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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 01/07/2018 - 13º DTC - SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO
. Evangelho de 10/06/2018 - 12ºDTC - Natividade de São João Batista


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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01.07.2018
13º DTC - SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO — ANO B
( Vermelho, Glória, Creio, Prefácio Próprio – Ofício da Solenidade )
__ "Eles eram um só coração e uma só alma" __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Celebramos hoje a solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Desde o século III que a Liturgia une na mesma celebração estas duas colunas da Igreja. Mestres inseparáveis de fé e de inspiração cristã pela sua autoridade, simbolizam todo o Colégio Apostólico. Em ambos, quer na vida, quer no martírio, prolongam-se a vida, a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Hoje é também o “Dia do Papa”. Queremos manifestar nossa estima e obediência ao sucessor de Pedro, sinal da unidade da Igreja e da comunhão na fé e na caridade.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Irmãos e irmãs, hoje a Igreja triunfante e a peregrina unem-se num só coro para louvar e bendizer ao Senhor pela vocação e ministério dos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo. Movidos por um só e intenso amor por Cristo, ambos, de diferente formas, abraçaram a causa de Jesus, o Reino de Deus, e fizeram dela o sentido de suas vidas. Como colunas da Igreja, fundaram comunidades cristãs, unidas pelo Espírito Santo. Nós, hoje, alegres, cantamos a Deus nosso hino de louvor por tão grandes testemunhas, enquanto elevamos nossas preces pelo Papa Francisco, que hoje é o sucessor de Pedro e elo de unidade de toda a Igreja.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Depois de termos celebrado o nascimento de São João Batista, festejamos a solenidade de São Pedro e São Paulo, duas colunas da Igreja Católica. Pedro é o fundamento visível da unidade, e Paulo, o símbolo da missão universal. Por isso hoje é o "Dia do Papa ", que, por um lado, é o sucessor de Pedro e pastor de toda a Igreja, e, por outro, é responsável em garantir que a obra de Cristo chegue aos confins da terra e que os cristãos se mantenham unidos por meio dos sacramentos.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Atos 12,1-11): - "Agora vejo que o Senhor mandou verdadeiramente o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus."

SALMO RESPONSORIAL 33(34): - "De todos os temores me livrou o Senhor Deus."

SEGUNDA LEITURA (2 Timóteo 4,6-8.17-18): - "O Senhor me salvará de todo mal e me preservará para o seu Reino celestial. A ele a glória por toda a eternidade! Amém."

EVANGELHO (Mateus 16,13-19): - "Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus."



Homilia do Diácono José da Cruz – 13º DTC - Solenidade de São Pedro e São PauloANO B

"A FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO"

A Festa de São Pedro e São Paulo, que celebramos nesse domingo, nos faz pensar na origem de nossas comunidades. Como tudo começou? Quando foi a primeira celebração, quem fez? Como é que a comunidade cresceu e se desenvolveu para chegar aos dias de hoje? Uma coisa é muito certa: o fundador ou fundadores devem ter feito uma experiência muito profunda com Jesus Cristo, pois sem isso, a comunidade não teria um alicerce, alguém em quem apoiar-se para poder crescer e cumprir a sua missão.

Comecemos a falar primeiro de Paulo, cuja teologia, isso é, o modo como ele começou a pensar as coisas de Deus, depois do encontro com Jesus no caminho para Damasco, foi tão marcante na vida das comunidades, que esse apóstolo é mencionado como o segundo fundador da nossa Igreja. De fato, seria difícil pensarmos em uma igreja universal, presente no mundo inteiro, em outras culturas e nações, sem nos lembrar de Paulo, aquele que pregou aos gentios que eram pessoas de outra cultura. Paulo não ficou só na mística, se assim o fizesse, teria fundado uma outra religião e arrastaria milhares de adeptos, porém, sistematizou alguns pontos doutrinários importantes, organizou as comunidades que havia iniciado, e o mais bonito, mesmo pensando um pouco diferente do Chefe dos Apóstolos, manteve-se firme em comunhão com ele e os irmãos da Igreja de Jerusalém, com quem aliás, sempre foi solidário , ao organizar coletas que levava para a Igreja mãe.

São Paulo é o modelo fiel do cristão autêntico, que faz a experiência com Jesus, se encanta com o seu ensinamento, desfaz o seu projeto de vida por causa dele e torna-se um fiel seguidor do evangelho, dando por ele a própria vida como aconteceu em seu martírio.São Paulo sempre acreditou nas comunidades, mesmo quando havia indícios de desunião, problemas internos, contendas e divisões, acreditava nas pessoas e mantinha com elas uma boa relação, mesmo que se tratasse de Pedro, que tinha uma linha mais tradicionalista, causa de algumas divergências bastante sérias entre ambos mas Paulo nunca deixou de amá-lo por causa disso. Ele mesmo manifestava essa sua flexibilidade, quando afirmava que se fazia um com todos e não tinha dificuldade de conviver com as pessoas. Outra coisa importante na pessoa de Paulo, é que ele promoveu uma ação evangelizadora em ambiente hostil á Cristo e ao seu evangelho, era corajoso e nunca teve medo de anunciar a Verdade.

Isso nos leva a pensar que muitas vezes somos negligentes, quando ficamos esperando que as pessoas venham procurar nossa pastoral ou movimento, parece que a gente não se sente seguro para falar do evangelho no meio do mundo, lá onde as pessoas precisam escutar esse anúncio, porque achamos que não vão gostar e que algumas vão ser contra. Se São Paulo pensasse assim, milhares de pessoas, ontem e hoje, não teriam conhecido a Jesus.

São Pedro é chamado o príncipe dos apóstolos, isso é, aquele que iniciou o apostolado, e vemos no evangelho de hoje, porque o próprio Cristo o constituiu chefe da sua igreja. Ele conseguiu enxergar em Jesus algo muito mais do que se falava, o povo via nele um Messias Profeta, comparável a João Batista ou a Elias, outro grande profeta na História de Israel, mas esse pensamento era fruto de uma ideologia, e a era messiânica que todos aguardavam com ansiedade, representava uma nova política, uma inversão do quadro, o Messias era um libertador Político, enviado por Deus sim, porém, com uma missão terrena.

O apóstolo Pedro, que fala em nome do grupo, consegue fazer essa transição, do Messias Histórico e Ideológico, para o Messias Espiritual, ele não era enviado por Deus mas sim o próprio Deus. O que Jesus falava e fazia, todos viam, e a partir disso embalavam o sonho e a esperança de dias melhores para o povo de Israel, mas sempre em uma perspectiva terrena.

A confissão de Pedro manifesta pela primeira vez no meio do grupo, a Fé em uma Salvação que supera toda e qualquer realização humana, onde o homem atinge a plenitude do seu ser, divinizando aquilo que é humano. Cesaréia de Filipe é terra de pagãos, cercado por rochas sobre as quais há edificações habitadas pela elite do império romano. A igreja de Cristo está no meio do mundo, porém edificada sobre a fé professada por toda comunidade, que tem como base a fé professada por Pedro, naquele dia.

Como Pedro e Paulo, que sejamos nessa igreja um apoio seguro para os que ainda não crêem, porque não conhecem a Cristo e acima de tudo, nunca nos esqueçamos de que Jesus Cristo edificou o reino sobre pessoas como Pedro e Paulo, instrumentos aparentemente fracos, mas que pela ação da graça operante e santificante do Batismo que receberam, tornaram-se perenes, transpondo fronteiras e todas as barreiras que separa os homens, para anunciar Jesus Cristo, o Filho de Deus, aquele que plenificou o nosso existir. (São Pedro e São Paulo MATEUS 16, 13-19)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 13º DTC - Solenidade de São Pedro e São Paulo ANO B

“Dia do Papa”

Celebramos São Pedro e São Paulo, duas colunas da Igreja, dois homens de Deus. São Pedro nasceu em Betsaida, cidade da Galileia. Conheceu Jesus através de seu irmão André. O Senhor "fixando nele o olhar" (Jo 1,42), o chamou para segui-lo. Jesus Cristo conquistou São Pedro através do seu olhar cheio de carinho. Aquele olhar do Mestre devia ser arrebatador, convincente, e encerrava a radicalidade de entrega a Deus de maneira bem atraente. Simão é chamado Cefas, pedra, Pedro. De simples pescador converte-se num pescador de homens. Foi o vigário de Cristo na terra, aquele que fez as vezes de Cristo aqui na terra quando ele, o Senhor, já não estava entre os seus em corpo mortal.

Jesus quis instituir a sua Igreja tendo Pedro à frente dela, e isso para sempre. Daí que o ministério petrino foi perpetuado: Pedro, Lino, Cleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleutério, Vítor, …. Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI: 266 papas, 265 sucessores de São Pedro. Uma realidade maravilhosa! Professemos entusiasmados a nossa fé nesta Igreja, que é "Una, Santa, Católica e Apostólica, edificada por Jesus Cristo, sociedade visível instituída com órgãos hierárquicos e comunidade espiritual simultaneamente (…); fundada sobre os Apóstolos e transmitindo de geração em geração a sua palavra sempre viva e os seus poderes de Pastores no Sucessor de Pedro e nos Bispos em comunhão com ele; perpetuamente assistida pelo Espírito Santo" (Paulo VI, Credo do Povo de Deus).

As palavras de São Jerônimo (+420) são taxativas: "Não sigo nenhum primado a não ser o de Cristo; por isso ponho-me em comunhão com a Sua Santidade, ou seja, com a cátedra de Pedro. Sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja. Quem se alimenta do Cordeiro fora dessa casa é um ímpio. Quem não está na arca de Noé, perecerá no dia do dilúvio" (Carta ao Papa Damaso, 2). Observe-se: a Igreja é qual outra arca de Noé, Pedro está à sua frente, atualmente é Bento XVI quem governa a essa grande barca. Perigoso é ficar fora dessa barca em tempos de dilúvios!

Mas, existem dilúvios nos tempos atuais? Deixarei a resposta para os que me lerem, contudo preocupa tanto o fato de que o homem fique eclipsado diante de si mesmo; até parece que se afoga nas próprias concepções em torno à vida, à pessoa humana, à sexualidade e tantos outros temas. Onde está o seu norte? Para onde se encaminha? Escutar a voz do Pedro dos nossos tempos e não deixar-se sufocar pelas novidades que obscurecem a nossa fé em Deus e esfriam o nosso amor a Deus é algo muito sábio. Não! Nem todas as novidades colocam em perigo a nossa fé e o nosso amor. Frequentemente, o mais perigoso é a atitude diante delas. Não podemos ser orgulhosos, aprendamos da nossa Mãe, a Igreja, aprendamos de quem Jesus colocou à frente dessa grande família de filhos de Deus, o Papa, e tenhamos atitudes de acordo com o Evangelho.

Que dizer de São Paulo? São Paulo foi um homem que na pregação do Evangelho colocou todas as suas potencialidades a serviço. Um homem totalmente entregue às coisas de Deus. De perseguidor de cristãos tornou-se um dos cristãos mais fervorosos, homem inflamado de zelo apostólico. Como não identificar por detrás dessas frases um homem magnânimo e cheio do amor de Deus?

"Estou pregado à cruz de Cristo" (Gl 2,19).
"Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim" (Gl 2,20).
"Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gl 6,14).
Nos exorta: "não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-nos afastados da vida de Deus. Indolentes, entregaram-se à dissolução, à prática apaixonada de toda espécie de impureza" (Ef 17-19).
"Contanto que de todas as maneiras, por pretexto ou por verdade, Cristo seja anunciado, nisto não só me alegro, mas sempre me alegrarei" (Fl 1,18).
Em Cristo "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência" (Cl 2,3).
"Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé" (2 Tim 4,7).

É preciso que também nós sejamos apóstolos enamorados, apaixonados por Deus e que façamos o nosso apostolado sempre em unidade com o Papa, sucessor de Pedro, e com todos os bispos em comunhão com ele. Digamos com um homem de Deus do século XX, São Josemaría Escrivá: "Venero com todas as minhas forças a Roma de Pedro e de Paulo, banhada pelo sangue dos mártires, centro donde saíram tantos para propagar no mundo inteiro a palavra salvadora de Cristo. Ser romano não entranha nenhuma amostra de particularismo, mas de ecumenismo autêntico; supõe o desejo de aumentar o coração, de abri-lo a todos com as ânsias redentoras de Cristo, que busca e acolhe a todos, porque amou a todos por primeiro. (…) O amor ao Romano Pontífice há de ser em nós uma bela paixão, porque nele vemos a Cristo".

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 13º DTC - Solenidade de São Pedro e São Paulo ANO B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

Epístola (2 Tm 4, 6-8. 17-18)

Pois eu estou sendo oferecido em libação e a ocasião de minha partida tem chegado (6). Ego enim iam delibor et tempus meae resolutionis instat. OFEERECIDO EM LIBAÇÃO: O verbo spendö [<5743>=delibare] significa derramar, fazer uma libação, e figuradamente, na passiva, de uma pessoa cujo sangue é derramado em morte violenta por causa de Deus. Sai duas vezes no NT. Na segunda é em Fp 2,17:Mesmo que eu seja oferecido por libação [spendomai]sobre o sacrifício. É o mesmo Paulo que fala e que claramente usa com o mesmo sentido o verbo em questão.OCASIÃO: A palavra Kairos [<2540>=tempus] é o momento propício, que temos traduzido por ocasião. PARTIDA: em grego analysis [<359>=resolutio] dissolução, saída, especialmente de um barco, soltar amarras. Paulo está preso em Roma, desamparado de todos sem esperança de libertação. Era o ano de 67 pouco antes de sua morte. Antes desta em que derramou seu sangue por causa do evangelho, escreve esta carta pedindo a Timóteo para que lhe acompanhe nos seus dias finais.

A luta, a boa, lutei. A corrida completei, a fé guardei (7). Bonum certamen certavi cursum consummavi fidem servavi. LUTA: [aglön<73>=certamen] o significado é assembleia, o lugar onde se realiza a assembleia, especialmente para os jogos, a arena dos mesmos, daí a luta, e em geral uma luta ou combate e finalmente uma ação legal ou julgamento. Aqui é claro que Paulo considera sua vida como um combate contínuo contra o mal, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes (Ef 6, 12). O evangelho encontra um inimigo terrível nas verdadeiras forças do mal que não são a carne e sangue [os homens], mas as potestades celestes, ou seja, o próprio Satanás cujo reino Jesus previa como caindo (Lc 10, 18). Só assim descobriremos como a Igreja é perseguida, aparentemente sem motivo ou razão suficiente, como para ser o sangue de seus mártires realmente libados no terreno da História. Isso abre uma porta à interpretação da História do ponto de vista sobrenatural, em que existem momentos como na vida de Jesus dos quais podemos dizer como o Senhor: esta é a hora e o poder das trevas (Lc 22, 63). E Paulo continua sua comparação com o espetáculo dos jogos antigos como se fosse um gladiador que agora entra na corrida das bigas e quadrigas do circo, tudo para conservar sua fé naturalmente na missão de Cristo.

Do resto, me está reservada a coroa da justiça que me dará o Senhor naquele dia, o justo juiz; pois não só a mim, mas a todos os que amam seu advento (8). In reliquo reposita est mihi iustitiae corona quam reddet mihi Dominus in illa die iustus iudex non solum autem mihi sed et his qui diligunt adventum eius.Porém o triunfo final será sempre o triunfo do bem, onde a coroa da justiça, isto é, o prêmio [estamos dentro da arena da competição] a levará unicamente quem tiver competido com a regra do bem-fazer, ou seja, de quem cuidou de cumprir os mandatos do Senhor que constitui a única justiça válida e digna de recompensa. Por isso, a recompensa vem do Senhor, como justo juiz. E esta vitória não é só de Paulo, mas de todos os que amam ou estão esperando esse seu último advento ou presença entre a humanidade.

Pois o Senhor esteve presente e me deu forças para que por meu meio o anúncio fosse completado e o ouvissem todos os gentios e fui libertado da boca do leão (17). Dominus autem mihi adstitit et confortavit me ut per me praedicatio impleatur et audiant omnes gentes et liberatus sum de ore leonis. Nos versículos que faltam nesta leitura Paulo se queixa de sua solidão. Ninguém o visita, ninguém o ajuda. Mas ele encontrou um advogado no Senhor. Foi tal a sua defesa unicamente com a ajuda do paracletos [o advogado defensor prometido por Jesus] que serviu para dar a conhecer o evangelho entre os gentios como aprece na sua defesa diante do rei Agripa (At 25, 13 ss). E diz que foi libertado da boca do leão, ou seja, até agora nessa primeira audiência não foi condenado, como lemos em Sl 22,21: salva-me das faces do leão e talvez tenha em conta o castigo dado a Daniel na cova dos leões do qual o anjo de Jahveh o libertou, mas fizeram pedaços dos corpos de seus inimigos (Dn cap 6).

E me libertará o Senhor de toda obra má e salvará para seu reino, o do céu, ao qual a glória para os séculos dos séculos. Amém (18). Liberabit me Dominus ab omni opere malo et salvum faciet in regnum suum caeleste cui gloria in saecula saeculorum amen. Paulo fala num futuro que ele vê próximo, pois sua morte está já às portas, já que terminou a carreira e finalizou o combate (ver7). E nessa visão, tem confiança de que Deus [o Senhor, pois Cristo é o Senhor Jesus] liberta-lo-á de toda espécie de mal e o levará ao Reino definitivo que segundo Paulo é o que está no céu [epouranios <2032>=caelestis] ou celeste, coisa oposta a epi tës gës [sobre a terra ou terrestre]. Finalmente, termina com uma doxologia: Glória [doxa], honra ou louvor a esse Deus por sempre. A frase eis tous aiönas tön aiönion tem em latim a tradução de pelos séculos dos séculos e podemos traduzi-la para sempre e por sempre, o que geralmente é por sempre jamais.

Evangelho (Mt 16, 13-19) - PEDRO E PAULO APÓSTOLOS

INTRODUÇÃO: Este evangelho é o primeiro IBOPE do qual temos notícia. A pergunta é: Quem dizem os homens que sou eu, como Filho do Homem? (13). Dois são os elementos de estudo principais derivados deste evangelho: Ekklësia e Petros. Estudaremos o texto comparando-o com os paralelos de Marcos 8, 27-30 e Lucas 9, 18-21. É um texto, o de Mateus, fundamental, que ilumina biblicamente a primitiva Igreja tal e como foi fundada por Jesus. Ekklësia, palavra grega que significa assembleia, designa a comunidade nova, o novo povo de Deus, que ia substituir o antigo povo de Israel. Nela, Petros [a rocha], obtem o poder supremo, o chamado primado do reino que dirá a última palavra sobre quem está dentro e quem deve ser expulso da mesma Ekklësia. E esta estrutura seria a definitiva, sem que a morte [os portões do Ades], tanto de Pedro como de seus sucessores, pudesse contra ela. As consequências são essenciais para entender o cristianismo atual, como organização que contribui para a obra de salvação de Jesus.

A PERGUNTA: Tendo chegado então Jesus para as terras de Cesareia de Filipe, perguntou a seus discípulos dizendo: Quem dizem os homens ser eu, o Filho do homem? (13). Venit autem Iesus in partes Caesareae Philippi et interrogabat discipulos suos dicens quem dicunt homines esse Filium hominis.O LOCAL: Mateus diz que era perto de Cesaréia de Filipe. Na realidade, Jesus veio para os distritos [merë], lugares, ou terras que eram dessa cidade. Cesareia era o nome comum de várias cidades. Essencialmente, na Palestina, existiam duas Cesareias: a de Palestina, cidade romana, fundada por Herodes o Grande, situada na costa do Mediterrâneo, 37 Km ao sul do monte Carmelo e 100 Km ao noroeste de Jerusalém; e a Cesareia de Filipe, cidade gentílica, situada no sopé do monte Hermom, no Antilíbano, na cabeceira principal do rio Jordão, 32 Km ao norte da Galileia. Distava 40Km de Betsaida [dois dias de caminho desta última]. A antiga Panion também Pânias, que hoje ainda subsiste com o nome de Baniyas  numa aldeia das fontes do Jordão. Foi helenizada no século III aC e tinha uma população, também na região, que em sua maioria não era judia. Em 20 aC, Augusto a cedeu a Herodes, que nela construiu um grandioso templo dedicado ao imperador, feito de mármore branco, sobre uma rocha que dominava a cidade e a fértil planície da qual era capital a antigas Pânias, assim chamada porque perto da cidade existia uma gruta, dedicada desde tempos remotos, ao deus Pan ou Panion [deus dos pastores e das florestas]. A cidade foi ampliada e embelezada pelo tetrarca Filipe, que lhe deu o nome de Cesareia em honra de Tibério César. Por isso foi chamada de Cesaréia de Filipe. A partir do século II foi chamada de Cesareia de Pânias e no século IV em diante, o termo Cesareia desapareceu, permanecendo apenas o antigo Pânias. O templo sobre a rocha evidentemente era um símbolo que Jesus não devia desperdiçar.

A PERGUNTA:Segundo o evangelho de Mateus, a tradução literal do versículo 13 seria: Quemme dizem os homens ser o Filho do Homem? Esse me [a mim] não está sendo traduzido na vulgata latina nem nas versões vernáculas. Numa linguagem mais elaborada a tradução seria: quem dizem os homens que Eu, o filho do homem, sou? É notório que nas três recensões da pergunta dos três sinóticos a pergunta é a mesma na primeira parte: quem me dizem os homens [as turbas em Lucas] ser? Ou quem dizem os homens que eu sou? Se tomarmos unicamente Mateus, a pergunta seria sobre o Filho do homem. Que ideia tinha a gente sobre esta figura tão frequentemente usada por Jesus como unida ao Reino por ele pregado e presidido? A expressão Filho do homem é semítica e significa em princípio um membro da comunidade humana, especialmente na sua fase de frágil mortal (Is 51, 12 e Jó 25, 6). A expressão Filho do homem se transforma em Daniel (7, 13 +) numa figura simbólica. De um significado plural [o povo dos eleitos] passa a tomar um significado singular como o Filho do homem [um homem] que recebe a glória e o poder que pertencem unicamente a Deus. Por isso foi dado a ele domínio e glória e um reino, de modo que todos os povos, nações e línguas o servissem; seu domínio é um domínio para sempre, que nunca passará e seu reino é um reino que nunca será destruído. Neste último sentido é o título preferido por Jesus, aparecendo setenta vezes na sua boca nos evangelhos. Nesta ocasião, Jesus queria saber qual era a opinião da gente sobre sua pessoa como pregador público de uma mensagem divina. Uma pergunta diretamente unida a seu rol como pregador de um reino que os discípulos esperavam fosse instaurado modo militari em Jerusalém, onde esperavam ir em breve. A figura cume desse reino era, sem dúvida, Jesus que a si mesmo se intitulava como Filho do Homem.

FILHO DO HOMEM: ‘O ‘yiós tou anthrópou é uma tradução grega de BEM ADÁM   que ocorre 120 vezes no AT, das quais 96 em Ezequiel, e que é um sinônimo de homem. Em Ezequiel é a denominação que Javé dá ao próprio profeta e é sempre em vocativo. Representava a humanidade em contraste com Deus e aparentando a porção da mesma que sofreria a ira do mesmo. Grita e geme, ó filho do homem, porque ela[a notícia] será contra meu povo(Ez 21, 11). Nos salmos representa a fragilidade humana em comparação com a fortaleza de Deus (8, 4-6). Porém em Dn 7, 13 aparece um como, ou semelhante a um filho de homem [Kebar mas, ‘os Yiós anthropou, quase filius hominis]. Ele provém do céu e é destinado a possuir o domínio universal. Jesus precisamente o aplica à sua vinda futura em Mt 24, 30 e lugares paralelos. No NT a frase, com uma exceção [quando Estêvão vê o filho do homem], é sempre achada em frases, pronunciadas por Jesus.  Mateus usa a frase 30 vezes, Marcos 14, Lucas 25 e João 13. O ponto crucial é precisamente este trecho do evangelho de hoje.

A RESPOSTA: Eles, pois, disseram: Uns, certamente, João, o Batista, outros porém, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas(14). At illi dixerunt alii Iohannem Baptistam alii autem Heliam alii vero Hieremiam aut unum ex prophetis. Podemos dividir esta em duas partes bem diferenciadas: uma, a geral, dada pelo povo, que praticamente indica Jesus como um homem de Deus, especialmente como um profeta comparável aos grandes de Israel; a outra é a resposta particular dada por Simão Pedro. Vamos estudar ambas as respostas. A) O Batista:A pregação de Jesus e dos discípulos era a mesma  de João: Arrependei-vos, o reino de Deus está próximo (Mt 3, 2) e oferecia um batismo como o do adusto homem do deserto (Jo 3, 22-23). O parecido  parentesco entre o Batista e Jesus (Lc 1, 36) talvez facilitasse a ideia de que Jesus era o Batista ressuscitado. Afirmava-se que João, o Batista, era Elias, pois a Escritura afirmava que o antigo profeta não tinha morrido, mas fora arrebatado aos céus no meio de uma tempestade de fogo (2Rs 2, 11). Essa era a razão pela qual se esperava a sua vinda. B) Eliaspropriamente dito. Segundo a tradição, Elias escreveu uma carta depois de ser arrebatado (2 Cr 21, 12) dirigida ao rei Jorão de Judá por sua conduta idolátrica já que tinha como esposa uma filha do ímpio rei Acab de Israel. Supunha-se, pois, que Elias voltaria antes do dia do Senhor, o dia da vingança e do castigo dos ímpios, dia da ira que está por vir (Jo 3, 7). Em Malaquias 3, 1 lemos: Eu vos envio meu mensageiro. Ele aplainará o caminho diante de mim. Por isso numa data posterior ao livro [após o ano 450 aC] identifica este mensageiro ou anjo, com Elias (seria no acrescentado capítulo 4, versículo 5, que não está no canônico Malaquias). Na sua complicada alegoria animalística da História, o livro apócrifo de Henoc (século II aC), descreve a aparição de Elias antes do juízo e da aparição do grande cordeiro apocalíptico. Isto é importante, visto que João falava do Cordeiro de Deus (Jo 1, 29). Em Eclo 48, 10, temos outra referência do século II aC: Tu que fostes designado nas censuras para os tempos a vir, para aplacar a cólera antes que ela se desencadeie, reconduzir o coração do pai para o filho (Lc 1, 17). Vistos os milagres que Jesus operava, os contemporâneos de Jesus pensavam que se não fosse Elias, que em vida realizou muitos e notáveis milagres, devia ser um profeta redivivo [aneste=despertado] pois a profecia tinha acabado e não era necessária nos tempos messiânicos. C) Jeremias: esta identificação é própria de Mateus, porque como vemos em 2 Mc 2, 4-7 temos Jeremias escondendo a arca e o altar dos perfumes na montanha de Moisés para afirmar: Este lugar ficará desconhecido até que Deus tenha consumado a reunião de seu povo e lhe tenha manifestado a sua misericórdia. E em 2 Mc 15, 13 lemos: Apareceu a Judas um homem de cabelos brancos…Onias disse: Este homem que ora pelo povo e pela cidade santa é Jeremias, o profeta de DeusD) Um profeta. Lucas dirá que é um dos antigos profetas, redivivo. De fato, os judeus distinguiam entre antigos profetas como Josué, Juízes, Samuel, Davi e os profetas compreendidos no reinado de Davi, e os últimos profetas, a começar por Isaías e terminar com Malaquias. A que profeta se referem os discípulos como porta-voz da vox populi? Talvez Samuel que já nos tempos de Saul se mostrou redivivo em 1 Sm 28, 12 diante da médium de Endor? ( ver hades em parágrafo posterior). Ou talvez Moisés, pois a ele comparam a atuação de Jesus como vemos em Jo 5, 45-46 e 6, 31-32. Na realidade, os enviados oficiais perguntam a João se ele não era o Profeta [como conhecido personagem, esperado nos tempos messiânicos] de Dt 18, 15-18. Pois Javé disse a Moisés: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Por isso em 1 Mc 3, 45 aguardavam a vinda de um profeta que se pronunciasse a respeito. Este profeta, semelhante a Moisés, que deveria ser escutado em tudo (At 3, 22), era o próprio Jesus, coisa que o povo admitiu após a multiplicação dos pães (Jo 6, 14)  e na festa dos tabernáculos em Jerusalém(Jo 7, 40).

E VÓS? Diz-lhes: Vós, pois, quem dizeis que eu sou? (15). Dicit illis vos autem quem me esse dicitis. Que ideia têm eles, seus discípulos, do Filho do homem? Ou seja, que papel na vida pública, especialmente na vida religiosa, deve ter Jesus entre seus conterrâneos? Em qual dessas categorias deveria ser incluído o Mestre que foi seu guia e com o qual conviviam durante esse tempo?

PEDRO: Tendo respondido Simão Pedro disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente (16).Respondens Simon Petrus dixit tu es Christus Filius Dei vivi. O apóstolo-chefe é conhecido por diversos nomes entre os autores do NT. A) Simão. O nome original do apóstolo era Simão, forma abreviada de Simeão [famoso]. De fato, seu nome completo, ou como diríamos hoje, seu DNI era Simão bar Jonas [Simão, filho de Jonas], que a vulgata conserva como Simon bar Iona como vemos no versículo 17 do evangelho de hoje. Já o quarto evangelista diz dele que era filho de João [‘yiós Iöannou] (1, 42),  e que a vulgata traduz por filius Iona (?) que o próprio evangelista repete em 21, 15, como Simon Iöannou [Simão de João], com a vulgata agora traduzindo corretamente por  filius Ioannis ou de João. A dúvida existe: o pai era Jonas [pomba] ou João [ favor de Deus]? Talvez a solução seja a diferença entre o aramaico e o hebraico em cuja escrita as consoantes de Jonas e João eram as mesmas mas a pronúncia diferente. Jesus, sempre que fala com o apóstolo, usa o nome de Simão. Além do nome próprio ou, como dizem em inglês first name, temos outros personagens com o nome de Simão no NT: Simão, o zelotes, um dos doze (Mt 10, 4); Simão, o irmão do Senhor (Mt 13, 55); Simão, o leproso de Betânia (Mt 26, 6);  Simão, o fariseu (Lc 7, 40); Simão, o Cirineu( Mt 27, 32); Simão, pai de Judas, o Iscariotes (Jo 6, 71); Simão, mago (At 8, 9) e Simão de Jope (At 8, 18).  Com este nome de Simão é que Jesus o chama  B) Como Pedro em latim Petrus e em grego Petros.Uma única vez aparece na boca  de Jesus como vocativo ( Lc 22, 34). Esta única ocasião mais parece redacional que ipsissima verba Christi [as próprias palavras de Cristo]. Dentro da parte que poderíamos chamar redacional dos evangelhos,  encontramos a palavra Pedro em Mateus 16 vezes, em Marcos 11, em Lucas 9,  em João 9 e 3 nos Atos.  C) Como Simão Pedro em Mateus 3, em Marcos 1, em Lucas 2, em João 17 e  em Atos 4. D) Como Kefas [o aramaico por rocha] aparece em João 1, 42 e nas epístolas de Paulo, nas duas primeiras, Gálatas e 1 Coríntios e  sempre na boca de Paulo. Deste nome podemos deduzir que a palavra usada por Jesus foi Kefas e que, aos poucos, ela foi traduzida ao grego como Petros, com o mesmo significado; pois pedra seria lythos. Em latim petra também significa rocha, tendo o significado de pedra a palavra lápis ou calculusA RESPOSTA: Em nome dos doze, Simão responde: Tu és o Cristo [Ungido], o Filho do Deus vivente. Vamos comparar esta resposta com a de Marcos: Tu és o Cristo (Mc 8, 29), e a de Lucas: O Cristo do (sic) Deus. Ninguém duvida de que a resposta mais breve de Marcos é a saída da boca de Pedro. A de Lucas pode ser redacional ao explicar a unção como feita pelo Deus único e a de Mateus uma explicação, como sempre, de um bom catequista, para entender as palavras do apóstolo e a bênção imediata de Jesus. Qual era o significado de Cristo [Chrestós em grego]? Logicamente devemos recorrer à palavra correspondente hebraica. Significa Ungido que seria a tradução da palavra aramaica Messiah. A palavra Messias era traduzida como Christos em grego (Jo 1, 41). Originariamente era uma referência de Há Kohen há Massiah [o sacerdote, o ungido], ou seja, o Sumo Sacerdote, em cuja cabeça tinha sido derramado o óleo, quando consagrado como líder espiritual da comunidade (Lv 4, 3). Daí que o Messias era alguém investido por Deus de uma responsabilidade espiritual especial. Nos tempos de Jesus, existia a ideia de que um descendente da casa de Davi seria o Messias que redimiria a humanidade; tradição que provinha dos tempos de Isaías. E foi o profeta Daniel em 9, 25 que deu uma nova esperança a esse ungido de Deus. Essa tradição encarava o Messias, não como um ser divino, mas apenas como um homem, um grande chefe, reformador social, que iniciaria uma era de paz perfeita. É o que os anjos prometeram aos pastores ao anunciarem o nascimento do Salvador que era o Messias (Lc 2, 14). O termo Filho de Deus vivo era título Messiânico, assim como Santo de Deus(Jo 6, 69). O nome de Filho de Deus é uma expressão usada por Oséias em 2, 1: Aos filhos de Israel…se lhes dirá filhos do Deus vivo, o qual concorda perfeitamente com a frase de Mateus e a confissão de Marta: Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vem a este mundo (Jo 11, 27). O Santo [consagrado] de Deus, era também um título Messiânico,  como vemos em Jo 6, 6, numa confissão feita pelo próprio Pedro. Talvez esta confissão de Pedro no quarto evangelho seja uma réplica mais ou menos exata da que hoje estudamos em Mateus. Para um judeu, o Messias era produto de uma eleição divina que confiava uma missão especialíssima ao seu ungido. Para um grego ou um romano, o título ia além da personalidade humana do Messias. Sabemos que os judeus admitiram Jesus como Messias [Chrestós], título que para os gentios era traduzido como Senhor [Kyrios]. Pois Deus o constituiu Senhor e Cristo [Kyrion autón kai Christon, de At 2, 36]. Sabia Pedro o significado substancial de suas palavras? Pelo que vemos em 16, 22, não. Porém Jesus se serviu das mesmas para fundar sua Igreja. A palavra Messias significa Ungido. Portanto, dizer tu és o Chirstós [Ungido] é a mesma coisa que dizer tu és o Messias. Quanto às palavras O Filho do Deus Vivente [muito melhor do que vivo], que seria dizer o mesmo que Filho do Deus verdadeiro, porque os outros deuses não existem, não vivem; os autores duvidam se são verdadeiramente palavras de Pedro ou foram acrescentadas pela tradição como parêntesis explicativo para distinguir entre o Messias, filho de Davi, um rei de âmbito regional, e o Messias, Filho do verdadeiro Deus, Senhor, portanto, do Universo. As razões aludidas pelos exegetas baseiam-se fundamentalmente nos lugares paralelos de Marcos [tu és o Ungido] e de Lucas [és o Ungido de Deus]. A declaração de filiação divina tem um amplo significado na tradição judaica, já que todo rei era considerado filho de Deus por virtude de seu ofício, como representante divino perante o povo. Mateus, como seus dois paralelos sinóticos, proíbe aos discípulos que digam a alguém que ele [Jesus] era o Cristo. Se o sentido de Filho de Deus fosse estrito, como o entendemos atualmente, a proibição devia recair sobre esta segunda parte, Jesus como Deus, muito mais escandalosa e até blasfema para os contemporâneos, como vemos que a contemplou Caifás (Mt 26, 36). Existia uma aposição entre Messias e Filho de Deus. O pontífice conjura Jesus, em nome do Deus, do vivo [notar a coincidência dos termos] a que declarasse se ele era o Messias, o Filho de Deus. E então Jesus explica a sua transcendência, dizendo estará sentado à direita do Poder [de Deus] e vindo sobre as nuvens do céu. Com isso, o seu messiado se transforma em Divindade; e, portanto, Caifás entende escutar uma blasfêmia já que um homem se declara divino. Mesmo que a resposta de Pedro que estudamos seja estritamente histórica, nem por isso deveria ter um significado transcendente, como era o de declarar Jesus unigênito do Pai.

RESPOSTA DE JESUS: Então tendo respondido Jesus disse-lhe: Bendito és Simão Bar Ionas porque carne nem sangue te revelou mas o meu Pai o (que está ) nos céus (17). Respondens autem Iesus dixit ei beatus es Simon Bar Iona quia caro et sanguis non revelavit tibi sed Pater meus qui in caelis est. BEMAVENTURADO ÉS: O makarismo indica um favor divino alcançado por Pedro que Jesus explicará posteriormente. A carne e o sangue não te revelaram o que disseste. Carne e sangue é uma expressão semítica para significar o homem todo, considerado como puramente homem. Foi o meu Pai [que habita] nos céus que revelou o Filho a Pedro. Mateus entra na mesma linha lógica que descreve João em 6, 36: Todo aquele que o Pai me der virá a mim. Jesus considerou esta declaração de Pedro de tal importância que afirma duas coisas que, sem dúvida, transformarão a personalidade e o ministério do apóstolo.

PEDRO E A IGREJA: E por isso te digo, que tu és rocha e e sobre esta rocha edificarei minha Igreja. E (os) portões do Hades não prevalecerão sobre ela (18). Et ego dico tibi quia tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam et portae inferi non praevalebunt adversum eam. A) Tu  es Petrus: Com esta primeira declaração, Jesus além de trocar o nome do apóstolo, que agora seria Kefas, como vemos nos primeiros escritos (Gálatas e 1Cor), significa seu novo ministério: ser fundamento de um edifício como a rocha era e é em todos os tempos. O nome de Simão seria trocado e usado em grego como Petros derivado da palavra Petra com o significado de rocha ou penhasco. A tradução do grego é muito mais esclarecedora pela força das palavras. Jesus afirma: sobre esta mesma rocha [taute te petra], ou sobre esta que é a rocha, edificarei a minha Igreja. Segundo as escrituras, a mudança de nome é um claro sinal de uma especial escolha e missão divinas. Abrão se tornará Abraão (Gn 17, 5). Jacó se tornará Israel (Gn 32, 29). Sarai será chamada Sara (Gn 17, 15). Gedeão recebeu o nome de Jerobaal (Jz 6, 32). A exceção do caso de Gedeão, todos os outros recebem diretamente de Deus e, coisa notável, com o nome novo nasce um povo novo em todos os casos: Abraão como pai de uma multidão de nações; Sara como matriz de reis poderosos; Israel foi o pai do povo do mesmo nome. Por isso, podemos deduzir que Rocha é não unicamente uma mudança de nome, mas também implica uma novidade de um povo, o povo da nova aliança, do Reinado do Senhor Jesus, que neste caso Mateus chama de sua Igreja. B) Ekklësia: Sobre esta Rocha edificarei a minha Igreja. As traduções que usam a palavra pedra estão deturpadas. Como vimos anteriormente, elas não dariam o verdadeiro sentido de rocha como fundamento sobre o qual se edifica uma casa. Jesus usa a palavra Igreja [Ekklësia] que só aparece uma outra vez em Mateus 18, 17 com o significado de assembleia e nunca em outros evangelhos. Só nos Atos aparece pela primeira vez em 5, 11 quando todos ficaram com grande temor ao conhecerem os fatos de Ananias e Safira. Igreja está aqui como reino visível, comunidade escatológica [no sentido dos últimos tempos] a substituir a sinagoga nestes tempos finais, constituída pelos fiéis que acreditam em Cristo. Há quem, citando as palavras de Paulo, que só admite um fundamento que é Cristo (1 Cor 3, 11) confunda a rocha com o(s) fundamento(s) e admite que também os outros apóstolos edificam sobre o mesmo fundamento diminuindo assim a importância de Pedro, pois Cristo é a pedra mestra [akrogoniaios e lapis, nada de petron ou petra!] (Ef 2, 20) {ver parágrafo anterior da RESPOSTA DE JESUS}. Mas esquecem que a pedra mestra não era o fundamento mas o remate do arco da qual dependia a estabilidade do mesmo. De fato, o gregoakrogoniaios tem como raiz akron [tope] e gonia [ângulo], sem nada haver com o elemento pedra [rocha]. Neste caso particular de Pedro, Jesus toma do templo de Pan, de mármore branco, edificado sobre uma rocha nas fontes do Jordão, o simbolismo da igreja e do seu chefe, Pedro. C) O Hades: Esta Igreja que começou com Pedro-rocha será a última e eterna como reunião do povo eleito porque as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Se a afirmação de rocha como personalidade de Simão não fosse suficiente, Jesus persiste nos poderes e qualidades do seu apóstolo ao declarar seu papel primordial nessa grande assembleia dos eleitos, cuja perpetuidade descreve com palavras tomadas da tradição judaica. Fala das portas do inferno, ou melhor, portões do inferno. Há duas palavras em grego que são traduzidas por portas, mas que o inglês traduz por Gates [pyle] e doors [thyra]; em português poderíamos dizer portões e portas. O portão [pyle] era a entrada de uma cidade, de um templo, de um cárcere, de um reino. Assim a sublime porta do império turco. Pyle sai 9 vezes no NT. A porta [thyra] é a entrada ou a peça de madeira ou metal que fecha a mesma na casa e os interiores; também os sepulcros e os apriscos. É usada 18 vezes no NT. Chama a atenção que o pyle se usa em plural [pylai]. Porque os judeus admitiam 3 portas na cidade dos mortos, que corresponde ao Hades grego. Também podemos dizer que a maioria dos portões da cidade eram duplos com um espaço no meio para os guardas e os coletores de impostos. O Hadesgrego era o reino de uma ilha na nebulosa e subterrânea parte da terra, da qual era rei Aides[o invisível] ou Pluto [o rico]. Tanto bons como maus continuavam a existir como sombras em constante sede, nesse lugar tenebroso. Dentro do Hades, nesse mundo inferior [inferno] existia também um abismo chamado Tártaro, a região mais inferior da terra em que os malvados eram punidos. No judaísmo temos o Sheol do AT, que corresponderia ao Hades grego e aGehena do NT, esta última identificada com o Tártaro. A essa expressão corresponde o Salmo 9, 14: Tu que me fazes subir das portas da morte. E ao Hades, região dos mortos , Atos 2, 27: Não deixarás a minha vida no Hades e 2, 31: Não foi deixada a vida dele [Cristo] no Hades, que as bíblias traduzem por morte ou região dos mortos. Como conclusão, podemos afirmar que a frase:  as portas do inferno não prevalecerão,  significa que a morte, o fim, jamais chegará a esta Igreja.

AS CHAVES: E dar-te-ei as chaves do Reino dos céus; portanto, se algo atares na terra, está atado nos céus e o que desatares sobre a terra estará desatado nos céus (19). Et tibi dabo claves regni caelorum et quodcumque ligaveris super terram erit ligatum in caelis et quodcumque solveris super terram erit solutum in caelis. Constituída a comunidade de Jesus como uma cidade com seus muros e portões próprios, só existe uma maneira de entrar: abrir as mesmas por meio de chaves, já que o assalto à mesma está descartado no parágrafo anterior [não prevalecerão]. Os levitas passavam a noite na casa de Deus, pois, a eles cabia guardá-la  e abri-la todas as manhãs (1 Cr 9, 27). Sobre o ombro do mordomo Eliacim, filho de Helcias, porá o Senhor Deus a chave da casa de Davi. Ele abrirá e ninguém fechará. Fechará e ninguém abrirá (Is 22, 22). Essa é a chave de Davi que está precisamente nas mãos do Filho do Homem do Apocalipse(3, 7). A similitude é tomada dos costumes da época. Ainda hoje os árabes carregam no ombro uma grande chave para indicar sua autoridade e potestade. A nenhum outro apóstolo foram dadas essas chaves que indicam o total domínio da Igreja. Como no parágrafo anterior, Pedro é singularmente favorecido, além de ser a rocha sobre a qual o fundamento da fé que é Cristo, edificará sua comunidade de crentes. Pedro terá as chaves para indicar quem deve ser incluído ou excluído. Estas chaves têm os seguintes significados: a) O chefe do palácio era quem recebia as chaves (Is 22, 22) e, portanto, era o dignatário de maior hierarquia. b) Se ligadas ao parágrafo posterior, as chaves servem par abrir e fechar, para admitir a entrada dos dignos e para expulsar os indignos. c) Mas também, seguindo o uso rabínico da época, as chaves eram o símbolo do ato de sentenciar questões religiosas como declarar lícita ou ilícita uma conduta. Concordam com esta interpretação as palavras de Jesus aos escribas: Ai de vós legistas, que tomastes as chaves do conhecimento; vós mesmos não entrastes e os que queriam entrar, vós os impedistes (Lc 11, 52). Os rabinos aplicavam a explicação da lei no sentido de declarar algo permitido ou proibido (Jo 21, 13-18). Agora serão Jesus e seus discípulos os que terão autoridade para representar o verdadeiro ensino. Mais: nesse caso o paralelo com as chaves indica que se trata de um verdadeiro poder e não de uma licença de ensino. É o poder que Mateus dá a comunidade na pessoa dos discípulos que têm de declarar quem é culpado de uma transgressão ou pecado, que justifica sua expulsão como membro da comum convivência. Na jurisprudência judaica da época, as chaves significam a faculdade que tinham os juízes de mandar para a prisão ou deixar livre um acusado. Poucos anos mais tarde, Rabi Neconia terminava seus sermões pedindo a Javé que não deixasse atado o que ele tinha desatado, nem desatado o que ele tinha atado; que não purificasse o que ele declarava impuro, nem tornasse impuro o que ele dissera ser puro. Em Mt 18, 18 este poder de excomungar um obstinado é dado, em termos gerais, à igreja, considerada como corpo jurídico, o que aqui é concedido em termos particulares a Pedro, o supremo pastor que deve governá-la em nome e com o amor de Jesus distribuído aos irmãos com dedicação (Jo 21,15-17 e 1 Pd 5,2).

COMENTÁRIOS: O texto é tão claro que os ortodoxos gregos  afirmam que, em suas dioceses, os bispos que confessam a verdadeira fé se integram em Pedro como sucessores e dele herdam o primado. Os evangélicos reconhecem a posição e a função privilegiada de Pedro nas origens da Igreja, mas não admitem sucessor e restringem os poderes à pessoa de Pedro. Os católicos fundamentam sua interpretação no versículo 18: A igreja é imortal, e seu fundamento deve perdurar sempre. Assim como ortodoxos e evangélicos admitem bispos presbíteros e diáconos, como sucessores dos primitivos homônimos, por que unicamente o princípio de unidade deve estar ausente, se é sobre essa rocha que foi fundada a Igreja? Com razão comentava um colega meu no sacerdócio: Nós, católicos, temos a certeza e o orgulho de sermos a única Igreja cristã, edificada sobre fundamento rochoso,  sobre Pedro (ver Mt 7,24). Daí que séculos mais tarde os latinos, com outro primado diferente de Pedro, afirmassem Ubi Petrus ibi Ecclesia Onde está Pedro aí está a Igreja. No caso de não levarmos o livre arbítrio da interpretação das escrituras ao extremo tão radical, que rejeitemos  toda outra autoridade que não seja a acrata da interpretação individual, não se entende por que se admitem sucessores dos apóstolos como são os bispos, rejeitando os sucessores de Pedro, cuja base escriturística é pelo menos tão evidente como a dos bispos, já que em Pedro está fundada a Igreja.

Pistas:

1) Deixemos a primeira pergunta – quem dizem os homens que sou eu?- Porque como está o mundo talvez a reposta muçulmana [um profeta anterior a Maomé] seja a mais próxima daquela dada pelos discípulos em Cesareia de Filipe. Vamos, pois, responder à segunda pergunta: E vós? Hoje não é suficiente a resposta de Pedro: O Messias, o esperado de Israel. A nossa deveria ser: O filho de Deus encarnado, que se entregou e morreu por mim (Gl 2, 20). Por isso, vivemos a vida presente pela fé no Filho de Deus.

2) Na verdade, essa imagem de Cristo que todos nós levamos dentro, desde o batismo, está, ou destroçada, ou escurecida. Como poderemos ser apóstolos se não sentimos sua presença dentro de nós? Como vender um produto do qual não estamos nós, os vendedores, convencidos?

3) A resposta de Jesus dada a Simão indica que a nossa resposta, admitindo seu senhorio total como Messias e como Filho de Deus, é também um dom do céu e que ela merece um makarismo especial. Não seremos os chefes, como Pedro, mas a Igreja estará fundada em nós e nas nossas famílias.

4) Além de Cristo, como figura central, temos Pedro, como figura destacada, por duas razões: por sua fé em Jesus e por sua lista de serviços como chefe da comunidade. A revelação de confessar Jesus como Messias Filho de Deus, é um dom do Pai e isso serve para todos nós. A chefia da comunidade eclesial é própria dele e continua em seus sucessores através dos séculos. A eles pertence o poder das chaves, jurídico e doutrinal, como o entende a Igreja católica. Não foi dado este poder aos outros discípulos e, portanto, devemos distingui-lo do poder evangelizador e de governo dado ao resto dos apóstolos.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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24.06.2018
12º DTC - NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA — ANO B
( Branco, Glória, Creio, Prefácio Próprio – Ofício da Solenidade )
__ "Serás Profeta do Altíssimo, ó menino" __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

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Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Nesta solenidade, a Palavra de Deus apresenta-nos a figura profética de João Batista. Escolhido por Deus para ser profeta, ainda antes de nascer, ele é um “dom de Deus” ao seu Povo. Sublinhando a importância de João na história da salvação, a liturgia não deixa, contudo, de mostrar que João não é “a salvação”; ele veio, apenas, dirigir o olhar dos homens para Cristo e preparar o coração dos homens para acolher “a salvação” que estava para chegar.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Irmãos e irmãs, hoje, dia do Senhor, a Igreja no mundo inteiro recorda solenemente o nascimento de São João Batista. Quis Deus que fosse João Batista aquele que teria a missão de preparar a chegada do Messias. Zacarias e Isabel, pais de João Batista, foram escolhidos para acolher o desígnio amoroso de Deus que se manifestou na vida deste santo casal. Celebremos, pois, jubilosamente, o nascimento de São João Batista e, como Igreja no Brasil, apresentemos ao Senhor os frutos da Semana Nacional do Migrante que se encerra hoje.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Hoje celebramos a natividade de São João Batista, precursor de Cristo e profeta que atuou na passagem entre o Antigo e o Novo Testamento. Ele anunciou o Messias e o identificou em Jesus de Nazaré. Foi ele quem batizou o Autor do batismo e testemunhou a revelação trinitária de que Jesus é o Filho de Deus. Hoje também é o Dia Nacional do Migrante, para lembrar que o nosso País vive uma situação desconfortante e injusta por causa das migrações forçadas daqueles que não conseguem estabelecer-se em um lugar que lhes dê condições de vida digna. A figura de João Batista, habitante do deserto e profeta da justiça, incentiva-nos a rezar pelos migrantes e sonhar com um Brasil onde todos tenham oportunidade de viver dignamente e criar vínculos estáveis com o lugar que é parte da sua história.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Isaías 49,1-6): - "Foi em vão que padeci, foi em vão que gastei minhas forças. Todavia, meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa."

SALMO RESPONSORIAL 138(139): - "Eu vos louvo e vos dou graças, ó Senhor, porque de modo admirável me formastes!"

SEGUNDA LEITURA (Atos 13,22-26): - "Irmãos, filhos de Abraão, e os que entre vós temem a Deus: a nós é que foi dirigida a mensagem de salvação."

EVANGELHO (Lucas 1,57-66.80): - "O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra.."



Homilia do Diácono José da Cruz – 12º DTC - Solenidade do Nascimento de São João BatistaANO B

"COMPLETOU-SE O TEMPO..."

Nossa vida de fé é marcada por muitas promessas, a primeira delas no Batismo, quando pais e padrinhos, falando por nós prometem e se comprometem em professar uma fé viva, capaz de um testemunho autêntico diante do filho ou do afilhado, e na unção crismal prometemos acolher em nossa vida o dom do Espírito Santo e deixarmo-nos conduzir por ele.

O “amém” ao receber a Eucaristia não deixa de ser também uma promessa, de viver sempre em comunhão com Jesus, e nos sacramentos da ordem ou do Matrimônio, prometemos viver um amor total de entrega e doação à Santa Igreja, ou um ao outro, na vida conjugal. Fazemos muitas promessas diante de Deus, antes de receber o sinal sacramental e sabemos muito bem, que por causa dos nossos pecados, muitas vezes quebramos promessas sagradas, quando acontecem as separações, o abandono da comunidade ou de uma vocação religiosa.

Não é de hoje que o homem não cumpre suas promessas diante de Deus, à Bíblia está repleta de relatos onde as pessoas, e próprio povo descumpriu algo prometido diante de Deus. Entretanto, não encontramos uma só palavra ou frase, no antigo ou no novo testamento, onde afirme que Deus deixou de cumprir alguma de suas promessas, feitas para o homem.

A natividade de João Batista, único santo que no calendário da Igreja, tem comemorado o seu nascimento, se reveste de fundamental importância na história da salvação, justamente por ser um elemento divisor entre o tempo chamado das promessas, e o tempo do cumprimento das mesmas.

Há na religiosidade do povo brasileiro uma prática que a modernidade não conseguiu matar: a de fazer promessas! Todas as promessas são feitas para Deus, mas com a intercessão dos santos. A história da Salvação teve início com uma promessa, feita pelo próprio Deus. Ele prometeu através de líderes como Moisés, dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, dos profetas e demais homens e mulheres de Deus.

“Terminou para Isabel o tempo da gravidez e ela deu a luz um filho...”. Este não é um nascimento qualquer de um israelita, Lucas faz questão de salientar que se completou o tempo de gestação, o tempo de espera, e o útero de Isabel, antes estéril e incapaz de gerar vida, tocado por Deus torna-se fértil, simbolizando de repente o coração de todo um povo, cansado de sofrer, de andar por caminhos errados, por atalhos que só levavam à morte, guiados por falsos líderes, toda a esperança que este povo guardava no coração nas promessas de Deus, irrompe agora como um lençol d’água que fura a rocha e flui à flor da terra, para saciar os sedentos de esperança e de vida nova.

João Batista é a resposta de Deus aos anseios do povo, após um silêncio de quase três séculos! Inspirados por Deus, todos os profetas haviam falado deste tempo novo, para consolar e fortalecer um povo desiludido, desmotivado, esmorecido e sem esperança, certamente esses profetas foram tidos como loucos, sonhadores, fantasiosos, mas muitos guardaram no coração essas promessas, e souberam transmiti-las de geração em geração, sem deixar morrer a esperança, o próprio Zacarias, sacerdote do templo e pai de João Batista, faz parte deste povo que espera, seu nome significa “Deus se recordou”.

A sua súbita mudez, longe de ser um castigo, é prenúncio do tempo feliz que com ele irá se iniciar, e ao apresentar a criança no templo, para ser circuncidado como era costume, ele confirma o nome de “João” que significa “Aquele que anuncia” e recuperando a voz, glorifica a Deus que visitou o seu povo.

Que significado tem, para nós cristãos, a celebração do nascimento de João Batista neste 24 de Junho? Se ficarmos apenas na popularidade e nos festejos joaninos típicos desta data, iremos nos divertir muito, mas certamente não iremos aprender nenhuma lição.

O nosso povo, tanto quanto aquele povo de Israel, em meio aos sofrimentos físicos e morais, também têm guardado no coração essa esperança, de que um dia o bem supremo irá triunfar sobre as forças do mal, é verdade que conforme os dias vão passando, as vezes o desânimo vai tomando conta do coração de muitos que perderam a crença em Deus, no amor e na própria vida, são certas promessas mirabolantes que nunca se realizam, são líderes charlatães que iludem, enganam, roubam. São lideranças religiosas que não cumprem e nem honram seu papel de ministros de Deus, criando uma religião fantasiosa, que explora e cria tantas ilusões.

João vislumbra algo que ninguém tinha ainda vislumbrado: que o reino já estava no meio dos homens, na pessoa e na missão de Jesus de Nazaré. Anuncia a necessidade de uma mudança de mentalidade e de coração, para acolher este reino novo, que não se fundamenta em mentiras e fantasias, mas na Verdade que é Jesus Cristo, o Cordeiro que tira o pecado do mundo.

Olhando para a origem de João, seu nascimento e a missão de precursor do Messias, que Deus lhe confiou, podemos refletir sobre tais acontecimentos à luz do evangelho, e mais do que refletir, já está na hora de vivermos esse evangelho, que fala de um tempo novo, de um reino que já está entre nós e que consegue restituir ao coração humano toda essa Esperança que é Jesus de Nazaré, pois como João Batista, todos nós nascemos para ser os portadores e anunciadores dessa Boa Nova, ao homem descrente deste terceiro milênio.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 12º DTC - Solenidade do Nascimento de São João Batista ANO B

“Valor das dificuldades”

Se fosse montada uma loja de dificuldades, creio que ninguém se aproximaria para comprar alguma dificuldade, talvez as pessoas se aproximassem tão somente para ver a curiosa existência de uma loja de dificuldades. A publicidade poderia até ser muito boa, mas mesmo assim “comprar uma dificuldade” não seria muito atraente. Mas será que as dificuldades, tentações, provações têm algum valor? Essa pergunta é importante, pois se não compreendermos o valor das dificuldades viveremos um cristianismo adocicado. No cristianismo as dificuldades têm valor já que a cruz tem valor. O Senhor nos salvou por suas dificuldades, por sua cruz.

É muito importante também entender o valor das dificuldades para que não tenhamos “mentalidade de estojo”: bem práticos. Uns servem para guardar canetas, lápis, borrachas, apontadores; outros, para guardar os CDs; as moças têm estojo para guardar a maquiagem; certos profissionais têm um para guardar as ferramentas. A vida, no entanto, não é como um estojo. Caso fosse, tudo se encaixaria perfeitamente: “quero fazer um curso de informática, curiosamente nestes dias apareceu uma equipe na minha escola oferecendo um gratuitamente”, “queria viajar para a Europa; por esses dias apareceu um sorteio na minha quadra e, curiosamente, fui sorteado”, “gostaria de almoçar fora hoje e, ainda que faz tempo que ninguém me convida, exatamente hoje três pessoas me chamaram e me deram a possibilidade de escolher o restaurante”.

“Infelizmente”, as coisas não são assim nem acontecem dessa maneira. As pessoas que tem mentalidade de estojo, geralmente ficam muito irritadas com qualquer coisa: se o marido chega tarde em casa… que drama: “ele estava com outra”; se eu durmo no mesmo quarto com o meu irmão e ele chega tarde e acende a luz… outra drama: “nesta casa já não se pode viver” (observe-se o exagero!); se alguém me dirige uma crítica… para quê? “ninguém gosta de mim, ninguém valoriza o meu trabalho, ninguém me entende”.

O Senhor está ao nosso lado, ainda que pareça que se encontra dormindo. Clamemos, portanto, para que ele nos salve e nos liberte de nossas angústias, temores, preocupações. Diante de todas essas dificuldades, especialmente diante da agitação interior, ele nos repete aquilo que disse ao mar agitado: “silêncio! Cala-te!”. As nossas preocupações não costumam resolver os nossos problemas. O que precisamos ter é uma atitude de filho, de filha de Deus. O Senhor cuida de nós, seus filhos. Não nos esqueçamos de que, depois da agitação, da tentação, da provação seguir-se-á uma grande calmaria, a bonança, a felicidade, já vivida aqui e sendo que um dia a teremos eternamente no céu: seremos felizes para sempre!

Para que queixar-se tanto? O melhor que podemos fazer é clamar o Senhor que está ao nosso lado e suplicar-lhe: “Senhor, socorre-nos!” e ter confiança esperando em seu amor e bondade. Fora a impaciência de quem considera a Deus como se fosse um robô pronto a servir a todos os caprichos e a todos os pedidos a qualquer momento! Parece que só desejamos que Deus assine em baixo dos planos que nós mesmos fizemos, e ficamos bravos se ele muda algo. Muitas vezes esquecemo-nos também que Deus quer fazer-nos crescer através do sofrimento e o verdadeiro bem para nós será esse crescimento que Deus quer promover em nós através da dor e das dificuldades da vida. Revoltamo-nos sem motivo ou pelo menos desmedidamente. Peçamos a Maria, a mulher forte, para que nos ajude em todas as circunstâncias. De fato, esses filmes que apresentam a Santíssima Virgem chorando desesperada, não retratam a verdade da calma, da serenidade e da paz que reinava na alma da Santíssima Virgem. Claro que era dolorosíssimo ver o seu querido Filho Jesus lá na Cruz, mas sabia ser este o plano de Deus. Faça-se!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 12º DTC - Solenidade do Nascimento de São João BatistaANO B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (At 13 e 22-25)

INTRODUÇÃO: A perícope de hoje é parte do discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia. Feitas as leituras da Lei e dos profetas, seguindo a invitação do chefe da sinagoga, Paulo pede a palavra e pronuncia um discurso, que sem dúvida é o paradigma com o qual ele se dirigia aos judeus da diáspora. Dentro do discurso, a figura do Batista, conhecida no mundo israelita, é chave para entender a missão de Jesus a quem seu arauto proclamava ser o Messias.

DAVI COMO MODELO DE SERVO DE DEUS: Suscitou-lhes o Davi como rei, do qual também disse testemunhando: Encontrei Davi, o de Isaías, homem segundo meu coração, que fará todas as minhas vontades (22). Suscitavit illis David regem cui et testimonium perhibens dixit inveni David filium Iesse virum secundum cor meum qui faciet omnes voluntates meas. A palavra da Escritura, como profecia ou palavra de Jahveh, era a base da argumentação dos doutores da Lei. E Paulo usa essa palavra neste seu discurso para acreditar o título de Messias de Jesus. Implicitamente cita 1 Sam 13, 14 no início do versículo que não é lido como epístola no dia de hoje: tendo removido Saul. Assim o declara o texto de Samuel: Agora não subsistirá o teu reino; já tem buscado o SENHOR para si um homem segundo o seu coração, e já lhe tem ordenado o SENHOR, que seja capitão sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o SENHOR te ordenou. A desobediência é a causa do pecado, pois coloca o homem na frente de Deus e orgulhosamente se atreve a pronunciar o rebelde não serviam. Por isso no Sl 89, 20 lemos: Achei a Davi, meu servo; com santo óleo o ungi. E será de Ciro de quem Isaías declarará que cumprirá todas as vontades de Jahveh e por isso o chama de meu pastor (Is 44, 28).

DE DAVI NASCEU JESUS: Deste, do sêmen, o Deus, segundo a promessa, suscitou para Israel como Salvador, Jesus (23). Huius Deus ex semine secundum promissionem eduxit Israhel salvatorem Iesum. SÊMEN [sperma <4690>=semem] com o significado de semente de um vegetal como em Mt 13, 24: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Pode ser o esperma o DNI que é transmitido pelo varão como em 1 Jo 3, 9: Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele. Finalmente e este é o sentido que encontramos neste versículo: significa descendência como em Mt 22, 24: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará o seu irmão com a mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ou seja, da descendência de Davi nasceria o SALVADOR [sötër<4990>=salvator] em hebraico Jeshua <03442>=Iësous [Jahveh é salvação] que a Setenta traduz por Sötër e a Vulgata por Salvator, e também Mashiah <04899> [ungido] Christos<5547> em grego e Christus em latim.

PREGAÇÃO DO BATISTA: Havendo João pregado antes da presença de sua manifestação, um batismo de conversão a todo o povo de Israel (24). Praedicante Iohanne ante faciem adventus eius baptismum paenitentiae omni populo Israhel. PRESENÇA [prosöpon<4383>=facies]: o significado material é rosto, cara, como em Mt 6, 16: Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos. Mas em sentido figurado é presença, comparecimento pessoal, como em Mt 11, 10: Eis que diante da tua face envio o meu anjo, ou em Lc 2, 31: A qual [salvação] tu preparaste perante a face de todos os povos. A face é um semitismo que pode ser suprimido e dizer: perante todos os povos, e no nosso caso antes de sua MANIFESTAÇÃO [eisodos<1529>=adventus] com o significado de entrada, acesso, entrada em cena, que temos traduzido por manifestação, se deixar conhecer, se deixar ver em público; assim em 1 Ts 1, 9: Eles mesmos [os gregos] anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco. A manifestação é a do Messias, o Cristo, ou ungido, que João negava ser (Jo 1, 20). João pregava um batismo de CONVERSÃO [metanoia<334>= paenitentia]. Naqueles tempos todos sabiam que João foi uma figura venerada, como foram os profetas no AT. Unicamente os chefes dos sacerdote e os senadores do povo duvidaram do batismo de João (Mt 21, 25). Era um batismo de arrependimento [methanoia], ou conversão, diferente do batismo de perdão [afesis] dos pecados  que era próprio de Jesus, quem foi elevado a Príncipe e Salvador (At 5, 31). Podemos dizer que o batismo de João era de predisposição para que Deus perdoasse o pecado (Mt 3, 11) e preparasse os corações reconduzindo os filhos de Israel, ao Senhor seu Deus, …conduzindo os rebeldes a pensar como os justos, a fim de formar para o Senhor um povo preparado (Lc 1, 16-17). Já o batismo de Jesus era o instrumento do perdão e da reconciliação, pois batizará no Espírito Santo (Mc 1, 8).

O TESTEMUNHO: Como, pois, completou João sua carreira, dizia: quem vós supondes ser não sou eu, mas eis que vêm após mim de quem não sou digno desatar as sandálias dos pés (25). Cum impleret autem Iohannes cursum suum dicebat quem me arbitramini esse non sum ego sed ecce venit post me cuius non sum dignus calciamenta pedum solvere. O Batista anuncia sua missão: ele não era o esperado (Mt 11, 3), mas quem devia preparar o caminho (Lc 3, 4), que basicamente consistia em viver a caridade e a justiça (Lc 3, 11-14). Esse, que todos pressentiam, viria após João e era tão importante que nem o posto de ínfimo escravo pretendia João como discípulo e servidor (Lc 3, 16), pois era próprio do discípulo desatar a correia do Mestre quando chegava em casa após uma caminhada pela cidade.

EVANGELHO (Lc 1, 57-66.80)

INTRODUÇÃO: A circuncisão era o sinal da Aliança de Jahveh com Israel: Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo homem entre vós será circuncidado (Gn 17, 10). Por isso, Jahveh promete: E eu vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o SENHOR vosso Deus, que vos tiro por debaixo das cargas dos egípcios (Êx 6, 7). Eu serei teu Deus e tu serás meu povo. Israel adotou o rito que era realizado aos oito dias do nascimento (Gn 17, 11 e Lv 12, 3). Povos antigos também realizavam o rito que tinha para eles outro significado: entrada na comunidade como adulto ou preparação para o matrimônio. Em Israel o escravo ou o alienígena só formavam parte do povo através da circuncisão (Êx 12, 44 e 48). Mas parece que durante a travessia do deserto [40 anos] não houve circuncisão, de modo que unicamente em Guilgal Josué obrigou a todos a circuncidar-se. No tempo da perseguição selêucida, a circuncisão constituía o sinal distintivo do judeu fiel (1 Mc 1, 15). No tempo de Jesus, a circuncisão era obrigatória, até tal ponto que os chamados judaizantes queriam que a circuncisão fosse a porta para entrar na Nova Aliança. E foi precisamente Paulo que entendeu ser um rito caduco substituído amplamente pela fé e o batismo (Rm 3, 28-30). Jesus, nascido de mulher também nasceu sob  a Lei (Gl 4, 4) e foi circuncidado, tomando o nome  de Jesus (Lc 2, 21). O relato de hoje é o do nascimento do Batista, acompanhado de fatos milagrosos e extraordinários que indicavam a intervenção divina no nascimento do menino. A leitura deixa de lado o canto de Zacarias e nos oferece num versículo extremamente conciso uma breve história da infância do Batista.

O PARTO: A Isabel, pois, se cumpriu o tempo de dar à luz e teve um filho (57). Elisabeth autem impletum est tempus pariendi et peperit filium. O relato é normal. ISABEL, como uma mulher comum, cumpre os tempos e modos de ser mãe. Foi um parto normal, segundo as leis biológicas da espécie humana. Como os nomes são parte importante da vida no AT vejamos o significado de Isabel em grego Elisabet [<1665>= Elisabeth]. Tomado do hebraico Elisheba’ <0472>= aquele a quem Deus [El] é juramento [savah=jurar] ou em termos mais populares, servidor de Deus, porque unicamente Deus é a razão de seu compromisso. O nome aparece em Êx 6, 23: Aarão tomou por mulher a Isabel, filha de Aminadab, irmão de Naasson; e ela deu-lhe Nadab, Abiú, Eleazar e Itamar. Foi, pois, a mulher de Aarão, o primeiro Sumo Sacerdote e mãe dos primeiros sacerdotes do povo em Israel. Era uma mulher dedicada ao serviço de Deus através do serviço prestado ao marido e aos filhos.

ADMIRAÇÃO DOS VIZINHOS: E ouviram os vizinhos e os seus parentes porque magnificou (o) Senhor sua misericórdia com ela; e se regozijavam com ela (58). Et audierunt vicini et cognati eius quia magnificavit Dominus misericordiam suam cum illa et congratulabantur ei. O parto foi normal, mas não a gravidez e gestação; pois, como disse Lucas, não era idade para ter um filho porque minha mulher é avançada em idade (Lc 1, 18). VIZINHOS [periokoi<4040>=vicini] é um ápax, facilmente entendido, pois tem como componentes peri [ao redor] e oikos [casa]. PARENTES [syggeneis <4773>=cognati] a palavra sai 13 vezes no NT, a maioria das vezes (5) em Lucas e unicamente em Marcos uma vez (6, 4); em João uma vez (18, 26); uma nos Atos (10, 24) e 4 em Romanos. Especialmente, Maria era parenta de Isabel como diz Lucas em 1, 36. Contrariamente às línguas semitas, o grego, admite além de irmãos [adelfos <80>=frater] outros vocábulos para os diversos parentes. Do fato de que Lucas  usa syggenës dizem os evangélicos que em 8, 20: Estão lá fora tua mãe e teus irmãos, que querem ver-te, mãe e irmãos devem ser tomados no sentido grego e consequentemente Maria teve mais filhos ou eles eram filhos de José, que casou com Maria uma vez viúvo. Mas, segundo Marcos (15, 40), estavam ao pé de cruz Maria [irmã  de sua mãe segundo João (19, 25)] que era a mãe de Tiago e José, os dois irmãos de Jesus  em Mt 13, 55 e Mc 6,3. Esse Tiago é chamado o menor para distingui-lo do maior o filho do Zebedeu e irmão de João (Mc 1, 19). Duas questões para poder aclarar este mistério dos irmãos de Jesus: 1) Como na mesma família de irmãos pode haver duas mulheres com o mesmo nome de Maria? (Mc 6, 3 e Mc 15, 40 que João chama de mulher de Clopas). 2) Os filhos de Maria de Clopas, irmã de Maria, a mãe de Jesus, são os mesmos Tiago e José de (Mt 13, 55 e Mc 6, 3) que os filhos de sua irmã, também chamada Maria em Mt 27, 56 e Mc 15, 49? Ou são filhos de José e Maria? Uma reflexão final: Nos primeiros capítulos, Lucas não depende de nenhum outro evangelho e escreve livremente. Logo no resto do evangelho, ele escreve tendo em vista tradições e até escritos que não se atreve a mudar. Por isso usa syggenës nos primeiros capítulos e usará adelfos nos capítulos comuns com os outros sinóticos. MAGNIFICOU [emegalynen<3170>=magnificavit] do verbo megalunö, magnificar ou fazer grande como costumavam fazer os fariseus com as filactérias de seus mantos: alargam as franjas das suas vestes (Mt 12, 5). E em sentido figurado exaltar, glorificar, louvar e elogiar. Como vemos é o sentido material de engrandecer ou alargar a MISERICÓRDIA [eleos<1656>=misericordia]: o grego é mercê, clemência, compaixão, piedade. De fato, segundo o pensar de Maria, a relação de Deus com o povo de Israel é um ato contínuo de misericórdia: Para manifestar misericórdia a nossos pais, e lembrar-se da sua santa aliança (Lc 1, 72). Misericórdia que é também a base da relação de Deus com os homens, segundo Paulo: Para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: Portanto eu te louvarei entre os gentios (Rm 15, 9). Um ato de misericórdia divina é um ato de amor de um ser superior [Deus]  que se inclina ante a debilidade e impotência da criatura e ajuda e conforta com bens não devidos por causa da deficiência humana. No caso de Isabel a impotência de conceber foi amplamente remediada pela potência divina. REGOZIJAVAM-SE [synechairon<4795>=congrutalabantur] O nascimento de um menino sempre tem sido motivo de alegria, a não ser nos tempos modernos em que tantas mães se livram por meio do aborto dos futuros bebês. Já em 1, 14 Lucas escreve que o anjo disse a Zacarias: Terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento. O anúncio foi cumprido amplamente entre vizinhos e familiares do velho casal. Isabel já o tinha percebido quando afirmava: Deus foi bom para mim, dizia ela para consigo. Agora já não tenho de que me envergonhar diante de ninguém (Lc 1, 25). Pois a infecundidade era uma espécie de maldição divina para a mulher que estava destinada a dar filhos ao varão como parte imprescindível de seu serviço ao marido.

A CIRCUNCISÃO: E sucedeu no oitavo dia vieram circuncidar o menino e chamavam-lhe pelo nome do pai dele, Zacarias (59). Et factum est in die octavo venerunt circumcidere puerum et vocabant eum nomine patris eius Zacchariam. No oitavo dia era o dia que a Lei marcava para a circuncisão [perytome <4061>=circuncisio, em hebraico mulah<04130> de Êx 4, 26] do varão recém-nascido: No dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio (Lv 12, 3). Respeitados os 7 dias que formavam um número sagrado, era o primeiro dia após esse número, que o menino era consagrado ao povo de Deus. Por isso, o numero sete [sheva’ <07651>] se confunde com a palavra jurar [Shaba<07650>] já que juramento era confirmado com sete vítimas (Gn 21, 28) ou sete testemunhas (Ez 21, 18). ZACARIAS [Zacharias<2197>=Zaccharia] que em hebraico é Zekariah<02148> nome composto de Zekar<0214>= recordar e Yah <03050>=yahveh em forma abreviada. No AT, principalmente entre muitos outros nomes (38 vezes), o de um rei de Israel filho de Jeroboão II (2 Rs 14, 29), um dos príncipes de Judá nos tempos de Josafá (2 Cr 17, e o profeta Zacarias (Zc 1, 1 e Esd 5, 1); e no NT aparece Zacarias como filho de  Baraquias morto entre o templo e o altar (Mt 23, 35). E a compra do campo do oleiro no vale do Hinom atribuído a Jeremias (32, 6-15) por Mateus (27, 9), mas que na realidade foi anunciada por Zacarias (11, 12-13). Segundo o pensar da maioria o nome do menino seria, pois, Zacarias ben Zacarias.

RESPOSTA DA MÃE: E tendo respondido a sua mãe disse: de modo nenhum; mas será chamado João (60). E diziam a ela que ninguém há em tua parentela que é chamado com esse nome (61). Et respondens mater eius dixit nequaquam sed vocabitur Iohannes. Et dixerunt ad illam quia nemo est in cognatione tua qui vocetur hoc nomine Elisabet. A mãe se opôs dizendo que devia ser chamado JOÃO [Iöannës<2491>= Ioannes] do hebraico Yohanan [<03110> = Yahveh há favorecido] sem dúvida como ação de graças pelo benefício recebido ao ser mãe em idade tão avançada. Mesmo assim, os parentes e vizinhos arguiam com o fato de que o nome João era inusitado na família, PARENTELA [syggeneia<4772 >=cognatio] palavra que aparece somente 3 vezes no NT: esta e em At 7, 3 e 7, 14. Conservar o nome era como atualmente conservar o nome familiar. Era a continuação do indivíduo como se fosse uma espécie de vida imortal em momentos em que a ressurreição corporal não estava definida.

O PAI: Faziam  sinais ao pai dele de que queria ser ele  chamado (62). Innuebant autem patri eius quem vellet vocari eum. O Pai estava mudo segundo o anúncio do anjo: Eis que ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que estas coisas aconteçam (Lc 1, 20). Consequência de uma intervenção no momento da aparição do anjo? É provável, porque a Escritura fala em termos de causa primeira quando na realidade as causas segundas são as que operam como em 2 Rs 19, 35, em que devemos provavelmente buscar na contaminação de águas o que o cronista atribui ao anjo do Senhor. Na ciência e na história os autores sagrados falam segundo o sentir comum da época, sem critério científico nem histórico. Por isso, embora Zacarias entendesse as palavras, não poderia se explicar a não ser por sinais.

O NOME: E tendo pedido uma tabuinha escreveu dizendo: João é o nome dele (63). Et postulans pugillarem scripsit dicens Iohannes est nomen eius et mirati sunt universi. TABUINHA [pinakidion<4093>=pugillaris] é o diminutivo de pinax <4094>, de pinheiro, árvore da qual se extraia a madeira para formar a tábua das mesas. O diminutivo aponta às tabuinhas com capa de cera que serviam para tomar notas e para escrever nas escolas as notas dos  escolares por meio de um estilete.  Que dentro do geral analfabetismo da época, Zacarias soubesse escrever e não só ler, como aprendiam os meninos israelitas da época, é lógico, pois Zacarias estava entre as classes privilegiadas, como sacerdote. O nome que escreveu e que era praticamente o oficial, pois ao pai de família se dava o privilégio de escolher e impor o nome do bebê, já que neste ato recebia o mesmo como descendente dele e admitia sua paternidade, em concordância com o que o anjo disse a José sobre o menino Jesus: (Maria) dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Zacarias escreveu o nome: João. E  nada mais tinha a suceder.

ZACARIAS RECUPERA A FALA: Abriu-se então a boca dele imediatamente e a língua dele e falava abençoando a Deus (64). Apertum est autem ilico os eius et lingua eius et loquebatur benedicens Deum. Efetivamente, é agora que se cumpre o anunciado pelo anjo: Não poderás falar até o dia em que estas coisas aconteçam (Lc 1, 20). Porém, como aconteceu no naós do santuário que Zacarias ficou sem voz, agora volta a voz e  a fala neste instante em que escolhe o nome de seu filho. E o velho Zacarias que era um homem justo, cumpridor da  Lei (Lc 1, 6), usou sua língua para agradecer a obra de Deus em sua vida. O hino que Lucas logo porá em boca dele indica o louvor e agradecimento não só dele, o pai,  mas de todo o povo de Israel, porque veio socorrer e salvar o seu povo (1, 68).

A FAMA: E aconteceu temor sobre todos os seus vizinhos; e em toda a região da Judeia se discutiam todos estes fatos (65). Et factus est timor super omnes vicinos eorum et super omnia montana Iudaeae divulgabantur omnia verba haec. Contrariamente ao critério dos modernos estudiosos que intentam desmitificar os evangelhos e recorrem a toda classe de razões e subterfúgios para evitar o transcendente e sobrenatural, os conterrâneos de Zacarias viram nestes fatos a mão miraculosa de Deus e celebravam com TEMOR [fobos<5401>=timor]. É esse temor reverencial que a presença de Deus como autor imediato de um fato suscita em todo crente, como lemos que aconteceu a Zacarias quando viu o anjo à direta do altar do incenso: Zacarias, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele (Lc 1, 12). FATOS [remata<44 87>=verba] propriamente seriam narrações, e daí sucessos comentados ou preservados na memória do povo.

O PORTENTO: E todos os ouvintes as guardavam em seu coração dizendo: que será este menino porque a mão do Senhor estava com ele (66).  Et posuerunt omnes qui audierant in corde suo dicentes quid putas puer iste erit etenim manus Domini erat cum illo. CORAÇÃO [kardia<2588>=cor] era o órgão que hoje chamaríamos de mente. Neste versículo guardar no coração equivale a guardar na memória, como vulgarmente dizemos. Vistos os fatos extraordinários, bem podia o  povo dizer que o braço ou poder de Deus se tinha manifestado no nascimento e, portanto, aquele menino estava destinado a grandes eventos na sua vida.

RESUMO DA INFÂNCIA: O menino, pois, crescia e se fortalecia em espírito e estava nos lugares desabitados até o dia de se mostrar diante de Israel (80). Puer autem crescebat et confortabatur spiritu et erat in deserto usque in diem ostensionis suae ad Israhel. Os versículos seguintes (67-79) não formam parte do evangelho de hoje e constituem o cântico de Zacarias, ou Benedictus. Finalmente temos este último versículo em que a vida do Batista é resumida como um crescimento corporal e um fortalecimento espiritual para o qual o afastamento dos homens foi a presença divina em sua vida. Lucas repetirá a mesma descrição da vida infantil de Jesus (Lc 2, 40) com exceção de sua parte eremítica. A frase de Lucas é tão universal que dificilmente podemos afirmar que João fosse um eremita desde sua infância. Seria na sua vida adulta quando esse retiro fosse realmente factível e real, de modo que Mateus pudesse afirmar: Naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judeia (Mt 3, 1).


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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