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Índice desta página:
Nota: Cada seção contém Comentário, Leituras, Homilia do Diácono José da Cruz e Homilias e Comentário Exegético (Estudo Bíblico) extraído do site Presbíteros.com

. Evangelho de 10/11/2019 - 32º Domingo do Tempo Comum
. Evangelho de 03/11/2019 - 31º DTC - Solenidade de Todos os Santos


Acostume-se a ler a Bíblia! Pegue-a agora para ver os trechos citados. Se você não sabe interpretar os livros, capítulos e versículos, acesse a página "A BÍBLIA COMENTADA" no menu ao lado.

Aqui nesta página, você pode ver as Leituras da Liturgia dos Domingos, colocando o cursor sobre os textos em azul. A Liturgia Diária está na página EVANGELHO DO DIA no menu ao lado.
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10.11.2019
32º Domingo do Tempo Comum — ANO C
( VERDE, GLÓRIA, CREIO – IV SEMANA DO SALTÉRIO )
__ "Cremos na ressurreição dos mortos e na vida eterna" __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Saduceus de ontem e de hoje mantém o mesmo princípio e defendem a mesma tese: a ressurreição depois da morte é uma impossibilidade. Não crêem na ressurreição dos mortos e, assim, impossibilitam a eternidade. Reduzem a vida a alguns anos, que termina com a morte e com algumas pás de terra escondendo um caixão de defunto. Duvidosos, gostam de desafiar quem crê na ressurreição dos mortos, como nós cristãos. É dentro desse contexto criado pelos saduceus, que a liturgia de hoje vem confirmar a fé dos discípulos e discípulas de Jesus na ressurreição dos mortos. A principal reação diante desse desafio é manter-se firme na esperança, como nos incentivará São Paulo.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Irmãos e irmãs, nossa esperança é firme: fomos criador para Deus, para Deus estamos a caminho! Somos cristãos porque cremos firmemente na ressurreição e na Vida Eterna. Celebrando a Eucaristia, somos mergulhados no mistério da morte e ressurreição do Senhor. Sua Páscoa é, já, a certeza de nossa Páscoa! Por isso, entreguemos nossa vida com confiança ao Senhor e busquemos vivê-la de tal forma que possamos merecer estar para sempre na presença do Senhor.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: Acreditar na vida futura não significa fugir da responsabilidade atual de transformar o presente. Nós, cristãos, somos testemunhas da ressurreição. Quando dizemos que o nosso Deus é dos vivos e não dos mortos, afirmamos que ele está em nosso presente e não apenas a nos aguardar para a eternidade. Ele é o Deus dos que hoje são verdadeiramente vivos, empenhados inteiramente em melhorar a situação da humanidade. E esta vida não termina, mas continua após a morte física, porque é a vida do próprio Deus.

Sintamos em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (2 Macabeus 7,1-2.9-14): - "o Rei do universo nos ressuscitará para a vida eterna, se morrermos por fidelidade às suas leis"

SALMO RESPONSORIAL 17(16): - "Ao despertar, me saciará vossa presença e verei a vossa face!"

SEGUNDA LEITURA (2 Tessalonicenses 2,16-3,5): - "Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; porque todos vivem para ele."

EVANGELHO (Lucas 20,27-38 ou 27.34-38): - "Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus."



Homilia do Diácono José da Cruz — 32º Domingo do Tempo Comum — ANO C

RESSURREIÇÃO É VIDA NOVA!

Há muitas pessoas que desdenham do “céu” por achar que ele não existe, e que portanto não há ressurreição dos mortos. Para estes, a vida se resume a esta existência terrena, “céu e inferno é por aqui mesmo!“- dizem de boca cheia.

Claro que esta concepção de um “Paraíso Terrestre” só considera a felicidade que o mundo nos oferece, porque se fundamenta no TER e no PODER. Para estes, felicidade é desfrutar da vida tudo o que ela pode oferecer, em todo e qualquer prazer, realizando qualquer desejo. Esse paraíso sonhado e inventado pelo homem, termina inesperadamente, em um leito de hospital, em um acidente, em um ato de violência e daí, toda esta bela fantasia acaba enterrada em uma cova ou colocada em um túmulo, pois até quem não crê, sabe que desta vida nada se leva. Portanto, viver em função desse falso paraíso, pode ter certeza de que não vale a pena! É preciso descobrir o verdadeiro sentido dessa vida.

Mas há pessoas mais ingênuas que crêem em uma ressurreição enquanto revivicação do cadáver, ou seja, ressuscitar é voltar a esta vida, sendo que era este o conceito rudimentar de ressurreição no antigo testamento. De modo prático podemos pensar no seguinte, a pessoa morreu vítima de um acidente de trânsito, ressuscita e volta novamente a esta vida, com todas as suas limitações e fragilidades, um dia morre vítima de uma grave enfermidade. De que adianta a ressurreição, se tudo volta à mesmice?

Os Saduceus eram uma classe elitizada, pertencente a uma corrente religiosa que não acreditava na ressurreição, e nessa conversa com Jesus inventam uma novelinha de linha bem humoresca, baseada na lei de Moisés, de certa mulher que pelo visto, devia ser “Fogo na roupa”, porque casou-se com sete irmãos, um após a morte do outro, e por fim, um belo dia a coitada também “bateu com a cacholeta”, também não era para menos...

A história irônica tem como objetivo desmoralizar a doutrina cristã sobre a ressurreição dos mortos, perguntando de maneira até irreverente, de quem a tal mulher seria esposa após a ressurreição, já que havia se dado em casamento a todos os sete, como se a gente levasse para a vida eterna todas as intrigas e demais complicações desta vida. Se fosse assim, a ressurreição seria um grande engano.

Mas Jesus rebate os gozadores com um argumento muito consistente: os que forem considerados dignos da Vida Eterna, não morrerão. Isso é, não deixarão de existir mas entrarão em uma Vida totalmente nova, passando a ser um homem renovado, um ser glorioso, sem limites e sem mais nenhuma necessidade terrena.

E qual a relação entre esta vida nova da pós-morte, e esta vida terrena? As relações nesta vida, inclusive a conjugal, nada mais são do que um exercício para este amor da plenitude, que só encontramos em Jesus Cristo após a ressurreição. Por isso, nesta vida terrena temos necessidade do próximo com quem nos relacionamos nesse constante aprendizado, que vai nos santificando em cada momento.

A expressão muito usada, na morte de um ente querido, de que um dia iremos reencontrá-lo, é legítima e verdadeira, porém, este encontro não será como imaginamos, marcado por lembranças, sentimentos, recordações, emoções: “Oi, como vai? Há quanto tempo a gente não se vê. E daí ? Como está a vida nova? Estou louco para rever todos os que partiram antes de mim... Vamos por a conversa em ordem”.

Seria muita ingenuidade ficarmos imaginando coisas assim, na ressurreição. De nada disso teremos mais necessidade, pois todos estaremos em Deus, mergulhados em sua santidade, plenitude e perfeição. Nada mais teremos a aprender. Poderá por acaso um acadêmico retorna a um curso de alfabetização?

O que importa é viver a vida com essa certeza de que a vivemos para Deus, aproveitando cada minuto para praticar o amor, a única virtude que levaremos para a Ressurreição. Quem viver assim, não morrerá jamais! Palavra de Jesus de Nazaré, ressuscitado pelo Pai, e que vai à nossa frente, mostrando-nos o caminho, dando-nos alegria e coragem e acima de tudo confirmando-nos que o nosso Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos!

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — 32º Domingo do Tempo Comum — ANO C

Creio na ressurreição da carne

A nossa Ressurreição, como a de Cristo, será obra da Santíssima Trindade (cf. Cat. 989). Logo após a morte do ser humano há o juízo particular (cf. Hb 9,27) e ele experimenta céu (ou purgatório com preparação para o céu) ou inferno em sua alma, não em seu corpo, que fica enterrado e com o tempo chegará à completa putrefação. Contudo, a fé cristã professa que ressuscitaremos com os nossos corpos (cf. 1 Cor 15,12-14.20; Cat. 990). Além disso, a valorização de uma antropologia realista também nos leva a ver a conveniência dessa doutrina: Deus criou o homem inteiro, corpo e alma. Por que negar ao corpo os bens eternos que a alma desfruta?

Em 2 Mac 7,1-2.9-14 se vê claramente a confiança na ressurreição; além disso se pode observar (2 Mac 7,9.14) que há uma ressurreição para a vida (céu) e outra para a morte (inferno). Nos tempos de Cristo havia judeus que acreditavam na ressurreição (fariseus) e outros que não acreditavam (saduceus). No texto de Lc 20,27-38, a questão é a ressurreição. De fato, começa falando do grupo religioso judeu que negava a ressurreição: “alguns saduceus – que negam a ressurreição, aproximaram-se de Jesus” (Lc 20,27).

Ao interpretar a Sagrada Escritura em favor de sua falta de fé na ressurreição, Jesus diz que eles estavam errados (cf. Mc 12,24). Deus que fez o homem do nada pode muito bem ressuscitá-lo a partir daquilo que ele já foi. São Paulo fala de um “corpo espiritual” (1 Cor 15,44): é o mesmo corpo do sujeito em questão, mas transfigurado, em sua máxima vivificação graças ao Espírito Santo.

No século II, Santo Ireneu afirmava que a doutrina da ressurreição dos mortos faz parte da fé apostólica (Adversus haereses, III, 12, 3). Orígenes nos dá notícia de que no século III, a ressurreição dos mortos era ridicularizada pelos os infiéis (Contra Celsum, I, 7). Santo Agostinho, no século V, afirmava que em seu tempo essa doutrina era a que mais recebia oposição.

A objeção é antiga. Porfírio, homem do século II, formulou-a da seguinte maneira: “como ressuscitará um indivíduo que perece no mar e que é comido pelos peixes, cujas partículas ficam dispersas através da cadeia alimentar: os pescadores comem os peixes e os homens são devorados pelos cachorros, e estes são comidos pelas aves?”

Atenágoras de Atenas, apologista cristão do século II, fez eco dessa objeção para depois combatê-la: o poder de Deus pode “distinguir e reunir em suas próprias partes e membros aquele que, despedaçado, foi parar numa multidão de animais de toda espécie, que costumam atacar tais corpos e saciar-se deles, tenham ido parar em só desses animais ou em muitos, e destes em outros e, dissolvido juntamente com eles, tenha voltado, conforme a natural dissolução, aos primeiros princípios. Parece ser isso o que mais perturba alguns, entre aqueles cuja sabedoria é admirável; não sei por que consideram tão grandes as dificuldades correntes entre o vulgo” (Sobre a ressurreição dos mortos, I, 3).

Na segunda parte da supracitada obra, Atenágoras enumera vários argumentos a favor da ressurreição dos mortos:

1º) o homem, todo ele, alma e corpo, foi criado para a vida eterna: “se o Criador de todo este universo fez o homem para participar da vida racional e, feito contemplador de sua magnificência e sabedoria que em tudo brilham, permanecer sempre nessa contemplação, segundo o seu desígnio e conforme a natureza que lhe coube como sorte, a causa da criação nos garante a permanência para sempre e a permanência garante a ressurreição, pois sem ela não seria possível ao homem permanecer para sempre” (II, 13);

2º) o ser humano é alma e corpo, esta é a sua natureza conforme o desígnio de Deus para ele: “agora, como universalmente, toda a natureza consta de alma imortal e de corpo que foi adaptado a essa alma no momento da criação; como Deus não destinou tal criação, tal vida e toda a existência à alma por si só ou ao corpo separadamente, mas aos homens, compostos de alma e corpo, a fim de que pelos mesmos elementos dos quais se geram e vivem, cheguem, terminada a sua vida, a um só e comum termo; como de corpo e alma se formam um só animal que sofre o mesmo que alma e corpo sofrem, que age e realiza tanto o que se refere à vida sensível como ao juízo racional, é inteiramente necessário que todo esse conjunto se refira a um só fim e desse modo, em tudo concorra a uma só harmonia e à mesma união de sentimentos no homem” (II, 15);

3º) o prêmio ou o castigo é para o homem inteiro, corpo e alma unidos: “chamo de composto o homem com seu corpo e alma, e digo que esse é o responsável por todas as suas ações e receberá o prêmio ou castigo por elas. Ora, se um julgamento justo dará sobre o composto a sentença das obras, nem a alma sozinha receberá a recompensa do que realizou junto com o corpo, pois por si ela é insensível aos pecados que possam ser cometidos pelos prazeres, alimentos ou cuidados corporais, nem o corpo sozinho, pois por si mesmo ele é incapaz de discernir a lei e a justiça. Ao contrário, é o homem, composto de alma e corpo, que recebe o julgamento de cada uma das obras por ele feitas” (II, 18);

4º) a felicidade última do homem só é alcançada na eternidade e, dessa maneira, o homem inteiro, corpo e alma, devem estar no céu: “também não pode ser fim do homem a felicidade da alma separada do corpo, pois não se deve considerar a vida ou o fim de um dos elementos de que o homem se compõe, mas a vida e o fim do composto dos dois. Com efeito, assim é todo homem ao qual cabe como sorte a presente existência, e a vida deste é a que deve ter algum fim peculiar. Ora, se o fim deve ser o composto, não é possível encontrar esse fim nem enquanto os homens vivem, pelas causas muitas vezes alegadas, nem a alma separada do corpo, uma vez que tal homem não pode sequer subsistir, pois logo o corpo se desfaz e se dispersa totalmente, embora a alma permaneça por si mesma. Portanto, é absolutamente necessário que o fim do homem apareça em outra constituição do composto e do próprio animal. E se isso acontece necessariamente, é absolutamente necessário que se dê a ressurreição dos corpos mortos e até totalmente dissolvidos e que reconstituam os mesmos homens, mas dos homens mesmos que viveram a vida anterior. Mas não é possível reconstituir os mesmos homens, se não se devolvem os mesmos corpos às mesmas almas, e não é possível que as mesmas almas recebam de outro modo os mesmos corpos, a não ser pela ressurreição” (II, 25).

Como se pode ver, Atenágoras defende a ressurreição apoiando-se constantemente no poder de Deus, por um lado, e na natureza dos homens, por outro. Além disso, defende a identidade do corpo glorioso (após a ressurreição) com o corpo que tínhamos: se não há identidade entre os corpos, não seriamos nós mesmos!

Como corolário, poderíamos afirmar que essa identidade corpórea refuta a doutrina da reencarnação: nós não seríamos nós mesmos se adquiríssemos diversos corpos em sucessivas encarnações. Além disso, porque somente a alma pagaria por atos feitos conjuntamente com o seu corpo? Há na teoria da reencarnação uma falsa antropologia. Ademais, a teoria da reencarnação deixa a salvação nas mãos dos homens e não valoriza suficientemente o mistério pascal de Cristo: ele nos salvou, abriu-nos o céu! O Catecismo da Igreja Católica é categórico: “não voltaremos mais a outras vidas terrestres. “Os homens devem morrer uma só vez” (Hb 9,27). Não existe “reencarnação” depois da morte” (Cat. 1013).

A ressurreição do homem acontece, conforme a fé cristã, segundo o modelo da ressurreição de Cristo. É importante, portanto, considerarmos essa dimensão cristológica da ressurreição de todos os homens que, de alguma maneira, se encontram em Cristo, já que ele assumiu a natureza humana. Contudo, de maneira especial, a cristificação do homem se entende melhor na “ressurreição para a vida”. Afirma um famoso teólogo que a ressurreição dos homens é o desenvolvimento máximo da união do homem com Cristo. Precisamente aqui a escatologia aparece como Cristologia consumada (cf. M. SCHUMAUS, Teología Dogmática, VII: Los novísimos, Madrid 1961, p. 216 em J. J. ALVIAR, Escatología. Pamplona: EUNSA, 2004, 176). O Verbo encarnado assume não somente a natureza humana concreta, mas une a si a natureza humana enquanto tal, enquanto realidade que se perpetua na história, encarnada nos diversos sujeitos. Cristo une a si a realidade humana e a realidade cósmica, arrasta-as consigo numa história que passa pelo esvaziamento e termina na glória. Jesus Cristo partilha ao máximo, até à morte, a realidade humana, para depois fazer com que os homens participem plenamente de sua energia vivificante. A ressurreição dos mortos é o difundir-se dessa energia divina e divinizadora desde a natureza humana concreta assumida pelo Filho até à natureza humana na sua totalidade (alma e corpo). O Espírito Santo identificou-nos com Cristo no momento do nosso batismo e levará até ao fim essa obra divina, que só terminará (desde o ponto de vista da perfeição final) na nossa plena identificação com Cristo no dia da ressurreição; então seremos entregues ao Pai como filhos no Filho (cf. J. J. ALVIAR, Escatología. Pamplona: EUNSA, 2004, 176-177).

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 32º Domingo do Tempo Comum — ANO C
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

... Não publicado nesta semana - Segue artigo interessante sobre a Histórita da Igreja ...

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Doutrina | História da Igreja

Ordens Religiosas Militares

Na sua acepção cristã primitiva, a expressão ordo militaris, justaposta a ordo ecclesiasticus (=o clero), designava os fiéis leigos com a sua respectiva legislação; todo cristão, por efeito do Batismo e da Crisma, é, sim, um militante de Cristo. A medida que as Ordens monásticas se foram desenvolvendo, ordo militaris (Ordem militar) passou a ser o título de famílias religiosas organizadas para lutar em defesa da fé, dos pobres e dos oprimidos.

Já que o ideal das Ordens militares se prende de perto ao do cavaleiro medieval, será oportuno lembrar, antes do mais, alguns traços característicos deste último.

1. O cavaleiro medieval

Entre os múltiplos elementos com que os invasores bárbaros contribuíram para a formação da cultura e da mentalidade medievais, conta-se a instituição dos cavaleiros. Esta se foi delineando aos poucos: a princípio tinha a índole um tanto brutal que caracterizava tudo que se referia à guerra entre os bárbaros; mas, com o tempo, impregnou-se de mentalidade profundamente cristã. O cavaleiro foi-se mais e mais considerando servo de Deus, portador de missão religiosa; o Senhor Altíssimo lhe era apresentado como o primeiro Soberano, e a fidelidade ou a fé como a virtude básica. Destarte as normas da cavalaria se tornaram autêntica escola de formação do jovem medieval, cujo programa se resumia no lema: «Minha alma, a Deus; minha vida, ao rei; meu coração, à dama; a honra, para mim». O cavaleiro aprendia não somente o manejo das armas e a técnica do combate, mas, a fim de disciplinar as paixões e servir devidamente aos seus nobres objetivos, era educado na prática das virtudes e do amor (amor a Deus e ao próximo).

A formação do cavaleiro se processava em três etapas:

a) até os sete anos, o candidato ficava sob os cuidados de sua mãe e das amas, que lhe insuflavam os rudimentos da educação cristã; passava a mor parte do tempo em jogos infantis. Aos sete anos, tornava-se pagem ou donzel (domicellus) e geralmente era transferido para a corte de um príncipe ou para o castelo de um senhor feudal, a cujo serviço ele se dedicava tanto em casa como na caça e em viagem. A instrução religiosa era-lhe ministrada pelo capelão do castelo, que não raro nos longos serões do inverno lhe narrava os episódios do Antigo e do Novo Testamento assim como a vida dos santos. Uma das grandes tarefas do pagem consistia na aprendizagem das sete «probitates» do cavaleiro: a natação, a equitação, o manejo do arco, o duelo, a caça, o jogo do xadrez, a arte da rima. A título de recreio, era-lhe dado ouvir o trovador, que periodicamente visitava o castelo, deleitando os ouvintes com suas canções e com as narrativas dos feitos exímios dos antigos heróis.

b) Aos 14 anos, o pagem era promovido a escudeiro, recebendo do sacerdote ao pé do altar a espada e o cinturão bentos, ao passo que as esporas de prata lhe eram fixadas aos pés pelos assistentes; estes, em seu nome, prometiam amor e lealdade. De então por diante, a ocupação principal do jovem era o uso das armas, que ele carregava ao acompanhar o seu senhor na guerra e na caça.

c) Aos 21 anos, o escudeiro era instituído cavaleiro numa cerimônia (dita adubamento) rica de simbolismo. Na véspera do grande dia purificava-se por um banho (comparado a novo batismo), após o qual se revestia de «cotta» (camisa) preta (símbolo da morte), túnica branca (emblema da pureza) e manto vermelho (significativo do sangue que ele devia estar pronto a derramar pela fé). Assim trajado, o candidato ia para a capela, onde passava a noite em «vigília de armas»; de manhã cedo confessava-se e participava da S. Missa pela Comunhão. Seguia-se a investidura propriamente dita: após a bênção da espada, o candidato ouvia de joelhos a leitura dos seus futuros deveres, entre os quais primavam os de servir a Deus e à Igreja, não mentir, proteger os fracos. Feito isto, os padrinhos lhe impunham uma blusa, um casaco de malha, polainas de ferro e a espada; o cavaleiro jurava solenemente fidelidade aos seus ideais de guerreiro cristão; por fim, para encerrar o rito, o seu senhor tocava-o três vezes com a espada, dizendo: «Em nome de Deus, de S. Miguel e de Nossa Senhora, constituo-te cavaleiro».

Infelizmente os varões assim preparados não estiveram sempre à altura do seu nobre programa. Aos poucos, o entusiasmo foi diminuindo; o cavaleiro se tornou burguês e cortesão; a entrada na cavalaria veio a ser obrigatória para que alguém gozasse dos privilégios da nobreza; em suma, o titulo de cavaleiro passou a ser mera distinção honorífica. Como quer que seja, a instituição, em seus tempos áureos, produziu frutos notáveis tanto no plano natural como no sobrenatural, dentro da sociedade medieval.

À luz destas idéias, entende-se tenham surgido na Santa Igreja famílias religiosas que professavam empunhar as armas a serviço da mais nobre das causas, que é a do Reino de Cristo.

2. As Ordens Militares

1. Organização e espírito: Se o combate ao jugo opressor da verdadeira fé se pode tornar ato louvável, se, por ocasião das cruzadas, esse combate era mesmo estimulado e indulgenciado pela Santa Igreja, explica-se o surto, no séc. XII, de Ordens Religiosas que, como finalidade primária, se propunham o exercido da milícia sagrada: visavam guiar os peregrinos à Terra Santa, defendê-los contra piratas e acidentes de viagem, tratá-los em casos de enfermidade e, de maneira geral, promover os interesses do Reino de Cristo em meio aos muçulmanos e pagãos. O religioso militar vinha a ser um cruzado vitalício. Ora, a partir de 1099, quando se originaram os primeiros Estados cristãos no Oriente, a necessidade de reforços ocidentais era contínua. Também na península ibérica a luta contra os ocupantes muçulmanos, e nos países bálticos as ameaças de normandos e outros pagãos exigiam prontidão e esforços continuados de milícias cristãs. Foi para atender precisamente a tal estado de coisas que se constituíram as Ordens Militares.

Como se compreende, as novas famílias religiosas foram colocadas sob a dependência imediata da Santa Sé, única autoridade capaz de conceder licença aos Religiosos para exercerem combates armados sem incorrer em irregularidade canônica (o uso de armas fora, sim, repetidamente proibido aos monges por concílios dos séculos anteriores). A autoridade eclesiástica costumava indicar às novas Ordens alguma das Regras Religiosas já existentes, como a de S. Bento, a de S. Agostinho, a dos Cistercienses, Regra que naturalmente devia ser adaptada à finalidade própria das Ordens militares.

A direção suprema de cada uma dessas sociedades tocava a um Grão-Mestre, eleito pelos seus cavaleiros. Quanto aos membros da Ordem, distribuíam-se em três categorias:

fratres milites ou equites, cavaleiros, aos quais competiam as funções de empunhar as armas e de tratar dos enfermos em hospitais fundados na Terra Santa;

fratres servientes, escudeiros, que desempenhavam o papel de auxiliares dos cavaleiros, dedicando-se por vêzes aos trabalhos manuais necessários na vida comum;

capelães ou sacerdotes encarregados dos ofícios religiosos nos oratórios da Ordem (não será preciso frisar que os «Fratres» anteriormente mencionados eram leigos).

Também se podiam contar oblatos (donati) e mulheres remotamente ligados com cada Ordem Militar (assim nos séc. XIII/XIV as Irmãs Teutônicas surgiram ao lado da Ordem masculina correspondente).

Os Irmãos emitiam os três votos religiosos de pobreza, obediência e castidade; em época tardia, porém, tornou-se licito aos cavaleiros de Espanha e Portugal contrair matrimônio ao menos uma vez na vida.

Para poder desenvolver suas vastas atividades, as Ordens Militares foram enriquecidas com amplos favores e privilégios no foro religioso. Necessitavam outrossim de sólido patrimônio material, que lhes foi sendo doado por benfeitores; tornaram-se assim proprietárias de consideráveis bens, em virtude dos quais exerciam grande influência não somente na vida civil, mas também dentro da Santa Igreja. Inegavelmente granjearam múltiplos títulos de benemerência tanto pelos seus feitos corajosos como pela contribuição valiosa que trouxeram à cultura medieval: escolas, academias, arquitetura, historiografia e poesia foram por elas amplamente beneficiadas. Lamentavelmente, porém, o grande prestígio e os vultuosos patrimônios de que gozavam as Ordens Militares, vieram a ser causas preponderantes de seu declínio: surgiram rivalidades entre elas, principalmente depois que cessou o domínio cristão na Terra Santa (fins do séc. XIII); desde então, tais Ordens se viram destituídas de sua finalidade primordial (a ação militar ou hospitalar), obrigadas, por conseguinte, a se ocupar com atividades para as quais não haviam sido criadas; isto não podia deixar de contribuir para solapar o espírito de fervor que movera os respectivos fundadores.

Tendo perdido o seu objetivo primário, algumas das Ordens Militares foram sendo sucessivamente extintas pela autoridade da Santa Sé (haja vista o famoso caso dos Templários). Outras subsistem ainda hoje, secularizadas, porém; tornaram-se propriedade dos governos civis (o rei de tal ou tal nação é o Grão-Mestre da Ordem); embora tenham conservado os antigos títulos cristãos, estas sociedades secularizadas carecem de significado propriamente religioso, sendo meros quadros de honra ao mérito nacional. Certas Ordens Militares ainda se apresentam hoje com caráter religioso, embora atenuado em relação ao que tinham na Idade Média (haja vista a Ordem de Malta, a dos Teutônicos).

Um breve catálogo das mais notáveis Ordens Militares ainda ajudará o leitor a compreender o significado das mesmas.

2. As principais Ordens Militares. Destacam-se por sua ampla ação as três grandes Ordens dos Hospitalários, dos Templários e dos Teutônicos.

Os Hospitalários de S. João de Jerusalém constituem a primeira fundação do novo gênero. Como indica o nome, a princípio não eram guerreiros, mas dedicavam-se ao serviço de um hospital estabelecido no inicio do séc. XI a SO do Santo Sepulcro; no começo do séc. XII, após a fundação do reino latino na Palestina, tomaram índole militar, propondo-se dar hospedagem aos peregrinos e escortá-los em seus itinerários através de regiões pouco seguras. Uma vez extinta a dominação ocidental na Palestina (1291, queda de Akko), tiveram que se retirar para Chipre; desta ilha passaram para Rodes, onde estabeleceram o centro de suas atividades (donde o nome de Ordem de Rodes, que lhes foi dado). Em 1523 viram-se obrigados a ceder Rodes aos turcos; em 1530 então o Imperador Carlos V da Alemanha lhes concedeu a ilha de Malta como feudo; tomaram posição de prestígio na luta contra os muçulmanos travada nessa época. A Ordem foi reconhecida como soberana pelos Imperadores Rodolfo II em 1607 e Ferdinando II em 1620, sendo o seu Grão-Mestre elevado à dignidade de Príncipe da Alemanha. No séc. XVIII, porém, entrou em declínio ; em 1798 os cavaleiros tiveram que ceder Malta a Napoleão; muitos de seus bens no continente europeu foram secularizados. A sede da Ordem (desde o séc. XVI dita «de Malta») ficou sendo Catânia ; atualmente acha-se em Roma. Leão XIII em 1879 conferiu ao Grão-Mestre dos Cavaleiros de Malta as honras de Cardeal e o titulo de Eminência ; a Ordem goza de representação diplomática.

Ordem Teutônica («Domus Hospitalis Sanctae Mariae Teutonicorum») foi, como a de S. João, inicialmente uma Congregação hospitalar, posta sob a Regra de S. Agostinho; servia ao nosocômio de Santa Maria Nova a SO de Jerusalém. Em 1189 por ocasião do longo cerco de S. João de Acre, dirigido pelos cristãos, os irmãos fundaram um hospital militar, e logo no ano seguinte passaram a constituir autêntica Ordem Militar. Expandiram-se pela Europa, onde foram fundando províncias religiosas, que exerceram notável influência através dos séculos. Em 27 de novembro de 1929 foi dada nova Regra à Ordem, que conserva caráter religioso.

Os Templários («Fratres militiae Templi») foram militares desde os seus inícios. O histórico e a sorte final desta Ordem acham-se resumidos na resposta no 7 deste fascículo.

Além das três grandes Ordens Militares acima, contam-se outras de menor projeção.

A península ibérica conheceu grande número de tais fundações — o que bem se entende, dada a multissecular ocupação árabe que ai pesou sobre os cristãos.

Na Espanha surgiram : 1) a Ordem de Calatrava, instaurada em 1158 sob a Regra de Cister e aprovada em 1164 pelo Papa Alexandre III; 2) a Ordem de S. Tiago da Espada ou de Compostella, instituída em 1170 aproximadamente, com o fim de proteger os fiéis que peregrinavam ao santuário de Compostella; 3) a Ordem de Alcântara, cujos inícios datam de 1176, sob a Regra de Cister. Aos cavaleiros de Calatrava, S. Tiago e Alcântara o Papa Paulo III em 1540 concedeu licença para contraírem matrimônio ; 4) a Ordem de Montesa, que foi fundada pelo rei de Aragão em 1317, após a supressão dos Templários, com o fim de defender o litoral nacional contra os sarracenos ; herdou parte dos bens dos Templários e permaneceu sob a tutela da Ordem de Calatrava. A administração destas quatro Ordens, assim como o titulo de Grão-Mestre das mesmas, passaram, por disposição do Papa Adriano VI, para o rei da Espanha em 1523, sem que contudo tais sociedades perdessem seu caráter religioso.

Em Portugal deve-se mencionar a Ordem de Aviz, fundada em 1147 e aprovada pela Santa Sé em 1162. Foi incorporada à Ordem de Cristo, instituída em 1318 após a supressão dos Templários pelos reis Diniz e Elisabete e aprovada pelo Papa João XXII em 1319; à semelhança da Ordem de Calatrava, a de Cristo visava a defesa das fronteiras do reino contra os mouros, que ameaçavam a Algárvia; o seu Grão-Mestre veio a ser o monarca de Portugal.

Também na Itália, na França, na Alemanha registraram-se semelhantes fundações, destinadas a atender a necessidades religiosas e civis da população nacional.

Dom Estêvão Bettencourt(OSB)
Fonte: http://www.pr.gonet.biz/index-catolicos.php  


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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03.11.2019
31º DTC - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS E SANTAS — ANO C
( BRANCO, GLÓRIA, CREIO, PREFÁCIO PRÓPRIO – OFÍCIO DA SOLENIDADE )
__ "A vontade de Deus é a nossa santificação" __

EVANGELHO DOMINICAL EM DESTAQUE

APRESENTAÇÃO ESPECIAL DA LITURGIA DESTE DOMINGO
FEITA PELA NOSSA IRMÃ MARINEVES JESUS DE LIMA
VÍDEO NO YOUTUBE
APRESENTAÇÃO POWERPOINT

Clique aqui para ver ou baixar o PPS.

(antes de clicar - desligue o som desta página clicando no player acima do menu à direita)

Ambientação:

Sejam bem-vindos amados irmãos e irmãs!

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL PULSANDINHO: Estamos no primeiro domingo do mês de novembro. Hoje, reunimo-nos para celebrar o mistério da santidade divina na nossa vida. A solenidade de todos os santos e santas de Deus é um dia para celebramos a vitória daqueles que nos precederam na fé e partiram desta vida para junto de Deus. O tom desta celebração é, pois, de alegria e de esperança. Alegria porque sabemos que muitos – uma incontável multidão – são os que estão na eternidade com Deus; esperança porque a vitória deles no anima a continuar no caminho da santidade.

INTRODUÇÃO DO FOLHETO DOMINICAL O POVO DE DEUS: Hoje a Igreja volta seu olhar e seu coração para o céu e enche-se de alegria ao contemplar a multidão daqueles que já participam da glória e da plenitude do Deus Santo. Nossa atenção se volta para o incontável número daqueles para os quais o Senhor Deus manifestou sua misericórdia. Nesta Eucaristia, elevemos o nosso hino de adoração ao Senhor, cuja santidade reluz nos seus santos e santas.

INTRODUÇÃO DO WEBMASTER: No princípio a Bíblia reservou a Javé o título de "Santo", palavra que tinha então um significado muito próximo ao de "sagrado": Deus é o "Outro", tão transcendente e tão longínquo que o homem não pode pensar em participar da sua vida. Diante de sua santidade o homem não pode deixar de ter respeito e temor. Todo homem deve procurar a "pureza de coração" capaz de fazer com que possa participar da vida de Deus.

Sintamos em nossos corações a alegria do Amor ao Próximo e entoemos alegres cânticos ao Senhor!


(coloque o cursor sobre os textos em azul abaixo para ler o trecho da Bíblia)


PRIMEIRA LEITURA (Ap 7,2-4.9-14): - "A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro"

SALMO RESPONSORIAL 23(24): - "É assim a geração dos que procuram o Senhor!"

SEGUNDA LEITURA (1Jo 3,1-3): - "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus!"

EVANGELHO (Mt 5,1-12): - "Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus."



Homilia do Diácono José da Cruz — 31º DTC - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS — ANO C

VIVER HOJE O “AMANHÔ

Ser santo não é uma decisão do homem mas uma resposta ao convite que Deus nos faz em Jesus Cristo: Sede perfeitos como o vosso Pai é perfeito! Perfeição nesse sentido, nunca foi e nem será o forte do homem, feito de barro, vulnerável ao pecado, sujeito a tantas fraquezas, marcado por tantas limitações. Se santidade fosse isso, Deus seria o maior dos injustos, pois é o mesmo que um homem perfeito sair em disparada e pedir para que um deficiente físico o acompanhe nessa corrida.

Nunca teríamos a menor chance de ser santos. Há ainda outra corrente que acha que a santidade é apenas para alguns, que têm uma conduta exemplar, são pacientes, tolerantes, dóceis, calmos, prestativos, solidários, educados, nunca perdem a cabeça e o equilíbrio, nunca reclamam de nada e aceitam tudo, sendo bondosos o tempo todo. De pessoas assim, é melhor manter distância e ser cauteloso, porque me dizia um padre muito amigo, o santinho de hoje pode ser o diabinho de amanhã!

Ser calmo ou ter os nervos a flor da pele, ter equilíbrio emocional, demonstrar serenidade, ser amável e dócil, ser prestativo e educado, sem dúvida que são belas virtudes, mas não necessariamente um indicativo de santidade, pois conheço histórias de grandes santos que eram bem temperamentais. Há ainda outro conceito perigoso de santidade, que é ter o poder de realizar coisas prodigiosas, os chamados milagres. Conheço pessoas descrentes de Deus e da igreja, e que, contudo praticam essas virtudes. E já tive conhecimento de curas operadas por pessoas de outras correntes religiosas, até opostas ao cristianismo.

A ideia de que santidade é coisa restrita de alguns homens e mulheres especiais, parece-me um tanto quanto equivocada, pois o visionário do apocalipse afirma categoricamente na primeira leitura, que se trata de uma multidão, de onde se conclui facilmente, que santidade é uma proposta de vida que Deus faz a toda humanidade, onde Jesus Cristo é o modelo e a referência máxima, nele a gente se encontra como Filho de Deus, não mais desfigurado pela corrupção do pecado, mas liberto, vitorioso e perfeito como fomos criados e concebidos pelo Pai. Somente Nele, com ele e por ele seremos santos! Mas encontrei nas leituras dessa "Festa de Todos os Santos", uma definição ainda mais bonita e completa do que é a Santidade - "Viver hoje o amanhã".

É preciso ter os pés no chão, pois uma coisa é enfrentar com coragem os desafios do presente e buscar soluções concretas, o outro é camuflar a situação, fazendo uma belíssima coreografia, sem mudar o cenário! É maquiar para parecer belo! A copa do mundo que vai acontecer no Brasil em 2014, será um desses momentos, de grande ilusão e utopia. Já se está vendendo a imagem de um País que é um paraíso...

As bem-aventuranças proclamadas solenemente por Jesus, no alto de um monte, são profundamente realistas: a Primeira e a Oitava, trazem o verbo no presente, "...porque deles é o Reino dos Céus", ao passo que as demais, usam o verbo no futuro, "porque serão, verão, alcançarão...". Ser pobre em espírito é fazer de Deus a sua única riqueza, é possuir já nesta vida a plenitude da vida futura. É ser discípulo e estar em constante aprendizado a partir do evangelho, vivendo hoje tudo o que cremos e esperamos no amanhã. Esta postura diferente trará incompreensão e perseguição mas em compensação, a alegria será verdadeira, porque não se fundamenta naquilo que se vê, mas sim no que se espera.

Jesus Cristo trouxe o futuro até nós, sendo precisamente esta crença e esperança que nos faz ter uma identidade própria, fomos marcados para fazer a diferença neste mundo tão descrente, que não consegue vislumbrar a Vida Nova, para a qual fomos destinados por Deus, desde o início da Criação.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  jotacruz3051@gmail.com


Homilia do Padre Françoá Costa — 31º DTC - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS — ANO C

Professor da felicidade

“Não pode existir alguém que não deseje ser feliz. Mas, oxalá os homens que tão vivamente desejam a recompensa não fugissem dos trabalhos que conduzem a ela!” – Assim começava Santo Agostinho o sermão sobre as bem-aventuranças no ano 415 em Cartago. Impressiona-nos vivamente que o Senhor relacione a felicidade daquelas multidões (cfr. Mt 5,1) com a pobreza, o choro, a mansidão, a fome e a sede de justiça, a misericórdia, a pureza de coração, a pacificidade, a perseguição sofrida e a calúnia padecida. Para os ouvidos mundanos, essas expressões não podem causar mais que rejeição! E, não obstante, são esses os trabalhos que conduzem a felicidade, como dizia o bispo de Hipona. Sem dúvida, é importante entender que Jesus não está pregando uma vida miserável, triste, sem nenhum prazer, sem garra e sem perspectiva. Vou ser sincero: eu também rejeitaria um cristianismo assim! Se o mártir visse somente os sofrimentos e a morte, não seria feliz. Para a testemunha da fé, os tormentos são suportados por amor a Deus e também por causa da recompensa, do prêmio, do céu!

Há outras palavras de Cristo que nos ajudam a compreender melhor as das bem-aventuranças: “ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais, com perseguições – e no século vindouro a vida eterna” (Mc 10,29-30). Neste século: deixar pai e ter cem pais, deixar mãe ter cem mães, deixar terras e ter cem vezes mais a quantidade de terra que se tinha… é ou não é rentável? E, depois: a vida eterna! E nem precisa ser bom comerciante para dizer que negócio é ouro!

A felicidade é uma realidade que vai mais além da pobreza, do choro, da mansidão e, não obstante, está presente em todas essas realidades, não por causa delas mesmas, mas por causa do espírito com o qual as vivemos e por causa das grandes coisas que nos aportam tão pouca renúncia. Em resumo: os que não conhecem a Deus estão perdendo tempo!

Realmente, o que faz feliz o coração humano não são as coisas desse mundo, mas o sentido na vivencia e na utilização dessas coisas. A mulher que vai ao salão de beleza e espera durante algumas horas para que a deixem bem bonita, é feliz; ela se submete a esse pequeno sacrifício por um bem maior. Quem sabe as consequências prejudiciais de uma noite de álcool e mesmo assim “toma todas”, é feliz; essa pessoa não busca as consequências, mas a alienação na qual encontra a felicidade por algumas horas. Inclusive quando pecamos, as ações por nós realizadas tem como fim a busca da felicidade, ainda que de maneira errada.

Com esses poucos exemplos é fácil ver e afirmar que há coisas que levam à autêntica felicidade e outras que levam a uma aparente felicidade. Como chamar felicidade aquilo que vai acabando conosco? Somente um louco buscaria a felicidade no encontro violentamente físico entre a sua cabeça e um poste.

Existe também uma “educação para a felicidade”, para buscar a felicidade. Há fases árduas nesse aprendizado. Além do mais, há coisas consideradas “chatas” que nos fazem felizes, como tomar um remédio amargo ou ir à escola. No momento não se percebe que é assim, mas com o passar do tempo estamos felizes e agradecidos por estar sadios e por não sermos burros.

Um bom professor da matéria chamada “felicidade” é Jesus. Que grande pedagogo! Afirma, para atrair os seus discípulos, que terão cem vezes mais aquilo que eles renunciarem. Com essa perspectiva, fica até fácil pedir a renúncia ao próprio eu (pobreza de espírito), pois seremos cem vezes mais nós mesmos, realmente viveremos de acordo com a nossa dignidade; o choro do esforço, pois assim não viveremos como seres adocicados e moles cuja felicidade se encontra na posição horizontal sobre um sofá macio (que pobreza de perspectiva!); a fome e a sede de justiça que nos faz ter uma vontade cem vezes mais firme para lutar pela felicidade dos outros, caminho de liberdade interior; a misericórdia que nos dá uma coragem centuplicada; a pureza de coração que nos faz cem vezes mais nobres porque dizemos “não” ao animal que está dentro de nós, preferimos viver como seres humanos; os pacíficos que estão dispostos a lutar cem vezes porque sabem que a paz é resultado da guerra que nos fazemos a nós mesmos contra as nossas más inclinações; a perseguição que nos faz cem vezes mais perspicazes para saber viver nesse mundo com a esperteza dos filhos de Deus e não ser bobos de ficar para trás em coisas nas quais deveríamos ser os primeiros; na calúnia sofrida que nos enterrará no húmus da humildade e nos fará andar centuplicadamente em verdade. E, depois, o descanso, a vida eterna, a vida sem fim, sempre, para sempre.

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa


Comentário Exegético — 31º DTC - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS — ANO C
(Extraído do site Presbíteros - Elaborado pelo Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

EPÍSTOLA (1 Jo 3, 1-3)

INTRODUÇÃO: Neste trecho o apóstolo exorta a uma vida santa, em geral, e, em particular, a cultivar o amor fraterno. A primeira consideração tem como base a adoção como filhos por parte de Deus que quer ser pai, coisa não conhecida no mundo, que sempre pensa nos seus deuses como senhores temidos e vingativos. Essa é a doutrina que vamos examinar neste domingo. Suas  consequências são a vida santa aqui na terra e  a esperança de participar da vida divina no definitivo Reino dos céus.

O AMOR DO PAI: Vede que classe de amor nos concedeu o Pai, de modo que sejamos chamados filhos de Deus; por isso, o mundo não vos conhece porque não o conheceu (1). Videte qualem caritatem dedit nobis Pater ut filii Dei nominemur et sumus propter hoc mundus non noࡶit nos quia non novit eum. QUE CLASSE [potapos <4217>=qualis] o grego significa que espécie, que classe, maneira ou estilo, muito mais do que grande da RA da versão evangélica portuguesa, ou que gran amor da espanhola. O apóstolo nos fala a considerar com admiração e assombro e observar um amor sem comparação e uma mercê sem medida. AMOR [agapë <26>=caritas] é a palavra própria para o amor de Deus, usada também para o amor entre amigos ou amor de um pai para com seus filhos. O PAI: Era o Pai de Jesus Cristo (Rm 15,6), mas enviando ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama Abba, já não somos escravos, porém filhos; e, como filhos, herdeiros por Deus (Gl 4, 7). Assim, dirigindo-se aos romanos, Paulo os saúda com estas palavras: amados de Deus, chamados santos: Graça e paz tenham de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo (Rm 1, 7). A diferença entre um cristão e Cristo é que este é o amado (Mt 3, 17 e Mc 12,6), o primogênito (Rm 8, 29), e até unigênito (Jo 1, 14) por estar unido pessoalmente à divindade. CHAMADOS [klëthömen <2564> =nominemur] em termos bíblicos é o mesmo que ser, pois este verbo não se usa em hebraico. Um exemplo: Gabriel fala a Maria: será grande, será chamado [klëthësetai] Filho do Altíssimo (Lc 1, 32). A Vulgata acrescenta et sumus [e somos] indicando o sentido verdadeiro do klëthömen [chamados]. O MUNDO [kosmos <2889>=mundus] o kosmos grego é inicialmente ordem, ou uma disposição e medida ordenada; também o Universo, cuja ordem e disposição tanto admiravam os filósofos gregos. Finalmente, a terra e seus habitantes. Especialmente o conjunto da multidão, oposta aos planos divinos e especialmente ao cristianismo, como é este caso. NÃO VOS CONHECE. Esse mundo que foi feito pela palavra [Logos] e o mundo não a conheceu (Jo 1, 10). E assim como não conheceu o Filho, era impossível que conhecesse os filhos, já que estes eram tais por serem filhos no Filho, pois deu aos que O [logos] receberam o poder de serem filhos de Deus, não por meio da carne, mas porque creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1, 12-13). Paulo em Gl 4,6, explicará que a obra de Deus é a entrega do Espírito e não um simples documento, decreto ou declaração, como afirmava Lutero, já que não admitia a graça santificante. Nem basta a fé só para ser filho de Deus, pois pode ser uma fé morta, como afirma Tiago na sua epístola (2, 17; 20 e 26). NÃO O CONHECEU: O mundo não conheceu o verdadeiro Deus como Pai, e, portanto não pode reconhecer os filhos. E também não conheceu Jesus como Filho, quanto menos poderia reconhecer os cristãos como filhos de Deus.

A MANIFESTAÇÃO: Amados, agora somos filhos de Deus e ainda não apareceu que seremos; sabemos, porém que se se manifestar seremos semelhantes a ele porque o veremos como é (2). Carissimi nunc filii Dei sumus et nondum apparuit quid erimus scimus quoniam cum apparuerit similes ei erimus quoniam videbimus eum sicuti est. AMADOS [agapëtoi<27>=carisimi] era o título com que Paulo se dirige aos cristãos de Roma: amados de Deus, chamados santos (Rm 1, 7), Com este mesmo epíteto João se dirige aos cristãos aos quais escreve suas três cartas. NÃO APARECEU: Como João afirma no prólogo de seu evangelho, donde o Verbo foi visto com a glória do unigênito, cheio de graça e verdade (1, 14). Logicamente, a graça é o conjunto de poderes divinos; e a verdade, como quem sabe as coisas de Deus; pois do céu veio e assim podia falar das coisas que ele viu (Jo 3, 13). Por isso podia dizer testificamos o que vimos (Jo 3,11). Nem o mundo pode ver o que somos nem nós, a exceção de poucos casos místicos, sabemos o que somos. Paulo tem uma fórmula válida para todo cristão: Cristo vive em mim (Gl 2, 20) e o afirma dizendo que nosso corpo é membro de Cristo (1 Cor 6, 15). Poucos são cientes destas verdades que se MANIFESTARÃO e então veremos o que realmente somos. Veremos-nos e atuaremos como realmente filhos, porque VEREMOS DEUS como ele é: um Pai que ama seus filhos. E então viveremos conformes à imagem de seu Filho, o unigênito entre muitos irmãos (Rm 8, 28). Como disse o próprio Jesus, sua vida era viver conforme a vontade do Pai, pois os que tais fazem serão os únicos que entrarão no Reino (Mt 7, 21), o que, de outra forma parte da oração comum, em que pedimos seja feita a vontade divina na terra, assim como ela é feita nos céus (Mt 6, 10). Por isso, Jesus passou a sua vida fazendo o bem (10, 38), motivo pelo qual temos sido feitos por Deus.

A PURIFICAÇÃO: E todo aquele que tem essa esperança nele purifica-se, assim como ele é puro (3). Et omnis qui habet spem hanc in eo sanctificat se sicut et ille sanctus est. PURIFICA-SE [agnizei<48>=sanctificat] é um verbo que significa a purificação cerimonial para exercer um serviço de culto. É a palavra usada em At 21, 24 quando Paulo deve se purificar junto com quatro varões, rapando a cabeça como cumpridor da Lei do nazerato. Corresponde ao nezer<05145> de Nm 6,8, em que durante todos os dias do voto estava o separado [nizrov<05145] como sagrado [kadosh<06916>] para o Senhor. Por isso não podiam cortar o pelo, nem beber nada que fosse fermentado. Era um homem consagrado a Deus. É o verbo agnizö  o usado para purificar o coração ou mente em Tg 4, 8: vós de duplo ânimo purificai os corações, ou em 1 Pd 1, 22: purificando vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido: amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro. É o que Jesus disse numa das bemaventuranças: bemaventurados os puros [katharoi] de coração porque verão a Deus (Mt 5, 8). A Vulgata traduz por sanctificat, cujo significado é de sacer [sagrado] e significa o mesmo que agios grego, ou seja, próprio da divindade, uma coisa sem mancha, pura, inviolável, imaculada, sacra.  PURO [agnos<53>=sanctus] A palavra é usada 5 vezes por Paulo e uma por Tiago, Pedro e João respectivamente. Seu significado é limpo, sem mancha como em 2 Cor 7, 11 ou casto como em 2 Cor 11, 2, falando das virgens, livre de falta, ou limpo de pecado, como 1 Tm 5, 22. Falando de Deus é esta passagem de João que descreve a natureza divina como sem mancha, totalmente sacra e imaculada. A Nova Vulgata traduz purificat e purus, que nós temos adotado, sem saber de antemão, tal versão. E imediatamente João explica os significados, dizendo em contraste: todo aquele que comete pecado também comete iniquidade [anomia<458>iniquitas] porque o pecado é iniquidade, ou podemos dizer maldade. Desta está livre completamente Deus, de modo que Ele é o único bom [agathos<18>=bonus] (Mt 19, 17), em que não se encontra pecado ou maldade. Jesus, seu Filho, pode dizer diante de seus inimigos: quem dentre vós me convence de pecado? (Jo 8, 46). Por isso, quem não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para poder castigá-lo e deste modo fazer de nós justiça de Deus nele (2 Cor 5,21). Atualmente temos um Pontífice que foi tentado como nós, mas sem pecado (Hb 4, 15). O Anticristo é, portanto chamado de homem do pecado (2 Ts 2, 3) sendo do Diabo que faz o  pecado e peca desde o início (1 Jo 3, 8). Por isso, livres do pecado somos servos de Deus, tendo como fruto a santificação e, por fim, a vida eterna (Rm 6, 22). Portanto, não encontramos melhor explicação que citar esses textos da Escritura que nos colocam em contato com a bondade de Deus, um pai que jamais faria o mal a seus filhos e que é bondade para perdoar suas transgressões.

EVANGELHO: (Mt 5, 1-12s)
AS BEMAVENTURANÇAS

INTRODUÇÃO: Dois evangelistas narram o que se tem chamado as bemaventuranças. Mateus como parte do sermão da montanha, pois foi desta cátedra que Jesus falou (5,1) e Lucas que coloca o pequeno discurso paralelo numa planície (6, 17). Isso indica que a circunstância é redacional, independente das palavras e ideias a expressar. Também há uma grande diferença entre as oito ou nove bemaventuranças de Mateus e as quatro de Lucas. Ambos, porém usam a mesma palavra makarioi para designar os contemplados como prediletos do reino. Que significado tinha nos lábios de Jesus essa palavra e de que ideias hebraicas era tradução, de modo que os ouvintes a pudessem entender? O grego makários significa tanto ditoso ou feliz como bendito do verbo makarizo que significa declarar afortunado.  No primeiro caso, indicaria uma situação determinista da vida mesma, sem ligação com ulteriores fins ou propósitos. No segundo caso, a palavra tem um conteúdo teológico de modo que implica uma providência divina que, pelo contraste com o sentir comum dos dirigentes religiosos, apontava uma nova era completamente revolucionária em perspectivas religiosas. Esse é nosso caso.

O MONTE: Tendo, pois, visto as multidões, subiu ao monte [oros<3735>=mons] e tendo-se ele assentado, se aproximaram dEle seus discípulos (1). Então, tendo aberto sua boca, os ensinava dizendo (2).  Videns autem turbas ascendit in montem et cum sedisset accesserunt ad eum discipuli eius. Et aperiens os suum docebat eos dicens. Os  comentaristas unem o sermão da montanha com a entrega da Lei por Javé -Deus no monte Sinai    no AT. Oros em grego, é usado por Mateus como um ambiente paralelo ao lugar em que Moisés recebeu a lei no Sinai, sendo que o cumprimento do primeiro mandamento receberia uma gratificação especial para os que fielmente o guardavam (Êx 20, 6). Jesus também, do monte, ensina a nova lei a seus discípulos. Porém, antes deve escolher o novo Israel, e daí as chamadas bemaventuranças. Os que por elas são alcançados serão o novo Israel e, portanto, podem ser designados como verdadeiramente felizes. Jesus começa, pois, por essa distinção em que derruba o velho conceito de etnia e descendência como parte para formar a elite de Jahvé, e contrariamente, suscita um novo modelo de povo de Deus, cuja base é precisamente o infortúnio material. A eles Jesus abre um novo mundo de esperanças e felicidade. A lei, para os judeus, não era unicamente o nomos [preceito], mas também abrangia declarações, propostas e fatos de Deus em relação com seu povo escolhido. Neste sentido total e amplo, Jesus determina primeiro o âmbito de seus verdadeiros escolhidos. Logo propõe seus nomoi [preceitos], precedidos de uma retificação aperfeiçoada da antiga lei: ouvistes que foi proclamado, eu, porém, vos digo (Mt 5, 21). Como mestre da nova Lei, Jesus adota uma postura frequente entre os rabinos ou mestres em Israel. Ele fica sentado, tendo seus discípulos e ouvintes ao seu redor, geralmente de pé, pendentes de suas palavras. Os rabinos explicavam a lei segundo as tradições [ouvistes que foi dito], mas Jesus explica a nova Lei como quem tem autoridade para propô-la e anuncia-la como novidade feliz a um público geralmente esquecido e desprezado. Constituía a esperança messiânica, já atuando como realidade nova e definitiva. Finalmente, uma palavra sobre o monte: Realmente, segundo Lucas, Jesus subiu ao monte para orar durante a noite (Lc 6, 12). Na manhã, escolheu seus doze discípulos e logo ao descer do monte, se deteve num lugar plano onde a multidão o esperava para ser curada de suas doenças.  Lucas, pois, circunscreve as bemaventuranças a uma planície, embora tivesse como fundo o monte do qual acabava de descer. Também Lucas diz que elevando os olhos aos discípulos dizia (Lc 2, 20).

AFORTUNADOS   Ditosos [makarioi<3107>=beati] Os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus (3). Beati pauperes spiritu quoniam ipsorum est regnum caelorum. A palavra, usada tanto por Mateus como por Lucas, no início de cada versículo é MAKARIOI, em grego, plural de Makarios <3107>. Logicamente Mateus e Lucas usam a palavra como tradução de um original aramaico usado por Jesus. Qual é essa palavra e que significado se encerra na raiz da mesma? 1°) No AT: . Existem no hebraico bíblico dois verbos com o sentido de abençoar. Um deles é Barak <01288> que é só empregado por Deus no Pile [intensivo ativo] indicando uma ação contínua, como em Gn 1, 22: E Deus os abençoou [yebarek] dizendo: sede fecundos. Usando a mesma raiz, Deus abençoou também o dia sétimo. A setenta traduz por eulogesen louvar ou falar bem, a Vulgata por benedixit, que no inglês é traduzido por blessed. De barak temos baruk [bendito] e a palavra beraká [bênção], cujo plural é berakoth. Todas as berakoth começam com Baruk Ata Adonai que pode ser traduzido por louvado seja meu Senhor [=Deus]. Os setenta traduzem baruk [bendito] por eulogetos ou eulogemenos (Dt 28, 3 +). O outro é Ashar <0833> cujo significado primitivo é avançar; também no pile significa pronunciar feliz e pela primeira vez o encontramos em Gn 30, 13 em boca de Lia: Feliz, eu [beasheri], porque chamar-me-ão ditosa [asheruni] todas as mulheres. Nos setenta, os termos em colchetes são traduzidos por makaria e makarizousin, a mesma raiz empregada nas bemaventuranças. Não entramos em maiores detalhes. Só com o dito podemos dizer que barak [eulogeo<2127>,] é a palavra reservada para a ação divina, quando declara bendita uma pessoa; e asher [makarios<3107>] é a ação do povo que vê uma circunstância que torna feliz uma vida. Logicamente essa circunstância provém de Deus como causa principal. (Os números correspondem aos de Sprong). Os evangelistas têm muito cuidado nas palavras com as quais escolhem as ipsissima verba Christi e, portanto, acreditamos que se ambos os evangelistas escolheram makarios como tradução das palavras de Jesus, este não quis dizer que eram abençoados por Deus, mas declarados felizes pelos homens. Jesus quer mudar o modo de pensar dos discípulos para que estes pudessem ver nos pobres, nos aflitos, nos humildes, nos famintos, uma classe de predileção divina que os tornavam desejáveis e invejáveis. Jesus, praticamente, na sua primeira lição pública define a conduta humana diante da pobreza tanto material como espiritual do mundo que o rodeia. 2°) No grego clássico, a palavra makarios inicialmente significava livre dos cuidados e preocupações de todos os dias. O significado é afortunado. Assim, a ilha de Chipre é chamada de ‘e makaria [a afortunada] por ser uma ilha verde e próspera. Homero chama os deuses de ‘oi makrarioi [os felizardos] em comparação com os humanos que devem trabalhar para poderem viver. Na linguagem poética, descreve a condição dos deuses e daqueles que compartilham da existência feliz deles. Aos poucos, perdeu seu significado original para se tornar num equivalente do nosso Feliz. Quando acompanhada de tu ou vós, se transforma em bemaventurado, ou bemaventurados, indicando um elogio por parte dos conhecedores do caso. Como tais, são parabenizados os pais por causa dos seus filhos, os ricos por causa de suas riquezas, os sãos pela sua saúde, os sábios por causa de seu conhecimento, os piedosos por causa de seu bem-estar interior, os mortos por terem escapado à vaidade das coisas. Indica, pois, como motivo, uma circunstância especial que acompanha uma certa classe de homens e que por esse requisito podem ser considerados afortunados. 3°) No grego bíblico makarios traduz o hebraico esher [felicidade], ashar [declarar bemaventurado], ou asheré [bem-estar]. Vemos o asheré traduzido por makarios no salmo 2,12: Bemaventurados todos os que nele se refugiam; ou o salmo 32,1 e 2: Bemaventurado aquele…e bemaventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniquidade. Em ambos os casos makarios é usado como tradução de asheré. O homem é bendito, e especialmente esta bênção provém de Deus. No NT é claro que substituímos o asheré hebraico por Makarios. Makarios aparece 13 vezes em Mateus e 15 em Lucas e apenas duas em João: Bemaventurados, pois, se praticares estas coisas (13, 17) e Bemaventurados os que não viram e creram (20, 29). No caso de Mateus, os bemaventurados não são os discípulos; mas, estando a frase em terceira pessoa é qualquer um que se encontra em semelhantes circunstâncias. A estimativa predominante do Reino de Deus leva consigo uma inversão de todas as avaliações costumeiras. E todos os que compartilham dessa experiência da chegada do Reino, nas circunstâncias reveladas na frase inicial, serão benditos por esse dom recebido de Deus de modo gratuito. 4°) Mas vejamos as traduções: Dichosos ou Felices em espanhol, Beati em latim e italiano, Fortunate em inglês, embora a KJ traduzirá Blessed, Felizes em português e Hereux em francês. É uma palavra que indica completa satisfação ou felicidade. Todas elas cumprem as palavras de Dt 33, 29 em que o hebraico asheré é traduzido por makários  e por ditoso: Ditoso [makários] tu Israel. Quem como tu povo vencedor? Deus é o escudo que te protege, a espada em marcha que te conduz ao triunfo. Ou o salmo 144, 15: Ditoso [makários] o povo que tem tudo isso; ditoso [makários] o povo, cujo Deus é o Senhor. Em Baruc 4,4 temos: Felizes [makarioi] somos Israel, pois podemos descobrir o que agrada o Senhor. 5°)  Como Conclusão, podemos afirmar que a palavra grega makários tem o significado de homem cuja vida é invejada por ser um privilegiado por Deus nos seus planos beneficentes. Em definitivo, podemos facilmente traduzi-la por BENDITO ou ABENÇOADO. Deus está no meio, por ser a causa de todos os verdadeiros bens. O Makarioi de Jesus entra, pois, nos planos divinos, como causa principal ao ser Deus o observador que escolhe seus eleitos, como declara Maria em seu canto: Exultou meu espírito em Deus meu Salvador porque ele fixou seus olhos na insignificância de sua escrava (Lc 1, 47-48). Até agora no mundo católico, quase de forma geral, as bemaventuranças eram vistas como prêmio oferecido às virtudes dos que mereciam semelhante elogio. Hoje não são consideradas como recompensa de virtudes, mas como escolha divina, que, em sua misericórdia, quer favorecer os mais desamparados. Não é a virtude interior alcançada, que obtém um prêmio, mas são as circunstâncias que favorecem a ação divina em sua misericórdia. Deste ponto de vista, podemos enxergar todo o contexto como sendo uma política divina que dá uma reviravolta na totalidade do pensar e atuar humanos. Jesus, em nome de Deus, como seu profeta, declara quais deveriam ser chamados de ditosos ou afortunados. Assim começa a nova economia que inicia uma nova visão do mundo dos sofridos e desafortunados. Esta situação, no lugar de ser uma situação de infortúnio, ou um estado aparente de desdita, é, pelo contrário, uma condição de sorte, porque as riquezas divinas estão à disposição dos que se supõem ter herdado o azar como condição de suas vidas. Como diria Paulo, na fraqueza é que se manifesta (mais) o poder [de Deus] (2 Cor 12, 9). Por isso, todas as bemaventuranças terminam com um porque em que Deus entra como causa ativa, subentendido na passiva do verbo correspondente, passiva que era praticamente usada só para atuações divinas. Talvez a melhor tradução seria: Sois abençoados por Deus vós os… O ESQUEMA: temos em cada bemaventurança uma prótasis [primeira parte de um poema teatral] e uma apódosis [explicação]. A prótasis ou primeira parte de cada oração é uma circunstância da vida, independente da vontade da pessoa respectiva. A apódosis é a explicação do porquê e como a sorte lhes favorece. Como caso curioso podemos ver que as quatro primeiras começam com a letra pi em grego: Ptochoi [mendigos], penthountes [chorantes], praeis [mansos] e peinountes[famintos]. Quando se sabe que a kabala era característica da interpretação das Escrituras, há uma pequena razão para pensar que Mateus, legista e intérprete da lei, tivesse alguma razão, por nós hoje desconhecida, de seguir seus ocultos princípios. PTÔCHOI: No AT ptochos aparece perto de 100 vezes e são a tradução de 7 palavras hebraicas: 1°) `anav <06035> é sinônimo de humilde, especialmente quando em forma adjetivada acompanhado de Jahvé. Com seu número de Sprong <06035> aparece 24 vezes, especialmente nos salmos e em Isaías, a começar por Moisés que é declarado o mais humilde, ou mais manso dos homens como traduz a Vulgata. O anav desse número é geralmente traduzido por prays [manso](12), penes [pobre] (11) e tapeinós [baixo] (1). Na vulgata, temos mites (6) mansuetus (6) e pauper (12). Existem duas frases em que anav  acompanha terra anav heretz. E que em ambos são traduzidos por prays ou mansos. 2°) ‘ani [37 vezes] <06041> que tem o significado de pobre, humilde, modesto, oprimido. A primeira vez que aparece é em Êx 22, 24: Se emprestares prata ao meu povo, ao pobre [ani e ptochós] que está contigo. Quando não se menciona o opressor a palavra significa realmente pobre material, os que não têm terra. A Setenta traduz, indistintamente, ani por pobre ou humilde. 3°)  `anah<06033>. A única vez que anah sai é em Daniel 4, 27: redime tua iniquidade para com os pobres <06033> em grego penetön [=dos pobres]. 4°) dal [22 vezes] <01800> baixo, fraco, pobre, magro. Fisicamente dal significa fraco e passa a ser empregado para as classes sociais mais baixas como camponeses, pobres, necessitados, sem importância. 5°) Ebyon [11 vezes] <034> significa pedinte de esmolas, mendigo; ou seja, os muito pobres e sem lar. 6°)   Rush [11 vezes] <07326> necessitado, pobre, é uma palavra que se emprega como contraste de rico. 7°)  Misken.<04542>. Nos tempos mais modernos usa-se misken, um termo que os mendigos orientais empregam para definir a si mesmos. Que deduzimos então? Se o mendigo é precisamente o ebyon e equivale ao endeês [menesteroso em grego] o ptochós de nossa bemaventurança pode ser pobre no sentido de desvalido, sem recursos, cujo único goel [defensor] era Jahvé, em oposição aos ricos que dependiam de suas riquezas como base fundamental de suas vidas. Os textos mais modernos descartam o pobre material e traduzem o Ptochós como humilde, ou humilde de espírito (AV), ou os que têm o coração de pobre (francesa). A melhor exegese será, sem dúvida, a feita por Maria: Depôs poderosos de seus tronos e aos humildes exaltou. Cumulou de bens os famintos e despediu ricos de mãos vazias. Parece que Jesus aprendeu bem de sua mãe esta política divina que tão bem se realizou na sua família. Os rabinos louvavam a simplicidade e a humildade, mas nunca a pobreza porque, segundo eles, nenhum dos males poderia se equiparar ao mal da pobreza; daí que Mateus, legista e conhecedor das tradições judaicas, teve que acrescentar uma explicação ao simples fato de pobreza. Pois para esses mestres da Lei a riqueza era o prêmio justo da virtude e a pobreza era considerada como legítimo castigo. Porém, a pobreza entra nos planos de Deus e a sua aceitação coloca os pobres como escolhidos às portas do Reino do qual Jesus era o arauto ao proclamar as condições que o limitavam, segundo Is 61,1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [ptochoi em grego e humildes nas versões mais modernas como a italiana]. Na História do Israel antigo, após a economia inicial de troca, uma vez consolidada a monarquia, o dinheiro tomou conta da economia e muitos dos agricultores passaram a depender dos homens das cidades. Este empobrecimento não só se tornou um problema social, mas religioso como fruto da quebra da Lei, tornando-se uma injustiça, atacada pelos profetas do século VIII aC. que ameaçavam com o juízo divino os ricos que eram culpados. E é nesta situação histórica, que podemos entender o significado de pobre e necessitado. O pobre que sofre injustiça porque outros se tornaram gananciosos, volta-se indefeso e humilde a Deus em oração, pensando que a ajuda divina em suas necessidades é a base da glória a Deus. Pobres, são os que se voltam a Deus em suas necessidades, pois é um Deus-protetor dos pobres (Sl 72, 2): Com justiça ele [o rei] julgue o seu povo, salve os filhos dos indigentes [anawim e ptochoi] e esmague seus opressores. No salmo 132, 15 diz: De pão fartarei seus pobres [anawim e ptochoi]. A desgraça do exílio levou, temporariamente, ao emprego das palavras pobre e necessitado como termos coletivos para o povo. No judaísmo tardio, tanto a pobreza material como o aspecto da sua espiritualização têm características novas: Todos os grupos religiosos tinham suas formas especiais de obras de caridade. Nas sinagogas havia uma organização para ajuda dos pobres, existindo esmolas públicas semanais. Cada sexta-feira, aqueles que viviam na localidade, recebiam dinheiro suficiente da cesta dos pobres [quppah] para 14 refeições ; os estrangeiros recebiam comida diariamente da comida dos pobres[tamhuy]; esta comida tinha sido coletada antes, de casa em casa, pelos oficiais dos pobres. Na diáspora, as sinagogas frequentemente estabeleciam uma comissão de sete para esse serviço, como fizeram os apóstolos em Atos 6, 1-6. A distribuição das esmolas era considerada particularmente meritória, se feita na cidade santa. A semelhança entre hoje e antigamente é tão grande –escreve J. Jeremias- que há algumas dezenas de anos encontravam-se leprosos, pedindo esmolas nos seus lugares habituais, no caminho de Getsêmani, fora dos muros da cidade. Em Jerusalém, a mendicância concentrava-se em torno do Templo, como vemos em At 3, 1-8. Como temos visto, os setenta traduzem anawim por ptochoi. Portanto, esta palavra perdeu o significado de mendigo para denotar o homem indefeso, que só tem como avaliador Jahweh e que nele depositou sua inteira confiança. A palavra pobre não significava a mesma coisa para um grego e para um judeu. Para o grego era um mendigo; para o judeu era aquele que não possuía terras (Êx 22, 24). Naturalmente, neste último caso, os pobres eram também gentes desprovidas de influência social, frequentemente exploradas e humilhadas. Em grego, temos a palavra Ptochós [mendigo] com necessidade de pedir esmola para subsistir e a palavra Penës, o pobre que não é rico, mas tem necessidade de trabalhar para poder viver. Como temos visto, ao explicar as diversas palavras usadas no hebraico, os pobres podem ocupar o lugar da palavra anawin, que tem um significado contrário ao de rico, com conotações religiosas de confiança em Deus. TO PNEUMATI: que pode ser traduzido em espírito ou de espírito. Evidentemente, o espírito é o espírito humano. Portanto temos: Ou pobres de espírito, que significaria acanhados; ou pobres por espírito, por eleição, pessoas estas que aceitavam a pobreza como natural ou como voluntária.  O texto grego presta-se, pois, a duas interpretações: 1) pobres quanto ao espírito 2) pobres pelo espírito. A primeira pode ter um sentido pejorativo como homem de qualidades diminuídas. Ou um positivo como aqueles desapegados do dinheiro, embora o possuam em abundância, sentido este excluído pelo próprio Jesus em Mt 6, 19-24 e pela condição imposta ao jovem rico. Na tradição judaica, os termos anawim/aniyim designavam os pobres sociológicos, que punham sua esperança em Deus por não achar apoio, nem justiça na sociedade. Jesus recolhe este sentido e convida a escolher a condição de pobres [opção contra o dinheiro e a posição social] entregando-se nas mãos de Deus. O termo “espírito”, na concepção semita, conota sempre força e atividade vital. Neste texto, denota o espírito do homem. Na antropologia do AT o homem possui “espírito” e “coração”. Ambos os termos designam sua interioridade; o primeiro, enquanto dinâmica, sua atividade em ato; o segundo, enquanto estática, os estados interiores ou disposições habituais que orientam e matizam sua atividade. A interioridade do homem passa à atividade enquanto inteligência, decisão e sentimento. Dado o que Jesus propõe, é uma opção pela pobreza, e o ato que a realiza é a decisão da vontade. O sentido da bemaventurança é, portanto “os pobres por decisão”, opondo-se aos “pobres por necessidade”. Transpondo o nome decisão pela forma verbal, tem-se “os que decidem escolher ser pobres”.  A vulgata usa pauperes spiritu do grego ptochoi to pneuma. A tradução da bíblia protestante na sua VA [versão autorizada] é: Bemaventurados, os humildes em espírito. As bíblias católicas conservam a palavra pobres e traduzem pobres de espírito ou em espírito e algumas pobres de coração. Duas traduções fazem uma exegese particular: A versão AL [América latina] os que têm o espírito de pobres e a francesa: ceux qui ont um coeur de pauvre [que têm um coração de pobre]. A bíblia de King James traduz poor in spirit e comenta que ptochós é uma pessoa que não pode se ajudar, ao contrário de penes, que,  sendo pobre, pode se virar, como dizem. E comenta: o primeiro passo para ser abençoado é a admissão da própria inutilidade espiritual. Enquanto Mateus dá uma explicação sobre o significado de Ptochoi [pobres], Lucas nada diz sobre a natureza da pobreza, aludida por Jesus na primeira bemaventurança. Segundo Lucas, é a pobreza material a que abre as portas do Reino. Segundo Mateus, essa pobreza tem um matiz necessário: é a pobreza fomentada no espírito, no desejo, no interior ou pensamento, ou tomada como objetivo na vida, que implica não considerar as riquezas materiais como finalidade da vida. Na realidade, ambos os termos podem ser vistos com uma convergência: a pobreza material é um pré-requisito para a pobreza espiritual, muito mais difícil de se conseguir quando a riqueza é o berço em que fomos aninhados. Uma interpretação moderna é de que os homens só podem ser abençoados por Deus quando diante dEle se comportarem como mendigos às portas de sua misericórdia. Vejamos duas interpretações: 1°) Do ponto de vista católico  e fundamentada em Mateus: a) a primeira Bemaventurança seria a bênção divina para os que escolhem ser pobres, porque no lugar da riqueza, estes terão a Deus por seu único Rei, que, por sua parte, escolhe os válidos e preferidos entre os pobres e oprimidos. No texto de Mateus podemos interpretar pobres no espírito como aqueles que não têm ambições de riqueza, que não se deixam levar pela avareza. b) Finalmente, pobres no espírito pode significar aqueles que carecem de qualidades humanas. Qual delas é a mais correta na interpretação das palavras de Jesus? Segundo a maioria dos autores, Ptochoi traduz o hebraico Anawim que Jesus explicará em Mateus 6, 19-21; 24 em que Jesus rejeita o desejo das riquezas e as antepõe ao serviço devido a Deus, já que não podemos servir a dois senhores. Quando da recusa do jovem em abandonar suas riquezas, Jesus comentará que é difícil para um rico entrar no Reino, pois na realidade ele está dominado pelo senhor contrário ao verdadeiro Senhor: Deus (Mt 19, 16+). E é nesta última situação que as palavras de Lucas adquirem o verdadeiro valor como Bemaventurança. Um último comentário: Pelo que Mateus nos dá a conhecer sobre o sermão da montanha parece que as bemaventuranças foram redigidas sobre a frase tão repetida neste capítulo V: Ouvistes que foi dito aos antigos; eu, porém vos digo. Isto é: nas sinagogas vos foi ensinado; porém, a verdade é outra diferente que eu vos declaro agora. Por isso a melhor tradução, sob o ponto de vista exegético, seria: Ouvistes que vos foi ensinado que os ricos eram benditos de Deus; eu, porém, vos digo que são os mais pobres os escolhidos e os que verdadeiramente são os benditos de Deus, que na terra vão constituir seu Reino. De fato, Paulo dirá aos de Corinto: Não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa… Deus escolheu o que no mundo é vil e desprezado… a fim de que aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. (1 Cor 1, 26-31). A bênção era tão inusitada para a época em que a pobreza era considerava pior que a lepra como castigo divino, que Mateus ou o seu copiador, se sentiu obrigado a introduzir um pequeno parêntese explicativo para restringir a pobreza a limites aceitáveis pelos seus leitores e assim fala dos pobres de coração que hoje chamaríamos pobres sem ambição, e que os evangélicos traduzem por humildes de espírito. Porém, devemos manter o original de Lucas que fala dos simplesmente pobres, indigentes, porque a bênção divina é tanto mais completa quanto mais miserável aparecer a condição humana. Assim se cumpre o dito de Jesus que afirma ter vindo salvar o aparentemente perdido. Como consequência, não devemos desprezar esses mendigos que tratamos de vagabundos, porque eles merecem um lugar de destaque no reino, e nosso amor para com eles só será um espelho do amor de Deus exemplificado nesta bênção. Em termos gerais, podemos considerar que se Lucas é o taquígrafo das palavras de Cristo, Mateus é seu intérprete e catequista. Daí as diferenças. Segundo as palavras de Jesus, citando, em Lucas, Isaías 61, 1: Ele me enviou a anunciar a boa-nova aos pobres [anawim e ptochoi, o latim mansueti,  que traduz o italiano umili e a VA quebrantados] os pobres poderiam ser os aflitos por suas necessidades materiais. De fato, as classes inferiores, escravos e necessitados se beneficiaram do evangelho em forma tal, que Jesus teve que afirmar que dificilmente um rico entraria dentro do esquema do mesmo. Serão, pois os pobres materiais os sujeitos da bemaventurança, embora devam ser excluídos da mesma os que se rebelam contra sua pobreza e não a aceitando, rejeitam os planos de Deus que prefere os deserdados aos ricos e opulentos. 2°) A evangélica de Robert H Mounce; em resumo será: Jesus exclama que não são os ricos e poderosos, mas os pobres e humildes dos quais se podem dizer, na verdade, que são bemaventurados. A apreciação de Jesus das coisas que constituem a vida, como deve ser vivida, ressalta em forte contraste com a sabedoria convencional… Na linguagem hebraica, pobre não era apenas a pessoa em desvantagem econômica, mas todos quantos, em sua necessidade, apelam a Deus em busca de ajuda (Sl 69, 32 e Is 81, 11). Estes são os anawim, “os humildes pobres que confiam na ajuda de Deus”. Pobre de espírito significa depender totalmente de Deus para ajuda, segundo o Salmo 34, 6: Clamou este pobre e o Senhor o ouviu; salvou-o de todas as suas angústias.

REINO DOS CÉUS: A promessa mais explícita, como esperança de cada bemaventurança, é a entrada no Reino, que Mateus chama dos céus, especialmente explicitada na primeira e na última, oitava e final, da lista por ele apresentada. Mateus é praticamente o único evangelista que chama reino dos céus [15 vezes] enquanto os outros dois denominam Reino do (sic) Deus. Em que consiste esse Reino que parece ser a base da pregação de Jesus? Nas suas parábolas Jesus o descreve como um banquete nupcial (Mt 22,1+), como um precioso tesouro (Mt 13, 44). Mas, em que consiste? No AT só encontramos uma vez e em grego a frase Reino de Deus [basiléia theou] no livro da Sabedoria que não é admitido como canônico pelos evangélicos: Ela [a sabedoria] guiou por sendas retas o justo [Jacó], que fugia da ira de seu irmão [Esaú], lhe mostrou o reino de Deus e deu-lhe o conhecimento  das coisas santas [significando o governo do mundo por meio de seus anjos e em particular a bondade de Deus para com o patriarca] (Sb 10, 10).  Por Daniel, especialmente no capítulo 7, sabemos que os quatro reinos procedentes do mar [do abismo, símbolo do mal] foram substituídos pelo reino que procedia das nuvens do céu [de Deus]. Era o Reino dos céus segundo Mateus ou Reino de Deus do qual Jesus se diz representante, assumindo a figura de Filho do Homem (Dn 7, 13). Das palavras de Jesus, dificilmente saberemos a resposta positiva; sabemos quais são as pessoas que entram facilmente [pobres, crianças] (Mt 5,3 e 19, 14) e quais as que têm dificuldade [ricos, autoridades religiosas] (Mt 19, 23 e 21, 31) . Sabemos que o Reino exige uma honestidade própria [mais estrita que a dos escribas e fariseus] (Mt 5, 20). Que para um escriba era necessária uma espécie de renovação como novo nascimento, que é da água e do espírito (Jo 3,5). Um reino que implica uma nova relação com Deus, não em forma aparente e externa, mas interior (Lc 17, 21). Um reino que consiste essencialmente em que a vontade divina seja a norma indispensável da vida (Mt 6, 10). Um reino que se mostrará patente após a morte de Cristo porque muitos dos ouvintes de Jesus estarão presentes ao seu início visível (Lc 9, 27) para o qual haverá sinais prévios (Lc 21, 31). Reino que terá Pedro como supremo supervisor (Mt 16, 19). Os apóstolos, seguindo esta linha de Jesus, nos dizem que o Reino consiste não em palavras, mas em poder (1 Cor 4, 20). Não em comilanças e bebedeiras, mas em honestidade, paz e gozo no Espírito Santo (Rm 14,17); que nem luxuriosos, nem idólatras, nem adúlteros, nem depravados, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem injuriosos herdarão o mesmo (1 Cor 6, 9-10); coisa que repetirá Paulo em Gl 5, 21. Trabalham pelo reino os apóstolos e com eles os que os ajudam (Cl 4, 11). Deste reino que podemos chamar na sua face terrena, chegamos ao definitivo ao eschaton do qual temos a palavra de Jesus que beberá do fruto da vide quando chegar o Reino de Deus (Lc 22, 18). Este é o reino que Jesus admite como próprio e do qual como gozo definitivo promete participar aos que nele confiam (Lc 23, 42-43). Podemos, pois, responder à pergunta qual é esse reino que a eles é prometido? Sem dúvida, que eles serão a maior e melhor parte desse novo povo de Deus que constitui o Reino por Cristo fundado e do qual ele era Senhor. Não é sem uma ideia proposta e preconcebida, que Mateus escolhe no monte onde pronuncia a novidade do reino, os doze que deveriam ser os novos pais das novas tribos do novo Israel, não como genitores materiais, mas como pais espirituais, dos quais todos nós recebemos a nova vida no Espírito.

TÊM A DEUS POR REI: Esta é a tradução preferida pelos modernos intérpretes. Assim, o grego Basileia não significa aqui reino, mas ‘reinado’. “Seu é o reinado de Deus” quer dizer que esse reinado se exerce sobre eles, que somente sobre eles age Deus como rei. A pobreza a que Jesus convida é a renúncia a acumular e reter bens, a considerar algo como exclusivamente próprio; esses pobres estarão sempre dispostos a compartilhar o que têm. A opção final que Jesus propõe, realiza o prescrito pelo primeiro mandamento de Moisés: Não terás outros deuses diante de mim (Dt 5, 7). A idolatria concretizava-se na posse da riqueza (Mt 6, 24); por isso o enunciado desta bemaventurança é porque estes  e não outros, têm a Deus por Rei. A opção proposta pela primeira bemaventurança leva à sua perfeição a metanoia ou emenda, pois quem escolhe ser pobre, renunciando a monopolizar riquezas, e com isso, à posição social e ao domínio, exclui de sua vida a possibilidade de injustiça. É a visão da teologia da libertação.

CONCLUSÃO: As palavras de Jesus são um convite a refletir de forma nova sobre fatos que consideramos desafortunados, mas que o evangelho torna afortunados. Entre eles a pobreza, considerada como um castigo divino, mas que agora devemos ver como uma circunstância providencial, uma verdadeira bênção do céu, porque facilitará a entrada no reino dos que a sofrem.

OS QUE CHORAM: Ditosos os que pranteiam [penthountes]. Eles serão consolados (4). Beati qui lugent quoniam ipsi consolabuntur. O latim e a maioria das traduções modernas modificam a ordem desta bemaventurança colocando-a em terceiro lugar. Mas que significa o verbo grego penthountes [<3996>=lugent]? Ele significa propriamente lamentar os mortos, ou seja, prantear, derramar lágrimas por alguém, estar de luto. Precisamente a palavra luto deriva do latim lugere de onde luctus. O grego pentheö [lugere latino] sai 4 vezes nos evangelhos: Duas em Mateus e uma em Marcos e Lucas. É traduzido por lugere, enquanto o pranto ou choro como o de um menino é klaiö. Pedro chorou [eklausen, ploravit] amargamente após suas negações (Mt 26, 75). As carpideiras, ou pranteadeiras, choravam [klaiontas, flentes] na casa de Jairo por causa da morte da filha (Mc 5, 38). Lucas, neste lugar paralelo, usa klaiö em vez de pentheö de Mateus (Lc 5, 21). Sobre pentheö temos  Mt 9, 15 que diz que os amigos do noivo não podem estar de luto no dia da boda do mesmo. Marcos diz que a Madalena anunciou a Ressurreição aos que estavam lamentando [penthosin, lugentibis] e chorando [klaiousin, flentibus]. Os mesmos dois verbos sucessivos usa Lucas em 6, 25.  Também o grego admite como tradução os que se lamentam ou estão afligidos, como aceitam traduções modernas. Poderíamos traduzir por os que sofrem. A razão que motiva esta bemaventurança é a de que encontrarão consolação a sua dor. Logicamente o pranto não é devido a uma dor física, mas a uma perda de uma pessoa amada ou de bens estimados, necessários para a vida: um infortúnio, uma desgraça. Alguns traduzem: os que sabem o que significa a tristeza. É o próprio Deus que será seu consolo, segundo Is 61, 2: A consolar todos os que choram. Lucas, como a vulgata de Mateus, traz esta bemaventurança em terceiro lugar e a palavra usada é Klaiontes [o latim flentes, derramando lágrimas] que como sempre traduz muito literalmente o grego. O texto não diz as razões que motivaram as lágrimas. Mas no texto de Isaías, citado por Jesus quando do início de sua missão, encontramos: que foi enviado a consolar [parakalesai] os que estão tristes [penthountas]. Usa, pois, Mateus os dois verbos que a Setenta, a bíblia-guia dos primitivos cristãos, emprega. Poderíamos afirmar que o consolador é o próprio Jesus na sua função de Messias Salvador, ou Cristo. Ele toma as funções divinas atribuídas a Deus na passiva do verbo correspondente. Recorda a passagem: Vinde a mim todos vós que estais cansados… E eu vos aliviarei (Mt 11, 28). OS MANSOS: Ditosos os mansos [praeis <4239>] porque eles herdarão a terra (5). Beati mites quoniam ipsi possidebunt terram. PRAEYS: é palavra própria dos mansos, benignos, não violentos, o mites ou mansuetus latino, que aceitam sua fragilidade e sua situação social sem revolta, mas com a confiança em Deus que será o último fautor da História. É uma imagem tomada do Salmo 37, 11: Pois os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância da paz. É notável como as palavras prays e klëronomeo são também as usadas pelo salmista. O sentido claro é que, definitivamente, o Reino é um reino de paz e que os não violentos são os herdeiros desse reino que substitui o antigo Israel, a verdadeira terra bíblica. Por isso Jesus afirma que os contrários do Reino são os violentos que estão a destruí-lo (Mt 11, 12). No tempo de Jesus, os Zelotas pensavam que fosse a terra [nome dado à Palestina pelos israelitas] matéria de conquista e guerra. Jesus, porém, toma a palavra do profeta no salmo 37, 8-9 para indicar que não é a violência que conquista a terra. Deixa a violência, abandona o furor, não te inflames: só farias o mal; porque os maus vão ser extirpados e os que aguardam o Senhor possuirão a terra. De Si mesmo dirá que devemos aprender porque é manso [praos] e humilde [tapeinos] de coração (Mt 11, 29). De novo temos a presença de Jesus nesta bemaventurança, agora como modelo humano e não como Deus que cumpre uma promessa. Esta bemaventurança é uma antecipação do número 7: os fazedores da paz. Só que, neste último caso, a situação é ativa e na nossa 3a bemaventurança o sujeito é passivo: pacífico. Terra [gë] era o termo com o qual declaravam os judeus a porção geográfica que Jahweh tinha dado a eles por herança (Dt 1, 36 e Nm 26, 53) que Dt 9, 29 identifica com o povo de Israel. De modo que podemos afirmar que unicamente os pacíficos ocuparão o espaço dos que pertencem ao Reino.

FOME E SEDE DE JUSTIÇA: Ditosos os famintos e sedentos de justiça, porque serão saciados (6).Beati qui esuriunt et sitiunt iustitiam quoniam ipsi saturabuntur. Esta bemaventurança está refletida, mas de modo material, na segunda de Lucas: Os famintos [peinontes] agora, pois serão saciados. Esta oposição à materialidade de Lucas nos descobre uma interpretação espiritualista de Mateus das palavras de Jesus. Ao mesmo tempo, Mateus conecta com o AT segundo sua proposição de que Jesus veio não para revogar a Lei, mas para completá-la (Mt 5, 17). São duas as passagens de Isaías que falam sobre sede e fome: 55, 1 e 65, 13. Especialmente nesta última Jahweh se refere aos seus servos que terão comida e bebida em abundância. Mas que significa a justiça que é a fonte ou motivo de sede e fome? Em grego dikaiosyne significa: 1) Justiça divina que premia o bem e castiga o mal. 2) Justiça humana equivalente a santidade moral. 3) Fidelidade divina que cumpre sempre suas promessas que é sinônimo de salvação. 4) Justiça distributiva humana que respeita o direito e defende em nome de Deus os mais necessitados. Qual delas é a justiça de nosso versículo? Provavelmente, a terceira. A justiça bíblica é sinônimo de santidade ou correção de vida em conformidade com a vontade divina. Não é a justiça comutativa, mas a essencial da qual nos fala Paulo e que em certo modo se identifica com salvação e santidade. O lugar paralelo é Mt 6, 33 no qual a justiça está unida ao Reino. Justos eram aqueles cujo sangue foi derramado desde Abel até o último profeta (Mt 23, 33). Uma salvação que inclui também o primeiro significado. Era o desejo manifestado por Simeão: Meus olhos viram a tua salvação (Lc 2, 30), porque essa salvação foi comparada a um banquete no qual todos podiam entrar, ricos e pobres, sãos e aleijados, bons e maus. A entrada é livre, pois a justiça divina se transformou em misericórdia. Unicamente os convivas deveriam ter uma veste limpa: não buscar a própria exaltação como os fariseus, mas revestidos de Cristo (Rm 13, 14) de sentimentos de compaixão, benevolência, humildade, doçura, paciência (Cl 3, 12).

OS MISERICORDIOSOS: Ditosos os misericordiosos [eleëmones<1655>=misericordes] porque serão tratados com misericórdia (7). Beati misericordes quia ipsi misericordiam consequentur. Eleëmones é o termo grego significando que tem compaixão. Eles alcançarão essa mesma compaixão que têm com os homens, mas da parte de Deus. Eleëmones só sai esta vez nos evangelhos. A palavra que é usada da mesma raiz é eleeö <1653>, [ miserere, ter compaixão]. É o verbo usado pelos pedintes de Jesus para uma cura, como os cegos, a mulher cananeia, o pai do filho epiléptico, etc. É o verbo usado por Jesus na parábola do servo devedor, a palavra que usa o rico para pedir de Abraão uma gota d’água. É a compaixão para com aquele que está necessitado ou pede perdão de uma dívida impagável. O próprio Lucas traduz a perfeição cristã por misericórdia: sede misericordiosos como vosso Pai (Lc 6, 36). A palavra usada por Lucas oiktirmön <3629> [misericors, que tem pena de] é mais próxima de compaixão que de misericórdia. Precisamente a eleëmosunë <1654>=eleemosyna latina [esmola portuguesa] provém dessa raiz grega que é eleëmosunë. Daí o grande motivo para dar esmolas entre os cristãos.

LIMPOS DE CORAÇÃO: Ditosos os limpos no coração porque eles verão a Deus (8). Beati mundo corde quoniam ipsi Deum videbunt.  Katharoi<2513> [mundi,limpos]. Na verdade, o latim com mundo corde diria: ditosos (aqueles) com coração limpo. O coração limpo, por outros traduzido por os puros de coração nada tem a ver com a castidade, mas visa os de intenções limpas, os não malvados, nem torcidos em seu íntimo entre pensamento, palavra e ação por terem o pensamento diverso de sua palavra mentirosa. Ou seja, os não hipócritas, os que só pensam em fazer o bem, sem outras intenções espúrias ou indignas por segundos interesses.  Limpos de coração é tomado do Salmo 24, 4: Quem é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente.  O salmo 15, 2 fala de quem vive com integridade e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade, o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo nem lança injúria contra seu vizinho. Esta é a limpeza do coração, mente, ou intenção, diríamos hoje. O prêmio desta vez é que verão [opsontai] a Deus. Quando? Evidentemente na figura de Jesus. Como exemplo: os fariseus viram o demônio expulsando seu colega, quando a gente simples via o dedo de Deus (Mt 12, 22-24).  Por outro lado, eles, os limpos de coração, são os que buscam a verdade e a encontrão e por isso verão a Deus em suas vidas porque Deus é a única verdade. A Carta aos Hebreus afirma que sem a santificação é impossível ver a Deus (Hb 12, 14). Não se trata unicamente do além, mas do tempo presente em que a premissa básica para encontrar o verdadeiro Deus é a pureza de intenção. Precisamente Jesus dirá que é no coração onde se prepara e cozinha a maldade (Mt 16, 19). A presença de Deus era o Templo, onde Deus estava assentado sobre os querubins da arca (1 Sm 4, 4). Agora o verdadeiro templo é o crente (1 Cor 3, 16), e só se Deus é adorado em verdade (Jo 4, 24) é que estará ali como estava sobre os querubins no antigo Templo (1 Sm 4, 4). E nesse templo interior Ele se manifestará.

OS QUE TRABALHAM PELA PAZ: Ditosos os que trabalham pela paz [eirënopoioi <1518>] porque eles serão chamados filhos de Deus (9). Beati pacifici quoniam filii Dei vocabuntur. Os  eirenopoioi grego, [pacifici latino], tem como tradução direta os que fabricam a paz, que infelizmente o latim traduz impropriamente por pacifici e que a maioria das bíblias adotou como pacífico; mas pacífico corresponde a 3a bemaventurança com o nome de praeis. Uma coisa é ser pacífico ou afável, e outra é trabalhar pela paz. Um comentarista diz que um trabalhador pela paz é um homem que experimentou a paz de Deus e pretende levar a mesma aos que com ele convivem. De fato, esta é a única vez que é empregada no NT. Serão chamados filhos, está no lugar de serão verdadeiros filhos de Deus. Precisamente, segundo Isaías, o filho que nos foi dado, terá como nome Emanuel [Deus conosco] será chamado Príncipe da paz (9,5). Esse Jesus que como rei da paz entra em Jerusalém montado num jumento e não num cavalo, montaria de guerra, para anunciar a paz às nações (Zc 9, 9-10). Os pacificadores são os verdadeiros continuadores do labor feito por Jesus, levam a paz entre os homens e a paz para com Deus. Trabalham como Jesus trabalhou, com o mesmo objetivo e o mesmo motivo: reconciliação e amor.

OS PERSEGUIDOS(10): Ditosos os perseguidos [Dediögmenoi<1377>]  por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (10).  Beati qui persecutionem patiuntur propter iustitiam quoniam ipsorum est regnum caelorum. Dediögmenoi [pesecutionem patiuntur, perseguidos] é o particípio passado passivo do verbo diökö <1377> buscar ou acossar alguém de modo a ter que fugir por causa do acossamento.  Esta deveria ser a oitava e última bemaventurança, mas nos encontramos com um makarismo a mais, o nono. A justiça é como temos explicado no parágrafo de sede e fome de justiça, a correção de vida que se ajusta aos planos divinos, e que no AT consistia no cumprimento exato dos preceitos da Lei, como era o caso de José, esposo de Maria, que devia por lei denunciar Maria publicamente, mas pensava em repudiá-la ao modo antigo, ou seja, secretamente (Mt 1, 19). Jesus claramente abona a teoria de que a moral entra dentro dos planos divinos.

A JUSTIÇA DO REINO: Ditosos sois quando vos  reprovarem e perseguirem e dizendo palavra má contra vós mentirem por minha causa (11). Beati estis cum maledixerint vobis et persecuti vos fuerint et dixerint omne malum adversum vos mentientes propter me. Parece que este é o nono macarismo, porém os autores afirmam que ele é a explicação do oitavo, indicando quais são a justiça e a perseguição dos justos. De fato, neste último macarismo, Jesus passa da terceira pessoa, em termos gerais, para a segunda pessoa dirigindo-se aos seus ouvintes: vós. A justiça é a que está representada na pessoa de Jesus [por causa de mim]. A perseguição ou os perseguidos, do verbo dioko, são os buscados ou acossados pelos inimigos de Jesus, porque atrás deles está o Mestre, como Ele disse a Saulo, perseguidor dos seus discípulos (At 9, 4): Saulo, Saulo, por que me persegues? O grego usa neste versículo o mesmo verbo dioko. Dentro da explicação, vemos que a perseguição implica a injúria, o acossamento e a mentira. Todos eles, os perseguidos, pertencerão ao Reino e são os verdadeiros membros do mesmo, o constituem. A última bemaventurança promete a mesma recompensa  que a primeira: o Reino.

A RECOMPENSA: Ficai alegres e exultai porque vossa recompensa (é) grande nos céus. Assim também perseguiram os profetas, os anteriores vossos (12). Gaudete et exultate quoniam merces vestra copiosa est in caelis sic enim persecuti sunt prophetas qui fuerunt ante vos. A recompensa, ou melhor, o salário misthós  <3408>  é uma remuneração que só Deus pode dar e que ninguém poderá diminuir ou anular, como é o tesouro que as riquezas bem repartidas adquirem para os que delas se desprendem. Assim podeis comparar-vos com os profetas que me precederam. A ação profética é precisamente o testemunho de suas vidas, aparentemente desperdiçadas inutilmente, maltratadas e vilipendiadas pelos que tinham a obrigação de ouvir e respeitar seus testemunhos. É uma profecia do que aconteceria após a morte e ressurreição de Jesus, do qual eles se tornariam testemunhas e profetas. Em todas as bemaventuranças, vemos alguma correlação com o AT. Jesus interpreta, pois, o AT de modo a encontrar o verdadeiro sentido do mesmo. Assim são válidas as suas palavras em Mt 5, 17: Não penseis que vim revogar a lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.

PISTAS:

1) Jesus [ou a Igreja primitiva] coloca as bemaventuranças no início da sua atuação pública, imediatamente após a escolha dos doze. Pelos detalhes de Mateus, elas ocupam o lugar dos mandamentos recebidos por Moisés no Sinai, ou seja, Jesus prega uma Boa Nova em oposição a Moisés que proclama uma lei de servidão.

2) É um evangelho positivo no qual Deus quer mostrar a sua face de bondade e salvação. E são precisamente esses homens passivos da ação divina que o mundo pensaria serem os de pior sorte, os que são beneficiados [makarioi, ditosos] pela riqueza e misericórdia de Deus.

3) Não se trata de uma moral nova a ser cumprida –à parte o capítulo V- mas de umas circunstâncias nas quais Deus quer se mostrar magnânimo e divinamente generoso. Por isso, as Bemaventuranças estão sendo proclamadas a todos os que de alguma maneira encontram em Jesus o seu Mestre e Salvador.

4) As bemaventuranças resumem o espírito evangélico, ou apresentam um modo novo de olhar para a realidade crua, dos discípulos de Jesus? Antes parece um juízo feito pela sabedoria divina dos momentos e das pessoas que nós consideramos desafortunados. Nessas situações tão indesejáveis, a esperança provém do olhar para a verdadeira essência das coisas: ver a realidade como Deus a vê.

5) As primeiras constituem a bênção de circunstâncias que podemos chamar de infortúnio. Estar nas mesmas não é um azar, mas uma sorte do ponto de vista da providência divina. As segundas implicam uma recompensa para determinadas virtudes que são essencialmente cristãs. Todas constituem a Boa Nova para necessitados ou almas de boa vontade. A Boa Vontade divina agora inclui a boa vontade humana.


EXCURSUS: NORMAS DA INTERPRETAÇÃO EVANGÉLICA

- A interpretação deve ser fácil, tirada do que é o evangelho: boa nova.

- Os evangelhos são uma condescendência, um beneplácito, uma gratuidade, um amor misericordioso de Deus para com os homens. Presença amorosa e gratuita de Deus na vida humana.
- Jesus é a face do Deus misericordioso que busca o pecador, que o acolhe e que não se importa com a moralidade ou com a ética humana, mas quer mostrar sua condescendência e beneplácito, como os anjos cantavam e os pastores ouviram no dia de natal: é o Deus da eudokias, dos homens a quem ele quer bem e quer salvar, porque os ama.

Interpretação errada do evangelho:

- Um chamado à ética e à moral em que se pede ao homem mais que uma predisposição, uma série de qualidades para poder ser amado por Deus.
- Só os bons se salvam. Como se Deus não pudesse salvar a quem quiser (Fará destas pedras filhos de Abraão).

Consequências:

- O evangelho é um apelo para que o homem descubra a face misericordiosa de Deus [=Cristo] e se entregue de um modo confiante e total nos braços do Pai como filho que é amado.
- O olhar com a lente da ética, transforma o homem num escravo ou jornaleiro:aquele age pelo temor, este pelo prêmio.
- O olhar com a lente da misericórdia, transforma o homem num filho que atua pelo amor.
- O pai ama o filho independentemente deste se mostrar bom ou mau. Só porque ele é seu filho e deve amá-lo e cuidar dele.
- Só através desta ótica ou lente é que encontraremos nos evangelhos a mensagem do Pai e com ela a alegria da boa nova e a esperança de um feliz encontro definitivo. Porque sabemos que estamos na mira de um Pai que nos ama de modo infinito por cima de qualquer fragilidade humana.


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Oh! meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno,
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as que mais precisarem!

Graças e louvores se dê a todo momento:
ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!

Mensagem:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará!"
"O bem mais precioso que temos é o dia de hoje! Este é o dia que nos fez o Senhor Deus!  Regozijemo-nos e alegremo-nos nele!".

( Salmos )

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