos profetas máximos, como interlocutores de Jesus avaliavam a conversa, como sendo palavra de Deus que reafirmava tudo o que era conversado. Eles foram vistos em glória ou majestade como alguns preferem traduzir a DOXA grega (Lc 9, 31), ou seja, deslumbrantes de luz. Luz que é imagem do relâmpago que precede a presença divina, porque era a realidade da abertura dos céus, acompanhada pelo trovão, a voz do Senhor (Sl 29,2-3) como apareceu no batismo de Jesus (Mc 1, 10). E essa voz também existiu no Tabor. Deus é luz (I Jo 1, 5) e é na sua luz que vemos a luz (Sl 36, 10). O fato da presença da luz, que precede à revelação divina, é confirmado pelas visões modernas em Lourdes e Fátima, entre outras aparições recentes.

AS TENDAS: Tendo, pois, respondido Pedro, disse a Jesus: Senhor é bom para nós estarmos aqui. Se quiseres, faremos aqui três tendas: para ti uma, e para Moisés uma e uma para Elias(4). Respondens autem Petrus dixit ad Iesum Domine bonum est nos hic esse si vis faciamus hic tria tabernacula tibi unum et Mosi unum et Heliae unum. A visão era estupenda e, como toda obra divina, deixava nos assistentes uma paz e satisfação únicas. O texto indica uma tradução de uma redação aramaica ou semita ao começar com respondendo, disse. Pedro pensava que estava no paraíso. O ambiente mais próximo em alegria e contentamento era o da festa das tendas ou tabernáculos. A semana da festa [Hag] ou festa das choças [Hag Sukkoth] era a grande semana de exultante alegria entre os judeus; era um verdadeiro carnaval judaico, entre cantos e danças de alegria, como comemoração dos tempos felizes do deserto em que o Senhor era o verdadeiro dirigente do povo. Era uma semana especialmente dedicada às crianças, cheia de símbolos ricos e coloridos. Erguia-se uma tenda ou cabana [suká] com uma estrutura improvisada de tábuas e teto de folhas e ramos, como eterna lembrança das habitações precárias utilizadas pelos israelitas, nos anos de peregrinação, através do deserto. A cabana estava decorada com frutas da estação outonal e a comida era servida dentro da própria cabana. Tendo em vista esta festa, Pedro pensa que uma coisa semelhante poderia se formar no alto da montanha, quer seja temporal ou permanentemente. Na mente simples de Pedro não existia outro termo de comparação mais exato do que a festa que tanto animava os judeus com sua alegria e felicidade.

A NUVEM: Ainda, estando ele falando, eis que uma nuvem luminosa fez-lhes sombra e eis que (saiu) uma voz, de dentro da nuvem, dizendo: Este é o meu Filho, o amado, no qual encontrei minha satisfação. Ouvi-o (5). Adhuc eo loquente ecce nubes lucida obumbravit eos et ecce vox de nube dicens hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene conplacuit ipsum audite. NUVEM: Segundo o grego a palavra usada é NEFELE: Também temos nefos, esta última como palavra geral (nuvens diríamos em português) e nefele como massa limitada, uma nuvem bem formada com contornos definidos. Em hebraico temos `anan <06051> [nuvem nimbo] usada para a coluna de nuvem de Êx 13, 21, que no hebraico é nuvem densa, ou capa de nuvens baixas que preconizam tormenta. A vulgata latina fala da nuvem que serve de  estrado  quando  o Senhor vem julgar seus inimigos ( Is 19, 1) cavalgando numa nuvem ligeira ou finalmente como em Mt 24, 30 o Filho do Homem sobre as nuvens do céu. A palavra ANAN sai 80 vezes no AT, indicando em 75 delas a presença de Javé no tabernáculo. É a nuvem que pousará sobre o templo em I Rs 8, 10-11, manifestando a glória de Javé. Essa nuvem era escura durante o dia para se transformar em nuvem de fogo à noite. Era a Shekiná do deserto. Manifestava a oculta face de Jahveh e era, porém, sinal visível, ao mesmo tempo, da presença divina (Êx 16,10 e Lv 16, 2) pousando sobre o Tabernáculo (Êx 40, 35) que era a morada de Deus com seu povo. Tanto estava ligada a Shekiná com o povo, que os comentaristas judeus afirmavam que ela estava também exilada após a destruição do segundo templo [ano 70 dC], sendo que a Shekiná, no Exílio, acompanhava o povo; e entre os homens santos israelitas da Europa oriental, existia o costume de vagar de cidade em cidade como mendigos e enlutados, a fim de poderem partilhar do Exílio da Shekiná expressado no exílio de Israel. Agora, a Shekiná está em Jesus e seus acompanhantes como estava em Moisés, que, segundo a tradição, (Êx 34, 29), o acompanhou de modo especial no momento de sua morte, envolvendo o corpo amorosamente nas suas asas. Esta glória divina era esperada para o tempo final: Então aparecerá a glória do Senhor, assim como a nuvem, como se manifestava nos tempos de Moisés e quando Salomão rezou para que o lugar fosse grandiosamente consagrado (2 Mc 2, 8). A nuvem rejeita as choças de Pedro. Deus tem sua moradia e sua tenda própria. Os personagens, dois deles falecidos, estão numa outra dimensão que não a de Pedro, esta, demasiada materialista, para entender vidas de homens não carnais, totalmente enobrecidas pelo Espírito (1 Cor 15, 44). A presença de Moisés e Elias claramente era um argumento de que existe vida e vida melhor, no além. O verbo episkiazo [episkiazousa autois, obúmbrans eos], que também usa Lucas, não significa necessariamente fazer sombra, que é seu sentido material, mas pode ser traduzido por toldar, encobrir: assim, traduziremos por os rodeou ou cercou-os. Em definitivo, os ocultou ou os envolveu, como traduzem os evangélicos, pois poderíamos pensar que, fazendo sombra, a nuvem era escura e o tempo era de dia; mas tudo isto está contra os textos recebidos. A VOZ: Existe uma semelhança com o batismo de Jesus. No batismo, Jesus recebe o aplauso de sua futura missão, que se inicia com a sua submissão ao rito de um inferior como era o Batista. É uma clara alusão à sua missão de servir aos homens. Aqui, ele recebe a confirmação da mesma missão. A voz é a fórmula desse novo batismo, transformando inteiramente seu corpo como imerso na luz da divindade. Deste batismo foram testemunhas os discípulos que participaram externamente, mas viram claramente a nuvem e a transfiguração de Jesus, que representavam a presença da divindade, tanto na cena externa como no interior de Jesus. A mensagem será a confirmação do messiado do Mestre que se torna oculto na sua morte em Jerusalém, como início do triunfo final: O seu reino começaria desde a cruz e teria como elemento básico e essencial a cruz, símbolo da humilhação e do sofrimento. Ao mesmo tempo em que se aprova o verdadeiro sentido do ministério messiânico, a voz confirma a superioridade de Jesus sobre o AT declarando: Este [unicamente este] é o meu filho, o amado. Hoje diríamos o único, segundo demonstra a parábola dos vinhateiros, em que o dono envia seu filho amado, o herdeiro (Lc 20, 13). Moisés e Elias se tornam os parceiros que hoje o acompanham e que outrora o precederam.  Mas a quem devemos obedecer é a Jesus, que neste momento se encontra escolhido e ungido particularmente como verdadeiro e único Filho de Deus. Amado, como Isaac foi por Abraão, filho único a ser imolado, mas poupado (Gn 22,2) no último momento. Jesus também filho único, será imolado e não poupado; mas será depois ressuscitado. Também no monte, a exemplo de Moisés, os discípulos recebem o mandato que representa o Thelema tou Theou [= a vontade do Deus (vivo)] porque ele é o Logos tou Theou [= a palavra do Deus] que deve ser ouvida. Temos um novo decálogo, reduzido a um novo mandamento: aceitar a pessoa e a voz de Jesus que está no lugar do decálogo [Torá] e da tradição [Mishná]. FILHO: A palavra filho [‘yios, filius latino] designa o filho, dando como preeminência a legalidade da descendência, mais do que a biológica que tem como representativa a palavra teknon que representa mais o aspecto biológico do descendente. O AMADO: A palavra ‘o agapêtós, é traduzida ao latim por carissimus em Marcos, dilectus em Mateus e Lucas. Mais parece uma palavra legal, técnica, que indica o herdeiro, o único. A passagem é uma repetição da teofania do batismo com as mesmas duas palavras gregas [‘yuiós e agapêtós] que são traduzidas ao latim por filius e dilectus. Unicamente, que no latim e na maioria das traduções vernáculas, perdem-se as ênfases do grego com os artigos determinantes. A tradução própria seria o filho meu, o amado. No batismo, a voz do Pai encontra suas delícias nele. No monte, o Pai pede obediência ao filho. Duas questões podemos deduzir desta última intervenção: 1a) O Filho era natural, ou significava unicamente uma filiação como a dos reis do AT? Porque também em Sl 2, 7 o rei, recém-coroado, recebe de Jahvé o mesmo apodo de filho. Talvez o sobrenome de o amado, único, seja a solução. Não existe no AT a união de filho com amado, e só encontramos as passagens do novo testamento dos evangelhos nas duas teofanias relatadas. 2a) Que aqui esse filho referido a Jesus, toma o papel de Moisés e de Isaías juntos. A voz do Pai, que é Deus, o indica como única fonte de direito por assim dizer. Ele se transforma em representante único de Deus na terra e a voz de Jesus é a voz de Deus. DELE ME ORGULHO: Jesus cumpre a vontade do Pai e representa os planos da grande obra salvífica que está prestes a revelar no seu êxodo em Jerusalém. O Pai deixa nas mãos de Jesus o novo Reino, que se mostra independente da tradição e dos profetas. O Pai oferece o Reino ao Filho, porque o Filho oferece a vida ao Pai incondicionalmente. Esse reino é visto em seu esplendor pelas testemunhas escolhidas. Na antiga Esparta, uma mãe disse a seu filho, que partia para guerra: Ou com este [o escudo] ou sobre este, indicando que morto seria repatriado como herói sobre o escudo. Jesus, nessa batalha contra o mal, estaria sobre o seu escudo: a cruz. E essa morte era vitória para os novos filhos e alegria de enorme satisfação para o Pai comum.

O TEMOR: E, tendo ouvido, os discípulos caíram sobre seu rosto e temeram grandemente (6). Et audientes discipuli ceciderunt in faciem suam et timuerunt valde. Com razão, os discípulos atribuem a voz de dentro da nuvem a Jahveh. Por isso, procedem a praticar a proskinese, a adoração, diante do fato de estarem na presença divina. E existia entre os judeus a tradição de que não se podia ouvir a voz de Javé e ficar com vida: Não nos fale Javé para que não morramos (Êx 20, 19). E se continuarmos a ouvir a voz de Javé, nosso Deus, nós vamos morrer (Dt 5, 25). Daí o temor de que estavam possuídos.

JESUS OS ANIMA: Então, tendo se aproximado, Jesus os tocou e disse: Erguei-vos e não temais(7). Et accessit Iesus et tetigit eos dixitque eis surgite et nolite timere.  Os discípulos estavam a certa distância de Jesus. Porém, ao ver os discípulos com o rosto em terra e tremendo de medo, Jesus, complacente, se aproxima para animá-los. Estavam como desmaiados e sem forças para reagir. Mas não deviam temer pelo que tinham visto e do qual eram testemunhas. A voz de Jesus era uma voz amiga e não a voz da nuvem como a de um Deus ditando um mandato de vida ou morte. O ofício de Jesus era o de amigo e protetor da humanidade, de modo especial com respeito a seus discípulos. Não temais, foi a palavra de J. Paulo II o vigário desse Jesus que estava revestido da autoridade do Pai, com as palavras: Escutai-o. Antes de chegarmos a Ele, Jesus se aproxima e sua voz é a voz da tranquilidade e da esperança. Recorda a famosa jaculatória: Coração de Jesus, em vós confio.

JESUS SÓ: Tendo, pois, elevado seus olhos, não viram ninguém senão Jesus só (8). Levantes autem oculos suos neminem viderunt nisi solum Iesum.  Os evangelistas enfatizam o fato de que uma vez ouvida a voz do Pai, Jesus ficou sozinho, desaparecendo as outras duas figuras. Pode ser que a realidade seja uma imagem futura da nova era. Nem Moisés nem Elias seriam os condutores do novo povo de Israel. Jesus era o único a ser ouvido e seguido. De fato, quem dos cristãos de hoje se lembra de ambos os profetas do AT, como sendo os líderes de sua religião?

O SILÊNCIO: E estando descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus dizendo: A ninguém digais a visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dentre os mortos(9). Et descendentibus illis de monte praecepit Iesus dicens nemini dixeritis visionem donec Filius hominis a mortuis resurgat. Reduzidos a puro acidente histórico, Moisés e Elias, a lei e os profetas, Jesus ordena que as testemunhas calem até o momento da sua ressurreição. Porque as revelações extraordinárias não são absolutamente necessárias e só podem ser compreendidas nos acontecimentos que vaticinam e representam. Só na ressurreição, os discípulos puderam entender a transfiguração e a morte de Jesus. Realmente o silêncio dos apóstolos era fundamental. Primeiro, porque, sendo poucas as testemunhas, a sua fala poderia favorecer um descrédito geral. Segundo, porque unicamente a ressurreição forneceria luz suficiente para entender tanto a paixão como a transcendência da epifania do Tabor e o significado da Ressurreição. Terceiro, porque uma evidência que destacava a pessoa de Jesus seria uma blasfêmia contra a fé judaica que descartaria ainda mais a boa nova do evangelho. Daí que o silêncio sobre o messiado de Jesus fosse necessário nesse tempo em que sua missão ainda não podia ser conhecida, pois faltava a morte e ressurreição, constituindo o segrego messiânico de Marcos. A morte de Jesus, instigada pelas autoridades judaicas, não era unicamente um meio divino de sabedoria que confundia a sabedoria humana, mas também uma ruptura com a antiga Lei que tinha se transformado em costumes humanos (Mt 15, 6).

PISTAS:

1) Jesus nos mostra nesta perícope sua doxa, mas também seus sofrimentos, para indicar que aquela era fruto destes últimos. O mérito do filho do homem, ou melhor, do Homem Jesus, é precisamente sua paixão e sua morte em obediência. A unicidade da pessoa com o Verbo não tira nada da vontade ou da liberdade do homem Jesus, de forma que podemos dizer que ele é um de nós em tudo. Poderia ser eu mesmo o escolhido como tal filho de Homem. Por isso, esse mesmo mérito o temos que alcançar de modo individual e não coletivo. Portanto, a glória da ressurreição que também se manifestará em nós, é dependente de nossa obediência, que inclui especialmente a nossa própria paixão e morte. Nosso espelho é Jesus homem. E se a ele, Deus o exaltou devido à sua obediência (Fp 2, 9), essa será também a base de nosso destino.

2) Pedro dirá em sua epístola, que ele mesmo foi testemunha ocular da majestade [atributo próprio da divindade] de Jesus. Porém, isso só foi uma confirmação da palavra de Deus. A fé será sempre um dom do Espírito por cima, não em contra, de nossa razão e sentidos. Já que só a fé dá uma resposta razoável ao que vemos e sentimos como coisa fora do racional e de nossa comum e diária experiência. O milagre confirma a fé, não a produz. Também os fariseus e escribas eram testemunhas dos milagres e prodígios de Jesus, porém não os quiseram interpretar corretamente.

3) Claramente, Jesus é o centro de um mistério, compreendido em parte pelos apóstolos, testemunhas dos fatos. A Lei nova não suprime a antiga, senão que a completa e aperfeiçoa: o temor como impulso da ética, é substituído pelo amor; a materialidade deixa passo ao espírito, mais abrangente e completo.

4) A nuvem: Deus se manifesta no meio da escuridão. Ouvimos sua voz, porém não vemos seu rosto. A voz de Deus é seu Logos, seu Verbo feito carne e carne frágil. Sua voz não é o trovão do Sinai, mas a voz de um homem simples e comum. Jesus é o homem para todos, mas é o Unigênito para o Pai e o Senhor para os que nele depositam sua fé, esta, como norma de sua vida.

5) O mandato novo é de obediência ao representante de Deus na terra. Quem me ouve, ouve o Pai. Mais: quem a vocês ouve é a mim que ouve (Lc 10, 16). Não somos divinos, nem únicos, para determinar nosso ego e nossas circunstâncias. Por isso todo aquele que quiser ter uma vida própria e independente não segue a norma dada por Jesus: a da obediência.  A regra da vida plena não é a conveniência, mas a obediência, manifestada nas palavras da nuvem. A vontade divina manifestada na Palavra que desceu do céu, demonstra a vontade divina que é a norma das vidas dEle dependentes. O não serviam [não servirei] se repete de contínuo em muitas vidas e é a origem de sua condenação; mas quem busca a Palavra e encontra o plano de Deus em sua vida é como quem encontra o tesouro que a enriquece (Mt 13, 44).


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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05.03.2017
1º DOMINGO DA QUARESMA— ANO A
( Roxo, Creio, Prefácio Próprio – I Semana do Saltério )
__ "Pelas tentações vem a decisão" __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Iniciamos, estimados irmãos e irmãs, nossa caminhada quaresmal. Se a quaresma caracteriza-se como sendo um tempo de conversão, deve haver de que se converter: o pecado. Contudo, para muitos, hoje, não existe pecado; sobretudo para os que se iludem com seu aparente sucesso e não sentem na pele quanto seu pecado faz sofrer os outros. A história humana se move entre o projeto de Deus e o poder do mal. O mal tenta seduzir o homem para que o adore no lugar de Deus. Partindo desta perspectiva, a liturgia deste primeiro domingo da quaresma, nos mostrará, como Satanás disfarça sua tentação por trás de bens aparentes: conhecimento que nos faz capaz de brincar de deus, satisfação material, poder, sucesso... desde que adoremos o diabo no lugar de Deus.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Irmãos e irmãs, bem vindos! Estamos num tempo de graça! Preparando-nos para a Páscoa, recordaremos nosso caminho de fé batismal. Conduzidos pelo Espírito, vamos com Jesus ao deserto. Com Jesus, aprenderemos a resistir às tentações do Maligno que quer nos desviar de nossa consagração batismal e arrancar de nós o entusiasmo pelo Reino de Deus. Diante das tentações, renovemos nossa fidelidade ao Deus vivo e verdadeiro, sustentados por sua Palavra.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Neste primeiro domingo é proposta uma reflexão fundamental sobre o destino do homem. É uma meditação religiosa, uma vez que põe em causa o justo relacionamento com Deus, libertando-o de suas concepções errôneas. - O homem é escravo de forças naturais ou históricas; sua presença no mundo é o fruto de um acaso que lhe pregou uma peça breve e cruel, dando-lhe ilusão de felicidade e abandonando-o ao poder da morte. - O home é árbitro absoluto de seu destino, senhor do bem e do mal, dominador das forças cósmicas, único protagonista da história.

Sintamos o júbilo real de Deus em nossos corações e cheios dessa alegria divina entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Gn 2, 7-9 ; 3, 1-7): - "Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais."

SALMO RESPONSORIAL (50/51): - "Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós!"

SEGUNDA LEITURA (Rm 5, 12-19): - "Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos."

EVANGELHO (Mt 4, 1-11): - "Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás."



Homilia do Diácono José da Cruz – 1º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

"NO ACONCHEGO DO DESERTO"

Neste primeiro domingo da quaresma, Deus nos chama ao deserto com Jesus, para uma conversa de pé de ouvido, a liturgia se reveste de roxo, que é a cor da paixão, não é tristeza, luto e desconsolo, como muitos pensam, é como se Deus, o amado de nossa vida, quisesse que ao longo de quarenta dias, prestássemos mais atenção nele, no seu jeito diferente de nos amar, roxo seria isso: um olhar para dentro, enquanto se olha para o céu, podendo evocar o poeta “De tudo ao meu amor serei atento...”, quaresma é tempo de deixar-se remodelar, permitindo que Deus refaça a nossa vida.

Quando presido o Sacramento do matrimonio percebo que os casais têm dificuldade de se olhar nos olhos, na hora do consentimento, e não é só com quem está casando que isso acontece, um amigo confidenciou-me que sentiu um certo “desconforto” ao olhar nos olhos da esposa, na renovação do matrimonio, em uma missa de encontro de casais. Olhar nos olhos nos causa medo, porque é enigmático e misterioso, não se tem medo de olhar o corpo, que se torna fácilmente objeto de desejo, em uma sociedade tão erotizada, mas quando se olha nos olhos, estamos diante da alma do outro, há comunhão de corpo mas não há comunhão de alma. A relação entre namorados, noivos, e até entre marido e mulher, fica na maioria das vezes banalizada, alguns conseguem emigrar do erótico para o Eros, e há outros, que na graça de Deus, confiada pelo Sacramento do matrimonio, conseguem chegar no Ágape, que é o amor em toda sua plenitude, o Eros é o meio, e não o fim, é um caminho que tem de ser percorrido do começo ao fim da vida conjugal e que só será obstruído pela morte.

Nossa relação com Deus ás vezes também é assim, um tanto quanto banal, pois temos medo de contemplar o seu mistério. Na capela do Santíssimo, lugar sagrado em nossas comunidades, onde Aquele que é o Amor Absoluto se esconde em um pedaço de pão, sentimo-nos embaraçados e procuramos sempre dizer algo, fazer um pedido, recitar uma fórmula de louvor e adoração, daí somos capazes de ficar horas ali falando , porque este “Falar” nos dá a ilusão de que penetramos no mistério de Deus e podemos dominá-lo. Invertemos o jogo e queremos seduzir a Deus, diferente do profeta, relutamos em ser por ele seduzidos e dominados.

Deserto é lugar teológico do “namoro”, onde movidos pelo mesmo Espírito que conduziu Jesus, vamos ter nosso encontro pessoal com Deus, o esposo apaixonado que quer olhar nos nossos olhos, sussurrar em nossos ouvidos e nos envolver com a sua ternura, para sentirmos de novo o encanto do primeiro amor, como na visão do profeta Oséias “Eis que eu mesmo a seduzirei e a conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração”. Deserto é lugar de fazer a experiência da esposa jovem, que manifesta a sua alegria ao colocar toda sua confiança no amado, e descobrir, como no Cântico dos cânticos, que somente Deus é a sua Segurança – “Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu Amado?”
É o Povo da antiga aliança, é o povo da nova aliança, é a Santa Igreja, somos eu e você, a razão do amor divino, que nos trouxe, com a encarnação de Jesus, a possibilidade real de experimentarmos em nossa vida a salvação. Deserto é, portanto lugar do encontro onde o amor se revela, é a mesma experiência do povo do Êxodo, que se repete em Jesus Cristo, porém, ao contrário do povo da antiga aliança, não mais se deixará enganar pela tentação, propostas sedutoras dos amantes, para fazê-lo perder o paraíso de delícias, onde o homem convivia com os animais selvagens, servido pelos anjos de Deus, evocando a proteção Divina do Eterno Amado sob o objeto do seu amor.

Revistamo-nos do roxo da paixão e não da tristeza, quaresma é dar um tempo para aquelas coisas que em nossa vida são secundárias, para nos ocuparmos com um Deus apaixonado, que suspira quando vamos ao seu encontro enquanto Igreja, na dimensão celebrativa. Quaresma é quarenta dias de amor, como um casal que retoma a lua de mel, após longa caminhada na vida conjugal, foi no deserto que Deus celebrou a aliança com seu povo, estabelecendo com ele uma relação única, “Eu serei o seu Deus e vós sereis o meu povo”, evocando o cerne da união conjugal – e os dois serão uma só carne.

É esse amor que salvará o mundo, verdade ignorada pelos que prenderam João Batista tentando sufocar um Amor que não se deixa aprisionar, e em Jesus irrompe ainda mais forte, no meio da humanidade, para levar o homem de volta ao paraíso! Nada irá deter a força desse amor, nem a miséria dos homens ou os pecados da igreja, o AMOR triunfará definitivamente! Pois o tempo se completou, o Reino está próximo. Converter e crer no evangelho, é uma forma contínua de corresponder a esse amor misterioso de Deus que em Jesus busca a todos os homens, sem distinção ou acepção de qualquer pessoa. Converter-se é dar um solene “basta” aos falsos amores de “amantes” mentirosos, que nos enganam, oferecendo-nos um falso paraíso, arrastando-nos à tristeza da morte do pecado, deixando-nos longe...bem longe Daquele que é o nosso único e verdadeiro Amor...

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 1º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

Somos pessoas normais!

Essa afirmação poderia chamar a nossa atenção se não conhecêssemos a natureza humana, não somente através da bondade que ela manifesta constantemente, mas também por causa das dificuldades que a velha natureza encontra desde que Adão e Eva aprontaram, ou seja, pecaram. Antes o homem e a mulher estavam cheios de graça, a sua inteligência conhecia com rapidez e a sua vontade não encontrava dificuldade para amar, a sua memória era ágil, as suas forças permaneciam firmes diante do trabalho cotidiano e se vivia em grande harmonia com toda a criação. Eram pessoas normais!

No entanto, na situação atual, podemos afirmar tranquilamente: também nós somos pessoas normais! Isso significa que em nós há coisas boas e coisas más. Não nos deveriam surpreender demasiado nem as coisas boas, porque são graças de Deus; nem as más, porque são consequentes como uma natureza que, a partir, do pecado, tem aquilo que a tradição chama de vulnera peccati, ou seja, as feridas do pecado. Em efeito, depois do pecado, o ser humano perdeu a maravilhosa harmonia que existia no seu próprio ser e, consequentemente, também perdeu a harmonia que experimentava junto à natureza biológica e animal. Também o mundo que antes lhe era favorável, depois do pecado se lhe manifestava como hostil.

Pobre de nós se não reconhecermos que somos pecadores! Mais pobres ainda se não reconhecermos que a graça de Deus nos atingiu, nos curou e nos santificou! “O primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição de homens nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida (cf. Ordo Initiationis Christianae Adultorum, n. 25). É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso» (Ef 6, 12), no qual o diabo é ativo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.” (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2011).

Consequência prática: é preciso lutar! É preciso fazer guerra! É preciso ser fortes na batalha! Sou um sacerdote de Jesus Cristo consciente da necessidade da graça de Deus como qualquer outro cristão; no entanto, não posso pregar uma santidade sem luta: utópica, fora da realidade. Em definitiva, santidade sem luta é um quimera! Não existe santo que não tenha lutado! Já o justo Jó era consciente de que “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7,1). A paz que se deseja não se consegue se não for através da guerra, através da derrota do inimigo. Qual o inimigo? Na verdade, são vários: há inimigos internos que causam desordem nos desejos e nos amores: soberba, avareza, luxúria e gula; há inimigos internos que causam desordem no nosso ânimo: inveja, ira, preguiça. Há ainda os inimigos externos: o demônio, pessoas que são tentadoras, algumas estruturas sociais injustas etc. Se o cristão não luta, é vencido.

Diante dessa realidade dramática, poder-se-ia assumir posturas que não condizem com aquilo que nós somos, isto é, filhos de Deus. Uma delas é uma espécie de naturalismo, que tem duas versões. Na primeira versão, luta-se somente com as próprias forças, com a vazia confiança de que se poderá vencer dessa maneira. A outra versão implicaria uma ausência de luta contra as más inclinações, simplesmente porque essas inclinações seriam concebidas como naturais ao homem e, no fundo, ele nem tem culpa das coisas que faz. Outra postura, diferente do naturalismo, é o pessimismo: luta-se, confia-se na graça de Deus, mas no fundo como se sabe que se cairá se desiste e se conforma com uma vida triste e aburguesada. Outra ainda, o rigorismo: tudo parece pecado e, por tanto, quase seria preferível fugir desse mundo, pois este se torna totalmente hostil e tudo se transforma em pecado, dessa atitude podem vir angústias, depressões e ansiedades.

A maneira de combater de um filho de Deus é equilibrada: confia, em primeiro lugar, na graça de Deus e, depois, coloca todos os meios que está ao seu alcance para conseguir a vitória: oração, sacramentos, fuga das ocasiões de pecado, cultivo do espírito de penitência, uma dimensão de serviço que ajuda a descomplicar-se. Além do mais, o filho de Deus luta com serenidade: caso haja alguma caída, se levanta rapidamente a través da contrição e da confissão, e continua lutando. Jesus saiu vitorioso das tentações. Ele não tinha as feridas do pecado porque não tinha pecado, mas foi tentado para vencer por nós. Nele nós somos vencedores. Já! Agora!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Doutrina e Apologética

Caríssimos Irmãos e Irmãs,

O site Presbíteros não publicou nesta semana o Comentário Exegético, portanto, transcrevo abaixo mais um texto de Doutrina da Santa Igreja, extraído do mesmo site, bastante interessante para Grupos de Estudo Bíblico.

Vejam também a página Roteiro Homilético para um maior entendimento da liturgia deste domingo. ATENÇÃO: a página Roteiro Homilético fica no site apenas durante esta semana; não guardamos arquivo dela, portanto, se desejarem guardá-la devem salvar a página ou imprimí-la.

Desejo a todos uma Santa e Feliz Semana, na Graça de Deus Pai.

Dermeval Neves
Webmaster - NPDBRASIL

O mistério dos anjos: quem são eles?

Pe. Françoá Costa

Ao colocar a palavra “anjos” num buscador de internet, é incrível a quantidade de informação que aparece, muitas contaminadas por doutrinas esotéricas. No entanto, é ainda mais curioso quando se busca imagens de anjos: seres fofinhos, bebezinhos; por vezes, afeminados, com bochechinhas vermelhas, asinhas simpáticas etc. Muitos artigos sobre os anjos estão, sem dúvida, contaminadas por doutrinas esotéricas. Inclusive, é possível encontrar um anjo específico para cada dia da semana, entre outras coisas absurdas. No entanto, é preciso dizer que também se encontra muita coisa boa.

Os anjos não são reencarnações, não são homens ou mulheres com asas, não são lugares nos quais se sente a presença de Deus, não são gnomos nem duendes, não são uma espécie de energia, nem tampouco uma fumaça branca. Um dos artigos bons que encontrei em internet foi o de P. B. Celestino que, em relação a isso, dizia: “a humanidade no seu conjunto pa rece obedecer a uma espécie de “lei do bêbado”: depois de uma queda para a direita, procura compen sá-la inclinando-se para a esquerda, e acaba caindo nessa direção. Assim, às épocas de racionalismo exacerbado e míope, seguem-se outras em que proliferam as mais tresloucadas fantasias e crendices, e a doutrina sobre os anjos é das que mais facilmente se prestam a essas deformações. O nosso tempo inclui -se entre as segundas, a julgar pelo número de “caricaturas” deformadas desses seres não-humanos ― sob a forma de duendes, gnomos, espíritos “desen carnados”, deidades e extraterrestres ― que se mistu ram inextricavelmente nas estantes das livrarias e lo jas de bibelôs, bem como nas cabeças de alguns…”

O calendário litúrgico da Igreja Católica celebra duas festas angélicas, no dia 29 de setembro, a festa dos três arcanjos – S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael – e, no dia 2 de outubro, os anjos da guarda. Quem são eles?

Talvez o Concílio da Igreja que mais se dedicou a explicar a doutrina sobre os anjos foi o Concilio de Latrão IV, no ano 1215. Nele se afirmou, num contexto de profissão da fé, que os anjos foram criados por Deus desde o inicio do tempo, também os demônios. No caso dos demônios, o Concilio nos diz que foram anjos criados bons, mas que depois se fizeram maus. Logicamente, houve pronunciamentos magisteriais sobre os anjos antes dessa data, por exemplo, o Papa Zacarias, no ano 745, rejeitou os vários nomes dos anjos, ficando somente com os de Miguel, Gabriel e Rafael porque a Sagrada Escritura só fala desses três. O Concilio de Aix-la-Chapelle, no ano 789, fez a mesma coisa.

O que nos diz a Bíblia sobre os anjos? Bastante. Os dicionários bíblicos dedicam a esse tema varias páginas. Em resumo: anjo vem da palavra grega angelos, que serviu para traduzir a palavra hebraica mal’ak, que – de maneira geral – significa “mensageiro”. Eles são filhos de Deus (Jó 1,6; 2,1), são protetores dos homens (Sl 90,11), moram nos céus (Mt 28,2), são de natureza espiritual (1 Re 22,19-21; Dn 3,86; Hb 1,14). Há anjos bons e anjos maus (Zc 3,1). Existem serafins (Is 6), querubins (Gn 3,24; Ex 25,22; Ez 10,1-20), tronos, dominações, potestades e principados (Cl 1,16), virtudes (Ef 1,21), arcanjos (1 Ts 4,15-16; Judas 9), anjos que cuidam dos indivíduos (Tb 5; Sl 90,11; Dn 3,49s; Mt 18,10). Nos Evangelhos também se lê que eles contemplam o rosto de Deus (Mt 22,30; 18,10) e se alegram pela conversão daqueles que estavam afastados de Deus (Lc 15,10), dizem ainda que eles levaram o corpo de Lázaro ao seio de Abraão (Lc 16,22).

Como se pode ver, as afirmações do Magistério da Igreja estão solidamente apoiadas pela Tradição Escriturística. Com relação aos três arcanjos, acontece a mesma coisa. Gabriel que significa “Deus é força” aparece em Dn 8,16; 9,21; Lc 1,19.26; Miguel que significa “Quem como Deus?” aparece em Dn 10,13.22; 12,1; Jud 9; Ap 12,7; São Miguel é o padroeiro de toda a Igreja; Rafael – “Deus cura” – aparece em Tb 3,25. A distinção mais divulgada de uma hierarquia entre os anjos aparece no livro De coelesti hierarquia – Sobre a hierarquia celeste – atribuído a Dionísio, o Areopagita, entre os séculos IV e V. Nessa obra, os anjos são distribuídos em três ordens, cada ordem formado por três coros, num total de nove coros angélicos: serafins, querubins e tronos fazem parte da primeira hierarquia; dominações, virtudes e potestades, formam a segunda hierarquia dos anjos; os principados, os arcanjos e os anjos estariam na terceira. Todos esses anjos têm – como resume o teólogo francês J. Daniélou – duas funções: louvar a Trindade Santíssima e guardar e defender tudo o que é de Deus.

O Catecismo da Igreja Católica diz que os anjos são criaturas pessoais, ou seja, dotadas de inteligência e vontade; são, ademais, imortais por serem puramente espirituais e superam em perfeição as criaturas visíveis (Cat. 330).

A perfeição dos anjos não permite, no entanto, que eles penetrem nas nossas consciências; temos que manifestar-lhes as nossas necessidades, mas basta falar com eles mentalmente e eles nos entenderão. O fato dos anjos serem pessoas (angélicas) nos faz ver que são capazes de relações de amizade e de fraternidade com as pessoas humanas. Os santos anjos são nossos amigos. Como seria bom se cultivássemos essa amizade frequentemente, conversando com eles, pedindo a sua proteção e agradecendo os seus favores. Nessas angélicas relações amistosas, o nosso anjo da guarda ocupa o primeiro posto, é o anjo que mais deveria ser tratado por nós.

A devoção aos anjos não contradiz a centralidade de Cristo, único Senhor.

Todos os anjos estão ao serviço de Jesus Cristo e é uma honra para eles servir a Cristo e a todos os seres humanos por amor ao Deus Uno e Trino. O Catecismo da Igreja destaca esse serviço humilde e eficaz a Cristo e a toda a Igreja (Cat. 333-335). Os santos foram muito devotos dos anjos. São Josemaría Escrivá, por exemplo, deixava que o seu anjo da guarda contasse o número de orações e mortificações que ele ia fazendo, tinha-o presente nos trabalhos apostólicos que realizava, chamava-o “Relojoeirinho” (porque era muito pontual em despertar-lhe e até consertou-lhe um relógio numa ocasião), dedicava as terças-feiras a tratá-lo mais intensamente, rezava ao anjo da guarda de alguém com quem tinha que conversar ou escrever-lhe uma carta; viu o Opus Dei no dia 2 de outubro de 1928, festa dos anjos da guarda; confiou os diversos trabalhos dessa nova fundação a cada um dos arcanjos. “Caminho”, esse clássico-moderno de espiritualidade, dedica nove pontos seguidos à devoção aos anjos. Como São Josemaría, poderíamos elencar vários outros santos cuja devoção aos anjos nos anima a ser mais amigos desses celestes espíritos.

Os anjos estão presentes na liturgia da Igreja, máxime quando a Santa Missa é celebrada. Os textos litúrgicos fazem referências a esses celestes adoradores de Deus. O “Glória a Deus nas alturas” foi uma oração entoada por eles (cfr Lc 2,13-14). As orações eucarísticas, na sua primeira parte, os prefácios, terminam “com os anjos e os arcanjos e com todos os coros celestiais” cantando o hino da glória de Deus que é o “Santo, Santo, Santo”, hino dos serafins (cfr. Is 6). Na oração eucarística I ou Cânon Romano, a oferenda é levada ao Deus todo-poderoso “per manus sancti angeli”, ou seja, pelas mãos do santo anjo. São Beda dizia que “da mesma maneira que vemos como os anjos rodeavam o corpo do Senhor no sepulcro, devemos crer que estão fazendo a corte a Jesus na consagração”.

Enfim, toda a vida do novo Povo de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, recebe a proteção dos anjos. São Miguel Arcanjo é padroeiro de toda a Igreja. Nós, membros da Igreja, podemos intensificar nos próximos dias a nossa devoção a esses celestiais guardiões da nossa fé, esperança e caridade, do nosso trabalho pela causa de Deus e do nosso caminho rumo ao céu. Sejamos gratos aos nossos anjos da guarda e, sobretudo, agradeçamos ao Senhor por esses angélicos companheiros.
_____________________________________________________________

Referência bibligráfica: A. VACANT, “Ange”, in F. VIGOUROUX (ed.), Dictionaire biblique, I,1 A, Paris : Letouzei et Ané, 1895, 576-590. A. V. de PRADA, O Fundador do Opus Dei (3 volumes), São Paulo: Quadrante, 2004. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 325-336. F. F. CARVAJAL, Antología de textos para hacer oración y para la predicación, Madrid: Palabra, 1983, 85-95. J. DANIÉLOU, O mistério do Advento, RJ: Agir, 1958. P. B. CELESTINO, Os anjos, São Paulo: Quadrante. O artigo de P. B. CELESTINO, “Os anjos e o nosso anjo” se encontra em http://www.quadrante.com.br/ sessão “artigos >> doutrina e teologia” (visitada no dia 26/09/2010). P.-M. GALOPIN, “Ángel”, in P.-M. BOGAGERT e outros (responsáveis), Diccionario Enciclopédico de la Biblica, BARCELONA: HERDER, 1993, 73-76.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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