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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 26/08/2018 - 21º Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 19/08/2018 - Assunção de Nossa Senhora


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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26.08.2018
21º Domingo do Tempo Comum — ANO B
( VERDE, GLÓRIA, CREIO – I SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "Senhor, a quem iremos nós? Somente tu tens PALAVRAS DE VIDA ETERNA" __

VOCAÇÃO PARA OS MINISTÉRIOS E SERVIÇOS NAS COMUNIDADES

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Depois que Jesus se revela como o pão da vida, somos convidados a fazer uma opção decisiva em nossa vida, que consiste numa adesão incondicional à proposta de Cristo, a qual exige conversão e perseverança. Pedro e os outros apóstolos optam por seguir o Mestre e enfrentar todas as consequências que esta opção traz. Celebrando a Eucaristia, façamos também a nossa proposta de vida de nos tornarmos também corpo dado e sangue derramado por aqueles que mais precisam. Celebremos, hoje, em sintonia com todos os nossos leigos, de forma especial com todos os nossos catequistas, agradecendo ao Pai a dedicação deles no serviço da evangelização.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Neste domingo rezamos pelas vocações para os ministérios leigos e serviços nas comunidades. Trata-se de um chamado de Deus para a missão de anunciar o Evangelho, que é testemunhado no serviço do amor.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Estamos reunidos para no alimentar da palavra e do pão que o próprio Jesus nos oferece. Em momento algum, Jesus adaptou sua pregação ao gosto de seus ouvintes, nem traiu o Reino para agradá-los. Desempenhou sua missão na mais absoluta fidelidade ao Pai e a seu Reino, embora correndo o risco de escandalizar as pessoas e afastá-las de si. Por isso, sua linguagem se tornou, para muitos, dura e incompreensível. O discurso sobre o pão da vida chocou a sensibilidade de todos, levando os ouvintes de Jesus até mesmo a duvidar de sua sanidade mental. Na realidade, Jesus não aceitava ser seguido por quem não quisesse acolher sua mensagem, sem restrições. Por isso, a resposta de Pedro sintetizará a atitude do verdadeiro discípulo do Reino. Só Jesus merece ser seguido, por ter palavras de vida eterna, embora duras de serem assimiladas. As leituras de hoje encerram a reflexão sobre o tema da Eucaristia, interrompido domingo passado com a festa da Assunção. Depois que Jesus insistiu que se deve comer seu Corpo e beber seu Sangue, muitos discípulos se afastaram dele porque não acreditavam e diziam: "Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?" E Jesus se volta para os doze e pergunta: "Vocês também querem ir embora?" Temos então uma escolha para fazer: ou ficamos com o Senhor, assumindo as conseqüências dessa escolha, que são vida de Deus, força de Cristo e também sacrifício, perdão, misericórdia; ou vamos atrás dos outros deuses, como nos diz a primeira leitura, e que são prazeres, orgulho, egoísmo. Devemos responder como São Pedro: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna". É a Eucaristia o ponto de união ou divisão. Ou ficamos com o Senhor, comendo sua carne e bebendo o seu sangue, ou vamos por outros caminhos. Não há meio termo. Hoje, no mês vocacional, celebramos o dia do leigo. É aquele que consagra sua vida a serviço do evangelho, pregando em todos os lugares, com o exemplo e a palavra, a mensagem de Jesus. Como político, dentista, operário, professor, ele é a voz e a mão de Deus. De modo todo particular, rezemos pelos nossos catequistas que trabalham diretamente na evangelização...

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Josué 24,1-2.15-18): - "Nós também, nós serviremos o Senhor, porque ele é o nosso Deus"

SALMO RESPONSORIAL 33(34): - "Provai e vede quão suave é o Senhor!"

SEGUNDA LEITURA (Efésios 5,21-32): - "Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne."

EVANGELHO (João 6,60-69): - "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre."



Homilia do Diácono José da Cruz – 21º Domingo do Tempo Comum – ANO B

"A QUEM IREMOS?"

No colégio onde estudei, nas aulas de Educação Física, vez em quando o Professor nos exercitava com a prática de futebol, inclusive ele próprio atuava em uma das equipes. Não era um "racha" qualquer daqueles que jogávamos nos finais de semana, mas o professor, ao escolher a sua equipe, não considerava muito a habilidade do atleta, mas sim a sua disposição física, o seu esforço pela equipe, ele era rígido na disciplina, exigia o máximo de cada um, nas disputas de bola, na marcação, na estratégia do ataque, no seu time ninguém "empurrava com a barriga" ou fazia corpo mole. Nesses coletivos, a equipe disciplinada do "Sêo Armandão", via de regra superava o time adversário, onde às vezes atuavam os "craques" da escola, pois apregoava sempre, que um time vencedor deve saber aliar habilidade, disciplina e uma boa técnica, capaz de mudar a estratégia quando necessário. Os alunos do colégio o chamavam de "Marechal", ele era por aquele tempo um Felipe Scolari, e em competições escolares abertas, sua equipe conquistou muitos troféus. Interessante que os que se achavam "craques", não gostavam muito dessa "linha dura" do Professor.

Lembrei-me do "Sêo Armandão", quando refleti esse evangelho onde alguns discípulos de Jesus começaram a "afrouxar" diante das suas exigências, querendo fazer "corpo mole" e "empurrar com a barriga" os seus ensinamentos e a Verdade por ele pregada. Também hoje, nós cristãos, muitas vezes queremos viver um cristianismo arraigado na carne, sem encarar o desafio de vivê-lo em Espírito, e foi exatamente para isso que o Verbo Divino se encarnou em nosso meio, para que fosse possível ao homem carnal, viver no Espírito, sem ser um alienado. Praticar um cristianismo a partir apenas da carne, isso é, das realidades meramente humanas, é a grande tentação dos discípulos de hoje, onde muitos vivem uma religião de normas e preceitos, achando que basta cumprir tudo o que a Santa Igreja ensina, e se algo der errado, a culpa é da Igreja, poderíamos chamar a isso de tradicionalismo, pois na verdade era esta a posição dos fariseus e Doutores da Lei, que não aceitavam o advento da Salvação, presente na pessoa de Jesus de Nazaré.

A verdadeira prática do Cristianismo nos traz sempre o desafio da ascese, que significa fazer uma experiência profunda com Jesus na nossa vida, sem tirar os pés do chão da nossa história, e essa experiência querigmática só é possível quando nos abrimos ao Espírito do Senhor, presente em nossa fraqueza, e, portanto, o que está no centro do ensinamento de João às suas comunidades, é que nenhum recurso humano, científico, social, político ou até religioso, pode nos levar a essa ascese, só se aproxima dessa Verdade absoluta chamada Jesus, aqueles que o Pai atrair.

Em João 6, 51 encontramos a afirmação que deu margem a discussão de Jesus com os Judeus "Eu sou o pão vivo descido do céu,. Quem comer desse pão viverá eternamente.E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo".

No evangelho desse domingo, a discussão acontece no próprio grupo de seguidores, se entre os judeus, haviam aqueles que não acreditavam, era até compreensível, entretanto a situação torna-se mais grave quando entre os próprios seguidores, há discípulos que não têm fé, pois acham que ninguém consegue escutar a palavra, que é dura demais.

Dentro da Igreja há muitas maneiras, e todas elas válidas, de se fazer essa experiência com Jesus, entretanto, é preciso muito cautela para não se criar um cristianismo mais light, menos intransigente e radical, onde a gente possa fazer parte da Igreja, mas sem ter que vestir e suar a camisa, o engajamento pastoral ou a adesão a um Movimento ou Associação, pode sim gerar em nós a ilusão de que aquela prática é suficiente, e dependendo do modelo eclesiológico, ficaremos ancorados apenas na carne, nos recusando a "levantar vôo na ascese do Espírito" ou então tiramos os pés do chão, ignorando a carne que sustenta o Espírito, mergulhando na perigosa fé da magia. E quando se trata de coerência naquilo que se crê, Jesus não é de ficar alisando o "ego" dos seus seguidores, mas concede a liberdade da escolha "Vocês também querem ir embora?". Pedro, falando em nome da comunidade, reconhece aquilo que os judeus rejeitam, nenhuma proposta ou ideologia humana, pode conduzir o homem a plena realização de si mesmo, só Jesus nos faz enxergar além dos horizontes humanos, comer a sua carne significa a aceitação radical da comunhão com sua pessoa, seu ensinamento e seu projeto de vida.

O apóstolo Pedro aceita viver nessa ascese do homem espiritual, mesmo ainda estando na realidade da carne, em outras palavras, aceita Jesus como Deus, Senhor e Salvador, de maneira incondicional "A quem iremos Senhor?" Tu tens palavras de Vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus". Enfim, o cristianismo será sempre uma proposta que nos obriga a fazer uma escolha e tomar uma decisão, a favor ou contra Jesus. Na vida de Fé não dá para "empurrar com a barriga" e fazer "corpo mole", pois corre-se o risco de perder o "jogo", que Cristo já venceu, com a encarnação, paixão, morte e ressurreição....(21º. Domingo do Tempo Comum)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 21º Domingo do Tempo Comum — ANO B

“É Jesus Cristo. Adoremos!”

É Jesus Cristo. Adoremos!

Jesus deixa bem claro que ir ao seu encontro é uma graça concedida pelo Pai e, posteriormente, Pedro reconhece-o com essas palavras: “Tu tens as palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Precisamos ir ao encontro de Cristo, considerando esse encontro como um dom, uma graça, um ato de bondade do nosso Deus. Comungar Jesus não é um direito dos fiéis, é um dom. Por isso, nós recebemos a Comunhão, não a tomamos por nós mesmos.

Jesus tem palavras de vida eterna, ele é o Pão que nos alimenta, ele está entre nós em todas as celebrações eucarísticas e, consequentemente, em todos os sacrários da terra. Guardemos, por tanto, as duas atitudes primárias que todo ser humano deve ter diante de Deus presente entre nós: silêncio e adoração. O silêncio é já o começo da adoração: ao reconhecermo-nos criaturas e ao admirarmos a condescendência do nosso Deus, ficamos sem palavras e… adoramos! Neste sentido, é de grande utilidade ter em conta um parágrafo do “Credo do Povo de Deus” (1968) do Papa Paulo VI (n. 26):

“A única e indivisível existência de Cristo nosso Senhor, glorioso no céu, não se multiplica, mas se torna presente pelo Sacramento, nos vários lugares da terra, onde o Sacrifício Eucarístico é celebrado. E depois da celebração do Sacrifício, a mesma existência permanece presente no Santíssimo Sacramento, o qual no sacrário do altar é como o coração vivo de nossas igrejas. Por isso estamos obrigados, por um dever certamente suavíssimo, a honrar e adorar, na Sagrada Hóstia que os nossos olhos veem, ao próprio Verbo Encarnado que eles não podem ver, e que, sem ter deixado o céu, se tornou presente diante de nós.”

Na Sagrada Hóstia, adoremos o Verbo encarnado, Jesus Cristo! Ele “vem de Deus” (Jo 5,46); “desceu do céu” (Jo 5,50) para salvar-nos, e permanece conosco dando-nos a sua carne (cf. Jo 6,51) em alimento. É Jesus Cristo, Deus e homem. Adoremos! Aprofundemos um pouco mais na adoração que se deve a Jesus Cristo e, portanto, à Eucaristia.

A fé cristã diz que em Cristo há uma única Pessoa, a Segunda da Trindade, que é divina, e duas naturezas, a humana e a divina, que estão unidas nessa única Pessoa divina (Concilio de Calcedônia, ano 451). Santo Tomás de Aquino estuda a adoração na S.Th. III, q. 25. Tomás de Aquino começa por dizer que na honra que se dá a uma determinada realidade há que considerar duas coisas: a realidade honrada e a causa dessa honra. Quanto à primeira: a honra que se deve, por exemplo a uma pessoa, é devida a toda a pessoa, não só à sua mão ou ao seu pé, a uma parte; se por algum motivo alguém dissesse que honra a mão ou outra parte de alguém só o faria em razão de toda a pessoa, pois nessas partes se honraria toda a realidade. Quando à segunda, a causa da honra encontra a sua justificação na excelência da pessoa honrada. E conclui o nosso teólogo: como em Cristo há uma única Pessoa, a divina, na qual estão unidas a natureza humana e a natureza divina, a Cristo se dá uma única adoração em razão de sua única Pessoa.

Contudo, a adoração que se dá à Humanidade de Cristo é adoração de “latria”, isto é, a adoração devida só a Deus, ao qual o homem se entrega colocando sua esperança de salvação? Considerando que a Encarnação é para sempre, ou seja, a Humanidade e a Divindade em Cristo desde a Encarnação nunca se separaram e jamais se separarão, a pergunta pareceria sem sentido. No entanto, pensando apenas na Humanidade de Cristo, é preciso dizer, em primeiro lugar, que a adoração que se lhe dá em razão de sua união à Pessoa divina, é uma verdadeira adoração de “latria”. Ao adorar a Santíssima Humanidade do Senhor, estamos a adorar o mesmo Verbo de Deus encarnado. Nesse sentido, diz São João Damasceno que se adora a carne de Cristo não por causa da carne em si mesma, mas por que está unida à pessoa do Verbo de Deus.

Considerando a Humanidade de Cristo enquanto cheia de todos os dons da graça, devemos-lhe uma adoração de hiperdulia, ou seja, a mesma adoração que se damos às criaturas (a Humanidade de Cristo foi criada). Chegados aqui o leitor poderia assustar-se: Santo Tomás de Aquino diz que se deve adorar às criaturas? Não. Tomás de Aquino simplesmente mostra que na sua época a palavra adoração não tinha o mesmo peso que tem nos nossos dias. Para ele adoração é o mesmo que “honra”. Desta maneira, o determinante não é a palavra “adoração”, mas a “latria”, que é a o tipo de adoração que se deve só a Deus;  a adoração de “dulia” é para ele o que nós hoje em dia conhecemos como “veneração”; finalmente a adoração de “hiperdulia”, traduz-se na nossa concepção como uma “veneração especial”. Um exemplo: cantamos no Hino Nacional referindo-nos ao Brasil as seguintes palavras: “Ó terra amada, idolatrada”. Será que estamos idolatrando a nossa Pátria? Claro que não. Quando dizemos “terra idolatrada” referindo-nos ao Brasil queremos dizer simplesmente que o nosso País é-nos muito querido, estamos simplesmente cumprindo com o quarto mandamente que inclui a amor à Pátria. Que perigo seria ficar só nas palavras sem dar-nos conta do sentido que elas nos trazem! Cada palavra quer significar uma realidade e não podemos simplesmente ficar preso à palavra em si, mas procurar chegar à realidade que essa palavra nos quer transmitir.

É impressionante como Jesus no dia de hoje quis deixar bem claro aos seus discípulos que o que ele estava a falar era algo muito sério: a Eucaristia é o seu Corpo e o seu Sangue, é ele mesmo. E, como sempre, pela verdade Jesus estava disposto a tudo, inclusive a “perder” alguns dos seus, mas não estava disposto a retirar uma só palavra do que ele tinha dito, por mais duras que parecessem: “quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6,67).

É ele mesmo. Adoremos!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 21º Domingo do Tempo Comum — ANO B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA:  Ef 5, 21-32

INTRODUÇÃO: Paulo inicia sua parênese com o amor mútuo entre os esposos para daí transcender sua doutrina ao amor entre  Cristo e a Igreja, que ele declara constituir um grande mistério, porque é um matrimônio em que os dois são como uma só carne. Por conseguinte, deduz o apóstolo, sendo dois em uma só carne, a Igreja e Cristo comunicam seus bens em tudo. A Igreja completa o sacrifício de Cristo como remate da redenção. Os sofrimentos e orações dos fiéis são contados como sofrimentos e orações de Cristo. Cristo vive e sofre em cada um de seus membros. O pleroma de Cristo chega a todos e em todo o tempo. O problema não é tanto a relação marido-mulher como o mistério da relação Cristo-Igreja, comparado a um verdadeiro matrimônio em que os dois são uma só carne.

SUBMISSOS MUTUAMENTE: Subordinai-vos mutuamente em(o) temor de Deus (21). Subiecti invicem in timore Christi. SUBORDINAI-VOS [ypostassomenoi<5293>=subjecti] é o particípio passivo de presente do verbo ypostassö de significado estar sujeito, subordinado, obedecer, como em Ef 1, 22: Sujeitou todas as coisas a seus pés. Mais conforme com o significado desse versículo, está Lc 2, 51: [Jesus] desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. Por isso, pode ser traduzido como obedecendo, ou seja, não queirais ser os mandantes, mas os que a todos obedecem e se sujeitam seguindo a reverência [ev fobö] que a lei divina impõe, como nos diz At 9, 31: Assim, pois, as igrejas em toda a Judeia, e Galileia e Samaria tinham paz, e eram edificadas; e se multiplicavam, andando no temor [tö fobö] do Senhor e consolação do Espírito Santo. Uma variante do latim na Vulgata faz que no lugar de Deus encontremos Cristo, como causa da veneração ou respeito. Devemos pensar que Paulo pede isto mesmo com uma frase bem clarificadora do seu tempo: Sede servos uns dos outros pelo amor (Gl 5, 13). Tudo o qual implica obediência, como diz em Rm 6, 16: A quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis.

OBEDIÊNCIA DAS ESPOSAS: As esposas aos próprios maridos obedecei como ao Senhor (22). Mulieres viris suis subditae sint sicut Domino. ESPOSAS [gynaikes<1135>=mulieres]: na realidade literalmente são mulheres, mas a palavra tem o sentido de esposas, pois, em quase todas as línguas, minha esposa pode se dizer como minha mulher. MARIDOS [andres<435>=vires] Propriamente homens, mas em todas as línguas estão no lugar de maridos ou esposos. OBEDECEI [ypostassesthe<5293>= subditae sint] imperativo presente do verbo ypostassö estar sujeito, subordinado e na voz média se submeter ou obedecer, como Jesus menino a seus pais: E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito (Lc 2, 51). Já em Cl 3, 6, Paulo regula com a mesma norma as relações dentro da família entre os chamados membros fortes – maridos, pais, senhores – e os membros débeis – esposas, filhos, servos. COMO AO SENHOR indica o motivo e a razão dessa obediência. O esposo representa o Senhor Jesus dentro da igreja doméstica que é a família. Aqui devemos ver, em primeiro lugar, o alto conceito paulino do matrimônio cristão completando o dito em 1 Cor 7, 1-9, em que apesar de pôr como modelo a virgindade, admite o matrimônio como uma coisa boa. Agora vê nele a união de Cristo com sua esposa que é a Igreja. Dificilmente podemos encontrar uma relação mais sublime entre duas pessoas que a oferecida por Paulo nesta perícope. Se no Gênesis o homem recebe sua mulher como se fosse seu corpo próprio, aqui Paulo o relaciona como cabeça de um desposório em que deve se entregar pelo bem da esposa como Cristo se doou pela Igreja. A submissão da mulher ao marido não é um ato de escravidão, mas um ato de entrega para que se cumpra o que disse o Senhor: Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos (Mc 9, 35). Contrariamente ao que nos diz o socialmente correto, que é a igualdade do gênero, Paulo apela a uma diferença que ele considera natural e até bíblica: pois o homem foi criado primeiro e a mulher lhe foi dada como ajudante [boethos<998>= ezer< 05828>=adjutor=ajudante]. Não devemos deixar de lado as ideias da época na qual Paulo escreve. Em todas as culturas, a mulher era considerada inferior. Porém, sobre essa cultura, Paulo outorga uma lógica concessão, ao mesmo tempo, que brilhante norma de conduta: obedecer não é uma submissão de escravos mas uma entrega de amor. E nesse amor, quem aparentemente perde, ganha; porque representa a figura pela qual Cristo se humilhou e entregou sua vida. O triunfo não é do mais forte, mas do amor que em geral é a vitória do mais necessitado e mais débil, como a mãe que se dedica mais ao filho enfermo ou mais indigente. Com a igualdade do gênero, a rivalidade, a luta e a violência dominam o ambiente. Com o amor, o outro nos deslumbra e a vontade dele se cumpre pelo serviço que nos exige o amor. Cedemos não à violência, mas ao desejo de agradar.

HOMEM É CABEÇA: Porque o homem é cabeça da mulher, assim como o Cristo é cabeça da Igreja e Ele é salvador do corpo (23). Quoniam vir caput est mulieris sicut Christus caput est ecclesiae ipse salvator corporis. Neste versículo corrobora Paulo o que tinha escrito aos de Corinto: Quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo. Adão como pai, era a cabeça de todo homem natural [psikikos]; mas Cristo com a sua entrega como lytron [resgate] era a cabeça de todo homem novo [pneumatikos] o conjunto dos quais constituía a Igreja. Por isso, Paulo dirá de Cristo ser o Salvador, quem restitui a vida a quem estava morto, o corpo da Igreja agora vive. Da cabeça era, segundo o sentir da época, de onde procedia a vida como diz o Gênesis: E soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente (2, 7).

O EXEMPLO DE CRISTO-IGREJA: Mas assim como a Igreja está sujeita ao Cristo, assim também as mulheres aos próprios maridos em tudo (24). Sed ut ecclesia subiecta est Christo ita et mulieres viris suis in omnibus. Uma vez constituída  a família com a sua hierarquia própria, a obediência da mulher ao marido toma seu exemplo da sujeição da Igreja a Cristo.

DEVER DOS MARIDOS: Os maridos amai vossa mulheres, como também o Cristo amou a Igreja  e entregou-se a si por ela (25). Viri diligite uxores sicut et Christus dilexit ecclesiam et se ipsum tradidit pro ea. Porém, a submissão não é a de um escravo pelo temor, porque os cristãos foram comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens (1 Cor 7, 23). E a única escravidão admitida por Paulo é a voluntariedade do servo de todos, quem sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais (1 Cor 9, 19). Daí que o marido seja, em sua entrega, como o escravo que diz Paulo foi seu sino para ganhar os homens a Cristo. O amor de Cristo pela Igreja será o modelo do amor do esposo pela sua esposa. A imagem do esposo que ama a Igreja tem seu fundamento no AT em que os profetas descrevem a relação de Jahveh com Israel como a de um esposo com sua amada em matrimônio (Jr 3, 14 e Is 54, 6-7), de modo que é frequente a aclamação de adultério para os que adoram outros deuses que não seja Jahveh: Chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina, e de prostituição (Is 57, 3). Do que se faz eco o próprio Jesus declarando: Uma geração má e adúltera pede um sinal (Mt 12, 30). Jesus toma como imagem do Reino as bodas do filho do rei e ele disse de si mesmo que é o esposo, afirmando: podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? (Mt 9, 15).

FINALIDADE: Para que a santificasse, purificando na água lustral, na palavra (26). Ut illam sanctificaret mundans lavacro aquae in verbo. Cristo purificou a Igreja por meio do batismo, comparado aqui com a água lustral. Provavelmente o apóstolo esteja inspirado nos costumes do antigo Oriente onde a desposada, tanto entre os gregos como entre os semitas, embora com ritos diferentes, era lavada e cuidadosamente preparada para ser apresentada a seu novo esposo. A água lustral era feita com as cinzas de uma bezerra sacrificada, misturadas com água e tinham, no conceito dos antigos, o poder de purificação. Poderíamos compará-la com a água benta de nossas igrejas. Ez 16, 9 já fala desta lavagem ao escrever: te lavei com água, e te enxuguei do teu sangue, e te ungi com óleo, falando de Jerusalém. A alusão ao batismo é clara. Pelo que diz respeito à palavra, aparece no evangelho de João 15, 3: Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado. A menção da palavra pode ser explicada pela confissão de fé feita no batismo que acompanhava o mesmo que era uma lavagem por imersão total.

IGREJA IMACULADA: Para apresentá-la a si uma Igreja gloriosa, sem ter mácula, ou ruga, ou algo semelhante; mas para ser santa e imaculada(27). Ut exhiberet ipse sibi gloriosam ecclesiam non habentem maculam aut rugam aut aliquid eiusmodi sed ut sit sancta et inmaculata. Seguindo o modelo de purificação da esposa antes do matrimônio, Paulo diz que quem adorna e limpa a Igreja, sua nova esposa, é o próprio Cristo que a quer GLORIOSA [endoxos<1741>=gloriosa] com o significado também de esplêndida, vistosa. De modo a não ter MÁCULA [spilon<4696>=macula] borrão, mancha; ou RUGA [rutida<4510>=ruga] ou coisa semelhante; mas a quer SANTA [agia<40>=sancta] propriamente consagrada e IMACULADA [amömos<299>=inmaculata] derivada de a [sem] e mömos [mancha, mácula].

O AMOR DOS ESPOSOS: Assim devem os maridos amar suas esposas como seus próprios corpos: quem ama a sua mulher a si mesmo ama (28). Ita et viri debent diligere uxores suas ut corpora sua qui suam uxorem diligit se ipsum diligit. Aqui temos uma citação implícita do Gênesis que em 2, 23 exclama, ao despertar do sono em que Deus formou do seu lado a mulher: Aqui está alguém feito dos meus próprios ossos e da minha própria carne. Por isso, dirá que quem ama a sua mulher a si mesmo ama. Na realidade a felicidade do matrimônio não é a de uma só pessoa, mas a de toda a família se eles buscam o bem comum e não o próprio proveito. Assim se cumpre o dito paulino atribuído a Cristo: Há mais felicidade em dar que em receber (At 20, 35). Jesus, na última ceia, lavou como um escravo os pés dos discípulos e logo disse este comentário: É um exemplo que eu vos dei: o que fiz por vós fazei-o vós também…Sabendo isso, sereis felizes se ao menos o puserdes em prática (Jo 13, 15-17).

O AMOR A SI MESMO: Porque ninguém nunca odiou sua carne senão alimenta e regala como o Senhor à Igreja (29). Nemo enim umquam carnem suam odio habuit sed nutrit et fovet eam sicut et Christus ecclesiam. Sendo dois numa só carne, como diz a Escritura (Gn 2, 24) Paulo argumenta dizendo que ninguém ODIOU [emisësen<3404>=odio habuit] sua carne que em linguagem grega diríamos desprezou ou não cuidou dela. Mas pelo contrário a ALIMENTA [ektrefei<1625>=nutrit] e REGALA [thalpei<2282>=fovet] verbo que significa tratar com carinho, afagar, regalar. Assim faz Cristo, o Senhor com sua Igreja.

MEMBROS DO CORPO DE CRISTO: Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos (30). Quia membra sumus corporis eius de carne eius et de ossibus eius. Esta é a mais inaudita e surpreendente afirmação paulina: É tal a união de Cristo com sua Igreja, que cada um dos membros [melë] da mesma pode dizer: ser carne [sarx] de Cristo e osso [osteon] do mesmo. Tudo com base na Escritura, que no matrimônio diz serão dois numa só carne. Esta afirmação tem uma série de consequências extraordinárias: a comunhão dos santos, a co-redenção dos fiéis, chamados a completar em nossas carnes o que falta às tribulações de Cristo (Cl 1, 24), os méritos dos fiéis, a intercessão dos mesmos e a realidade do que os antigos afirmavam com a expressão christianus alter Christus [o cristão é um outro Cristo]. Esta ideia paulina de sermos parte do corpo de Cristo não é uma explosão repentina de Paulo, mas está bem elaborada em seus escritos como em 1 Cor 6,  15: Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? E em 12, 27: Vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular. E dele mesmo declara: Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte (Fp 1, 20). Nos tempos modernos a vida do Pe. Pio confirma com suas chagas e seu sacerdócio extraordinário esta afirmação paulina que em membros femininos a vemos confirmada com o matrimônio místico entre a criatura e o Cristo Senhor.

  DE DOIS UM: Por isto deixará um homem seu pai  e mãe e se unirá a sua mulher e serão os dois em uma carne (31). Este mistério é grande: Eu, portanto, digo a respeito de Cristo e da Igreja (32).  Propter hoc relinquet homo patrem et matrem suam et adherebit uxori suae et erunt duo in carne un. Sacramentum hoc magnum est ego autem dico in Christo et in ecclesia. Paulo resume nesta frase citada do Gênesis a base da argumentação sobre o matrimônio de Cristo com a sua Igreja. Os dois constituem uma só carne. Finalmente, como num momento de exaltação após considerar tudo com admiração, Paulo explode numa frase de extraordinário assombro: É um grande mistério este de Cristo como esposo de sua Igreja. Por meio dele um fiel que sofre carrega realmente a cruz de Cristo, associado à redenção do Salvador de modo que o sofrimento, aparentemente inútil, se torna o mais valoroso dos instrumentos do Reino, cumprindo-se de modo total a verdade da promessa de Jesus: Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei (Mt 11, 28). A manifestação mística desta verdade está nas vidas que o sofrimento acorrentou na cama da dor: Ana Catarina Emmerick, Marta Robin, Teresa Newman, em que até as chagas de Cristo foram vistas como aconteceu com Francisco e Pe. Pio. Santa Faustina Kowalski declara: bemaventuradas as comunidades que cuidam de seus doentes como se fosse o próprio Cristo.

EVANGELHO : Jo 6, 60-69 - A FÉ QUE ESCANDALIZA

INTRODUÇÃO: Jesus, na sinagoga de Cafarnaum, exorta a procurar pelo alimento que não perece, o pão novo que substitui o maná do deserto. Era a fé no Filho do homem, ou seja, na Encarnação de Deus na raça humana. Porém, a fé não é a única maneira de estar e viver com Jesus. Como o profeta Elias, antes de chegar ao encontro com o Senhor, necessitamos do pão da vida. Se quem crê tem a vida eterna, isto significa que a escatologia já tem começado aqui e agora, que o eterno está dentro do tempo. Nesta segunda parte, além da fé, Jesus oferece um novo alimento: seu corpo e sangue como verdadeira comida e verdadeira bebida. Fé e comunhão que no sacramento recebido se misturam quando o sacerdote apresenta a hóstia consagrada dizendo: o corpo de Cristo. E o fiel responde: Amém; assim é, assim o creio. Neste domingo temos o final com duas reações: a de Pedro, coluna da fé, que encontra nas palavras de Jesus palavras de vida eterna e a dos que não aceitam essa palavra e não admitem o oculto, o mistério dentro da visão natural das coisas. Diante dos mistérios divinos que Jesus revela, a sua palavra é a única razão que nos impele a acreditar e acreditando viver de modo diferente uma vida que estaria longe de nossos propósitos.

O COMENTÁRIO: Muitos, pois, dentre os discípulos dele, tendo ouvido, disseram: Brutal é esta palavra. Quem pode escutá-lo? (60). Multi ergo audientes ex discipulis eius dixerunt durus est hic sermo quis potest eum audire. Temos traduzido por brutal o grego sklhrov <4642> [skleros]  que o latim traduz por durus, difícil de entender ou intolerável, como outros traduzem, com os requisitos de fantásticos e ofensivos. O verbo akouw [akouo] pode ser traduzido por ouvir, um simples ato físico ou por escutar, um ato psíquico que responde ativa e livremente aos sons emitidos, admitindo-os compreensivelmente.  Ouviram, segundo eles, um despropósito, uma loucura. O que menos poderiam pensar era que estava louco, como em Jo 7, 20 que dizem dele ter um demônio.

O ESCÂNDALO: Tendo então conhecido Jesus por si mesmo que seus discípulos resmungavam sobre isso, disse a eles: Isto vos escandaliza? (61). Sciens autem Iesus apud semet ipsum quia murmurarent de hoc discipuli eius dixit eis hoc vos scandalizat. Se, pois, vísseis o Filho do Homem subindo onde estava antes? (62). Si ergo videritis Filium hominis ascendentem ubi erat prius. As palavras por si mesmas indicam um conhecimento independente das circunstâncias ou da observação feita das mesmas no momento. O evangelista aponta a um conhecimento sobrenatural. O escândalo, neste caso particular, é causa de um julgamento desfavorável sobre as palavras e a pessoa de Jesus. E Jesus agora apela a um fato que será real: sua ascensão aos céus. Para uma tradição fundada na unicidade de Deus, essa igualdade entre um homem e o Deus transcendente, era uma blasfêmia para os ortodoxos judeus. Assim o entenderam Caifás (Mt 26, 65) e os da sinagoga dos libertos que apedrejaram Estevão (At 7, 57). O Filho do Homem, [ho ‘yios tou anthropou] conjunto de palavras próprias do NT, pois o AT desde Ezequias  até Daniel e o Salmo 80 a setenta diz um filho de homem. Especialmente em Dn 7, 13, que é tomado como modelo para a imputação por Jesus do título ho ‘yiós tou anthropou [o filho do homem]. O texto original, de onde os exegetas dizem provém esse título como messiânico, em Dn 7, 13 é aramaico, e diz bar enash, [filho de mortal] [bem adam, filho de homem]. Em geral podemos afirmar que quase a totalidade dos filhos de homem do AT são vocativos como em Ezequiel em que Jahvé se dirige ao profeta chamando-o de filho de homem nada menos que em 31 ocasiões. A setenta traduz sempre ‘yios anthropou, filho de homem, ou simplesmente homem. Já no NT sempre é Jesus quem se refere a si mesmo e usa o título com ambos os artigos determinados tanto antes de filho como de homem [‘o ‘yios tou anthropou, o filho do homem], indicando um homem especial, diferente do mortal comum, o ser humano em geral. Se no AT bem adam significa um membro da espécie humana, isto não pode ser dito no NT quando a frase é usada por Jesus e traduzida ao grego com artigos determinados. O filho do homem se refere unicamente a um indivíduo especial da raça humana e a expressão é sempre usada por Jesus referindo-se a si mesmo. Aparece 29 vezes em Mateus, 13 em Marcos, 24 em Lucas e 12 em João, em diversas circunstâncias. Em todas elas é a humanidade de Jesus, em si mesma ou como paciente nos momentos de seu sofrimento e morte, ou como sujeito do poder divino sobrenatural com autoridade de julgar o mundo e de representar o juízo divino na parousia. Mas sempre com o destaque de ser alguém em que a divindade pousa como escolhido para mostrar seu rosto ao mundo. O filho do homem é Jesus humano que tem como pessoa o filho único de Deus Pai.  A exaltação do homem como igual a Deus era um conceito impossível e blasfemo para um judeu da época. Constituía o grande escândalo de que Jesus se faz eco neste versículo.

EXPLICAÇÃO: O espírito é o que dá a vida; a carne de nada serve. As palavras que eu vos falo são espírito e são vida (63). Spiritus est qui vivificat caro non prodest quicquam verba quae ego locutus sum vobis spiritus et vita sunt. Parece que esta parte do discurso, sem dúvida um tanto artificial como um capítulo de um todo ao modo dos diálogos platônicos, está unida aos versículos 35-50 sendo que os 51-58 é um parêntese referente à Eucaristia. Esta parte, pois, é sapiencial, em que a palavra é fonte de vida. Não se referem estas palavras ao pão eucarístico, mas as palavras de Jesus como palavras que devem ser interpretadas pelo espírito, pois Ele tinha afirmado que era o pão descido do Céu (vers. 50). É uma explicação do versículo 62. A primeira parte deste versículo é um provérbio admitido provavelmente como verdadeiro pelos ouvintes. Como se dissesse: Todos admitem que quem dá a vida é o espírito e que a carne de nada serve. É provável que este aforismo tenha razão no Gn 2, 7: Então Jahvé Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente. A argila representava a carne e o espírito ou alento [neshamá hebraico, pnoé grego, sopro, espírito em português] representava a vida. A argila representava a carne o basar<91320> que o grego traduz por sarx<4561>, e a vulgata por caro. Explicada a primeira parte,  devemos agora encontrar uma interpretação, a mais racional possível, da segunda parte: Por que as palavras de Jesus são espírito e são vida? Logicamente é uma frase simbólica, ou se queremos matizar melhor, uma comparação. Assim como o espírito é a vida do corpo, assim as palavras de Jesus são a vida dos que as ouvem e em conformidade dirigem suas vidas. Ele pede uma fé que tem, como origem, a razão de ser Ele o único que conhece bem o Pai, pois com Ele morava e do céu – onde se supunha que o Pai-Deus morava – tinha descido para revelá-Lo (Jo, 6, 46). No capítulo 8 João explicará que suas palavras estão avaliadas por duas testemunhas: o Pai do qual procedem as obras que realiza e a sua palavra que as acompanha (8, 18). A verdadeira vida, pois, consistia em conhecer a Verdade, da qual Jesus se proclamava testemunha, como disse a Pilatos (Jo 18, 37). Por isso, Ele pedirá ao Pai que consagre seus apóstolos na verdade de modo que a verdade do Pai seja a verdade dos discípulos (Jo 17, 17), podendo assim afirmar que a palavra do Pai –Jesus em pessoa – era a Verdade e por isso eles serão enviados ao mundo como Ele, Jesus, foi enviado ao mundo, como consagrados e identificados com a verdade (Jo 17, 18-19). Se as palavras de Jesus se parecem com o espírito que dá vida a carne, rejeitá-las – para os judeus que as estavam escutando – é ficar unicamente como o maná que os pais comeram e morreram.

O PARÊNTESE: Porém, há dentre vós alguns que não creem. Pois Jesus tinha conhecido desde o início quais são os não crentes e quem é o que o entregará (64). Sed sunt quidam ex vobis qui non credunt sciebat enim ab initio Iesus qui essent credentes et quis traditurus esset eum. O primeiro hemistíquio corresponde às palavras de Jesus. O segundo hemistíquio é um parêntese do evangelista e indica nele, como mestre da verdade, um conhecimento muito superior – infuso -  ao que correspondia às pessoas comuns, e o confirma ao apontar como, desde esse mesmo momento, sabia quem era o que o entregaria como traidor. Sem dúvida, a falta de fé da maioria dos judeus, foi um desapontamento entre os primeiros discípulos e seria bom, apologeticamente, arguir com razoamentos consistentes essa lacuna que podia constituir um escândalo insuperável para os mesmos.

EXPLICAÇÃO: Porque falava: por isso vos tenho dito que ninguém pode vir a mim senão lhe esteja dado de parte de meu Pai (65). Et dicebat propterea dixi vobis quia nemo potest venire ad me nisi fuerit ei datum a Patre meo. Temos explicado esta doação do Pai  na explicação do versículo 44 na exegese do domingo XIX deste mesmo ano. Segundo a mentalidade da época, Deus é a causa principal dos eventos humanos e a Ele se refere Jesus. A esse artigo e a explicação correspondente citamos e convidamos o leitor.

A DISPERSÃO: Desse fato em diante muitos dos seus discípulos arredaram e não andavam com Ele (66) Ex hoc multi discipulorum eius abierunt retro et iam non cum illo ambulabant. A tradução é um tanto livre, dada pelo grego  aphlyon eiv ta opisw [apelthon eis ta opiso] um advérbio que significa detrás, para trás, que podemos traduzir por “se foram para trás”. Pode ser também traduzido por deram meia volta ou se retiraram, para não mais andar com Jesus. A tradução espanhola diz: se volvieron atrás e a portuguesa voltaram atrás ou  o abandonaram. De fato, muitos, não todos, mas a maioria abandonou Jesus.

JESUS COMENTA: Disse em consequência, Jesus aos doze: Acaso também vós quereis partir? (67).Dixit ergo Iesus ad duodecim numquid et vos vultis abire. A debandada foi, ao que parece, geral. As fileiras ficaram praticamente vazias. Era o momento de Jesus animar aos que restavam e que Ele tinha escolhido a dedo: os 12 apóstolos. A pergunta não deixa de ocultar, implicitamente, uma recriminação, caso a resposta fosse negativa. Jesus praticamente lhes diz: Vós também sois do tipo pusilânime e covarde que na dificuldade desanima e foge? (semente que cai nas pedras: Mt 13, 20).

PEDRO: Respondeu-lhe então Simão Pedro: Senhor, detrás de quem iremos? Palavras de vida eterna tens (68). Respondit ergo ei Simon Petrus Domine ad quem ibimus verba vitae aeternae habes. A resposta de Pedro tem como sujeito a quem interpelar a palavra Senhor [Kyrie em grego]. Evidentemente, não é o mesmo Senhor do ressuscitado, que recebeu o poder, segundo Ef 1, 20 +, mas indica no caso uma submissão a quem tem autoridade. Pedro não encontra outro líder porque as palavras de Jesus, segundo o mesmo mestre, tinham afirmado eram palavras que continham uma verdade eterna, a única que propriamente pode ser declarada como verdade.

A CONFISSÃO: Por isso nós temos acreditado já que temos conhecido que tu és o Ungido, o Filho do Deus (o vivente) (69). Et nos credidimus et cognovimus quia tu es Christus Filius Dei. São duas afirmações, segundo a tradução que temos feito, pensando que o kai grego é uma ilação tanto copulativa como causativa. As traduções em uso,  no lugar do já que empregam o simples e, e a frase seria temos acreditado e estamos seguros que tu és esse Ungido, o Filho do Deus vivente, que é a tradução do King James. Como vemos, a vulgata deixa o adjetivo vivente, que o grego quase sempre une à palavra Theós para distinguir o mesmo dos deuses que eram estátuas mortas. Ao traduzir temos conhecido, como o grego dá a entender, vemos que  a versão estamos certos ou seguros é uma interpretação completamente correta. O Ungido, com artigo determinante, é uma tradução literal de Messias, o Ungido do Senhor. Afirmar que é o Filho do Deus vivo, é um ato de fé inusitado entre os discípulos de Jesus, não por aclamá-Lo Messias, mas por declará-Lo Filho de Deus, aceitando que o Pai é Deus. A frase tem sentido porque a ausência dos outros discípulos era devida a afirmação de Jesus que dizia ser Deus o seu Pai, como Jesus afirmava no versículo 64, uma conclusão do versículo 69 em que a união de Jesus e o Pai é modelo da que deve existir entre discípulo e Jesus. Esta foi a causa da separação de quem afirmava: estas palavras são inadmissíveis (ver 60). Pedro ouviu e interpretou corretamente as palavras de seu Mestre. Certamente, se Ele afirmava que seu Pai era Deus, o Deus vivo de Israel,  Pedro estava disposto a admitir e acreditar nessas palavras que eram palavras de vida.

PISTAS:

1) Os comentaristas modernos dizem que os versículos próprios da Eucaristia (51-59) não foram pronunciados na sinagoga de Cafarnaum, mas na instituição do sacramento na última ceia, correspondente ao capítulo 13. Interrompido o discurso sobre as exigências da fé como pão da vida, agora Jesus retoma o tema e nos encontramos com a resposta variada dos ouvintes. Jesus pede uma resposta clara a seus apóstolos e Pedro, em nome de todos, dá a única possível para um seguidor de Jesus. Este é o Ungido do Senhor [Deus] e como Filho sabe perfeitamente a vontade do Pai, cujo seguimento é a verdadeira vida.

2) As palavras de Jesus constituem um fracasso. Os homens as escutam não com o espírito de obediência a quem fala da experiência como viva, mas com o critério de uma razão humana que se julga independente e absoluta. É o critério de Tomé: Se não vejo não creio. Jesus é o vidente que nos declara existirem matizes nas cores e nós somos os cegos que não podem captá-los. Negá-los porque não os podemos experimentar é cerrar-se ao mistério que sempre existe na grande verdade divina.

3) Vemos que Jesus se intitula o filho do homem como um caso particular de ser membro da família humana. Isto significa que Ele pode ser visto e ouvido como um homem; mas com a particularidade de ser representante da divindade, ou seja, a face humana de Deus. Logicamente Ele sabe como conduzir a humanidade e seu exemplo é paradigma de todos os que desejam viver suas vidas em conformidade com os planos e desígnios de Deus. Até dirá aprendei de mim que sou pacífico e humilde em minhas ambições e propósitos (Mt 11, 29).

4) No texto de hoje se descrevem duas reações opostas ao discurso – e poderíamos dizer à história – de Jesus. A sua palavra tem uma resposta negativa: a incredulidade porque é palavra difícil, e exige uma submissão prática da vida não só no modo de pensar, mas também no modo de atuar. Ou pode ter uma resposta positiva como a dada por Pedro: é a fé. Mas uma fé, não no homem sábio, brilhante, mas na testemunha que conta o que viveu no seio de Deus. A sua palavra está corroborada por obras admiráveis. Se nestas não acreditamos, desaparece o Filho de Deus e só fica o homem Jesus, admirável em palavras e condutas, mas puramente humano de quem podemos tomar as palavras que nos convêm e descartar as palavras difíceis que atrapalham o nosso ideal ou a nossa maneira de vida. Jamais serão vida para nós.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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19.08.2018
20º DTC - ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA — ANO B
( BRANCO, GLÓRIA, CREIO, PREFÁCIO PRÓPRIO – OFÍCIO DA SOLENIDADE )
__ "MARIA: AURORA DA IGREJA TRIUNFANTE. Glorificação de Maria: modelo e meta da humanidade!" __

VOCAÇÃO PARA A VIDA CONSAGRADA: RELIGIOSOS(AS) E CONSAGRADOS(AS) SECULARES

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

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Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Hoje a Igreja recorda a Mãe de Deus que é levada aos céus. Quando os apóstolos foram visitar o seu sepulcro, segundo a tradição apócrifa, não encontraram o seu corpo. Assim, celebramos hoje o triunfo de Maria, também lembrada sob o título de Nossa Senhora da Glória. Maria é sinal da Igreja triunfante, graças a seu Filho Jesus, em quem todos receberão a vida. Maria é a bendita entre todas as mulheres, e a sua glória é realização e sinal do que toda a Igreja espera. Hoje rezamos pelas vocações consagradas e religiosas, para que, como Maria, vivam substancialmente para Deus e para o próximo. Hoje, celebramos a vocação religiosa. Como o Pai chamou Maria para gerar seu Filho Jesus, assim ele chama homens e mulheres para servirem nos mais diferentes lugares e setores da vida humana levando sua Palavra. Nesta semana da vida consagrada, rezemos por todos os nossos religiosos. Após 06 Congressos Decanais, nossos Agentes da Pastoral Familiar se reúnem neste dia em Arapongas para o Congresso Diocesano das Famílias. O tema: O amor é nossa missão: a família plenamente viva, o mesmo utilizado na Semana Nacional da Família, nos coloca em saída, em busca das pessoas que querem e procuram o agir de Deus em suas famílias, em suas comunidades. Louvamos e agradecemos a Deus pelos incontáveis jeitos de apresentar Deus ao próximo que nestes 50 anos de nossa diocese a Pastoral Familiar tem buscado e pedimos que nunca falte Agentes comprometidos com a causa das famílias.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Celebramos a Assunção da Santíssima Virgem Maria ao Céu, que, sendo elevada de corpo e alma para junto de Deus, antecipou o triunfo da humanidade. Em Maria, temos a imagem da Igreja transfigurada e a esperança do nosso futuro. Somos também convidados nesta semana a rezar, refletir e trabalhar pelas vocações para a vida consagrada, religiosa ou secular.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Maria foi a primeira criatura a receber o benefício da Encarnação do Senhor, tendo sido, exatamente em vista de sua maternidade divina, isenta de todo pecado desde sua conceição imaculada, e preservada de toda a mancha ao longo de sua vida. Tornou-se, portanto, a primeira criatura na fé cristã e a primeira a ser elevada à glória do céu em corpo e alma, graça inaudita alcançada pela Ressurreição de Jesus. Por primeiro recebeu a graça, por primeiro alcançou a plenitude da vida eterna. A glorificação de Maria é um prêmio de sua fé, de sua dedicação à obra redentora, de sua santidade. Mas é também um luzeiro a marcar a meta final dos cristãos. Em sintonia com todos os religiosos e religiosas, cujo dia hoje comemoramos, queremos celebrar esta festa de Maria dando graças ao Pai que eleva a humilde mulher, Maria de Nazaré e, nela, nos oferece o sinal da vitória definitiva de toda a humanidade, pela força da ressurreição de Jesus Cristo. Rezemos, pois, pelos religiosos, como também pelas pessoas que vivem a sua consagração no mundo, fazendo da vida comum um testemunho de amor a Deus e total dedicação ao próximo. Peçamos ao Senhor da Messe que suscite muitas vocações religiosas e consagradas no mundo de hoje.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)

PRIMEIRA LEITURA (Apocalipse 11,19;12,1.3-6.10): - "Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas."

SALMO RESPONSORIAL 44(45): - "À vossa direita se encontra a rainha com veste esplendente de ouro de Ofir."

SEGUNDA LEITURA (1 Coríntios 15,20-27): - "Cristo ressuscitou dentre os mortos, como primícias dos que morreram!"

EVANGELHO (Lucas 1,39-56): - "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre."



Homilia do Diácono José da Cruz – 20º DTC - Assunção de Nossa Senhora – ANO B

"O CÉU DE MARIA!"

Nesse Domingo a Igreja celebra a festa da Assunção de Nossa Senhora..

Maria foi assunta ao céu, elevada para junto de Deus em corpo e alma. Se Jesus nos abriu as portas do céu que estavam fechadas, Maria foi o primeiro ser vivente a entrar por ela. Na verdade, em Maria os Filhos degredados de Eva puderam sentir o “gostinho” da volta ao Paraíso e viver de novo na plenitude da comunhão com Deus, como era antes do pecado original. Na vida de Maria, desde o seu nascimento, até a sua “dormição” como preferem denominar o término da sua vida terrena os católicos ortodoxos, a gente vai aprendendo que o céu, dom de Deus, é também uma conquista do homem.

A partir de Jesus nos tornamos todos combatentes “Pois é preciso que ele reine, até que todos os seus inimigos estejam debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser derrotado é a morte” afirma o apóstolo Paulo na segunda leitura desse domingo em 1Cor 15, 20-27, mostrando-nos que a conquista do céu vai acontecendo na medida em que, em nossa caminhada vamos combatendo e destruindo as forças do mal, que querem nos levar à morte, para longe de Deus e do seu Paraíso, que é o nosso destino glorioso.

É assim que a vitória de Cristo vai sendo confirmada, pois quando falamos que o céu é dom que Deus nos concede, estaríamos sendo ingênuos se imaginarmos que podemos conquistá-lo sem nenhum esforço. Mas o que mais nos surpreende nessa liturgia Mariana é a bela visão apocalíptica de João na primeira leitura, que vê no céu o sinal de uma mulher Guerreira, destemida e Vitoriosa, imagem que a Igreja atribuiu a Maria, pois para chegar vitoriosa no céu, Maria foi também vitoriosa na terra, aliás, a partir da obra que Deus realizou em Maria, o céu desceu a terra. “Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés, e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”.

A visão do mal sempre é aterradora, mesmo em uma linguagem simbólica e figurativa como a de João “Um Dragão de sete cabeças e dez chifres, e sobre a cabeça sete coroas” Quem é que não se assusta diante de um bicho feio como este, com tanta força e poder?! Quem é que não se assusta com o mal hoje presente no mundo, marcado por tanta violência, medo, insegurança e o terror? Mas no espaço do céu, que é o lugar de Deus, esse mal tem o poder limitado. “Sua cauda varria apenas um terço das estrelas, atirando-as sobre a terra”, ou seja, a força do bem presente em Maria, consegue neutralizar as forças avassaladoras do mal. Mas quem é essa mulher ousada e vitoriosa, que chamamos de Mãe?

No evangelho festivo da Festa da Assunção, na catequese de Lucas percebemos algo encantador, que faz a diferença na vida de Maria, e que faz a diferença nossa vida também: A Força do Espírito de Deus! Prestemos atenção nas expressões verbais colocadas por Lucas, e que indicam uma ação imediata: Maria partiu – dirigindo-se apressadamente – entrou na casa e cumprimentou Isabel. Maria, essa mulher Guerreira e Vitoriosa, deixa-se mover no dinamismo do Espírito de Deus. Sua vida pacata na pequena Nazaré passa por uma “sacudida”, a partir de então, ela se moverá a partir do Espírito de Deus presente nela e que irá impulsioná-la a sair de Nazaré e a sair de si mesma, abrindo-se cada vez mais para Deus e os irmãos e Maria diante da revelação do anjo descobre a sua vocação de servir “Eis aqui a serva do Senhor...”

Tudo começou quando ela se fez pequena diante de Deus, é aí que o céu já começa a acontecer em sua vida. Quando os homens descobrem nessa vida a vocação para o amor, o céu já se faz presente. A entrada de Maria no céu, na Festa da Assunção, é apenas uma referência de sua glória, esta glória do Senhor que a envolveu totalmente, fazendo-a viver para Deus, sem deixar de viver para os irmãos. E quais são as conseqüências, na vida de Maria e em nossa vida, quando nos deixamos mover pelo Espírito Santo presente em nós? Isso é fácil de perceber nessa catequese de Lucas, olhando para a reação de Isabel - “Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria em meu ventre”. Quem é de Deus e a ele pertence e se entrega, transmite a paz verdadeira, o Shalon que traz alegria.

Quando o evangelho narra que Maria saudou Isabel, não foi uma saudação costumeira de Bom Dia ou Boa Tarde, mas sim a saudação desejando a Paz. Maria é anunciadora da Paz e portadora da Salvação, pois ali, naquela região montanhosa em casa de Israel, o Espírito de Deus transbordante em Maria, preenche também a Isabel e lhe revela: Chegou o Salvador, Deus já está entre vós! João dá cambalhotas no ventre de sua mãe e com ele a humanidade inteira pode pular e cantar, dançar e extravasar sua alegria: Jesus já chegou! Chegou através dos pobres e pequenos como Maria e Isabel.

Nossos sonhos e esperança de chegar a esse céu das plenitudes como Maria, já começa a se tornar feliz realidade quando descobrimos a nossa vocação para o amor e o serviço, tornando-nos também portadores dessa Paz e alegria, que vem do Espírito de Deus presente em nós. SALVE MARIA! (Festa da Assunção–LUCAS 1, 39-5)

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 20º DTC - Assunção de Nossa Senhora — ANO B

“Assunção de Nossa Senhora”

Depois de ter sido ordenado diácono, um amigo meu foi pregar sobre Nossa Senhora e disse uma coisa muito curiosa: “A Nossa Senhora lhe chamam porta do céu e muitas outras coisas, eu vou chamá-la ‘janela’. Maria é a janela. Conta-se que certa vez São Pedro foi chamado à atenção por Nosso Senhor porque estavam entrando muitas pessoas pela porta do céu. Jesus lhe disse: ‘Pedro, é preciso ser um pouco mais rigoroso’. São Pedro respondeu: ‘Senhor, não adianta. Eu posso até ser rigoroso aqui na porta do céu, mas a tua mãe abre a janela e muitos estão passando por ela’”.

É uma grande alegria contemplar Nossa Senhora subindo ao céu. Ela, sendo porta do céu, está disposta a abri-nos também a janela do céu, contanto que lhe sejamos devotos. Imaginemos por um momento a cena: os apóstolos, ao saberem que a Santíssima Virgem morreu, ou dormiu, reúnem-se todos ao redor do seu corpo inanimado. Alguns inclusive, têm que fazer uma longa viagem até Éfeso, onde provavelmente estaria Maria, já que, ao parecer, era São João quem cuidava dela, pois segundo a tradição, Nossa Senhora foi morar nessa cidade da Ásia Menor. Outros, talvez, nem conseguiram vê-la, pois quando lá chegaram, ela já teria subido aos céus. Deve ter sido surpreendente vê-la subindo aos céus! Assim como os Apóstolos viram o Senhor subindo aos céus, parece conveniente que vissem também Nossa Senhora subir aos céus. Deve ter sido também doloroso para os mesmos saber que a Mãe de Jesus já não estaria no meio deles em carne mortal, sentiriam saudades da presença materna daquela que eles consideravam sua mãe. Como é doloroso ver a mãe morrer! Mas como é maravilhoso vê-la sendo glorificada. Hoje, temos dois sentimentos: saudade de Nossa Senhora que se foi e alegria porque ela foi para ser nossa advogada lá no céu, pertinho do seu Filho e Nosso Senhor Jesus Cristo.

De muitos santos conservamos relíquias que nós veneramos com grande devoção, de Nossa Senhora não conservamos nenhuma relíquia, nenhum pedaço do seu corpo santo. O seu corpo não sofreu a corrupção. O Santo Padre, o Papa Pio XII, na definição desse dogma, o da assunção de Nossa Senhora, expressou-se da seguinte maneira: “(…) pela autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e nossa, proclamamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado: a imaculada Mãe de Deus, sempre virgem Maria, cumprido o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial. Por isso, se alguém, e que Deus não o permita, se atrevesse a negar ou voluntariamente colocar em dúvida o que por Nós foi definido, saiba que separou-se totalmente da fé divina e católica” (Constituição Dogmática “Munificentissimus Deus”, 01-11-1950). Aos dogmas da Maternidade divina, da Sempre Virgem, da Imaculada, juntava-se esse novo: a Assunção em corpo e alma de Nossa Senhora aos céus.

Maria subiu aos céus. Como é a nossa devoção para com ela, nossa Mãe e advogada? Muitos irmãos nossos, que demonstram pouco amor à Mãe de Jesus, não devem nunca atrapalhar a nossa fé no que diz respeito aos privilégios de Maria Santíssima. Não devem ser escutados! Como é a nossa devoção mariana? Deixamo-nos influenciar por idéias não-católicas no que se refere à Santíssima Virgem? A minha devoção a Nossa Senhora deve ser terna, ou seja, uma devoção na qual o coração tenha o seu espaço. Preciso tratá-la como mãe com aquelas práticas de devoções tão valorizadas pela tradição cristã: pelo menos uma parte do rosário, as saudações aos quadros da Santíssima Virgem, o “anjo do Senhor” ao meio-dia, as três Ave-Maria da noite pedindo a santa pureza, e tantos outros atos de devoção rijos, não adocicados, que mantêm o nosso fervor para com aquela que é a Mãe de Deus e nossa.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 20º DTC - Assunção de Nossa SenhoraANO B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (1 Cor 15, 20-27)

INTRODUÇÃO: Num breve resumo, Paulo formula os planos divinos sobre os destinos da raça humana que em definitivo é a sorte final do Universo. Existe uma luta inicial em que a antiga serpente parece triunfal, mas não ganhará a guerra, embora triunfe em batalhas parciais: o pecado e a morte. Dele cantará a igreja: O felix culpa quae talem et tantum meruit redemptorem [feliz culpa que mereceu tal e tão grande redentor]. E Paulo comentará numa frase lapidária: onde abundou o pecado superabundou a misericórdia [ou a graça](Rm 5, 20). E se isto foi dito em geral, não podemos restringi-lo em cada caso em particular, de modo que o canto de todo fiel salvo deve ser um hino à misericórdia de Deus, que em forma de graça superabundou em sua vida. Paulo especificamente admite que a ressurreição de Cristo seja a base de sua argumentação de modo que nela está a vitória final sobre todos os inimigos, sendo o último a ser derrotado a morte.

CRISTO PRIMÍCIAS: Mas agora Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, feito primícias dos adormecidos (20). Nunc autem Christus resurrexit a mortuis primitiae dormientium. RESSUSCITADO [egëgertai<1453>=resurrexit] na verdade foi levantado [erguido] numa passiva cujo sujeito ativo é Deus como claramente o indica em outra passagem: Deus ressuscitou [egeiren=suscitavit] o Senhor (1 Cor 6,14). PRIMÍCIAS [aparchë <536> = primitiae] era a oferenda dos primeiros frutos, ou da primeira parte da massa, com a qual os pães da preposição eram elaborados. Daí o termo era usado para determinar as pessoas consagradas a Deus em sua totalidade. É a tradução grega do hebraico reshith<7225>, que sai como início em Gn 1, 1 (Be)reshith, [no princípio] Deus criou os céus e a terra. E como primícias dos frutos da terra em Êx 23, 19: As primícias dos frutos da sua terra [reshit bicurei admatecha=as aparchas tön prötogevëmatön tës gës] trarás à casa do Senhor, teu Deus. Como primeiro e principal temos: Balaão disse: Amaleque é o primeiro [reshith=archë] das nações (Nm 24, 20). Vemos como o hebraico reshit pode ser traduzido como aparchë [primícias] ou archë [primeiro ou principal]. Usando Paulo aparchë 6 vezes das 8 que aparece no NT [outra em Tg 1, 18 e outra em Ap 14, 4] todas elas traduzidas por first fruits [primeiros frutos] na KJV. DOS ADORMECIDOS [kekoimënön<2837>=dormientium] no grego é o particípio passado do verbo koimaö, causar o sono, pôr a dormir, com o significado metafórico de calmar, cair no sono, dormir e finalmente morrer. Lemos em Lc 22, 45: Foi ter com os discípulos e os achou dormindo. Com o último significado de morrer, temos em Mt 27,52: Abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos que dormiam, ressuscitaram. E em Paulo, das 8 vezes, todas têm o significado de morrer, como vemos por exemplo em 1 Cor 15, 18: Portanto também os que dormiram em Cristo, pereceram. Como Paulo está falando da ressurreição, dizer que Cristo é primícias dentre os que adormeceram é afirmar que é o primeiro a ressurgir dentre os mortos.

ADÃO E CRISTO: Porque, pois, por um homem veio a morte e por um homem vem a ressurreição dos mortos (21). Quoniam enim per hominem mors et per hominem resurrectio mortuorum. Paulo dirige seu olhar aos inícios da humanidade, segundo a tradição do Gênesis. E encontra a morte como efeito do pecado de Adão. E agora no último Adão (1 Cor 15, 45), temos a causa da nossa ressurreição; pois como diz Paulo, nossos corpos formam parte de seu corpo, como membros do mesmo (1 Cor 6, 15). Comumente da ressurreição, fala-se em termos gerais, mais especificamente como almas unidas num mesmo espírito; mas esta frase de Paulo é clara: o corpo material também entra dentro do pléroma corporal de Cristo. Consequentemente não pode um membro particular estar morto se o corpo está vivo após ressurgir dentre os mortos. A restauração da primitiva ordem, em que a morte não era o último destino humano, mas através da árvore da vida a morte era evitada segundo os planos divinos (Gn 2. 9 e 3, 22), forma parte do plano final da restauração de todas as coisas em Cristo (Ef 1, 10), como alfa e ômega (Ap 1, 8) porque assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados (1 Cor 15, 22).

A RESTAURAÇÃO: Porque assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão restaurados à vida (22). Et sicut in Adam omnes moriuntur ita et in Christo omnes vivificabuntur. RESTAURADOS À VIDA: estar vivo, ou reviver e em passiva vivificar, fazer retornar à vida como é nosso caso. Paulo afirma, pois, que todos morrem por serem parte do sêmen de Adão, ou, como agora diríamos, por terem o genoma dele. Mas em Cristo, assim como ele ressuscitou, todos serão devolvidos à vida, porque como corpos formam parte de seu corpo total (1 Cor 6, 15).

ORDEM DA RESSURREIÇÃO: Cada um, pois, em sua própria ordem: primícias Cristo, depois os de Cristo na sua parusia (23). Unusquisque autem in suo ordine primitiae Christus deinde hii qui sunt Christi in adventu eius. PARUSIA [parousia <3952>=adventus] isto é a presença, a vinda, a chegada, e especialmente de Cristo, a vinda gloriosa do céu, para a ressurreição final, o juízo universal e a imposição do seu reino definitivo. Tem o nome grego de parousia para distingui-lo de outra manifestação de Cristo possível na História. É o chamado segundo advento como o declara Mt 23, 27. Existem algumas dúvidas: 1º) Houve ressurreições de mortos antes de Cristo e feitas por ele? Como é que se fala de Cristo como primícias? Uma delas, a feita por intercessão de Elias, voltando à vida o filho da viúva de Sarepta (1 Rs 17, 17-24). Para não falar das feitas por Jesus, como a de Lázaro após 4 dias da morte deste último (Jo 11, 38-44). Todos eles foram ressuscitados da morte, mas nenhum deles foi realmente ressuscitado, no sentido que esta palavra tem em Paulo. Cada um deles tinha seu corpo, ainda sem estar totalmente destruído pela corrupção e foi suscitado da morte para a vida, a mesma que possuía horas ou dias antes, sem que houvesse uma transformação do corpo material em espiritual como afirma Paulo (1 Cor 15, 43-44). Jesus não foi o primeiro a ser trazido de novo da morte, mas o primeiro ressuscitado em corpo glorioso. 2º) Que dizer das palavras de Mateus 27, 52-53: os túmulos abriram-se, os corpos de muitos santos já falecidos, ressuscitaram: saindo dos túmulos, depois da ressurreição dEle. Eles entraram na cidade santa e apareceram a um grande número de pessoas. Em primeiro lugar, estas ressurreições estavam incluídas nas profecias que anunciavam o dia do juízo final em Is 26, 19: Os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão…porque teu orvalho, ó Deus, será como o orvalho da vida e a terra dará à luz os seus mortos. Ez 37, 12: Portanto, profetiza e dize-lhes: Assim fala o Senhor Deus: Eis que abrirei a vossa sepultura e vos farei sair dela, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. Finalmente Dn 12, 2: Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna e outros para vergonha e horror eterno. Mateus diz duas coisas: 1º) Se abriram os sepulcros. Isso está em conformidade com o tremor da terra que abriu a tumba do Senhor, e atribuído a um anjo que removeu a pedra da entrada (Mt 28, 2). Caso confirmado pelos outros evangelistas indiretamente, ao afirmar que a pedra estava removida. 2º) As aparições dos mortos. A solução do caso, desta afirmação de Mateus, é difícil. Evidentemente os mortos ressuscitaram após a ressurreição de Cristo, como afirma o próprio evangelista. Com isto está a salvo o que diz Paulo, de Cristo como primícias da ressurreição dos mortos. Mas quem eram os ressuscitados? Antigos profetas que estavam enterrados no vale do Cedrão, como afirmam alguns? Não parece seja esta a melhor solução. Familiares dos vivos na época? É o mais provável, pois a frase de corpos de muitos santos já falecidos, que não discrimina indica que não eram antigos profetas, em cujo caso Mateus o teria dito explicitamente. E que essa nova vida foi temporária e não a eterna da última parusia parece implícita na frase eles entraram na cidade santa e apareceram a um grande número de pessoas. Ou seja, não foram vistas por todos como era de se esperar de uma verdadeira revivificação. Além disso, a ênfase está na aparição e não na ressurreição. Cremos que o fenômeno é semelhante ao que acontece na vida de muitos santos que tem experiência da vida em ultra tumba de pessoas mortas. Consequentemente não podemos anunciar que alguns santos já estão em corpo e alma no Reino dos céus, como é o caso de Nossa Senhora. A ressurreição de que Paulo fala é a do fim dos tempos para a vida eterna como diz o catecismo (988). Por isso ao falar de quando, o catecismo diz, sem dúvida, no último dia ao fim do mundo, pois a ressurreição está intimamente associada à Parusia de Cristo (1001). Em consequência, ao falar da Assunção de Nossa Senhora o mesmo catecismo afirma: Este dogma constitui uma participação singular na ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos demais cristãos (966). Diante da eternidade, o tempo de espera desde a morte até a parusia é como instantâneo de modo que poderíamos afirmar que morte e ressurreição são fenômenos quase simultâneos. Mil anos são como um dia aos olhos do Senhor, dirá o salmista (90, 4).

O FIM: Então o fim, quando entregar o reino ao Deus e Pai, quando tiver abolido todo principado e toda autoridade e poder (24). Deinde finis cum tradiderit regnum Deo et Patri cum evacuaverit omnem principatum et potestatem et virtutem. O FIM [telos<5056>=finis] também término de uma coisa ou de uma era. Um segundo significado é o de taxas alfandegárias, como em Mt 17, 25 em que pedem a Pedro se Jesus não paga o didracma e Jesus pergunta: Simão, que te parece? De quem cobram os reis da terra impostos [telë]. É claro que aqui o significado é o fim, do qual fala Paulo em Rm 6, 22: Transformados e servos, tendes o vosso fruto para a santificação e por fim [telos] a vida eterna. ENTREGAR [paradidömi<3860>=tradidere] passar, entregar, dar, e até atraiçoar, como no caso de Judas (Mt 26, 2). O que é entregue é o Reino dos céus, formado pelos que cumprem a vontade de Deus (Mt 5, 10) como justiça [retidão de conduta]. E quem recebe esse Reino, ou melhor, Reinado, constituído pelos filhos do Reino (Mt 13, 38) é Deus como Pai. Um reino que tem como Rei o próprio Jesus (Jo 18, 47) e como sucessor Pedro a quem entrega as chaves (Mt 18 19) e cujos súditos se distinguem porque o maior dentre eles é como o menor e o que dirige é como o que serve (Lc 22, 26), que Paulo descreve como sendo escravos uns dos outros (Gl 5, 13) e que o próprio Jesus, dando exemplo na última ceia, lavou como escravo, os pés dos discípulos, declarando: Compreendeis o que vos fiz?…Dei-vos exemplo para que como eu vos fiz façais vós também… Se souberdes estas coisas, bemaventurados sois se as praticardes (Jo 13, 12-17). De modo que a frase paulina atribuída a Jesus, mais bemaventurada coisa é dar que receber (At 20, 25) pode ser traduzido em há mais felicidade em servir que em mandar. ABOLIDO [katargësë<2673>=evacuaverit] do verbo katargeö com o significado de tornar inativo, inoperante, ineficaz, acabar ou abolir. Parece que Paulo afirma que o poder não é conforme aos planos de Deus, de modo que no reino definitivo, não haverá tal modo de reinar, mas será o serviço quem ordena as relações entre os filhos do Reino. Jesus, em sua vida terrena, declarou tal método como prática e agora Paulo, ao abolir todo império, o declara como norma futura: Não mais existirá um reino, um que manda ou é superior ao outro, mas somente Deus e seus planos serão os que dirigem o mundo futuro. Eram, por outra parte, tempos em que o império ainda estava sob o Princeps Senatus, título dos Imperadores desde Augusto (ano 28 aC). A Autoridade era o poder moral de quem tem a capacidade para ditar uma norma de conduta. Estava fundamentalmente no Senado. Poder era a potestade de mandar cumprir as normas impostas. Eram os cônsules e pretores e em tempo de guerra o imperador ou general.

OS INIMIGOS: Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés (25). Oportet autem illum regnare donec ponat omnes inimicos sub pedibus eius. DEBAIXO DOS PÉS: Paulo alude ao costume da época de colocar de bruços os vencidos, para que os oficiais vencedores passassem por cima deles, como lemos no salmo 7, 5; e especialmente em Js 10, 24: Josué disse aos principais da gente de guerra que tinham vindo com ele: chegai, ponde os pés sobre o pescoço destes reis. Coisa que Jesus usa como nota do seu messiado em Mc 12, 36. É, pois sinal de absoluta derrota e total submissão. Com isso, Paulo indica uma vitória final.

A MORTE: Último inimigo a desaparecer é a morte (26). Novissima autem inimica destruetur mors. Com esta frase, Paulo afirma que todo mal, é resultado do pecado, pois com o pecado entrou a morte. O primeiro inimigo é Satanás como lemos em Ap 12, 9. Temos também o mundo, que apesar de ser feito por Ele não o conheceu (Jo 1, 10). E a carne, da qual diz Paulo que nela não habita bem nenhum (7,18), de modo que são os três inimigos clássicos do homem. Em lugar de construir, eles destroem a ordem do Senhor em geral e, em particular, em cada homem. Finalmente, Paulo enumera o último, que é a morte. O catecismo fala do mal físico e do mal moral. Como recordação temos as palavras de S. Tomás de Aquino: Por que Deus não criou um mundo tão perfeito que nele não pudesse existir nenhum mal? Deus poderia criar coisa melhor. Porém na sua sabedoria infinita Deus criou um mundo em estado de via, caminhando para sua perfeição e não perfeito (CIC 310). Por isso, tanto os homens como os animais contribuem ao melhoramento do mesmo. Aqueles por instinto, estes por razão. Assim, é importante a escolha do bem, que em Deus é perfeita, pois como diz o catecismo, Deus em sua providência toda-poderosa, pode sacar um bem das consequências do mal, incluso moral, causado por suas criaturas (312). É por isso que todo ato conforme a natureza é agradável, exceto o parto (Gn 3, 16). A base do pecado do homem é dirigir seu fim ao agradável e transformá-lo num fim quando é unicamente um meio.

SOB SEUS PÉS: Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos seus pés: (27). Omnia enim subiecit sub pedibus eius. Paulo usa a mesma linguagem dos salmos, quando fala da suprema condição do homem a respeito do Universo: Deste-lhe domínio sobre as obras de tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste (Sl 8, 6). Mas sobre o homem do AT está o novo homem do NT que é Cristo a quem tudo é submetido. Pois existindo criaturas superiores, não foi aos anjos que sujeitou o mundo que há de vir (Hb 2, 5). Para que por sua morte destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo (Hb 2, 14). De modo que o poder de Cristo está sobre o poder daquele que aparentemente tem o máximo poder como é o da morte ante a qual todos estávamos sujeitos.

EVANGELHO ( Lc 1, 39-56)

OS NOMES: Tendo, pois, se levantado Mariam, naqueles dias foi à montanha, com presteza, a uma cidade de Judá (39). Exsurgens autem Maria in diebus illis abiit in montana cum festinatione in civitatem Iuda. Mariam significa senhora e, segundo Lucas, devemos distinguir seu nome de Maria que é o nome dado à Madalena, ou o nome da irmã de Lázaro, assim como o de Maria Salomé. Lucas expressamente usa Mariam para a Mãe de Jesus. Elizabet, de origem hebraica, significa juramento de Javé. Zacaria(s) significa Javé se lembrou. Segundo o modo de pensar dos judeus, o nome tinha muito a ver com a vida e existência do sujeito nomeado. A Senhora visita a casa de quem foi lembrado por Deus, porque cumpriu seu juramento, dando origem a um bebê [Johanan] que é um dom precioso de Javé. Talvez Lucas não soubesse a metáfora que os nomes significavam. Numa época em que Fílon interpretava as Escrituras de modo simbólico e que teve como sucessores Orígenes e Cirilo de Alexandria, fundadores da escola simbólica escriturária para depois dar lugar à Cabala. Daí podemos deduzir que a possibilidade desta interpretação não é absolutamente irresponsável. A MONTANHA: Termo técnico, semelhante ao Deserto de Judeia, para designar a região entre Jericó e Bethoron, como indicamos na exegese do IV Domingo do Advento de 2007. (Ver comentários exegéticos Número 14 de presbíteros.com. br) Como a resposta de Isabel até o versículo 45 já foi devidamente estudada nesses comentários, neste evangelho de hoje vamos especialmente interpretar o canto mariano por excelência, o Magnificat.

O MAGNIFICAT: É um dos três cânticos que Lucas nos oferece em seu evangelho. Sem dúvida tomando como modelo outros cânticos como o de Moisés, em Êxodo 15, 1-18 e a pequena estrofe de Miriam no versículo 21. Assim se inaugura uma ação de graças com cântico que formam um conjunto de louvores pelos feitos maravilhosos, provindos das mãos do Senhor. Mas o cântico que está mais perto do Magnificat é o de Ana em 1 Sm 2, 1-10. Tenho o coração alegre, graças ao Senhor, e a fronte erguida, graças ao Senhor, minha boca abre-se contra os meus inimigos: eu me alegro por tua vitória. (…) O Senhor torna pobre e enriquece, rebaixa e também exalta. Ergue o fraco da poeira e retira o pobre do monturo para fazê-los sentar com os príncipes e atribuir-lhe o lugar de honra. A questão é se o canto foi um espontâneo de Maria ou foi produto de um poeta cristão posterior. O mais provável é que Maria meditou muito durante a viagem de três dias e o tivesse composto meditando o cântico de Ana e o de Judite: Deus, o nosso Deus, está conosco para manifestar seu vigor em Israel e sua força contra os inimigos (Jt 13, 11). E Louvai a Deus que não retirou sua misericórdia da casa de Israel, mas esmagou nossos inimigos por minha mão esta noite (Jt 13, 14). Se em Ana o impulso que a levou ao cântico é o nascimento do filho, em Judite está a vitória de Israel sobre os inimigos. Ambas as razões estão vivas no cântico de Maria.

ESTRUTURA: Dividiremos o Magnificat em três partes diferentes: 1a) Introdução (47). 2a) razão do louvor (48-53). 3a) A especial providência para com Israel, figura da misericórdia para com ele (54-55). Vamos tentar explicar cada uma das partes, dando no final uma tradução livre do cântico.

INTRODUÇÃO: E disse Mariam: Engrandece a minha alma o Senhor (46). Et ait Maria magnificat anima mea Dominum. E encheu-se de gozo meu espírito no Deus, meu salvador (47). Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo. É um louvor de agradecimento a Deus que é Senhor [Kyrios] e ao Deus, o seu Salvador [o theós, o soter]. É um beraká ou louvor em alta voz. O grego usa o verbo megalenö, que significa engrandecer tal e qual as traduções portuguesa e italiana. Também a Vulgata usa a palavra magnificat que é uma tradução literal do grego. Porém podemos traduzir livre, mas mais ajustado ao sentido próprio, por exaltar ou glorificar. De fato, esta última é a preferida pela tradução espanhola: Exalta minha alma o Senhor. É, pois um grito de louvor, ou melhor, de ação-de-graças por um benefício recebido. Não podemos esquecer que na língua semita não existe a palavra agradecer que é substituída por louvar ou exaltar. A segunda parte da introdução é o gozo existente por ter visto de perto a ação salvífica divina: E meu espírito encheu-se de gozo no Deus, o meu salvador. Tanto Deus, como Salvador, estão com artigo, indicando uma realidade definida e próxima de Maria.

RAZÃO: Porque fixou seu olhar na insignificância de sua escrava: Eis, pois, desde agora me chamarão ditosa todas as gerações (48). Quia respexit humilitatem ancillae suae ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes. O verbo epiblepö, que mais do que um simples olhar significa observar, prestar atenção [respexit latino] por isso temos traduzido fixou seu olhar. Uma outra palavra mal traduzida é tapeinosis porque o latim traduz por humilitas [humildade] que pode ser uma virtude ativa contrária à soberba e assim foi traduzido às línguas vernáculas. Por isso a tradução espanhola moderna diz se há fijado em la humilde condición de su esclava. Já a italiana diz há considerato l'umiltà della sua serva. As duas portuguesas dirão olhou para a humilhação de sua serva (Bíblia de Jerusalém) e contemplou na (sic) humildade da sua serva (RA evangélica) que é uma construção um tanto irregular. Tapeinosis pode ser também uma condição nativa de impotência e insignificância, ou seja, ser pequeno demais. Daí que o olhar deve ser meticuloso, um observar, como indica o latim [respicio= considerar, olhar com atenção, com piedade]. Doulë=serva que o espanhol traduz como escrava e o latim como ancilla [escrava doméstica], muito melhor que as traduções de serva, pois o doulë grego significa escrava propriamente dita. A primeira razão da ação-de-graças é pois a natureza transcendental ou divina de quem provê a eleição traduzida em benevolência: Deus. A segunda é a pequenez da qual ele se deixou conquistar: escolheu um ser insignificante como é uma escrava. É por isso que todas as gerações a chamarão bendita (de Deus). O grego diz propriamente me abençoarão [chamar bendita] que muitos traduzem por bemaventurada, ou feliz. O que não é realmente uma tradução feliz. Melhor seria, considerarão que sou privilegiada de Deus.

O PRIVILÉGIO(49): Já que fez para mim magníficas (coisas) [megaleios] o Poderoso. Porque Santo é o seu nome (49). Quia fecit mihi magna qui potens est et sanctum nomen eius. Na realidade, megaleios é um adjetivo que significa excelente, magnífico. O PODEROSO era um dos títulos com os quais os judeus substituíam o nome santo Hashem ou HASHEM YITBARAH [o nome recôndito]. É com este nome de PODEROSO que Jesus responde à conjura de Caifás( Mt 26, 64) só que aqui é adjetivo e no momento do julgamento usa-se o substantivo Poder [dynamis]. Por isso, como era costume entre os judeus, termina Maria com um louvor ao nome santo: pois sagrado é seu nome. Ou se queremos calibrar melhor diríamos: pois seu nome é único, divino. Traduzimos o Kai grego, como correspondência ao wau hebraico que tem o significado de conjunção causal ou explicativa, tanto como conjuntiva. Será, pois, porque.

A PROVIDÊNCIA DIVINA (50): Porque sua misericórdia é para geração de gerações, aos que o temem (50). Et misericordia eius in progenies et progenies timentibus eum. Maria agora eleva seu olhar, e da intimidade de seu ser, parte para a lei geral da providência divina para com todos os povos: Visto que sua misericórdia se estende de geração em geração para com os que o temem. Maria nos dá uma definição da atuação divina que merece a pena considerar: Deus é misericórdia para os que o respeitam, pois é a maneira que devemos traduzir o fobeo [temer] grego quando referido a Deus. Respeito e reverência, que se traduzem em obedecer suas leis de modo escrupuloso. A misericórdia é um ato de amor correspondente a quem se inclina ao mais fraco para ajuda e consolação. Esta é a linha geral que Maria descobre em Deus através da escolha particular de sua insignificante pessoa.

O BRAÇO (51): Seu braço se mostrou poderoso ao dispersar os arrogantes de pensamento dentro de seu coração (51). fecit potentiam in brachio suo dispersit superbos mente cordis sui. Podemos contemplar dois sentidos na frase: A) O particular de uma batalha em que são derrotados os inimigos de Israel como aconteceu no caso de Judite 9, 4 e 13, 14 e o verbo pode ser empregado com toda a literalidade do mesmo, como dispersar ou desbaratar, do qual fala o salmo 89, 11 esmagaste Raab, como um cadáver, dispersaste teus inimigos com teu braço poderoso, como modelo da canção Mariana. É esse braço cuja destra esplendorosa de poder esmaga o inimigo (Êx 15, 6). B) Ou o sentido geral de todos os que têm orgulho de serem melhores e mais poderosos que os humildes e então o modelo é o canto de Ana: O arco dos poderosos é quebrado, os debilitados são cingidos de força (1 Sm 2,4). Neste último caso optaremos por uma tradução menos literal e no lugar do dispersou usaremos, peneirou como palha, descartando-os, como a palha é descartada do trigo.

OS PODEROSOS (52): Derribou os poderosos dos tronos e elevou os pequenos (52). deposuit potentes de sede et exaltavit humiles. Aos famintos cumulou de bens e aos ricos despediu vazios (53). Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes. PODEROSOS são chamados de dynastes que podemos traduzir por príncipes ou poderosos. A tradução será, pois, destronou os homens de poder de seus tronos e ergueu os de humilde condição (52). Aos necessitados cumulou de bens e aos ricos despediu vazios (53). Neste ponto Maria segue o modelo de Sl 107, 9 e o canto de Ana: Os que viviam na fartura se empregam por comida. Os que tinham fome não precisam trabalhar (1 Sm 2,4-5). Maria segue assim a política de Jesus das bemaventuranças, de modo especial a redação que nós temos hoje de Lucas: Benditos os famintos… Ai de vós os saciados agora.( Lc 6).

ISRAEL O SERVO (54): Protegeu Israel seu servo, para recordar misericórdia (54), como falou aos nossos pais, Abraão e sua descendência para os séculos (55). Suscepit Israhel puerum suum memorari misericordiae sicut locutus est ad patres nostros Abraham et semini eius in saecula. Em Is 41, 8-9 Javé chama a Israel meu servo. A palavra usada é pais que tanto pode significar filho como escravo. Por isso a atuação de Javé com o nascimento de Jesus significa um efeito peculiar de Deus em favor de seu povo. E fez isso lembrado da misericórdia. Um momento peculiar dessa benevolência divina foi o cumprimento de sua promessa dada como palavra divina a Abraão e sua semente [sua descendência] para sempre (55). É uma recordação de Gn 17,7. Esta aliança perene fará de mim teu Deus e o de tua descendência depois de ti.

TRÊS MESES (56): Permaneceu, pois, Mariam com ela uns três meses e voltou para sua casa (56). Mansit autem Maria cum illa quasi mensibus tribus et reversa est in domum suam. Era o tempo que faltava para que Isabel desse à luz seu filho e Maria, sem dúvida, ficou com a anciã parente até o momento do nascimento de João. Assim se explicam os detalhes do mesmo, dos quais Lucas é narrador e Maria, sem dúvida, testemunha.

A TRADUÇÃO: Exulta minha alma ao Senhor e meu espírito encheu-se de gozo no Deus, o meu salvador; porque fixou seu olhar na insignificância de sua escrava. Por isso, pois, desde agora aclamar-me-ão como bendita todas as gerações; já que realizou em mim fatos extraordinários, porque seu nome é divinamente sagrado, visto que sua misericórdia se manifesta de geração em geração em favor dos que o respeitam. Seu braço mostrou-se poderoso ao desbaratar os arrogantes de pensamento no íntimo de seus corações. De modo que obrigou os homens de poder a descer de seus tronos e ergueu os de condição humilde. Aos necessitados cumulou de bens e aos ricos despediu vazios. Protegeu Israel, seu servo, guiado da sua misericórdia, como prometeu a nossos pais, a Abraão e sua descendência para sempre.

PISTAS:

1) O Magnificat de Maria é o canto da maioria dos fiéis humildes, isto é, pequenos e sem ambições, que constituem a maioria dos seguidores de Jesus. Diante das ambições das doutoras do sexo feminino que pretendem o sacerdócio é bom que recitem o cântico com a mesma sinceridade e humildade com que o fez Maria, todas as tardes nas vésperas para aprender que não é com direitos que vamos nos apresentar ao Deus dos pequenos, mas com a sinceridade que a humildade nos dá, ao saber que dele dependemos e que unicamente os que se humilham serão exaltados (Mt 23, 12).

2) Não é pela pessoa em si mesma, que a Igreja exalta e venera Maria, simples criatura, mas pelos grandes favores que recebeu de Deus e que por isso anima os mais desprestigiados a esperar favores desse mesmo Deus que exalta os humildes. Em Maria vemos as maravilhas que Deus pode realizar com as almas que reconhecem sua bondade; o que outros chamariam de méritos.

3) Maria é a única que louva o Senhor de modo a ser exemplo para todas as mulheres. Ela não o disse no Magnificat, mas será Isabel que em termos de santa inveja a declara modelo de todas as mulheres.

4) Maria indica o verdadeiro caminho de salvação do seu Filho: Deus escolhe desde agora os mais imprestáveis segundo o mundo, como diz Paulo (1 Cor 1, 17 –31) e que com clareza óbvia Maria expressa em seu cântico, para que ninguém se glorie em si mesmo.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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