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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 09/09/2018 - 23º Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 02/09/2018 - 22º Domingo do Tempo Comum


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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09.09.2018
23º Domingo do Tempo Comum — ANO B
( Verde, Glória, Creio – III Semana do Saltério )
__ "O mundo está ficando surdo; precisa de profetas da esperança." __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

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(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

(ATENÇÃO equipes de liturgia: neste mês da Bíblia recomenda-se dar à Sagrada Escritura maior destaque. Permanece à critério de cada comunidade o modo como será feito.)

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Reunidos ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia, somos convidados a elevar um hino de gratidão ao Pai, que nos concedeu o dom da palavra para proclamar o bem em favor do povo. Por isso, a Eucaristia que estamos iniciando irá colocar diante de nós três desafios: ser profeta da esperança, levar a sociedade a abrir os ouvidos ao Evangelho e repudiar todo tipo de discriminação, especialmente em relação aos pobres. Que o alimento eucarístico nos conceda a força necessária para não ter medo frente a estes desafios.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Irmãos e irmãs, hoje, dia do Senhor, Ele nos reúne em torno do altar para nos oferecer o alimento de nossa salvação. Viemos para bendizê-lo por sua fidelidade e amor. Não obstante as forças que rejeitam o Reino que Jesus veio anunciar, cada um de nós e toda a Igreja somos testemunhas dos sinais desse Reino presentes no mundo. Por isso, bendigamos ao Senhor e cantemos as maravilhas do amor de Deus.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Neste primeiro domingo do mês da Bíblia, a Liturgia nos ensina que o nosso Deus é Deus de todos, mas tem atenção especial para com aqueles que mais sofrem. Ele está ao lado dos doentes e marginalizados. Ele é força para os que têm defeitos físicos e por isso mesmo se sentem menos dignos. Parece que nos momentos tristes ele está longe, mas é aí que ele se coloca mais perto. Na primeira leitura, o profeta Isaías consola os corações perturbados, garantindo que Deus virá para fazer justiça, virá para castigar e premiar. Quando o Messias chegar, diz o profeta, os coxos vão andar, os cegos vão ver, os mudos falar e os surdos ouvir. No Evangelho, Jesus prova que o Reino de Deus já chegou. O surdo-mudo é curado, confirmando as palavras de Isaías. As leituras bíblicas de hoje mostram a preferência de Deus pelos pobres, os marginalizados e os enfermos. Na cura do surdo-mudo por Jesus começa a se realizar a esperança messiânica dos pobres tal como o anunciava oito séculos antes de Cristo o profeta Isaías. Rezemos para que tenhamos ouvidos para ouvir a Palavra de Deus e língua para anunciá-la por todos os cantos.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Isaías 35,4-7): - "A terra queimada se converterá num lago, e a região da sede, em fontes."

SALMO RESPONSORIAL 145(146): - "Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida!"

SEGUNDA LEITURA (Tiago 2,1-5): - "Ouvi, meus caríssimos irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?"

EVANGELHO (Marcos 7,31-37): - "Ele fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos!"



Homilia do Diácono José da Cruz – 23º Domingo do Tempo Comum – ANO B

"A surdez do coração"

Essa surdez e mudez que hoje refletimos neste evangelho, têm um significado bem mais profundo do que a cura física. Não se trata simplesmente do ouvir com os ouvidos e falar com a boca, a surdez e a mudez abordada pelo evangelista Marcos, localiza-se no coração do ser humano.

Há pessoas muito faladeiras, que contam mil e uma vantagens, ou então que perdem um tempo precioso falando mal da vida do próximo, ou conversas fúteis da qual nada se aproveita, assim como o saber ouvir é uma arte. Aqui a questão do ouvir não se trata apenas de escutar vozes das pessoas falando, ou ruídos. A deficiência auditiva desse homem da comunidade Marcos vai, além disso, seu coração está fechado para Deus e as pessoas e por isso tem o coração assim tão vazio de Deus, não tendo, portanto nada a anunciar, sua vida fechada e isolada em si mesmo é uma fonte de amargura e azedume.

No antigo testamento a principal queixa de Deus durante a travessia do povo pelo deserto, é de que: o povo tinha fechado o coração e não mais o ouvia, escutavam, mas não o ouviam. Na comunidade de Marcos e também nas nossas há pessoas assim... Essa surdez e mudez são causadas pela arrogância e prepotência dos que não crêem em Deus e preferem dar ouvidos somente as vozes da razão.

Conviver e relacionar-se com alguém assim, é difícil e complicadíssimo, a comunidade não sabe mais o que fazer e rogam a Jesus para que imponha as mãos sobre aquele homem. A experiência que fazemos de Jesus é algo muito pessoal, por isso ele toma o homem surdo-mudo e o leva á um lugar á parte. O mundo da pós-modernidade está repleto de rituais e de vozes que só alienam e escravizam o homem. No dia do Senhor que é o domingo, a comunidade dos que crêem, se afastam do burburinho do quotidiano, e na comunidade se reúnem a outros que querem e precisam ficar a sós com o Senhor.

As palavras de Jesus e seus gestos no ritual da cura do surdo mudo, lembram o rito batismal quando a graça de Deus abre o nosso coração para que Deus possa entrar e fazer morada. Nas celebrações eucarísticas ou mesmo da Santa Palavra, presidida por um Ministro Leigo ou um Diácono, esse ritual se repete, somos tocados pela Palavra, a força do Espírito Santo a leva para dentro de nós, no mais íntimo do nosso ser, transformando aos poucos a nossa vida, a cura da surdez e mudez não é imediata, mas ocorre em um processo que é dinâmico, vamos ouvindo, nos libertando e anunciando, sempre que experimentamos o Senhor.

Comunidade é, portanto o lugar onde todos se preocupam para que cada um se abra cada vez mais á essa Palavra, as nossas orações e cantos nada mais são do que uma súplica para que o Senhor estenda sobre nós suas mãos, abrindo cada vez mais o nosso coração para a sua graça que nos santifica, nos renova e nos liberta. Agora já dá para sabermos quem é esse surdo-mudo que saiu da celebração anunciando com alegria as maravilhas de Deus!

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 23º Domingo do Tempo Comum — ANO B

“Fazer bem para servir melhor”

As ações de Jesus causavam admiração naqueles que o seguiam. Isso porque “Ele fez bem todas as coisas” (Mc 7,37). Jesus é aquele que nos dá a salvação, ou seja, ele nos dá o perdão dos pecados, a graça de ser filho de Deus e membro da Igreja. Todo o Cristo é Salvador: ele e suas ações. Até o choro do Menino Jesus era salvador! Assim como Jesus Cristo foi generoso para com o gênero humano na hora da sua Paixão e Ressurreição, também o foi antes dessa grande ação pascoal.

Já que cada uma das ações do Salvador foi salvadora, é preciso afirmar que ele colocou em cada uma dessas ações o empenho em oferecê-las cheias de obediência e amor ao seu Pai. Assim como o sacrifício de Abel foi perfeito, Jesus Cristo, o Novo Abel, ofereceu ao Pai um sacrifício perfeito em todas as suas ações e em todas as suas dimensões. É justa a exclamação do povo: “Ele fez bem todas as coisas”.

Nós também, incorporados a Cristo, podemos colaborar efetivamente na salvação operada por Cristo uma vez por todas. Com as nossas pequenas ações cotidianas podemos ajudar o Senhor a salvar os nossos semelhantes. Mas será preciso também que ao oferecê-las ao Senhor sejam quais sacrifícios de Abel: perfeitos.

Quais são essas ações cotidianas? As relações profissionais, o trabalho bem feito, a vida de família, as nossas diversões, o nosso tempo dedicado aos demais, o tempo de estudo, pegar um ônibus para ir ao trabalho ou dele vir, um sorriso, um aperto de mão, fazer uma comida gostosa para a família, rezar, fazer esporte etc. Tudo pode ser santificado, pois desde que o Filho de Deus assumiu a nossa humanidade tudo pode e deve ser elevado ao plano de Deus. Como gostavam de dizer alguns Padres da Igreja: o Filho de Deus se fez homem para que o homem se tornasse filho de Deus! E nós poderíamos continuar: o Filho de Deus assumiu a nossa humanidade para que tudo o que é da nossa humanidade possa ser santificado e oferecido ao Pai. Todo trabalho humano honesto e toda e qualquer outra atividade humana que um cristão possa realizar pode e deve ser santificada, oferecida a Deus.

Como é importante que façamos as coisas bem feitas e por amor a Deus. Não nos esqueçamos de que o nosso prestígio profissional é muito importante, não para alimentar o nosso orgulho, mas para sermos coerentes e autênticos. Uma pessoa que reza muito e trabalha mal não está sendo coerente com a sua fé. O cristão, no seu ambiente profissional, deve procurar ser o melhor. Essa competência profissional lhe granjeará um nome e uma posição que podem servir-lhe como uma espécie de isca de pescador. Ou seja, as outras pessoas verão nele um homem de bem, um bom trabalhador, competente, responsável e, ao saber que se trata de um católico, admirará cada vez mais o cristianismo que tem essa capacidade de formar homens e mulheres tão capazes. Isso atrai! E não pense o leitor só em profissões consideradas em maior estima pelas pessoas, mas em toda e qualquer profissão honesta. Nesse sentido, é muito importante que resgatemos também o valor do trabalho que realizam as esposas e mães no lar. É um trabalho feito com muito amor, desgastante, mas, sem essa presença feminina e acolhedora os nossos lares não seriam tão agradáveis e serenos.

“Santifiquemos o trabalho, santifiquemo-nos no trabalho e santifiquemos os outros através do trabalho” fazendo tudo bem feito e por amor a Deus e, com certeza, estaremos imitando o Senhor que dedicou trinta anos a viver silenciosamente com a sua família, trabalhando.

Essa ideia tão conhecida hoje em dia foi difundida pelo Fundador do Opus Dei (Obra de Deus), São Josemaria Escrivá (1902-1975), que, a partir do ano 1928, teria como tema constante de sua pregação o anúncio de que todos os cristãos podem e devem ser santos, precisamente através do trabalho. Falava da chamada à santidade e ao apostolado no meio do mundo, nas circunstâncias e nas ocupações da vida ordinária (trabalho profissional, atividades culturais e sociais, matrimônio e vida de família etc.). Deste núcleo brota uma espiritualidade fundamentada no sentido da filiação divina, na identificação com Jesus Cristo – com uma atenção particular aos seus anos de trabalho em Nazaré – e na consciência da íntima conexão, por virtude da graça, entre o divino e o humano, entre a comunhão com Deus e o desempenho da própria tarefa e do próprio trabalho profissional no seio da sociedade civil.

No fundo desta mensagem encontra-se uma decidida afirmação do caráter vocacional da existência cristã, uma aguda percepção da capacidade santificadora do Batismo e uma profunda compreensão da compenetração entre criação e redenção, que impulsiona a ser “comtemplativos no meio do mundo”, mais ainda, a “amar o mundo apaixonadamente”. O trabalho profissional é considerado como realidade querida por Deus e incorporada, em virtude do decreto divino, à obra da redenção, que, presente no tempo, desemboca na eternidade. A espiritualidade apresenta-se como perspectiva de luz que incita a pôr de manifesto a riqueza do conjunto da mensagem cristã. Dizia São Josemaria: “Aí onde estão as nossas aspirações, o nosso trabalho, os nossos amores – aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. É no meio das coisas mais materiais da terra que nos devemos santificar, servindo a Deus e a todos os homens. Na linha do horizonte, meus filho, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não: onde de verdade se juntam é no coração, quando se vive santamente a vida diária…” (homilia Amar o mundo apaixonadamente, 8-X-1967).

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 23º Domingo do Tempo Comum — ANO B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPISTOLA (TIAGO 2, 1-5)

INTRODUÇÃO: Escrita pelo apóstolo Tiago [Jacob] que era chamado o Justo e declarado irmão [parente] do Senhor [Jesus], está dirigida às doze tribos que se encontram na Dispersão ou Diáspora (1.1). É, pois, escrita para os judeus convertidos que moravam fora da Palestina. Daí que o texto está em grego e seja um dos mais clássicos dentro da Koiné do NT. No trecho de hoje aborda o tema da acepção de pessoas. Tem como base última o mandamento do amor. Não é próprio de um cristão ter medidas diferentes na hora do trato com a comunidade: adular o rico e ignorar o pobre. Essa conduta seria a mesma que instigar o rico a ser como o fariseu da parábola: um desprezador e opressor do pobre.

FAVORITISMO: Meus irmãos: não tenhais em favoritismo a fé do nosso Senhor Jesus Cristo da glória [glorioso] (1). Fratres mei nolite in personarum acceptione habere fidem Domini nostri Iesu Christi gloriae. FAVORITISMO [prosöpolëpsia<4382>=personarum acceptio] de significado acepção de pessoas, ou favorecer a uns mais do que a outros por medo ou por desejo de aceitar favores. Paulo usa esta palavra para afirmar que para com Deus, não há acepção de pessoas (Rm 2, 11), pois trata por igual tanto a judeus como a gregos. Do próprio Jesus, até os inimigos confessaram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que não te deixas influenciar por ninguém. Pois não julgas as pessoas pela aparência, mas ensinas com fidelidade o caminho de Deus (Mc 12, 14). Na casa de Cornélio, gentil, Pedro falou-lhes assim: Agora compreendo verdadeiramente que Deus não faz distinção de pessoas (At 10, 34). Pelo que Tiago diz em seguida, deduzimos que a acepção de pessoas é tratar melhor os ricos do que os pobres. A tradução moderna seria: Não mistureis com favoritismos a fé de nosso Senhor Jesus Cristo glorificado. A tradução literal é um tanto confusa, e no lugar de glorificado ou glorioso fala da glória. Estamos talvez num momento de celebração do dia do Senhor, domingo, como era denominado e no qual se celebrava a ressurreição de Cristo como liturgia.

EXEMPLO: Se, pois, entrar na vossa assembleia um homem com anel de ouro em seus dedos, de vestido esplêndido; mas também um pobre em veste suja (2) e olhardes respeitosamente ao vestido com roupa fina e lhe disserdes: assenta-te aqui confortavelmente. E ao pobre disserdes: fica de pé ai ou senta ai, embaixo do estrado dos meus pés (3). Etenim si introierit in conventu vestro vir aureum anulum habens in veste candida introierit autem et pauper in sordido habitu. et intendatis in eum qui indutus est veste praeclara et dixeritis tu sede hic bene pauperi autem dicatis tu sta illic aut sede sub scabillo pedum meorum. ANEL DE OURO [chrysodaktulios <5554>=aureum anulus habent]: indicava que o homem era rico. Na sociedade de Roma os ricos levavam anéis na mão esquerda com profusão. Sinal de riqueza, os anéis eram mostrados com ostentação, e até podiam ser alugados por tempo e preço determinados. ASSEMBLEIA [synagögë <4864>= conventum] se trata de uma reunião para fazer justiça. Maimônides diz que foi expressamente mandado pelas leis judaicas que, quando um homem pobre e um rico pleiteassem, o rico não devia ser convidado a sentar-se e o pobre a ficar de pé, ou sentar-se num plano inferior, mas ambos deviam estar sentados ou de pé num mesmo plano.

DISTINÇÃO IMORAL: Não fizestes distinção dentro de vós mesmos e vos tornastes juízes de suspeitas maldosas? (4). Nonne iudicatis apud vosmetipsos et facti estis iudices cogitationum iniquarum. DISTINÇÃO [diekrithëte<1252>= iudicatis] diakrinö é separar, fazer distinção, discriminar, preferir. Ao julgar mais digno o rico que o pobre desprezamos o último por sua externa aparência e nos tornamos juízes, reprovando o pobre só pela aparência quando o que interessa é o interior. Por isso adverte Jahveh em 1 Sm 16, 7 sobre a eleição de Davi contrariamente à escolha de seus irmãos: Não julgues pela sua boa aparência e pela sua estatura elevada, porque não foi esse que eu escolhi. Eu não julgo pelas aparências como vocês. Julgo pelo coração. Julgar pelo anel e o vestido é tomar as aparências como verdades certas; e recriminar pela pobreza exterior é uma maldosa prevenção. Sem dúvida que Tiago tem em mente este escrito de Gn 6, 5: E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só maldade, continuamente.

DEUS ESCOLHEU OS POBRES: Atendei irmãos meus amados: não escolheu o Deus os pobres deste mundo, ricos em fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? (5). Audite fratres mei dilectissimi nonne Deus elegit pauperes in hoc mundo divites in fide et heredes regni quod repromisit Deus diligentibus se. O apóstolo está ciente da bem-aventurança de Jesus : Bem-aventurados os pobres, porque deles é o reino de Deus (Lc 6, 20), coisa que Jesus já tinha afirmado na sinagoga de Nazaré, dizendo: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me tem ungido. Enviado-me a levar a boa nova aos pobres, a anunciar a liberdade aos presos, a dar a vista aos cegos, a liberar os oprimidos (Lc 4, 18). Como a entrada no Reino acontece através da fé, daí que Tiago diz que os pobres eram ricos em fé ao mesmo tempo herdeiros do Reino, comparado este com o tesouro escondido (Mt 13, 44) e a pérola de muito valor (Mt 13, 46). Na realidade, os pobres têm um valor último superior a todos os que um rico pode obter neste mundo. Por isso um bispo dizia a seus sacerdotes: a melhor medida do trato com os vossos paroquianos é tratar os pobres como ricos e os ricos como pobres.

EVANGELHO (Mc 7, 31-37)
CURA DO SURDO-MUDO

EM TERRITÓRIO PAGÃO: E de novo saindo dos confins de Tiro e Sidônia veio ao mar da Galileia no meio da região da Decápolis (31). Et iterum exiens de finibus Tyri venit per Sidonem ad mare Galilaeae inter medios finese herdeiros Decapoleos. Temos escolhido um texto grego que facilita o problema apresentado pelo tradicional de "saindo de Tiro ir para o norte para descer por meio de Sidônia até ao mar e entrar na Decápolis". O novo texto corrigido só fala de sair dos confins ou território pagão de Tiro e Sidônia. Chama mar da Galileia quando no tempo de Jesus era chamado mar de Tiberíades, como claramente diz o quarto evangelista: Jesus se manifestou de novo aos discípulos no mar de Tiberíades (21, 1). Indica a falta de conhecimento exato de Marcos por não ser nem escrever perto do lugar, DECÁPOLIS [dekapolis <1179>]. Era este um conjunto de 10 cidades localizadas na Transjordânia a exceção de Citópolis [Bet-san do AT] que estava no extremo oriental da planície de Esdrelão ao oeste do Jordão. A população era majoritariamente helenista. Pompeu as transformou em cidades livres, submetidas ao legado da Síria (63 aC) para impedir que fossem tomadas pelos judeus. Entre elas temos os nomes de Pela, Gadara [gadarenos em Mt 8, 28] e Gerasa [gerasenos em Mc 5, 1], como as mais conhecidas. No século III perderam sua independência, sendo administradas pela província da Arábia.

SURDO E GAGO: E trazem-lhe um surdo gago e lhe pedem para pôr nele a mão (32). Et adducunt ei surdum et mutum et deprecantur eum ut inponat illi manum. Somente noutra passagem no AT saem juntas as mesmas palavras do evangelho de hoje: SURDO [köfos<2974>=surdus] e GAGO [mogilalos<3424>= mutum]. É Isaías 35, 5-6: São as mesmas palavras heresh [<02795>=köfos] e hilem[<0483 =mogilalos] que usa Marcos na cura de um homem que era surdo e gago, ou que tinha dificuldade em se expressar. Daí que muitos intérpretes optem por um significado simbólico desta passagem, além do natural histórico da mesma. Quem seria o surdo e gago que unicamente sob a direta intervenção de Jesus poderia ter cura? A maioria dos autores se inclina em apontar os discípulos de Jesus, que, pouco antes, são descritos como nada tendo compreendido a respeito dos pães multiplicados; pois o coração deles estava endurecido (Mc 6, 52). Era a mesma incompreensão que Jesus encontrava entre o povo, e por isso falava em parábolas, para que por muito que ouçam não compreendam (Mc 4, 12). No AT a surdez junto com a cegueira eram símbolos da resistência de Israel em escutar o que Jahvé falava pelos profetas. Assim Is 6, 10: "A mente deste povo torna pesados (duros) seus ouvidos e tapa seus olhos de modo que não veja com seus olhos e não ouça com seus ouvidos". O sentido, pois, simbólico da passagem é que só Jesus pode dar a entender os planos de Deus e dar aos discípulos uma liberdade de linguagem para transmitir os mesmos com toda exatidão e verdade. Porque dos inúmeros casos de cura que Jesus efetuou nessa margem leste e pagã do Jordão e do lago de Tiberíades (ver Mt 15, 29-31), somente este é narrado por Marcos com todo luxo de detalhes.

MAGIA OU CURA? E tendo-o retirado da multidão, à parte introduziu os seus dedos nos ouvidos dele, cuspiu e tocou a língua delecom saliva (33). Et adprehendens eum de turba seorsum misit digitos suos in auriculas et expuens tetigit linguam eius. A cura de doentes através da imposição das mãos, era admitida pelos rabis da época; porém não se podia usar ritos ou gestos fora da simples imposição das mãos e não era permitido usar outras palavras a não ser as da Escritura, para evitar qualquer superstição ou magia, proibidas pela lei (Lv 3, 2). Os judeus atribuíam uma especial força à imposição das mãos que era obrigatória sobre as vítimas do sacrifício (Lv 1,4) a modo da absolvição dos pecados. Isto nos mostra como a imposição das mãos que a igreja católica usa para o ato penitencial é uma prática que tem sua origem, como tantas outras na tradição judaica. Os judeus pensavam que os pecados pessoais ou dos parentes eram causa de determinadas doenças. Por isso pedem a Jesus que imponha as mãos sobre o surdo-gago. À PARTE: Jesus exigia fé. Como pedir a fé de um homem que nada entendia? Por isso usa gestos que aparentemente poderiam ser tomados como passes mágicos e foi sem dúvida essa a razão que o levou a afastá-lo da multidão. Introduzindo os dedos nos ouvidos, demonstra ao surdo que quer curar sua surdez. A saliva era considerada como uma condensação do espírito. Por isso usa a saliva, que por outra parte na antiguidade era, junto com o vinho e o azeite, remédios usuais, como sinal para declarar que ele quer abrir definitivamente a língua do doente. Sem dúvida que este assim o entendeu.

EFFETHA: E olhando para cima ao céu suspirou e diz-lhe: effetha que é abre-te (34). Et suspiciens in caelum ingemuit et ait illi eppheta quod est adaperire. Jesus olha para o céu, lugar onde estava o Deus dos antigos e lança um suspiro. Quer com isto indicar que ele invoca o poder divino à sua disposição para a cura. Tudo está feito para que a fé no poder de Jesus surta seu efeito e para que o poder que cura o doente seja um poder do alto e não um ato de magia. Pois a fé que o mestre requer não é a fé na cura, mas no poder dele de curar. Então pronuncia a palavra EFFETAH, Abri-os totalmente.

A CURA: E imediatamente abriram-se os ouvidos dele e foi solta a atadura da sua língua e falava corretamente (35). Et statim apertae sunt aures eius et solutum est vinculum linguae eius et loquebatur recte. Entendeu o surdo a voz? Ou talvez a ouviram alguns dos discípulos, escolhidos como os três em Marcos 5, 37? O caso é que o doente ficou curado de imediato. SIMBOLISMO: A Igreja usa os fatos que acompanham a cura para realçar o simbolismo do sacramento do Batismo, que envolve uma realidade invisível. Como no caso de hoje, o batizando é um verdadeiro pagão e o sacerdote, uma vez batizado, entregará a vela acesa, como luz de Cristo que iluminará seus passos e em seguida tocará ouvidos e boca pronunciando a palavra Éfeta, dizendo: "O Senhor que fez os surdos ouvir e os mudos falar, te conceda que possas logo ouvir a sua palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus". Fora de todo simbolismo esta é a realidade afirmada por Paulo como necessária em todo homem de fé em Rm 10, 10: "Crer no próprio coração conduz à justiça e confessar com a boca conduz à salvação".

O SEGREDO MESSIÂNICO: E mandou-lhes que a ninguém falassem. Mas quanto ele lhes recomendava mais abundantemente anunciavam (36). Et praecepit illis ne cui dicerent quanto autem eis praecipiebat tanto magis plus praedicabant. Aqui entramos na lei do silêncio, tão própria de Marcos, porque Jesus não quer ser tomado como um simples curandeiro, ou como um falso messias. A doutrina era muito mais importante do que a cura temporal dos doentes.

O BEM FEITO: E fora de medida se admiravam dizendo: bem todas as coisas têm feito: e os surdos faz ouvirem e os mudos falarem (37). Et eo amplius admirabantur dicentes bene omnia fecit et surdos facit audire et mutos loqui. E veio ter com ele grandes multidões, que traziam coxos, cegos, mudos, aleijados, e outros muitos, e os puseram aos pés de Jesus, e ele os sarou. De tal sorte, que a multidão se maravilhou vendo os mudos a falar, os aleijados sãos, os coxos a andar, e os cegos a ver; e glorificava o Deus de Israel (Mt 15, 30-31). BEM TUDO TEM FEITO é o comentário das multidões para contrapor a opinião dos escribas e fariseus que atribuíam a Belzebu o poder de expulsar os demônios (Mt 12, 24). Não era o poder do maligno, nem uma ambição humana, mas a compaixão pelas doenças do povo o motivo pelo qual Jesus curava os doentes, motivo que se traduzia no triunfo do bem sobre o mal, claro sinal da vinda do Reino.

PISTAS:
1) Necessidade de uma cura interior. Não estamos dispostos a escutar a radicalidade do evangelho (a porta é estreita). Nem temos a suficiente ousadia para anunciá-lo num mundo indiferente, descrente e até hostil.

2) Existe uma disposição humana, que precede e acompanha a ação do Espírito Santo: é a vontade de buscar a verdade e praticar a justiça (no sentido de optar sempre pelo que é bom) de modo a se deixar tocar docilmente pela graça, retirando impedimentos para que o Espírito abra ouvidos e desate línguas em favor da Palavra, ou seja, Jesus.

3) A mediação de Jesus e sua necessidade: É Ele quem atua; mas sempre em comunhão com o Espírito, enviado por Ele, assim como foi Ele enviado pelo Pai; daí o olhar ao céu (Pai) e o suspiro (Espírito) acompanhando o gesto de suas mãos (corpo) e a saliva de sua boca (seu espírito).

4) Levou-o à parte; isto é: sem sair do modo de ser e possuir. Circunstancias que acompanham nosso ego, o formam e o deformam, nos impedem de encontrar o verdadeiro sentido do Cristo da cruz (anunciado por Paulo), o que salva -não unicamente cura o corpo- nossas vidas do anonimato da rotina e da mediocridade da vida cômoda.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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02.09.2015
22º Domingo do Tempo Comum — ANO B
( VERDE, GLÓRIA, CREIO – II SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "PRATICAR A PALAVRA. Este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe de mim." __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
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Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Nossa vida em sociedade, em vários ambientes que frequentamos, é regida por leis. Porém, devemos distinguir o que é lei de Deus e o que são normas humanas. Toda lei que não leva o ser humano a uma relação melhor com Deus e com seu próximo, não corresponde aos planos divinos, portanto, não tem razão de existir. Jesus condena o mero cumprimento de normas ou tradições que muitas vezes escravizam as pessoas. A lei de Deus quer nos indicar o caminho a seguir. Que nossa vida seja um constante processo de conversão, no sentido de nos comprometermos sempre mais com a vontade do Pai. Rezemos, hoje, pelos nossos catequistas, para que sejam iluminados por Cristo, inspirados em seu evangelho e vivam no ardor missionário e na radicalidade do amor de Cristo.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Hoje é Dia Nacional do Catequista. Por isso somos convidados a rezar por aquelas pessoas que se dedicam a esse ministério tão relevante na formação cristã. Nossa comunidade agradece a Deus pelo esforço dos nossos catequistas e pede que a recompensa divina nunca lhes venha a faltar.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Mais uma vez Jesus nos reúne para nos alimentar com sua palavra e com a Eucaristia, estreitando assim os laços que nos unem a ele e aos irmãos. Contudo, faz-se necessário ter bem claro o que é o ensinamento da Palavra de Deus e o que é fruto da tradição humana. O discípulo do Reino, no pensamento de Jesus, deve fazer o caminho inverso ao dos fariseus. Por isso, sua preocupação maior consiste em não se deixar contaminar pelas malícias que brotam do coração. As leituras de hoje nos falam dos mandamentos de Deus. São sábios e quem os observa terá a vida. Diz Moisés na primeira leitura: "Se vocês obedecerem, viverão, entrarão e tomarão posse da terra que o Senhor lhes dará". Mas a observância, nos diz Jesus no evangelho, não é exterior, tem que vir do coração. Para isso é necessária, antes de tudo, a conversão. Uma sociedade sem esta obediência terá conflitos, lutas, violência, roubos, assassinatos, adultérios e insegurança. Isto será fonte de morte e não de vida. As leis do Senhor são justas. Recordemo-nos sempre: nosso Deus está próximo de nós e atento aos nossos pedidos.

Sentindo em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e meditemos profundamente a liturgia de hoje!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Deuteronômio 4,1-2.6-8): - "E agora, ó Israel, ouve as leis e os preceitos que hoje vou ensinar-vos. Ponde-os em prática para que vivais e entreis na posse da terra que o Senhor, Deus de vossos pais, vos dá."

SALMO RESPONSORIAL 14(15): - "Senhor, quem morará em vossa casa e no vosso monte santo habitará?"

SEGUNDA LEITURA (Tiago 1,17-18.21-22.27): - "Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade."

EVANGELHO (Marcos 7,1-8.14-15.21-23): - "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim."



Homilia do Diácono José da Cruz – 22º Domingo do Tempo Comum – ANO B

"A FONTE DO BEM E DO MAL"

Na relação com Deus, o moralismo exacerbado é algo abominável, nascido no rigorismo de normas e preceitos, sendo um fardo insuportável que as pessoas vão arrastando vida afora, achando que isso as faz merecedoras da Salvação que Deus oferece. Os inventores dessas mil “regrinhas” para se conseguir a salvação, se deleitam em ensinar as pessoas a andarem, naquilo que eles têm a coragem de chamar de “caminhos do Senhor”. A Santa Igreja tem o seu Código de Direito Canônico, que tem como objetivo ajudar o cristão membro da Igreja, a viver santamente desfrutando ao máximo da graça e santidade que Jesus oferece, entretanto, não é a pura observância dos cânones, que irá levar alguém a fazer a experiência de Deus em sua vida.

O problema está em que, com tantas regras e normas, muitas vezes inventadas por lideranças religiosas, pastorais, movimentos e associações, abafa-se na vida do cristão aquilo que é essencial, uma relação com Deus a partir do seu íntimo, isso é, a partir do coração, centro de decisão e da Vida. A pregação de que devemos fugir das coisas do mundo e só buscar as coisas de Deus, é perigosamente alienadora, pois agindo nessa linha, tudo aquilo que é humano, e que não faz parte da esfera do sagrado, torna-se profano e portanto, motivo de condenação ao pecador.

Conheci um deficiente visual, que tocava sanfona no Mercado Municipal, para ganhar uns trocados, e o seu repertório, bastante variado, agradava a todas as idades. No final do dia embolsava as doações e ia embora, todo feliz. Sempre alegre e extrovertido, era alguém feliz e que sabia fazer feliz as pessoas que o rodeavam para ouvir suas músicas ou suas histórias engraçadas. Um dia alguém o levou a uma igreja cristã e depois de algumas participações começou o processo de sua conversão, e daí uma vez convertido, e tendo conhecido Jesus, foi orientado para que não mais tocasse aquelas músicas do mundo, que eram pecaminosas diante de Deus, e assim, o “Ceguinho da Sanfona” como era mais conhecido, mergulhou numa grande tristeza que acabou em depressão, nunca mais o vi.

Os Fariseus eram pessoas muito piedosas e fiéis ao judaísmo, mas entre eles havia os “fanáticos” que observavam rigorosamente todas as leis e normas, e adoravam impor o cumprimento da mesma aos demais. Os discípulos de Jesus andavam muito felizes por tê-lo encontrado, e a alegria era tanta que nem se importavam com certas regras, entre elas a de lavar as mãos antes de tomar refeições, e não o faziam por despeito ou por provocação aos Fariseus, é que realmente o encontro com Jesus de Nazaré despertara neles algo novo e inaudito, que nenhuma religião tinha ainda oferecido, era algo que vinha de dentro, do mais íntimo do seu ser, mas os Judeus do Farisaísmo cobraram de Jesus a observância da lei “Por que os seus discípulos não lavam as mãos antes de comer, como faz um judeu piedoso?”. A novidade maravilhosa que Jesus oferecia, não era mais importante do que o cumprimento da lei.

Como é triste quando na comunidade as pessoas são cobradas por alguns, que se julgam justos e Santos, cobra-se conversão, exige-se coerência de vida, retidão de caráter, testemunho de vida, conduta moral irrepreensível, principalmente desprezar e fugir de tudo o que não é sagrado. Ocorre que as pessoas que não tem esse perfil, ou não são perseverantes acabam deixando a comunidade, uma vez que se sentem constrangidas por ficarem ouvindo “pelas costas” a respeito de sua vida “torta”.

Jesus dá um basta a toda essa hipocrisia e coloca uma relação nova com o Pai, não mais a partir da conduta e aparência exterior, mas sim do coração, fonte do bem e do mal, sendo que o que dele provém é que determina as nossas ações, podendo contaminar com o mal, ou contagiar com o Bem. A partir dessa verdade, ninguém mais poderá ser julgado, uma vez que só Deus tem acesso ao coração humano, onde o seu amor de Pai, manifestado em Jesus, transborda o coração dos que nele creem, fazendo-o irradiar esse amor por onde andam, pautando todas as suas decisões e atitudes, a ponto de São Paulo dizer, “que o amor é a plenitude da lei.”

E que adianta saber lavar corretamente jarras e copos, ou tomar banho cada vez que se chega da praça, como os fariseus? Não frequentar certos ambientes ou casas, evitar a companhia de certas pessoas, não ler certas revistas, não assistir certos filmes, mas ter o coração cheio de mágoa, rancor, amargura? E mais ainda, destilar o veneno da intriga, da desconfiança, provocar ou sentir inveja, ciúmes? Toda e qualquer preocupação com ações exteriores, só será edificante se o coração estiver convertido, caso contrário, ressoará em nossos ouvidos a severa advertência do Senhor, com relação ao Farisaísmo desde século “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Rodrigues Costa – 22º Domingo do Tempo Comum — ANO B

“Valorizando o interior do homem”

“É do interior dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez” (Mc 7,21-22). Como é importante, portanto, purificar o coração. Caso não cuidemos o nosso coração, ele poderia endurecer e Jesus nos diria, com razão, que nós pensamos diferente dele “devido à dureza do vosso coração” (Mc 10,5). A tradição cristã sempre gostou de resumir a atitude que devemos ter para com o Espírito Santo numa só palavra: docilidade! Um coração dócil sempre recebe com alegria a mensagem de Jesus e de sua Igreja, produzindo frutos abundantes.

Já no Antigo Testamento, o Espírito Santo havia dito por boca do salmista: “Não endureçais o vosso coração” (Sal 94,8). Poderia acontecer também que tivéssemos – em lugar de um coração endurecido – um coração mole. Quanto se diz que uma pessoa é toda coração ou que ela é “boazinha” demais, no fundo o que se quer dizer é que essa pessoa tem um caráter débil ou, com outras palavras, é uma pessoa sem caráter. O cristão foge destes dois extremos: coração endurecido, coração molenga.

Há pessoas que se dizem a favor do divórcio porque “já é normal, ninguém liga mais para isso”, outras dizem que são a favor das relações pré-matrimoniais porque “já é normal, todo mundo faz”; outras ainda são a favor do aborto porque “já é normal, estamos num mundo moderno”, outras se dizem a favor da legalização dos “casamentos” de pessoas do mesmo sexo porque “já é normal, os países modernos já não põem barreiras” etc. Estes são alguns exemplos ou da falta de conhecimento ou do endurecimento do coração.

Jesus continua a recordar-nos que “no começo não foi assim” (Mt 19,8), isto é, no plano originário de Deus não foi assim, não é assim e não pode ser assim!

Frequentemente, antes desse estado de endurecimento do coração encontra-se uma disposição que provém da falta de ideias claras e de critérios retos. Daí a importância da formação do coração. A Igreja Católica quer formar; ela não quer impor nada a ninguém, o que ela faz é propor a verdade… Aceita quem quer! Contudo, está em jogo a própria felicidade terrena e eterna. Você decide!

O coração humano tem que formar-se no Coração de Cristo. Nós, cristãos, precisamos mostrar aos nossos contemporâneos o Homem perfeito e Deus perfeito, Jesus Cristo. Não mostraremos uma caricatura de “deus”: o cristianismo sempre apresentou o “Cristo crucificado (…), força de Deus e sabedoria de Deus” (1 Cor 1,23-24).

Um coração dócil – sinônimo de pessoa dócil – é aquele que se encontra aberto à verdade, ao bem, à beleza. Encontra-se aberto, portanto, a Deus: verdade, bondade e beleza eterna. Essa abertura verdadeira a Deus nos pedirá uma mudança, uma conversão constante. No caso do cristão, é necessário que o seu coração esteja crucificado com Cristo para com ele ressuscitar. Para viver na verdade de Deus é importante que adaptemos nossa vida à sua verdade, posto que o contrário não acontece: Deus não pode mudar a sua verdade, que é ele mesmo, por causa da nossa mentira. Deus não se engana nem nos engana!

Peçamos a Nossa Senhora, Virgem fiel, que nos faça sinceros, dóceis, alegres e cheios de paz. Desta maneira passaremos por esse mundo mostrando as rosas maravilhosas que tem o cristianismo, ainda que sintamos os espinhos das mesmas penetrando a nossa carne. Cristianismo sem cruz é ilusão, não existe!

Vinde Espírito Santo e fazei que apreciemos retamente todas as coisas!

O Evangelho: nem moderno demais, nem velho demais; simplesmente perene!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético – 22º Domingo do Tempo ComumANO B
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (Tg 1, 17-18.21b,22-27)

INTRODUÇÃO: Chamados como primícias da palavra, não devemos unicamente contentar-nos em ouvi-la. Ela deve ser a razão da nossa conduta, para não sermos mera especulação como homens que se olham no espelho, e imediatamente esquecem qual foi sua figura. Pois a religião verdadeira é aquela que cuida dos necessitados e se vê livre das atrações e tentações do mundo.

     DEUS AUTOR DE TODO BEM: Toda dádiva boa e todo dom perfeito é do alto descendendo do Pai das luzes para o qual não há mudança nem sombra de variação (17). Omne datum optimum et omne donum perfectum desursum est descendens a Patre luminum apud quem non est transmutatio nec vicissitudinis obumbratio. DÁDIVA [dosis<1394>=datum] como em Fp 4, 15: Nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente. DOM [dörema<1434>=donum]: em ambos os casos o adjetivo indica bondade- agathë [boa] e teleion [perfeito]- que unicamente tem como causa eficiente o Pai. Por isso, fala de que a sua procedência é do alto, onde se entendia estava a divindade. Do PAI DAS LUZES [tou Patros<3962> tön fötön<5457>=a patre luminum] Deus é luz, pois esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas (1 Jo 1,5). Deus é o autor das luzes, das corporais como o sol, a lua, as estrelas já que no Gênesis criou a luz (Gn 1, 3), mas também das constelações do dia e da noite  (idem 14) e das estrelas  (idem 16) de modo que a ausência divina são as trevas, não unicamente materiais, mas também do espírito; luz que os homens rejeitaram porque amaram mais as trevas (Jo 3, 19). Sempre que aparece, é visto rodeado de luz como na nuvem do Tabor (Mt 17, 5), ou as vestes de seus anjos ou mensageiros (Lc 24, 4). Sendo plena luz, Tiago pode afirmar que nEle, Deus, não há variação ou sombra de intensidade. Os astros, o sol e especialmente a lua estavam sujeitos às variações de luz. Eram criaturas com os defeitos da imperfeição e caducidade que acompanham as mesmas.

CRIAÇÃO DO HOMEM: Voluntariamente nos criou com palavra de verdade para sermos princípio de qualquer das suas criaturas (18). Voluntarie genuit nos verbo veritatis ut simus initium aliquod creaturae eius. VOLUNTARIAMENTE [boulëtheis<1014>=voluntarie]: em Lc 22, 42 encontramos o mesmo verbo com o significado de querer: ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. De modo que podemos traduzir: unicamente pelo seu bem querer nos criou, COM PALAVRA DE VERDADE: seguramente aqui Tiago recorda o Gênesis em que a criação toda começou a existir pela palavra: e disse Deus. Palavra que o apóstolo chama de Verdade porque corresponde à vontade de Deus que sempre tem como finalidade uma determinada ação e não um desejo inacabado. PRINCÍPIO [aparchë <536>=initium]: o latim pode confundir, pois initium refere-se principalmente ao tempo e aqui está considerando a criação do primeiro homem e esse aparchë, cujo significado era o de ser os primeiros frutos a serem consagrados e oferecidos em ação de graças; mas também primeiro como principal. Assim,  Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem (1 Cor 15, 20). Unindo ambas interpretações, podemos pensar que o homem é dentre as criaturas a principal e que deve ser como essência e remate da criação consagrada ao seu Criador.

 A NOVA PALAVRA: Recebei a implantada palavra poderosa para salvar vossas vidas (21). Suscipite insitum verbum quod potest salvare animas vestras. Na leitura epistolar são suprimidos dois versículos e meio, que vamos incluir aqui como parêntesis (sabeis estas coisas meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar [19]. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus [20]. Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade [21ª]). É uma explicação do versículo anterior em que a palavra ficava um tanto indecisa. Como palavra de Verdade não pode ser a palavra humana que geralmente é palavra de ira, mas palavra divina IMPLANTADA [emfoton<1721>=insitum]  que é um apax e que significa implantar, ou seja, como semeada divinamente por usar a passiva. Palavra que é PODEROSA [dynamenon<1410>=quod potest] para a salvação. Evidentemente essa palavra é a de Jesus, LOGOS [=palavra] do Pai, Filho Unigênito em cujo sacrifício estava a redenção [apolypolitrosis] e cuja carne e sangue eram a comida e bebida da vida. Nisso estava a salvação.

     PRÁTICA DA PALAVRA: Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não só auditores que se iludem a si mesmos(22). Estote autem factores verbi et non auditores tantum fallentes vosmet ipsos. Mas parece que, aqui, é a palavra como saída da boca de Jesus, como anúncio do Reino a que interessa ao nosso autor. PRATICANTES [poiëtai<4163>=factores]: poiëtës é aquele que atua, que opera ou faz. A frase relembra a paulina de Rm 2, 13: Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Quem foi primeiro, Paulo ou Tiago a usar a mesma frase? Autores modernos datam esta epístola como o primeiro escrito do Novo Testamento redatado cerca do ano 47, anterior ao Concílio de Jerusalém. Logo Paulo o conhecia e repetiu a frase em seu escrito aos romanos. Porém, ambos os escritos refletem a palavra de Jesus: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt 7, 21).

  EXEMPLO: Porque se alguém é ouvidor da palavra e não a pratica  este se assemelha a um homem considerando o rosto de seu nascimento em (o) espelho (23). Porque contempla a si mesmo e se retirou e, de imediato, se esqueceu como era (24). Quia si quis auditor est verbi et non factor hic conparabitur viro consideranti vultum nativitatis suae in speculo. Consideravit enim se et abiit et statim oblitus est qualis fuerit. Com um exemplo Tiago ilustra a diferença entre o cumpridor da palavra e o simples ouvinte da mesma: este último é como um homem que se olha no espelho [esoptropon<2072>=speculo] e que logo se esquece do rosto que nele se refletiu. Logicamente o espelho é a palavra que compara a vida e costumes do ouvinte com a Lei nova de Cristo. Se o ouvinte nada faz é como se esquecesse o que ouviu e nada tivesse acontecido.

  O QUE REALIZA A PALAVRA:  Mas quem olha para a Lei perfeita da liberdade e permanece, esse não auditor esquecido se tornado, mas fazedor de obra, este bendito em sua obra será (25). Qui autem perspexerit in lege perfecta libertatis et permanserit non auditor obliviosus factus sed factor operis hic beatus in facto suo erit. A imagem do espelho é substituída pela realidade da LEI PERFFEITA DA LIBERDADE [nomon <3551>teleion<5046>tës eleutherias<1657>=lex perfecta libertatis]: Segundo Tiago, não devem os cristãos se queixar [no sentido de levar a juízo?] uns contra os outros, para não serem condenados, pois o juiz está perto (Tg 5, 9). Desta frase deduzimos que a carta foi escrita antes da destruição de Jerusalém, pois fala do ser julgado [verbo krinö] que em sentido bíblico indica condenar que o juiz [kritës] realizará como castigo. E em 2, 12 o mesmo apóstolo fala como devendo ser julgados pela lei da liberdade. Segundo Paulo, os cristãos foram chamados à liberdade (Gl 5,13 ) de modo que a consciência de cada um não deve ser julgada pela consciência do outro (1 Cor 10, 29). Liberdade que, segundo Pedro, não deve ser usada como pretexto de malícia [para fazer o mal], mas vivendo como servos de Deus (1 Pd 2, 16). Disso tudo deduzimos que as leis dos homens, de vossa tradição (M 13, 52) segundo Jesus, não devem ter valor e delas estamos livres pela nova Lei do NT que Tiago diz ser perfeita e que Jesus resume em amar a Deus com toda a alma e ao próximo como a si mesmo (Mt 22, 37), que em João terá como modelo o próprio amor de Cristo (13, 34).

    A LÍNGUA COMO PROVA: Se alguém pensa ser religioso, entre vós, não dominando sua língua, engana seu coração, sua religião é vã (26). Si quis autem putat se religiosum esse non refrenans linguam suam sed seducens cor suum huius vana est religio. Neste ponto, Tiago volta a sua preferente moral que é o domínio da língua. Esta é a cara externa da personalidade de modo que reflete o interior do homem. Como dizia Jesus é do interior que o mal contamina (Mc 7, 20). ENGANA [apatön<538>=seducens] particípio de presente do verbo apataö, enganar, iludir. Se, pois, alguém pensa ser religioso deve dominar sua língua; pois de outro modo esse tal está enganado. Tiago fala do CORAÇÃO [kardia<2588>= cor] que era em tempos de Jesus a origem dos pensamentos e desejos onde não cabiam os alimentos, que iam para o ventre  e, portanto, não podiam impurificá-lo (Mc 7, 19). O que, pois, não domina sua língua é um religioso de religião falsa. Por isso relata na continuação as características da verdadeira religião.

      VERADADEIRA RELIGIÃO: Religião limpa e sem mácula para Deus e Pai é esta: visitar órfãos e viúvas na sua aflição, manter-se incólume do mundo (27). religio munda et inmaculata apud Deum et Patrem haec est visitare pupillos et viduas in tribulatione eorum inmaculatum se custodire ab hoc saeculo. Antes de mais nada, quem deve julgar sobre a verdade de uma religião é Deus, o Pai. E esta tem como distintivo a caridade: visitar órfãos e viúvas, como diz Isaías que parece serem os seres de cuidados especiais do Senhor, que em Dt 27, 19 afirma: Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém. Mas além dessa positividade existe um negativo que não pode ser esquecido: manter-se incólume do mundo. A impureza dos alimentos que só podia atingir o ventre está no NT substituída pela abstenção dos pensamentos e prazeres do mundo. Sabemos que os fariseus tinham como preceitos principais o jejum e os dízimos (Lc 18,12), e como prêmio de suas orações, a riqueza que certamente contraria  o espírito evangélico como orgulho farisaico que se tornava desprezo dos ham haaretz [povo humilde da terra].

EVANGELHO (Mc 7,1-8; 14-15; 21-23)

LAVAÇÃO COMO PURIFICAÇÃO: E reuniram-se junto a Ele [Jesus] os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém (1). E tendo visto alguns dos discípulos dEle com mãos comuns comendo pães comuns, isto é, sem lavar, censuraram (2). Porque os fariseus e todos os judeus se não lavam até o punho as mãos não comem, conservando a tradição dos anciãos (3).  E depois da praça, se não tomam banho, não comem e outras muitas são as que granjearam guardar: lavados de copos e jarros e chaleiras e leitos (4). Et conveniunt ad eum Pharisaei et quidam de scribis venientes ab Hierosolymis. Et cum vidissent quosdam ex discipulis eius communibus manibus id est non lotis manducare panes vituperaverunt. Pharisaei enim et omnes Iudaei nisi crebro lavent manus non manducant tenentes traditionem seniorum.Et a foro nisi baptizentur non comedunt et alia multa sunt quae tradita sunt illis servare baptismata calicum et urceorum et aeramentorum et lectorum. Os fariseus eram em número de 20 mil e estavam espalhados por toda a Palestina. Já os escribas ou doutores da lei, tinham sua morada principal em Jerusalém. A fama de Jesus e sua rebeldia contra certos preceitos da Lei como o sábado, o tornavam alvo de uma perseguição inquisitorial. Desta vez o objeto de suas intrigas foram os discípulos. COM MÃOS COMUNS [koinais <2839>cherais <5495>=communibus manibus] É uma maneira de dizer que não lavavam as mãos. Havia dois momentos em que todo judeu autêntico devia lavar o corpo ou parte do mesmo: 1o) Antes de uma refeição, especialmente de pão. 2o) Após voltar das ruas da cidade, em cujo caso era necessário tomar um banho. À parte existia o preceito de lavar todos os vasos e recipientes usados na comida e bebida. Eles eram submergidos em água, fria ou quente, dependendo do uso. Para isso existiam, nas casas, recipientes de água de aproximadamente 40 l de capacidade cada um, as talhas de pedra, como vemos em Jo 2, 6. Segundo lemos em autores judeus da época, era necessário lavar as mãos até o cotovelo (batismo como diz Marcos), se a comida era de um sacrifício, ou se partilhava a refeição com um homem idoso; ou se se tratava de pão. E somente os dedos, se a comida era comum. Os escribas afirmavam que se as mãos eram impuras todo o corpo se tornava impuro. Aquele –dizia Rabi Eleazar- que despreza o lavado das mãos devia ser desenraizado da terra, porque na lavação  está o segredo do decálogo. Quem deve ser considerado como um plebeu ou povo ruim? Aquele que não come com limpeza ou pureza legal. Por isso se distingue um judeu de um gentio, na lavagem das mãos. No caso particular de comer o pão (era o nosso pão sírio) sem lavar as mãos, era como se deitar com uma mulher da vida, afirmava Rabi Josef. Os discípulos de Jesus iniciaram sua refeição que era basicamente uma comida consistente em pão de cevada, em forma de um disco de 12 cm de diâmetro e de uma espessura como de um dedo, sem lavar as mãos e talvez sem a bênção de ação de graças. Temos visto o que se pensava em círculos cultos e tradicionais sobre o assunto. A tradição dos antigos, especialmente dos dois chefes das escolas mais famosas da época, Hillel e Shammai, era muita estrita. Rabi Ishmael declarava: “As palavras da lei são palavras que contém tanto proibições como permissões, algumas delas leves, outras graves. Mas as palavras dos escribas todas são graves. As palavras dos escribas são mais pesadas que as dos profetas”. Por isso existia o seguinte conselho: “Aquele que transgride as palavras dos escribas é réu de morte”. Especialmente para comer o pão era necessário lavar as mãos porque o pão era considerado coisa sagrada, já que o pão representava toda comida. Por exemplo, para comer frutas não era necessário o lavado das mãos. Hillel e Shammai foram os que restabeleceram a tradição. Por isso clamavam: “Aquele que abençoa o pão com mãos impuras é réu de morte”. E para ameaçar os espíritos pusilânimes falavam de Shibta, uma sorte de mau espírito, que se assentava nas mãos e na cabeça do transgressor. Rabi Aquiba estava na prisão e preferiu antes morrer que comer sem lavar as mãos e por isso usou o pouco de água que ele tinha para lavar suas mãos antes de beber da mesma. Com estas citações vemos como era importante a matéria que Marcos descreve e que Jesus de modo tão eficiente soluciona. O BATISMO: No versículo 4 fala Marcos de batismo do corpo e dos diversos recipientes. Parece uma exageração, mas na realidade o evangelista só expressa o que era de uso na época. Temos falado do banho corporal após vir das ruas. Mas os diversos recipientes também eram submergidos na água para se purificar. Marcos fala de diversos vasilhames como copos, sextários (= recipientes de 5 litros para vinho e água), vasilhas de bronze, e leitos. Os recipientes de cobre são especialmente nomeados porque se fossem de argila, eram destruídos uma vez tornados impuros. Um exemplo: pratos eram lavados antes do café da manhã, logo antes da refeição do meio-dia e logo antes da ceia noturna. O lavado era uma imersão (batismo) em água. Parece uma exageração o lavado dos reclinatórios nos quais os judeus se recostavam para os banquetes. Mas é uma realidade histórica. Em primeiro lugar todo recipiente comprado de um gentil devia ser submergido para tirar dele a contaminação. As mesas e as camas de madeira também eram incluídas nessa purificação. Especialmente as camas se o dormente morria nela, ou uma mulher menstruada ou um homem com blenorragia deitava nela, ou ainda se tivesse sido a cama de uma parturiente. O sangue derramado tornava impuro o leito. Até os travesseiros, se tinham capa de couro, comum na época, deviam ser purificados submergindo-os em água. A descrição do evangelista é, pois, exata mais do que correta.

A PERGUNTA: Então o interrogam os fariseus e os escribas: por que os teus discípulos não andam segundo a tradição dos anciãos, mas com mãos sem lavar comem o pão?(5) Et interrogant eum Pharisaei et scribae quare discipuli tui non ambulant iuxta traditionem seniorum sed communibus manibus manducant panem? Visto o que temos relatado, o escândalo farisaico era monumental. Como não perguntar ao Mestre, responsável pela educação e moral dos discípulos?

     A RESPOSTA DE JESUS: Ele, pois, tendo respondido lhes disse: que bem profetizou Isaías sobre vós, os hipócritas, como está escrito: Este povo com os lábios me honra, mas o seu coração longe está de mim (6). Em vão, pois, me adoram ensinando ensinamentos prescrevidos pelos homens (7). Porque negligenciando o mandato do Deus, guardais a tradição dos homens: as lavagens [baptismata] de cântaros, e copos e outras muitas similares [vasilhas] fazeis (8). At ille respondens dixit eis bene prophetavit Esaias de vobis hypocritis sicut scriptum est populus hic labiis me honorat cor autem eorum longe est a me. In vanum autem me colunt docentes doctrinas praecepta hominum. Relinquentes enim mandatum Dei tenetis traditionem hominum baptismata urceorum et calicum et alia similia his facitis multa. Jesus distingue perfeitamente entre mandatos (entolë) de Deus e preceitos (entalma) dos homens. Por isso Jesus se queixa como se queixa de seu tempo Isaías, de que os seus conterrâneos honram a  Deus com os lábios, mas seus corações estão longe dEle. E como argumento principal cita o que está escrito em Isaías 29, 13: “O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim e com sua boca e com seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu…”. A citação servia como anel no dedo, nas circunstâncias.

ADVERTÊNCIA AO POVO: E chamando todo o povo lhes dizia: Escutai-me todos e entendei (14). Nada há fora do homem que entrando dentro dele pode contaminá-lo; mas as procedentes dele, essas  [coisas] são as que contaminam o homem (15). Et advocans iterum turbam dicebat illis audite me omnes et intellegite. Nihil est extra hominem introiens in eum quod possit eum coinquinare sed quae de homine procedunt illa sunt quae communicant hominem.

O INTERIOR DO HOMEM: Porque de dentro do coração dos homens os pensamentos, os malignos, surgem: adultérios, fornicações, homicídios (21). Furtos, avarezas, maldades, engano, licenciosidade, olho maldoso, blasfêmia, soberba, insensatez (22). Ab intus enim de corde hominum cogitationes malae procedunt adulteria fornicationes homicidia. furta avaritiae nequitiae dolus inpudicitia oculus malus blasphemia superbia stultitia. Na leitura da epístola faltam os versículos 16-20. Neles Jesus explica aos discípulos por que o que entra do exterior não pode contaminar o homem: porque entra via digestiva e passa pelo ventre sem que tenha contato algum com o coração, órgão do sentimento e da inteligência. É dentro desse coração que as coisas se contaminam, pois é onde surgem os PENSAMENTOS [dialogismoi<1261>=cogitationes] os que são MALIGNOS [kakoi<2556>=malae] e além disso, Jesus cita outras maldades frequentes entre os homens: ADULTÉRIOS [moicheiai <4202> =adulteria] FORNICAÇÕES [porneiai <4202> = fornicationes] HOMICÍDIOS [fonoi<5408>=homicidia] FURTOS [klopai<2829>=furta] AVAREZAS [pleonexia] <4142> =avaritiae],ENGANO[dolos<1388>=dolus], LICENCIOSIDADE [aselgeia<766>=impudicitia] ou lascívia, OLHO MAU [ofthalmos <3788> ponëros<4190>=oculus malus] que traduzem por inveja, BLASFÊMIA [blasfëmia <988> =blasphemia], SOBERBA [yperëfania <5243> =superba], INSENSATEZ [afrosynë<877>  =stultitia]. A enumeração dos vícios e maldades é quase exaustiva.

OS CONTAMINANTES VERDADEIROS: Todas estas coisas más de dentro surgem e contaminam o homem (23). Omnia haec mala ab intus procedunt et communicant hominem. Esta é a conclusão verdadeira que remata o razoamento de  Jesus: o que provém de fora não contamina o homem; mas é de dentro que aceitando e animando sentimentos malignos o homem se torna efeito e causa do mal. Se a repreensão anterior era dirigida aos fariseus, agora Jesus se dirige ao povo: Escutai todos e entendei. Era uma lição magistral que Jesus exige ser bem assimilada. Nada de fora pode contaminar, ou tornar impuro um homem, entrando nele. Mas o que sai de dentro do mesmo, é o que o suja e envilece. Com isto Jesus declara nulas todas as leis de impureza ao mesmo tempo em que afirma que a impureza nada tem a ver com o pecado. A impureza  não afasta o homem de Deus como o pecado, pois este consiste em não cumprir as leis divinas. E Jesus enumera uma série de instintos internos, fontes de pecado que dão origem aos mesmos e que se realizados tornam o homem profano e vil perante Deus. Temos traduzido da melhor maneira possível, tendo em conta diversos textos, cuja origem é o grego e do qual pretendem ser traduzidas. São, pois, estas tendências más as seguintes: fornicações, roubos, homicídios, adultérios, cobiça (avareza), degradação (maldade, perversidade), fraude (engano), lascívia (desenfreamento), inveja (olho mau), blasfêmia, orgulho (arrogância), insensatez (estupidez). Tudo isso é que torna um homem contaminado, profano com respeito a Deus, que é sagrado por excelência.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente
as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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